domingo, 29 de abril de 2018

A Marvel e Thanos mostram os seus poderes

Quer um planetinha na cara?
A Corneta sai do exílio do mestrado apenas para falar verdades. E cá estou, tal qual o TRIBUNAL VIVO (entendedores entenderão), para o julgamento final de “Vingadores: Guerra Infinita”. E o veredito, amigos, é que o filme é excelente! Com uma história bem diferente da dos quadrinhos, porém, totalmente excelente.
Parabéns a todos os envolvidos neste processo tortuoso de fazer uma verdadeira orgia de super-heróis dar certo. Os diretores, os roteiristas, os produtores, todos conseguiram misturar doce de leite, chocolate, cocada, leite condensado e brownie e deixar maravilhoso. E pensar que ainda faltou gente no filme!
Eu sempre vou achar muito difícil juntar um monte de personagens de realidades e planetas completamente diferentes e colocar junto e misturado numa história com um nível mínimo de coerência. E nisso o filme é brilhante ao fazer tudo girar em torno de Thanos (e Josh Brolin está ótimo no papel do titã), o grande protagonista de “Guerra Infinita” (como sempre foi). Thanos conduz uma história simples que dá para explicar num tweet dos velhos tempos enquanto todos têm espaço para os seus truques e piruetas sem ficar over.
E a partir de agora, embora não seja bem spoiler uma história que foi publicado há 30 anos, cuidado! Seguem uma penca de SUPOSTOS SPOILERS.
Eu tenho uma professora de cinema que tem um vício de linguagem. Para casa coisa difícil que eu nunca ouvi falar ela usa a expressão: “Como toda a gente sabe”. Vou imitar ela é dizer: Como toda a gente sabe, “Vingadores: Guerra Infinita” é baseada nas trilogias “Desafio Infinito” e “Guerra Infinita”. Este primeiro filme, por sinal, é LEVEMENTE baseado no prelúdio da história publicado para contar os acontecimentos antes da primeira trilogia e no próprio “Desafio Infinito”.
Levemente porque tirando a linha mestra da história, todo o resto foi alterado. Ou seja, permaneceu apenas que Thanos está reunindo as seis joias do infinito para tornar-se onipotente, onipresente, onisciente e dono de tudo o que respira e dizimar metade do universo para reestabelecer através de um super genocídio o que ele chama de equilíbrio.
E as alterações não foram necessariamente ruins. Por que? Vamos a alguns motivos e outros comentários gerais:
1- As motivações de Thanos são muito mais interessantes. Nos quadrinhos ele faz tudo por amor a Senhora Morte, que o despreza até o fim. E os diálogos são bem bregas. Esse lado amorzinho ia ser meio patético no cinema, ainda mais com ele só levando toco e ficando maluco com isso. No filme, Thanos age por ele próprio por acreditar que só o extermínio de metade da vida do universo trará prosperidade e fartura para os sobreviventes. Thanos é um déspota que não teme tomar todas as medidas necessárias para fazer o seu plano acontecer. Para ele, os fins justificam os meios. O que me assusta é que muita gente na rua concordaria com ele.
2- Os heróis obviamente têm muito mais protagonismo no filme. Nos quadrinhos eles são meros joguetes e buchas de canhão para distrair Thanos enquanto entidades celestiais travam a batalha nos bastidores para derrotá-lo. Os únicos heróis que têm algum protagonismo são o Doutor Estranho (no filme, Benedict Cumberbatch) e o Surfista Prateado, grande ausência do filme e figura que, na história original cai na casa de Estranho para avisar da chegada de Thanos. No filme, o Hulk (Mark Ruffalo) fica com esse papel. E não é a mesma coisa. Infelizmente.
3- Mas seria mesmo complicado tirar da batalha toda essa galera de salário baixo e que vem ralando aí desde “Homem de Ferro” (2008). Afinal, o duelo com Thanos era o grande filé que aguardávamos há dez anos.
4- Portanto, parece improvável que os editores e colunistas do universo, Eternidade, Amor, Ódio, Lorde Caos, Ordem e o Tribunal Vivo dêem as caras. Além de Galactus, o devorador de mundos. Ou seja, o confronto com Thanos será menos metafísico e mais físico. O máximo que pode acontecer é o Vigia surgir para testemunhar a batalha, afinal, o Vigia é uma Suíça. Não se mete em nada. Só testemunha a história.
5- Outra mudança importante é que Thanos consegue as joias de pessoas comuns espalhadas pelo universo. E não dos chamados anciões, seres cósmicos e etc...
6- Por falar no nosso vilão protagonista, deram uma baixada de bola. No filme, os heróis até conseguem fazer cosquinha em Thanos. E que cena maravilhosa a do Capitão América (Chris Evans) usando todas as suas forças para segurar a mão do titã. É um retrato do homem comum que faz de tudo para superar as barreiras do impossível e desafiar aquilo que ele não tem a menor possibilidade de vencer. Aquilo é a humanidade falando: “Não desista!”. Praticamente uma cena de auto-ajuda.
7- O Homem de Ferro (Robert Downey Jr.) também tem seus belos momentos contra Thanos na batalha em Titã. Assim como é reservado ao Thor (Chris Hemsworth) algumas das melhores cenas. A chegada dele na batalha de Wakanda é de levantar da cadeira do cinema e gritar “Yes!”.
8- Diante disso, e das inúmeras mortes que aconteceram no passaralho celestial, fica bem claro quem são os protagonistas da parada: o arco destes dez anos foi desenhado para o retorno aos Vingadores originais, aqueles que aparecem no primeiro filme, de 2012: Thor, Capitão América, Homem de Ferro e Hulk. E talvez a Viúva Negra entre na parada. Depois que a relação ficou meio azeda com a briga de gangues em “Guerra Civil” (2016) e a saída de cena de Thor para cuidar de seus problemas particulares em Asgard, pensei até que os Vingadores iam mudar a formação. O que é algo absolutamente comum nos quadrinhos. Porém, ainda não. Esse quinteto ainda tem uma missão importante a cumprir.
9- Além do Surfista Prateado, senti falta de pelo menos da presença dos X-Men e do Quarteto Fantástico em “Guerra Infinita”. Queiram ou não, esta é uma guerra de todos que não devia ser medida por contratos de Hollywood.
10- Também não contava com a morte do Doutor Estranho. Afinal, ele é uma das peças importantes da história. Como antes de desaparecer no estalar de dedos de Thanos ele vislumbrou 14,6 milhões de possibilidades de futuro e sabia o que estava fazendo ao entregar a joia do Tempo, presumo que ele já sabe o que irá acontecer e outro cara com super-poderes vai vir para cuidar da situação.
11- Donde vem a grande pergunta de “Guerra Infinita”. Onde está Adam Warlock? Ele não dá as caras um segundo sequer no filme. E só ele pode acabar com a guerra. Só ele, esse Churchill intergaláctico, pode inspirar corações e mentes em busca da vitória. Só ele e...
12- ...uma mulher foda podem salvar o universo. Vem, Capitã Marvel. Vem Brie Larson. Vem tirar Thanos de seu trono celestial.
13- Como Warlock não aparece no filme, minha expectativa é que ele surja em algum momento no filme solo da Capitã Marvel previsto apenas para o março de 2019. Ou de repente nas cenas extras de “Homem Formiga e Vespa”, o próximo lançamento da Marvel. Se não, bom, em algum momento ele tem que aparecer. Afinal, não existe “Guerra Infinita” sem Adam Warlock.
E agora vamos aos comentários absolutamente aleatórios:
1- Eu vou para o inferno, mas eu ri vendo o Peter Dinklage fazendo um anão gigante.
2- Incrível com a ditadora da barba atingiu até o Capitão América. Logo ele que rivalizava com o Superman como herói de propaganda da Gillette.
3- Achei meio patético o filme anunciar em dois momentos que Thanos acabará com o universo num estalar de dedos usando duas cenas no meio da história de personagens estalando dedos e anunciando que ele literalmente fará isso.
4- Mas realmente a cena que vale mesmo é de arrepiar. E você vendo todo mundo desaparecendo feito pó é um final DAQUELES.
5- Wakanda é sensacional. Eu quero morar em Wakanda.
6- Menos piada é mais história. Continue neste bom ritmo, Marvel. Chega de gracinhas.
7- Aliás, quando pensamos em criticar a Marvel ele nos entrega dois filmes do nível de “Pantera Negra” e “Guerra Infinita” num intervalo de três meses. A Marvel joga o sarrafo lá em cima e deixa a DC comendo poeira, mesmo quando a DC esboça uma microreação.
8- Tem uma cena do trailer que mostra o Hulk lutando em Wakanda. Só que o Hulk não dá as caras desde a briga com Thanos no início do filme. Não sei quem errou nisso. Ou se a Marvel soltou um trecho da parte dois do filme. Bom, como nos quadrinhos há uma volta ao passado (vocês não achavam que iam matar todo mundo assim, não é?) pode ser que ainda role.
9- A Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) está sensacional no filme. O Visão (Paul Bettany) está um bundão. O Doutor Estranho também está maravilhoso. Cumberbatch é um ótimo Stephen Strange. Não podia ter morrido. Se bem que como ele é um mestre das artes místicas talvez consiga reverter a própria morte.
10- Capitão América, Homem de Ferro, Pantera Negra (Chadwick Boseman) e Thor também foram destaques da partida. Homem-Aranha (Tom Holland) teve uma atuação irregular, mas fez bem o seu papel como um volante de contenção. O Hulk brilha no início, depois cai de produção até à escala da irrelevância.
11- A Viúva Negra está apagadíssima e merecia mais espaço, mas só porque amamos Scarlett Johansson, pois na história ela é mera figurante e nem viaja para enfrentar Thanos. E queremos a Viúva ruiva como sempre foi!
12- Por outro lado, Okoye (Danai Gurira) tem que seguir nesta guerra aí. Adoro a líder do exército de Wakanda.
13- Que pena que o os guardiões da galáxia morreram. Especialmente a Gamora (Zoe Saldana). Mas infelizmente precisava abrir espaço para novos heróis entrarem sem estourar o orçamento.
14- Os demais heróis (Falcão, Soldado Invernal, etc...) cumpriram o seu papel de fazer volume nas mortes para impressionar quem nunca tinha lido os quadrinhos.
15- E o Gavião Arqueiro, hein? E o Homem-Formiga, hein? Não deram nem um oi em “Guerra Infinita”. Quando mais se precisa dos amigos...
16- Olho na Nebulosa (Karen Gillan), pois nos quadrinhos ela tem um protagonismo. É possível que venha a ter na sequência do filme.
17- Cotação da Corneta: nota 9,5.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Aventura nostálgica pela cultura pop

Que viagem, amigo

Steven Spielberg quase conseguiu. Não fosse pelas lições de moral, por um vilão ruim, uma cena no final meio nada a ver e o clichê do nerd genial e solitário, “Jogador nº 1 seria um filme top da filmografia do diretor americano. Mas alguns pequenos percalços fizeram o seu novo trabalho perder alguns pontos. No entanto, podemos dizer que “Jogador nº 1” é o seu melhor filmes desde “Lincoln” (2012). E podemos dizer também que é uma excelente diversão para todas as idades. 

“Jogador nº 1” é uma viagem nostálgica pela cultura pop do século XX. São incontáveis os “Easter eggs” que Spielberg espalha por todo o filme baseado no livro de Ernest Cline. Tem King Kong, Godzilla, heróis dos quadrinhos - incluindo uma rápida aparição do carro do Batman da série de tv dos anos 60 - citações a “De volta para o futuro” (1985-90), “O Iluminado” (1980), “Brinquedo Assassino” (1988), “Nos embalos de sábado à noite” (1975), filmes do diretor John Hughes e aos seriados japoneses como “Jaspion” e “Changeman” (aquela batalha no final do robô com o monstro gigantes é de escorrer uma lágrima de emoção de quem foi criança entre os anos 80 e 90) e, claro, aparições dos mais diferentes videogames possíveis. De “Mortal Kombat” aos clássicos jogos de Atari. Para não falar na trilha sonora com clássicos de Van Halen, Depeche Mode, Twisted Sister e tantos outros. 

Tudo isso e muito mais faz com que “Jogador nº 1” seja um dos filmes mais pops que você vai ver nos últimos tempos.  É um olhar diferente de Spielberg para o passado. Para um diretor que acostumou-se a falar sobre um passado duro - e podemos citar só como exemplos “Munique” (2005), “O resgate do soldado Ryan” (1998), “Amistad” (1997) e “A lista de Schindler” (1993) - seu novo filme é como olhar para o passado com o sorriso terno de quem revê “E.T. - O Extraterrestre” (1982) acompanhado de uma aventura moderna, mas que na essência é nos moldes das clássicas aventuras de Indiana Jones com uma linguagem pop de “Prenda-me se for capaz”. (2002). Ou seja, é um Spielberg em boa forma. O que é ótimo depois da decepção de “The Post” (2017). 

“Jogador nº 1” é de certa forma um um Indiana Jones moderno com toque vintage. No futuro sombrio e pós-apocalíptico de sempre (ninguém imagina um futuro legal. Ninguém na arte acredita mesmo na humanidade), Tye Sheridan vive Wade Watts, um garoto que tem uma vida na Columbia pobre, feia e devastada, mas, como todos os seres humanos, tem uma vida paralela no mundo virtual e paradisíaco do OASIS, onde você pode ser o que e quem você quiser e viver as mais incríveis aventuras. 

Parsifal e Art3mis em seus trajes de gala
Nesse lugar teoricamente paradisíaco, ele vive sob um avatar de nome Parsifal. E não é por acaso que ele têm esse nome. Personagem de um antigo poema alemão, Parsifal é o protagonista da ópera de Richard Wagner de mesmo nome. O significado do seu nome é “inocente casto”. Parsifal é o que atravessa o jardim mágico de Klingsor, destrói o castelo, cura as feridas do rei Amfortas e assume a condição de rei do Graal. A jornada do nosso Parsifal do filme de Spielberg é extremamente semelhante ao da ópera wagneriana. 

Ao seu lado, Parsifal tem a companhia de Art3mis (Samantha, no mundo real), personagem vivida por Olívia Cook. Também não é por acaso que ela tem o nome da deusa da caça, da lua e da magia e que na mitologia grega é descrita como a melhor caçadora entre os deuses e homens. É exatamente isso que Art3mis é no OASIS. E por essa característica ela é admirada por Parsifal. 

Os dois têm a companhia de Aech (Lena Waithe), Dalto (Win Morizaki) e Sho (Philip Zhao na jornada que tem aquele jeitão de RPG. Após a morte de Halliday (Mark Rylance), o criador do OASIS, um desafio é lançado. Quem conseguir encontrar as três chaves que Halliday deixou espalhadas no mundo virtual consegue ter o controle do OASIS. 

É claro que isso desperta a ambição da empresa de Sorrento (Ben Mendelsohn), que deseja obter o controle do jogo para controlar o mundo. E aqui temos o calcanhar de Aquiles do filme. Sorrento é um vilão extremamente caricato e idiota. É um filhinho de papai que quer de qualquer maneira obter o brinquedo mais legal do momento. 

Uma pena, pois um vilão ruim que não se pode odiar ou ao menos admirar por suas vilanias até a forma como ele cai pode estragar um filme. Parsifal merecia um antagonista melhor. 

Da mesma forma que os espectadores mereciam um final mais interessante. Era de se esperar que “Jogador nº 1” tivesse um desfecho feliz bem ao gênero dos filmes tradicionais. Porém, a cena do Sorrento conseguindo abrir caminho no meio de mais de cem pessoas só porque tem uma pistola não dá. Que rebelião é essa que não resiste a um revólver?

E quando ele finalmente chega até Wade/Parsifal não dá um tiro porque fica maravilhado com a vitória dele e com o ovo dourado nas mãos do rival. Por favor, né. É o tipo de lição de moral que Spielberg deveria evitar. Ok, o bem precisa vencer o mal. Mas não vem dar recado por meio de indiretas. Ou diretas, como a mensagem no fim de que é preciso viver mais no mundo real. 

Ainda assim, “Jogador nº 1” é uma agradável diversão. As cenas dentro do OASIS são incríveis e muito bem feitas. Parece um videogame em que você está jogando ali. E mal ou bem, a história te prende ainda que o roteiro tenha a estrutura clássica dos três desafios do herói em sua jornada. As etapas sendo vencidas aos poucos etc... É o de sempre, mas quando bem feito não é ruim. 

Cotação da Corneta: nota 7,5

sexta-feira, 30 de março de 2018

A volta de Lara Croft

Sou melhor com o arco que Katniss Everdeen
Adaptações de videogames para o cinema são quase sempre ruins, pois é quase sempre complicado transpor um jogo que é absolutamente linear e sem uma grande quantidade de camadas para a dramaturgia, justamente uma arte que necessita de um pouco mais de particularidades para fazer acontecer o mais raso dos filmes. Ainda mais quando estamos falando de jogos antigos e que não possuem o nível de complexidade e enredo dos criados neste século XXI. 

Em sua primeira versão com Angelina Jolie, Lara Croft ganhou dois filmes que nada mais eram que um videogame filmado com uma história capenga e vilões esquecíveis. O importante era criar situações para os fãs da aventureira saltar, lutar e resolver enigmas complexos com suas habilidades. 

Os filmes de 2001 e 2003 são esquecíveis. Mas Hollywood resolveu dar nova chance a Lara colocando a atriz Alicia Vikander no modelito camiseta e calça (e não mais shortinho) de Lara. 

O resultado do trabalho dó diretor Roar Uthaug é bem mais interessante que a grande maioria de adaptações do cinema. “Tomb Raider - a origem” está longe de ser um filme brilhante. Mas deu uma nova guinada para a história de Lara Croft ao impor uma nova mitologia, construir um passado mais sólido para a personagem  a partir da relação dela com o pai, Richard Croft (Dominic West), e abrir caminho, é claro, para a formação de uma nova franquia que pode vir a ser lucrativa se for mais bem apurada a combinação de aventura, enigmas, um certo misticismo e cenas de ação de tirar o fôlego. 

Pois é disso que se trata a história de Lara Croft. Mas não mais apenas disso. Além de uma caçadora de tesouros, quase uma Indiana Jones em versão feminina, ela agora parece que primeiro precisa arrumar a casa enquanto vive as suas aventuras. Seguir o legado do pai ao mesmo tempo em que tem que limpar as empresas do mesmo de um provável envolvimento com roubos e corrupção. Nos próximos filmes ainda saberemos mais sobre a Trinity e qual o papel de Anna Miller (Kristin Scott Thomas) nisso tudo. 

Enquanto isso, podemos nos deliciar com cenas de ação maravilhosamente absurdas e engenhosas como só o videogame consegue fazer. De fato, este parece ser o único vestígio do legado dos games nesta nova e promissora série de filmes de Lara Croft. 

Todo o resto é novo. E esse novo começo parece ser minimamente interessante para seguir acompanhando um pouco mais esta saga. 

Cotação da Corneta: nota 6,5


segunda-feira, 12 de março de 2018

Wakanda forever

Duelo de titãs
Vamos precisar refazer o ranking de melhores filmes de super-herói porque a África chegou chegando para abalar as estruturas e, principalmente, as certezas, da Marvel. “Pantera Negra” tem tudo o que um bom filme de super-herói deve ter e não tem tudo o que não aguentávamos mais ver nos filmes da Marvel.  
São tantos acertos que vamos enumerar alguns deles no textão a partir de agora: 

1- Foi de chorar de emoção toda a caracterização de Wakanda, o mítico país africano de onde vem o rei T’Challa (Chadwick Boseman). Eu não poderia imaginar algo mais perfeito do que o trabalho feito na criação do país rico em vibranium, o tal metal mais poderoso da terra, e altamente desenvolvido. 

2- Eu li uma entrevista do Ryan Coogler, diretor do filme e do ótimo “Creed” (2015), diga-se de passagem, dizendo que ao trabalhar nessa produção, queria mergulhar nas raízes e tradições africanas, entender e refletir sobre o que é ser africano e pensar no que a África poderia ser se suas riquezas não tivessem sido saqueadas por impérios coloniais. Não tenho todo o conhecimento necessário para dizer se ele acertou em cheio, mas a Wakanda que ele nos presenteia é uma nação rica, de alto desenvolvimento tecnológico e vasto conhecimento científico partilhado por todos, com homens e mulheres vivendo em condições iguais e que ao mesmo tempo não foge das suas tradições tribais, das suas cores, dos seus cantos e que exibe uma exuberância da natureza só encontrada num continente como a África. Tudo sem aquela cara de “olha que coisa exótica” para o homem branco olhar encantado como diante de uma experiência antropológica. É apenas e tão somente cultura. 

3- Wakanda é uma sociedade idílica? Talvez. Mas essa é uma obra dos quadrinhos. Contudo, por que seus ideais não seriam possíveis? 

4- Outro acerto maravilhoso está no elenco recheado de bons atores negros que estão se destacando no momento. Chadwick Boseman é um excelente Pantera Negra. Daniel Kaluuya, protagonista de “Corra!” (2017), também está bem como o líder tribal W’Kabi. E ainda tem a Lupita Nyong’o como a Nakia, namorada de T’Challa, e Michael B. Jordan no papel clássico do vilão que quer espalhar o caos pelo mundo (eles sempre querem dominar ou levar caos ao mundo). 

5- Mas de todos, a minha personagem favorita é a general Okoye (Danai Gurira). Ela faz o braço-direito do Pantera Negra, é a líder do Exército de Wakanda, e maneja uma lança de fazer inveja aos melhores guerreiros. Torci muito para Okoye não morrer no filme. Principalmente quando achei que isso estava perto de acontecer. 

6- “Pantera Negra” também é bom por dialogar com uma série de questões da atualidade. Tem menções ao Boko Haram, fala de refugiados, fala sobre o papel e que tipo de protagonismo uma nação rica e próspera deve ter no mundo. Fala sobre o roubo de riquezas e apropriação da cultura e sobre igualdade (ou a busca de uma igualdade de gênero, de raça). Tudo dentro do entretenimento porque isso aqui não é caridade. É para fazer dinheiro. 

6- Com o filme, e um filme tão bem feito, a Marvel também paga uma dívida de ter um personagem negro como protagonista de algo. Convenhamos, a série do Luke Cage é um pouco caída. Faltava um personagem bom num filme bom. Nisso, eles saíram na frente da DC. O “Raio Negro” tinha potencial, mas está começando a cair na mesma esparrela ruim das outras séries da DC. 

7- “Pantera Negra” também tem o mérito de nós apresentar a verdadeira face do Andy Serkis! Nos últimos anos ele foi o Gollum do “Senhor dos anéis”, o Caesar do “Planeta dos Macacos”, o Snoke de “Star Wars”... tudo entidade sobrenatural ou indivíduo pós-darwinista. Um dos dois atores brancos do filme (o outro é o Martin “doutor Watson de “Sherlock” Freeman), ele vive o traficante malucão Ulysses Klaus. Uma pena que não dura muito.

8- Fora tudo isso, o que eu mais queria de Wakanda era tomar aquela ayahuasca púrpura só para ir para a outra dimensão e ver a aurora boreal violeta de lá. Deve ser muita onda. 

9- E no fim eu espero que a Marvel tenha aprendido a lição e finalmente se liberte de sua cansativa fórmula. É possível fazer um filme bom e divertido, que seja entretenimento e que trate de questões relevantes sem usar piadinhas dos Três Patetas ou expressões de tio do pavê. 

10- É isso, amigos. Wakanda forever!

Cotação da Corneta: nota 9

domingo, 4 de março de 2018

E se eu votasse no Oscar?

Hoje é o grande dia, amigos. Foi para isso e só por isso que trabalhamos o ano todo cornetando filmes. Hoje é o dia de falar mal do Oscar! E dessa vez eu não sei como vou ver porque a minha diferença de horário para La La Land está em oito fucking hours!
Mas enquanto a festinha não chega, vamos aos comentários malemolentes para animar este domingo. Afinal, Corneta é vida.
1- O candidato a papa-carecas dourados da vez é “A forma da água”, aquela fábula lírica sobre zoofilia. São 13 indicações. Logo, é improvável que o filme de Guillermo del Toro não saia pelo menos com um prêmio de consolação do tipo “melhor edição de som” para poderem colocar no cartaz no futuro a frase: “vencedor de xx Oscar”.
2- “A forma da água”, inclusive, tem chance de ganhar o maior prêmio da night. Seria um 7 a 1 para a Casa Branca de Trump ver um gordinho barbudo de Guadalajara levar o maior prêmio do cinema americano. Logo, seria divertido.
3- Porém, se me dessem o poder do voto (e eu não sei porque ainda não fizeram isso), o melhor filme iria para “Dunkirk”. É o filme mais interessante, mais inventivo e o que me deixou mais EMBASBACADO quando vi.
4- Contudo, acho improvável que “Dunkirk” vença. É um filme absolutamente branco, um filme Omo dupla ação, e que foi criticado por ter excluído os soldados indianos que participaram da guerra e também estiveram naquela batalha. E todos sabemos que a política e mandar recados são dois elementos importantes da festinha. Hollywood já apanhou por ter um Oscar branco, está apanhando com as denúncias de assédio e eles precisam mandar o recado da diversidade para a gente fingir que acredita.
5- Todavia, o prêmio estará muito bem dado se for para “Três anúncios para um crime”, o meu segundo favorito na categoria principal, ou “Trama Fantasma”. Se der “A forma da água”, “Me chame pelo seu nome” e “Lady Bird” será fofo. Se der “Corra!” será uma bela surpresa. Qualquer outro resultado, podemos dizer categoricamente que será um ERRO.
6- Principalmente se der “The Post”. Um filme muito abaixo da média neste grupo dos nove indicados. E, aliás, fica aqui o recado dado há dois anos, antes da aberração de “Spotlight”. Se “The Post” vencer eu não quero ouvir falar em vitória do jornalismo, bicampeonato do jornalismo, viva a imprensa, vamos trazer o Pasquim de volta, e frases como “a prova que o mundo não vive sem bons repórteres e sem a nobre função do jornalista” e coisas do gênero. Se “The Post” vencer não será uma vitória do jornalismo. Será uma derrota do cinema.
7- Inclusive, dois vacilos dessa premiação foi não ter incluído “Eu, Tonya” e “Blade Runner 2049” entre os indicados a melhor filme. Os outros vacilos foram a ausência de Dennis Villeneuve entre os indicados para diretor, a de Armie Hammer (“Me chame pelo seu nome”) entre os indicados a ator coadjuvante, e, eu diria até que o Tom Hanks (“The Post”) merecia uma indicação como ator.
8- O prêmio Corneta de diretor, obviamente, vai para Christopher Nolan (“Dunkirk”).
9- Entre os atores, o meu voto vai para Daniel Day-Lewis (“Trama Fantasma”). No desempate, considerei muito mais desafiador criar do nada uma figura irascível e intragável, mas com uma série de camadas interessantes como o estilista Reynolds Woodcock do que imitar uma celebridade como Winston Churchill, já vivida por tantos atores com muita competência. Ainda que o trabalho de Gary Oldman seja brilhante e não será uma aberração se ele vencer. Porém, o que ele mostrou de verdadeiramente novo?
10- Sally Hawkins fez o que talvez seja o trabalho da vida dela. Seria legal se ela vencesse o prêmio de atriz. Mas o meu voto vai mesmo para Frances McDormand que é uma verdadeira TITÃ em “Três anúncios para um crime”.
11- Ator coadjuvante? Sam Rockwell, o policial Dixon em “Três anúncios para um crime”. Mas não seria de todo ruim ver o Christopher Plummer vencer, pois ele é a única coisa realmente interessante em “Todo o dinheiro do mundo”. Willem Defoe? Não sei o que está fazendo entre os indicados.
12- Atriz coadjuvante? Allison Janey, a mãe de Tonya Harding em “Eu, Tonya”. Mas Octavia Spencer tem a minha medalha de prata.
13- Roteiro original? Gosto da história de “A forma da água”, dos diálogos, dos personagens. Mas dos cinco, a ideia mais legal é a de “Corra!”, que ganha o meu voto. Roteiro adaptado? É muito picareta da minha parte votar nisso porque eu só conheço os quadrinhos do Wolverine. Mas como eu duvido que todos os que votam tenham lido as obras originais, votarei em “Me chame pelo seu nome”. Mas se “Logan” vencer eu ficarei pessoalmente bem feliz.
14- Filme estrangeiro, minha categoria favorita. Não vi “O insulto”. Então como esse DVD não chegou na minha mesa, meu voto vai para o russo “Sem amor”.
15- Design de produção? Eu não entendo nada de design de produção. Desde que não ganhe o medíocre “A bela e a fera” está tudo bem. Figurino? Desde que não ganhe o medíocre... enfim, vocês sabem. Tudo porque é inaceitável que “A bela e a fera” ganhe o direito de ter um futuro cartaz escrito “vencedor de xx Oscar”.
16- “Mystery of love”, de Sufjan Stevens, do filme “Me chame pelo seu nome”, é tão absurdamente linda que todas as outras canções deviam se retirar da disputa. Principalmente “Remember me” (“Viva - a vida é uma festa”), que nem devia estar lá. Já a trilha sonora eu vou me abster porque nenhum dos indicados me pareceu verdadeiramente marcante.
17- Animação? “Com amor, Van Gogh”, que tem o meu voto, e “The Breadwinner” são tão superiores aos demais que eu não consigo imaginar outro vencendo. Pior que pode realmente acontecer. Afinal, “Viva” ganhou o Globo de Ouro. Aí como eu vou levar animação a sério?
18- Edição? “Em ritmo de fuga”, por favor. Edição de som e mixagem de som? “Dunkirk”, por favor. Fotografia? “Blade Runner 2049”. Efeitos visuais? “Blade Runner 2049”. Maquiagem e cabelo? Não acredito que essa categoria ainda existe.
19- Queria muito que a cerimônia hoje durasse duas horas. Dá para fazer. Basta ter vontade política.
20- Mas espero que pelo menos dessa vez acertem todos os envelopes da premiação. 

sábado, 3 de março de 2018

O ranking do Oscar

"Dunkirk", o melhor filme
Mais um ano de maratona do Oscar. Mais um ano fazendo um grande esforço de reportagem e, quando necessário, mergulhando na INTERNET PROFUNDA para tentar completar o álbum de figurinhas. Mas desta vez, tal qual o álbum da Copa de 90, quando me ficou faltando uma figurinha dupla dos Emirados Árabes Unidos, não pude manter o 100% de aproveitamento. Fiquei devendo o libanês “O insulto”.
“O insulto” preferiu se esconder para não ser cornetado, mas todos os outros 38 filmes deram a cara a tapa. Agora, o que resta à Corneta é divulgar o SUPER RANKING anual dos filmes que concorrem a alguma coisa no careca dourado-2018.
E neste ano viemos com uma novidade. Pela primeira vez trabalhamos com animações, tendência que manter-se-á nas próximas edições do ranking Corneta. Mas continuamos não trabalhando com documentários.
Sem mais delongas, vamos ao ranking final:
1°- “Dunkirk” - nota 9,5
2°- “Blade Runner 2049” - 9
3°- “Logan” - 8,5
4°- “Três anúncios para um crime” - 8

(Os filmes acima estão classificados para a Libertadores)
5°- “Com amor, Van Gogh” - 8
6°- “Trama Fantasma” - 8
7°- “Eu, Tonya” - 8
8°- “Mudbound - Lágrimas sobre o Mississipi” - 8
9°- “The Breadwinner” - 8
10°- “A forma da água” - 7,5
11°- “Me Chame pelo seu nome” - 7,5
12°- “A grande jogada” - 7,5

(Os filmes acima estão classificados para a Copa Sul-Americana)
13°- “Sem amor” - 7,5
14°- “Corra!” - 7,5
15°- “Lady Bird” - 7
16°- “Em ritmo de fuga” - 7
17°- “Marshall” - 7
18°- “Corpo e alma” - 7
19°- “O destino de uma nação” - 7
20°- Guardiões da galáxia vol. 2” - 7
21°- “Uma mulher fantástica” - 6,5
22°- “Roman J. Israel, Esq.” - 6,5
23°- “Star Wars: os últimos Jedi” - 6,5
24°- “O rei do show” - 6,5
25°- “Doentes de amor” - 6,5
26°- “Planeta dos macacos: a guerra” - 6,5
27°- “Victoria e Abdul” - 6,5
28°- “O artista do desastre” - 6,5
29°- “The Square - a arte da discórdia” - 6
30°- “The Post” - 6
31°- “Todo o dinheiro do mundo” - 5,5
32°- “O poderoso chefinho” - 5
33°- “Kong: a ilha da caveira” - 5
34°- “Extraordinário” - 5

(Os filmes abaixo foram rebaixados para a segunda divisão)
35º- “A bela e a fera” - 5
36°- “Projeto Flórida” - 4,5
37°- “Viva - a vida é uma festa” - 3
38°- “O Touro Ferdinando” - 3

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

A treta da patinação no gelo

Contemplem a minha maravilhosidade
Estar diante de “Eu, Tonya” é fazer a pergunta inevitável: patinação artística é esporte, educação física ou balé com patins? O filme de Craig Gillespie só ajuda aos que defendem a tese de que não é esporte. Afinal, por mais incrível que Tonya Harding (Margot Robbie, que está muito bem no filme) pudesse ser, a primeira parte do filme mostra que ela era sempre julgado pela sua aparência, digamos, menos clássica, e suas escolhas musicais pouco ortodoxas nas performances (meu Deus, o que esses caras tinham contra ZZ Top?). Ou seja, na patinação, não basta ser a melhor no que faz porque tem sempre um jurado de ALEGORIAS E ADEREÇOS para baixar a sua nota.
Pior, se toda a versão do diretor for correta - a reprodução dos momentos de competição, pelo menos, é impecável -, Tonya ainda era julgada pelo seu comportamento explosivo fora do ringue porque todos queriam um exemplo da família americana nas Olimpíadas de Inverno. Ou seja, além do jurado de alegorias e adereços, ainda há o jurado da MORAL E DOS BONS COSTUMES. E vocês ainda querem que eu considere patinação esporte. É bonito, mas onde está a avaliação técnica das performances? Onde está o nível Corneta de qualidade?
Mas “Eu, Tonya” não é apenas um filme, e, aliás, um dos melhores deste Oscar, sobre verdades acerca da patinação. É também sobre uma das maiores tretas dos esportes de inverno. É ainda mais um filme sobre como o esporte é tão belo quanto sujo e também sobre como escolher muito mal as suas amizades.
Falemos sobre o caso. Tonya Harding era uma atleta talentosa que foi a primeira americana a executar um triple axel numa competição. O triple axel é uma pirueta em que você dá três giros e meio no corpo no ar e aterrissa lindamente como princesa da Disney no gelo. É uma manobra muito difícil e raramente executado neste “esporte”. Tonya fez isso e ganhou notoriedade. Mas seu talento nunca foi o suficiente.
Vinda de uma família pobre com uma mãe que a agredia constantemente (vivida maravilhosamente bem por Allison Janney), Tonya tinha que se virar nos 30 para vencer na patinação. Isso incluía costurar as próprias roupas. Roupas estas que não agradavam aos jurados fancy.
No fim da adolescência, ela foi viver com o marido Jeff (Sebastian Stan), o que significou apenas uma nova mão para lhe bater. Esse casamento foi o maior erro da vida dela e custou a sua carreira.
Isso porque, após o quarto lugar nas Olimpíadas de Inverno de Albertville, na França, em 1992, Tonya ganhou a sua segunda chance graças à decisão do COI de mudar a data das Olimpíadas de Inverno para não coincidir com os Jogos de Verão. Ou seja, a próxima edição seria em 1994, em Lillehammer, na Noruega.
Tonya treinou feito um Rocky Balboa para entrar no time olímpico americano. Mas o seu marido e o seu guarda-costas Shawn (Paul Walter Hauser) acharam que podiam dar uma forcinha. Então, contrataram um cara para acabar com o joelho da grande rival de Tonya, Nancy Kerrigan (Caitlin Carver), a queridinha e princesinha dos americanos.
Por causa disso, Tonya quase perdeu a vaga na equipe americana. Aliás, o filme dá a entender que a atleta só foi mantida porque a CBS, que tinha os direitos de transmissão dos Jogos, estava de olho na alta audiência que obteria com a rivalidade Tonya-Nancy no ringue. Ah, o esporte. Por que eu não fico surpreso?
Tonya sempre negou que soubesse dos planos do guarda-costas toupeira (meu deus, ele realmente é um idiota que vive no mundo da lua) e do marido, mas no fim foi quem pagou o preço mais alto. Divino e terrestre. Afinal, ter problema no equipamento no momento da sua apresentação olímpica é coisa quase impossível e só causada pelos deuses do esporte. E na Terra porque foi quem pagou o preço mais alto ao ser banida da patinação.
No fim, ficou a sensação de que se fosse menos cabeça quente e tivesse uma família mais estruturada, Tonya Harding poderia ter ido bem mais longe na esporte. Suas glórias se resumem ao triple axel e uma prata no mundial de Munique, em 1991. E sua biografia acabou sendo manchada eternamente por esse episódio.
Nancy, por sua vez, conquistou duas medalhas olímpicas (uma prata justamente em Lillihammer após o ataque ao seu joelho), tem uma família fofa com dois filhos ginastas e diz que nunca recebeu um pedido de desculpas de Tonya. Ela diz que não viu o filme e não pretende ver. E afirma que a vítima disso tudo foi ela. Hoje, a ex-patinadora participa da “Dança dos Famosos” nos EUA.
Nancy tem suas razões. “Eu, Tonya”, de certa forma, pinta Tonya Harding como uma vítima. Do sistema, da mãe e do marido abusivos, da Justiça e do Comitê Olímpico. Por mais que também a mostre como uma figura irascível. Porém, não deixa de ser um belo filme feito com jeitão de documentário com seus depoimentos fakes dos personagens. Tudo para contar uma história para lá de surreal. Ainda não consigo acreditar no quão idiota era aquele guarda-costas.
Cotação da Corneta: nota 8.
Indicações ao careca dourado: melhor atriz (Margot Robbie), atriz coadjuvante (Allison Janney) e edição. 

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Ah, os amores da Itália

"How yoy doin'?
Não tem como um filme que se passa na Itália não ser bonito. Na Itália, a grama é mais verde, as pedras da rua são mais bem esculpidas... Até a poeira de casa tem um ar renascentista como se fosse soprada por anjos gordinhos pintados por Michelangelo. Então, não tem como não achar “Me chame pelo seu nome” um filme bonito.
Mas não é só pelo cenário idílico que o filme de Luca Guadagnino é bonito.
(E ATENÇÃO, A PARTIR DE AGORA: CALL ME BY SPOILERS THAT I CALL YOU BY CORNETA)
“Me chame pelo seu nome” é bonito porque é delicado, terno, FLUIDO, ALGODÂNICO, se equilibra entre uma certa tensão e uma leveza e é uma história de amor que não tem aquelas coisas bobas, idiotas e clichês de Hollywood com gente se esbarrando e encontrando coincidências na vida enquanto come macarrão.
O filme só não precisava ter aquele final feito propositadamente e de forma PICARETA para você chorar. Uma cena interminável onde o menino Elio chorou até o momento em que a tela mostrava “Fulana de tal: assistente de maquiagem dos figurantes. Siclano, figurinista do dono do bar na cena 56”. Obviamente eu não cai nesse recurso barato de novela e não chorei. Deixei o moleque sozinho nessa. Sorry, Elio. Mas nada que prejudique um filme que muitos só não consideram mágico porque falta ter arco-íris e unicórnios.
“Me chame pelo seu nome” começa com mais um dia bucólico de verão europeu no norte da Itália. Em meio a um vilarejo qualquer cheio de prédios milenares, sol, árvores e terra batida, vive um professor de história da arte calminho (Michael Stuhlberg) e sua família. Todos passam o verão na Itália só curtindo os aspectos hedonistas da vida. Elio (Timothée Chalamet), por exemplo, adora ler, tocar piano, agitar uns dates com uns brotos, mexer o esqueleto em festinhas e nadar no lago. É a vida que qualquer um pediria a Deus.
Só que a vida de Elio começa a bagunçar quando o americano Oliver (Armie Hammer) chega para uma temporada de troca de experiências com o professor Pearlman. Mas, aparentemente, não apenas com ele. Logo de cara, Oliver mostra que não está ali a passeio. No primeiro jogo de vôlei, já manda um “how you doing” para o Elio.
- Você está muito tenso, amiguinho. Relaxa. Distende os músculos. Sente o clima.
- Ih, para com isso. Eu estou bem. Sai pra lá.
Elio não percebe nada. Caramba, Elio! Até eu que sou tapado notei que ele estava te dando mole.
Pois bem, depois dessa vacilada, ele fica recebendo uma sequência interminável de “Later” que o faz até procurar a Mariza (Esther Garrell). Mariza, coitada, ama o menino Elio e por isso demora a perceber o que até os pais dele já sabem. Ele está em outra e tem “uma BELA AMIZADE” com Oliver.
A partir daí é tudo poesia, amigos. Porque o amor é esse farfalhar de borboletas num interminável bosque italiano ao som da bela canção “Mistery of love”, de Sufjan Stevens.
Uma pena para o Elio que não apenas todo carnaval, mas todo verão também tem seu fim. E a realidade é uma enchente que bate à porta da sua casa. Uma pena para ele, mas melhor para o filme, é claro. Final feliz quase sempre é brega.
No fim, “Me chame pelo seu nome” nos dá uma lição que eu só captei mesmo depois de uma conversa-debate com um amigo que me disse a seguinte frase: “Às vezes, o amor não basta”. E segue o baile.
Cotação da Corneta: nota 7,5.
Indicações ao careca dourado: melhor filme, roteiro adaptado, ator (Timothée Chalamet) e canção. 

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Quanta gritaria...

Então, a mamãe está resolvendo uns probleminhas
Um filme que começa com três crianças gritando por trinta segundos naquele clima de praça de alimentação de shopping numa tarde de domingo não pode ser bom. E é pior ainda quando você percebe que a gritaria perpassa as quase duas horas de “Projeto Flórida”. Eu não sei como eu sobrevivi. Mas cá estou para falar deste filme. 

Para começo de conversa, “Projeto Flórida” está no Oscar e eu não entendo o motivo. Isso porque a sua única indicação é para um Willem Defoe apenas sendo Willem Defoe. Nada de especial, nada de destacado. Consigo pensar em pelo menos dez papéis mais interessantes que o Defoe fez ao longo da vida. Logo, pareceu-me um exagero essa indicação de coadjuvante. 

E ainda tem as crianças malas. É um filme com a maior reunião de crianças malas da história recente de Hollywood. É de enlouquecer vê-las gritando e fazendo merdinhas o tempo todo. Quer dizer, nem tudo é merdinha. Afinal, colocar fogo numa casa é uma merdona. 

Mas nem tudo é ruim em “Projeto Flórida”. O filme tem umas sutilezas interessantes, e, de longe, a personagem de Bria Vinaite é a mais interessante. Bria faz Hailey, a mãe de Moonie (Brooklynn Prince), a mais espevitada das crianças. Hailey é a história sofrida de uma mulher em que tudo dá errado, mas ela tem que se virar para criar a filha da melhor maneira possível. 

Ela mora com a criança num quarto de motel xexelento na Flórida, no caminho para a Disney, mal tem dinheiro para pagar o aluguel, não consegue emprego, já foi presa, já foi stripper e usa a prostituição como último artifício para tentar dar alguma alegria e manter a filha consigo, antes que o pessoal do serviço social a tire dela. 

A menina, por sua vez, passa os dias todos brincando (e fazendo merdinhas) no motel e no seu entorno, dando pequenos golpes e transformando a sua realidade da forma mais lúdica possível. O importante para ela, porém, é essa relação inquebrantável de amizade com a mãe. Inclusive, elas são muito parecidas nas atitudes e posturas. Natural. 

É uma história dura, quase um cruzamento de “Pequena Miss Sunshine” (2006) com a trama da mãe drogada de Little em “Moonlight” (2016), mas isso é mais explorado apenas no terço final do filme.

Durante toda a projeção o que ficam mesmo são os gritos. Eles vão batucar no meu cérebro ainda durante um tempo. 

Cotação da Corneta: nota 4,5.

Indicações ao careca dourado: Ator coadjuvante (Willem Defoe)

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Um 'A Bela e a Fera' que deu certo

Um mergulho apaixonado
Guillermo del Toro curte uma fábula. E curte uns personagens desajustados para tratar do respeito ao que é diferente, ao que tem uma cultura que não é a da maioria, para falar do medo do diferente e do que vem de fora e de como usamos a ignorância e expomos cruelmente os nossos preconceitos. Para isso, ele gosta de usar monstros. Podem ser criaturas próprias como as do “Labirinto do Fauno” (2006), ou mesmo Hellboy, o personagem dos quadrinhos em dois filmes de 2004 e 2008.
E o que podemos dizer sobre “A forma da água”? É sobre tudo isso aí no parágrafo anterior. E é bonito, é singelo, é fofo e.... convenhamos, não é nada original. “A forma da água” nada mais é do que um “A bela e a fera” que deu certo. Isso porque “A bela e a fera” é um desenho ruim e um filme medíocre. Tudo o que “A forma da água” não é. Talvez a Disney pudesse contratar o Del Toro para um reboot para ver se ele consegue salvar aquela história brega.
Então, o filme do diretor mexicano é uma fábula bonita sobre o amor. Aliás, quantos filmes sobre as mais diferentes formas de amar neste Oscar, hein? É o amor idílico e fugaz de “Me chame pelo seu nome”, é o amor através do ódio mútuo e da manipulação de “Trama Fantasma”, é o amor transcendental freudiano de “Corpo e alma”, o amor incondicional e sem barreiras de “Uma mulher fantástica”.... e eu nem terminei de ver todos. Hollywood deve estar carente.
Mas apesar desse momento amorzinho, “A forma da água” vale por duas coisas.
1- A participação impagável de Octávia Spencer como a faxineira Zelda Fuller. Os diálogos feitos pelo Del Toro para ela são maravilhosos, as histórias do marido mala são muito divertidas e a atriz está inspirada como o personagem cômico do filme.
2- Sally Hawkins no papel da outra faxineira, a Elisa Esposito, que se apaixona pelo anfíbio Aquaman da Amazônia com sérias restrições orçamentárias. Sem dúvida é um dos seus grandes trabalhos no cinema. A sua personagem é apaixonante e uma das grandes criações de Del Toro. Essa mulher muda e solitária que mora num apartamento no topo de um cinema que exibe filmes hoje considerados clássicos, divide o espaço com um homem gay e se apaixona por uma entidade que só ela tem a paciência e a ternura de tentar se comunicar (e fazer uns ovos para ele lanchar). E que no seu silêncio nos faz refletir sobre o que é ser humano e o que é ser monstruoso.
Muito bonita essa descrição acima né? Uma pena que eu não posso dizer o mesmo dos personagens de Michael Shannon e Nick Searcy. Toda a criatividade e ACUIDEZ que Del Toro usou para criar as suas personagens femininas, transformou-se em preguiça e caricatura no caso dos militares Richard Strickland e do coronel Hoyt. Duas figuras sem camadas usadas apenas para serem os homens maus, pois toda história de amor precisa de homens maus. Qual eram suas motivações? Por que tiraram o Aquaman da Amazônia, onde ele era adorado pelos índios? De onde veio a informação que tinha um Aquaman lá? Por que o governo João Goulart não se manifestou sobre esse roubo? Ou será que foi no início da ditadura e os militares colaboraram com o governo americano? Nunca saberemos.
E aí no meio disso tudo surgem os russos, que não querem ser passados para trás na Guerra Fria, mas ninguém sabe como eles se infiltraram no laboratório e receberam as informações. O doutor Hoffstetler está lá, mas por que ele está lá? As instalações aparentemente não têm outras criaturas inanimadas e X-Men em geral. Pelo contrário, o tal laboratório, que ninguém sabe a quem pertence e que trabalho desenvolve não parece ter nada interessante até a chegada do anfíbio que grunhe e gosta de comer ovo e ouvir música. Por que os russos estão lá? E que esquema de segurança é esse que qualquer faxineira pode entrar nos lugares mais top secrets e mandar um how you doing em linguagem de sinais para monstros marinhos?
Mas você sempre pode acreditar no amor sem fronteiras e preconceitos. E como fábula desse amor “A forma da água” talvez te faça até escorrer uma lagriminha. Não foi o caso da Corneta porque aqui é trabalho sério.
Antes de ir embora, um parênteses. E o Michael Stuhlbarg hein? Resolveu aparecer em todos os filmes do Oscar? Ele é o cientista Hoffstetler aqui, é o pai do Elio, o menino gay de “Me chame pelo seu nome”, é o diretor de redação do “New York Times” em “The Post”. Acho até que eu vou rever os outros filmes para ver se ele está bancando o Stan Lee na Marvel e aparecendo em todos os filmes do Oscar.
Cotação da Corneta: nota 7,5.
Indicações ao careca dourado: melhor filme, atriz (Sally Hawkins), atriz coadjuvante (Octávia Spencer), ator coadjuvante (Richard Jenkins), diretor (Guillermo del Toro), trilha sonora, roteiro original, fotografia, montagem, figurino, mixagem de som, edição de som e edição.