terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Querendo crescer logo

Começo a achar que a ideia de colocar dez películas concorrendo ao Oscar de melhor filme não foi das mais acertadas. Nenhum trabalho que estreou neste ano até agora, por exemplo, conseguiu superar a tríade “Distrito 9”, “Bastardos Inglórios” e “Guerra ao Terror”, nos cinemas desde o ano passado. Bom, dos dez concorrentes ainda faltam estrear “Um homem sério”, dos irmãos Coen, e “Um sonho possível”, o tão falado filme com a Sandra Bullock. Os dois ainda podem se igualar aos três já citados, formando um quinteto que tenha um mínimo de respeito. Os demais, porém, - “Avatar”, “Preciosa”, “Amor sem escalas” e “Up – Altas Aventuras” – não podem ser colocados no mesmo nível.

Assim como “Educação”. O filme da dinamarquesa Lone Scherfig com roteiro do escritor Nicky Hornby é deveras simpático, tem uma jovem atriz, Carey Mulligan, 24 anos, com uma boa atuação, além de personagens falando aquele sotaque britânico, o melhor do mundo, e que junto com as tomadas de Londres e de Paris só me trazem aquela saudade e a vontade de voltar para lá.

Contudo, convenhamos, é um trabalho bonitinho, mas que não justifica as indicações para ele a não ser pela falta de opções, o que me parece ter acontecido dada a safra de filmes que vem estreando por aqui. Mesmo a atuação de Carey não tem a qualidade de uma Meryl Streep em “Julie & Julia”, apenas para ficar nos três dos cinco trabalhos concorrentes que já vi.

“Educação” conta a história de Jenny, uma estudante do segundo grau que vive a estressante rotina de se preparar para os exames para tentar entrar na Universidade de Oxford. Estamos nos anos 60, Jenny é de uma família conservadora, cujos pais Jack (Alfred Molina) e Marjorie (Cara Seymour) querem que a filha estude e por isso a moldam para ser a aluninha perfeita. Na cabeça dos pais, seu futuro é invariavelmente se tornar uma professora como Miss Stubbs (Olívia Williams). Um futuro que Jenny, na sua ebulição adolescente, vê como algo medíocre.

Além disso, ela não vê muito sentido na escola, cheia de sacrifícios e com um currículo enfadonho. Quer do alto dos seus 16 anos crescer logo para fazer somente o que quer. Entenda-se isso como ler Camus e outros dos seus autores favoritos, estudar francês e visitar o país de De Gaulle, que ela tanto admira.

Num belo dia, o destino resolve lhe dar essa chance para acelerar o tempo. É quando ela conhece David (Peter Sarsgaard, numa bela atuação que merece maior atenção), homem bem mais velho, que sabe das coisas, conhece a vida, mas tem um jeitão misterioso com negócios ainda mais misteriosos (e que não serão muito bem esclarecidos na película).

Uns sorrisos, umas cantadas baratas e meia dúzia de jantares e clubes de jazz e Jenny já está enamorada e tendo a vida excitante que sempre sonhou. E tudo sem ter que se preocupar com as famigeradas traduções de latim.

Jenny está sendo educada, portanto, pela escola da vida. Algo bem mais interessante que a pilha de livros sem graça e a rigidez da educação tradicional de sua instituição de ensino. Ela quer entender de arte? Aparece em leilões de peças raras e visita os locais apropriados. Ouvir as melhores músicas? Estão aí os clubes sofisticados com tudo o que a chanson française pode lhe oferecer. Muito melhor do que a boring coletânia que sua escola oferece.

O que ela não sabia é que David é um homem maduro que tenta insistentemente se repetir numa vida com a liberdade e irresponsabilidade da juventude que ele não tem mais, vivendo, em ciclos, mentiras que uma hora se voltam contra ele. E quando este ciclo se encerra para Jenny, logo ela que fora tão longe largando a escola para viver um noivado quase casamento de araque, a jovem que perdera tudo descobre que como diz aquela velha máxima, "não existe almoço grátis".

Assim, Jenny precisa engolir a seco sua arrogância e com o orgulho ferido e muita humildade, buscar ajuda para recomeçar. É hora de parar de brincar de ser adulta e deixar que a vida siga o seu destino natural. Começando por Oxford.


Indicações ao Oscar: Melhor filme, melhor atriz para Carey Mulligan e melhor roteiro adaptado para Nick Hornby

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Lamúria em excesso

Devo confessar que gosto daqueles dramas americanos com personagens sofrendo e olhando para o nada, dilemas existenciais franceses e alemães chegando ao limite da loucura, mas “Preciosa – Uma história de esperança” é demais até para mim. O segundo trabalho do diretor Lee Daniels, cuja estréia foi com “Matadores de Aluguel” (2005), mostra basicamente uma adolescente, Clarice Precious (vivida por Gabourey Sidibe), negra, semi-analfabeta, portadora do vírus da Aids, que vive em uma família desestruturada, foi estuprada pelo padrasto e por causa disso teve dois filhos, sendo um com síndrome de down, tentando se reerguer de alguma forma de toda essa situação difícil.

Baseado no livro “Push”, da escritora Sapphire, “Preciosa” concorre a seis Oscar, mas aparentemente não é favorito em nenhum deles. Apesar das elogiadas atuações de Gabourey e da comediante Mo’Nique, que faz a mãe de Precious, elas seriam aparentemente zebras nessa disputa. Principalmente Sidibe, que concorre com a favorita Sandra Bullock (nunca pensei que um dia leria ou escreveria isso), cujo filme “Um sonho possível” ainda não estreou no Brasil.

Produzido pela apresentadora Oprah Winfrey e com cantores pop fazendo participações de uma maneira como nunca imaginávamos que os veríamos – Mariah Carey larga toda a sua, bem, digamos, “sensualidade”, para viver uma assistente social comportadinha e de cara fechada e Lenny Kravitz toda a sua marra de rock star poser para viver um enfermeiro – “Preciosa”, porém, não é tudo aquilo que dizem que é.

O filme, contudo, tem todo o perfilzão de Oscar pelo tema abordado e porque a Academia gosta de um sofrimento ou uma dedicação extrema. Basta lembrar “Crash” (2004), que era um (bom) rio de lágrimas e venceu em 2006, ou a entrega de Nicole Kidman que por duas horas abriu mão de sua beleza para viver a escritora Virgínia Wolf no belíssimo filme “As Horas” (2002) e foi premiada com uma estatueta em 2003. Estes são apenas alguns dos exemplos que me vem a mente. Por outro lado, “Preciosa” é um filme comum que causa entre algumas reações o extremo incômodo com o tamanho sofrimento de sua protagonista ou aquela sensação de enfado. Pessoalmente, achei o filme uma verdadeira chatice.

O roteiro de Geoffrey Fletcher é no máximo ok e a direção de Daniels não tem nada que justifique uma indicação ao Oscar. E mesmo a tão propalada atuação de suas protagonistas não é muito diferente do que já vimos por aí em outros filmes. Mo’Nique, por exemplo, poderia entrar naquela “cota de sacrifício” que listei acima por ser uma comediante que se desprende de sua veia cômica para viver uma violenta e atormentada mulher que maltrata com requintes de crueldade a sua filha. Mas é pouco. Muito pouco para verdadeiramente competir, por exemplo, com Vera Farmiga, que brilha com mais intensidade em “Amor sem escalas”.

Por outro lado, ela até poderia ganhar, pois não há uma grande favorita no Oscar de atriz coadjuvante. Concorrem ainda Penélope Cruz, por “Nine”, Anna Kendrick, também por “Amor sem escalas”, e Maggie Gyllenhal, por “Coração Louco”, ainda inédito em Pindorama.

Fato é que “Preciosa” não me empolgou nem um pouco. É um filme comum sem muitas interpretações inspiradas. Mas depois de “Quem quer ser um milionário?” no ano passado, não cravo nada na disputa do dia 7 de março em Hollywood.

Indicações ao Oscar: Melhor filme, melhor diretor para Lee Daniels, melhor atriz para Gabourey Sidibe, melhor atriz coadjuvante para Mo’Nique, melhor roteiro adaptado para Geoffrey Fletcher e melhor edição.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Um time e um campeonato históricos

Corria o ano de 1994 e Nelson Mandela acabara de se tornar presidente de uma nova e democrática África do Sul apenas quatro anos depois de deixar Robben Island, prisão em que ele viveu durante 27 anos. O apartheid não mais existia no papel, mas a África do Sul ainda vivia sérios problemas de racismo com a desconfiança dos brancos e o desejo de vingança de muitos negros, além de focos de violência. Tudo isso num país com sérios problemas econômicos e a população sem ter suas necessidades básicas atendidas.

Neste cenário de pura pólvora, Mandela (vivido magistralmente por Morgan Freeman) resolve dar um passo absolutamente arriscado: dar todo o apoio aos Springboks, o time nacional de rugby, emblema do apartheid, na Copa do Mundo que seria disputada no ano seguinte na África do Sul.

Novo trabalho do diretor Clint Eastwood, “Invictus”, baseado no livro “Conquistando o Inimigo” do jornalista John Carlin, conta a história de como Mandela usou o esporte para tentar unir um país dentro de uma nação multirracial, a “rainbow nation” sonhada por ele.

Ao perceber que em um jogo contra a Inglaterra, os negros torciam para os ingleses enquanto os brancos torciam para a equipe nacional, Mandela teve a ideia de dar o apoio à equipe sul-africana comandada pelo capitão François Pienaar (Matt Damon, também irrepreensível), que contava apenas com um jogador negro, Chester Williams, para dar o exemplo que na nova África do Sul não haveria mais espaço para divisões. Os Springboks, portanto, acabaram se tornando um instrumento político. Não seria a primeira vez que isso aconteceu no esporte, mas talvez fosse a primeira por uma boa causa.

Aquele desacreditado time acaba servindo com perfeição à causa e contra todos os prognósticos que davam conta que a equipe só chegaria na segunda fase acabou levantando o torneio dando o pontapé inicial na tentativa da sociedade um pouco menos dividida desejada por Mandela.

Mas outra coisa também torna “Invictus” interessante. Se o foco principal é a jogada arriscada de Mandela, o trabalho de Eastwood também é a história de um time que não era nada e se tornou uma potência no esporte. Por causa daquela equipe, hoje o rugby é um dos principais esportes sul-africanos. Campeões daquela edição da Copa do Mundo de maneira invicta e enfrentando entre outros grandes times a então campeã Austrália e os temidos All Blacks da Nova Zelândia, a equipe ainda voltaria a repetir a dose em 2003.

Os Springboks são hoje uma seleção de primeira linha. Tudo graças àquele torneio que teve muito de componente político e começou a transformar o esporte na África do Sul. Quem dera Parreira pudesse ter uma injeção de ânimo semelhante para a combalida seleção de futebol que, assim como aquela equipe de rugby, é apontada como futura fracassada e a primeira da história que será eliminada na primeira fase de uma Copa do Mundo. É claro que os Bafana Bafana não serão campeões, mas bem que o trabalho de Eastwood podia inspirá-los a pelo menos chegaram nas oitavas de final.

Como filme, “Invictus” não é o melhor trabalho do diretor. Numa comparação com suas películas mais recentes, é sem dúvida superior a “A Troca” (2008), mas está bem abaixo de “Gran Torino” (2008). Ainda assim, no entanto, um trabalho de Clint Eastwood é melhor do que muita coisa que vemos no cinema.

Por que vale a pena então assistir ao filme? Em primeiro lugar pelas atuações de Freeman e Damon, indicados ao Oscar de melhor ator e ator coadjuvante. Em segundo lugar, porque apesar de sua direção mais conservadora - você não vê nada muito diferente do que em outros filmes que retratam casos de superação pelo esporte como “Um domingo qualquer” (1999), de Oliver Stone, ou “Duelo de Titãs” (2000), de Boaz Yakin, estrelado por Denzel Washington – o filme é realmente emocionante.

E ainda há o componente de que aquilo tudo verdadeiramente aconteceu. Claro que após a decisão, e isso não é mostrado no filme, os jogadores da Nova Zelândia reclamaram de que teriam ingerido comida estragada, o que os teria deixado debilitados para a final, mas ainda que isso tenha ocorrido, não desmerece a virada da África do Sul, a dramaticidade de ter que passar por cada decisão desde a estreia contra a Austrália, passando por Romênia, Canadá, Samoa e França até a final contra os All Blacks no Ellis Park. Tudo com aquele componente político ao fundo. Nesse ponto, portanto, o filme ganha paralelo com outro trabalho de Washington, “Hurricane” (1999), além de “Ali” (2001), de Michael Mann.

Em resumo, “Invictus” não é o melhor de Eastwood, mas ainda é um cinema de primeira linha que merecia não apenas as indicações que lhe foram dadas, mas também uma por melhor filme. Principalmente conhecendo alguns dos candidatos que estão entre os 10 da Academia.

Indicações ao Oscar: melhor ator para Morgan Freeman e melhor ator coadjuvante para Matt Damon.

Abaixo os melhores momentos da decisão da Copa do Mundo de Rugby de 1995 e a festa dos sul-africanos:


terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Um Juno para adultos

“Amor sem escalas”, horroroso título em português para “Up in the air”, é um “Juno” (2007) para adultos. No lugar dos dilemas da jovem Juno MacGuff (Ellen Page), que engravida do namorado sem estar preparada para isso e resolve entregar o bebê para um casal que procurava uma criança para adotar, entra a história de Ryan Bingham (George Clooney vivendo algo como George Clooney), homem de meia idade rico e solteiro que passa a vida viajando pela sua empresa para demitir pessoas pelos Estados Unidos e que nunca teve qualquer relação minimamente duradoura.

Claro que é um “Juno” um pouco mais turbinado. Se o trabalho anterior do diretor Jason Reitman custou US$ 6,5 milhões (e arrecadou US$ 200 milhões nos cinemas), “Amor sem escalas” chegou às salas depois de um investimento de US$ 25 milhões. Muito desse dinheiro deve ter sido dado pela American Airlines, que ganha generoso merchandising em 1h49m de película.

Mas como eu falava, o novo trabalho de Reitman é uma tentativa de repetir a fórmula de sucesso de “Juno”. Como o seu último filme, é basicamente uma comédia dramática que usa um roteiro, digamos, descolado e simpático. Mesmo com a ausência da roteirista Diablo Cody, o espírito que Reitman e Sheldon Turner impuseram à adaptação do livro do escritor Walter Kim é o mesmo da ex-stripper que faturou o Oscar em 2008. São diálogos rápidos, frases curtas e tiradas engraçadinhas que fariam qualquer pedra de gelo no mínimo dar um sorrisinho de canto de boca. A trilha sonora também é bem escolhida e de qualidade, embora inferior ao trabalho anterior.

O desfecho do filme também é semelhante ao de “Juno”. Quando você imagina que ele vai ser aquela lição de moral, aquela renovação dos valores tradicionais, ele dá uma guinada de 180 graus para mostrar que se o cinema imita a vida, ele não pode ser tão mentiroso com uma conclusão semelhante ao paraíso na terra. E nem precisa ser o inferno de Dante. Ou seja, Reitman pode ter se vendido para a American Airlines, mas pelo menos manteve algumas convicções.

Como “Juno” e por causa de suas qualidades semelhantes, “Amor se escalas” também é um filme agradável. É daqueles trabalhos que nunca estarão naquela lista de 50 filmes da sua vida, mas que você sempre vai se lembrar de uma sessão agradável no cinema.

E ainda tem Vera Farmiga, bela atriz de 36 anos, que engole Clooney quando contracena com ele através de sua Alex Goran e a sem sal e bobinha Natalie Keener vivida por Anna Kendrick. Alex é o caso de ponte aérea de Clooney nas andanças pelos Estados Unidos enquanto Natalie é a companheira de trabalho sonhadora de Clooney que em nome da economia (o filme tem a crise econômica como pano de fundo) quer diminuir drasticamente o número de viagens da empresa de Ryan, que passaria a demitir os funcionários on-line. Natalie é mala. Alex é o desejo de qualquer homem.

Como curte a sua vida de falcão solitário, Ryan não gosta nada dessa mudança tecnológica na empresa e a carrega a contragosto para o mundo real. Aos poucos, os dois vão vendo os lados bom e ruim a partir do ponto de vista de ambos, contudo nada que possa mudá-los profundamente. Mas digamos que o frio Ryan passe a querer viajar menos depois de tantas experiências.

Se “Amor sem escalas” repetirá o sucesso comercial de “Juno” e também será laureado com um Oscar, só saberemos no futuro. Mas pelo menos o novo trabalho de Reitman é divertido. Isso ele prova que sabe fazer bem.

Indicações ao Oscar: Melhor filme, melhor ator para George Clooney, melhor atriz coadjuvante para Vera Farmiga e Anna Kendrick, melhor diretor para Jason Reitman, melhor roteiro adaptado para Jason Reitman e Sheldon Turner

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Os filmes do Oscar por aí

E eis que conhecemos finalmente os indicados ao Oscar deste ano. Todos os leitores deste blog já leram na grande, média, pequena e diminuta imprensa que a cerimônia marcada para o dia 7 de março será o duelo do ex-marido James Cameron e sua suprema bobagem chamada “Avatar” contra a ex-mulher Kathryn Bigelow e o filmaço “Guerra ao Terror”.

Nove indicações para cada um, recorde deste ano, realmente os credenciam a monopolizar as atenções, mas eu não colocaria tão de lado assim os escalpeladores de nazistas de Quentin Tarantino e seu “Bastardos Inglórios”, que vem logo ali em seguida, com oito indicações. Mas como isso já foi dito, prefiro me ater a outros comentários.

O primeiro é que de certa forma as indicações de “Avatar” confirmam o que eu já disse quando escrevi aqui sobre o filme no ano passado. É um trabalho ruim de Cameron, que não conquistou indicações para o seu sofrível roteiro e suas lamentáveis atuações. Junto com a indicação de diretor (aceitável) e a de melhor filme (discutível) vieram indicações em sete categorias técnicas, algo normalmente reservado a filmes-pipoca, de ação, etc... São elas: direção de arte, fotografia, edição de som, mixagem de som, trilha sonora, edição e efeitos visuais.

Se o filme fosse realmente bom, estaria concorrendo em outras das principais categorias. Arrisco-me a dizer que “Avatar” vai abocanhar todas as categorias técnicas. Se levar como filme e diretor será uma injustiça do tamanho da de “Titanic”, que levou o prêmio num ano que estavam concorrendo “Los Angeles – Cidade Proibida”, “Gênio Indomável” e “Melhor é Impossível”, três filmes muito superiores. Ou do tamanho da de “Quem quer ser um milionário?”, filmezinho comum e inferior a “Frost/Nixon” entre os concorrentes do ano passado.

Já “Guerra ao Terror”, concorre com Bigelow como melhor diretora, filme, ator para Jeremy Renner, roteiro original para Mark Boal, e mais cinco categorias técnicas: fotografia, mixagem de som, edição de som, trilha sonora original e edição.

Outro ponto que eu gostaria de ressaltar são as indicações de Renner como ator, mais do que merecida, e de Vera Farmiga como atriz coadjuvante. Ela realmente está muito bem em “Amor sem escalas”.

Também foram bem interessantes as lembranças para Morgan Freeman, que incorporou Nelson Mandela em “Invictus”, e Matt Damon, que vive o capitão do time de rugby da África do Sul François Pienaar no filme de Clint Eastwood, que bem poderia estar entre os agora 10 indicados a melhor filme. Pode não ser o melhor trabalho de Clint, mas um filme dele ainda é melhor que muita coisa por aí. Inclusive “Amor sem escalas”. Falarei sobre ambos nos próximos posts, aliás.

Freeman e Renner estão muito bem, mas não devem ter chance diante de Jeff Bridges, que tem conquistado os prêmios pré-Oscar com sua atuação em “Coração Louco”, ainda inédito por aqui. O mesmo deve-se dizer de Damon, que terá que encarar outro bicho-papão, o austríaco Christoph Waltz, que brilha em “Bastardos Inglórios”.

Chamou-me a atenção também que um musical como “Nine” só tenha uma música entre as cinco indicadas a canção original. Normalmente musicais entram com umas três no páreo. Ou seja, o novo trabalho de Rob Marshall, que ainda não assisti, deve ser realmente bem discutível como andam dizendo. Mas pelo menos Penélope Cruz concorre como atriz coadjuvante. Se valesse o quesito beleza, ela ganharia, mas a questão aqui é outra.

Também achei bem legal as quatro indicações para um filmaço: “Distrito 9”. As indicações para filme, roteiro adaptado, edição e efeitos visuais foram merecidas. E acredito que o trabalho de Neill Blomkamp tenha chances na premiação de roteiro.

Estas foram apenas algumas, as primeiras considerações. Daqui até o dia do Oscar vou tentar escrever sobre o maior número possível de filmes que concorrem às estatuetas, focando principalmente nos 10 que tentam a premiação máxima. Quatro deles já foram criticados aqui no ano passado (é só clicar nos nomes para ler): “Avatar”, “Distrito 9”, “Guerra ao Terror” e “Bastardos Inglórios”, escolhido pelo blog o melhor trabalho de 2009. No próximo post falarei sobre “Amor sem escalas” e assim ficarei devendo comentários sobre os cinco filmes restantes, que serão devidamente criticados conforme forem estreando no Brasil, ou assim que eu pegar na locadora, caso de “Up – Altas Aventuras”. Enquanto isso, abordarei filmes que concorrem em outras categorias.

Para o leitor que também gosta de ver os filmes que concorrem às estatuetas, repito o que fiz no ano passado e coloco abaixo os indicados nas principais categorias com as prováveis datas das estreias ou a situação dos filmes no Brasil. Claro que muita coisa pode mudar agora que saíram os indicados da Academia (para vocês terem uma ideia eu fui trocando o post até o minuto final da publicação), mas a listagem abaixo nos dá uma noção do que esperar nas próximas cinco semanas.

Filme:

“Avatar” – nos cinemas
“Um sonho possível” – estreia dia 26
“Distrito 9” – nas locadoras
“Educação” – estreia dia 19
“Guerra ao Terror” – nos cinemas e na locadora
“Bastardos Inglórios” – nos cinemas, mas em poucas salas
“Preciosa” – estreia dia 12
“Um homem sério” – estreia dia 19
“Up – Altas Aventuras” – nas locadoras
“Amor sem escalas” – nos cinemas

Ator:

Jeff Bridges (“Coração Louco”) – estreia dia 19
George Clooney (“Amor sem escalas”) – nos cinemas
Colin Firth (“Direito de Amar”) – sem previsão de estreia nos cinemas
Morgan Freeman (“Invictus”) – nos cinemas
Jeremy Renner (“Guerra ao Terror”) – nos cinemas e nas locadoras

Atriz:

Sandra Bullock (“Um sonho possível”) – estreia dia 26
Helen Mirren (“The last station”) – sem previsão de estréia
Carey Mulligan (“Educação”) – estreia dia 19
Gabourey Sidibe (“Preciosa”) – estreia dia 12
Meryl Streep (“Julie & Julia”) – nos cinemas, mas em poucas salas

Ator Coadjuvante:

Matt Damon (“Invictus”) – nos cinemas
Woody Harrelson (“O mensageiro”) – passou no festival do Rio. Sem previsão de estreia
Christopher Plummer (“The last station”) – sem previsão de estreia
Stanley Tucci (“Um olhar do paraíso”) – sem previsão de estreia
Christoph Waltz (“Bastardos Inglórios”) – ainda no cinema, mas em poucas salas

Atriz Coadjuvante:

Penélope Cruz (“Nine”) – nos cinemas
Vera Farmiga (“Amor sem escalas”) – nos cinemas
Maggie Gyllenhaal (“Coração Louco”) – estreia dia 19
Anna Kendrick (“Amor sem escalas” – nos cinemas
Mo’Nique (“Preciosa”) - estreia dia 12

Diretor:

Kathryn Bigelow (“Guerra ao Terror”) – nos cinemas e nas locadoras
James Cameron (“Avatar”) – nos cinemas
Lee Daniels (“Preciosa”) – estreia dia 12
Jason Reitman (“Amor sem escalas”) – nos cinemas
Quentin Tarantino (“Bastardos Inglórios”) – nos cinemas, mas em poucas salas

Filme Estrangeiro:

“Ajami”, de Scandar Copti e Yaron Shani (Israel) – sem previsão de estreia
“A fita branca”, de Michael Haneke (Alemanha) – estreia dia 12
“O segredo de seus olhos”, de Juan José Campanella (Argentina) – estreia dia 26
“Um profeta”, de Jacques Audiard (França) – sem previsão de estreia
“A teta assustada”, de Claudia Llosa (Peru) – nas locadoras

Roteiro Adaptado:

“Distrito 9” (Neill Blomkamp e Terri Tatchell) – nas locadoras
“Educação” (Nick Hornby) – estreia dia 19
“In the Loop” (Jessé Armstrong, Simon Blackwell, Armando Iannucci e Tony Roche) – sem previsão de estreia
“Preciosa” (Geoffrey Fletcher) – estreia dia 12
“Amor sem escalas” (Jason Reitman e Sheldon Turner) – nos cinemas

Roteiro Original:

“Guerra ao Terror” (Mark Boal) – nos cinemas e nas locadoras
“Bastardos Inglórios” (Quentin Tarantino) – nos cinemas, mas em poucas salas
“O mensageiro” (Alessandreo Camon e Oren Moverman) – passou no festival do Rio. Sem previsão de estreia
“Um homem sério” (Joel Coen e Ethan Coen) – estreia dia 19
“Up – Altas Aventuras” (Bob Peterson, Pete Docter e Tom McCarthy) – nas locadoras

Direção de Arte:

“Avatar” – nos cinemas
“O Imaginário do Doutor Parnassus” – estreia dia 14 de maio
“Nine” – nos cinemas
“Sherlock Holmes” – nos cinemas
“The Young Victoria” – sem previsão de estreia

Fotografia:

“Avatar” – nos cinemas
“Harry Potter e o enigma do príncipe” – nas locadoras
“Guerra ao Terror” – nos cinemas e nas locadoras
“Bastardos Inglórios” – nos cinemas, mas em poucas salas
“A fita branca” – estreia dia 12

Mixagem de som:

“Avatar” – nos cinemas
“Guerra ao Terror” – nos cinemas e nas locadoras
“Bastardos Inglórios” – nos cinemas, mas em poucas salas
“Star Trek” – nas locadoras
“Transformers: a vingança dos derrotados” – nas locadoras

Edição de Som:

“Avatar” – nos cinemas
“Guerra ao Terror” – nos cinemas e nas locadoras
“Bastardos Inglórios” – nos cinemas, mas em poucas salas
“Star Trek” – nas locadoras
“Up – Altas Aventuras” – nas locadoras

Trilha Sonora Original:

“Avatar” – nos cinemas
“O fantástico Sr. Raposo” – nas locadoras
“Guerra ao Terror” – nos cinemas e nas locadoras
“Sherlock Holmes” – nos cinemas
“Up – Altas Aventuras” – nas locadoras

Canção Original:

“Almost There”, de Randy Newman em “A princesa e o sapo” – nas locadoras
“Down in New Orleans”, de Randy Newman em “A princesa e o sapo” – nas locadoras
“Loin de Paname”, de Reinhardt Wagner e Frank Thomasfrom em “Paris 36” – sem previsão de estreia
“Take it all”, de Maury Yeston em “Nine” – nos cinemas
“The Weary Kind”, de Ryan Bingham e T. Boné Burnett em “Coração Louco” – estreia dia 19

Figurino:

“Bright Star” – Passou nos festivais do Rio e de São Paulo. Sem previsão de estreia
“Coco Antes de Chanel” – nos cinemas, mas em pouquíssimas salas
“O imaginário do Dr. Parnassus” – estreia dia 14 de maio
“Nine” – nos cinemas
“The Young Victoria” – sem previsão de estreia

Edição:

“Avatar” – nos cinemas
“Distrito 9” – nas locadoras
“Guerra ao Terror” – nos cinemas e nas locadoras
“Bastardos Inglórios” – nos cinemas, mas em poucas salas
“Preciosa” – estreia dia 12

Maquiagem:

“Ill Divo” – passou nos festivais do Rio e de São Paulo. Sem previsão de estreia
“Star Trek” – nas locadoras
“The Young Victoria” – sem previsão de estreia

Efeitos Visuais:

“Avatar” – nos cinemas
“Distrito 9” – nas locadoras
“Star Trek” – nas locadoras

sábado, 30 de janeiro de 2010

O melhor de Cage em anos

Das mãos de um diretor alemão e em meio a uma Nova Orleans devastada pelo furacão Katrina de 2005, Nicolas Cage resgata seus melhores momentos de personagens lisérgicos para construir o maquiavélico tenente Terence McDonagh, para quem os fins justificam todos os meios e deve-se tirar vantagem de tudo o que cada situação apresenta.

Em 29 anos de carreira, Cage já viveu viciados de todos os tipos. E numa de suas melhores atuações em cinco anos – seu último grande trabalho foi em “O Senhor das Armas” (2005) – McDonagh nos faz relembrar de todos eles desde o alcoólatra Ben Sanderson, de “Despedida em Las Vegas” (1995), que lhe rendeu um Oscar de melhor ator, passando pelo detetive particular Tom Welles de “8MM” (1999), que mergulha no submundo das mais rasteiras produções pornográficas, e chegando ao motorista de ambulância Frank Pierce viciado em remédios e insone de “Vivendo no Limite” (1999), de Martin Scorsese.

Em “Vício Frenético”, os analgésicos se juntam a um coquetel de drogas, cujo poder é crescente como o nível de dependência delas. Administrar esse e outros vícios (como o do jogo, por exemplo), e terríveis dores nas costas é o desafio de McDonaugh enquanto investiga o assassinato de uma família inteira de senegaleses que estava vivendo ilegalmente no país e foi massacrada por Big Fate (Xzibit), traficante que cresceu em meio ao caos daquela cidade praticamente sem lei.

Descobrir o assassino, portanto, não é o segredo no trabalho de Herzog. A questão está em como incriminá-lo diante de comparsas leais ao mesmo tempo em que McDonaugh se envolve com problemas com o pai, um ex-alcoólatra que tenta se livrar do vício, a madrasta, esta sim uma alcoólatra, e a namorada prostituta e viciada Frankie (a maravilhosa Eva Mendes). Problemas que aliados ao vício vão aumentando e o consumindo, devastando como a passagem de um furacão em sua vida.

Releitura de um filme de 1992 dirigido por Abel Ferrara e estrelado por Harvey Keytel, “Vício Frenético” é uma película toda de Cage, que constrói um tipo bizarro que anda todo torto por causa dos problemas na coluna, tem um olhar melancólico e profundo, um ar blasé e mesmo assim é considerado um dos melhores policiais da corporação, a despeito de seus métodos pouco ortodoxos e seus vícios conhecidos por todos.


Estes métodos, aliás, acabam sendo a principal arma para a resolução do crime numa história conduzida por Herzog que parece que vai levar seu personagem ao fundo do poço. Mas do improvável ele consegue emergir dando ao filme um desfecho cínico e cru, onde a esperança, esta sim naufragou na destruição.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Um Holmes nada elementar

Existem algumas formas de se assistir a “Sherlock Holmes” e elas são teoricamente relacionadas à maneira como você se relaciona com o personagem. Se você é um fanático daqueles que têm Holmes como um semideus quase perfeito e sabe de cor trechos de cada livro de Sir Arthur Conan Doyle, a sensação ao se ver diante do trabalho de Guy Ritchie vai variar da decepção a uma raiva cristã de quem profanou uma história. Se você não sabe quem é Conan Doyle, Holmes ou apenas tem uma relação mais distante com estas figuras, periga gostar e sair do cinema satisfeito por ter visto um belo filme de ação.

Estas são duas prováveis sensações que o diretor de “Jogos, trapaças e dois canos fumegantes” (1998) e “Snatch, porcos e diamantes” (2000) pode causar ao espectador que assiste à sua leitura iconoclasta e “atualizada” do clássico personagem de Conan Doyle.

Não que Holmes, vivido como brilhantismo por Robert Downey Jr., tenha perdido totalmente suas características. O uso do raciocínio lógico para resolver os casos mais escabrosos possíveis ainda está lá. Assim como o seu inseparável amigo, o doutor John Watson, feito por um também ótimo Jude Law. Mas o trabalho de Ritchie e dos roteiristas Michael Robert Johnson, Anthony Peckham e Simon Kinberg injeta uma linguagem mais pop e inegavelmente mais testosterona nos personagens que não abusam apenas do cérebro, mas usam também os músculos para sobreviverem naquela Londres suja, putrefata e tomada por ladrões e tipos sinistros encontrados apenas ao abrir a porta do escritório de Baker Street.

É aliando força e inteligência que Holmes e Watson têm que resolver uma série de crimes cometidos por Lorde Blackwood (Mark Strong) num enredo que envolve conspirações, magia negra e uma sociedade secreta que aos poucos vai sendo dissecada pela brilhante mente de Holmes.

Para desvendar este mistério, a dupla conta ainda com a ajuda (ou nem chega a ser uma ajuda) da ladra Irene Adler (Rachel McAdams), um dos pontos fracos de Holmes dada a sua admiração pela moça que, no entanto, lhe enganou algumas vezes.

Se os meios são ampliados, o desfecho deste novo “Sherlock Holmes” (o 211º filme que envolveu uma gama total de 75 atores no papel principal) não poderia ser mais “sherlokiano” com suas explicações lógicas para tudo. Até para o que parecia inexplicável.

Na minha modesta opinião, o saldo final é positivo. Como a minha relação com o personagem ganhou o benefício do tempo – Conan Doyle foi leitura de infância e infelizmente eu nunca mais o reli – a sensação foi a de estar diante de um filme muito bem feito, com atuações impagáveis e um roteiro extremamente bem encadeado. Nem parece um filme de ação, mas tem a cara de um Sherlock Holmes.


Dos personagens clássicos na literatura de Conan Doyle, ficou praticamente de fora (a não ser por meros vultos em determinadas cenas) o professor Moriarty, arquiinimigo de Holmes. É claro que ele foi devidamente guardado como trunfo para uma inevitável seqüência. Uma devida deixa bem ao estilo dos filmes baseados em histórias em quadrinhos foi providenciada por Ritchie para dar prosseguimento às aventuras de Holmes e Watson. E ela promete ser ainda melhor do que a de “Sherlock Holmes”.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O festival que mudou tudo

Há 25 anos o Brasil e o Rio de Janeiro entravam na rota dos grandes shows internacionais. Parece até brincadeira em se tratando do Rio que hoje sofre para conseguir grandes espetáculos (O AC/DC não veio no ano passado e o Metallica não virá neste mês, por exemplo), mas até 1985, o cenário era de uma aridez ainda maior. Foi aí que o empresário Roberto Medina resolveu fazer o nosso Woodstock e criar o primeiro grande festival de rock local então batizado de Rock in Rio.

Realizado entre os dias 11 e 20 de janeiro daquele ano, o festival reuniu pesos pesados da música mundial que tocavam aqui pela primeira vez como Queen, Iron Maiden, Rod Stewart, AC/DC, Scorpions, Yes e Ozzy Osbourne. Junto deles, algumas atrações do rock brasileiro que já davam as caras e mudaram a história da música nacional como o Paralamas do Sucesso e o Barão Vermelho ainda com Cazuza nos vocais.

Para realizar o evento, foi construído um palco de cinco mil metros quadrados de área, o maior já feito no mundo até então, num terreno entre a Barra da Tijuca e Jacarepaguá que ficaria conhecido como a Cidade do Rock. Por ali passou 1,5 milhão de pessoas, o equivalente a três Woodstocks. O maior público foi no primeiro dia. Duzentas mil pessoas acompanharam os shows de Baby Consuelo e Pepeu Gomes, Erasmo Carlos, Ney Mato Grosso, Whitesnake, Iron Maiden e Queen. Foi a única apresentação do Iron. O Queen ainda voltaria no dia 18 ao lado de The Go-Go’s B-52’s, Lulu Santos, Eduardo Dusek e Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens.

Já o Whitesnake, convocado as pressas para substituir o Def Leppard após o acidente de carro que levou o baterista Rick Allen a ter que amputar um dos braços, retornaria no dia 19 para tocar com AC/DC, Scorpions, Ozzy Osbourne e Baby Consuelo e Pepeu Gomes.

O mesmo Ozzy já havia tocado três dias antes junto com Rod Stewart, Rita Lee, Moraes Moreira e o Paralamas. Já o AC/DC, se apresentara no dia 15 com Scorpions, Barão Vermelho, Eduardo Dusek e Kid Abelha.

Também participaram do festival James Taylor, George Benson, Al Jarreau, Gilberto Gil, Elba Ramalho, Ivan Lins, Nina Hagen, Blitz e Alceu Valença. Música para todos os gostos, portanto.

Depois daquele ano, o Rio ainda teve outras duas edições do Rock in Rio em 1991, no Maracanã, e em 2001, num festival inesquecível para este blogueiro que praticamente se mudou para a Cidade do Rock naquelas quase duas semanas de muita música. Em seguida a marca viajou para Portugal e Espanha e nunca mais voltou ao seu país de origem. Agora se fala em uma nova edição no segundo semestre de 2011. Tomara que ele volte e ganhe uma constância. O Rio precisava de um festival de rock que acontecesse com mais freqüência.

Abaixo algumas curiosidades da primeira edição do Rock in Rio colhidas no vasto mundo internético:

- Para tocar no festival, o AC/DC exigiu como condição usar um sino de meia tonelada que seria tocado pelo vocalista Brian Johnson durante “Hells Bells”. Como o bicho, que veio ao Brasil de navio, era muito pesado para a estrutura do palco, um dos cenógrafos do festival fez sem que a banda soubesse um sino de gesso para a ocasião.

- Foi nesta edição do Rock in Rio que o Iron Maiden tocou para o maior público de sua história: 200 mil pessoas. No Rock in Rio III, o Iron conseguiu o segundo maior público de sua história: 180 mil pessoas.

- Ao tocar no mesmo dia de AC/DC e Scorpions, o Barão Vermelho poderia ter sofrido com os fãs de metal, mas a banda fez uma apresentação memorável e foi a única que não foi vaiada pelos metaleiros. No mesmo dia, aliás, acontecia a eleição presidencial que escolheu Tancredo Neves como presidente do Brasil após um longo período de ditadura. Durante “Pro Dia Nascer Feliz”, Cazuza disse: “Que o dia nasça lindo para todo mundo amanhã. Um Brasil novo e com a rapaziada esperta!”.

- Antes do festival, James Taylor pensava em abandonar a carreira. Dependente químico e abalado com o divórcio da cantora Carly Simon, ele veio ao Rio apenas porque já tinha assinado contrato. Comovido, no entanto, com a recepção que teve do público, ganhou nova vida, resolveu retomar a carreira e em homenagem ao Rio compôs a música “Only a Dream in Rio”, que tinha um trecho que dizia “Eu estava lá naquele dia e meu coração voltou a vida”. Taylor ainda voltou ao país para participar do Rock in Rio III, pois considerava ser questão de honra.

- Depois do episódio em que Ozzy Osbourne mordeu um morcego num show três anos antes, os organizadores do Rock in Rio colocaram uma cláusula no contrato que o proibia de comer animais vivos no palco. E o Senhor das Trevas cumpriu tudo dentro do riscado, mesmo depois de uma galinha viva ter sido jogada no palco. Talvez ele preferisse mamíferos.

- “Love of my life” foi a canção do festival. É a mais lembrada até hoje quando alguém fala do primeiro Rock in Rio e o próprio Freddie Mercury havia considerado a execução da música como a melhor já feita pela banda. Quando voltou ao Rio em 2008 para tocar com Paul Rodgers, o guitarrista Brian May disse que até hoje escuta as vozes do público ecoando no seu ouvido.

Chega de escrever. Abaixo, alguns momentos marcantes do Rock in Rio I:
Queen - "Love of my life"
Queen - "Bohemian Rhapsody"
Scorpions - "Rock you like a hurricane"
Scorpions - "Still loving you"
Iron Maiden - "The trooper"
Iron Maiden - "The number of the beast"
Ozzy Osbourne - "Crazy Train"
AC/DC - "Hells Bells"
AC/DC - "For those about the rock"
Whitesnake - "Love ain't no stranger"

Barão Vermelho - "Por que a gente é assim"
Barão Vermelho - "Maior abandonado/Milagres/Subproduto do Rock"

domingo, 10 de janeiro de 2010

Um olhar sobre Lula

É inegável que a história de vida do presidente Luiz Inácio Lula da Silva rende um filme. É inegável também que exatamente por ele ainda ser o presidente da República e estarmos num ano eleitoral, o momento da estréia de “Lula, o filho do Brasil” nos cinemas não foi dos mais propícios.

Eu até acredito (ou quero acreditar) nas declarações do diretor Fábio Barreto de que o objetivo do filme não era fazer política, mas contar a história de um brasileiro e de sua mãe. O problema é que acreditar em Barreto também significa classificá-lo como para lá de ingênuo, pois é óbvio que por mais que essa não fosse a sua intenção, seu filme tem potencial eleitoral.

Certamente “Lula o filho do Brasil” não vai eleger sozinho a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, candidata do presidente mais popular da história do país, mas pode muito bem angariar algumas centenas de milhares de votos decisivos numa campanha que promete ser acirrada. Dilma decididamente vai faturar ao ser carregada embaixo dos braços daquele homem de vida sofrida e que teve uma ascensão heróica à Presidência da República. Um homem que venceu apesar de todas as adversidades e é um exemplo a ser seguido por todos aqueles que ainda lutam por um lugar ao sol.

Heróica, aliás, é uma palavra que incomodou muitos críticos do filme, que acusaram o diretor e os roteiristas Fernando Bonassi, Denise Paraná e Daniel Tendler de mitificar o personagem, tornando-o quase uma santidade.

De fato, até a fase adulta de Lula, Barreto mostra um personagem quase perfeito. É o menino de lábia fácil que convence qualquer um a comprar uma laranja, o garoto que defende a mãe contra os arroubos violentos do pai, Aristides (vivido pelo sempre ótimo Milhem Cortaz), como se um moleque falando grosso com o pai bêbado fosse fazê-lo parar. É o trabalhador dedicado, o galanteador que conquista todas as mulheres. Enfim, seus erros são omitidos e suas virtudes são amplificadas exponencialmente. E nada disso era necessário, pois Lula já é um personagem por si só forte e cheio de nuances.

Mas quando Rui Ricardo Diaz assume o papel de Lula na fase adulta, acredito que Barreto consegue um pouco mais de equilíbrio. A oposição ao governo, perdida, que bate sem saber onde, como e de que jeito apressou-se em berrar que o filme era uma glorificação do presidente e esqueceu-se de lembrar de uma passagem interessante da película que mostra como Lula tomou o poder no Sindicato dos Metalúrgicos.

Insatisfeito por ter sido desautorizado pelo então presidente do sindicato, Feitosa (Marcos Cesana), Lula foi cobrar explicações dele. Após uma discussão, da revelação de algumas irregularidades feitas pelo próprio Feitosa, e do discurso que era necessário ter sangue novo no comando do sindicato, veio a proposta, diria eu, indecente: “Tu fica até o fim do teu mandato, depois sai de fininho”. Em seguida, um “companheiro” avisa que é Lula que sairá candidato.

Corta para a reunião do sindicato em que Lula com a sua conhecida capacidade de se comunicar com as massas aproveita para elogiar o tão criticado, odiado, corrupto e vaiado presidente antes de avisar que era preciso de sangue novo e de mudança. “Alguém diferente”, diz o seu irmão num belo slogan de campanha em outra passagem do filme em que ele tenta convencer aquele Lula que reconhecia gostar mais de novela do que de política a entrar no sindicato.

Ora, o que Lula fez ali não é muito diferente do que faz no seu atual mandato eivando de credibilidade figuras no mínimo controversas como os senadores Fernando Collor de Mello (PTB-AL), Renan Calheiros (PMDB-AL) e José Sarney (PMDB-AP). Todas aduladas em momentos de crises políticas envolvendo eles ou seus partidos.

Mais do que restrições ideológicas, no entanto, “Lula, o filho do Brasil” poderia ser criticado por outros pontos. Não gosto, por exemplo, da maneira como ele foi montado e editado. O resultado final se pareceu com uma sucessão de esquetes juntadas em duas horas.

É ainda lamentável a omissão no roteiro de uma passagem importante da vida do presidente, o nascimento da filha Lurian que ele teve com a enfermeira Miriam Cordeiro e que causou tanta polêmica na eleição de 89, e a mudança de fatos históricos como o linchamento do dono de uma fábrica que Lula, em suas próprias palavras achava que naquela época “o pessoal estava fazendo justiça”, pois um trabalhador havia sido assassinado pelo mesmo indivíduo. No filme, ele se incomoda com o episódio e acha tudo injusto. É triste porque o próprio Lula sequer evita falar sobre estes episódios. E as omissões só reforçam os argumentos do suposto processo de endeusamento do presidente usados pelos que criticam o filme.

Além disso, há a atuação de Rui Ricardo Diaz, que deixa a desejar na pele do presidente e a partir de determinado momento simplesmente esquece da voz rouca e da língua presa. Isso é primário. Ou faz de um jeito ou de outro. Mudar do nada no meio do filme é que não dá. Causou um estranhamento incrível durante a sessão. Sem contar o português impecável que ele apresenta, bem diferente do “menas laranja” que o próprio Lula já usou em tom de brincadeira para explicar sua evolução lingüística.

A atuação de Rui só não compromete o filme primeiro pela força dramática dessa atriz espetacular que é Glória Pires, um dínamo no papel de dona Lindu, a mãe de Lula, que segura brilhantemente a película a cada vez que aparece em cena. Em segundo lugar, porque o próprio Lula é uma figura tão forte que até o faz esquecer o ator ali presente. É um personagem que suplanta o próprio ator. Mal comparando é como James Bond, que sempre será James Bond independentemente de quem vista o terno (aqui incluído desastres como Daniel Craig e Timothy Dalton).

Entre erros e acertos – refletidos, inclusive, na trilha sonora popularesca, mas com a cara do presidente, que, contudo, tem uma canção instrumental ímpar de Antonio Pinto (compositor de filmes como “O amor nos tempos de cólera” – 2007, “Senhor das Armas” – 2005 e “Cidade de Deus” – 2002) e Jacques Morelembaum -, porém, “Lula, o filho do Brasil” é um bom filme de Barreto. Seguramente o melhor de sua carreira em que se destacava até então “O Quatrilho” (1995). E é um trabalho que será melhor julgado quando Lula estiver distante da presidência e dos embates políticos. Diante da guerra eleitoral que se avizinha, ele será por enquanto arma de combate. Dos dois lados do exército.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Best Of 2009 – Cinema

Finalizando os posts retrospectivos e com listas de melhores abordarei o cinema em 2009. Um ano interessante que teve menos lançamentos (294 contra 302 de 2008) e eu conseguir ver um filme a mais em relação ao ano passado (50 contra 49). Mais uma vez, obviamente, não consegui ver todos os filmes que gostaria, mas é desta lista bastante razoável de 50 que tiro as minhas impressões sobre o cinema em 2009. E começo logo pelo top 10.

Como sempre, claro que foi difícil montar a lista dos 10 mais, pois tivemos muitos bons filmes em 2009. Num primeiro momento selecionei 20 trabalhos que me agradaram muito. Em um novo corte, “Appaloosa” e “Star Trek” dançaram até facilmente e fiquei com 18.

O mais doloroso foi cortar os últimos oito filmes. Mas tiveram que ficar de fora do top 10 “Foi apenas um sonho”, “O Leitor”, “O Lutador”, “Guerra ao Terror”, “Os Falsários”, “Intrigas de Estado”, “Inimigos Públicos” e “Anticristo”. Todos, contudo, altamente recomendáveis.

Foi quando percebi que na lista final só havia um filme que esteve concorrendo no Oscar deste ano. E o que ganhou como melhor filme, “Quem quer ser um milionário?”, sequer foi cogitado para entrar na lista. Um sinal de algo que eu já indicava em fevereiro e março que neste ano não havia nenhum filme espetacular na disputa pelas estatuetas como em anos anteriores. Dito isto, vamos ao top 10 da Alcova.

10º lugar – Katyn – Excelente filme polonês sobre o cruel massacre impetrado por Stálin na Polônia durante a Segunda Guerra Mundial e a propaganda comunista que negava toda a verdade e colocava a culpa nos alemães. As imagens são fortes, mas o trabalho de Andrzej Wajda é um importante documento histórico.

9º lugar - Desejo, Perigo – Um excelente trabalho de Ang Lee sobre alguns jovens que organizam uma tentativa de vingança numa China ocupada pelo Japão durante a Segunda Guerra Mundial.

8º lugar – Deixa Ela Entrar – O ano foi de filmes de vampiros com nome de turnê do Elymar Santos como outro dia li no twitter (“Crepúsculo”, “Lua Nova”, etc...), mas filme de vampiro bom mesmo foi este sueco dirigido por Tomas Alfredson sobre uma jovem vampira que mais do que de sangue, se alimenta da alma de jovens solitários. É verdadeiramente assustador.

7º lugar – Amantes – Joaquin Phoenix é um porra-louca que resolveu abandonar uma carreira de ator que estava se consolidando para virar rapper. Mas ainda deu tempo de deixar mais um excelente trabalho. De um pessimismo ácido, “Amantes” é feito de uma série de encontros e desencontros, mas a melhor definição eu li em um blog na época do lançamento que lamentavelmente não me lembro agora o nome nem a pessoa que escreveu. Mas ela disse, no que eu concordo muito bem, que é um filme sobre gente de verdade fazendo merda. Ou algo parecido. É um filmaço.

6º lugar – À procura de Eric – Uma homenagem de Ken Loach a um ídolo, ao futebol e ao amor a este esporte. “À procura de Eric” é um excelente filme sobre um loser torcedor do Manchester United que começa a pegar conselhos com seu ídolo maior, o ex-craque Eric Cantona. Imperdível mesmo para quem não aprecia o bom e velho esporte bretão.

5º lugar – Gran Torino – Depois de um ano longe da minha lista, o diretor Clint Eastwood reaparece com este excelente filme em que ele também atua. Na pele de Walter Kowalsky, um preconceituoso veterano da guerra da Coreia, Eastwood tem que aprender a conviver com diferenças culturais enquanto o bairro em que vive vai se transformando num antro de gangues. É quase uma redenção de Dirty Harry, seu mais famoso personagem que não era muito conhecido por ser politicamente correto.

4º lugar – Frost/Nixon – O duelo entre o jornalista David Frost (Michael Sheen) e o ex-presidente Richard Nixon (Frank Langella) é retratado neste excelente filme dirigido por Ron Howard. Destaque para o tom documental, o ótimo trabalho de Langella, que merecia um Oscar, e para as tensas cenas da entrevista.

3º lugar – Distrito 9 – Uma alegoria sobre o preconceito e a intolerância a partir de uma relação entre terráqueos e alienígenas que são obrigados a viver num gueto (quase um campo de concentração) da África do Sul. Neill Blomkamp conseguiu fazer o que parecia impossível: um filme de ficção científica diferente de tudo o que já foi feito. Um filmaço que merece a medalha de bronze de Memórias da Alcova.

2º lugar – Watchmen – Os filmes sobre quadrinhos atingiram um outro status a partir de “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (2008) e “Watchmen” representa um passo a mais nessa evolução. Uma obra-prima dirigida por Zack Snyder e que tem como destaque a atuação de Jackie Earle Haley como Rorschach. Um filme simplesmente imperdível para quem ama o cinema de muito boa qualidade.

1º lugar – Bastardos Inglórios – Falando em obra-prima, o campeão de 2009 é simplesmente o melhor filme do diretor Quentin Tarantino. Com sua história de vingança dos judeus contra os nazistas, o americano chega ao clímax do seu trabalho e nos premia com personagens que já entraram para a sua história de grandes criações como o tenente Aldo “The Apache” Raine (Brad Pitt) e o coronel Hans Landa (Christoph Waltz). Não é à toa que “Bastardos Inglórios” pode levar Tarantino de volta ao Oscar 15 anos depois de ele ter faturado o prêmio de roteiro por “Pulp Fiction” (1994), seu outro trabalho memorável. “Bastardos Inglórios” é realmente um daqueles filmes para se aplaudir de pé.

Piores filmes – Dei tanto azar neste ano, que consegui até organizar um top 5 das tranqueiras que assisti nos cinemas do Rio de Janeiro. Portanto, passe longe dos seguintes filmes:

5º lugar – Anjos e Demônios – “O Código Da Vinci” (2006) já tinha sido bem meia-boca, mas eu insisti e fui ver “Anjos e Demônios”. Filme no máximo palatável, mas definitivamente é um trabalho de Tom Hanks do qual não precisamos nos lembrar.

4º lugar – A Fronteira da Alvorada – A presença de Louis Garrel em cena e de Philippe Garrel na direção pareciam garantia de qualidade para mim. E eu gosto de filmes franceses. Contudo, “A Fronteira da Alvorada” conseguiu me fazer dormir no cinema.

3º lugar – Matadores de Vampiras Lésbicas – Reconheço que não gosto muito de comédias, mas esta tinha vampiras, tinha lésbicas e tinha...muita ruindade. Quase campeão dos piores, com piadas sem graça e nem tem nada de mais para ver. Péssimo. Passe longe.

2º lugar – G.I. Joe – A Origem do Cobra – Era muito mais divertido e criativo brincar com os bonecos dos Comandos em Ação. Este filme de Stephen Sommers é absolutamente dispensável. Apenas material de propaganda do exército americano.

1º lugar – Austrália – Constrangedoramente ruim e com atuações tenebrosas de Nicole Kidman e Hugh Jackman, o épico romance de Baz Luhrmann foi imbatível em 2009. Tanto é que ninguém lembra mais dele. Assistir à “Austrália” equivale a sofrer o mais duro interrogatório de Jack Bauer.

Decepção – Avatar – Revolucionário, vai mudar a história do cinema, é James Cameron rompendo barreiras. E um filme ruim, muito ruim. Não tanto a ponto de entrar no top 5 dos terríveis, mas “Avatar” é a grande decepção de 2009. Reconheço que o filme é muito bonito e tal, mas como trabalho cinematográfico é clichê, óbvio e sem sal. Bola fora para Cameron.

O herói do ano – Rorschach (Jake Earle Haley) tem seu lugar na galeria de heróis de 2009, assim como dois anti-heróis, John Dillinger (Johnny Depp) e Walter Kowalsky (Clint Eastwood), mas o cara mesmo foi Brad Pitt e seu Aldo “The Apache” Raine. O tenente que comandou a tropa de caçadores de nazistas em “Bastardos Inglórios” é uma das ótimas criações de Tarantino.

O vilão do ano – Se “Avatar” tem alguma coisa de bom é o vilão. O coronel Miles Quaritch (Stephen Lang) ainda deu alguma graça ao filme. Só que aqui não poderei fugir novamente de “Bastardos Inglórios” para dizer que o grande vilão mesmo foi outro coronel, o nazista Hans Landa, vivido por Christoph Waltz. Com suas tiradas impagáveis e crueldade é um insano a ser temido. Ou era, pois Aldo Raine tratou de dar um jeito nele.

A frase do ano - “I am not a man, I am Cantona”, dita pelo próprio durante o filme "À procura de Eric", de Ken Loach. Tem frase melhor para representar a personalidade do craque francês?

A musa – Expectativa. Quem seria a sucessora de Penélope Cruz no reinado? A própria atriz espanhola apareceu na minha prévia por “Abraços Partidos”. Seria o primeiro caso de bicampeonato? Não desta vez. Também estiveram perto a bela Cate Blanchett (“O curioso caso de Benjamin Button”) e Gwyneth Paltrow (“Amantes”). Marisa Tomei (“O Lutador”) fez strip-tease e Giovanna Antonelli (“Budapeste”) também se esforçou. Wei Tang (“Desejo, Perigo”) deu tudo de si e Diane Kruger (“Bastardos Inglórios”) quase foi eleita porque eu tenho um certo fraco por alemãs. Mas o prêmio de musa de 2009 não será dado desta vez a uma mulher gostosona. E sim para uma mulher linda e talentosa que brilhou em dois filmes: “Foi apenas um sonho” e “O Leitor”. Kate Winslet é a minha musa inspiradora do ano. Além disso, eu também tenho um certo fraco por inglesas.

A melhor cena de sexo – Pode parecer meio sádico, mas que ficou bonita a cena de Willem Defoe e Charlotte Gainsbourg transando ao som de Händel e com a filmagem em preto e branco de Lars Von Trier ficou. O problema é que durante o ato, o filho dos dois no filme “Anticristo” morre ao cair do parapeito da janela. Mas se não tivesse algo assim não seria um filme de Von Trier.

A melhor cena de briga – Desde que o homem virou bípede e passou a usar o polegar opositor que sexo e violência fazem parte da nossa história. Natural que neste ano, portanto, eu inclua nas categorias especiais de Memórias da Alcova o prêmio para melhor cena de briga. E o campeão de 2009 é o duelo entre Ozymandias e o Comediante ao som de “Unforgettable” de Nat King Cole. Lindo, lírico e trágico.

Os melhores roteiros – De fora da minha lista de melhores filmes, é preciso ressaltar aqui os bons trabalhos de David Hare (“O Leitor”), Justin Haythe (“Foi apenas um sonho”) e Matthew Michael Carnahan e Tony Gilroy (“Intrigas de Estado”). Também é elogiável a adaptação que David Hayter e Alex Tse fizeram para a Graphic Novel de Alan Moore e Dave Gibbons em “Watchmen” e os trabalhos de Peter Morgan por “Frost/Nixon”, Nick Schenck por “Gran Torino” e James Schamus e Hui-Ling Wang por “Desejo, Perigo”. Já Paul Laverty (“À procura de Eric”) e Quentin Tarantino (“Bastardos Inglórios”) foram absolutamente originais e divertidos em seus filmes.

Mas o melhor roteiro para mim foi de Neill Blomkamp e Terri Tachell por “Distrito 9”. Um filme que renovou a ficção científica depois de muitos trabalhos parecidos ao longo das duas últimas décadas.

Os piores roteiros – “Anjos e Demônios” (David Koepp e Akiva Goldsman) e “Matadores de Vampiras Lésbicas” (Paul Hupfield e Stewart Williams) são sofríveis. Stuart Beattie aparece duas vezes na minha lista. Primeiro ao lado de David Eliott e Paul Lovett pela propaganda do exército americano – aquilo não é um roteiro – de “G.I. Joe” e em seguida ao lado de Baz Luhrmann, Ronald Harwood e Richard Flanagan pelo horroroso “Australia”. Mas ele não conseguiu superar Cameron, James Cameron pelo seu roteirinho óbvio, clichê e sem conteúdo de “Avatar”, o abacaxi de 2009.

O francês do ano – Já foi muito comentado aqui o meu gosto por filmes franceses. E a indicação de 2009 vai para o simpático “Horas de Verão” sobre três irmãos que têm que decidir o que fazer com a herança da mãe após a sua morte. Tocante, interessante. E ainda tem a presença de Juliette Binoche.

O brasileiro – No ano passado vi oito filmes nacionais e neste ano apenas um. Pouco, muito pouco. Mas acho que a produção nacional não fez nada demais que me fizesse pagar o ingresso dos seus filmes. Teve o elogiado “Simonal”, mas confesso que não gosto muito de documentários e não gosto da música de Wilson Simonal, o que me afastou do cinema. Mas o único filme que vi, “Budapeste”, vale a pena. Muito boa adaptação do livro de Chico Buarque com uma ótima interpretação de Leonardo Medeiros no papel principal.

O retorno – Não sou um trekkie, mas não posso deixar de comentar a volta de Leonard Nimoy ao papel de Spock no novo filme sobre Star Trek. É o retorno do ano, sem dúvida.

Melhores diretores – Sam Mendes (“Foi apenas um sonho”), Darren Aronofsky (“O Lutador”), Zack Snyder (“Watchmen”) e Ang Lee (“Desejo, Perigo”) fizeram excelentes trabalhos. Steven Soderbergh lançou muitos filmes em 2009, o melhor deles é “Confissões de uma garota de programa”. O trabalho de Tarantino é brilhante em “Bastardos Inglórios”. O mesmo pode se dizer de Neill Blomkamp em “Distrito 9”. Contudo, os três trabalhos que mais gostei foram o de Katrhyn Bigelow em “Guerra ao Terror”, Lars von Trier em “Anticristo” e Clit Eastwood por “Gran Torino”, para mim o melhor de 2009.

Piores diretores – Ron Howard (“Anjos e Demônios”) e Phil Claydon (“Matadores de Vampiras Lésbicas”) se esforçaram, mas ninguém supera Baz Luhrmann e seu “Australia”. Um trabalho hours concours no quesito ruindade.

Melhores atuações masculinas – Aqui é preciso destacar os trabalhos de John Malkovich (“A Troca”), Leonardo DiCaprio (“Foi apenas um sonho”), Tony Leung (“Desejo, Perigo”), Russel Crowe (“Intrigas de Estado”) e Johnny Depp (“Inimigos Públicos”). Clint Eastwood (“Gran Torino”) e Joaquin Phoenix (“Amantes”) também estão ótimos nos seus filmes. Mas o ano foi de três atores: Jackie Earle Haley, fantástico como Rorschach em “Watchmen”, Mickey Rourke, espetacular como Randy “The Ram” Robinson em “O Lutador” e, para mim o melhor de todos, Frank Langella na pele do presidente Richard Nixon em “Frost/Nixon”. Um injustiçado no Oscar devidamente homenageado por Memórias da Alcova.

Piores atuações masculinas – Billy Crudup foi o ponto de desequilíbrio em “Watchmen” e Ewan McGreggor esteve irreconhecível em “Anjos e Demônios”. Sam Worthington (“Avatar”) e Hugh Jackman (“Australia”) estiveram constrangedores. Mas darei o prêmio lixão do ano para todo o elenco masculino de “G.I. Joe – A Origem do Cobra”, um filme só comparável a pérolas como “Tropas Estelares” (1997).

Melhores atuações femininas – Helen Mirren (“Intrigas de Estado”) é uma atriz admirável. Assim como Meryl Streep que brilhou em “Dúvida” no início do ano e em “Julie & Julia” no final dele. O trabalho da jovem Lina Leandersson (“Deixa Ela Entrar”) também é surpreendente. No entanto, como melhor atuação feminina do ano não vou fugir da indicação do Oscar. Kate Winslet merece encabeçar a minha lista não apenas por “O Leitor”, que lhe valeu a estatueta, mas também por “Foi apenas um sonho”.

Piores atuações femininas – Nicole Kidman (“Australia”) se esforçou, mas na reta final do ano foi atrapalhada por dois elencos femininos que eu “premio” indiscriminadamente: o de “G.I. Joe – A Origem do Cobra” e, disparadamente o pior de todos, o de “Matadores de Vampiras Lésbicas”. Um horror!


E assim termina o Best Of 2009. Em 2010 eu continuarei dando pitacos em tudo como sempre. Até a próxima e um Feliz Ano Novo aos meus nobres leitores.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Best Of 2009 - Música

O ano de 2009 começou muito bem, mas no segundo semestre o número de shows caiu drasticamente. Culpa da falta de artistas de peso, de dinheiro (no meu caso) ou dos responsáveis pelos eventos musicais no Brasil que me deixaram a ver navios enquanto grandes bandas iam se apresentar em outros estados. Este foi um dos motivos por eu ter perdido o AC/DC.

E por mais que eu diga que Angus Young, Brian Johnson e cia fizeram um showzaço pelo que vi no YouTube, não poderei listá-lo entre os cinco melhores porque a regra aqui no blog só vale para os shows vistos in loco.

Ainda assim, deu para ver alguns shows excelentes. Tanto é que meu tradicional top 5 não incluiu o Iron Maiden. A banda inglesa fez um belo show na Praça da Apoteose em março, mas não inclui o Iron na lista por causa de um problema no som, que não ocorreu com outros concertos na própria Apoteose. Isso prejudicou um pouco a apresentação dos ingleses que vieram com uma turnê só de clássicos. Mas se minha lista tivesse seis shows, o Iron estaria nela.

Sendo assim, vamos aos cinco mais em ordem de importância e o troféu abacaxi de 2009.

5º lugar – Pitty – O último show que eu vi em 2009 garantiu o lugar entre os cinco mais. Pitty abarrotou o Circo Voador para o lançamento do seu novo disco, o bom “Chiaroscuro”. Em quase duas horas de rock and roll, desfilou sua competência e carisma e agradou a plateia. Que volte ao Rio em 2010 para uma nova apresentação.

4º lugar – Alanis Morissette – Em quinto, o último show de 2009. Em quarto, o que abriu os trabalhos do ano. Alanis Morissette esteve na HSBC Arena em fevereiro durante a turnê do seu novo disco “Flavours of Entaglement”. Fez um belo show, mostrou que embora suas letras tenham se suavizado com o tempo - afinal, não dá para ser infeliz e sofrer para sempre -, no palco continua a mesma cantora louca que balança a cabeça quando canta os seus clássicos do “Jagged Little Pill”.

3º lugar – Oasis - Férias em Londres pedia um show na terra da Rainha. Afinal, ir para a Inglaterra e não assistir a um show de rock é como ir a Paris e não ver a Torre Eiffel. O Oasis passava por lá durante a turnê do disco “Dig out your soul” e fez para este que vos tecla um show inesquecível. Claro que o momento que eu passava pesou na avaliação (férias, Londres, show no mítico Wembley e tal), mas mesmo aqui no Brasil, cuja apresentação eu perdi, não acredito que o Oasis tenha feito algo ruim. De quebra acabou sendo até certo ponto um show histórico, pois depois daquele espetáculo em Wembley, o Oasis fez mais uns dois ou três shows e implodiu pela enésima briga entre os irmãos Gallagher.

2º lugar – Kiss – Se tem uma banda que sabe fazer festa é o Kiss. O grupo veio ao Brasil em abril durante a turnê que comemorava os seus 35 anos de carreira e fez um daqueles shows que ficarão para sempre na memória roqueira. Nem o temporal que caiu impediu que o Kiss fizesse tudo o que sabe fazer de melhor com sua boa música (tocaram boa parte dos seus clássicos) e efeitos especiais de primeira. Definitivamente o Kiss é daquelas bandas que sabem fazer um show de rock.

O melhor do ano – Radiohead – Pela primeira vez no Brasil por ocasião da turnê do ótimo álbum “In Rainbows”, o Radiohead também fez um show inesquecível. Valeu a longa espera pela banda. Thom York, Johnny e Colin Greenwood, Ed O’Brian e Phil Selway fizeram mais do que um show. Foi um verdadeiro culto religioso na Praça da Apoteose. Tudo foi perfeito. É um daqueles poucos shows em que se dá nota 10. Um showzaço inesquecível.

O pior – Os problemas de som podem ter atrapalhado o Iron Maiden, mas eles não foram empecilho para este blog dar o troféu abacaxi para Lauren Harris. A filha do baixista do Iron, Steve Harris, veio ao Brasil para abrir os shows da turnê do pai num nepotismo mais comum do que parece no rock and roll, mas sua música é tão ruim, ela é tão ruim, que nem a idolatria dos fãs do Iron por Steve Harris foi suficiente para ao menos respeitar a guria. Foi vaiada e xingada pelos “maindenmaniacos” e agora leva o troféu abacaxi de Memórias da Alcova para casa.

Amanhã, encerrando a retrospectiva/melhores do ano abordarei o cinema em 2009.