domingo, 30 de dezembro de 2007

Tommy Lee e seus homens da lei

Inegavelmente um bom ator, Tommy Lee Jones só tem um problema. Ou melhor, um estigma. Não consegue fugir dos papéis ligados à lei. Quando não é um agente federal em U.S Marshalls – Os federais (1998), é um policial em “Risco Duplo” (1999) ou um militar reformado no caso do ótimo “No vale das sombras”.

Por outro lado, ele também não dá sorte. Quando pegou um papel diferente, como no caso do índio Samuel Jones em “Desaparecidos” (2003), se saiu tão mal num filme tão ruim que ele mesmo deve ter pensado: “Preciso pegar um novo papel de policial”. Foi o que aconteceu no seu filme seguinte, a comédia bobinha “O homem da casa” (2005).

Em “No vale das sombras”, Tommy Lee Jones vive o ex-militar Hank Deerfield que tenta descobrir o paradeiro do filho, um dos muitos jovens jogados no atoleiro do Iraque sem previsão para voltar para casa e nem se voltará em pé como herói ou deitado num caixão.

O que Hank descobrirá é que seu filho sobreviveu fisicamente ao horror da guerra insana, mas psicologicamente ficou marcado até chegar às conseqüências absurdas, mas inegavelmente verídicas num país que só quer saber de mandar seus jovens para o matadouro.

Numa trama bem amarrada pelo roteirista e diretor Paul Haggis, que já ganhou o Oscar pelo roteiro do excelente “Crash” (2004), “No vale das sombras” é um filme que mostra como a América pode destruir uma geração num conflito insensato e sem solução aparente.

Com um desfecho surpreendente para quem está assistindo ao filme, mas perfeitamente plausível nos dias de hoje, “No vale das sombras” é o melhor filme sobre este quase sub-gênero “Guerra no Iraque” que vem sendo produzido nos últimos tempos. É melhor do que “Leões e Cordeiros” para ficar numa comparação mais próxima.

Tudo isso graças não apenas ao excelente trabalho por trás das câmeras, mas também a uma ótima atuação do eterno homem da lei Tommy Lee Jones e sua parceira de cena, a sempre bela e eficiente Charlize Theron.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Uma nova face de Jesse James

Jesse James era um dos mitos do Velho Oeste americano. Apesar de ser um fora-da-lei com alguns assassinatos nas costas, suas histórias – muitas verdadeiras, outras tantas falsas – ganharam ares de lenda e repercutiram no imaginário popular principalmente em músicas e histórias que faziam e ainda fazem parte do folclore americano. Assassinado covardemente por Robert Ford, como deixou bem claro sua mãe em seu epitáfio - “Murdered by a traitor and coward whose name is not worthy to appear here” -, Jesse acabou se tornando um herói de sua época.

É nas contradições, nas dicotomias entre a lenda e o homem que o diretor Andrew Dominik pauta uma nova visão – a 18a em 86 anos, aliás – da vida de um dos maiores ladrões do Velho Oeste em “O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford”.

Magistralmente interpretado por Brad Pitt, o filme é um faroeste econômico nas ações, mas intenso no drama da vida de Jesse. Longe do bandido carismático e por isso sedutor interpretado por Colin Farrell no filme “Jovens Justiceiros” (2001), a mais recente obra sobre Jesse, Pitt tenta viver o homem por trás do mito. Entender as razões de seus atos e os motivos que o levaram a ser assassinado aos 34 anos por alguém que inicialmente o admirava, posteriormente o temeu e finalmente viu no ato final a chance de se transformar em celebridade.

Para muitos Jesse é uma espécie de Robin Hood americano. Antes um agricultor, começou a assaltar depois da perda de seu rancho para uma companhia ferroviária que queria desbravar o Oeste através de ferrovias intercontinentais, mesmo que tivesse que passar por cima de fazendeiros da região a qualquer custo. Com isso, Jesse emergiu contra as grandes corporações em defesa dos pequenos agricultores. Apesar da “nobreza” de seus atos, ele era essencialmente um bandido. E isso é fato. Mas seu carisma o transformou numa figura palatável para uns e de total admiração para outros.

A história e a inscrição no túmulo de Jesse James contam que o fora-da-lei foi traído por Ford e atingido pelas costas depois que aquele que ficou conhecido como um covarde começou a negociar com o governador do Missouri, Thomas T. Crittenden, a prisão ou morte de Jesse. O importante era entregá-lo, uma vez que a prisão dos irmãos Frank e Jesse James era uma plataforma de campanha. Para Ford e seu irmão Charles restariam a recompensa de US$ 10 mil e o perdão pela morte de Wood Hite, que era da gangue de Jesse.

De qualquer forma, o tiro certeiro e tão indesejado por cada espectador que acompanha o drama de Jesse no cinema sai pela culatra no campo das idéias e Ford, também brilhantemente vivido por Casey Affleck (muito mais talentoso que seu irmão Ben) acaba entrando para a história como o covarde que atirou pelas costas em um homem indefeso, uma vez que Jesse não usava o seu cinto com as armas como o próprio Ford descreveu em carta ao governador.

Ford termina assassinado por Ed O’Kelley, que no filme é tratado como um fã de Jesse querendo vingar seu ídolo, mas diz a lenda que ele foi convencido por um membro da gangue de Ford de que ficaria famoso matando o assassino de Jesse James. Seja qual for a versão, o fato é que O’Kelley entrou para a história como “o homem que matou o homem que matou Jesse James”.

“O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford” agrada a todos os fãs de faroeste que não forem xiitas quanto ao gênero, mas também àqueles que curtem um filme humano, focado nos defeitos e nas virtudes, nas minúcias de um homem que parecia uma lenda pelos seus atos e o mundo completamente diferente que vivia, mas que não verdade viveu entre nós logo ali no século XIX.

Suas fraquezas não o diminuem ou o absolvem de seus crimes, mas é inegável sua condição de herói da América tanto no ato de registrar em foto a sua morte, quanto no corpo congelado para permanecer o máximo de tempo possível intacto ou na romaria que se seguiu à sua casa após a notícia que ele havia sido assassinado.

Como Wyatt Earp ou o índio apache Gerônimo, Jesse James e seu bando fazem parte da história dos Estados Unidos. E os americanos são ótimos para criar mitos, lendas e heróis mesmo numa figura que era, no mínimo controversa.

Uma controvérsia tão bem interpretada por Pitt que faz o espectador querer mudar o curso da história e desviar aquela bala que despudoradamente deu cabo do homem para iniciar o mito americano.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Surrealismo fantástico

Júlia era conhecida por ter uma mente fértil. Sonhava com as coisas mais bizarras do mundo e tinha tiques únicos. Costumava dizer que em seus sonhos as pessoas estavam em corpos diferentes do que os que pertenciam a elas. Sem contar os enredos sem pé nem cabeça que eram elaborados pelo seu cérebro. Mas um dia ela percebeu que seu fantástico mundo de Bobby particular era mais real do que imaginava.

“Ai, que vontade de comer uma bala”, disse ela enquanto se arrumava para deixar sua casa no bairro residencial de Icaraí, Niterói.

Mais uma vez naquela noite, Júlia havia sonhado com coisas estranhas. Pouco usuais como gostava de dizer. Mas já estava tão acostumada que não se incomodava mais com sua cabeça que criava histórias tão intrincadas que mais pareciam um filme de David Lynch. Não via mais problema em ver na sua mente javalis rosas ou gatos que tocam bossa nova.

Naquele dia, no entanto, a história era diferente. Ela estava muito bem acordada ao caminhar na estranhamente desértica Rua Moreira César.

“É muito cedo”, ela pensa enquanto caminha pelo meio da rua – tinha também hábitos pouco usuais – o vento no rosto e a sensação de liberdade em seu genuíno, mas enigmático sorriso.

Enquanto pensava nas balas de paçoca da padaria derretendo na sua boca, Júlia canta “Não é proibido” de Marisa Monte. Adorava essa música que fazia sua cabeça ficar ainda mais povoada de balas e doces.

Mas não era o dia de Júlia. A padaria estava fechada naquela manhã que seria sem balas, mas bastante sortida. É com o desapontamento tomando o seu corpo, porém, que ela resolve voltar para casa.

Retornando por uma quase selvagem Moreira César, onde se podia ouvir o deslocar das folhas das árvores pelo vento e o zunir dos pássaros planando pelos galhos, Júlia avista uma bela, estranha e límpida piscina.

Esquecendo-se que vestia uma até então indevassável blusa branca com pesados jeans, Júlia se liberta dos pré-conceitos e, dona de si, pula nas misteriosas águas que ali surgiram sob o concreto e o asfalto de outrora. Águas surgidas de onde jamais estiveram.

Apesar do excesso de roupa para a ocasião, nada com desenvoltura entre estranhos e belos peixes com penas que pareciam papagaios. Estranhíssimas panteras nadavam pela mesma piscina, passando por ela, mergulhando ou até caminhando por sob as águas.

“Isso só pode ser um sonho. Um lindo sonho, porém um sonho. Mas eu me lembro de levantar hoje cedo. Sair, me vestir. Como poderia ser um sonho? – questionava-se em dúvida se vivia algo real ou imaginário, mais uma criação de sua mente ou a personificação da loucura. Ou seria da razão?

Júlia, no entanto, sabe, ou pelo menos acredita que aquilo tudo é real. Um realismo fantástico como se ela tivesse entrado num livro de Gabriel Garcia Márquez ou numa obra de Salvador Dalí.

De repente, ao longe, ela avista uma criança. Parece alguém conhecido. Quem seria?

A menina se aproxima dela e Júlia a encoraja a pular.

“Não tenha medo. A água está uma delícia. Venha brincar”, diz ela, querendo compartilhar com mais pessoas aquele momento único.

A menina toma coragem e pula. Para a surpresa de Júlia, entretanto, ela não sabe nadar. Não demora muito para a jovem garotinha começar a se debater nas águas, tomar caldos da pantera que constantemente passava por perto em alta velocidade e ser vencida pela falta de força dos seus bracinhos.

Desesperada, Júlia nada podia – ou melhor – conseguia fazer. Ela estranhamente como tudo naquela cidade, naquele momento, não tinha forças para chegar até a criança e salvá-la. O fim parecia tragicamente próximo.

Tragada pelas águas agora traiçoeiras, a menina vê a morte começar a tomar seu espírito. Mas antes que o remorso e a dor eterna da responsabilidade pelo fim de uma vida inocente pudesse ocupar o coração de Júlia, um anjo surgia entre as sombras, por detrás das árvores.

Era Josiah quem pulava nas águas da piscina para salvar a jovem criança e entregá-la nos braços de uma aliviada Júlia, feliz pelo desfecho de uma história que ganhava contornos trágicos, que estava prestes a encontrar um ponto terrível num futuro próximo. Observada pela pantera aquática, Júlia envolve a criança em seus braços como se tentasse protegê-la e compensar a culpa que ainda permanecia em sua mente.

O alívio pelo resgate da menina através do desconhecido anjo foi passageiro. Segundos depois do ocorrido, Karen, a irmã da menina, surgia raivosamente para tomar-lhe a menina de seus braços.

Júlia não teve tempo de se explicar. Procurou testemunhas, mas o anjo partira. Panteras e peixes-papagaios obviamente não falavam. O ódio e o ciúme tomavam de assalto o coração da irmã da jovem criança. Karen não entendia nada, mas simplesmente não gostara do que vira.

Sozinha, completamente molhada e sem as balas que tanto desejava, Júlia tenta esquecer o mau entendido e ir para casa. Ainda olha para trás, mas a menina e sua irmã haviam sumido. Para sua surpresa a piscina também havia desaparecido. As roupas molhadas não a deixavam enlouquecer. Nadara numa piscina no meio da Moreira César com certeza. Não podia ter sido uma ilusão.

Duplamente frustrada, Júlia continuou a caminhar. Perto do prédio alvo com arquitetura neocolonial que morava, ela tropeça e cai. Desperta no chão com uma camisa branca e os cabelos desgrenhados. Não lembrava nada além da dor nas costas causada pela queda. Mas quem a trouxera para casa? O anjo? Ou terá sido um sonho? Lá fora, chove torrencialmente. Segundos depois o despertador toca. Esta na hora de ir para o trabalho. Mas o mistério continua.

This story is dedicated to a good friend, whose dreams inspired me.
PS: Na foto, a obra “Galatéa de las esferas” de Salvador Dalí

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Só os dinossauros trazem a felicidade

Quatro dias depois do show do Police, o Led Zeppelin tocava de novo depois de 27 anos na O2 Arena para um público seleto, que pagou muito caro, um preço que faria os ingressos na Maracanã parecerem uma pechincha. Juntos novamente, o vocalista Robert Plant, o guitarrista Jimmy Page e o baixista John Paul Jones tocaram 16 dos seus muitos clássicos do rock. Quem viu, diz que o maior temor neste retorno, que a voz de Plant já não fosse mais a mesma, foi dissipado lá pela terceira música. Algo entre “Dazed and Confused” e “Black Dog”, acho.

Observando os vídeos do youtube (e tem vários no site sobre este concerto histórico), percebi que Plant está melhor do que eu poderia imaginar. É claro que ele não é mais um garoto e nem tem a voz dos tempos que o Zeppelin podia ser chamado de a maior banda do mundo. Mas o agora sexagenário Plant está cantando bem. O que é uma vitória numa banda como o Zeppelin de muitos agudos e desafios vocais.

É muito bom ver Plant, Page e John Paul Jones novamente reunidos sob o velho Zeppelin, uma das minhas bandas favoritas. Eu espero, tenho esperança, desejo profundamente e clamo por uma turnê mundial que passe pelo Brasil, pois seria a realização de um sonho vê-los tocar ao vivo.

Assistir aos três juntos com Jason Bonham, filho do eterno baterista John Bonham, que morreu em 1980 sufocado pelo próprio vômito, tocando novamente é mágico. Me faz refletir que na música só os dinossauros trazem felicidade. Somente eles têm alguma cara num mundinho muito igual e fútil em que a cada esquina surge uma banda dita maior do mundo.

Enquanto uma gravadora tenta lançar a última moda, o Police arrasta milhões. Quando a última febre é aquela banda do interior de Sheffield dita como a melhor, são os Stones que trazem a glória com seus “Satisfaction” e “Jumpin’Jack Flash”.

O mundo do rock é dos dinossauros porque só eles têm musicalidade. É muito fácil ter uma guitarra nos braços. Difícil é ter uma idéia na cabeça. As bandas de hoje em dia, salvo raras exceções, não tem gosto, não tem cara. Enquanto isso, qualquer um reconhece o som dos Stones, dos Beatles, do Pink Floyd, do The Who, dos Doors ou do Led Zeppelin.

Poucos conheceriam os grupos que não saem dos jornais hoje, tidos e havidos como a maior sensação, mas que eu não entendo como até agora não lançaram discos clássicos, álbuns obrigatórios em qualquer discografia roqueira.

Enquanto isso, Plant faz a pose que conhecemos e o ar de desprezo para cantar “Stairway to Heaven” e “Kashmir”. E o mais importante. Solta a voz em “Whole Lotta Love” e “Rock and roll”. Page, com um sobretudo e os cabelos brancos que só reforçam seu ar de mago do guitarra, um dos gigantes a já ter empunhado esse instrumento, sola como um garoto.

The song remains the same e que mais shows do Zeppelin surjam. Que uma turnê mundial venha e que o velho Zeppelin voe até o Brasil para seus fãs ávidos por ver uma megabanda que nunca pisou no país.

Clássicos e mais clássicos, o Zeppelin tocando “Black Dog”, “Stairway to Heaven” e “Rock and roll”:






domingo, 16 de dezembro de 2007

De volta a Seattle

Para muitos o tempo é um detalhe. Por mais distante que o movimento grunge de Seattle tenha sido pulverizado com o tiro na cabeça de Kurt Cobain em 1994 e dos caminhos diferentes que seus principais expoentes tomaram após aquela bala – o Pearl Jam passou a fazer um rock, rock mesmo, digamos assim, o Alice in Chains desapareceu na poeira, mesmo caminho tomando pelo Soundgarden e o Mudhoney sempre foi mais alternativo e tratou a música como bico – ainda é possível em um show aqui e outro acolá que remeta aqueles tempos, ver os velhos tênis all-star e as camisas de flanela.

Reminiscências à parte e a caráter ou não, aqueles que encararam o temporal bíblico que desabou na última quarta-feira, enfrentaram a ressaca pós-Police e o engarrafamento absurdo para chegar ao Citibank Hall não se arrependeram e viram um showzaço do cantor Chris Cornell, a voz dos finados Soundgarden e Audioslave, esta uma banda mais recente formada por Cornell e os integrantes do Rage Against the Machine que lançou três excelentes discos, mas se separaram por “conflitos de personalidade”, segundo atestou o próprio cantor norte-americano. Para mim isso é, junto com as famosas “divergências musicais”, sempre um sinônimo para saíram na porrada.

Os antigos companheiros acabaram voltando para os braços do vocalista Zack de la Rocha, com quem tiveram “divergências musicais” e também políticas no passado para retomarem o Rage Against.

Em 2h30m, Cornell cantou, para delírio de seus fãs, músicas como “Outshined”, “Fell on black days”, “Rusty Cage”, “Burden in my hand” e “Black Hole Sun” do Soundgarden e “Like a Stone”, “Cochise”, “Show me how to live” e a cantada em coro “Be Yourself”, dos tempos de Audioslave. Além de “Hunger Strike”, do Temple of The Dog, projeto que envolvia o Soundgarden e o Pearl Jam para lançar bandas novas de Seattle. Ela foi igualmente cantada em coro e verdadeiramente emocionou os quase quatro mil presentes.

Sua bela e inconfundível voz, seu jeito meio introspectivo, o estilo um tanto desleixado é contrastado com a energia de uma grande apresentação. Claro que ajuda a boa banda que o acompanha nesta sua empreitada solo depois de dois projetos que fracassaram precocemente. Apesar do erro de um dos guitarristas da banda no solo de “Be Yourself”. Mas é perdoável. Nem todo mundo pode ser Tom Morello.

Ao contrário do Police, no entanto, e sem qualquer crítica à banda de Sting, Cornell tinha algo a mostrar. As mais recentes canções de “Carry On”, seu segundo disco solo (o primeiro é “Euphoria Morning” de 1999), como “No such thing” ainda não estão na boca do povo, mas são boas. Não têm potencial de hits como nos seus melhores momentos, mas agradam aos seus muitos fãs que estiveram na casa de shows da Barra da Tijuca.

A mais conhecida é “You know my name”, a única coisa que presta no filme “Cassino Royale” do fracassado Daniel 007 Craig. Uma música até esperada pela galera e que levou Cornell a obviamente puxar a sardinha para a sua brasa.

O cantor lavou a alma da galera e se permitiu até algumas experimentações como um longo set acústico em que se destacaram uma versão de “Like a Stone” e um pitoresco cover de “Billie Jean” de Michael Jackson, que foi gravado para “Carry On”. Embora goste de todo o disco “Thriller” de Jackson, confesso que achei meio estranho. Mas teve gente que até dançou na platéia.

E o melhor de tudo é que todo o show de Cornell foi feito num som que se não estava impecável, ao menos melhorou consideravelmente em relação à última vez em que estive no Citibank Hall, em abril, para o show do Velvet Revolver.

Não sei o que a nova administração fez, mas a acústica do lugar melhorou bastante. Com um pouco mais de atenção dava para ouvir até o baixo, distinguir o som das duas guitarras tocando juntas e, o mais importante, ouvir Cornell cantando no tom certo, nem muito baixo, nem muito alto em relação aos outros instrumentos. Parece que a casa está aprendendo que o fã de rock gosta de qualidade no som.

No fim, depois de gastar seu repertório com o que tinha de melhor, Cornell ainda colocou mais uma vez a galera no bolso com uma pesadaça versão de “Whole Lotta Love”, do Led Zeppelin. Na semana em que a velha banda inglesa voltava para se apresentar na O2 Arena, em Londres, foi um breve consolo de quem vira um belo show e agora sonha em ver Robert Plant e Jimmy Page ao vivo e juntos novamente.

Três dos grandes momentos do show. Chris Cornell canta “Hunger Strike”, “Be Yourself” e “Black Hole Sun”.






segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

A magia de uma megabanda

A introdução de “Message in a bottle” é o estopim que marca o fim de 25 anos de espera para muitos dos 74 mil espectadores presentes no Maracanã no sábado. Outros tantos não eram sequer nascidos, mas sonhavam com aquele momento desde que foi feito o anúncio de que o The Police tocaria no Brasil 25 anos depois do show que acontecera no Maracanãzinho.

Se no último show eu tinha apenas um mês de vida, neste piso o sagrado gramado do Maracanã para assistir a um dos maiores espetáculos do ano capitaneados pela guitarra do agora sessentão Andy Summers, pela bateria de Stewart Copeland e pelo baixo e voz de Sting, estes dois na faixa dos 50 anos.

E tudo começa com “Message in a bottle”. Poucas bandas podem iniciar um show com um de seus maiores clássicos e segurar a barra por quase duas horas sem que a apresentação caia de qualidade. O Police é uma delas.

Sting e seus dois parceiros envelheceram bem e parecem ter voltado melhores do que no passado para a nova turnê que marca o reencontro do grupo. Sem um novo álbum para apresentar, o show é uma compilação de clássicos emendados a cada cinco minutos – ou um pouco mais do que isso quando é permitido a Summers voar alto em solos tão espetaculares quanto inesquecíveis.

Nada de novo. O Police é mais e melhor do mesmo. Com um baixo gasto, arranhado, riscado e velho, esta pequena rima mostra que a saudade que Sting sentia por voltar a tocar com os antigos companheiros aparentemente era maior ainda do que a que ele dizia sentir pelo Brasil. Nem parece que se passaram mais de 20 anos desde o último show do trio. A sintonia é fina, cada um tem o seu espaço para brilhar num equilíbrio, uma harmonia própria das megabandas.

E com apenas os cinco discos lançados nas décadas de 70 e 80 – “Regatta De Blanc” (1979), “Outlandos D´Amour” (1979), “Zenyatta Mondatta” (1980), “Ghost in the Machine” (1981) e “Synchronicity” (1983) – o Police volta a ser uma megabanda. Conceito presente tanto na qualidade dos seus três músicos quanto na superestrutura do show que compensa, com o perdão do trocadilho infame, “every little cent spent for the ticket” porque “every little thing they do seems to be magic”.

Não há musica ruim no repertório que a banda apresenta. De clássicos como “De do do do De da da da” e “Don´t stand so close to me” a outras músicas menos cantadas, mas igualmente apreciadas como “Walking on the moon”, “Driven to tears”, “Wrapped around your fingers”, “When the world is running down” e “Invisible Sun”, cada canção é como se fosse um clássico do rock.

Sim, rock, essa palavra é absolutamente presente no show do Police. Apesar do aquecimento com “Get up, stand up” de Bob Marley, o tom “reggaezístico” aparece pouco. É Summers com seus solos incrivelmente apreciados nos telões de altíssima definição, um paraíso para os estudantes de música, em especial guitarra, quem dá o tom do espetáculo.

Para apreciar tudo isso um som limpíssimo, no volume certo que no Rio aparentemente só conseguimos ter em shows ao ar livre, apesar do elogiável esforço de casas como o Vivo Rio e o Canecão. O Citibank Hall continua uma tragédia.

Inebriante é uma definição bastante apropriada para o espetáculo do Police que quando toca “Roxanne” comprova novamente sua popularidade no país empurrando o Maracanã inteiro a cantar pelo amor da prostituta que “don´t have to put on the red light”.

“Roxanne” termina a primeira parte do show. Quando o Police retorna é para cantar o contraste da extrema felicidade de seu público – o de verdade, aliás, não o vip que só atrapalhou os verdadeiros fãs da banda como aconteceu no show dos Stones – com “King of pain”.

“So Lonely” e “Every breath you take” encerram um fantástico espetáculo, mas Summers faz graça. Pede mais uma. Não sei se estava no roteiro, se a banda estava realmente emocionada, ou as duas coisas. De qualquer maneira, Sting, que canta soberbamente na 1h50m de show, e Copeland retornam para encerrar de vez o espetáculo com a ótima “Next to you”.

Uma apresentação mágica, histórica e inesquecível em uma noite que já fora iniciada com um excelente show do Paralamas do Sucesso acompanhado pelo eterno guitarrista do Sepultura Andreas Kisser. Um show de peso só com clássicos da banda de Herbert Viana.

Há algumas semanas eu disse que o ingresso do Police era um assalto de tão caro. Mantenho a minha opinião, mas foi um delicioso assalto. Uma noite daquelas de guardar lembranças do show e do Maracanã para contar aos netos como relíquias da memória, pois pode não haver oportunidade semelhante.

Dois momentos especiais: “Message in a bottle” e “Every breath you take”:




sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

A riqueza é dourada

Ser louro deve significar status ou mais dinheiro no bolso. É a única explicação que encontro para ver tantas louras na Barra da Tijuca. A Barra é a maior concentração de louras por metro quadrado. É aparentemente um bairro onde a “louritude” é condição sine qua non para ser aceito. Deve ser o paraíso do Fausto Fawcett.

Seria exagero dizer que a Barra é o ideal nazista sendo aplicado, apesar de volta e meia algum pitboy morador daquelas bandas se meter em confusões e/ou maracutaias. Não dá para dizer que exista uma raça pura na Barra porque quando estive lá essa semana ainda encontrei algumas poucas morenas. Negras? É artigo de luxo na Barra.

No bairro que até mendigo é louro (sim, eu vi) seria possível se sentir na Suécia não fosse pelo calor e pela falta de educação de um ou outro. Coisa típica de brasileiro, mas ainda assim as ruas da Barra são mais limpas do que boa parte da cidade.

Não importa se outros cabelos confirmam ou não a louritude. Vale o que se vê e ser loura é a última moda no bairro. Mas não são só os cabelos que fazem do local um mundo fora da realidade. Não existe mulher feia na Barra. Pode ter umas mais ou menos, outras mais ajeitadinhas. Pode ter até uma que não se nutra alguma simpatia, mas baranga não tem. O mercado de academias deve ser efervescente na Barra.

Um mercado pulsante para atender a todas as louras As que saem da loja de biquínis com seus celulares rosas, as que comem comidas saudáveis no restaurante da rua, as que caminham de um lado para o outro. E até as que jogam água em você para limpar o vidro do carro. Definitivamente, a riqueza é dourada. Do corpo a cabeça.

Claro que isso tudo é fruto de dois dias de observação de um bairro que nunca freqüento. Mas entrando na Barra com seus prédios jeitosinhos, seus jardins arrumadinhos e um manancial de louras eu me senti no mundo da Barbie. Ainda bem que voltei para Niterói.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Ser pai

Ter uma das minhas amigas mais próximas grávida me fez pensar em coisas diferentes do que apenas querer derrubar o Lula (embora eu continue desejando isso). Como seria o pai Marcelo? Como seria um filho meu no mundo? Como seria o mundo com um filho meu?

Claro que isso está muito longe de acontecer. O FBI, a CIA e os espólios da KGB ainda não precisam se preocupar. Até porque sequer namorada eu tenho. Mas é de estremecer o planeta a possibilidade de um dia eu vir a ter um herdeiro. Ele daria continuidade à minha parca obra? Tornaria-se um revolucionário ou um mero pagodeiro?

Dúvidas, muitas dúvidas. Se ele me puxasse certamente seria muito chato. Há quem diga que os filhos superam os pais. Ou seja, ele seria extremamente chato, por vezes pedante e muito, mas muito crítico. Tenho pena de atores e diretores de um futuro que tivesse o meu filho como personagem. Enfim, ele seria insuportável, mas por causa dessas, digamos, qualidades, poderia até se tornar um gênio. Se puxasse a mãe, bem, essa resposta prometo dar daqui a alguns anos.

Mas a pergunta que você deve estar questionando é: Esse louco preferiria menino ou menina? Bem, nunca neguei que adoro estar perto de mulheres, cercado por elas. A proporção de três ou quatro para um é a que mais me agrada. Não é à toa que a minha agenda tem mais números de mulheres do que de homens (sem conotações sexuais, por favor, sou um cavalheiro).

Portanto, não seria nada mal ter uma menina geniosa para abrilhantar esta família hipotética. É quando presencio o seguinte diálogo envolvendo três adolescentes no McDonalds do Rio Sul enquanto espero um excelente filme sobre o qual falarei no próximo texto.

“O Kevin é lindo, mas é muito galinha. Ele trocou a mulher dele pela psiquiatra. Vocês podem acreditar?”

“Vocês já viram as fotos do casamento do Nick? E as imagens? Elas estão no Youtube. São lindas, a noiva com aquele vestido”.

“Pois é, e a gente quase não vê fotos do casamento do Brian. Eu só vi duas, iguais, com a noiva com aquele vestido que mais parece a cortina lá de casa”.

“Gente, o AJ é muito esquentado. Eu adoro ele, mas ele é muito bravo. Mas no vídeo ele faz aquela carinha... Eu acho que ele chega a chorar”.

Definitivamente ter uma filha adolescente fazendo fofoca dentro de uma lanchonete que vende fast food sobre a vida pessoal de integrantes de boys bands seria de causar um tremendo desgosto para qualquer pai. Talvez, quando (e se) a hora chegar, seja melhor eu aceitar ser maioria uma vez na vida.

sábado, 24 de novembro de 2007

Leões comandados por cordeiros

Após seis anos de atoleiro no Iraque e no Afeganistão, o cinema norte-americano resolve reavaliar os fatos e fazer com que os responsáveis pela famigerada guerra ao terror se responsabilizem por seus atos. “Leões e Cordeiros” é um dos muitos filmes sobre as guerras perdidas do governo republicano que estão surgindo e serão produzidos daqui para frente.

E o que dizer sobre o retorno de Robert Redford à direção depois de sete anos, desde “A lenda de Bagger Vance” (2000)? Devo confessar que fiquei um pouco desapontado em relação ao que esperava, mas no cômputo final, pode-se dizer que é um bom filme. Uma película nota 7 se eu tivesse que classificá-la de alguma forma.

O que faz o filme ser bom são as boas atuações de Redford como o professor Stephen Malley, que tenta convencer um jovem e talentoso estudante a não se perder na vida por nada, e de Meryl Streep como a jornalista Janine Roth, que começa a se questionar sobre o papel da imprensa e sua parcela de culpa na guerra contra o terror.

Meryl não está brilhante como em outras oportunidades. “Kramer vs Kramer” (1979) e “O diabo veste Prada” (2006), só para citar dois filmes bem equidistantes. Porém, sua atuação segura é suficiente para gerar simpatia e engolir o atual apático e desconcentrado Tom Cruise (senador Jasper Irving) num duelo digno de aplaudir de pé o roteirista Matthew Michael Carahan.

Desde que a Cientologia tomou Tom Cruise de assalto, aliás, ele não está acertando uma. Vive apenas do sorriso e parece se repetir a cada filme, não importando se o personagem é um senador republicano ou um pai tentando se reconciliar com os filhos enquanto alienígenas invadem a Terra em “Guerra dos Mundos” (2005).

Cruise faz mais filmes bons do que tem atuações elogiáveis. É inegável que ele sabe com quem trabalhar, mas é impressionante que tenha desaprendido o básico de atuar. Devia rever “Colateral” (2004) e Jerry Maguire (1996), que lhe valeu uma indicação ao Oscar, para tentar se recuperar da lavagem cerebral cientológica.

O ator não convence como o senador republicano que defende com unhas e dentes as incursões dos Estados Unidos na Ásia. E aqui surge outro problema do filme de Redford. A “patriotada” por vezes suplanta a história. Talvez o diretor tenha colocado a mão muito pesada no filme. Ou então esta era sua intenção, pois tempos extremos talvez exijam medidas extremas para que os jovens acordem da letargia. É como comparar a sutileza de um “O tempo não pára” de Cazuza e a porrada sem papas na língua de “Vossa Excelência” dos Titãs.

De qualquer forma, dentro do engajamento de Redford, prefiro filmes mais densos como “Quiz Show” (1994), seu primeiro trabalho como diretor e que investiga os bastidores de programas de televisão que testam seu conhecimento, além de “Três dias de Condor” (1975) e o clássico “Todos os homens do presidente” (1976), sobre o caso Watergate que derrubou o ex-presidente Richard Nixon.

Independentemente dos altos e baixos que o filme possa apresentar, “Leões e Cordeiros” é uma obra necessária e atual. As três histórias visceralmente interligadas por um roteiro linear – e não estratificado como os de Guillermo Arriaga – são interessantes e geram reações internas. Nem sempre elas são boas, é verdade. Mas entre a esperança do jovem estudante, a fatalidade das montanhas do Afeganistão e a sensação de impotência da jornalista é impossível não sentir aquela vontade de fazer algo. Se este era o objetivo de Redford, ele acertou na mosca.

domingo, 18 de novembro de 2007

Flagelos opositores

Sou um mal necessário
Justifico a existência do belo
Justifico a existência da felicidade
Sem mim, não haveria Coriolano

Sou um mal necessário
Uma vela faltando no candelabro
O amargo que sublima o doce
O odor que o perfume endeusa

De mim, a paz nasceu
A vida floresceu
A mim os homens voltam
Ao caos eles se jogam

Sexo, violência,
básicos instintos
Dor, clemência,
passaportes para o limbo

Um mal necessário
A síntese do contrário

domingo, 11 de novembro de 2007

O primeiro “benefício” da Copa

Nesta semana o Brasil recebeu o primeiro benefício decorrente da escolha da Fifa como sede da Copa do Mundo de 2014. Foi enterrada a CPI do Corinthians/MSI, que investigaria a lavagem de dinheiro em clubes de futebol do país. Assim, ficaremos impedidos de saber a origem do dinheiro que moveu a parceria entre o clube paulista e um fundo de investimentos que ninguém sabe quem é dono, mas suspeita-se de que o capital venha da máfia russa.

Para que a CPI fosse enterrada, duas classes imbatíveis tiveram que se unir. Trata-se da dos políticos e a dos cartolas de futebol, reino em que ainda procuramos uma espécie confiável.

Num golpe iniciado pela alta cúpula do futebol brasileiro, nada menos do que 111 parlamentares retiraram o apoio à CPI nos últimos dez dias. O argumento para tal debandada? A candidatura do Brasil à Copa de 2014 seria prejudicada. Não sou eu que estou dizendo isso, mas o deputado Jorginho Maluly (DEM-SP) em e-mail enviado ao Blog do jornalista Juca Kfouri. Esse foi um dos argumentos usado pela cartolagem brasileira para enterrar a Comissão.

Maluly respondeu a Kfouri tentando se justificar. A emenda saiu pior do que o soneto. Um deputado que está preocupado com jogos de futebol ao invés de se preocupar com a investigação dos problemas da nação, independentemente das conseqüências externas, é tão irresponsável quanto seus pares que mantiveram sem uma justificativa plausível a idéia de retirar os nomes.

Ricardo Teixeira conseguiu o que Nosso Guia vem tentando há meses. Unir governo e oposição em torno de uma causa. Nos próximos dias, Lula devia solicitar uma reunião com Mr. Teixeira para saber o segredo do cartola, afinal retiraram o nome do requerimento parlamentares do PSDB (16 no total), do PMDB (21), DEM (15), PR (14), PT (13), PSB (7), PTB (7), PP (6), PcdoB (5), PV (4), PPS (2) e PDT (1). Se Nosso Guia conseguisse tamanha mobilização, era capaz da prorrogação da CPMF não apenas ter sido aprovada, como também ter tido a sua alíquota aumentada.

A quem interessar possa. Dos 18 estados candidatos a sediar jogos da Copa do Mundo de 2014, 17 tiveram parlamentares retirando a assinatura da CPI. O único estado que não se mobilizou foi o Mato Grosso do Sul.

São Paulo (9 parlamentares), Bahia (7), Rio (7), Ceará (5), Pará (5), Paraná (5) e Santa Catarina (5) tiveram parlamentares retirando assinaturas. Minas Gerais foi o recordista, com a incrível colaboração de 22 deputados.

Renato Russo escreveu com muita propriedade “nas favelas, no senado/sujeira pra todo lado” na letra de “Que país é esse?” (vídeo abaixo). É o que nos questionamos a cada vez que vemos absurdos como esse. Que país é esse?

Como um serviço à população, “Memórias da Alcova” publica abaixo a lista dos parlamentares que retiraram suas assinaturas da CPI do Corinthians.

Deputados: Afonso Hamm (PP-RS), Airton Roveda (PR-PR), Alexandre Silveira (PPS-MG), Angelo Vanhoni (PT-PR), Anibal Gomes (PMDB-CE), Anselmo de Jesus (PT-RO), Antonio Bulhões (PMDB-SP), Antonio Roberto (PV-MG), Arnon Bezerra (PTB-CE), Asdrubal Bentes (PMDB-PA), Ayrton Xeres (DEM-RJ), B. Sá (PSB-ES), Bonifácio de Andrada (PSDB-MG), Bruno Araújo (PSDB-PE), Camilo Cola (PMDB-ES), Carlos Alberto Leréia (PSDB-GO), Carlos Brandão (PSDB-MA), Cida Diogo (PT-RJ), Ciro Pedrosa (PV-MG), Claudio Cajado (DEM-BA), Cleber Verde (PTB-MA), Colbert Martins (PMDB-BA), Cristiano Matheus (PMDB-AL), Davi Alcolumbre (DEM-AP), Décio Lima (PT-SC), Domingos Dutra (PT-MA), Dr. Pinotti (DEM-SP), Dr. Talmir (PV-SP), Edinho Bez (PMDB-SC), Edmar Moreira (DEM-MG), Eduardo Barbosa (PSDB-MG), Eugênio Rabelo (PP-CE), Evandro Milhomen (PCdoB-AP), Fátima Pelaes (PT-RN), Fernando de Fabinho (DEM-BA), Fernando Ferro (PT-PE), Flávio Dino (PCdoB-MA), Francisco Rodrigues (DEM-RR), Frank Aguiar (PTB-SP), Gastão Vieira (PMDB-MA), Geraldo Pudim (PMDB-RJ), Gonzaga Patriota (PSB-PE), Homero Pereira (PR-MT), Ilderlei Cordeiro (PPS-AC), Índio da Costa (DEM-RJ), Jaime Martins (PR-MG), Jairo Ataíde (DEM-MG), Jô Moraes (PCdoB-MG), João Magalhães (PMDB-MG), João Pizzolatti (PP-SC), José Fernando Aparecido de Oliveira (PV-MG), Jorge Khoury (DEM-BA), José Carlos Aleluia (DEM-BA), Joseph Bandeira (PT-BA), Júlio Delgado (PSB-MG), Jusmari Oliveira (PR-BA), Laerte Bessa (PMDB-DF), Lelo Coimbra (PMDB-ES), Léo Alcantara (PR-CE), Lincoln Portela (PR-MG), Luciana Costa (PR-SP), Luciano Castro (PR-RR), Luiz Couto (PT-PB), Marcio França (PSB-SP), Marcio Reinaldo Moreira (PP-MG), Marcondes Gadelha (PSB-PB), Marcos Montes (DEM-MG), Maria Lúcia Cardoso (PMDB-MG), Maurício Rands (PT-PE), Milton Monti (PR-SP), Nárcio Rodrigues (PSDB-MG), Neilton Mulin (PR-RJ), Nelson Bornier (PMDB-RJ), Nelson Goetten (PR-SC), Nelson Marquezelli (PTB-SP), Nelson Meurer (PP-PR), Neucimar Fraga (PR-ES), Osmar Serraglio (PMDB-PR), Pastor Manuel Ferreira (PTB-RJ), Paulo Abi-Ackel (PSDB-MG), Paulo Bornhausen (DEM-SC), Paulo Henrique Lustosa (PMDB-CE), Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), Pedro Fernandes (PTB-MA), Pepe Vargas (PT-RS), Perpétua Almeida (PCdoB-AC), Pinto Itamaraty (PSDB-MA), Prof. Sétimo (PMDB-MA), Rafael Guerra (PSDB-MG), Ribamar Alves (PSB-MA), Roberto Rocha (PSDB-MA), Rodrigo de Castro (PSDB-MG), Sebastião Madeira (PSDB-MA), Sérgio Moraes (PTB-RS), Urzeni Rocha (PSDB-RR), Valadares Filho (PSB-SE), Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), Vicentinho Alves (PR-TO), Virgílio Gumarães (PT-MG), Vitor Penido (DEM-MG), Waldir Maranhão (PP-MA), Wladimir Costa (PMDB-PA), Zé Geraldo (PT-PA), Zequinha Marinho (PMDB-PA). Senadores: Cícero Lucena (PSDB-PB), Garibaldi Alves Filho (DEM-RN), Flexa Ribeiro (PSDB-PA), Adelmir Santana (DEM-DF), Almeida Lima (PMDB-SE), João Tenório (PSDB-AL).

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Intermitências do amor

Submeter uma obra ao olhar mordaz e pouco amigo da crítica deve ser um desafio angustiante e doloroso, além de ter resultados imprevisíveis. Cada filme é como um filho que você gosta e vê-lo sendo destroçado por críticos sem alma e de coração gélido deve ser de despedaçar qualquer um. Sem contar que quem analisa o filme nunca leva em conta a maneira heróica que se faz cinema no Brasil. Basta contar as dezenas de patrocinadores de cada película nacional para saber o quanto aquele dinheiro foi suado.

Lina Chamie não é uma diretora estreante. Ela já fizera “Eu sei que você sabe” (1995) e Tônica Dominante (2000). Contudo, nota-se um certo nervosismo em sua voz, que pode ser em parte creditada a uma timidez (não sei, não a conheço) ao apresentar a obra. É natural. Submeter um filho sob avaliação não é fácil e ter um desprendimento de ignorar algo negativo – nunca vi diretores de cinema admitirem que um crítico estava correto – só deve ser fácil para diretores muito cascudos como Cacá Diegues, também presente à pré-estréia de “A Via Láctea” na terça-feira retrasada.

Espero que Lina não tenha visto a minha cara no final da exibição. Odiaria vê-la partindo para cima de mim com argumentos agressivos e pré-conceitos como já li em muitos direitos de resposta em jornais. Uma idéia, aliás, excelente, diga-se de passagem.

O fato é que sem conhecer sua obra pregressa para uma sempre importante comparação, achei a “Via Láctea” um filme ruim. Fraco mesmo. Faltou-lhe algo que se perdeu no roteiro deixando-o confuso.

É claro que cada sorriso de Alice Braga poderia amolecer qualquer coração. Até mesmo o meu. Certamente a interpretação dela e a de Marco Ricca, praticamente os dois únicos atores em cena, é louvável e digna de aplausos.

Mas o filme é confuso, por vezes arrastado. Outras vezes é chato mesmo com aquele vai não vai pseudolírico, a música que introduz ao nada, o silêncio que só leva o olhar para o relógio no pulso.

Antes da sessão, Lina disse que “A Via Láctea” era uma história de amor. É verdade. É uma tragédia urbana e uma reflexão sobre o tempo que perdemos com coisas menores ao invés de cultivarmos o essencial. Permeado a isso, tipos trágicos das ruas de São Paulo vão aparecendo em cena, ensinando o caminho ao personagem de Marco Ricca até o desfecho inicialmente improvável, posteriormente inevitável.

A premissa é boa, o final interessante, mas os caminhos tomados foram, para mim, equivocados. Ou eu não estava no clima e aberto o suficiente para receber a narrativa de Lina. Essas coisas acontecem. Críticos não são deuses. Apenas pensam que são.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Marcas do passado

Diante do mundo, Sofia (Anália Couceyro) e Rímini (Gael García Bernal) formam um casal perfeito. Dentro do apartamento que vivem numa cinzenta Buenos Aires, a realidade é diferente. O divórcio é iminente e a melancolia está marcado no olhar perdido de Rímini da mesma forma que a tristeza é inerente à alma de Sofia.

A decisão de se separar é de comum acordo e Sofia até procura por um novo apartamento para Rímini. Em uma semana ele se muda e em pouco tempo conhece a modelo Vera (Moro Angheleri), mulher fragilizada por uma traição e extremamente ciumenta por isso. É com ela que ele tentará reiniciar a vida de algum ponto perdido no espaço.

Sofia não tem a mesma sorte. Parece ter partido dela a decisão ao mesmo tempo em que não se mostra madura o suficiente para arcar com as conseqüências da separação. Não consegue lidar com os mortos estampados nas fotos de 12 anos de casamento. Pede ajuda a Rímini, que tenta escapar, deixar as coisas no passado.

Lidar com o despedaçamento de uma relação, o momento em que corações estão sensíveis e almas dilaceradas talvez seja o tema principal de “O Passado” ótimo filme de Hector Babenco. Nele, Gael vive um homem a procura de um norte para a vida. Um caminho a seguir e uma maneira de dar novo sentido à sua existência. Mas ele será sempre de alguma forma prejudicado por Sofia.

Ambos não conseguem lidar com a separação. Sofia, sofrendo pela necessidade de separar as fotos do passado, uma metáfora para suas dificuldades em lidar com a morte. Rímini tentando deixar o passado onde deve estar se afastando subitamente de Sofia e refugiando-se no cigarro, na cocaína e, principalmente, em outras mulheres.

Impulsiva e insegura, Vera encerra tragicamente sua história com Rímini após um beijo de Sofia que ele tentou evitar. Mas neste instante, já surgira a paixão por Carmen (Ana Celentano), tradutora como ele, bonita, inteligente e que lhe dará um filho. A mulher perfeita para um homem que ainda sente falta de algo.

As dores, os conflitos internos e a relação mal resolvida causam um bloqueio que o faz esquecer as línguas que traduz. Mas Sofia teima em reaparecer como um fantasma. Mais do que isso, ela se torna um karma que o joga no abismo mais uma vez.

Sofia precisa que Rímini cumpra o que acha ser seu destino. Por isso o destrói a cada vez que ele tenta se reerguer. Na última vez que o tira da sarjeta, Rímini se rende e volta para ela. Só para resolver pendências passadas.

“O Passado” é um drama sobre escolhas e maneiras de seguir em frente após uma dor profunda. Na câmera de Babenco, o olhar, as minúcias da face e o silêncio são valorizados como diálogos do roteiro. E nisso ele tem como aliado o excelente ator que é Gael García Bernal.

O versátil Gael, que já foi um padre que se apaixona e engravida uma jovem em “O Crime do Padre Amaro” (2002), de Carlos Carrera, um homossexual em “A má educação” (2004), de Almodóvar, e o jovem revolucionário Ernesto Che Guevara em “Diários de Motocicleta” (2004), de Walter Salles, dá a Rímini uma alma vazia, perdida em futilidades ao mesmo tempo em que sente a angústia de encontrar uma saída.

Sem dúvida é um de seus melhores trabalhos e “O Passado” é um de seus melhores filmes. Uma película densamente maravilhosa de apreciar graças à confluência de talentos nela mostrada.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

A Copa é nossa. E daí?

Numa paráfrase do velho conceito de Marx, já se disse no Brasil que o futebol é o ópio do povo. Assim sendo, organizar a Copa do Mundo deve ser uma overdose. Ou, numa alusão a frase original – “A religião é o ópio do povo” – a Copa seria como receber a visita do Papa durante um mês. Tá certo, a Copa do Mundo de 2014 é do Brasil e todos os políticos já esfregam as mãos para fazer de seus currais eleitorais uma das sedes do Mundial. Afinal, todos sabem que a escolha das sedes será puramente política e não meritória. Mas a escolha da Fifa foi merecida? Numa resposta curta e grossa: Não.

Sou da opinião que um país deve estar pronto para se candidatar a receber um evento esportivo como uma Copa do Mundo e não prometer se aprontar para organizá-lo. O país terá sete anos para cumprir tudo o que estava escrito no caderno de encargos da Fifa, mas tenho certeza que não o fará.

O Rio também prometeu uma série de coisas para o Pan, como metrô até a Barra e a despoluição da Lagoa e da Baía de Guanabara. O metrô ainda nem chegou em Ipanema e os dois cartões postais da cidade continuam poluídos.

Assim é o Brasil. O que esperar de um país em que políticos discutem maneiras e períodos para melhor tungar o povo. A discussão já deixada bem explícita pelo ministro da Fazenda Guido Mantega é a seguinte: ou a CPMF é prorrogada ou haverá aumento de impostos. Ou seja, nós devemos pagar por algo que supostamente deveria ir integralmente para a Saúde e não vai. Mas se a oposição continuar rejeitando a proposta, novos impostos serão criados ou velhas tungadas serão mais fortes.

Calma ministro, vamos sentar para conversar, diz a oposição. O governo aceita negociar? Claro. Para que servem cargos públicos e emendas no orçamento? O povo é um detalhe. E eu nem citei o acordão que está sendo costurado para livrar Renan Calheiros da cassação. Aliás, negociatas é o que mais se viu no caso dos mensaleiros e sanguessugas.

No Brasil não se questiona se haverá ou não corrupção daqui até a Copa, mas o quanto de corrupção haverá. Isso é mais certo do que apontar que a final da Copa será no Maracanã.

Mas isso não importa. Deve-se bater no peito e ter orgulho de ser brasileiro como disse o técnico da seleção, Dunga, indignado, vejam só, com uma pergunta de uma repórter canadense da AP sobre a violência no país. Como pode? Que absurdo! Logo no Brasil onde quase não há vítimas de violência. Onde não se vê helicópteros mandando bala em favelas. Essa repórter do Canadá é muito mal educada realmente.

O presidente da CBF, Ricardo Teixeira, tinha mesmo que ficar indignado e responder feito criança na coletiva da Fifa em Zurique bem ao estilo você também é feio, bobo e chato. Ninguém avisou a Teixeira que se falava dos problemas do Brasil e não dos países de primeiro mundo, que obviamente existem, mas são infinitamente menores do que os nossos.

A violência assustadora não é o único problema do país. O serviço de transportes é péssimo. Convivemos há meses com um apagão aéreo cuja solução não vejo no horizonte. Há ameaça de apagão energético como o ocorrido no governo FH. Nós somos também o país em que hospitais públicos abrem crânios de pacientes com serras.

Sem falar na corrupção. Se o orçamento do Pan já havia estourado em níveis estratosféricos, pode-se imaginar o que acontecerá daqui até 2014. A julgar pelo trem da alegria que foi a Zurique, muita água vai rolar debaixo dessa ponte. Sempre com a conivência da imprensa amiga e acobertamentos naturais.

Alguns podem argumentar que a África do Sul também tem problemas sérios e vai organizar a Copa de 2010. Sim, é outro erro da Fifa, que em nome da pior política implantou um mordaz e agora extinto esquema de rodízio de continentes para sediar o Mundial.

E não adianta virem com o bobo argumento tipicamente pseudo-esquerdista que eu desejo uma Copa elitista com apenas os países da Europa, da América do Norte e alguns da Ásia organizando o torneio. A questão não é política, mas de capacidade.

O Brasil pode muito bem organizar um mundial assim que resolver os seus problemas e se organizar decentemente como nação. Enquanto houver pessoas analfabetas e morrendo de fome neste país, enquanto houver a corrupção deslavada que há, não vejo um motivo para o Brasil merecer organizar a Copa.


Politicamente, a Fifa decidiu a favor do Brasil, mas ainda dá tempo de corrigir o erro e dar o Mundial para quem merece realmente organizar um torneio desse porte, independente de tradição política ou esportiva.

sábado, 27 de outubro de 2007

O The Police é um assalto

Ainda tento entender a lógica da venda de ingressos para shows no Brasil. Antigamente as coisas eram mais claras. Quanto menor a casa, maior o preço do ingresso. É natural. O preço do artista é único e a casa tem que bancá-lo não importando se a capacidade é para 5 mil ou 50 mil pessoas.

Hoje, diante da lei da meia entrada que só prejudica as pessoas honestas (são poucas, mas elas existem), essa lógica ganha tons de perversidade. O que leva alguém a cobrar de R$ 160 a R$ 500 pelo ingresso do “The Police” num estádio que pode receber facilmente 100 mil pessoas e R$ 180 por shows do Tim Festival em tendas que com boa vontade cabem 4 mil pessoas?

Claro que ambos os preços são abusivos. Verdadeiros assaltos num tempo em que o dólar está na casa do R$ 1,80. Quando a moeda americana custava entre R$ 3 e R$ 4, os shows não passavam de R$ 120 e isso já era considerado um absurdo.

O dólar alto impediu o investimento em artistas. Perdemos turnês de U2, Madonna, entre outros. Com a cotação favorável, diversos músicos têm desembarcado no país para fazer shows. O que é muito bom, mas o ingresso continua batendo recordes astronômicos. A continuar assim, o cidadão terá que desembolsar em breve um salário mínimo para assistir a duas horas de música.

Gostaria que a organização da turnê do The Police viesse a público explicar os números que levaram a esse valor de R$ 160 per capita. Para mim, ele não tem lógica nenhuma. Parece que quem vai tocar é Jimi Hendrix, voltando do inferno com sua guitarra ao som de “Purple Haze”. Por esse preço, se devia esperar pelo menos Jim Morrison saindo das catacumbas de Père-Lachaise com seu vozeirão cantando “Riders on the storm”.

Sempre dei razão a quem organiza shows no Brasil e reclama da lei da meia entrada. Realmente, o que menos tem é estudante de verdade e já escrevi neste blog minha posição a favor da extinção da lei. Contudo, eles estão abusando. Nada justifica R$ 160 como o ingresso mais barato de um concerto, por mais clássica que seja a banda.

Além disso, a julgar pelo posicionamento do público, a apresentação do The Police promete ser fria como a dos Stones na Praia de Copacabana quase foi não fosse a genialidade daquela que considero a maior de todas as bandas. Criaram uma área vip e uma área premium – aquela dos R$ 500 – em frente ao palco matando de maneira absurda o gargarejo. Ora, as fileiras da frente são as que mais animam a banda e onde melhor ocorre a interação artista-público. Ou alguém acredita que o Sting está preocupado com quem estiver na arquibancada lateral – a de R$ 160 – a milhares de metros de distância?

Mas as inteligências superiores entre os organizadores do show criaram um espaço onde quem tem dinheiro vê melhor e quem é fã se fode, com o perdão do palavrão, aqui absolutamente necessário.

Apesar do preço extorsivo tenho a absoluta convicção que o show do The Police terá “sold out” rapidamente. A banda está tocando muito bem como você pode comprovar abaixo em dois vídeos da volta deles que catei no "Youtube" e o show é marcado só por clássicos do Police.

Enfim, quem cobra esse preço sabe que o que faz, sabe que está lidando com fã e fã paga qualquer preço para ver sua banda favorita. Eles sabem que quando se tratam de concertos, não tem como a pirataria roubar a bilheteria como faz com o mercado fonográfico e cinematográfico. Enquanto isso, todos nós que gostamos de assistir a shows passamos pelo papel de otários. Idiotas assaltados pelo The Police.


Veja o The Police tocando “Message in a bottle” e “Roxanne”:




quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Drama sofrível

Richard Gere sempre foi um ator limitado. É preciso pensar muito para descobrir em sua vasta filmografia uma atuação digna de qualquer elogio. Talvez em “O Chacal” (1997). Quem sabe. Boa gente que viu “O vigarista do ano” (2006), ainda em cartaz, diz que ele está perfeito no papel-título. Devia ter assistido a esse filme e não ao insosso “Justiça a qualquer preço”.

Dirigido por Andrew Lau, o cara por trás do roteiro do filme original que gerou o genial “Os Infiltrados”, o filme é incompreensível. Numa atuação perto da sofrível, Gere faz o funcionário público Errol Babbage. Sua missão é monitorar os malucos da sua área que no passado foram pegos em crimes sexuais dos mais diversos e agora tentam se livrar de seus problemas trabalhando enquanto escondem o que fizeram do resto da sociedade e freqüentam grupos de recuperação.

Errol os importuna sempre fazendo as mesmas perguntas e acaba atrapalhando também qualquer chance de recuperação. Mas o faz porque tenta recuperar a si mesmo. Errol se acha um fracassado por não ter feito mais, salvado mais pessoas inocentes, etc...

Nesse meio tempo entra em cena Allyson Laurie (Claire Danes, cuja atuação não merece qualquer comentário). Ela vive a profissional que irá substituir Errol assim que ele se aposentar, ou for aposentado como o próprio define.

O filme até aqui, portanto, se propõe a ser um drama com tintas de regeneração e blá, blá, blá. É quando Lau entra em cena e traz toda a técnico do cinema oriental de terror. Leia-se com isso uma câmera que acelera e pára em determinados pontos, consagrada por John Woo, o som estrategicamente aumentado com o andar lento da câmera e gritos. Claro, sem grito o cinema de horror não teria vez. Algo bem na linha de “Jogos Mortais”, mas bastante pasteurizado pelo estilo americano de fazer cinema. Talvez o paralelo melhor nem seja “Jogos Mortais”, filme de roteiro genial, mas suas sofríveis seqüências.

Por trás desse aparato há uma investigação de uma garota desaparecida, Harriet Wellis (Kristina Sisco). Ela, claro, foi raptada e Babbage acha que Harriet foi vítima de uma das ovelhas negras do seu rebanho, “The Flock”, como no título original em inglês. No final estará certo e descobrirá a verdade até de uma forma bastante óbvia. Um pouco de atenção ao filme o fará descobrir o sequestrador com pouco mais de uma hora, assim mesmo porque ele demora a apresentar todos os personagens. Aliás, a investigação é uma das mais mau executadas da história do cinema.


Sem surpresas e com um roteiro preguiçoso, Andrew Lau não convence com o seu primeiro filme americano. “Justiça a qualquer preço” não passa de uma perda de tempo. Ninguém mandou eu dar uma segunda chance a Richard Gere.

domingo, 21 de outubro de 2007

A velha China em foco

A cinematografia de Zhang Yimou é bastante coesa. Seus filmes quase sempre falam da China do tempo dos imperadores, tratam de disputas marciais envolvendo honra, coragem e glória e abusam das cores vibrantes. As cores, aliás, são instrumentos importantes em seus filmes que remetem a estados de espírito e situações-limite. Foi assim em “O clã das adagas voadores” (2004), um de seus melhores trabalhos, “Herói” (2002) e é assim, em parte, com seu mais recente trabalho, “A maldição da flor dourada”.

A parte exatamente que não entra na descrição dos filmes anteriores é a do confronto envolvendo os valores. Aqui os temas são mais palpáveis, mais humanos. É a traição, o amor incestuoso e a vingança.

Li Gong vive uma imperatriz infeliz na China 600 anos antes de Cristo. Seu marido, o imperador vivido por um Chow Yun-Fat bastante à vontade no papel, casou-se com ela apenas para unir duas famílias e conquistar o poder absoluto. Ela tem um caso com seu filho adotivo, o príncipe Wan (Ye Liu), filho da primeira mulher do imperador, supostamente morta.

No entanto, o monarca sabe da traição e trama matá-la com doses diárias de um veneno vindo da Pérsia colocado em seu remédio. Antes de morrer, porém, ela trama um golpe de estado durante o festival dos crisântemos, a tal flor dourada do título, com seu filho mais velho, o príncipe Jai (Jay Chou).

Com a calma de um genocida, o imperador dizima seus inimigos nas belas cenas de batalha dirigida por Yimou. E o festival que deveria significar a celebração da família termina numa carnificina. Nada que abale a paz do imperador. É como se ele tivesse a total noção do que iria acontecer e até planejasse aquilo.



“A maldição da flor dourada” não é dos mais inebriantes filmes de Yimou nem tem a mesma riqueza dos anteriores. Essa falta é compensada apenas pelas belas cenas de luta bem características do diretor. É uma obra interessante, mas sem a mesma densidade de seus trabalhos anteriores.

domingo, 14 de outubro de 2007

Diário de guerra de um justiceiro

O Rio é um estado em guerra e precisa de alguém para fazer o trabalho sujo. Essa é a missão do Capitão Nascimento (Wagner Moura, em atuação magistral). E ele sabe que, assim como dizem as regras do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar (Bope), missão dada é missão cumprida. Fim de papo. End of story.

“Tropa de Elite” é um espelho cruel, mas absolutamente e tristemente fiel do Rio de Janeiro. Estão lá todos os elementos que levaram esse estado à falência moral. É a polícia corrupta, a polícia que tortura, playboys e patricinhas que ajudam a financiar o tráfico, políticos e comandantes de batalhões corruptos, Ongs que fazem acordos com bandidos e propaganda política canalha, traficantes circulando livremente como verdadeiros senhores feudais das favelas...

São tantos os elementos que jogaram esse estado na lona, são tantos os culpados, que chamar o filme de fascista como alguns fizeram é querer justificar o filme com um posicionamento político que ele não tem e não analisar o problema do tamanho que ele é apresentado. Gigantesco.

E no meio disso tudo, como não poderia deixar de ser numa obra de ficção, tem que haver um herói. No caso, ele é mais um anti-herói. Seu nome é Capitão Nascimento. Sua missão é extirpar da cidade o câncer praticado pelo duo corrupção/hipocrisia enquanto ele mesmo vai sendo derrotado pelos anos de dedicação àquela vida sofrível. Muitos dos seus métodos são condenáveis, mas como questioná-los na guerra em que vivemos? Pois se ninguém percebeu ainda que a situação é de guerra, basta ver o filme. Ele não aumenta nem inventa nada. É verdade crua.

Nascimento lembra que numa situação como a que o Rio vive, “ou você se corrompe, ou você se omite, ou vai para a guerra”. Esta foi a opção dele. Sua visão é simples e direta. Bandido bom, é bandido morto. Estudante que fuma maconha financia o tráfico e merece castigo. E que depois de fumar um baseado não venha querer fazer passeata pela paz que ele mesmo ajuda a destruir.

Não é verdade que o filme coloca o Bope num pedestal e a Polícia Militar como apenas corrupta. Do primeiro se acusou o diretor José Padilha de dizer que não há corrupção no Batalhão. Ele nunca diz isso textualmente. Quem diz é Nascimento. E é natural que ele pense isso, uma vez que o Bope é sua vida, a instituição pela qual ele dedicou sua vida com afinco e honestidade. Afinal, como ele mesmo admite, o Bope, por vezes, se assemelha a uma seita. Daí a ser tudo verdadeiro são outros quinhentos. O filme é claramente a visão do capitão. É narrado em primeira pessoa e é o ponto de vista único e exclusivamente dele. Nada mais. Faltou a muitos entenderem isso.

Um segundo ponto. Se o filme coloca o Bope em posição heróica e de bastião da moral e dos bons costumes das duas uma: ou eu não entendo mais o que é um herói ou os conceitos mudaram bastante e eu não percebi. Desde quando uma instituição que tortura (de acordo com o filme, sempre. Não sei até onde vai a verdade nestes atos) qualquer um, mata primeiro e pergunta depois, intimida as pessoas (lembrai a cena em que Matias conversa com o universitário enquanto o agride e diz claramente: “Qual é? Vai reagir? Vai bater em policial?”) e ameaça empalar um jovem jovem morador da favela com um cabo de vassoura pode ser considerada exemplo? Que pedestal divino é esse?

Segunda parte. A corrupção venal da PM é mostrada e não a PM corrupta como um todo. Há exemplos sutis de que nem todos são canalhas. Não viu quem não quis ou tem teto de vidro. Um exemplo: Matias (André Ramiro, excelente) faz um mapa do crime na área do batalhão em que trabalha e é esculachado pelo comandante do Batalhão, que pensa apenas nos seus interesses. Seu superior imediato sai em sua defesa: “Mas é um relatório perfeito sobre tudo o que acontece na cidade”. O relatório continha os erros, as estatísticas desfavoráveis ao capitão e uma solução para agir na melhoria da segurança dos moradores. O comandante o joga no lixo e manda refazer o documento com um pouco mais de amenidades. Conclusão: Nem todos são podres, mas a corrupção atinge muitos e em cargos estratégicos.

Segundo ponto. A corrupção dos PMs de menor escalão é apresentada de uma maneira em que os policiais são bandidos sim, mas também vítimas de um sistema que os massacra, que os faz arriscar vidas por quase nada. É o caso de Fábio (Milhem Cortaz) que diz: “Eu ganho R$ 500 por mês. Você acha que eu vou subir favela? Preciso sobreviver”. Não justifica, mas explica um dos motivos do problema. E como diz o capitão Nascimento: “Policial também tem família e medo de morrer”.

Houve quem chiasse por generalizar o comportamento dos estudantes. Eu diria que vestiram a carapuça. Minha faculdade tinha até maconhódromo. O fato é que muitos jovens fumam adoidado por se acharem transgressores. Esqueceram que Woodstock acabou, drogas não são mais românticas e ajudam sim a financiar o tráfico. Portanto, meu amigo, se você está lendo esse texto fumando um baseadinho legal, num maior barato, saiba que qualquer um, inclusive você, pode ser vitima de violência gerada a partir desse cigarrinho “inocente”. É com esse dinheiro sim que o tráfico compra parte do seu arsenal. Não acredita nisso? Estou exagerando? Veja “Babel” (2006) para você ver como o mundo é interligado e o ácido não te faz perceber.

Num mundo perfeito, uma espécie de cruzamento entre Holanda, Suíça e Noruega, liberar as drogas seria uma solução e eu concordo. Mas para que isso aconteça seria preciso praticamente recomeçar este país, reeducá-lo. Refundar, privatizar, qualquer coisa, porque ele começou errado, continua errado e não vejo o menor esforço para consertá-lo. Os políticos estão mais preocupados com os seus próprios interesses do que com os da população. Enquanto isso, ninguém investe em educação.

Quem disse que as Ongs que trabalham nas favelas são colocadas como corruptas e safadas também não entendeu a mensagem. Na realidade, elas fazem parte de um jogo sujo entre quem as financia de um lado, os políticos canalhas, e quem as deixa trabalhar na favela, os traficantes. Alguns podem se corromper e viverem felizes ou aceitar incomodados aquela situação em nome da boa ação que desejam praticar. Uma única Ong é mostrada através de um cidadão que escolheu a primeira opção. Mas ninguém diz que todas são assim.

Agora, é a mais cristalina verdade quando o filme diz que a Ong só funciona com a anuência do tráfico. Ora, até o Michael Jackson teve que pedir benção aos traficantes para filmar o clipe de “They don´t really care about us” no Dona Marta.

O mais importante é que a obra de Padilha mostra o ser humano com suas nuances. Ninguém é 100% bom, muito menos 100% mau. Ora, não somos assim no dia-a-dia? Acabou há muito tempo essa história de herói perfeito e bandido querendo dominar o mundo. Nem os filmes do 007 mostram mais essa dualidade. O maior exemplo disso atualmente é a série “24 horas”, onde Jack Bauer (Kiefer Sutherland) lida com muitos tipos complexos e ele mesmo não é um mocinho, digamos, convencional.
A obra

Feitas estas considerações passemos ao filme em si. E como filme, “Tropa de Elite” é excelente. Ele acompanha a vida trágica de Nascimento e a busca dele por um substituto no Bope que será o jovem e cerebral estudante de Direito Matias ou o passional e impulsivo Neto (Caio Junqueira, em também ótima performance).

A força de suas atuações e a linguagem direta e sem muitos floreios são o seu forte. Tudo aliado a um roteiro extremamente competente, rico, um dos melhores do cinema brasileiro, escrito pelo próprio Padilha, por Bráulio Mantovani, também roteirista de “Cidade de Deus” (2002), e Rodrigo Pimentel, ex-membro do Bope e autor do livro “Elite da tropa” de onde o filme se baseou.

Numa inevitável comparação com “Cidade de Deus”, aliás, pode-se dizer que os filmes são espelhos, dois lados de uma mesma guerra como o são as obras de Clint Eastwood “A Conquista da Honra” e “Cartas de Iwo Jima”. Na película de Fernando Meirelles, é mostrada a realidade de dentro da favela, numa linguagem mais pop, videoclípica e edição acelerada. O filme de Padilha mostra o olhar do policial, tem uma direção mais conservadora, mas não direitista ou esquerdista, antagonismos tão ralos, conceitos que para mim jazem mortos há muito tempo. Mas suas cenas de ação são eletrizantes.

Em ambos, porém, cada um a seu estilo, se mostra uma realidade assustadora. Se há cinco anos nada foi feito para melhorar, esperamos que agora, com esse novo filme e um secretário de segurança que parece realmente bem intencionado, algo seja feito. A cada vez que o tempo passa, a sensação é de que o tráfico ganha a batalha.


“Tropa de Elite” é um dos melhores filmes do ano. De todos os que vi, rivaliza apenas com “Diamante de Sangue” e “A Rainha”. Ele é, contudo, tão perfeito na realidade que transpõe, que chega a provocar náusea. Por que deixaram o Rio ficar desse jeito? E até quando viveremos assim?

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

28 horas

Ao contrário do que cantou Mick Jagger, definitivamente o tempo não está ao nosso lado. Talvez nos anos 60 estivesse. Hoje tenho sempre a sensação de que não cabe mais fazer planos para o futuro. Daqui a pouco teremos que fazer planos para as próximas encarnações.

Eu por exemplo, me comprometi a quando voltar aprender a fazer duas coisas que sempre quis, mas a falta de tempo me impede: surfar e dançar tango. Marcelo surfando!!!!!!! Exclamam uns. Dançando tango!!!!!!!??????? Exclamam ainda mais/questionam (rindo muito), outros.

Ora, por que não? Sempre gostei de esporte e o surf me parece extremamente divertido, além de ser uma bela maneira de estar em contato com a natureza por mais que as ondas de Jaws não sejam lá muito convidativas a um amador. Quanto a dançar tango, bem, ainda estou inebriando pela famosa cena de Al Pacino em “Perfume de Mulher”, que para mim foi decisiva para ele faturar o Oscar. Depois daquilo pensei que tango era algo que eu precisava aprender.

Fica para a próxima encarnação. Não dá mais para realizar todos os sonhos num mundo que tem 365 dias por anos e apenas 24 horas em cada dia. O tempo é o mesmo, mas a velocidade é impossível de acompanhar. Você dorme com o computador mais moderno e acorda obsoleto.

O ser humano, aliás, está ficando a cada dia mais rapidamente obsoleto. Chegará o dia em que cursar três faculdades será obrigação para que o mercado de trabalho não o jogue no limbo. E aí vai faltar ainda mais tempo para se dedicar aos prazeres da vida.

Mas eu não desisto. Havia um terceiro sonho que estou tentando deixar nessa encarnação. Tocar guitarra perfeitamente é mais que um compromisso. É um destino. Espero que os fatos o comprovem.

O fato é que o tempo anda surreal. Daí a escolha por Salvador Dali – com o perdão do trocadilho infame – na obra “A persistência da memória” (1931) para ilustrar esse post. Vai dizer que aquele relógio derretendo e se esvaindo não é uma metáfora perfeita para cada dia da sua vida?

Uma análise da tragédia nossa de cada dia. Passamos dois terços de cada 24 horas que vivemos na tríade verbal trabalhar/dormir/comer. Restam oito horas. Seriam suficientes se não fizéssemos horas extras, perdêssemos tempo no trânsito, tivéssemos que pagar contas no banco, enfim, se não tivéssemos outras obrigações.

O resultado? São filmes a não ver. Livros a não ler. Cursos a não fazer. E até, por que não? Falta de tempo para não fazer nada. O ócio criativo é fundamental, já disse o sociólogo italiano Domenico De Masi.

Os romanos fizeram besteira. E Não podemos mudar o passado. Mas como não podemos trabalhar menos – num mundo capitalista isso seria impossível e poderia provocar a terceira guerra mundial – fica a sugestão para continuarmos a trabalhar da mesma maneira, porém com o diferencial do calendário ser alterado.

Se cada dia tivesse 28 horas, teríamos quatro horas para nos dedicarmos aos prazeres da vida da forma como desejarmos. Seria fantástico, nos deixaria mais felizes e produziríamos mais.

Do ponto de vista biológico seria uma loucura, admito, uma vez que a Terra leva 24 horas para girar em torno de si mesma no tal movimento de rotação. Mas se nos acostumássemos a tomar café da manhã em pleno breu e jantar com o galo cantando, como provavelmente aconteceria com essa diferença de quatro horas, teríamos mais qualidade de vida.
E se nada desse certo, na pior das hipóteses, teríamos mais quatro episódios para ver Jack Bauer acabando com os terroristas que invadem os Estados Unidos.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Do limite da obra

Envolto numa vida excessivamente pacata e morna com sua esposa, o cineasta François (Frédéric van den Driessche) é instigado por uma atriz a tentar entender os segredos do prazer feminino. Observar suas nuances e o que faz a mulher atingir o orgasmo é o seu projeto mais ousado e que o levará a expandir os limites da própria obra.

Após diversas recusas, François encontra três jovens e iniciantes atrizes dispostas a fazer o filme e se abrir para as suas experiências sensoriais. Charlotte (Maroussia Dubreuil), Julie (Lise Bellynck) e Stéphanie (Marie Allan) aceitam se entregar ao projeto confiando na famosa delicadeza de François para entender o ponto de vista de seus atores.

As três se masturbam para ele, transam entre si e compartilham seus mais íntimos segredos e seus mais obscuros sentimentos em busca do papel desejado. Estariam sendo elas manipuladas pelo diretor ou ao contrário? A pseudopureza da alma de François o impede de ver que a cada teste que fazia, ele era também manipulado por suas cobaias.

Aos poucos, porém, François vai construindo seu filme expandindo cada vez mais a fronteira de sua obra até um perigoso limite que pode lhe ser fatal. Até onde ele irá? Até onde lhe permitirão ir nessa transgressão sexual? Respostas no cinema.

“Anjos Exterminadores” é uma obra densa por abordar o espinhoso tema do prazer feminino e corajosa ao utilizar cenas de sexo tão verdadeiras, bem filmadas e de certa forma delicadas que, por vezes, parecem ter realmente acontecido. Maroussia, Lise e Marie parecem ter realmente sentido o prazer que na tela dizem viver através de suas personagens. O ponto, todavia, está muito distante do G orgasmático. O objetivo é abrir e refletir sobre essa caixa de pandora que é a psique da mulher. Esta me parece ser a motivação do diretor e roteirista Jean-Claude Brisseau.

Seu filme guarda muitas semelhanças com o excelente espanhol “Lúcia e o Sexo” (2001), de Julio Medem, na medida em que usa a metalinguagem cinematográfica usando o recurso de uma obra dentro de outra. Não é François que deseja fazer um filme sobre o prazer feminino, mas Brisseau que tem o desafio de realizar uma obra sobre um tema que ao mesmo tempo é tabu e transgressor.

São apenas algumas das vertentes de “Anjos Exterminadores”, que explora as profundezas da alma feminina sem encontrar qualquer conclusão sobre o desejado. Esta é a motivação de qualquer obra aberta, aliás. Não é à toa que François diz que o filme foi um “sucesso inesperado”. Contudo, ele não afirma que atingiu o objetivo que buscava.

Ao procurar sempre um passo a frente e ainda não desvelado, François pagará caro. Não o quanto estava escrito no seu destino, uma vez que é salvo pelo anjo do título que deveria exterminá-lo, mas um alto, destrutivo e irreversível preço. Trocou a vida que tinha por uma obra-prima incompleta. Um preço a ser ponderado.

domingo, 30 de setembro de 2007

Menos anticristo, mais superstar

Marilyn Manson já se cortou e se costurou no palco. Marilyn Manson só usa toalhas pretas e a lâmpada do seu banheiro fica atrás do espelho para que ele possa falar com o demônio. Marilyn Manson era o Paul do seriado “Anos Incríveis” (!?). Marilyn Manson é homossexual, bissexual, andrógino ou todas as anteriores. Marilyn Manson tem um olho de cada cor. Muitas histórias – algumas verdadeiras lendas – já foram escritas sobre Marilyn Manson. Todas fazem parte do personagem que baixa no corpo de Brian Warner e do show do auto-intitulado Anticristo Superstar. Contudo, a turnê de “Eat Me, Drink Me”, novo disco do cantor, mostra que o Anticristo deixou a cena. Ao menos momentaneamente. Ficou apenas o Superstar.

Numa banda completamente modificada em relação à formação que fez de Brian Warner mundialmente conhecido como seu alter-ego no disco “Antichrist Superstar” (1996), o terceiro da carreira – Twiggy Ramirez (guitarra), Madonna Wayne Gracie (teclados), Ginger Fish (bateria) e Zim Zum (guitarra) foram substituídos por músicos contratados que mantêm o mesmo tom sombrio do estilo Manson de ser. Para se ter uma idéia, apenas o guitarrista Tim Skold tem o nome citado no encarte do novo disco – a proposta de Manson, uma espécie de Alice Cooper dos anos 90, se esvai.

O personagem não tem mais força e é até caricato, mas o artista permanece de pé. Não que isso seja bom ou ruim. É apenas uma constatação. Isso porque Manson ainda é mais competente do que muitos de seus pares no mundo da música e mostra isso num bom show, embora excessivamente curto com sua 1h20m, em que revisa a sua carreira.

Para manter as aparências, o cantor adentra o palco por detrás de uma cortina com suas iniciais escorrendo como se fossem sangue e cercado de muita fumaça que ia se acumulando na Fundição Progresso nos quase 40 minutos de atraso. Seu curioso microfone tem um facão embaixo. Ainda bem que ele não resolveu usá-lo para outros fins que não seja cantar.

Por outro lado, é tudo mentirinha. Manson vive uma fase light. Sofreu de depressão por casa de um casamento infrutífero no passado e veio ao Rio até acompanhado da nova namorada. Quem diria? O Anticristo tem coração. Com olhos e boca devidamente pintados de roxo, Manson domina a platéia, que o segue como a um deus mantendo o ritual sombrio/vampiresco/andrógino/dionisíaco. Pode-se ver de tudo onde a luz não chega. De mulheres se agarrando a homens vestindo cinta-liga e figuras com sobretudo e cara de mau que mais pareciam ter saído de um filme de John Carpenter.

Os cariocas estavam sedentos pelo velho Manson que nunca pisara na cidade. Na única vez em que esteve no Brasil, em 1997, o cantor tocou apenas em São Paulo. É por isso que ela vibra com cada música, em especial as antigas “Sweet Dreams”, “The Dope Show” e “Rock is Dead”.

Mas o público volta a esfriar com as longas paradas de Manson entre uma música e outra. Afora a paralisação forçada causada por um problema no sistema de som na Fundição Progresso. Aliás, que som horrível o da Fundição.

Com altos e baixos, o cantor invade o palco para cantar “Beautiful People” e encerrar o show dignamente. No final, uma pessoa ao meu lado reclama da frieza de Manson. “Já foi? Nem deu um tchau”. Sem tchau, sem até logo e muito menos obrigado. Afinal, em algum momento o velho Manson tinha que manter a sua fama de mau.

Dois momentos inesquecíveis do show. Marilyn Manson cantando “Sweet Dreams” e “Lunchbox” e “The Beautiful People”.




Uma nova era

“Há homens que nascem póstumos”. Com este aforismo nietzschiano terminei o primeiro dos textos escritos no antigo espaço. No momento em que prometi “lutar contra tudo o que há de podre, decrépito e arcaico na sociedade” assinei um compromisso marcado com meu próprio sangue. Um dia me entenderão, diz o megalómano.

Prometi exaltar a grande arte e criticá-la com absoluta independência, sem que a paixão, evidentemente, fosse excluída de cada linha. Afinal, como nietzschiano que sou, o envolvimento é sempre necessário. Só pedras não têm emoção. Neste ponto fui mais bem sucedido com críticas cinematográficas (33), musicais (15) e inéditos textos literários (seis). Além de uma de minhas paixões, o esporte (oito).

Diante de um ano de história completado no último dia 18, o balanço é feito para dar início a uma nova era. “Memórias da Alcova” cresceu. Se ninguém percebeu fui de 0 a inigualáveis seis leitores.

Depois de um período funcionando de maneira experimental, eis que “Memórias da Alcova” estréia oficialmente neste espaço. O caminho dos espíritos livres, dos que buscam sair da caverna agora é este:
http://www.memoriasdaalcova.blogspot.com/. O mundo nunca mais será o mesmo. Ainda mais agora que tenho mais espaço, coloco fotos e até vídeos.

Os aforismos antigos estarão sempre guardados para serem vistos quando vocês, nobres leitores, quiserem. É só dar uma clicada ali no canto superior direito, na seção “Outros Pensamentos”, que ainda vem acompanhada de outras indicações de blogs interessantes.

É isso. “Memórias da Alcova” agora é maior, melhor, e ainda conserva as velhas características de ser democrático – não deixem de comentar freqüentemente - e sem cortes. Um dia, hão de me entender. “Há homens que nascem póstumos”.

domingo, 23 de setembro de 2007

Retornos

Se eu fosse funkeiro diria que Londres está bombando. Ainda bem que este não é um de meus muitos defeitos. De qualquer forma, eu invejo os londrinos. Duas semanas depois de Robert Plant e Jimmy Page anunciarem o retorno do Led Zeppelin pelo menos por uma noite agora é outra banda clássica dos anos 70 que anuncia o seu retorno por igualmente dramática e única noite. Trata-se dos Sex Pistols.

Embora os Ramones tenham sido punks antes que existisse o termo que definisse esse som sujo, cru e a filosofia “do it yourself”, os Pistols, comandados por Johnny Rotten e Sid Vicious são sinônimos de punk. Perto deles, outras bandinhas que pintam cabelo e fazem tipinho não passam de colegiais.

A ocasião para mais um retorno dos Pistols é a trigésimo aniversário de “Never mind the bollocks... here´s the Sex Pistols”, álbum clássico do rock e o único que a banda lançou. O show será no dia 8 de novembro e, assim como no caso do Led Zeppelin, só posso lamentar não poder estar presente. Como invejo estes londrinos, pois valeria a pena ver os velhos Pistols mesmo com Glen Matlock no lugar do falecido Vicious.

Além de ser um disco sensacional e obrigatório em qualquer discografia roqueira, “Never mind the bolocks” tem dois clássicos que mesmo quem não gosta dos Pistols respeita: “Anarchy in the UK” e “God Save the Queen”.

Ambas contém versos que resumem a ideologia niilista do punk. É o caso de “I´m an Antichryst/I´m an anarchist/Don´t know what I want but/ I know how to get it/ I wanna destroy the passer by´ cos I/ Wanna be anarchy!” e “I give a wrong time time stop a traffic line/Your future dream is a shopping scheme” em “Anarchy in the UK”.

Em “God Save the Queen”, Vicious e Rotten sacaneiam a rainha Elizabeth, mas também batem pesado na Inglaterra capitalista: “God sabe the Queen/Her fascist regime/It made you a moron/A potential H bomb/God save the Queen/She ain´t no human being/There is no future/In England´s dreaming”. Não é toa que ao ser perguntado de porquê tocar em Londres Rotten ironizou dizendo que “não poderíamos deixar de tocar na nossa querida Londres”.

Led Zeppelin, Sex Pistols, volta e meia tem show dos Stones, Paul McCartney, The Who. Enquanto Londres recebe a nata da música, nós ficamos com a programação meia-boca e excessivamente cara do Tim Festival. Sem contar os pagodes, sertanejos, bregas... Malditos londrinos. Quão sortudos vocês são.

Sex Pistols tocando “God Save the Queen” nos anos 70: