terça-feira, 14 de novembro de 2017

A paixão de Van Gogh

A beleza do trabalho dos diretores de Van Gogh
Depois de mais de um século de indústria cinematográfica, é muito difícil encontrar algum filme que traga algo de original e diferente do que já tenha sido feito. Mas parece-me que os diretores Dorota Kobiela e Hugh Welchman conseguiram esse feito em pleno 2017. Boa parte da beleza de “A paixão de Van Gogh” (Loving Vincent, no original) está na ousadia de sua execução.

Foram cinco anos trabalhando numa cinebiografia diferente de qualquer outra coisa que já tenha sido feita sobre outro artista. “A paixão de Van Gogh” é uma animação toda feita com pintura a óleo e tinta no estilo que consagrou o pintor holandês (infelizmente só) após a sua morte, em 1890, aos 37 anos. Um total de 120 artistas pintaram 65 mil fotogramas utilizando a mesma técnica de Van Gogh para dar vida a esse filme que é de uma beleza ímpar e um deleite para os fãs do pintor.

O objetivo da diretora polonesa e do seu colega inglês era fazer com que as obras de Van Gogh falassem por si, ganhassem vida na tela. Em uma hora e meia, vemos muitas telas e muitas referências aos trabalhos do artista. Vemos personagens reais retratados por ele nos seus quadros ganharem vida e um papel ainda mais relevante do que meros rostos em telas pós-impressionistas.

Mas tratando-se de Van Gogh, o filme não ficaria apenas na ousadia do formato. “A paixão de Van Gogh” também foge do tema tradicional das cinebiografias, que costumam contar a história do artista da infância até a morte. O filme prefere criar uma narrativa detetivesca procurando investigar como o pintor teria falecido.

Oficialmente, Van Gogh, cometeu suicídio ao atirar em si mesmo no dia 27 de julho de 1890. Mas há teorias de que ele poderia ter sido assassinado, por acidente ou não, por René Secretan, um jovem que vivia implicando com o pintor na cidade francesa de Auvers-sur-Oise. O filme resolve explorar isso e as declarações contraditórias de personagens que conviveram com o artista em seus momentos finais na França.

Com isso, a ação se passa justamente um ano depois de sua morte. Na ocasião, uma carta nunca enviada para o seu irmão, Theo Van Gogh, surge nas mãos do jovem Armand Roulin (Douglas Booth), que, antes de enviá-la para a agora viúva de Theo, irmão mais novo de Van Gogh e que morreu seis meses depois do pintor.

Roulin traça a linha de investigação conversando com todas as pessoas que de alguma forma conviveram com Van Gogh em Auvers-sur-Oise. Entre elas, personagens pintados pelo artista, como Marguerite Gache (Saoirse Ronan) e o doutor Gachet (Jerome Flynn, o Bronn de “Game of Thrones”).

Os diretores consideram que surgiram várias declarações contraditórias sobre a morte de Van Gogh, que permaneceria hoje, mais de 100 anos depois, cercada de mistério. A tese do assassinato já havia sido defendida em 2011 pelos biógrafos do escritor Steven Naifeh e Gregory White Smith. E o próprio reconhecimento de René Secretan no fim da vida dizendo que havia atormentado demais o pintor, conhecido por suas psicoses e depressões reforçaram, para os diretores, a tese do potencial assassinato.

Mas a película não toma uma posição. Apresenta os argumentos e deixa em aberto para o espectador pensar sobre qual poderia ter sido o final deste artista genial. O que não deixa de ser uma boa postura.

Embora “A paixão de Van Gogh” tenha sido um filme trabalhoso e que demorou um longo tempo para ser feito, os diretores não pretendem abandonar o estilo de animação pintada que fizeram com este trabalho. Pelo menos por mais um filme. O próximo objetivo de Dorota e Hugh é uma película de terror todo pintado baseado nos trabalhos que Goya fez no fim de sua vida. Desde já estou ansioso pelo resultado dessa nova jornada.

Enquanto ele não chega, “A paixão de Van Gogh” ganhará uma nota 8.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Bush vai para a galera em Lisboa

O Bush no Coliseu. Belo show/Marcelo Alves
No início dos anos 90, o grunge dava as cartas e Seattle parecia a capital do rock. Já no fim desse movimento, surgia na Inglaterra uma banda calcada no jeito de galã de seu vocalista que tinha uma voz grave e rascante que lembrava alguns dos expoentes cantores da cidade americana. Era o Bush que estourava num cenário pós-grunge com seu álbum de estreia, "Sixteen Stone" (1994). 

Desde então, a banda viveu altos e baixos, lançou quatro discos de estúdio e se separou em 2002. Oito anos depois, o vocalista Gavin Rossdale decidiu reativar o Bush, mas sem o guitarrista Nigel Pulsford e o baixista Dave Parsons, que faziam parte da formação original da banda, a mesma que gravou o clássico primeiro álbum. Vieram o guitarrista Chris Traynor e o baixista Corey Britz. Foi com essa formação e mais o baterista original Robin Goodridge que a banda britânica apresentou o show do novo álbum "Black and White Rainbows" (2017), no Coliseu de Lisboa, em Portugal. 

Primeiro disco lançado após um hiato de três anos, o álbum não ganha muito destaque no show da capital portuguesa. Apenas “Nurse” e “Peace-S” são tocadas. Canções, aliás, que não chegam a figurar entre as melhores já feitas pelo grupo. O novo disco só dá as caras na quarta música do show. Antes disso, Gavin amacia a plateia com sucessos do passado como "Everything Zen" e "The Chemichal Between Us". 

A partir daí, a banda alterna sucessos do passado, mais precisamente da primeira fase do grupo, quando viveu o seu auge de popularidade, com canções dos três discos lançados após a volta. Além do atual, há "The Sea of memories" (2011) e "Man on the run" (2014). Naturalmente, é a primeira fase da banda a que arranca mais reações positivas da plateia. Com canções como "Swallowed", "Machinehead" e a grande balada do Bush, “Glycerine”. 

O Bush atual é claramente calcado no carisma e talento de Gavin Rossdale. Os holofotes são todos voltados para ele, as atenções da plateia são todas para ele. Os demais músicos, apenas cuidam bem da cozinha para que Gavin brilhe. E ele não faz por menos ao se entregar de corpo e alma ao espetáculo ao mesmo tempo em que parece estar se divertindo muito no palco.

Gavin cantando no meio da galera/Marcelo Alves
O ponto alto desta entrega acaba sendo na última música da primeira parte do show. Durante "Little Things", o vocalista anda por todo o Coliseu, no meio da galera na pista e também nas arquibancadas no fundo da casa deixando a plateia em êxtase. Se fosse possível fazer uma comparação, é como se o vocalista andasse por uma Fundição Progresso lotada enquanto canta um dos seus sucessos. 

Depois disso, o Bush volta com um bis arrebatador formado por "Machinehead", "The One I Love", "Glycerine" e "Comedown". Um cover do R.E.M. e três clássicos do "Sixteen Stone" para fechar com chave de ouro sua apresentação de 1h45min.


O Bush não toca no Brasil desde 1997, quando fez shows no Rio, São Paulo e Coritiba. Se o novo álbum levar a banda de volta ao país, os fãs brasileiros não vão se arrepender do show. 

Playlist com o set list do show

terça-feira, 10 de outubro de 2017

O novo Blade Runner

Tá meio vazio aqui, né
Retomar histórias de sucesso do passado ou que tornaram-se cult são sempre um desafio. Mas se a arte contemporânea caracteriza-se muito pela reciclagem, o pastiche, o meme e as citações, o cinema não iria atuar na contramão dessa história. Por isso, as salas vêm sendo enxurradas de franquias de dinheiro fácil ou histórias que apelem para uma memória afetiva do espectador. O recente filme do “Pica-Pau” é uma clara estratégia de reciclar o personagem querido dos desenhos animados num filme que combina animação com atores de carne e osso. “Blade Runner 2049” é a aposta do momento.

Dirigido por Ridley Scott, o filme de 1982, contava a história do policial Rick Deckard (Harrison Ford), um caçador de replicantes que haviam escapado da fábrica Tyrell e precisavam ser eliminados. Neste futuro distópico imaginado pelo conto do escritor Phillip K. Dick, eram discutidos temas como a humanidade e o direito das máquinas de viverem como se humanos fossem, já que elas haviam evoluído de tal forma a terem sentimentos, ou a emularem sentimentos. Enquanto os replicantes viviam à margem da sociedade, Deckard encontrava-se num dilema ao ver-se apaixonado por Rachel (Sean Young), uma evolução criada pela Tyrell. Uma máquina quase humana.

“Blade Runner” passava-se no início do século XXI e a sociedade que vivemos é bastante diferente da versão futurista retratada por Scott. A nova versão dá um salto de 40 anos na história e imagina uma sociedade ainda mais isolada, vazia e pessimista. As novas versões dos Nexos são ainda mais realistas e os próprios Blade Runners são versões criadas e não seres humanos nascidos para caçarem as máquinas.

No mundo imaginado pelo diretor canadense Denis Villeneuve, os lugares são monocromáticos, a sensação de vazio é enorme e um isolamento depressivo grita na tela ao mesmo tempo em que os cenários são magníficos. É nele que vive K (Ryan Gosling), um Blade Runner que recebe uma missão de matar uma série de replicantes antes que a existência deles seja exposta para a sociedade.

Mas se a tenente Joshi (Robin Wright) quer encobrir o segredo da existência de uma replicante grávida, Niander Wallace (Jared Leto, que vai se notabilizando por personagens esquisitos tal qual um neo-Johnny Depp), o dono das empresas que assumiram o espólio da Tyrell, quer obter toda a informação possível desta evolução natural para trabalhar em cima dela numa geração ainda mais evoluída.

K, porém, tem seus próprios planos. Ele mesmo quer saber o quanto tem de humanidade e o quanto de sua memória não passa de implante. Concentra-se em K toda a questão do filme que reflete sobre o que poderíamos definir como o direito dos replicantes à vida e à humanidade.

“Blade Runner 2049” tem um profundo respeito pela obra original e dialoga maravilhosamente bem com o primeiro filme realizado há 35 anos. A forma como são inseridas as referências ao trabalho de 82 saem perfeitamente e a participação de Harrison Ford retomando o papel de Deckard é a cereja no bolo de um filme que funciona muito bem do início ao fim e tem uma beleza que vai da cinematografia à trilha sonora.


Cotação da corneta: Nota 9.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Lisboa facts - semana 2

Uma bela ruas de Lisboa/Marcelo Alves
Duas semanas em Portugal e o semanário da Corneta lusitana tem mais uma série de informações irrelevantes para compartilhar com seus 17 leitores. 

1- Finalmente eu passei pela experiência de ir ao cinema em Lisboa. E descobri que é mais difícil ler legenda de filme em português de Portugal do que ler texto acadêmico na mesma língua. Alguma expressões são ininteligíveis para mim. Por sorte, era um filme americano e aquele passado distante na Cultura Inglesa me salvou. Mas imagina quando eu quiser ver um filme iraniano? 

2- Contudo, nada no cinema português é mais bizarro do que ter intervalo no filme. Intervalo! E é tão curto que mal dá para ir ao banheiro. Também é desnecessário acender as luzes cinco segundos antes do filme acabar. 

3- By the way, "Bade Runner 2049" é maravilhoso. Denis Villeneuve é um puta cineasta. Que belíssimo filme. 

4- No início, eu vi uma pessoa. Depois foram duas. Em seguida, três. Quando eu cheguei a umas 25 pessoas diferentes acho que já posso configurar como tendência na irresponsabilidade que é escrever no Facebook posts com nenhum compromisso com a veracidade dos fatos. Então, como o português curte esse lance de jeans com o joelho rasgado no que chamarei de "raladinho style". Se eu faço isso, o meu joelho congela no inverno. 

5- Por falar em estilo, esbarrei na semana de moda de Lisboa. Entrei meio sem querer no meio daqueles fashionistas e senti a pressão quando um cara me pediu para eu fazer uma foto num grupo que tinha uma suposta modelo. Pelo menos ela fazia carão para a foto. Imagina o meu medo dessa foto dar errado.

6- A língua até aqui não tem sido um grande problema (menos no cinema). Mas aquele à onde brasileiro fala Á e aquele Ó onde brasileiro fala Ô ainda gera interrogações. Aprende, Marcelo, é COMBÓIO e não comboio. É ADUREI ao invés de adorei. E outro dia que quando eu precisei tirar uma xerox e um senhor me disse para ir na Casa das Bandeiras e eu entendi Casa das Madeiras? 😂😂

7- Um jornal aqui disse que o atacante Gabigol podia voltar ao Brasil poucos meses depois de chegar ao Benfica. O motivo? Ele não estaria adaptado a Lisboa. Amigo, eu como arroz de pato no bandejão da faculdade a 2,65 merkels. Imagina você que tem dinheiro e pode gastar inacreditáveis 13 merkels por um prato de bacalhau todo dia. Se não se adaptar a Lisboa, vai se adaptar a onde?

8- Eu aprendi nesta semana que o lisboeta é conhecido como ALFACINHA. Mas não é porque ele é verde, sem graça e coadjuvante em qualquer salada. Tem um componente histórico aí. Vamos a ele. 

9- A etimologia remonta ao século XIX por conta de uma citação do escritor Almeida Garret em "Viagens na minha Terra", mas reza a lenda que a história é mais antiga e vem do hábito de os lisboetas comerem muita alface (o que é uma verdade. A única coisa que eu comi sem alface aqui foi sorvete). As más línguas, porém, dizem que se deve ao hábito que os lisboetas tinham no passado distante de não se movimentarem muito, não saírem de casa, não irem para a night. Parece que eles eram meio paradões e só saíam para ir para a missa. Mas há quem também tenha o argumento militar. Durante a ocupação dos mouros entre 711 e 714, a alface teria sido o único alimento disponível aos habitantes da capital. Difícil acreditar nisso, mas imagina você passar três anos só comendo alface? Aposto que foi a fase mais fit de Lisboa. 

10- E como eu fui buscar toda essa história vegana? Acredite se quiser: tudo graças a Madonna. É porque estava no lide de um jornal local que a minha vizinha um pouco mais famosa não demoraria a virar alfacinha, pois estava perto de conseguir o atestado de residência e o visto de permanência no país. Madonna, inclusive, teve uma audiência com a Ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Souza, para agilizar a sua autorização. Quem pode, pode né. Eu preciso muito virar amigo da Madonna para também ter acesso a essas facilidades. 

11- Por falar em comida (alface não tem muita graça, mas é comida), Lisboa tem o nome de supermercado mais fofo do universo. Chama-se Pingo Doce. É tão maravilhoso esse nome, que só pode ser um marketing de guerrilha para fazer você consumir mais. "Vou no Pingo Doce. Ahhhhh, esse nome! Compra uma barra de chocolate!". 

12- Pequenas decepções. O kit kat aqui não é tão maravilhoso quanto em outros lugares. É uma versão com mais leite e mais cacau e não tem o mesmo sabor. Falta algo. Mas diante disso, a gente aceita o que tem. Tem também um salame de chocolate que tinha a maior pinta de versão local da palha italiana. É gostosinho, mas não tem a mesma qualidade da palha italiana. Pelo visto, terei que ir até a Itália, onde o doce deve se chamar apenas palha. 

13- Em compensação, o Milka de Óreo.... Jesus and Mary Chain! Vicia mais que droga pesada. 

14- Portugal, vocês sabem, é um país católico. Diante disso, seus doces têm uma pegada e, muitas vezes, sabor divinos. Tem queijinho de Deus, tem toucinho do céu, tem pão de Deus. Tudo tentação para te transformar num gordo dos diabos. 

15- É giro. Essa gíria é mara. Até a minha professora de "Estética dos Media", que é toda classuda e parece uma lady, e dá aulas que são verdadeiras odes a Immanuel Kant, não resistiu e falou que um texto de Baudelaire era giro. Só faltou dizer que Baudelaire era maneiro.

16- Por falar nas aulas, é incrível como os professores aqui falam num tom quase joãogilbertiano. Ninguém fala alto. O aluno que fique em silêncio e preste atenção. Nenhum professor em Portugal deve ter problemas nas cordas vocais. 

17- Estou preocupado com a brasileirização de Lisboa. Eu já vi tapioca e pipoca sendo vendidas no metrô, já vi brigadeiro... Só falta coxinha e cajuzinho. Aí será o caos. 

18- Nas livrarias, a literatura estrangeira é chamada de literatura traduzida. Acho uma expressão mais simpática e acolhedora. 

19- Continua calor. Graças aos deuses. Que fique assim para sempre. #Medodoinverno,#Thewinteriscoming.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Lisboa facts - Semana 1

O por do sol no Rio Tejo
Uma semana de aventura em Lisboa. O suficiente para acumular uma série de informações malemolentes e de pouca ou nenhuma relevância.
1- Para começo de conversa é uma cidade estranha. Tem um monte de pastelaria, mas nenhuma vende pastel e caldo de cana. Só bolinho de bacalhau e empadinha doce.
2- Mas quem liga para estes detalhes quando você sabe a hora que o trem e o metrô vão passar e eles realmente passam? Isso gera uma economia de tempo de chorar de emoção.
3- Por falar nisso, já são sete dias sem engarrafamento.
4- Lisboa, vocês sabem, é a Série B da Europa. Ou seja, é uma cidade cheia de pombos. Infelizmente ainda não consegui evoluir para o momento chique e phyno de morar numa cidade cheia de CORVOS. Um dia, quem sabe.
5- Dom Pedro I tem uma estátua imponente de 27,5 metros de altura, mas não tem muita moral. Aqui, ele sofreu tantos rebaixamentos quanto o Vasco e é Dom Pedro IV.
6- Eu descobri, inclusive, que o Dom Pedro I original, the one and only, viveu no século XIV e era cruel, mau feito pica-pau mesmo. Tinha uma amante galega chamada Inês que foi assassinada a mando do pai, Dom Afonso IV, "O Bravo". E o que ele fez em retaliação? Entrou em guerra contra o próprio pai, saqueando e queimando a região de Entre-Douro-e-Minho, e só parou quando Afonso entregou o poder para Pedro. E ainda organizou um mega banquete para si mesmo em que, enquanto comia, assistia aos assassinos da amante contratados pelo pai tendo os seus corações arrancados pelo peito de forma brutal. Isso é digno dos piores castigos vikings. Pedro também puniu com pena de morte a prática de advocacia, afinal, ele era a lei, e, last, but not least, exumou o corpo da amante para coroá-la rainha obrigando todos os nobres de Portugal a beijarem as mãos do cadáver no processo de coroação pós-vida. Era isso ou o nobre ia para a vala. Ou seja, Pedro I era uma espécie de Ramsay Bolton português.
7- Não é à toa, portanto, que Pedro I tinha as seguintes alcunhas: "O Cruel", "O Justiceiro", "O Vingativo", "O Tartamudo", "O até o fim do mundo apaixonado".
8- Mas apesar de seus pequenos acessos de fúria, Pedro I, era muito bem quisto pelo povo, pois ajudou os mais pobres e trouxe desenvolvimento econômico e paz. Também né? Quem iria desafiá-lo? O rei também gostava de se misturar ao povão nos festejos, onde cantava e dançava. Ou seja, quando não era o cão chupando manga, era um fanfarrão. Como prêmio, Pedro I ganhou uma estátua em Cascais de frente para o mar.
9- A água do Oceano Atlântico é de congelar os ossos mesmo. Negócio de praia é inviável aqui. Só o Night King consegue frequentar de boa.
10- Você sabe que o Brasil é filho de Portugal quando começa a lidar com as burocracias locais. É um tal de precisar de um documento para tirar outro documento, mas só conseguir tirar um documento depois de tirar o primeiro documento.... maior cachorro correndo atrás do rabo o tempo todo.
11- Você também sabe que o Brasil é filho de Portugal ao ver que as pessoas, tal qual no Rio, não te esperam sair de um vagão do metrô para poderem entrar. Elas gostam de tudo ao mesmo tempo. Pelo menos ainda não vi aquela correria feito estouro da boiada que eu via quando pegava o metrô em BotaSoho.
12- Jonas parece que é ídolo mesmo do Benfica. Sempre aparece nos merchans do metrô.
13- O desafio em Lisboa é evitar o vicio no pastel de nata. Por enquanto, estou perdendo essa batalha.
14- Você sai do Brasil, mas fica difícil o Brasil sair de você quando você anda pela cidade e vê Rua Augusta, Avenida da Liberdade, Marquês de Pombal e uma região chamada Caxias. E que tem praia.
15- Ainda não comi bacalhau. Falha grave que precisa ser corrigida.
16- E o mestrado? Puro desespero. Só de leitura obrigatória são 2,5 mil páginas em três meses. Bom, ninguém disse que ia ser fácil.
17- Graças aos deuses ainda está calor. Mas... the winter is coming. #Medo
18- Trilha sonora da semana: "Advice for the young at heart" (Tears for Fears) 

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Ranking Corneta do Rock in Rio

Encerrada a maratona no Rock in Hell, vamos à classificação final do campeonato da Corneta:
1- The Who
2- Tears for Fears
3- Alice Cooper e Arthur Brown 
4- Baiana System e Titica

Os quatro shows acima estão classificados para a Libertadores
5- Ceelo Green e Iza
6- Aerosmith
7- Grande encontro (Elba Ramalho, Alceu Valença e Geraldo Azevedo)
8- Def Leppard
9- Guns N'Roses
10- Incubus

Os seis shows acima garantiram vaga na Sul-Americana
11- Titãs
12- Bon Jovi
13-Tyler Bryant e The Shakedown
14- Scalene
15- Cidade Negra canta Gilberto Gil
16- Alter Bridge
17- The Kills

Os shows abaixo foram rebaixadas para a segunda divisão
18- Bomba Stereo e Karol Conka
19- Fall out Boy
20- Ney Matogrosso e Nação Zumbi
21- Jota Quest

Até 2019. E lembrem: Corneta é vida.

Crítica do show do Guns N'Roses

Guns N'Roses/Divulgação
Crítica originalmente publicada no site Rock on Board - http://www.rockonboard.com.br/2017/09/rock-in-rio-2017-no-melhor-jeito-de.html

Depois do dia 2 de outubro de 2011, Axl Rose parecia fadado a nunca mais pisar num palco do Rock In Rio. Mais do que um show abaixo da crítica, as horas de atraso do cantor para se apresentar na chuvosa noite de encerramento do festival irritaram tanto Roberto Medina que o empresário idealizador do Rock in Rio chegou a declarar que Axl era uma figura riscada do seu restrito caderninho de headliners. E a troca pública de farpas, com a banda respondendo às críticas, só colocaram mais lenha na fogueira. 

Mas se Axl se reconciliou com seus ex-companheiros Slash e Duff McKeagan, por que não faria o mesmo com Medina? Ajudou muito também a campanha dos fãs, que ainda em êxtase pelas seis apresentações do grupo no Brasil com sua formação quase toda clássica,  iniciaram uma campanha para ver a banda no festival. Medina vislumbrou a oportunidade, disse que as diferenças estavam superadas e lá estava Axl Rose no palco com seus velhos "parças" para fechar mais uma noite do Rock in Rio. A quarta da história da banda. 


Talvez como se estivesse em dívida com o público do Rock in Rio, Axl se viu na obrigação de começar na hora (o que aconteceu) e fazer um show épico. Bom, no que diz respeito a sua duração não há dúvida quanto a isso. Foram 32 músicas em quase 3h30min de espetáculo que avançou até depois das 4h da madrugada de domingo. 

Muitos não conseguiram chegar até o fim. Pelo contrário, pode-se dizer que o público foi se dispersando aos poucos. A primeira leva grande foi embora depois de "Sweet Child O'Mine". Outra foi após "November Rain" e um terceiro grupo saiu ao fim de "Nightrain". Natural. Axl impôs um tour de force que para muitos é muito cansativo após um dia inteiro de shows. Mas quem não arredou o pé encontrou fôlego para cantar "Paradise City" no encerramento do show. 



Quanto a qualidade do espetáculo, porém, o Guns voltou a se ver refém do seu calcanhar de Aquiles do momento: a qualidade vocal reticente de seu líder. É inegável que a voz de Axl nunca mais foi a mesma dos discos 'Appetite for Destruction' (1987), 'Use your Illusion I e II' (ambos de 1991). Naquela época, o Guns era dono do mundo e Axl uma estrela incontestável. Dos últimos tempos para cá, quando a banda veio várias vezes ao Brasil, sempre se alternou momentos em que Axl cantava bem ou até de uma forma aceitável com outras que ele ia mal. E essa foi a diferença para o show de novembro do ano passado, que também fazia parte da atual turnê "Not in this lifetime". No Engenhão, Axl parecia em melhor forma. Na Cidade do Rock, ele viveu o seu dia "hoje não" com a voz. 

E esse problema ficou ainda mais evidenciado porque minutos antes havia se apresentado no Palco Mundo um impecável Roger Daltrey no alto dos seus 73 anos. A comparação com o vocalista do The Who seria inevitável nestas circunstâncias. Ainda que ambos cantem estilos diferentes no rock. De certa forma, parece que o Guns vive uma sina de ser ofuscado quase sempre quando toca no Rock in Rio. Em 1991, o Faith no More roubou a cena. Em 2011, o System of a Down superou e muito o Guns e agora o The Who fez um dos melhores shows do festival enquanto o Guns apenas não foi tão incrível quanto se esperava. 


Mas é claro que a apresentação do Guns teve vários pontos altos. Muitos deles graças a Slash. Coube ao guitarrista segurar as pontas com seus solos, seu carisma nato e sua competência. Slash é, muitas vezes, a alma dessa banda.

O repertório que o público viu no Rock in Rio não foi muito diferente do que foi visto no Engenhão há menos de um ano. O Guns tocou todos os sucessos possíveis da carreira e insistiu nas dispensáveis canções do controverso 'Chinese Democracy', o álbum que demorou 14 anos para ser lançado e ainda resultou num produto ruim. 

As diferenças ficaram por conta da inclusão de dois covers: "Black Hole Sun", do Soundgarden, homenagem ao recentemente falecido Chris Cornell, que vinha sendo incluída nos shows da turnê, e "Wichita Line Man", de Jimmy Webb. Além de "Patience". "Out ta get me" foi retirada do set. 

O saldo final para o fã do Guns, no entanto, foi muito positivo. Ele ouviu tudo o que queria. Principalmente os que resistiram heroicamente até o fim do show madrugada adentro.

domingo, 24 de setembro de 2017

Rock in Hell - terceiro dia

The Who, melhor show do festival/Marcelo Alves
Último dia de Rock in Hell para a Corneta. Os últimos comentários. Depois disso, só em 2019.
Cidade Negra canta Gilberto Gil e convida Digital Dubs e Maestro Spock - Nada contra o Cidade Negra, mas qual o fundamento de colocar a banda fazendo um show de covers do Gilberto Gil que incluiu um cover do Gilberto Gil de uma música do Bob Marley? Ou seja, teve até cover do cover! Aí depois entrou o maestro Spock "Vida longa e próspera" para fazer cover do Gil. Depois veio o Digitaldubs e logo o palco estava superlotado de gente fazendo cover do Gil. Só faltou mesmo o próprio Gil fazendo cover de si mesmo. Pior é que tudo parecia ter aquela batida cadenciada e sonolenta do reggae. Convenhamos, reggae é chato demais. Para suportar até o fim tive que comprar um sorvete de doce de leite. Mas apesar da minha má vontade, foi um show que não comprometeu. Funcionou melhor que Ney Matogrosso e Nação Zumbi, por exemplo. Bom, mas isso não chega a ser uma grande vantagem.
Bomba Stereo convida Karol Conka - Não sou suficientemente evoluído para estar no Brasil e curtir cumbia psicodélica. Por mais que seja uma cumbia psicodélica engajada, como a Liliana Saumet gosta de pontuar em algumas músicas. Se bem que acho que nem se estivesse em Bogotá eu ia gostar de cumbia. E a coisa não melhorou com a Karol Conka, pois aí juntou a cumbia psicodélica com o que ela cantava e realmente eu não consegui atingir o nirvana necessário para admirar esse show.
Titãs - Adriana Calcanhotto podia fazer uma extensão na letra de "Fico assim sem você" e escrever "Buchecha sem Claudinho/Titãs sem Paulo Miklos/sou eu, assim sem você. Não tinha Arnaldo Antunes/nem o Mala Reis/e agora/não tem nem você. Como é possível viver assim?/Uma banda sem testosterona/E olho pro palco/Vejo Sérgio Britto/Cadê/O Charles Gavin?
Miklos faz muita falta. E com o ficaralho dos Titãs, agora o Sérgio Britto e o Branco Mello têm que cantar toda hora, acumulando funções. Coitados. Eu entendo vocês. Eles ainda tocaram três músicas novas que prometeram estar numa futura ópera-rock. Aliás, a canção "Me estuprem" será bastante problematizada no Facebook se vier a ganhar alguma relevância. Ao vivo, porém, as músicas novas foram recebidas com a frieza do inverno islandês. Vamos aguardar o resultado do disco. De uma forma geral, foi um show bem irregular. Já vi melhores Titãs.
Ceelo Green convida Iza - Foi definitivamente o Dancing Day no Palco Sunset. Depois da cumbia psicodélica, o Ceelo surgiu como um James Brown de Atlanta botando a galera para dançar como se estivessem nos tempos românticos do Studio 54, em Nova York. Foi muito maneiro, um dos grandes shows do Rock in Hell, teve até a bela "Earth Song", do Michael Jackson, mas como eu nunca gostei de boate, sentei na grama para me poupar para o Incubus.
Incubus - Coitado do Incubus. Fez até a sua parte no Palco Mundo para uma banda que abriria para duas lendas, mas passou praticamente despercebido, pois a galera estava mais interessada no que viria dali para frente.
The Who - Que banda, amigos! Que banda! Foram 50 anos esperando para ver ao vivo Roger Daltrey rodopiar o fio do microfone e Pete Townshend fazer aquele giro com o braço na guitarra. Cinquenta anos esperando uma banda que foi perfeita. Se eu fosse sommelier de vocalista, diria que a voz de Daltrey está num timbre abrasado e levemente amadeirado, com raspas de limões colhidos no pé de vulcões da Sicília e um toque de uvas retiradas por antílopes de parreiras de montanhas tibetanas. Só isso explica ele estar cantando monstruosamente aos 73 anos. O The Who foi impecável. Chorarei de emoção até a semana que vem.
Guns N'Roses - Depois do papelão de 2011, Axl Rose estava devendo ao público do Rock in Rio um show épico. Só que ele entendeu errado o significado da palavra e resolveu fazer uma apresentação interminável, de 3h30min, e que parece que só parou porque ele foi avisado que ia começar o Globo Rural na TV. Sabemos que ao contrário de Daltrey, Axl nunca mais será o mesmo, mas é uma pena que ele não tenha cantado como no show de novembro do ano passado. Sua piora pesou no desempenho da banda, só compensado pelo prazer inenarrável que é ver o Slash tocando guitarra. Slash >>>>>>>>>>>>> Rodrigo Hilbert.
Mas definitivamente eu não viro mais a noite por um show do Guns. Já foram três. Chega.
Ok, eu reconheço que essa é uma promessa vazia e eu estarei na plateia no próximo espetáculo.
E assim a Corneta se despede de mais um Rock in Hell. Como diria o Axl: thank you, Brazil! Good fucking night!

Crítica do show do Bon Jovi

Bon Jovi no Rock in Rio/Reprodução/Facebook
Crítica originalmente publicada no site Rock on Board - http://www.rockonboard.com.br/2017/09/rock-in-rio-2017-repleto-de-sucessos.html

Você pode dizer que Jon Bon Jovi tem um monte de defeitos, mas nunca poderá acusá-lo de ser preguiçoso. Muitos músicos que tivessem o mesmo número de hits dele na carreira ficariam tentados a fazer um show para a galera, como normalmente pedem os grandes festivais. É seguro e de fácil aceitação. O Bon Jovi, porém, fez a acertada aposta na mescla do novo com um punhado de sucessos da carreira num equilíbrio quase que equânime entre os clássicos do passado, quando a banda construiu a sua fama, e músicas retiradas dos álbuns lançados nos últimos 15 anos, a maioria deles de menor impacto do que discos como 'Slippery When Wet' (1986), 'New Jersey' (1988), 'Keep The Faith' (1992) e 'These Days' (1995). 

Foram 21 músicas em um espetáculo que pode-se dizer que agradou ao fã de carteirinha e ao fã dos hits radiofônicos. Talvez só os que não se incluem nos dois grupos tenham ficado com tédio no show que encerrou a noite do dia 22 do Rock in Rio. 

Com um álbum novo na praça - 'This House is Not For Sale' foi lançado no ano passado - o Bon Jovi deu uma sacudida no set list como quem mostra que está bem depois da saída do guitarrista Richie Sambora por "razões pessoais". Com isso, ficaram de fora baladas amadas pelos brasileiros como "Always" e "I'll Be There For You", que até estava prevista no set list inicial de 23 canções, mas foi cortada junto com "In These Arms". 


Fizeram falta? Para o fã, talvez. Para a dinâmica do show, nem um pouco. Até porque, o Jon Bon Jovi burocrático do Rock in Rio de 2013 deu lugar a um cantor com muita vontade de fazer um grande show para a plateia em 2017. Embora a voz já não seja a mesma de outrora, notava-se claramente como o cantor parecia bem e satisfeito no palco. 

Se Sambora, que deixou a banda em abril de 2013, faz falta é só pela presença de uma figura importante na carreira do Bon Jovi, como dono e parte da história dela. Pois, na prática, o novato guitarrista grego-canadense Phil X dá conta do recado reproduzindo muito bem as notas dos principais sucessos do grupo, como na balada "Bed of Roses", talvez o momento em que ele mais teve a chance de brilhar. 

Reproduzir os solos e as notas de Sambora é o que Phil X mais terá que fazer até poder exibir algo mais autoral nos shows. O mais recente álbum foi apenas o primeiro do qual ele participou como membro efetivo do Bon Jovi. Mas a julgar pela faixa título, ele já pegou o jeito. "This House is Not for Sale" é um típico pop rock do Bon Jovi. Tem um refrão que fica na cabeça, uma batida característica e uma letra boa de cantar. Todo disco da banda tem pelo menos uma canção assim desde "Runaway" lá no primeiro álbum lançado em 1984. 



Aliás, daria para fazer uma apresentação só com elas. Só no show desta sexta-feira teve ainda "Have a nice Day", que é uma boa canção, e "It's My Life", que provocou erupções vulcânicas na Cidade do Rock. Foi uma das músicas mais cantadas pela plateia, não ficando a dever para clássicos como "You Give Love a Bad Name" e "Livin' On a Prayer", que costumeiramente fecha os shows do Bon Jovi.

O público pareceu gostar e nem se incomodou muito com os problemas do som, que chegou a ficar muito baixo em três oportunidades. Nada que atrapalhasse a performance da banda que pode até não ter ganhado um novo fã por conta deste show, mas obteve muito sucesso pregando para os já doutrinados.

sábado, 23 de setembro de 2017

Rock in Hell - segundo dia

Tears for Fears, um dos grandes shows/Marcelo Alves
Mais um dia de Rock in Hell. Um dia com um bom saldo de shows. Melhor que o da véspera. Vamos ao que só a Corneta viu. 

Baiana System e Titica - Na ausência do dia do metal (vacilo histórico, seu Medina!), coube ao Baiana System contagiar a galera a ponto de fazer a melhor roda de pogo possível. Foi um showzão. Tudo bem que tinha momentos que pareciam aula de aeróbica com saltos e mãozinha para cima, mãozinha para a direita, mãozinha para a esquerda... Mas toda a musicalidade da "guitarra baiana" foi muito contagiante! Um dos grandes shows do Palco Sunset. Merecia até o Palco Mundo.

Grande encontro - Ontem foi praticamente o Nordeste Day no Palco Sunset. Depois do Baiana System, a paraibana Elba Ramalho e os pernambucanos Alceu Valença e Geraldo Azevedo quebraram tudo com o show do grande encontro fazendo os fãs do Bon Jovi rebolarem no frevo, no xote e no xaxado com gosto e malemolência. Aliás, a Elba, com seus 66 anos, cantou mais que o Steven Tyler, hein.

Jota Quest - Na Moral, eu juro que tentei. Mas não dá. Jota Quest, Los Hermanos, Coldplay, Maroon 5 e Nickelback são bandas que simplesmente não dá. 

Ney Matogrosso e Nação Zumbi - Eu podia posar de intelectual do Facebook e dizer que a união do maracatu da Nação Zumbi com a languidez e o olhar possuído de Ney Matogrosso gerou um show clássico dotado de uma poesia concretista e um refino técnico próprio de uma ourivesaria musical. Mas a Corneta não está aqui para fazer concessões. Simplesmente essa porra não funcionou tão bem como se esperava, não rolou muita química, não deu liga e foi até um pouco constrangedor quando cada um visitava a casinha musical do outro. 

Alter Bridge - Junção do cantor Miles Kennedy (aquele que andou cantando com o Slash antes dele voltar para o Guns) com uma parte do Creed (sim, o CREED), o Alter Bridge tem até um bom vocalista. Falta é ter grandes canções. São basicamente roquezinhos fast food. Te empanturra na hora, mas logo depois você está com fome de novo. 

Tears for Fears - O Tias Fofinhas fez o melhor show do Rock in Rio até aqui. Tudo graças a sua competência e seus hits da JB FM. E só não foi ainda melhor porque faltou "Woman in Chains". A banda ainda veio com uma versão de "Creep", do Radiohead, que pareceu uma canção de ninar na voz de Roland Orzabal. Foi lindo e emocionante. Merecia mais uns 40 minutos de show. 

Bon Jovi - Vocês lembram de Jon Bon Jovi? A voz mudou (para pior), mas os cabelos.... também mudaram, pois ele assumiu os fios brancos. O Bon Jovi tem muitos hits, fãs apaixonados, fãs que até hoje nutrem um tesão enorme por ele, mas não consegue me empolgar em show nenhum. Eu até dei uma segunda chance ao Bon Jovi, algo que vivo negando ao Red Hot Chilli Peppers desde o fatídico show de 2001, mas acho que eu enjoei da banda da mesma forma que enjoei de empadinha.

Crítica do show do Aerosmith

Aerosmith/Divulgação
Crítica originalmente publicada no site Rock On Board - http://www.rockonboard.com.br/2017/09/rock-in-rio-2017-mesmo-sem-ser.html

Tem que ser muito cri-cri para reclamar do Aerosmith. Mas de uma banda que construiu seus 47 anos de estrada com shows quase sempre de um nível impecável não se espera menos do que a excelência. E o espetáculo que encerrou a noite do dia 21 do Rock in Rio esteve justamente abaixo desta excelência. Abaixo do que o Rio de Janeiro viu em outubro de 2013, quando o Aerosmith fez um show arrebatador na Praça da Apoteose. 

Não que isso atrapalhasse os milhares de fãs que foram até a Cidade do Rock. A maioria esmagadora deles do Aerosmith. Eles foram para ver Steven Tyler fazer suas costumeiras e adoráveis presepadas. Os rebolados no palco, o característico microfone cheio de lenços sendo balançado de um lado para o outro, o jeito lânguido do vocalista se mexer e os olhares fixos na câmera que enchia o seu rosto no telão. Tudo ali estava presente. Só a conhecida voz de Tyler pareceu não bater ponto na Cidade do Rock. O vocalista pareceu falhar algumas vezes e sofreu nas canções que exigiam mais dele, aquelas com as notas mais altas quando ele costuma se soltar mais. Basta rever "Love in an Elevator", "Cryin" e "Falling in Love", só para ficar em três exemplos do set list, para ver que havia algo de diferente. Será que quatro anos fizeram tanta diferença? O peso dos 69 anos, muitos deles vivendo no limite, como diz um dos seus sucessos, "Livin' on the Edge", chegou? 

O hard rock do Aerosmith é calcado nas levadas de guitarra características de Joe Perry e na voz de Tyler. Quando os outrora gêmeos tóxicos, como a dupla era chamada nos anos 70, quando abusavam de todas as substâncias possíveis, funciona, o Aerosmith é monstruoso. Quando alguma coisa falha, a banda de Boston não apresenta a tal excelência. De qualquer forma, Tyler compensou as eventuais falhas na voz com o costumeiro protagonismo no palco, interagindo com o público e se entregando de corpo e alma ao espetáculo. 


Mas veja bem, o show do Aerosmith esteve longe de ser ruim. Só não foi perfeito. Embora arrisque-me a dizer que para muitos presentes foi inesquecível. Pelo menos para aqueles que cantaram "I Don't Wanna Miss a Thing", a trilha sonora chiclete do filme "Armageddon" (1998), como se não houvesse amanhã. E Tyler não se fez de rogado em deixar o público ter o seu karaokê vip no maior momento Feira de São Cristóvão vivido pela Cidade do Rock nesta quinta-feira. 

Além desta canção, "Cryin" e "Crazy", a dupla de músicas do álbum 'Get a Grip', de 1993, que gerou os famosos videoclipes com Alicia Silverstone, foram os outros pontos altos da noite, a julgar pela reação do público. 

No total, o set list teve 16 canções. Perpassou todos os pontos altos da longeva carreira da banda que quase sempre permaneceu junta como na formação que surgiu em 71 com o baixista Tom Hamilton, o baterista Joey Kramer e o guitarrista Brad Whitford. Foi do primeiro grande sucesso, a excelente "Dream on", uma grande canção da história do rock, passou por "Walk This Way", outro clássico que também representou um resgate da banda do ostracismo quando eles a regravaram com o Run-DMC em 1986, e foi até o "Falling in love", do álbum 'Nine Lives' (1997), o último grande disco do Aerosmith. 

Foi um set list e um show que justificou a escalação do Aerosmith como headliner do Rock in Rio. Mas se a "Aerovederci Tour" for mesmo a última da banda, como chegou a ser divulgado pelos seus integrantes, que agora desconversam sobre o tema, prefiro deixar como última impressão o épico espetáculo de 2013. Aquele foi o Aerosmith numa excelente forma, mesmo que na época estivessem desfalcados do baixista Tom Hamilton.