sábado, 30 de janeiro de 2010

O melhor de Cage em anos

Das mãos de um diretor alemão e em meio a uma Nova Orleans devastada pelo furacão Katrina de 2005, Nicolas Cage resgata seus melhores momentos de personagens lisérgicos para construir o maquiavélico tenente Terence McDonagh, para quem os fins justificam todos os meios e deve-se tirar vantagem de tudo o que cada situação apresenta.

Em 29 anos de carreira, Cage já viveu viciados de todos os tipos. E numa de suas melhores atuações em cinco anos – seu último grande trabalho foi em “O Senhor das Armas” (2005) – McDonagh nos faz relembrar de todos eles desde o alcoólatra Ben Sanderson, de “Despedida em Las Vegas” (1995), que lhe rendeu um Oscar de melhor ator, passando pelo detetive particular Tom Welles de “8MM” (1999), que mergulha no submundo das mais rasteiras produções pornográficas, e chegando ao motorista de ambulância Frank Pierce viciado em remédios e insone de “Vivendo no Limite” (1999), de Martin Scorsese.

Em “Vício Frenético”, os analgésicos se juntam a um coquetel de drogas, cujo poder é crescente como o nível de dependência delas. Administrar esse e outros vícios (como o do jogo, por exemplo), e terríveis dores nas costas é o desafio de McDonaugh enquanto investiga o assassinato de uma família inteira de senegaleses que estava vivendo ilegalmente no país e foi massacrada por Big Fate (Xzibit), traficante que cresceu em meio ao caos daquela cidade praticamente sem lei.

Descobrir o assassino, portanto, não é o segredo no trabalho de Herzog. A questão está em como incriminá-lo diante de comparsas leais ao mesmo tempo em que McDonaugh se envolve com problemas com o pai, um ex-alcoólatra que tenta se livrar do vício, a madrasta, esta sim uma alcoólatra, e a namorada prostituta e viciada Frankie (a maravilhosa Eva Mendes). Problemas que aliados ao vício vão aumentando e o consumindo, devastando como a passagem de um furacão em sua vida.

Releitura de um filme de 1992 dirigido por Abel Ferrara e estrelado por Harvey Keytel, “Vício Frenético” é uma película toda de Cage, que constrói um tipo bizarro que anda todo torto por causa dos problemas na coluna, tem um olhar melancólico e profundo, um ar blasé e mesmo assim é considerado um dos melhores policiais da corporação, a despeito de seus métodos pouco ortodoxos e seus vícios conhecidos por todos.


Estes métodos, aliás, acabam sendo a principal arma para a resolução do crime numa história conduzida por Herzog que parece que vai levar seu personagem ao fundo do poço. Mas do improvável ele consegue emergir dando ao filme um desfecho cínico e cru, onde a esperança, esta sim naufragou na destruição.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Um Holmes nada elementar

Existem algumas formas de se assistir a “Sherlock Holmes” e elas são teoricamente relacionadas à maneira como você se relaciona com o personagem. Se você é um fanático daqueles que têm Holmes como um semideus quase perfeito e sabe de cor trechos de cada livro de Sir Arthur Conan Doyle, a sensação ao se ver diante do trabalho de Guy Ritchie vai variar da decepção a uma raiva cristã de quem profanou uma história. Se você não sabe quem é Conan Doyle, Holmes ou apenas tem uma relação mais distante com estas figuras, periga gostar e sair do cinema satisfeito por ter visto um belo filme de ação.

Estas são duas prováveis sensações que o diretor de “Jogos, trapaças e dois canos fumegantes” (1998) e “Snatch, porcos e diamantes” (2000) pode causar ao espectador que assiste à sua leitura iconoclasta e “atualizada” do clássico personagem de Conan Doyle.

Não que Holmes, vivido como brilhantismo por Robert Downey Jr., tenha perdido totalmente suas características. O uso do raciocínio lógico para resolver os casos mais escabrosos possíveis ainda está lá. Assim como o seu inseparável amigo, o doutor John Watson, feito por um também ótimo Jude Law. Mas o trabalho de Ritchie e dos roteiristas Michael Robert Johnson, Anthony Peckham e Simon Kinberg injeta uma linguagem mais pop e inegavelmente mais testosterona nos personagens que não abusam apenas do cérebro, mas usam também os músculos para sobreviverem naquela Londres suja, putrefata e tomada por ladrões e tipos sinistros encontrados apenas ao abrir a porta do escritório de Baker Street.

É aliando força e inteligência que Holmes e Watson têm que resolver uma série de crimes cometidos por Lorde Blackwood (Mark Strong) num enredo que envolve conspirações, magia negra e uma sociedade secreta que aos poucos vai sendo dissecada pela brilhante mente de Holmes.

Para desvendar este mistério, a dupla conta ainda com a ajuda (ou nem chega a ser uma ajuda) da ladra Irene Adler (Rachel McAdams), um dos pontos fracos de Holmes dada a sua admiração pela moça que, no entanto, lhe enganou algumas vezes.

Se os meios são ampliados, o desfecho deste novo “Sherlock Holmes” (o 211º filme que envolveu uma gama total de 75 atores no papel principal) não poderia ser mais “sherlokiano” com suas explicações lógicas para tudo. Até para o que parecia inexplicável.

Na minha modesta opinião, o saldo final é positivo. Como a minha relação com o personagem ganhou o benefício do tempo – Conan Doyle foi leitura de infância e infelizmente eu nunca mais o reli – a sensação foi a de estar diante de um filme muito bem feito, com atuações impagáveis e um roteiro extremamente bem encadeado. Nem parece um filme de ação, mas tem a cara de um Sherlock Holmes.


Dos personagens clássicos na literatura de Conan Doyle, ficou praticamente de fora (a não ser por meros vultos em determinadas cenas) o professor Moriarty, arquiinimigo de Holmes. É claro que ele foi devidamente guardado como trunfo para uma inevitável seqüência. Uma devida deixa bem ao estilo dos filmes baseados em histórias em quadrinhos foi providenciada por Ritchie para dar prosseguimento às aventuras de Holmes e Watson. E ela promete ser ainda melhor do que a de “Sherlock Holmes”.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O festival que mudou tudo

Há 25 anos o Brasil e o Rio de Janeiro entravam na rota dos grandes shows internacionais. Parece até brincadeira em se tratando do Rio que hoje sofre para conseguir grandes espetáculos (O AC/DC não veio no ano passado e o Metallica não virá neste mês, por exemplo), mas até 1985, o cenário era de uma aridez ainda maior. Foi aí que o empresário Roberto Medina resolveu fazer o nosso Woodstock e criar o primeiro grande festival de rock local então batizado de Rock in Rio.

Realizado entre os dias 11 e 20 de janeiro daquele ano, o festival reuniu pesos pesados da música mundial que tocavam aqui pela primeira vez como Queen, Iron Maiden, Rod Stewart, AC/DC, Scorpions, Yes e Ozzy Osbourne. Junto deles, algumas atrações do rock brasileiro que já davam as caras e mudaram a história da música nacional como o Paralamas do Sucesso e o Barão Vermelho ainda com Cazuza nos vocais.

Para realizar o evento, foi construído um palco de cinco mil metros quadrados de área, o maior já feito no mundo até então, num terreno entre a Barra da Tijuca e Jacarepaguá que ficaria conhecido como a Cidade do Rock. Por ali passou 1,5 milhão de pessoas, o equivalente a três Woodstocks. O maior público foi no primeiro dia. Duzentas mil pessoas acompanharam os shows de Baby Consuelo e Pepeu Gomes, Erasmo Carlos, Ney Mato Grosso, Whitesnake, Iron Maiden e Queen. Foi a única apresentação do Iron. O Queen ainda voltaria no dia 18 ao lado de The Go-Go’s B-52’s, Lulu Santos, Eduardo Dusek e Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens.

Já o Whitesnake, convocado as pressas para substituir o Def Leppard após o acidente de carro que levou o baterista Rick Allen a ter que amputar um dos braços, retornaria no dia 19 para tocar com AC/DC, Scorpions, Ozzy Osbourne e Baby Consuelo e Pepeu Gomes.

O mesmo Ozzy já havia tocado três dias antes junto com Rod Stewart, Rita Lee, Moraes Moreira e o Paralamas. Já o AC/DC, se apresentara no dia 15 com Scorpions, Barão Vermelho, Eduardo Dusek e Kid Abelha.

Também participaram do festival James Taylor, George Benson, Al Jarreau, Gilberto Gil, Elba Ramalho, Ivan Lins, Nina Hagen, Blitz e Alceu Valença. Música para todos os gostos, portanto.

Depois daquele ano, o Rio ainda teve outras duas edições do Rock in Rio em 1991, no Maracanã, e em 2001, num festival inesquecível para este blogueiro que praticamente se mudou para a Cidade do Rock naquelas quase duas semanas de muita música. Em seguida a marca viajou para Portugal e Espanha e nunca mais voltou ao seu país de origem. Agora se fala em uma nova edição no segundo semestre de 2011. Tomara que ele volte e ganhe uma constância. O Rio precisava de um festival de rock que acontecesse com mais freqüência.

Abaixo algumas curiosidades da primeira edição do Rock in Rio colhidas no vasto mundo internético:

- Para tocar no festival, o AC/DC exigiu como condição usar um sino de meia tonelada que seria tocado pelo vocalista Brian Johnson durante “Hells Bells”. Como o bicho, que veio ao Brasil de navio, era muito pesado para a estrutura do palco, um dos cenógrafos do festival fez sem que a banda soubesse um sino de gesso para a ocasião.

- Foi nesta edição do Rock in Rio que o Iron Maiden tocou para o maior público de sua história: 200 mil pessoas. No Rock in Rio III, o Iron conseguiu o segundo maior público de sua história: 180 mil pessoas.

- Ao tocar no mesmo dia de AC/DC e Scorpions, o Barão Vermelho poderia ter sofrido com os fãs de metal, mas a banda fez uma apresentação memorável e foi a única que não foi vaiada pelos metaleiros. No mesmo dia, aliás, acontecia a eleição presidencial que escolheu Tancredo Neves como presidente do Brasil após um longo período de ditadura. Durante “Pro Dia Nascer Feliz”, Cazuza disse: “Que o dia nasça lindo para todo mundo amanhã. Um Brasil novo e com a rapaziada esperta!”.

- Antes do festival, James Taylor pensava em abandonar a carreira. Dependente químico e abalado com o divórcio da cantora Carly Simon, ele veio ao Rio apenas porque já tinha assinado contrato. Comovido, no entanto, com a recepção que teve do público, ganhou nova vida, resolveu retomar a carreira e em homenagem ao Rio compôs a música “Only a Dream in Rio”, que tinha um trecho que dizia “Eu estava lá naquele dia e meu coração voltou a vida”. Taylor ainda voltou ao país para participar do Rock in Rio III, pois considerava ser questão de honra.

- Depois do episódio em que Ozzy Osbourne mordeu um morcego num show três anos antes, os organizadores do Rock in Rio colocaram uma cláusula no contrato que o proibia de comer animais vivos no palco. E o Senhor das Trevas cumpriu tudo dentro do riscado, mesmo depois de uma galinha viva ter sido jogada no palco. Talvez ele preferisse mamíferos.

- “Love of my life” foi a canção do festival. É a mais lembrada até hoje quando alguém fala do primeiro Rock in Rio e o próprio Freddie Mercury havia considerado a execução da música como a melhor já feita pela banda. Quando voltou ao Rio em 2008 para tocar com Paul Rodgers, o guitarrista Brian May disse que até hoje escuta as vozes do público ecoando no seu ouvido.

Chega de escrever. Abaixo, alguns momentos marcantes do Rock in Rio I:
Queen - "Love of my life"
Queen - "Bohemian Rhapsody"
Scorpions - "Rock you like a hurricane"
Scorpions - "Still loving you"
Iron Maiden - "The trooper"
Iron Maiden - "The number of the beast"
Ozzy Osbourne - "Crazy Train"
AC/DC - "Hells Bells"
AC/DC - "For those about the rock"
Whitesnake - "Love ain't no stranger"

Barão Vermelho - "Por que a gente é assim"
Barão Vermelho - "Maior abandonado/Milagres/Subproduto do Rock"

domingo, 10 de janeiro de 2010

Um olhar sobre Lula

É inegável que a história de vida do presidente Luiz Inácio Lula da Silva rende um filme. É inegável também que exatamente por ele ainda ser o presidente da República e estarmos num ano eleitoral, o momento da estréia de “Lula, o filho do Brasil” nos cinemas não foi dos mais propícios.

Eu até acredito (ou quero acreditar) nas declarações do diretor Fábio Barreto de que o objetivo do filme não era fazer política, mas contar a história de um brasileiro e de sua mãe. O problema é que acreditar em Barreto também significa classificá-lo como para lá de ingênuo, pois é óbvio que por mais que essa não fosse a sua intenção, seu filme tem potencial eleitoral.

Certamente “Lula o filho do Brasil” não vai eleger sozinho a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, candidata do presidente mais popular da história do país, mas pode muito bem angariar algumas centenas de milhares de votos decisivos numa campanha que promete ser acirrada. Dilma decididamente vai faturar ao ser carregada embaixo dos braços daquele homem de vida sofrida e que teve uma ascensão heróica à Presidência da República. Um homem que venceu apesar de todas as adversidades e é um exemplo a ser seguido por todos aqueles que ainda lutam por um lugar ao sol.

Heróica, aliás, é uma palavra que incomodou muitos críticos do filme, que acusaram o diretor e os roteiristas Fernando Bonassi, Denise Paraná e Daniel Tendler de mitificar o personagem, tornando-o quase uma santidade.

De fato, até a fase adulta de Lula, Barreto mostra um personagem quase perfeito. É o menino de lábia fácil que convence qualquer um a comprar uma laranja, o garoto que defende a mãe contra os arroubos violentos do pai, Aristides (vivido pelo sempre ótimo Milhem Cortaz), como se um moleque falando grosso com o pai bêbado fosse fazê-lo parar. É o trabalhador dedicado, o galanteador que conquista todas as mulheres. Enfim, seus erros são omitidos e suas virtudes são amplificadas exponencialmente. E nada disso era necessário, pois Lula já é um personagem por si só forte e cheio de nuances.

Mas quando Rui Ricardo Diaz assume o papel de Lula na fase adulta, acredito que Barreto consegue um pouco mais de equilíbrio. A oposição ao governo, perdida, que bate sem saber onde, como e de que jeito apressou-se em berrar que o filme era uma glorificação do presidente e esqueceu-se de lembrar de uma passagem interessante da película que mostra como Lula tomou o poder no Sindicato dos Metalúrgicos.

Insatisfeito por ter sido desautorizado pelo então presidente do sindicato, Feitosa (Marcos Cesana), Lula foi cobrar explicações dele. Após uma discussão, da revelação de algumas irregularidades feitas pelo próprio Feitosa, e do discurso que era necessário ter sangue novo no comando do sindicato, veio a proposta, diria eu, indecente: “Tu fica até o fim do teu mandato, depois sai de fininho”. Em seguida, um “companheiro” avisa que é Lula que sairá candidato.

Corta para a reunião do sindicato em que Lula com a sua conhecida capacidade de se comunicar com as massas aproveita para elogiar o tão criticado, odiado, corrupto e vaiado presidente antes de avisar que era preciso de sangue novo e de mudança. “Alguém diferente”, diz o seu irmão num belo slogan de campanha em outra passagem do filme em que ele tenta convencer aquele Lula que reconhecia gostar mais de novela do que de política a entrar no sindicato.

Ora, o que Lula fez ali não é muito diferente do que faz no seu atual mandato eivando de credibilidade figuras no mínimo controversas como os senadores Fernando Collor de Mello (PTB-AL), Renan Calheiros (PMDB-AL) e José Sarney (PMDB-AP). Todas aduladas em momentos de crises políticas envolvendo eles ou seus partidos.

Mais do que restrições ideológicas, no entanto, “Lula, o filho do Brasil” poderia ser criticado por outros pontos. Não gosto, por exemplo, da maneira como ele foi montado e editado. O resultado final se pareceu com uma sucessão de esquetes juntadas em duas horas.

É ainda lamentável a omissão no roteiro de uma passagem importante da vida do presidente, o nascimento da filha Lurian que ele teve com a enfermeira Miriam Cordeiro e que causou tanta polêmica na eleição de 89, e a mudança de fatos históricos como o linchamento do dono de uma fábrica que Lula, em suas próprias palavras achava que naquela época “o pessoal estava fazendo justiça”, pois um trabalhador havia sido assassinado pelo mesmo indivíduo. No filme, ele se incomoda com o episódio e acha tudo injusto. É triste porque o próprio Lula sequer evita falar sobre estes episódios. E as omissões só reforçam os argumentos do suposto processo de endeusamento do presidente usados pelos que criticam o filme.

Além disso, há a atuação de Rui Ricardo Diaz, que deixa a desejar na pele do presidente e a partir de determinado momento simplesmente esquece da voz rouca e da língua presa. Isso é primário. Ou faz de um jeito ou de outro. Mudar do nada no meio do filme é que não dá. Causou um estranhamento incrível durante a sessão. Sem contar o português impecável que ele apresenta, bem diferente do “menas laranja” que o próprio Lula já usou em tom de brincadeira para explicar sua evolução lingüística.

A atuação de Rui só não compromete o filme primeiro pela força dramática dessa atriz espetacular que é Glória Pires, um dínamo no papel de dona Lindu, a mãe de Lula, que segura brilhantemente a película a cada vez que aparece em cena. Em segundo lugar, porque o próprio Lula é uma figura tão forte que até o faz esquecer o ator ali presente. É um personagem que suplanta o próprio ator. Mal comparando é como James Bond, que sempre será James Bond independentemente de quem vista o terno (aqui incluído desastres como Daniel Craig e Timothy Dalton).

Entre erros e acertos – refletidos, inclusive, na trilha sonora popularesca, mas com a cara do presidente, que, contudo, tem uma canção instrumental ímpar de Antonio Pinto (compositor de filmes como “O amor nos tempos de cólera” – 2007, “Senhor das Armas” – 2005 e “Cidade de Deus” – 2002) e Jacques Morelembaum -, porém, “Lula, o filho do Brasil” é um bom filme de Barreto. Seguramente o melhor de sua carreira em que se destacava até então “O Quatrilho” (1995). E é um trabalho que será melhor julgado quando Lula estiver distante da presidência e dos embates políticos. Diante da guerra eleitoral que se avizinha, ele será por enquanto arma de combate. Dos dois lados do exército.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Best Of 2009 – Cinema

Finalizando os posts retrospectivos e com listas de melhores abordarei o cinema em 2009. Um ano interessante que teve menos lançamentos (294 contra 302 de 2008) e eu conseguir ver um filme a mais em relação ao ano passado (50 contra 49). Mais uma vez, obviamente, não consegui ver todos os filmes que gostaria, mas é desta lista bastante razoável de 50 que tiro as minhas impressões sobre o cinema em 2009. E começo logo pelo top 10.

Como sempre, claro que foi difícil montar a lista dos 10 mais, pois tivemos muitos bons filmes em 2009. Num primeiro momento selecionei 20 trabalhos que me agradaram muito. Em um novo corte, “Appaloosa” e “Star Trek” dançaram até facilmente e fiquei com 18.

O mais doloroso foi cortar os últimos oito filmes. Mas tiveram que ficar de fora do top 10 “Foi apenas um sonho”, “O Leitor”, “O Lutador”, “Guerra ao Terror”, “Os Falsários”, “Intrigas de Estado”, “Inimigos Públicos” e “Anticristo”. Todos, contudo, altamente recomendáveis.

Foi quando percebi que na lista final só havia um filme que esteve concorrendo no Oscar deste ano. E o que ganhou como melhor filme, “Quem quer ser um milionário?”, sequer foi cogitado para entrar na lista. Um sinal de algo que eu já indicava em fevereiro e março que neste ano não havia nenhum filme espetacular na disputa pelas estatuetas como em anos anteriores. Dito isto, vamos ao top 10 da Alcova.

10º lugar – Katyn – Excelente filme polonês sobre o cruel massacre impetrado por Stálin na Polônia durante a Segunda Guerra Mundial e a propaganda comunista que negava toda a verdade e colocava a culpa nos alemães. As imagens são fortes, mas o trabalho de Andrzej Wajda é um importante documento histórico.

9º lugar - Desejo, Perigo – Um excelente trabalho de Ang Lee sobre alguns jovens que organizam uma tentativa de vingança numa China ocupada pelo Japão durante a Segunda Guerra Mundial.

8º lugar – Deixa Ela Entrar – O ano foi de filmes de vampiros com nome de turnê do Elymar Santos como outro dia li no twitter (“Crepúsculo”, “Lua Nova”, etc...), mas filme de vampiro bom mesmo foi este sueco dirigido por Tomas Alfredson sobre uma jovem vampira que mais do que de sangue, se alimenta da alma de jovens solitários. É verdadeiramente assustador.

7º lugar – Amantes – Joaquin Phoenix é um porra-louca que resolveu abandonar uma carreira de ator que estava se consolidando para virar rapper. Mas ainda deu tempo de deixar mais um excelente trabalho. De um pessimismo ácido, “Amantes” é feito de uma série de encontros e desencontros, mas a melhor definição eu li em um blog na época do lançamento que lamentavelmente não me lembro agora o nome nem a pessoa que escreveu. Mas ela disse, no que eu concordo muito bem, que é um filme sobre gente de verdade fazendo merda. Ou algo parecido. É um filmaço.

6º lugar – À procura de Eric – Uma homenagem de Ken Loach a um ídolo, ao futebol e ao amor a este esporte. “À procura de Eric” é um excelente filme sobre um loser torcedor do Manchester United que começa a pegar conselhos com seu ídolo maior, o ex-craque Eric Cantona. Imperdível mesmo para quem não aprecia o bom e velho esporte bretão.

5º lugar – Gran Torino – Depois de um ano longe da minha lista, o diretor Clint Eastwood reaparece com este excelente filme em que ele também atua. Na pele de Walter Kowalsky, um preconceituoso veterano da guerra da Coreia, Eastwood tem que aprender a conviver com diferenças culturais enquanto o bairro em que vive vai se transformando num antro de gangues. É quase uma redenção de Dirty Harry, seu mais famoso personagem que não era muito conhecido por ser politicamente correto.

4º lugar – Frost/Nixon – O duelo entre o jornalista David Frost (Michael Sheen) e o ex-presidente Richard Nixon (Frank Langella) é retratado neste excelente filme dirigido por Ron Howard. Destaque para o tom documental, o ótimo trabalho de Langella, que merecia um Oscar, e para as tensas cenas da entrevista.

3º lugar – Distrito 9 – Uma alegoria sobre o preconceito e a intolerância a partir de uma relação entre terráqueos e alienígenas que são obrigados a viver num gueto (quase um campo de concentração) da África do Sul. Neill Blomkamp conseguiu fazer o que parecia impossível: um filme de ficção científica diferente de tudo o que já foi feito. Um filmaço que merece a medalha de bronze de Memórias da Alcova.

2º lugar – Watchmen – Os filmes sobre quadrinhos atingiram um outro status a partir de “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (2008) e “Watchmen” representa um passo a mais nessa evolução. Uma obra-prima dirigida por Zack Snyder e que tem como destaque a atuação de Jackie Earle Haley como Rorschach. Um filme simplesmente imperdível para quem ama o cinema de muito boa qualidade.

1º lugar – Bastardos Inglórios – Falando em obra-prima, o campeão de 2009 é simplesmente o melhor filme do diretor Quentin Tarantino. Com sua história de vingança dos judeus contra os nazistas, o americano chega ao clímax do seu trabalho e nos premia com personagens que já entraram para a sua história de grandes criações como o tenente Aldo “The Apache” Raine (Brad Pitt) e o coronel Hans Landa (Christoph Waltz). Não é à toa que “Bastardos Inglórios” pode levar Tarantino de volta ao Oscar 15 anos depois de ele ter faturado o prêmio de roteiro por “Pulp Fiction” (1994), seu outro trabalho memorável. “Bastardos Inglórios” é realmente um daqueles filmes para se aplaudir de pé.

Piores filmes – Dei tanto azar neste ano, que consegui até organizar um top 5 das tranqueiras que assisti nos cinemas do Rio de Janeiro. Portanto, passe longe dos seguintes filmes:

5º lugar – Anjos e Demônios – “O Código Da Vinci” (2006) já tinha sido bem meia-boca, mas eu insisti e fui ver “Anjos e Demônios”. Filme no máximo palatável, mas definitivamente é um trabalho de Tom Hanks do qual não precisamos nos lembrar.

4º lugar – A Fronteira da Alvorada – A presença de Louis Garrel em cena e de Philippe Garrel na direção pareciam garantia de qualidade para mim. E eu gosto de filmes franceses. Contudo, “A Fronteira da Alvorada” conseguiu me fazer dormir no cinema.

3º lugar – Matadores de Vampiras Lésbicas – Reconheço que não gosto muito de comédias, mas esta tinha vampiras, tinha lésbicas e tinha...muita ruindade. Quase campeão dos piores, com piadas sem graça e nem tem nada de mais para ver. Péssimo. Passe longe.

2º lugar – G.I. Joe – A Origem do Cobra – Era muito mais divertido e criativo brincar com os bonecos dos Comandos em Ação. Este filme de Stephen Sommers é absolutamente dispensável. Apenas material de propaganda do exército americano.

1º lugar – Austrália – Constrangedoramente ruim e com atuações tenebrosas de Nicole Kidman e Hugh Jackman, o épico romance de Baz Luhrmann foi imbatível em 2009. Tanto é que ninguém lembra mais dele. Assistir à “Austrália” equivale a sofrer o mais duro interrogatório de Jack Bauer.

Decepção – Avatar – Revolucionário, vai mudar a história do cinema, é James Cameron rompendo barreiras. E um filme ruim, muito ruim. Não tanto a ponto de entrar no top 5 dos terríveis, mas “Avatar” é a grande decepção de 2009. Reconheço que o filme é muito bonito e tal, mas como trabalho cinematográfico é clichê, óbvio e sem sal. Bola fora para Cameron.

O herói do ano – Rorschach (Jake Earle Haley) tem seu lugar na galeria de heróis de 2009, assim como dois anti-heróis, John Dillinger (Johnny Depp) e Walter Kowalsky (Clint Eastwood), mas o cara mesmo foi Brad Pitt e seu Aldo “The Apache” Raine. O tenente que comandou a tropa de caçadores de nazistas em “Bastardos Inglórios” é uma das ótimas criações de Tarantino.

O vilão do ano – Se “Avatar” tem alguma coisa de bom é o vilão. O coronel Miles Quaritch (Stephen Lang) ainda deu alguma graça ao filme. Só que aqui não poderei fugir novamente de “Bastardos Inglórios” para dizer que o grande vilão mesmo foi outro coronel, o nazista Hans Landa, vivido por Christoph Waltz. Com suas tiradas impagáveis e crueldade é um insano a ser temido. Ou era, pois Aldo Raine tratou de dar um jeito nele.

A frase do ano - “I am not a man, I am Cantona”, dita pelo próprio durante o filme "À procura de Eric", de Ken Loach. Tem frase melhor para representar a personalidade do craque francês?

A musa – Expectativa. Quem seria a sucessora de Penélope Cruz no reinado? A própria atriz espanhola apareceu na minha prévia por “Abraços Partidos”. Seria o primeiro caso de bicampeonato? Não desta vez. Também estiveram perto a bela Cate Blanchett (“O curioso caso de Benjamin Button”) e Gwyneth Paltrow (“Amantes”). Marisa Tomei (“O Lutador”) fez strip-tease e Giovanna Antonelli (“Budapeste”) também se esforçou. Wei Tang (“Desejo, Perigo”) deu tudo de si e Diane Kruger (“Bastardos Inglórios”) quase foi eleita porque eu tenho um certo fraco por alemãs. Mas o prêmio de musa de 2009 não será dado desta vez a uma mulher gostosona. E sim para uma mulher linda e talentosa que brilhou em dois filmes: “Foi apenas um sonho” e “O Leitor”. Kate Winslet é a minha musa inspiradora do ano. Além disso, eu também tenho um certo fraco por inglesas.

A melhor cena de sexo – Pode parecer meio sádico, mas que ficou bonita a cena de Willem Defoe e Charlotte Gainsbourg transando ao som de Händel e com a filmagem em preto e branco de Lars Von Trier ficou. O problema é que durante o ato, o filho dos dois no filme “Anticristo” morre ao cair do parapeito da janela. Mas se não tivesse algo assim não seria um filme de Von Trier.

A melhor cena de briga – Desde que o homem virou bípede e passou a usar o polegar opositor que sexo e violência fazem parte da nossa história. Natural que neste ano, portanto, eu inclua nas categorias especiais de Memórias da Alcova o prêmio para melhor cena de briga. E o campeão de 2009 é o duelo entre Ozymandias e o Comediante ao som de “Unforgettable” de Nat King Cole. Lindo, lírico e trágico.

Os melhores roteiros – De fora da minha lista de melhores filmes, é preciso ressaltar aqui os bons trabalhos de David Hare (“O Leitor”), Justin Haythe (“Foi apenas um sonho”) e Matthew Michael Carnahan e Tony Gilroy (“Intrigas de Estado”). Também é elogiável a adaptação que David Hayter e Alex Tse fizeram para a Graphic Novel de Alan Moore e Dave Gibbons em “Watchmen” e os trabalhos de Peter Morgan por “Frost/Nixon”, Nick Schenck por “Gran Torino” e James Schamus e Hui-Ling Wang por “Desejo, Perigo”. Já Paul Laverty (“À procura de Eric”) e Quentin Tarantino (“Bastardos Inglórios”) foram absolutamente originais e divertidos em seus filmes.

Mas o melhor roteiro para mim foi de Neill Blomkamp e Terri Tachell por “Distrito 9”. Um filme que renovou a ficção científica depois de muitos trabalhos parecidos ao longo das duas últimas décadas.

Os piores roteiros – “Anjos e Demônios” (David Koepp e Akiva Goldsman) e “Matadores de Vampiras Lésbicas” (Paul Hupfield e Stewart Williams) são sofríveis. Stuart Beattie aparece duas vezes na minha lista. Primeiro ao lado de David Eliott e Paul Lovett pela propaganda do exército americano – aquilo não é um roteiro – de “G.I. Joe” e em seguida ao lado de Baz Luhrmann, Ronald Harwood e Richard Flanagan pelo horroroso “Australia”. Mas ele não conseguiu superar Cameron, James Cameron pelo seu roteirinho óbvio, clichê e sem conteúdo de “Avatar”, o abacaxi de 2009.

O francês do ano – Já foi muito comentado aqui o meu gosto por filmes franceses. E a indicação de 2009 vai para o simpático “Horas de Verão” sobre três irmãos que têm que decidir o que fazer com a herança da mãe após a sua morte. Tocante, interessante. E ainda tem a presença de Juliette Binoche.

O brasileiro – No ano passado vi oito filmes nacionais e neste ano apenas um. Pouco, muito pouco. Mas acho que a produção nacional não fez nada demais que me fizesse pagar o ingresso dos seus filmes. Teve o elogiado “Simonal”, mas confesso que não gosto muito de documentários e não gosto da música de Wilson Simonal, o que me afastou do cinema. Mas o único filme que vi, “Budapeste”, vale a pena. Muito boa adaptação do livro de Chico Buarque com uma ótima interpretação de Leonardo Medeiros no papel principal.

O retorno – Não sou um trekkie, mas não posso deixar de comentar a volta de Leonard Nimoy ao papel de Spock no novo filme sobre Star Trek. É o retorno do ano, sem dúvida.

Melhores diretores – Sam Mendes (“Foi apenas um sonho”), Darren Aronofsky (“O Lutador”), Zack Snyder (“Watchmen”) e Ang Lee (“Desejo, Perigo”) fizeram excelentes trabalhos. Steven Soderbergh lançou muitos filmes em 2009, o melhor deles é “Confissões de uma garota de programa”. O trabalho de Tarantino é brilhante em “Bastardos Inglórios”. O mesmo pode se dizer de Neill Blomkamp em “Distrito 9”. Contudo, os três trabalhos que mais gostei foram o de Katrhyn Bigelow em “Guerra ao Terror”, Lars von Trier em “Anticristo” e Clit Eastwood por “Gran Torino”, para mim o melhor de 2009.

Piores diretores – Ron Howard (“Anjos e Demônios”) e Phil Claydon (“Matadores de Vampiras Lésbicas”) se esforçaram, mas ninguém supera Baz Luhrmann e seu “Australia”. Um trabalho hours concours no quesito ruindade.

Melhores atuações masculinas – Aqui é preciso destacar os trabalhos de John Malkovich (“A Troca”), Leonardo DiCaprio (“Foi apenas um sonho”), Tony Leung (“Desejo, Perigo”), Russel Crowe (“Intrigas de Estado”) e Johnny Depp (“Inimigos Públicos”). Clint Eastwood (“Gran Torino”) e Joaquin Phoenix (“Amantes”) também estão ótimos nos seus filmes. Mas o ano foi de três atores: Jackie Earle Haley, fantástico como Rorschach em “Watchmen”, Mickey Rourke, espetacular como Randy “The Ram” Robinson em “O Lutador” e, para mim o melhor de todos, Frank Langella na pele do presidente Richard Nixon em “Frost/Nixon”. Um injustiçado no Oscar devidamente homenageado por Memórias da Alcova.

Piores atuações masculinas – Billy Crudup foi o ponto de desequilíbrio em “Watchmen” e Ewan McGreggor esteve irreconhecível em “Anjos e Demônios”. Sam Worthington (“Avatar”) e Hugh Jackman (“Australia”) estiveram constrangedores. Mas darei o prêmio lixão do ano para todo o elenco masculino de “G.I. Joe – A Origem do Cobra”, um filme só comparável a pérolas como “Tropas Estelares” (1997).

Melhores atuações femininas – Helen Mirren (“Intrigas de Estado”) é uma atriz admirável. Assim como Meryl Streep que brilhou em “Dúvida” no início do ano e em “Julie & Julia” no final dele. O trabalho da jovem Lina Leandersson (“Deixa Ela Entrar”) também é surpreendente. No entanto, como melhor atuação feminina do ano não vou fugir da indicação do Oscar. Kate Winslet merece encabeçar a minha lista não apenas por “O Leitor”, que lhe valeu a estatueta, mas também por “Foi apenas um sonho”.

Piores atuações femininas – Nicole Kidman (“Australia”) se esforçou, mas na reta final do ano foi atrapalhada por dois elencos femininos que eu “premio” indiscriminadamente: o de “G.I. Joe – A Origem do Cobra” e, disparadamente o pior de todos, o de “Matadores de Vampiras Lésbicas”. Um horror!


E assim termina o Best Of 2009. Em 2010 eu continuarei dando pitacos em tudo como sempre. Até a próxima e um Feliz Ano Novo aos meus nobres leitores.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Best Of 2009 - Música

O ano de 2009 começou muito bem, mas no segundo semestre o número de shows caiu drasticamente. Culpa da falta de artistas de peso, de dinheiro (no meu caso) ou dos responsáveis pelos eventos musicais no Brasil que me deixaram a ver navios enquanto grandes bandas iam se apresentar em outros estados. Este foi um dos motivos por eu ter perdido o AC/DC.

E por mais que eu diga que Angus Young, Brian Johnson e cia fizeram um showzaço pelo que vi no YouTube, não poderei listá-lo entre os cinco melhores porque a regra aqui no blog só vale para os shows vistos in loco.

Ainda assim, deu para ver alguns shows excelentes. Tanto é que meu tradicional top 5 não incluiu o Iron Maiden. A banda inglesa fez um belo show na Praça da Apoteose em março, mas não inclui o Iron na lista por causa de um problema no som, que não ocorreu com outros concertos na própria Apoteose. Isso prejudicou um pouco a apresentação dos ingleses que vieram com uma turnê só de clássicos. Mas se minha lista tivesse seis shows, o Iron estaria nela.

Sendo assim, vamos aos cinco mais em ordem de importância e o troféu abacaxi de 2009.

5º lugar – Pitty – O último show que eu vi em 2009 garantiu o lugar entre os cinco mais. Pitty abarrotou o Circo Voador para o lançamento do seu novo disco, o bom “Chiaroscuro”. Em quase duas horas de rock and roll, desfilou sua competência e carisma e agradou a plateia. Que volte ao Rio em 2010 para uma nova apresentação.

4º lugar – Alanis Morissette – Em quinto, o último show de 2009. Em quarto, o que abriu os trabalhos do ano. Alanis Morissette esteve na HSBC Arena em fevereiro durante a turnê do seu novo disco “Flavours of Entaglement”. Fez um belo show, mostrou que embora suas letras tenham se suavizado com o tempo - afinal, não dá para ser infeliz e sofrer para sempre -, no palco continua a mesma cantora louca que balança a cabeça quando canta os seus clássicos do “Jagged Little Pill”.

3º lugar – Oasis - Férias em Londres pedia um show na terra da Rainha. Afinal, ir para a Inglaterra e não assistir a um show de rock é como ir a Paris e não ver a Torre Eiffel. O Oasis passava por lá durante a turnê do disco “Dig out your soul” e fez para este que vos tecla um show inesquecível. Claro que o momento que eu passava pesou na avaliação (férias, Londres, show no mítico Wembley e tal), mas mesmo aqui no Brasil, cuja apresentação eu perdi, não acredito que o Oasis tenha feito algo ruim. De quebra acabou sendo até certo ponto um show histórico, pois depois daquele espetáculo em Wembley, o Oasis fez mais uns dois ou três shows e implodiu pela enésima briga entre os irmãos Gallagher.

2º lugar – Kiss – Se tem uma banda que sabe fazer festa é o Kiss. O grupo veio ao Brasil em abril durante a turnê que comemorava os seus 35 anos de carreira e fez um daqueles shows que ficarão para sempre na memória roqueira. Nem o temporal que caiu impediu que o Kiss fizesse tudo o que sabe fazer de melhor com sua boa música (tocaram boa parte dos seus clássicos) e efeitos especiais de primeira. Definitivamente o Kiss é daquelas bandas que sabem fazer um show de rock.

O melhor do ano – Radiohead – Pela primeira vez no Brasil por ocasião da turnê do ótimo álbum “In Rainbows”, o Radiohead também fez um show inesquecível. Valeu a longa espera pela banda. Thom York, Johnny e Colin Greenwood, Ed O’Brian e Phil Selway fizeram mais do que um show. Foi um verdadeiro culto religioso na Praça da Apoteose. Tudo foi perfeito. É um daqueles poucos shows em que se dá nota 10. Um showzaço inesquecível.

O pior – Os problemas de som podem ter atrapalhado o Iron Maiden, mas eles não foram empecilho para este blog dar o troféu abacaxi para Lauren Harris. A filha do baixista do Iron, Steve Harris, veio ao Brasil para abrir os shows da turnê do pai num nepotismo mais comum do que parece no rock and roll, mas sua música é tão ruim, ela é tão ruim, que nem a idolatria dos fãs do Iron por Steve Harris foi suficiente para ao menos respeitar a guria. Foi vaiada e xingada pelos “maindenmaniacos” e agora leva o troféu abacaxi de Memórias da Alcova para casa.

Amanhã, encerrando a retrospectiva/melhores do ano abordarei o cinema em 2009.

Best Of – Recomendações literárias

Um dos livros mais tristes que eu já li é a recomendação literária de 2009. “The Fix”, do jornalista canadense Declan Hill, fala sobre a manipulação de resultados no futebol feita por arranjadores de partida ligados à máfia das apostas associada principalmente ao mercado asiático.

O livro é uma ducha de água fria para os amantes do futebol, mas também fundamental para entendermos um pouco mais sobre um pouco da sujeira que ronda o esporte. Foi lançado no final de 2008 e neste ano eu cheguei a fazer uma entrevista com o autor (clique aqui para ler) em que ele alertava para a possibilidade de haver jogos armados na Copa do Mundo de 2010.

Menos mal que um ano depois do lançamento, a Uefa começou a agir, assim como a polícia e houve diversas prisões pela Europa de criminosos acusados de armar resultados. Dois deles, os irmãos Sapina, inclusive são personagens retratados no fundamental livro de Declan Hill.

Além de “The Fix”, um livro mais antigo e que ainda nem terminei de ler fica como a segunda recomendação literária de 2009. Trata-se de “À Sangue Frio” (1966), do jornalista Truman Capote.

Muito comentado quando foi lançado o filme “Capote” (2005), que rendeu um Oscar ao ator Philip Seymour Hoffman, o livro conta a história de um mal explicado assassinato de uma família em uma cidadezinha no interior dos Estados Unidos em 1959.

Usando as técnicas do New Journalism, do qual foi um dos expoentes, Capote detalha como teriam ocorridos os crimes, como era a vida daquela família e da própria cidade de Holcomb, no Kansas, assim como a vida dos assassinos que acabaram condenados à morte. Um livraço.


Mais tarde, abordarei os melhores shows do ano.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Best Of 2009 - Esportes

Chegou o grande momento do ano, aquele em que Memórias da Alcova não foge aos clichês jornalísticos e faz a sua retrospectiva e aponta os melhores de 2009. Só não falarei sobre os melhores da década porque não cairei no erro de todas as demais publicações de esquecer que 2010 também faz parte desta década. Como é tradicional aqui no blog, que está na sua terceira edição do Best Of, começaremos pelos destaques no esporte.

Lembrando sempre que tudo o que indicarei aqui e nos próximos dois dias é baseado no que vi. Portanto, é claro que sempre faltará algo. Por mais maluco que eu seja, é impossível ver 100% de tudo. É para me lembrar de eventuais falhas que existe o espaço para comentários lá embaixo. Dito isto, vamos lá.

Melhores jogos – Em ordem cronológica, dez jogos que marcaram o ano de 2009 com uma pequena retrospectiva.

Futebol júnior de gente grande - O ano do futebol foi repleto de grandes partidas. Logo em janeiro a Copa São Paulo de Futebol Júnior nos deu uma partida emocionante. O duelo no dia 20 entre Atlético-PR e Cruzeiro valia uma classificação para as semifinais. O Atlético abriu 3 a 1 e parecia que iria se classificar, mas levou a virada de 4 a 3. Fim de jogo? Nada. O Atlético reagiu, empatou aos 43 do segundo tempo e surpreendentemente virou de novo o jogo com um gol aos 46 minutos. Uma partida sensacional. O Atlético depois chegou na final, mas perdeu o título para o Corinthians.

O futebol da bola oval – Veio fevereiro e com ele a disputa do Superbowl, a grande final do futebol americano, evento esportivo mais visto de todos os anos que não têm Copa do Mundo. A emocionante partida foi decidida nos últimos segundos com um touchdown de Santonio Holmes (que fez duas recepções decisivas, aliás). No final, o Pittsburgh Steelers do quarterback Ben Rothlesberger faturou o título ao vencer por 27 a 23 o surpreendente Arizona Cardinals. Um título histórico, pois o Steelers chegou ao sexto Superbowl ultrapassando o Dallas Cowboys e o San Francisco 49ers, que ficaram para trás com cinco conquistas.

A emoção no tênis – Foi um ano especial para o tênis masculino que não ficou apenas na disputa particular entre o suíço Roger Federer e o espanhol Rafael Nadal. Jogadores como Andy Murray e Novak Djokovic ameaçaram o domínio dos dois e o argentino Juan Martin Del Potro derrubou ambos ao conquistar o título do Aberto dos Estados Unidos.

Lá no início do ano não sabíamos, no entanto, que a temporada seria especial para Federer, que finalmente conquistou Roland Garros, recuperou o título de Wimbledon e o posto de número 1 do mundo e ainda ultrapassou o americano Pete Sampras em número de Grand Slams somando 15 dos mais importantes troféus.

Antes disso tudo, vimos o desabafo e o choro do grande campeão na frase “God is killing me”. Isso aconteceu após a espetacular final do Aberto da Austrália quando após 4h22m de um tênis de altíssimo nível Federer perdeu mais uma vez uma decisão para Nadal por 3 sets a 2, parciais de 7/5, 3/6, 7/6, 3/6 e 6/2.

A partir daquela final, histórica também para Nadal, que se tornou o primeiro espanhol a ganhar o Australian Open, tudo mudou para ambos. Federer voltou a ser Federer e Nadal sofreu com contusões que o fizeram ser pela primeira vez derrotado na França (para o sueco Robin Soderling) e o impediram de defender o título na Inglaterra. Para 2010, o desafio de Nadal é voltar a ser Nadal. E o de Federer é finalmente vencê-lo numa decisão de Grand Slam antes que seja tarde demais em função da diferença de idade entre ambos.

Uma vitória inesquecível do Liverpool – Em março, um clássico parou a Inglaterra. Manchester United e Liverpool faziam um duelo importante para a Premier League em Old Trafford. Como os Red Devils estavam sete pontos a frente no campeonato, os Reds precisavam vencer para se manterem vivos na disputa do título. No final, o Liverpool deu uma aula de futebol, fez 4 a 1 e conseguiu a primeira vitória na casa do rival desde 2004. Mas o time de Rafa Benitez acabou como vice-campeão da Inglaterra e o Manchester faturou o tri.

Um jogo digno de Liga dos Campeões – Veio abril e o Liverpool foi protagonista de outra partida memorável, mas pela Liga dos Campeões. O duelo em Stamford Bridge contra o Chelsea valia um vaga nas semifinais da Liga dos Campeões da Europa. O Liverpool precisava vencer e teve a chance no final da partida, mas Essien salvou o time de Londres, garantiu o empate em 4 a 4 e a classificação do Chelsea que na sequência acabaria eliminado pelo campeão Barcelona.

O jogo do ano – Nenhuma partida de futebol foi mais marcante do que o clássico entre Barcelona e Real Madrid em maio. O resultado entrou para a história porque o Barça enfiou 6 a 2 no Real em pleno Santiago Bernabéu. Além do chocolate, na ocasião, o time comandado por Guardiola chegou a marca de 100 gols no Campeonato Espanhol (terminaria com 105 gols e a taça). Veja abaixo os melhores momentos daquela partida.


O antológico gol de Grafite – Barcelona e Real Madrid foi o jogo do ano, mas o gol do ano aconteceu durante o chocolate do Wolfsburg sobre o Bayern de Munique por 5 a 1. A partida na Volkswagen Arena era válida pelo Campeonato Alemão e Grafite fez um lindo gol de calcanhar impossível de ser descrito. Basta você ver no vídeo abaixo. O resultado mais do que consolidou o Wolfsburg na liderança da Bundesliga. A equipe que teria Grafite como artilheiro do campeonato com 28 gols também conquistou seu primeiro título nacional.


Um clássico de sete gols – Mês de agosto, terceira rodada do Campeonato Holandês e a tabela já reservava um duelo entre PSV e Ajax. Com uma grande atuação de Dzsudzsak, que marcou dois gols e ainda deu o passe para um dos dois gols de Bakkal, o PSV vence por 4 a 3. A equipe hoje é vice-líder na Holanda atrás do Twente e ainda não perdeu na temporada 2009-2010. Já o Ajax está em terceiro.

O Campeonato Brasileiro – Todo ano reclamo do nível técnico do Campeonato Brasileiro. Mas 2009 foi um pouco diferente. O nível melhorou e a disputa foi acirrada. No final o Flamengo foi merecidamente campeão e todos clubes cariocas terminaram o ano por cima. Mas não destaco um jogo do Fla e sim uma partida em agosto entre Corinthians e Botafogo. O empate em 3 a 3 foi o resultado de um grande jogo no Pacaembu entre um Corinthians que ainda sonhava com o título e o Botafogo que ainda não se via ameaçado pelo rebaixamento. No final, o Corinthians ficou em 10º e o Botafogo escapou da degola na última rodada terminando em 15º.

O duelo de Manchester – Para terminar a lista dos dez melhores jogos do ano fico com o duelo de Manchester ocorrido em setembro. Estávamos na sexta rodada da Premier League e o derby era aguardadíssimo depois da injeção financeira dos petrodólares que turbinou o Manchester City. Mas como costuma dizer a torcida do Liverpool, dinheiro não compra história. O Manchester United venceu por 4 a 3 e hoje é o mais perto perseguidor do Chelsea na disputa do título inglês. O Manchester City trocou de técnico e ocupa a sexta posição.

O time do ano – Seis títulos em seis disputados. Isso é o suficiente para colocarmos o Barcelona no Olimpo do futebol. Até onde este time vai? Veremos no decorrer da temporada em 2010. Não apenas pelas conquistas, mas pela beleza do seu futebol, o Barcelona é a equipe do ano de 2009.

O craque do ano – Jogador decisivo na conquista da Liga dos Campeões e do Mundial Interclubes, melhor do mundo eleito pela Fifa e melhor da Europa pela France Football. O ano foi indiscutivelmente do argentino Lionel Messi. Seus compatriotas reclamam que ele não joga isso tudo na seleção. E daí? O que importa é que ele encanta o mundo com o seu legítimo futebol-arte.

O retorno – 2009 foi o ano em que Ronaldo, Fred e Adriano retornaram ao Brasil e foram importantes, dentro de seus objetivos, para Corinthians, Fluminense e Flamengo. Mas o grande retorno do ano foi de um meio-campo que parecia acabado para o futebol, mas conduziu o Flamengo ao título brasileiro. Foi um prazer ver Dejan Petkovic jogar o fino no ano.

Outros heróis – Não podemos deixar de destacar que um ano depois da Olimpíada, 2009 continuou sendo o ano de três heróis olímpicos. Usain Bolt, Yelena Isinbayeva e César Cielo continuaram encantando o mundo com vitórias e recordes mundiais. Um registro que precisava ser feito neste desfecho de retrospectiva esportiva.

Amanhã abordarei as recomendações literárias e os melhores shows do ano.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

O melhor retrato do atoleiro no Iraque

Corri atrás neste Natal de “Guerra ao Terror”, o famoso filme que aqui no Brasil chegou direito em DVD, está concorrendo a três Globos de Ouro - melhor filme de drama, melhor diretor e melhor roteiro – e é exaltado em diversas premiações menores lá fora. O trabalho realmente é muito bom. Dos filmes que eu vi é o que melhor retrata o buraco em que os Estados Unidos se meteram entre o Afeganistão e o Iraque neste início de século XXI.

Tenso o tempo inteiro, ele acompanha a saga da companhia Bravo, que está a 38 dias de deixar o Iraque, um lugar onde qualquer passo em falso significa a morte e não se deve confiar em ninguém, principalmente se você é americano e, por isso, carrega nas costas o peso das cagadas do governo Bush.

A diretora Katrhyn Bigelow se concentra no trio de especialistas de uma espécie de esquadrão anti-bomba formado pelos sargentos JT Sanborn (Anthony Mackie), Owen Eldridge (Brian Geraghty) e William James (Jeremy Renner), este um outsider porra-louca que aparece nos últimos 32 dias em substituição ao sargento Matt Thompson (Guy Pearce), morto numa tentativa de desarmar uma bomba. Menos uma vida, mais um número na contabilidade do atoleiro do Oriente Médio.

Embora seja um filme de guerra, não espere ver muitas explosões ou confrontos no front. “Guerra ao Terror” é mais sobre a expectativa do que pode vir a acontecer, sobre a morte que está ali à espreita do que sobre heroísmos ou a bandeira americana içada em nome da glória e da vitória. É menos “O Resgate do Soldado Ryan” (1998), mais “Além da Linha Vermelha” (1998), ou algo entre dupla de Clint Eastwood “A Conquista da Honra” (2006) e “Cartas de Iwo Jima” (2006).

Só que “Guerra ao Terror” é mais seco como o deserto iraquiana ali mostrado e sua tensão claustrofóbica é fantasticamente retratada pela câmera de Kathryn, cujo único trabalho anterior que eu conhecia era o ótimo e divertido “Caçadores de Emoções” (1991).

Seu personagem central é James, um cara atormentado que está tão ligado à adrenalina e à guerra que não consegue mais viver no “mundo real” com suas trivialidades. A passagem pela sua casa, o encontro com sua mulher e filho, é apenas um ínterim entre a última e a próxima batalha, que é só o que lhe interessa.

Na guerra, ele ainda demonstra alguns traços de humanidade, mas é diante do desafio de desarmar as bombas e na tensão daquele momento que ele se sente bem. É um filho daquela guerra que aguarda apenas o momento em que serão mais espertos que ele para que morra numa explosão de uma viela qualquer.

Um cara que tem uma família, mas não consegue mais se envolver com ela enquanto seus colegas contam os dias para sair daquele lugar. Alguns até com planos de constituir família.


No entanto, para William James só o que interessa é a próxima bomba a desarmar. O uniforme militar é a sua roupa e a guerra é a sua casa. Tudo sem heroísmos. Ele é apenas um cara atormentado que também não vê como sair daquela guerra. É um símbolo do resultado da política equivocada que enfiou o exército americano naquele buraco. E anda difícil sair dele.

Um filme saboroso

Se você for ao cinema ver “Julie & Julia” vá comido (no bom sentido). O novo trabalho de Nora Ephron te ganha pelo estômago e, claro, pelos olhos, já que você não pode comer todas aquelas receitas ali mostradas. O Boeuf Bourguignon à moda Julia Child, então, me parece apetitoso.

Vivida com a eterna competência de Meryl Streep, Julia é uma das personagens principais do filme que conta um pouco do livro que teria mudado a história da culinária norte-americana: “Mastering the art of french cooking” (1961). Aceito o argumento, pois não sou expert no tema para questionar. Apenas gosto da fase final dessa história toda que é comer.

Enfim, numa ponta está Julia vivendo em Paris e amando a capital francesa ao lado do seu marido, o embaixador Paul Child (Stanley Tucci), mas buscando novos desafios que desembocaram no curso de culinária e na produção do livro. Quarenta e cinco anos a frente está Julie Powell (Amy Adams), escritora frustrada que trabalha num enfadonho e depressivo emprego público e não tem muito futuro perto de suas amigas que parecem tiradas de uma sobra de estúdio das “Patricinhas de Beverly Hills” (1995).

Uma suposta fracassada que aceita o desafio proposto pelo marido Eric (Chris Messina) de escrever um blog sobre culinária, uma de suas paixões. O objetivo é fazer as 524 receitas do livro de Julia Child em um ano e contar as suas experiências no blog.

Assim, acompanhamos paralelamente a vida e os desafios das duas. E tome receitas gostosas. Tudo com muita gordura e manteiga, um pecado em tempos tão saudáveis. O filme, aliás, é uma ode à manteiga.

Especialista em filmes leves, bobinhos, quase de mulherzinha (que minhas leitoras, se é que eu as tenho, não fiquem bravas com este comentário) como a simpática refilmagem da “Feiticeira” (2005), o terrível e dispensável “Mens@gem para você” (1998) e o apenas razoável “Michael – Anjo e Sedutor” (1996), Nora mantém em “Julie & Julia” seu estilo easy-going, mas constrói um trabalho muito mais saboroso ao ter a ideia de juntar em um único filme dois livros que a inspiraram, “My life in France”, de Julia Child, e “Julie & Julia”, da própria Julie Powell.

O resultado é um filme divertido, bonito e que acredito que vá agradar a todos os paladares.

Espécie de Ana Maria Braga dos anos 50 e 60, Julia Child teve até programa de TV para ensinar as americanas sem-empregada como se deve cozinhar. Depois de “Mastering the art of french cooking”, ela publicou mais 17 livros e morreu em 2004 aos 91 anos. Já Julie Powell, cujo blog “The Julie/Julia Project” ainda pode ser encontrado neste link, se tornou também uma escritora de sucesso e criou outro blog muito visitado e comentado, o “What could happen?”.

Abaixo, alguns vídeos tirados do YouTube só por curiosidade. O primeiro é um trecho do programa da verdadeira Julia Child em que ela ensina a fazer um omelete. No outro, a verdadeira Julie Powell faz um bife que parece muito bom. Bon appétit!


terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Uma grande bobagem de Cameron


James Cameron levou 12 anos para fazer um novo filme desde o tenebroso “Titanic” (1997). Tal qual seu último trabalho – sem contar os três documentários que ele dirigiu neste ínterim – “Avatar”, seu mais novo filme, é longo e ruim. Uma grande bobagem feita a partir de muito dinheiro e uma receita de bolo que deu certo em “Titanic” e dará certo agora, não apenas pelo motivo que fez o seu trabalho anterior um recorde de bilheteria, mas pela sabedoria com que ele usou a tecnologia disponível no mercado.

Chamado de revolucionário por alguns críticos, “Avatar” realmente é belíssimo do ponto de vista estético. Ao criar Pandora, o mundo habitado pelos seres azuis de três metros de altura chamados Na’vi (um cruzamento de smurfs com thundercats), Cameron atinge um estágio, até onde eu sei, nunca antes visto na história do cinema (já aviso que não pagarei royalties ao Lula). E imagino que quem assiste ao filme em 3-D, o que não foi o meu caso, deve realmente ficar embasbacado com a beleza daquele planeta desenvolvido por ele e pela indústria de efeitos visuais de Peter Jackson, ele mesmo, o diretor da trilogia do “Senhor dos Anéis”.

Não é apenas a beleza deste mundo que impressiona, mas o cuidado que Cameron teve de criar uma nova raça, fauna, flora, tribos, costumes, religião e até uma linguagem a partir de uma ajuda providencial de alguns lingüistas. Até parece que não apenas o trabalho de Jackson serviu de inspiração, mas o próprio escritor J. R. R. Tolkien, que fez algo semelhante no seu “O Senhor dos Anéis” a ponto de criar mapas para a sua Terra Média.

Portanto um ponto para Cameron nesta árdua tarefa de levar às telas algo que parecia impossível e me arrisco a dizer que até era ao final do século passado. Pelo menos da maneira que ele desejava.

Contudo, se do ponto de vista estético, “Avatar” é impressionante, como cinema é um fracasso retumbante. De todos os US$ 237 milhões usados na película, certamente pouca coisa foi para a composição do roteiro, escrito pelo próprio Cameron. Seu trabalho é de uma profundidade de uma piscina para bebês. Basicamente ele conta a história de um amor que parecia impossível – e obviamente se realizará no final – entre dois opostos num enredo em que encontramos algumas situações-limite. No final das contas, um sacrifício é necessário, mas dentro do possível tudo acaba bem. Falo da história de Jack (Leonardo di Caprio) e Rose (Kate Winslet)? Não. De Jake Sully (Sam Worthington) e Neytiri (Zoe Saldana). Afinal, tire a roupagem e você vê “Titanic” em “Avatar” e vice-versa.

Em meio a isso tudo há um discurso ecologicamente correto bem ao estilo “Uma verdade inconveniente” (2006). Afinal, os humanos querem destruir aquelas florestas para explorar suas riquezas (qualquer semelhança com o petróleo, além de outras preciosidades encontradas na África não é mera coincidência). E eles destroem porque não tem qualquer conexão com a natureza, o que com os Na’vi é algo inclusive carnal, e no planeta deles isso não existe mais. Não esqueçamos que estamos num futuro apocalíptico já tantas vezes explorado por Cameron nos dois primeiros filmes do “Exterminador do Futuro”. O discurso é bonito, mas soa tão risível e pueril que fica difícil levar a sério.

Os trabalhos anteriores de Cameron, aliás, junto com “True Lies” (1994), também estrelado pelo governator Arnold Schwarzenegger, e “Alien” (1986), estrelado por Sigourney Weaver, que retoma sua parceria com o diretor em “Avatar”, são muito mais interessantes do que a badalada e insossa dupla que Cameron criou nos últimos 13 anos. Ou por serem mais criativos ou por apenas se assumirem como mera diversão sem as tintas revolucionárias de maior, melhor e blábláblá.

Analisando o passado, o século passado, é interessante notar que desde “Titanic” Leonardo di Caprio melhorou muito como ator e enfileirou uma série de ótimos filmes e trabalhos – “Foi apenas um sonho” (2008), “Diamante de Sangue” (2006) e “Os Infiltrados” (2006), só para ficar em alguns mais recentes. Kate Winslet ganhou um Oscar de melhor atriz por “O Leitor” (2008) e só confirmou a excelente atriz que é em trabalhos como “Iris” (2001), “Em busca da terra do nunca” (2004), “Pecados Íntimos” (2006) e o próprio “Foi apenas um sonho”. Já Cameron refez “Titanic” em 3-D e com "thundersmurfs". Ops, fez “Avatar”.

“Avatar”, portanto, pode até ser revolucionário para os que gostam de traquinagens eletrônicas, mas para quem gosta de um bom filme é uma bola fora do estádio. Absolutamente dispensável. No entanto, por sua, digamos, “beleza técnica” é pule de 10 para abocanhar a maioria esmagadora dos Oscar técnicos no ano que vem. E só o que ficam são realmente os números para alguém que é especialista neles. Seja a bilheteria de US$ 1,8 bilhão ou as 11 estatuetas de “Titanic”, seja tudo o que “Avatar” conquistará na sua longa carreira nas salas de cinema do mundo inteiro.