segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Game of Thrones, capítulo 5

Gosto tanto de você, dragãozinho...
As coisas estão esquentando (ou seria ESFRIANDO?) em "Game of Thrones". E tal qual o enredo de "Tropa de Elite 2", "o inimigo agora é outro". Enquanto ele não chega, o que aprendemos deste quinto episódio?
BEWARE! THE CORNETA IS DARK AND FULL OF SPOILERS!!
1- Foi um episódio educativo. Entendemos, por exemplo, porque os White Walkers não chegaram ainda na guerra. Eles estão indo a pé, em peregrinação, e no passinho do zumbi. O Rei da Night está demorando tanto que o Jon Snow cansou de esperar. Vai encontrá-lo no habitat dele no próximo episódio.
2- Daí precisamos refletir sobre os DESLOCAMENTOS nesta temporada. Supostamente, "Game of Thrones" se passa numa Idade Média idílica cheia de magia e dragões. Mas eu acho que é meio que um futuro distópico e todo mundo tem aquela máquina de teletransporte de "Star Trek". Só isso para justificar você sair da Irlanda para a Croácia tão rapidamente. Ou da Irlanda para a Islândia mais rápido que o jato do Tom Cruise em "Top Gun".
3- Daenerys. Eu tenho mixed feelings sobre ela. Claramente eu tenho uma quedinha pela mãe dos dragões, destruidora de correntes (e outros 17 títulos), mas toda vez que Dany bota para fora as manguinhas de ditadora do Coreia do Norte eu tenho medo. Para ela virar a rainha louca exigindo que até os gatos de Westeros se ajoelhem não custa.
4- Dito isso, tivemos mais um belo churrasco. Até a próxima vida, Randyll e Dickon Tarly.
5- Tenho pena de Sor Jorah Mormont. Queria ser amigo dele para dar um conselho: Cara, esquece essa mulher. Ela não está a fim de você, está só te usando para ajudar a fazer os trabalhos dela da faculdade. Você não vê que não rola? Parte para outra. Tem tanta mulher solteira nos sete reinos.
6- Jon Snow devia ser presidente do mundo. Primeiro, ele não se ajoelha para ninguém e não obedece à rainha nem se ela pedir para ele comprar pão. Segundo, tem que ser muito macho para fazer as alianças que ele fez nessa série. Se Jon Snow fosse candidato em 2018, a chapa dele teria políticos de PT, PSDB, DEM e PSOL (O PMDB, vocês sabem, é Cersei).
7- Jon também foi muito macho de fazer carinho no dragão. Ou pelo menos aparentou isso. Dentro das calças, porém, acho que se borrou todo. Eu me borrei só vendo pela TV.
8- Aliás, imagina como deve ser fedido um bafo de dragão.
9- BRODAGEM é a palavra do momento na série. Esse amor entre os irmãos Tyrion e Jaime Lannister é muito legal.
10- E essa união entre Gendry, o bastardo de Robert Baratheon, e Jon? Os dois agora já podem formar a banda The Bastard Brothers.
11- Abre o olho, Jaime, que não vai ser porque a Cersei carrega outro filho teu na barriga que ela vai aliviar para você. Essa rainha é maluca.
12- Por falar em Cersei, ela sabia de todos os passos de Tyrion em King's Landing. Claramente tem um X-9 em Dragonstone e, para mim, parece cada vez mais claro que é Missandei.
13- E o Bronn, hein? Muito funcionário do mês. Merecia um aumento. Mas Cersei é uma chefe que não vê nada.
14- E o Sor Davos, hein? Sempre mostrando sabedoria nos atalhos da vida (deu uma desmascarada em Missandei, achou o Gendry...), mas nunca é levado a sério só porque é o Cavaleiro das Cebolas.
15- Porra, Arya. De que adianta ser uma X-Men multifaces, que anda nas sombras e com a delicadeza de uma bailarina se você leva volta do Mindinho?
16- Por falar no Mindinho, ele não perde essa mania de ser o Eduardo Cunha do mundo, atiçando o baixo clero, provocando a discórdia e enchendo de minhocas a cabecinha sedenta de poder da Sansa.
17- Sam, que isso fera! No momento que você vai descobrir a informação vital sobre o passado de Jon Snow, não dá ouvido aos livros! E ainda vai embora!
18- Curto muito essa vibe do Brann-detentor-do-conhecimento-do-mundo-e-aquele-que-tudo-vê.
19- Agora é isso, Jon. Sete homens e um destino: levar um White Walker semi-vivo numa jaula para provar que eles existem. Afinal, dragões e constantes ressurreições são super normais, mas White Walker é mito.

20- Como, aparentemente, rolou um armistício, segue o placar: Team Daenerys 2 x 2 Team Cersei. Faltam dois episódios. Quem ganha essa guerra, Brasil?

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Outro filmaço de Nolan

Dunkirk é um filme excepcional do diretor
Quase sempre as histórias dia filmes de guerra envolvem o heroísmo. De uma tropa, de um homem. É uma história conhecida que vai da dor intensa à salvação de um homem, uma tropa ou um país. Christopher Nolan não foge disso na sua primeira incursão no que chamarei de "cinema de guerra". 

Mas a história de "Dunkirk" é também a de uma derrota. O filme conta um episódio da Segunda Guerra Mundial pouco representado no cinema, quando os soldados aliados (britânicos e franceses) ficaram encurralados pelos alemães na praia de Dunquerque, na França. Naquele momento, os alemães massacravam os aliados, avançavam com suas tropas e o governo britânico temia que o próximo alvo fosse a Inglaterra. 

Por isso, inicialmente poupou esforços para salvar os soldados isolados em Dunquerque. O então primeiro-ministro Winston Churchill, para dar alguma satisfação à nação, falava em resgatar os soldados (as previsões internas era de 30 a 40 mil dos 400 mil que estavam na França), mas poupava as tropas para a batalha seguinte. Dunquerque era a derrota certa. 

No mar do do Canal da Mancha, a algumas horas da Inglaterra, os soldados tinham o sentimento de estarem tão perto, mas absolutamente distantes de casa. No mar aberto, os destróieres ingleses eram alvos fáceis dos caças alemães. A morte estava sempre à espreita para um exército que estava cercado, sem defesas na praia e sem esperança. 

É quando Nolan resolve contar a história de heroísmo da batalha de Dunquerque. Centenas de barcos comuns, de civis da Inglaterra deixaram o país para resgatar os soldados. Graças a eles, mais de 330 mil soldados voltaram para casa. 

Para narrar essa história, Nolan evita o impacto hollywoodiano de Spielberg do bom "O resgate do soldado Ryan" (1998). É econômico nos diálogos. A música de Hans Zimmer (absolutamente incrível) casa perfeitamente com as imagens, mas são os sons da guerra que causam mais impacto. Os caças em alta velocidade, o peso dos tiros, o desespero da água engolindo dezenas de corpos que vão perdendo a vida no meio do caminho. O fogo que tudo consome em gritos e desespero. O instinto de sobrevivência que transforma os homens.

E tudo feito com uma beleza da qual Nolan é expert em filmar. As imagens são secas, mas é tudo de uma beleza e crueza excepcionais. 

O cineasta prefere contar sua história dividida em três partes que vão se encontrar no meio do filme. É a guerra na praia, no ar e no mar. Quando ocorre a interseção, o filme da uma derrapada na continuidade, mas nada que prejudique a beleza deste mais novo trabalho de um diretor que está entre os melhores da atualidade. 

"Dunkirk" é de uma beleza ímpar. É cinema grande como os que Nolan sabe fazer. 


Cotação da Corneta: nota 9,5

sábado, 5 de agosto de 2017

A nova do Malick

Gente bonita e de ar blasé sofrendo de tédio e depressão
Eu acho Terrence Malick brilhante. Mas também um cara difícil. Então, toda vez que eu vou ao cinema sempre me surpreendo quando vejo a sala cheia. Terrence Malick não é o tipo de diretor que enche uma sala. Infelizmente. 

Mas talvez por ser um cara recluso e que não aparece na mídia, não dá entrevista, enfim, se faz de gostoso. Talvez por isso, as pessoas se esqueçam dele e acabem voltando para ver novos filmes dele. 

Em "A árvore da vida" (2011), que eu considero um filme genial, vi pelo menos quatro pessoas irem embora antes do filme acabar. Em "Amor pleno" (2012), colhi comentários divertidos de espectadores incomodados. Ouvir as pessoas após um filme de Malick é sempre uma diversão. Eis alguns exemplos: 

1- "Que porra foi essa?"
2- "Não acredito que a gente viu isso"
3- "Que filme chato, arrastado"
4- "Era melhor a gente ter ido ver "Transformers"

Malick é um cara difícil. E "De canção em canção" é um filme que é fiel à sua filmografia e tem toda a sua assinatura. Narrativa fragmentada, sequências bem curtas, frases jogadas na tela, closes nas expressões dos atores e cenas idílicas. 

"De canção em canção" não é tão brilhante quanto "Amor pleno", muito menos genial como "A árvore da vida", mas que puta filme lindo. 

Tal como eu, Malick curte um pôr-do-sol. São muitas tomadas. Acho que 95% do filme é crepuscular. É a hora mais linda do dia. E cada cena ganha um tom idílico que parece uma pintura de Vermeer (Ou Van Gogh, ou Rembrandt). 

O crepúsculo também serve como metáfora do estremecimento das relações. O fim do dia é igualmente como a implosão de um triângulo amoroso que se forma entre o cantor BV (Ryan Gosling), o produtor Cook (Michael Fassbender) e a corretora, secretaria e aspirante à música Faye (Rooney Mara). 

BV e Faye formam um casal bonito, mas ela está infeliz na relação. Cook entra na jogada e a faz experimentar uma vida além dos limites, dando-a uma falsa sensação de liberdade. O empresário é um predador parasita que vive intensamente a superficialidade do show business. A relação íntima com Faye estremece por completo a amizade com BV, que também faz questionamentos profissionais. O cantor também deseja se libertar das grilhões do empresário e produtor para ter mais autonomia sob a sua música. 

A amizade implode, a infelicidade é um padrão de vida e cada um dos três encontrará uma forma de conforto em outras relações. Cook com a garçonete Rhonda (Natalie Portman), que totalmente alheia ao mundo do show business do empresário, não aguenta a pressão de viver aquela vida. Faye tenta buscar a delicadeza e a compreensão que não tinha com nenhum dos dois homens com Zoey (Bérénice Marlohe). BV vê em Amanda (Cate Blanchett), uma mulher mais velha, ao mesmo tempo em que é um protótipo mais jovem e idealizado de sua própria mãe, uma tentativa de escapatório. 

Nada dá certo. Relações vêm e vão apenas para compreendermos que a perfeição só é encontrada na beleza pictórica da câmera de Malick ao passear pelas mais belas paisagens com o sol como protagonista. 

"De canção em canção" é um filme bonito como só os do Malick são. É uma reflexão sobre as relações humanas e a busca de um mínimo de verdade num mundo efêmero como o do entretenimento. 

Enquanto por ele desfilam nomes como Red Hot Chilli Peppers, Iggy Pop e uma participação pra lá de especial de Patti Smith (além de um Val Kilmer quase irreconhecível fazendo um roqueiro velho decadente com um quê de Axl Rose), Faye procura algum equilíbrio. Entre a estabilidade e a aventura, o gozo e o tédio, ela só quer um pouco de paz. E a chance de não se arrepender das escolhas. 


Cotação da Corneta: nota 7,5

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Game of Thrones, capítulo 3

A galera negociando em Dragonstone
O terceiro episódio foi para o saco e Team Cersei continua dando as cartas. Será que Team Daenerys reage ou ficará vivendo dos títulos do passado glorioso? 

Temos mais quatro episódios de "Game of Thrones" para descobrir. Enquanto isso....

BEWARE! THE CORNETA IS DARK AND FULL OF SPOILERS! 

1- Ninguém disse que é fácil formar boas alianças. Você sempre tem que ceder aqui, puxar a sardinha para o seu lado ali, liberar um caixa 2 acolá, uma estatal mais à frente. Por isso que o primeiro encontro entre Daenerys Targaryen e Jon Snow foi um tal de cada um expondo o seu currículo, dizendo quem precisa mais do outro, um ajoelha e não ajoelha e uma exposição de filigranas que fazem parte das negociações. 

2- Mas no fim eu tenho fé que a chapa Targaryen-Stark será formada sob o lema "Make Westeros Great Again". 

3- Enquanto isso Cersei e Daenerys ficam brincando de War em que a única carta que elas tiraram foi: conquistar todos os continentes. 

4- Cersei, aliás, está muito Odete Roitman. 

5- E Jaime Lannister, hein? Não tem um episódio que passe em que ele não sofre bullying por ser maneta. Pegaram o Kingslayer para Cristo. 

6- Por falar em Jaime, quem está mais bolado com os acontecimentos: Jaime ao começar a perceber que realmente a irmã/amante está ensandecida pelo poder e pela vingança, ou Varys, que pela primeira vez na vida ficou calado diante da profecia de Melisandre?

7- A velha Tyrell é durona, hein? Até na hora de sair de cena. Que mulher foda. 

8- Sansa é quase um Rodrigo Maia. No início da campanha, não estava nem perto do poder. Agora, com Jon Snow passeando e formando uma chapa com Dany e Bran dizendo que tem um emprego melhor como "sabe-tudo-corvo-de-três-olhos-detentor-do-conhecimento-do-mundo", o poder de Winterfell está para cair no seu colo. Tudo sem ter um único voto. 

9- Ela só precisa se livrar das más influências. Mindinho é pilha errada e fica só urubuzando ela atrás de vantagens atraentes. 

10- Gordo sofre. Até quando faz algo genial e único na história da medicina, Sam Tarly tem que pagar penitência. 

11- Esse negócio do Tyrion narrando a tomada de Rochedo Casterly não ficou bom não. Foi um texto bem quinta série. Espero que no livro (um dia, quem sabe) esteja melhor. 

12- Muito orgulho de Jon Snow ter evoluído da fase "You know nothing" para a fase "única voz sensata nessa guerra".

13- Placar da partida até aqui: Team Cersei 2 x 1 Team Daenerys. Será que a Casa Taegaryen ainda vira esse jogo?

domingo, 30 de julho de 2017

Paraty Facts - versão 2017

Uma das mesas da Feira Literária de Paraty/Marcelo Alves
Mais um ano de Flip. Mais um ano em que eu sobrevivi sem torcer fortemente os pés no piso acidentado da cidade histórica de Paraty. Não posso dizer o mesmo sobre pequenas torções. Muita coisa mudou. Outras tantas estão iguais. E aqui está o que só a Corneta viu na versão 2017 do Paraty Facts?

1- Ok, é charmoso, é bonitinho, faz parte da história da cidade, mas já está na hora de colocarem um asfalto decente nesse terreno do centro histórico de Paraty. As pedras irregulares de tons surrealistas não são inclusivas. Imagina o tormento para quem usa cadeira de rodas ou tem problema nas articulações de joelhos e tornozelos para andar nessa cidade.

2- Foi uma Flip com muito mais policiais nas ruas. A segurança piorou. Natural. Paraty não seria uma ilha de excelência num Rio de Janeiro que está abandonado, perdido e jogado na sarjeta.

3- Além de mais policiais e mais cachorros também tinha mais gente dando Bíblia e espalhando a palavra divina nas esquinas. Eles estavam competindo pau a pau em ocupação com os índios, que até onde eu sei, são locais.

4- A rodoviária ganhou um upgrade considerável. Deixou de ser aquela coisa empoeirada roots do interior e ganhou o ISO 9001 de rodoviária de cidade média.

5- Ainda não me decidi se a melhor sorveteria da cidade é o Finlandês ou o Pistache. De fato, tenho uma leve preferência pelo Finlandês, cujo sorvete é mais saboroso, mas experimentei e gostei do sorvete de chocolate com laranja do Pistache. Mas por que decidir isso agora? O importante é continuar experimentando eternamente.

6- Devia ter um código de bom senso antes de guardar lugares em cadeiras nas palestras na Flip. Uma pessoa, ok, a família inteira, cachorro e papagaio, não pode. Ou então paga um salário mínimo para a cidade pela reserva.

7- Teve "Fora, Temer!", teve "Volta, Dilma!", teve "Geraldo Alckmin!" e teve umas coisas sobre hábitos do Aécio que é melhor eu não reproduzir. Teve muito protesto também. De todos os tipos e gêneros. Até pelo fim das carruagens. Eu apoio. Coitado dos cavalos. Não dá para andar com equilíbrio no centro histórico.

A cidade histórica de Paraty/Marcelo Alves
8- Teve também uma galera exaltada. As pessoas estão uma pilha de nervos nesse país! Um cara passou berrando: "Não tem banheiro nessa porra!" (Taí uma verdade). Durante uma mesa, uma galera bateu boca num cantinho. Uma mulher esqueceu que fones com tradutores gabaritados falando no seu ouvidinho são oferecidos de graça e berrou: "Cadê a tradução desta MERDA!". E só porque um poeta mencionou que fez uma poesia inspirado nas manifestações de 2013 um cara atrás de mim levantou exaltado, mandando um "vai se fuder" e esbarrando nas mulheres ao seu lado que não tinham culpa de nada. De que adianta frequentar um festival literário e não ter elegância?

9- Para todos os exaltadinhos fica então a sugestão de rever a palestra de Lázaro Ramos e da jornalista portuguesa Joana Gorjão. Além de ter sido muito boa com duas pessoas inteligentes com bastante coisa a dizer, no fim de tudo Lázaro ainda pediu para as pessoas se amarem e distribuirem afeto (e beijo na boca). Mais amor, gente. É o que também prega o Marcelismo.

10- Foi desta palestra ainda que surgiu Diva, a senhora que iluminou a Flip com a sua história de vida, de resistência e amor à educação. Professora de Curitiba, ela falou verdades sobre a capital paranaense, coisas que não fariam o Sérgio Moro dar likes. E emocionou a todos. Foi uma das personagens da Flip.

11- Eu não sei quem teve a ideia de inventar o pastel doce. Nem deve ser uma invenção paratiense. Mas foi aqui que eu cai de boca sem perdão e sem pensar no dia de amanhã num pastel de prestígio de 30cm que estava supimpa.

12- Pilar del Rio, que personagem fascinante, inteligente, carismática e bem humorada. Foi encantador simplesmente ouvir as suas opiniões sobre tudo. Absolutamente compreensível o Saramago ter sentido a terra tremer quando a viu.

13- Quando eu crescer eu quero ser inteligente, equilibrado, altivo e ter a classe que o Angel Gurria-Quintana tem para mediar as palestras. Ele devia mediar todos os conflitos e debates da sociedade judaico-cristã ocidental.

14- A gente sabe que foi uma Flip com sérias restrições orçamentárias, mas ficou bem legal a festa na praça da Igreja da Matriz.

O belo cenário de Paraty, onde aconteceu a Flip/Marcelo Alves
15- Todo evento literário é um aprendizado para mim. Ouvir pessoas de opiniões diferentes, aprender com elas. Geralmente é gente muito mais sábia do que eu e com muito a me ensinar. E foi o que aconteceu muitas vezes. Porém, dessa vez não vi um único escritor que me arrebatasse de tal maneira que me fizesse cometer a sandice de levantar a bunda da cadeira e comprar os seus livros na livraria oficial da Flip (onde tudo é caro). Foi o que a Svetlana Alexievitch fez comigo no ano passado. Bom, de certa forma, minha conta bancária agradece.

16- Vi dez debates. Destes, 40% envolveram pensadores portugueses. Acho que eu estava meio obsessivo por um discurso sem gerúndios.

17- Sempre tive respeito por tradutores. Mas a conversa entre o português Frederico Lourenço (que traduziu SÓ a Iliada, a Odisseia e a Bíblia direto do grego) me fizeram enxergar o trabalho do tradutor como um processo criativo fascinante ao mesmo tempo em que é um trabalho dispendioso e de muita ourivesaria e paixão pelo texto original.

18- Frederico, aliás, ganhou o prêmio "ousadia e alegria" da Flip ao, dentro de uma igreja, questionar com argumentos sólidos e bastante aceitáveis a virgindade de Maria. Só faltou chamá-la de danadinha, o que uma senhora atrás de mim fez sem pudor.

19- Aliás, profundo respeito pelo Frederico, que começou a estudar grego sozinho e aos 10 anos, sempre acompanhado do seu pinguim de pelúcia chamado Platão.

20- A gente sabe que a Flip inflaciona Paraty tornando uma odisseia encontrar algum restaurante com um preço honesto. Mas por que é tão difícil encontrar um lugar para comer sem a praga da música ao vivo?

21- Duas descobertas na Flip para aprofundar no futuro: a poesia da grega Safo, que cantada pelo Guilherme Gontijo pareceu profundamente bela. E a existência de um movimento punk na Islândia. Preciso ouvir estas bandas cantando raivosamente como vikings chamando para a guerra.

22- Foi um pouco decepcionante a mesa "Por que escrevo". Não rendeu muito. Uma pena. Vai demorar mais uns 20 anos para outro surfista voltar a ocupar um lugar de destaque numa festa literária.

23- Sjón entoando cânticos antigos de lendas nórdicas me transportou para um tempo que não vivi numa floresta mágica com trovadores, elfos, fadas e vários personagens semelhantes tirados do "Senhor dos Anéis".

24- Marlon James e Paul Beatty eram claramente os headliners da festa. O primeiro pareceu totalmente à vontade e desfilou um monte de referências. Citou até o "Led Zeppelin IV". Beatty tem um jeitão de jogador de basquete e uma fala e gestos mais introspectivos. O debate fluiu bem e foi interessante. Só não foi aquela apresentação épica que esperamos de um headliner. Tipo um Bruce Springsteen quebrando tudo e roubando a sua alma direto do palco.

25- É isso. A Flip continua linda. Um dia eu volto. Não sei se nas mesmas condições ou não. Mas eu volto.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Game of Thrones, capítulo 2

Vamos falar de cargos e emendas parlamentares?
Eu passei tanto tempo esperando o inverno chegar (mas eu só quero o inverno da TV. Na vida pode fazer 32 graus), que eu só penso naquilo. Bom, eu também penso por motivos acadêmicos, mas aí é outra história.
Mas o que aprendemos deste episódio 2 de "Game of Thrones"? Isso aqui:
BEWARE! THE CORNETA IS DARK AND FULL OF SPOILERS!
1- É escandalosa a distribuição de cargos e emendas parlamentares que Cersei tem feito para se manter no poder. Parece até o... deixa para lá.
2- Não que Daenerys tenha que ficar muito atrás. Ela firmou tantas alianças que quando sentar no trono de ferro a conta vai ser padrão PMDB de cobrança. Vão pedir oito ministérios, três estatais, 30% dos cargos de segundo escalão... Vai vendo.
3- Jon Snow é o cara que faz sempre as alianças mais improváveis. É o homem que leva o velho lema do merchan da Adidas, "impossible is nothing", para a vida. Só falta mandar um corvo para os sete reinos com a "Carta ao povo de Westeros" prometendo manter as conquistas da economia e cuidar das pessoas.
4- Já Sansa, coitada, é só bola fora. Essa moça não sabe fazer política. E ainda não entende a hora certa de se manifestar. Eu tenho um pé atrás com ela.
5- Samwell Tarly é a personificação do velho conflito entre o mercado de trabalho e a academia. Todo mundo na Cidadela pensa no ritmo da pesquisa, da análise aprofundada sem tempo para acabar, mas o coitado do gordinho quer agir logo e resolver os problemas. É um meistre de mercado e que não quer perder tempo com divagações (e limpando penico cheio de bosta).
6- Nymeria, é você? Oi, sumida.
7- Melisandre! Oi, sumida. Coincidência, você por aqui.
8- Chorem haters. "Game of Thrones" é a série mais inclusiva de todas. Tem até cenas de sexo com eunucos.
9- "Eu quero ver como você é". Missandei curiosa toda a vida.
10- Por falar em eunucos, tudo o que Verme Cinzento fez para dar moral e melhorar a auto-estima da classe, Theon Greyjoy destruiu em dois segundos ao mostrar que sempre será um banana.
11- Vamos combinar que a cena final do episódio 2 foi melhor que os três últimos "Piratas no Caribe" inteiros.
12- Pobres serpentes de areia. Nunca tiveram muito espaço no enredo da série de TV e mal chegaram e duas delas já foram para a vala.
13- Imaginem se o destino do mundo estivesse nas mãos de Olenna Tyrell e Lyanna Mormont. Só as baratas estariam aqui para testemunhar a história do que sobrou do planeta.
14- Placar da partida até aqui: Team Cersei 1 x 0 Team Daenerys. Mas semana que vem tem mais.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Tragam o verdadeiro Homem-Aranha de volta

É dura a vida da aranha
Até a semana passada eu nunca havia visto qualquer trabalho do diretor Jon Watts. Ainda não dá para dizer se ele é bom ou ruim. Só acho lamentável que ele me faça ser obrigado a baixar o Harold Bloom no corpo para defender o cânone aracnídeo. Olha que papel a Corneta é obrigada a se prestar. 

Bateu a a bad da decepção quando me vi diante de "Homem-Aranha: de volta ao lar". Porque os quadrinhos são sagrados. São sagrados para mim como "Madame Bovary", "Os irmãos Karamazov" ou "Hamlet". Logo, não podem ser assim mutilados com um desfile de erros CRASSOS que estamos vendo neste momento nos cinemas do planeta. 

O maior problema do retorno do amigão da vizinhança para a Marvel no cinema (mas com a Sony faturando do lado) é de abordagem. E não dá para aceitar o excesso de liberdades tomadas diante de um filme que sequer é incrível. Se tivesse ficado excelente, a Corneta até as aceitaria (torcendo a cara, mas aceitaria). Mas não é o caso. Vamos ao jogo dos oito erros de "De volta ao lar": 

1- Não dá para aceitar o Homem de Ferro como uma figura paterna do Peter Parker. Não convence ninguém em nenhum momento. Primeiro porque nunca aconteceu na obra de arte materna, os quadrinhos. Segundo, porque um playboy ex-alcoólatra, mulherengo e bilionário não tem moral e nem tempo para adotar um adolescente. 

2- O Homem-Aranha sempre foi um self-made man. Ele é super inteligente e cria a sua própria teia (check), ele cria e costura o próprio traje... ops! Temos um grave problema aí. Não dá para aceitar um traje supermoderno com um drone aranha, um Jarvis feminino falando com você e variantes de teia porque as aranhas não têm granadas de teias e nem teias elétricas! E tudo o que o Peter Parker cria é inspirado nas... aranhas! Vejam só que coincidência. 

3- E aqui precisamos discutir a ONIPRESENÇA das indústrias Stark nos filmes da Marvel. Tudo bem, nos quadrinhos ela é poderosa, mas nos filmes ela virou simplesmente o McDonald's da tecnologia. Está em cada buraco e delimitando TODOS os padrões de uniformes e engenhocas. 

4- É impossível aceitar a obsessão do Homem-Aranha em tornar-se um Vingador. Sua participação nos Vingadores sempre foi discreta e ele sempre foi o herói da vizinhança, o garoto do Queens que combate o crime em Nova York, dá duro no trabalho e na escola e cuida da Tia May. 

5- Donde chegamos a este ponto: Marisa Tomei como Tia May não dá. Onde está a senhorinha que cuida do Peter? A mulher que perdeu o Tio Ben, o homem que ensinou que grandes poderes trazem grandes responsabilidades? 

6- E na escola? Se o problema do Flash Tompson fosse só ele ter virado um clone adolescente do M. Night Shyamalan eu nem ligaria muito. Mas o cara no cinema, além de ser baixinho e raquítico, de repente ganha um cérebro que nunca teve a ponto de participar de um concurso de perguntas e respostas sobre CONHECIMENTOS gerais. Conhecimento, taí uma palavra que nunca fez parte do dicionário do Flash. E os problemas dele com Peter nunca se resumiram a dar tapas na bundinha dele. Não é uma rivalidadezinha. Flash fazia bullying sério com Peter. 

7- E já que é para falar verdades, vamos implicar com tudo. Estamos na escola. Betty Brant loura e insossa não dá. Cadê a Gwen Stacy? Cadê o Harry Osbourne, que era best do Peter? E se a Mary Jane for mesmo a garota estranha que aparece no filme e que não tem nada a ver com a Mary Jane me avisem logo que eu nem vejo mais as sequências. 

8- Michael Keaton nem me incomodou muito como o vilão. Pelo contrário, está até bem. Mas ele precisava mesmo ser o Abutre-Homem de Ferro com aquela armadura padrão Indústrias Stark? E, convenhamos, meter o Abutre no meio das tretas dos Vingadores é muito forçado. 

São muitos problemas neste novo "Homem-Aranha". Mas eu vou ficar nestes oito. Diante disso, continuo preferindo os dois primeiros filmes do herói, de 2002 e 2004. Suas histórias são melhores e mais fiéis à biografia do herói. Por outro lado, há alguns pontos positivos em "De volta ao lar": 

1- De fato, Tom Holland é o melhor dos três atores que encarnou o Aranha. Eu gostava do Tobey Maguire, embora ele sempre fizesse uma cara de "estou sofrendo, minha vida é um 7 a 1 ininterrupto". E eu apenas engoli e fui benevolente com o Andrew Garfield. O Tom Holland consegue retratar bem o Peter Parker na fase adolescente e caiu bem no personagem. 

2- Problemas à parte, "Homem-Aranha: de volta ao lar" não deixa de ter seus momentos divertidos, embora esteja longe de figurar no top-5 dos melhores filmes da Marvel. "Homem-Formiga" (2015), por exemplo, é melhor. Só para ficarmos em filmes de heróis baseados em bichos pequenos. 

Fato é que desde que a Marvel encontrou a fórmula do sucesso (humor + aventuras leves e família x cenas de ação com bons efeitos especiais + bons atores contando boas historias) vai repetir essa equação até cansar. Por enquanto é receita de brownie. Sucesso garantido. 

Todavia, será que esta fórmula não está cansando? "Homem-Aranha: de volta ao lar" é tão xerox de outros filmes da Marvel que não tem absolutamente nada de interessante a mostrar que não tenhamos visto em outros filmes de heróis da Marvel. Não tem uma única cena que seja memorável e que será lembrada no futuro. E as cenas de ação são FRACAS. A melhorzinha é a de Washington, quando ele salva os amigos de uma roubada. 

O filme de Jon Watts só serviu mesmo para despertar em mim uma curiosidade. Primeiro foi em "Deadpool" (2016), agora foi o "Homem-Aranha" que fez uma homenagem a "Curtindo a vida adoidado" (1986). Quem é o cara da Marvel que curte esse filme maravilhoso?

Enquanto não obtemos a resposta, "Homem-Aranha: de volta ao lar" ganhará uma nota 5,5.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Vamos a la playa

Todo mundo correndo em câmera lenta
Pouca gente lembra, mas Zack Snyder é um grande plagiador. Se alguém achava um big deal aquelas cenas em câmera lenta em todos os filmes de heróis da DC, fiquem sabendo que os precursores disso tudo eram os diretores de "Baywatch"

E agora que a série virou um filme novinho em folha, que saudade daqueles tempo em que eu chegava da escola almoçava, fazia os deveres de casa embalado pela dupla "Cinema em casa", do SBT, e "Sessão da Tarde", da Globo, e, quando dava aquele horário de 16h45m, era a vez de ver "Baywatch". Ou melhor, "S.O.S. Malibu", como era chamado em português, na "Sessão Aventura". Uma vez por semana era assim. 

Sim, crianças, parece um tempo distante, mas não existia "Malhação" lá atrás. A gente via enlatado americano naquele horário. Cada dia uma série diferente. Tinha "Profissão Perigo", tinha "Thunder - Missão no mar", tinha "La Femme Nikita", "Esquadrão Classe A", "Operação Acapulco", "The Flash" e muitos outros. E durante um bom tempo tinha "Baywatch" com suas maravilhosas salva-vidas Pamela Anderson, Carmen Electra, Erika Eleniak, Nicole Eggert, Gena Lee Nolin e Kelly Packard. Todas correndo em câmera lenta com maiôs vermelhos entrando na bunda. Naqueles tempos eu queria muito ser um dos salva-vidas comandados pelo David Hasselhoff. Viver na praia, salvando pessoas, andando em câmera lenta carregando uma bóia vermelha.... parecia uma boa coisa a se fazer no futuro para quem não pensava muito em salários e contas a pagar. 

Então, movido por esse sentimento nostálgico, desloquei-me até o cinema mais próximo para ver a versão cinematográfica de "Baywatch". Agora com novos atores. Dwayne Johnson é o novo Mitch Buchanan, Zac Efron é o novo Matt Brody, Alexandra Daddario é a nova Summer, e, mais importante, Kelly Rohrbach é a nova C.J.Parker. E ela enverga com maestria o maiô vermelho enquanto corre em câmera lenta. 

O filme? Bem, com coisa de 30 minutos eu já estava pensando: "Não sei como Deus me colocou aqui". Afinal, quase tudo ali é uma porcaria. O que não é nenhuma surpresa. Desde quando o que a gente consome sob o domínio dos hormônios da adolescência pode ser bom?

Alguns elementos de "Baywatch" original foram mantidos. História com a profundidade de um pires, atuações sofríveis, diálogos pavorosos e corpos sarados salvando vidas no mar da Califórnia. A isso, foram acrescentadas piadas envolvendo paus, peitos, bundas e fluidos corporais em geral. A série não tinha isso. Era família! 

"Baywatch" começa com Mitch achando um pacotinho de droga chamada "flakka" na praia dele. Ele pensa: "Isso cheira a Breaking Bad. Vou investigar". O problema é que o tenente está selecionando novos trainees para virarem salva-vidas na praia. Prioridades. 

É quando surge Brody. Brody é um ex-nadador dono de duas medalhas olímpicas de ouro, mas que é egocêntrico, maluco, porra-louca e fez muitas loucuras nos Jogos do Rio de Janeiro. Entre elas, vomitar na piscina. Será que é por isso que durante os Jogos uma das piscinas no Rio ficou verde? De qualquer maneira, qualquer semelhança com Ryan Lochte não pode ser mera coincidência. 

Mitch tem que engolir Brody porque ele é uma celebridade que pode ajudar a fazer a praia voltar ser popular e, assim, fazer os políticos investirem novamente na segurança dos banhistas. A Câmara mais uma vez cortou a verba do time Baywatch, o que força Mitch a dizer uma frase que é um recado para o Brasil. 

- A Câmara não sabe o que é melhor para o povo. 

Gente, até Baywatch dá lição de moral no Brasil. 

(Pausa para vermos a C.J. correndo em câmera lenta)

O novo Mitch é um cara legal. Mas tem uns hábitos estranhos. Ele usa tênis para andar na praia e vai a festinhas na night de chinelo. Mas é um cara competente. Ou não seria escolhido pelo velho Mitch para o posto 1, o principal da praia. Sim, o David Hasselhoff faz uma participação para lá de especial. 

Basicamente, a história de "Baywatch" gira em torno de uma traficante que quer privatizar a praia comprando todos os empreendimentos imobiliários da orla. Os nossos salva-vidas favoritos tentam impedir isso ao mesmo tempo em que Mitch tenta incutir em Brody a importância do trabalho em equipe. Enquanto isso, Brody é xingado de todos os tipos de boy bands possíveis. De New Kids on The Block a Jonas Brothers e Justin Bieber. O roteiro do filme faz um inventário de tudo de ruim que já surgiu na música pop. 

Ah, o tem o típico personagem nerd, o Ronnie (Jon Bass). Ele é gordinho e um péssimo salva-vidas, mas todo ano faz o prova do estágio só para tentar se aproximar de C.J. Eu não o culpo. Eu mergulharia com tubarões pela C.J. A sua aprovação no teste, porém, revela que o processo seletivo é tão sério quando indicações de políticos para estatais. 

(Pausa para vermos a C.J. correndo em câmera lenta)

O grande mérito do diretor Seth Gordon no novo "Baywatch" é não levar essa história a sério. Por isso que ele pegou vários elementos da série original e começou a fazer troça deles. Em especial a corrida em câmera lenta, a grande marca do seriado. Esse é o ponto positivo. 

Mas o filme é tão padrão teletubbies de inteligência que ficou difícil defender em quase todos os aspectos. Contudo, a julgar pelo clima nos bastidores da gravação mostrado nos créditos, os atores se divertiram muito. Certamente mais do que os espectadores. Diante de tudo isso, a Corneta sai dessa praia com aquela sensação de quem se queimou sem passar filtro solar. "Baywatch" ganhará uma nota 3.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Uma outra múmia


Tom Cruise está num triângulo amoroso milenar
Eu tenho inveja de Tom Cruise. Não é qualquer um que, aos 54 anos, pode ser jogado de um lado para o outro dentro de um avião em queda livre e correr, correr, correr (como ele corre nos seus filmes) e nunca perder o fôlego. Não é qualquer um que rola dentro de um ônibus desgovernado, apanha de entidades maléficas de trinta mil séculos atrás e consegue ficar tipo quatro minutos sem respirar e nadando freneticamente para fugir de zumbis nadadores. Eu tenho inveja de Tom Cruise. 

Mas a prova de que Tom Cruise é humano é que ele comete erros. Tipo fazer um filme como "A Múmia". 

Estava pensando se "A Múmia" é o pior filme que Tom Cruise já fez na vida. E olha, eu sou um especialista nele, pois sempre vejo os seus filmes. Aí fui no LinkedIn do ator. Vamos lá, ele fez "Oblivion" (2013), que é bem ruim. "Guerra dos mundos" (2005), decepcionante. "No limite do amanhã" (2014) também é bem fraco. Mas realmente, nada é tão constrangedor quanto "A Múmia". 

Mas antes disso poderíamos questionar: Por que outra múmia? Não bastava a trilogia estrelada por Brendan Fraser entre o fim do século passado e o início deste? Por que arrumar outra múmia para inventar uma história de deuses irritados despertando uma profecia e blá-blá-blá. Só pode ser lobby da indústria de lápis de olho e da tatuagem de henna. 

Vejam, eu amo o Egito antigo. Mas é preciso um bom motivo para abrir esse sarcófago. Os apresentados pelo diretor Alex Kurtzman fizeram-me ficar envergonhado. 

"A Múmia" começa com um clichê de filmes de lendas. Aquele momento que rola um ritual na Idade Média sobre uma parada enterrada junto com um padre esquisito num evento com gente estranha. Mas logo voltamos para os dias atuais, quando nos deparamos com o Iraque (Mesopotâmia nos tempos românticos) em guerra. É lá que encontramos Nick Morton (Tom Cruise) e seu parça Chris Vail (Jake Johnson). 

Então eles correm. E trocam tiros. E tem explosões. Isso é normal. Isso acontece em 22 dos 34 filmes que eu vi do Tom Cruise (sim, eu contei). A propósito, ele tem 42 filmes. 

Para encurtar a história, eles descobrem uma tumba egípcia. A arqueóloga que está com ele, com quem ele teve um trê-lê-lê na noite anterior, aliás, diz: "Gente, isso não é normal. Estamos na Mesopotâmia. Muito longe do Egito. Tem caroço nesse angu". 

Jenny (Annabelle Wallis) é o nome dela. E ela estava certa. O que é uma pena. Se estivesse errada o filme acabaria com 15 minutos e poderíamos ir para casa. 

Bom, aí acontece o óbvio. Eles despertam a múmia Ahmanet (Sofia Boutella), que acorda sedenta para beijar muuuuuuito. Lembremos, são milênios trancafiada sem pegar ninguém. Seu poder de atração é tão fatal (literalmente) que até o galã Tom Cruise dá uma balançada. 

Acompanhem. Temos uma milenar múmia egípcia vivida por uma atriz argelina, um militar americano picareta, uma arqueóloga inglesa... e eis que surge... o Russell Crowe! 

Aqui o meu cérebro deu curto circuito porque o Russell Crowe vive um médico que coordena uma espécie de centro de combate à maldade (tem trabalho para vocês em Brasília!). Eu não entendi muito bem qual é a deles, mas no laboratório tinha até crânio de vampiro. 

O que me chamou mais atenção, porém, era o seu nome: doutor Henry Jekyll. Não pode ser. Era uma homenagem a Robert Louis Stevenson, claro. Até que Jekyll se transforma num cara fortão e descontrolado chamado...Hyde. 

Eu estou chocado. O que vai aparecer agora nesse filme? O Van Helsing? O Drácula? A Mulher-Maravilha? O Didi Mocó? O Toni Platão?

Enquanto eu coloco a mão no rosto não acreditando no que eu estava vendo, a múmia passava o rodo em Londres, jogando areia para todo lado e matando quem atravessasse o seu caminho. Tudo para cumprir a profecia de libertar Seth, o deus da morte egípcio. E sempre contando com a ajuda dos zumbis de "Walking Dead", em participação especial. Tudo é possível nesse filme. 

Mas o Tom Cruise correu, pulou, lutou, atirou e... ganhou superpoderes! Sim, gente, o Tom Cruise agora é um X-Men. Que homem! 

Tudo isso é culpa de um tal Dark Universe, uma espécie de versão emo dos heróis dos quadrinhos. A ideia é recuperar esse filão que era um sucesso no tempo em que se amarrava cachorro com linguiça e bater de frente com a Marvel e a DC. Então, segura que ainda vem por aí "A noiva de Frankenstein", "O homem invisível", "O Lobisomem", "Drácula" (aposto que esse vai me irritar), "O fantasma da ópera", "o corcunda de Notre Dame" e "O monstro da lagoa negra". E tudo promete ser interligado. 

Portanto, o pior não é saber que "A Múmia" é pavorosamente ruim. É saber que colocaram uma deixa no final do filme para uma eventual sequência e para uma expansão do universo. Esperamos que pelo menos os próximos sejam mais interessantes. "A Múmia" ganhará da Corneta uma nota 2,5.

O mesmo filme. Nove vezes!

É muita parceria. Na alegria e na tristeza
Sob o argumento indelével da amizade, fui levado para uma sala escura com a desculpa de ver um filme. O que lá encontrei foi um pesadelo. Uma lavagem cerebral de fazer o protagonista de "Laranja Mecânica" fritar o cérebro. Amigos, eu tive que ver num mesmo local e em quase dias horas, o mesmo filme NOVE VEZES. Nine fucking times!

Basicamente esse é o argumento de "Antes que eu vá", uma praga que está espalhada nos cinemas feito malware no computador. 

"Antes que eu vá" é uma espécie de "A cabana" teen e um cruzamento de "13 reasons why" com livros de Lair Ribeiro. Ela conta a história de um dia na vida de quatro migas do high school americano no famoso "Dia do cupido". 

Pelo que o filme explica, o "Dia do cupido" é o dia em que meninas ganham rosas de meninos com declarações de amor e ficam competindo entre si sobre quem tem mais rosas. Muito legal, né? Como se a escola já não fosse escrota o suficiente, ainda rola uma competição que joga os losers ainda mais para baixo. 

Nesse dia especial, as migas estão ansiosas. Tudo porque uma delas vai perder a virgindade com o namorado mané e alcoólatra que dá vexame em festinha, mas que elas acham LIIIIINDOOO, incrível e popular.

Só que ao fim do dia rola um acidente de carro e as quatro migas seguram na mão de Deus e se despedem desse plano rumo ao desconhecido. 

Só que ao invés de dar bom dia para São Pedro, Sam acorda no dia seguinte exatamente do mesmo jeito que acordara no dia anterior. Sendo que o dia seguinte já é o dia anterior. Tá confuso? A física explica. Quando escova o dente, Sam já sente aquele gostinho de deja vu e pensa: já passei por isso antes. 

E agora? Agora começa o nosso tormento porque vamos rever todo o filme de novo com pequenas diferenças. E, pior, o filme nunca melhora! 

Sam está com uma missão divina. Tem que corrigir as cagadas que ela e as migas fizeram na vida escolar para receber o salvo conduto do paraíso. Do contrário, a vida dela e daqueles que o cercam ficarão para sempre presas naquele "Feitiço do tempo" mequetrefe". 

São muitas missões para Sam. Tem que amadurecer, distribuir amor, ser tolerante, amiga, companheira, espalhar a solidariedade e ajudar as pessoas. É praticamente um manual da santidade que ela tem que decorar e aplicar. 

Enquanto isso, nós sofremos vendo tudo isso. Por que? Por que precisamos passar por isso? Talvez seja um alerta do destino para sermos mais tolerantes com a sociedade e o nosso meio ambiente. Prometo tornar-me uma pessoa melhor. Mas “Antes que eu vá” levará uma nota 2,5.