terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Comentários e a seleção do Brasileiro

O Fluminense construiu uma das histórias mais bonitas que eu já vi no esporte. Lembremos que há um ano e meio, o time estava no fundo do poço, praticamente rebaixado para a segunda divisão e sem qualquer perspectiva, mas com uma arrancada heróica daquelas de cinema conseguiu escapar de mais uma degola, que seria a terceira de sua história. A torcida que sempre empurrou o time e fez festas espetaculares não merecia mesmo isso.

Veio 2010 e de repente o time virou o jogo. Trouxe um técnico competentíssimo e finalmente soube contratar nas posições que o time precisava. Tudo bem que as vindas de Deco e Belletti não deram muito resultado, mas talvez tenha sido um período de adaptação para um 2011 bem melhor. O próprio Dario Conca, hoje considerado por nove entre dez pessoas o craque do campeonato, também teve um início difícil no Vasco. A questão da adaptação (ou readaptação no caso de repatriados) é importante.

E Muricy Ramalho em sete meses fez um time que morrera duas vezes na praia na Libertadores e na Copa Sul-Americana ser campeão brasileiro apesar de todos os problemas (lesões, convite da CBF para a seleção, suspensões, arbitragens estranhas beneficiando o Corinthians). Como negar quando o atacante Emerson disse que “o cara é sacanagem”?

Do inferno a glória se passou um ano. E o Fluminense é o legítimo e justo campeão brasileiro (não há injustiça em campeonatos de pontos corridos). Com roteiro de Hollywood e tudo.

Terminado o campeonato, é chegada a hora de fazer a minha seleção. E ela ficou assim:

Goleiro: Jefferson (Botafogo) – Foi uma grande temporada do goleiro alvinegro. Claro que Fábio também fez grandes defesas e um bom campeonato pelo Cruzeiro, mas Jefferson foi um dos responsáveis pela excelente campanha do Botafogo que terminou em sexto lugar. Fez ótimas partidas e seu desempenho ainda o levou para a seleção brasileira.

Lateral-direito: Mariano (Fluminense) – Símbolo da trajetória de reerguimento do Fluminense, Mariano também foi do inferno ao céu em um ano. De lateral vaiado e xingado pelos torcedores, passou a ser figura fundamental no time. Ninguém mais pensa o Flu sem ele, que graças ao excelente desempenho em campo foi convocado por Mano Menezes para a seleção brasileira. Fez um grande campeonato.

Dupla de zaga: Dedé (Vasco) e Leandro Euzébio (Fluminense) – No início do campeonato se eu pensasse que no fim esta seria a minha dupla de zaga ficaria preocupado com minha saúde mental. Mas não é que Dedé fez um grande Brasileiro e foi uma grata revelação. E Leandro Euzébio? Apesar da pixotada contra o Palmeiras foi um dos pilares da melhor defesa da competição. Acho que não preciso ir para o hospício. Ainda.

Lateral-esquerdo: Roberto Carlos (Corinthians) – Tudo bem. O Carlinhos fez o cruzamento do título e algumas boas partidas, mas não chegou a jogar muito para ser escolhido. O Diego Renan não fez um mau campeonato, mas também não me convenceu plenamente. Roberto Carlos entrou aqui por falta de opção. Não que o lateral do penta tenha ido mal. Foi regular, sempre com boas ou corretas atuações. E nesta posição muito carente no futebol brasileiro, isso bastou.

Dupla de volantes: Elias e Jucilei (Corinthians) – Aqui meio que foi barbada. Se Diogo e Diguinho, ambos do Fluminense, tivessem jogado mais vezes na competição, talvez até pudessem entrar na briga. Como não o fizeram por causa de várias lesões e a dupla corintiana esteve impecável no Brasileiro, é ela que abre o meu meio-campo.

Dupla de meias: Montillo (Cruzeiro) e Conca (Fluminense) – Aqui outra barbada. Ninguém jogou mais do que a dupla de argentinos. Montillo desde que chegou ao Cruzeiro foi o toque de classe que levou a equipe mineira ao merecido vice-campeonato nacional. E Conca, bem, o cara jogou todas as partidas, marcou nove gols, deu 18 assistências. Foi o craque do campeonato indiscutivelmente.

Ataque: Jonas (Grêmio) e Loco Abreu (Botafogo) – O grande ponto de discordância em relação às listas que andei vendo por ai. Sim, Neymar não está na minha seleção. Não acho que a jovem estrela do Santos tenha feito um grande campeonato apesar de seus 17 gols. Acho que ele se envolveu muito mais em confusões do que brilhou dentro de campo, o que verdadeiramente aconteceu até a decisão da Copa do Brasil. Por isso e também porque considero que Loco Abreu fez um belo campeonato e foi importante na boa campanha do Botafogo é que acho que o uruguaio merece ser lembrado. Fez seis gols a menos do que Neymar, mas foi fundamental para o alvinegro.

No caso de Jonas, ele parece ser uma unanimidade. Foi o artilheiro da competição com 23 gols e desde 2004 um jogador não fazia tantos gols. Na ocasião, Washington foi o artilheiro com 34 gols jogando pelo Atlético-PR. Sim, aquele mesmo que está há 15 jogos sem marcar pelo Fluminense.

Técnico: Muricy Ramalho (Fluminense) – A escolha do treinador foi a mais difícil para mim. Tinha quatro excelentes opções e decidi de forma pragmática. Muricy foi o escolhido porque fez em sete meses um trabalho quase milagroso de conduzir um time que estava há 26 anos sem ganhar conquistar o campeonato. Para mim, ele só seria superado por Joel Santana ou Renato Gaúcho se um dos dois tivesse levado Botafogo ou Grêmio, respectivamente, a uma vaga na Libertadores sem depender de ninguém. Hoje o Grêmio depende do Goiás. Mas foram dois grandes trabalhos. E Cuca fez o seu Cruzeiro praticar o melhor futebol na parte final do Brasileiro, mas faltou-lhe o título para ser coroado.

Concluindo - Então a seleção ficou assim: Jefferson (Botafogo), Mariano (Fluminense), Dedé (Vasco), Leandro Euzébio (Fluminense) e Roberto Carlos (Corinthians); Jucilei (Corinthians), Elias (Corinthians), Montillo (Cruzeiro) e Conca (Fluminense); Jonas (Grêmio) e Loco Abreu (Botafogo). Técnico: Muricy Ramalho (Fluminense). Em comparação com o time do ano passado, só um jogador permanece: Conca. É bom demais esse argentino. (Todas as fotos do post são da agência Photocâmera).

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Há vocábulos e vocábulos

Há palavras que são mais fortes em outras línguas do que na nossa e vice-versa. Quando comecei a estudar alemão, logo entendi porque a Alemanha estava sendo tomada por turcos enquanto o governo local fazia de tudo para que os seus "arianos" fossem para a cama (ou a cozinha, o banheiro) e procriassem loucamente. Mas não dá. É um problema lingüístico. Ninguém sentiria tesão ou a mais singela vontadezinha de fazer um filho ao ouvir Ich liebe dich.

Tudo bem que Seni seviyorum, seu similar em turco, não ajuda muito, mas ambas estão muito longe do poder que tem um “Eu te amo”. Principalmente dito na hora certa e com o olhar certo. “I love you” também tem sua força claramente amplificada pelo cinema. E dita com sotaque britânico então, nem se fala. Já “Je t'aime”, o similar francês, faria nove entre dez mulheres desmaiarem diante de você. Principalmente se você souber dizer mais do que essa frase na língua de Rousseau.

Indo ao extremo oposto nessa conversa, sempre defendi que “disgusting” fizesse parte do nosso português. Isso porque disgusting é muito mais nojento e repugnante do que o próprio nojento e repugnante. Nojento pode ser um rato morto, por exemplo, todo ensangüentado no chão da rua. Disgusting é tipo 100 baratas esmagadas no chão da sua casa.

O vocabulário futebolístico argentino tem duas palavras das quais eu sou apaixonado: cancha e enganche. E digo mais. O deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), autor de um projeto de lei para a valorização da língua portuguesa comeria meu fígado, mas acho que elas deviam ser adotadas no vocabulário futebolístico daqui de Pindorama.

A cancha é o campo onde o futebol constrói sua história de heróis e vilões. Onde gênios surgem, onde se dá o sangue, o suor e as lágrimas pelo único resultado que interessa: a vitória. É nela que verdadeiras batalhas são disputadas. É pelo que acontece nela que as massas se movimentam, são tomadas pela alegria, pela dor ou pela revolta.

Dela sai o estímulo para o canto e para o protesto. A cancha é a vida que alimenta esse esporte chamado futebol. Tem um tom muito mais dramático que o dócil campo, o monocórdio field inglês ou o até charmoso relvado português. La cancha es la gloria y la derrota del fútbol. E quando “El Diez” (Maradona) jogava em la cancha era como se deus estivesse trabalhando no oitavo dia. Assim, dramático, como um tango argentino.

Falando em 10, é que entramos na minha outra palavra favorita, o enganche. Não temos uma única palavra para definir enganche (usamos expressões como meia de ligação ou “o 1 do Zagallo”), embora tenhamos tido muitos enganches espetaculares. O maior de todos? Pelé.

O enganche é o que no Brasil sempre costumamos chamar simplesmente de o 10. Uma homenagem ao próprio Pelé, pois o 10 nem sempre usa a 10. Zidane por exemplo era um 10 clássico, mas no Real Madrid jogava com a 5.

Hoje em dia é raro no futebol brasileiro ter um 10 dando sopa por aí. Cheguei a achar que Diego se tornaria um deles, mas ainda não. E talvez nunca mais. Paulo Henrique Ganso, também gerado nas canteras (outra palavra espanhola que adoro e que significa divisões de base) da Vila Belmiro, tem potencial e personalidade para sê-lo. Façamos essa pergunta daqui a uns três ou quatro anos.

Quando jogou no meio-campo do Fluminense com Thiago Neves, sempre achei que Dario Conca (foto acima da agência Photocâmera) era um 8, aquele meia-direita clássico e meio motorzinho também que todo time necessita, mas que também anda em falta. Conca me enganou. É um 10 embora jogue com a 11. E também um enganche, afinal, é argentino.

Neste Campeonato Brasileiro em que ele teimou em seguir jogando ininterruptamente do primeiro ao último minuto a despeito de todas as dores que tenha sentido, físicas ou da alma, Conca comanda o time tricolor com a maestria de um meia clássico e a paixão que os argentinos impõem à vida e ao futebol. Conca se doa para o time e o time se eleva, supera dificuldades, desfalques, em torno de e pelo seu capitão (pelo menos até a volta de Fred há dois jogos). O pequeno gigante tricolor mostrou, assim, ter outra qualidade dos enganches: a liderança e o respeito que eles impõem naturalmente por serem abençoados com o talento raro e a visão além do alcance dos mortais.


Não sei se o Fluminense será campeão brasileiro. Falta uma rodada e tudo pode acontecer. Mas se for e com a carga dramática que esse título está se desenhando, o tricolor não será campeão num campo qualquer. Será numa legítima cancha. E com o seu enganche mais do que merecidamente levantando a taça.

domingo, 28 de novembro de 2010

Uma lenda ao vivo

O guitarrista dos Rolling Stones Keith Richards vive dizendo que doará o corpo para a ciência quando morrer para que os cientistas estudem como ele sobreviveu às drogas até a idade em que vier a falecer. Acho que Paul McCartney deveria fazer o mesmo para que o mundo consiga entender como este senhor conseguiu chegar aos 68 anos preservando dentro do possível a sua voz e com uma vitalidade de fazer Mick Jagger bater palmas.

Sim, porque não é fácil tocar 2h20m ininterruptamente (sim, eu marquei) até a primeira parada para a posterior realização do primeiro dos dois bis a que o público do Morumbi, em São Paulo, teve direito numa apresentação que completaria ao início da madrugada de terça-feira passada quase 3h.

Você poderia argumentar que Paul McCartney não canta rock pesado, logo não precisaria ter aquele alcance vocal que, por exemplo, Ian Gillan não tem mais e o faz pagar mico a cada vez que se reúne com o Deep Purple. Também pode dizer que ele não se movimenta no palco como um Mick Jagger. Sim, seus movimentos são mais, digamos, contidos que muitos de seus pares e sua música é mais generosa com as cordas vocais que as do Led Zeppelin - motivo pelo qual Robert Plant não quer nem pensar em reunião com os dois outros integrantes da banda ainda vivos – ou o Iron Maiden, para ficar em duas bandas quase contemporâneas.

Mas a força e a vitalidade de Paul McCartney está na sua própria música. No peso de 53 anos fazendo esse tal de rock and roll desde que ele conheceu um tal de John Lennon e com George Harrison e Pete Best começou a desenhar a banda que viria a se tornar os Beatles já com Ringo Star nas baquetas.

Pode-se dizer que o show do ex-Beatle (ou seria eterno Beatle?) é relativamente óbvio. Você sabe que mais ou menos metade das músicas serão dos Beatles (e foram 20 das 39 tocadas no segundo show e 21 das 37 tocadas em Porto Alegre e no primeiro concerto em São Paulo), que haverá explosões em “Live and let die”, que ele vai chamar um coro com a plateia em “Hey Jude” e em escala menor que ele vai homenagear John (na bonita “Here Today”) e George (na ainda mais bela “Something”).

Mas Paul McCartney é como drible do Garrincha. Você sabe que vai acontecer, é inevitável e você ainda se emociona. E vai se emocionar enquanto ele tiver o fôlego que muitos de seus pares e membros de gerações posteriores dos anos 70 e até 80 não têm. Por que ele não é apenas um ex-Beatle – e como li há duas semanas no Twitter, ¼ dos Beatles é melhor do que muita banda inteira por aí – e sim porque ele é uma lenda viva. Porque a sua música tem a força de emocionar e embalar gerações e gerações de pessoas. E muitos ainda serão influenciados e se emocionarão por esta mesma música mesmo quando ele se juntar a John e George.

Quando falei sobre a previsibilidade de sua apresentação, não estava necessariamente criticando. Até porque, o ex-beatle sabe ser imprevisível quando quer. Multi-instrumentista – no show ele toca o lendário baixo Hofner, além de guitarras Gibson, piano, bandolim e uquelele -, já o vi num especial de TV criar uma música ao vivo e diante de uma atônita plateia. Foi só uma constatação e que não impede o show de ser absolutamente fantástico.

Se há um momento de surpresa no Morumbi, no entanto, é na absurda qualidade de sua banda formada por Rusty Anderson (guitarra), Brian Ray (guitarra e baixo), o figuraça Abe Laborial Jr (bateria) e Paul Wickens (teclado, guitarra, harmônica).

Rusty e Brian passeiam facilmente da pegada mais blueseira (“Letting Go”) a rocks como “Live and let die”, “Paperback Writer” e “Get Back” até chegar no peso de canções como “Back in the U.S.S.R” e o quase heavy metal “Helter Skelter”, uma das minhas favoritas, aliás. Jogam em todas com a maestria de um camisa 10.

Já Abe é um show à parte. O baterista, por sinal, muito melhor do que Ringo jamais foi, é o grande nome do show. Depois de Sir Paul, evidentemente. Gordinho, bota todo o peso das suas mãos nas baquetas e agride a bateria com um prazer orgástico. Além de fazer backing vocal em quase todas as canções, Abe também mostra um lado "sensível" ensaiando uma dancinha em “Dance Tonight” com direito a passos de macarena, ula-ula e John Travolta em “Os embalos de sábado à noite” que divertiram e levaram a plateia a dar boas risadas.

Em entrevista à “Rolling Stone” desse mês, Paul McCartney disse que já está há tanto tempo com essa banda que eles realmente viraram uma banda. E nota-se isso pelo entrosamento do quinteto. O crédito do show pode chamar por Paul, mas além de gênio por trás de cada uma das canções, ele é meio que o vocalista desse grupo que se apresenta ali na sua frente. Outro grande grupo depois dos Beatles e dos Wings.

É uma pena que como todo show uma hora ele tem que acabar, embora o desejo dos mais de 60 mil presentes seja o mesmo de um trecho da letra de “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”, que encerra os trabalhos no estádio: “I don’t really want to stop the show”.

Veja abaixo o set list e alguns dos bons momentos do espetáculo:

Magical Mystery Tour
Jet
All My Loving
Letting Go
Got to Get You into My Life
Highway
Let Me Roll It / Foxy Lady
The Long and Winding Road
Nineteen Hundred and Eighty-Five
Let 'Em In
My Love
I'm Looking Through You
Two of Us
Blackbird
Here Today
Bluebird
Dance Tonight
Mrs. Vandebilt
Eleanor Rigby
Something
Sing The Changes
Band On The Run
Ob-La-Di, Ob-La-Da
Back in the U.S.S.R.
I've Got a Feeling
Paperback Writer
A Day In The Life/Give Peace A Chance
Let It Be
Live and Let Die
Hey Jude
Day Tripper
Lady Madonna
Get Back
Yesterday
Helter Skelter
Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band/The End
XXXXXXXXXXXX
Magical Mistery Tour/Jet

All my loving

Something

Band on the run

Eleonor Rigby

Long and widing road

Live and let die

Back in the USSR

Paperback Writer

Get Bac

Helter Skelter

Sgt. Peppers e The End

sábado, 20 de novembro de 2010

Um herói das pistas

“O Senna é a única coisa que o Brasil tem de bom”. “No Brasil falta educação, segurança, saneamento, falta tudo, mas tínhamos a alegria com o Senna. Agora nem alegria temos mais”. Estes são dois depoimentos que mais do que serem retratos do Brasil entre o final da década de 80 e o início da década de 90, mostram a dimensão que Ayrton Senna da Silva tinha nesse país.

Senna foi um herói quase perfeito no imaginário popular. E é essa quase divindade que encontramos no documentário do diretor inglês Asif Kapadia, que junto com o roteirista Manish Pandev se debruçou sobre mais de cinco mil horas de gravações, depoimentos, comentários e imagens, milhares de imagens, para contar a história de um mito do automobilismo que com o seu talento expandiu as fronteiras da Fórmula-1 para se tornar um dos maiores nomes do esporte mundial.

Como um herói trágico, Ayrton Senna morreu jovem e fazendo o que sabia fazer melhor. Foi aos 34 anos em Ímola, na Itália, que ele deixou órfão um país e fez o mundo inteiro chorar numa manhã de domingo em que costumava trazer alegrias como nas suas 41 vitórias e três títulos mundiais na principal categoria do automobilismo.

Filme de ficção nenhum poderia ser melhor do que a história real de Ayrton Senna contada pelo próprio e pelas pessoas que conviveram com ele. A dificuldade estava em organizar o vasto material deixado num trabalho enxuto de 1h45m que conseguisse contar a história de um piloto fantástico, um dos melhores da história da Fórmula 1 e um dos maiores esportistas de todos os tempos. E a missão de Kapadia e Pandev resultada no documentário “Senna” foi mais do que cumprida num filme excelente e fundamental para quem gosta de Senna, da F-1 e de esporte. Com a ressalva de que não é um documentário para leigos.

Estão lá o esportista que conseguia tirar leite de pedra de carros inferiores e brilhou no cockpit da McLaren, a rivalidade com o francês Alain Prost, tetracampeão do mundo e que foi de colega a inimigo mortal e posteriormente apenas rival que respeitava o brasileiro e hoje é colaborador do Instituto Ayrton Senna. Essa foi uma das maiores rivalidades da história do esporte e que impulsionou a popularidade da F-1.

Mas há também o piloto que tentava lutar contra o sistema da Fórmula 1, que buscava justiça e mais segurança para os pilotos e tinha o respeito dos colegas (exceto Prost, é claro).

Um gênio que era ainda mais genial na chuva, que ia além dos limites do carro e testava os seus próprios limites. Que foi sacaneado e também deu suas porradinhas, que foi campeão correndo para vencer com o que sempre se chamou de “faca nos dentes”. Um comentarista inglês o define com uma palavra: “fast”. É assim que era Senna.


As vitórias que construíram o mito também ganham espaço. A de 91, a primeira em Interlagos, só com a sexta marcha funcionando no carro que o desgastou profundamente. A de 93, também em Interlagos, com a torcida invadindo a pista, é mostrada de relance. E muitas outras que valeram ou não. O rei de Mônaco, o ídolo, são muitos os Sennas que aparecem na tela. São muitas as imagens curiosas que enriquecem a história da Fórmula 1 e não cabe a mim aqui contar para não estragar o filme. Melhor é vê-lo no cinema e recordar alguns momentos inesquecíveis nos vídeos abaixo. Eles não mostram necessariamente as grandes vitórias do cena, mas momentos de muita emoção na carreira de maior piloto que o Brasil já teve.






sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Quando a vaga é maior que o título

É curioso como ultimamente no futebol brasileiro tudo gira em torno da tal da vaga na Libertadores. Só se fala nela no início, no meio e no fim do ano. Hoje em dia, ser campeão é um detalhe. O que vale é a vaga na Libertadores. Até o líder Fluminense, a quatro longos passos de ser campeão brasileiro, começou o campeonato com seu treinador Muricy Ramalho dizendo que o objetivo nesse primeiro ano de contrato dele era a... vaga na Libertadores!

Ninguém assume que quer ser campeão. E os tropeços do tricolor, Corinthians e Cruzeiro durante o campeonato mostram realmente que há um esforço concentrado de entrega. Quem vai ceder mais? Bom, isso é papo para outro post. Estou mesmo interessado na vaga na Libertadores.

Vejam só. Os times começam o ano divididos. Cinco deles (em geral, cinco grandes) poupam seus titulares no Estadual porque estão jogando a Libertadores. Os outros sete grandes poupam seus titulares no Estadual porque estão jogando a Copa do Brasil, competição importante porque... dá vaga na Libertadores, ora!

Assim, o Estadual se arrasta até que por acidente alguém é campeão. E alguém tem que ser. Fazer o que? Nesse ano, o azar de levantar a taça do Estadual, que não vale vaga na Libertadores, coube a Botafogo (Rio), Santos (São Paulo), Atlético-MG (Minas Gerais) e Grêmio (Rio Grande do Sul).

Mas peraí, o Estadual não vale nada para os grandes. Para os pequenos eles valem muito porque uma boa classificação significa uma vaga na Copa do Brasil que, afinal de contas, é “o caminho mais curto para a... Libertadores!”

Ou melhor, era. Isso porque a partir deste ano, também conhecido no futebolês como temporada, a Copa Sul-Americana passou a dar uma vaga - adivinhem? – na Libertadores. E aí, a Copa Sul-Americana, o patinho feio que virou cisne repentinamente como num desenho de Walt Disney, passou a ter um interesse incomum. Clubes brasileiros se digladiam não pelo título, mas pela...vaga na Libertadores. E Palmeiras e Goiás estão a quatro jogos desse sonho. Apesar de que, bem, a LDU está aí né. Fluminense e Internacional sabem do que eu estou falando.

Só que a Libertadores não é como coração de mãe. Não cabe todo mundo. Isso gera ciumeira entre os brasileiros que disputam a quarta vaga da festa do Brasileirão. Mais do que isso. Botafogo, Grêmio, Atlético-PR e até o São Paulo estão secando os times verdes envolvidos na Sul-Americana porque querem eles essa vaguinha na Libertadores. E assim atravessamos o ano (temporada) só pensando nela. São cinco vagas, três chances e muitas emoções para conquistar essa vaga. A taça é um detalhe.

Mas esses casos todos nos ensinam lições sobre a vida. Se lidássemos com ela da mesma maneira que no futebol, seríamos mais felizes. Veja o José Serra, por exemplo. Ficou em segundo lugar na eleição. Saiu derrotado, triste, para baixo. Se tivesse uma Libertadores na política, no entanto, ele estaria classificado. E a Marina Silva também, para alegria dos marineiros de plantão.

E aquele (a) amante que você mantém? Aquele (a) que você encontra na hora do almoço naquele motel badalado? Ora, ele é o seu segundo, seu 02, ele é o seu “amor vaga na Libertadores”. Isso desde que o sexo não seja do tipo vaga na Libertadores, né, porque nesse caso, o cidadão tem que ser campeão.

Queria viajar para Barcelona, mas o dinheiro só deu para Buenos Aires? Sorria, é um país de tradição na Libertadores. Seu sonho era encontrar o John Lennon, mas acabou vendo o Paul McCartney? Ora, ele é o seu beatle-Libertadores.

Levando uma vida ao estilo vaga na Libertadores não haveria discussões. O restaurante A está cheio, vamos na segunda, na terceira ou até na quarta opção. Ou aquele restaurante peruano do tipo vaga na Libertadores através da Sul-Americana. Vai ao cinema? Qual filme escolher? Tanto faz. Se o seu parceiro (a) não quer saber da sua opção um, você ficará satisfeito com a opção dois, a opção, tcharããã...vaga na Libertadores. Uma vida ao estilo vaga na Libertadores, portanto, e vejam onde eu quero chegar, acabaria com as discussões de relacionamento que nove entre dez homens detestam. Nessas horas, eles sempre pensam numa saída ao estilo vaga na Libertadores.

A vaga na Libertadores seria a festa dos comunistas, socialistas e toda essa turma que gosta de usar vermelho. Isso porque ela representa uma distribuição maior de felicidade, uma disposição mais igual de satisfação. Onde um sorria, agora sorriem cinco. É o fim do capitalismo selvagem, da competição desembestada para ser apenas o número 1. A felicidade também está em ser segundo, terceiro, quarto... Tenho certeza que Paulo Coelho ou qualquer outro similar ainda vai escrever um livro do tipo auto-ajuda chamado “Vaga na Libertadores”.


E se você estiver fora da Libertadores pense que no ano que vem, ou melhor, na próxima temporada, você terá uma segunda chance, será a sua oportunidade... bem, vocês entenderam.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O Rio nostálgico e romântico de Jabor

Numa bucólica rua do subúrbio do Rio de Janeiro, um pipoqueiro fala algumas sacanagens para jovens que param por ali para discutir as reminiscências sexuais da adolescência enquanto outros discutem em um banheiro quem é melhor: Ademir Marques de Menezes ou Heleno de Freitas. O Rio tem seis grandes clubes com a presença de América e Bangu ao mesmo tempo em que um avô dá lições de vida ao jovem neto sob o testemunho de um céu estrelado e lindo, algo raro em tempos de poluição.

É um Rio menos veloz, menos sujo com a inocência do carnaval de rua e onde o jazz anda disputando espaço com o nascente rock and roll, invenção americana aportando na cidade que é o coração e a alma do Brasil. Mas na Lapa, essas “músicas moderninhas” não tem vez nas casas de dança onde brilham o samba e o choro. Casas estas coladas aos puteiros com o que há de melhor e pior para se satisfazer de acordo com o gosto do freguês.

Demorou 26 anos – desde “Eu sei que vou te amar” (1984) - para que o jornalista Arnaldo Jabor deixasse um pouco de lado sua verve ácida com que vocifera contra os desmandos e escândalos do governo Lula e sua futura sucessora Dilma Rousseff e voltasse a pegar numa câmera para rodar um Rio de Janeiro dos seus sonhos. Um Rio de Janeiro idílico presente na sua memória e por vezes retratado em suas crônicas no Segundo Caderno do Globo.

Agora o pipoqueiro, as prostitutas, o avô e tantos outros personagens ganharam imagem, cor, falas e movimento num roteiro de um filme essencialmente nostálgico com uma visão romântica da cidade que o cineasta conheceu a partir do seu nascimento há 70 anos.

Essa poderia ser uma definição apressada de “A Suprema Felicidade”, novo filme de Jabor após esse longo hiato. Outra descrição básica é o óbvio que o filme conta a história do crescimento e do amadurecimento do jovem Paulinho (Jayme Matarazzo, que faz o personagem na adolescência e idade adulta) e sua relação com o avô (um estupendo Marco Nanini, dono da película), num Rio de Janeiro entre o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945 e o fim da década de 50 e início da década de 60.

É um enredo simples num roteiro que, é verdade, se perde por vezes nas suas idas e vindas (ou faz com que nos percamos) e tem cenas que parecem não ter muito nexo com relação ao resto da história. Mas assim também não é a vida? Por vezes não nos deparamos com situações sem sentido que nos tiram do eixo normal, do destino previamente traçado e depois que passamos por elas retomamos o rumo anterior? Ou não?

Poderia se dizer que o filme de Jabor é sobre nada. E alguns amigos deste blogueiro comentaram isso para criticá-lo. Mas é também sobre tudo porque ele é um pouquinho da vida. Uma reflexão sobre essa atividade pulsante que gosta de quem gosta dela como bem lembra o personagem de Marco Nanini.

Sim, “A Suprema Felicidade” é por vezes cansativo. Talvez funcionasse melhor com uns 20 minutos menos. Ele tem também um ritmo bem menos acelerado do que nos acostumamos a ver hoje em dia e por isso às vezes causa rejeição de quem o assiste. Mas não é diferente nessa questão específica do ritmo de qualquer Fellini ou Godard. E acho que isso é um problema mais do espectador, não do filme.

Se você se perde nestas idas e vindas sem ordem cronológica, é aí que vale se apegar aquela definição básica do neto que aprende os segredos da vida com o avô apaixonado por cada segundo que lhe resta e por tudo o que ela, a vida, lhe oferece descritas acima. E apreciar o filme sem moderação ou pré-conceitos.

“A Suprema Felicidade” pode não ser a película que entrará na lista de melhores da sua vida, mas ele é um trabalho simpático (ou fofo, como descreveu uma amiga minha) do diretor que consegue nos brindar com esse Rio mais romântico e único para quem o viveu. Eram tempos pré-“Cidade de Deus” (2002) e “Tropa de Elite” (2007).

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O justiceiro em outra batalha

Beto Nascimento (Wagner Moura) entra no seu apartamento pequeno e escuro cuja sala é equipada por uma TV antiga e um pequeno sofá. Da mesma perspectiva se vê o solitário justiceiro entrando na cozinha para abrir uma geladeira vazia onde a água é a bebida que refresca a alma de um corpo marcado pela guerra. Estamos no Rio de Janeiro, onde o outrora capitão, hoje tenente-coronel "caiu para cima" depois de anos de serviço ao Bope e assumiu a subsecretaria de Segurança do estado. Seus ideais são os mesmos aos quais ele dedicou toda a vida. A caveira passou a ser mais importante do que ele próprio, que viu sua vida pessoal se acabar no divórcio junto com o afastamento do filho.

Pior do que ter que lidar com as ausências, é saber que sua ex-mulher se casou com um almofadinha pacifista que acha que bandido tem que ser tratado de forma humana enquanto ele tem em mente apenas o melhor plano de dizimá-los da face da terra. O futuro deputado Fraga (Irandhir Santos) é a antítese do caveira Nascimento e aliado improvável de uma guerra que agora é mais complexa do que o velho esquema caubói mocinho vs bandido.

Agora a corrupção e a podridão do Rio de Janeiro estão expostas em valas coletivas. Ela fede em cada esquina, em cada gabinete de políticos corruptos, apresentadores de TV aproveitadores, da classe alta e da classe média conivente e de policiais que na pior lógica darwinista se adaptam em meio ao caos para tirar vantagem de tudo e sem intermediários.

O subtítulo do petardo do diretor José Padilha intitulado "Tropa de elite 2" é "O inimigo agora é outro". O inimigo está no sistema, essa entidade que tem tentáculos de polvo e rede digna da mais aterradora máfia italiana. Ele está nas comunidades sufocadas pelo tráfico que busca uma solução. O sistema tem agora outra ponta na sua pirâmide e seu nome genérico é milícia.

É com ela que Nascimento agora terá que lidar dessa vez pegando menos em armas e fazendo um trabalho de inteligência a partir de um fato que vai mudar a sua visão e fazê-lo botar a mão no lixo que domina o governo.

Nascimento é uma espécie de Frank Castle brasileiro, um justiceiro como o personagem dos quadrinhos que narra o seu filme como o seu diário de guerra. O Rio é o seu Iraque, o seu Afeganistão ou a Nova York de Castle, e a sua vida é com movimentos extremamente pré-determinados para que ele não seja surpreendido. Nascimento precisa estar sempre um passo a frente dos inimigos. É assim que ele escapa de emboscadas e consegue salvar da morte as pessoas que ama. É assim que é a sua vida.

Longe da questão comparativa, “Tropa de elite 2” é mais do que melhor ou pior do que o primeiro, uma continuação da história desse anti-herói chamado Nascimento que lida com seus demônios para tentar levar segurança a uma cidade caótica como o Rio. Ele nunca foi fascista como o acusaram no primeiro filme (e o roteiro de Bráulio Mantovani dá uma alfinetada no tema), e nem “amoleceu” ou “se sentiu culpado pelo passado” agora. Apenas saiu de frente do campo de batalha para lutar em outras frentes numa batalha muito mais complexa, numa guerra de trincheiras em um complicado e intrincado xadrez em que se ganha uma vez e se perde outras 15. Reconhece erros, é verdade, mas continua sendo um caveira.

Padilha conseguiu juntar neste segundo filme todos os elementos que jogaram o Rio no fundo do poço e dar um retrato fiel da cidade a partir disso. Ele declarou certa vez que fez o filme que gostaria de ter feito. Enquanto isso eu me pergunto se certos personagens da cultura local facilmente identificáveis vestiram a carapuça.

Não terei essa resposta. Independentemente dela, a conclusão a que posso chegar é que o excelente trabalho capitaneado por Padilha é daqueles filmes fundamentais para entender o Rio. Além de ser uma obra cinematográfica única.

sábado, 30 de outubro de 2010

Bálsamo cinematográfico

A auto-ajuda é uma fórmula que dá certo por lhe oferecer tudo o que você necessita para melhorar a sua vida supostamente medíocre. Uma história de auto-ajuda começa com a pessoa em crise e invariavelmente descobrindo que é infeliz. O próximo passo dessa ópera bufa é a jornada de auto-conhecimento que resulta na busca da felicidade. Por fim, você atinge esse estágio máximo a partir de lições ao estilo parachoque de caminhão e é feliz para sempre. Ou quase, pois o livro acabou e não contou o resto da história. O epílogo nunca é divulgado.

Quem escreveu a obra continuou vivendo e ficamos impossibilitados de saber se as regras funcionaram para a pessoa que as ditou no best-seller do momento.

A auto-ajuda é, portanto, um manual para a sublimação da existência. É o Kama Sutra da alma que promete orgasmos múltiplos para quem segue todos os passos. E se você não segue? Será infeliz para sempre, ora. Pois eu (o auto-ajuda) sou o caminho, a luz que guia a sua alma.

“Comer Rezar Amar” é basicamente isso. Mais um livro de auto-ajuda que a partir de três verbos no infinitivo fundamentais para a humanidade sobreviver descreve uma jornada de erros e acertos, equilíbrio e desequilíbrio, até um final regado a glicose numa paradisíaca ilha do fim do mundo.

Não li o livro. Isso são observações do filme do diretor Ryan Murphy que com sua história adocicada atraiu a atenção da musa dos filmes adocicados Julia Roberts e de um dos grandes atores do momento, o espanhol Javier Bardem (claramente se divertindo e relaxado na película).

No filme, Julia é a escritora Elizabeth Gilbert, que, em linhas gerais, descobre que seu casamento com o loser Stephen (o sem sal Billy Crudup) é uma farsa e o posterior namoro com David (o ainda mais sem sal James Franco) é uma bálsamo para que ela não se afogue na vida.

Resumindo, Elizabeth chega a conclusão que sua vida é uma merda e resolve tentar recuperá-la com um “tratamento de choque” para endinheirados. Vai viajar por um ano onde se dedicará a comer na Itália, rezar na Índia e acabará descobrindo o amor em Bali.

Um ano apenas viajando e vivendo de suas economias e das mais variadas experiências. Liz come sem culpa o melhor da culinária italiana, tenta atingir o equilíbrio espiritual a custo de algumas dezenas de mordidas de mosquitos na Índia e em Bali vai visitar o guru que "previra" (muitas aspas, por favor) um ano antes a sua aventura e dissera que ela voltaria para vê-lo. Destino para os que acreditam, coincidência para os céticos.

Não há ninguém melhor do que Julia para interpretar Liz. Ela parece ter nascido para o papel que desenvolve sem tropeços até por não ter tantas exigências dramáticas. É basicamente uma mulher em crise em busca de salvação. E é claro que ela vai conseguir. Do contrário não haveria livro e muito menos filme. Portanto, não estraguei a sua surpresa caso você não tenha visto a película.

Por outro lado, Bardem desfila no papel do brasileiro Felipe o seu talento transformando um personagem simples num show de atuação. Com suas nuances, o Felipe de Bardem se torna um personagem ainda mais rico fazendo com que as aparições do ator se constituam em alguns dos melhores momento do trabalho junto com as belíssimas paisagens filmadas por Murphy. Paisagens que ajudam a tornar a película romântica, simpática e leve. Uma gostosa diversão numa sessão de cinema sem compromisso.


“Comer Rezar Amar” pode ser um bálsamo cinematográfico para alguns ou mesmo mera diversão despretensiosa para outros. É um filme para almas sensíveis ou para todos os que estão a fim de passar as próximas duas horas e meia longe dos pesadelos da vida real. Murphy acertou em cheio na mensagem que queria passar.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Nem tão “Bon” nem mais tão “Jovi”

Graziella afasta do rosto o cabelo castanho enquanto coloca o cigarro na boca com a mão esquerda. A noite é agradável. Não há nuvens no céu e a perspectiva é de tempo bom para as próximas horas. É tudo o que ela esperava para fechar em grande estilo as suas férias de um mês no Rio de Janeiro regadas a tudo o que um turista gosta de fazer com idas ao Pão de Açúcar e ao Corcovado. Sem contar as suas paixões: o skate e escaladas, que ela filmou com o que a tecnologia tem de melhor e pode compactar. Hoje em dia somos todos japoneses, eu diria. Mas Graziella não.

Graziella era de Roma, Itália, país que ela fala cantando e com o sotaque que nem o seu inglês perfeito deixa esconder. Se evita o gestual típico do povo italiano para evitar o clichê, os traços no rosto e a beleza não deixam dúvidas que se trata de uma ragazza romana. Estava no Rio para passar férias. Viu todos os prazeres que a cidade pode oferecer e na reta final resolveu se permitir uma pequena extravagância: assistir ao show do Bon Jovi.

“Eu nem sabia que eles iam tocar aqui. Foi muita sorte. Logo que eu vi a publicidade do show corri para comprar o meu ingresso. O meu voo parte amanhã para a Itália. Tomara que seja um show inesquecível”, diz a jovem, sorrindo e sonhando que Jon Bon Jovi, o cantor-galã de voz meio fanha, o guitarrista Richie Sambora, o tecladista David Brian, o baterista Tico Torres e o baixista Hugh McDonald toquem a sua música favorita.

“Always”, sempre Always”, conta ela, fazendo um jogo de palavras enquanto a fumaça do seu cigarro se espalhava na noite em que o DJ parecia ser fã de Chris Cornell na sua fase “Audioslave”, pois tocou simplesmente o primeiro disco inteiro da hoje extinta banda.

Para Graziella, porém, só o Bon Jovi importava. Para aplacar a fome de três horas grudada na grade da área do povão, onde vip não é bem visto - diria até abominado – um saco de batatas fritas industrializadas com refrigerante em copo de plástico. Latinhas são proibidas. Regra, no entanto, que é fragilizada com o apagar das luzes.

Para passar o tempo entre um cigarro e outro, ela revê os vídeos que fez com sua câmera. Manobras de skate, rapel, foram férias radicais que terminarão com 22 músicas da banda de Nova Jersey em, para muitos, decepcionantes 2h15m. Esperava-se três horas, tempo gasto em São Paulo para um set tão generoso quanto melhor, segundo os presentes dos dois lados da Dutra.

Nada que incomodasse Graziella nem outros italianos presentes numa curiosa invasão da Apoteose. Será que tem a ver com a descendência italiana de Jon? Especulações que servem apenas para alimentar a conversa.

“Desde 2003 que eles não vão para a Itália. Por isso não podia perder essa chance”, disse a moça que abre a boca e faz cara de espanto quando fica sabendo que no Brasil a banda não pisa desde 1995.

Nesse hiato de 15 anos, quase nada mudou no Bon Jovi, banda que sempre foi previsível, com discos previsíveis e de letras simples. Ao mesmo tempo, é inegável que Jon e sua banda sabem fazer hits e canções que tocam o seu público. O inexplicável é que eles não tenham aproveitado esse cardápio generoso de 27 anos de estrada de uma forma mais sábia o que resultou num show de altos e baixos incompreensível para uma banda que poderia ter feito um espetáculo apenas de altos e com pouquíssimos baixos. E tome de críticas por ausências “importantes” como a balada das baladas do Bon Jovi, “I’ll be there for you”. Sem contar “Bed of Roses”, “Sleep when I’m dead”, “This ain’t a love song”, etc... O álbum “These Days”, aliás, um dos melhores do grupo, foi pouco aproveitado. Apenas sua faixa-título foi tocada. Assim mesmo a pedido de um fã e num (verdadeiro) bis após o show. Nada que aplacasse a ira de alguns fãs.

Graziella está empolgada e nem percebe o início frio, chocho com “Lost Highway” e a seqüência com “We weren’t born to follow”. Tico se esforça nas baquetas e Richie dá com seus solos relevância musical ao Bon Jovi. O problema é que o frontman, no aparente “peso” dos seus 48 anos não canta mais como outrora. Não que Jon fosse um cantor do primeiro time. Não. Jamais será um Freddie Mercury ou um Bruce Dickinson só para ficar com dois exemplos de excelentes cantores de rock. Mas o passado condena e o registro musical está ali naqueles pequenos disquinhos que compramos e nos fazem comparar. Jon sequer arrisca aqueles agudos banhados a glitter dos tempos de cabelos rebeldes e muita purpurina de discos como “7800º Fahrenheit” (1985), “Slippery When Wet” (1986) e “New Jersey” (1988).

No repertório do show, surgem algumas boas surpresas como “Born to be my baby” e “Runaway”, sendo esta do primeiro disco da banda, de 1984. Outra conclusão que se chega é que o público presente parece realmente preso ao passado. As canções de álbuns mais recentes como “Bounce” (2002), “Have a Nice Day” (2005), “Lost Highway” (2007) e “The Circle” (2009), o motivo da atual turnê são recebidas friamente como interlúdios bons para ir ao banheiro ou comprar algo para comer. Só Graziella parecia empolgada, o que mostra o quanto a relação de cada povo com a música é diferente. O que é inesquecível para ela, é dispensável para muitos presentes na Apoteose e vice-versa.

Claro que boa parte do set é indispensável para ambos. Todos vibram com “You give love a bad name”, terceira música do show e que finalmente levantou a plateia, “It’s my life”, “Keep the faith”, “Wanted dead or alive” e “Livin’On a Prayer”, que fecha oficialmente o show com um simpático mosaico de vídeos no telão com várias pessoas cantando a música em diferentes situações. Ponto positivo para Jon e sua trupe.

Outro ato de coragem que quebrou um tanto quanto o estigma de banda previsível dito acima foi quando Jon pegou o set list e o rasgou dizendo: “Esse era o set list”. A partir daí uma certa dose de improviso tomou conta da noite e algumas canções foram sendo despejadas enquanto outras iam sendo esquecidas. Daí, talvez, a explicação para o show ter durado menos. Ou então, a banda tava mesmo de saco cheio, tinha tomado todas na noite anterior para comemorar o aniversário de 57 anos do seu baterista e resolveu ir embora mais cedo.

O tempo "curto" gerou protestos. Após o show ouvi de alguns fãs que o espetáculo tinha sido uma merda. Creio não ter sido para tanto, mas certamente foi abaixo da expectativa e com um set muito fraco desde o momento que Jon rasgou o papel.

Quem viu o Rush dois dias depois, porém, banda bem mais velha que o Bon Jovi, sentiu que faltou fôlego aos americanos. Nada, porém, que abalasse as convicções de Graziella, que encararia as dez horas de voo para casa de sorriso nos lábios e alma lavada. Não há crítica que abale o amor de uma fã.

Abaixo o set list e alguns dos bons momentos do show:

“Lost Highway”
“We Weren't Born to Follow”
“You Give Love A Bad Name”
“Born to Be My Baby”
“Superman Tonight”
“The Radio Saved My Life Tonight”
“Just Older”
“Runaway”
“It's My Life”
“Bad Medicine”
“Homebound Train”
“What Do You Got? ”
“Always”
“Happy Now”
“Thorn in My Side”
“Someday I'll Be Saturday Night”
“Who Says You Can't Go Home”
“Love's the Only Rule”
“Keep The Faith”
“Wanted Dead or Alive”
“Livin' On A Prayer”

“These Days”
"We weren't born to follow", "You give love a bad name" e "Born to be my baby"

"It's my life"
"Someday I'll be saturday night"
"Keep the faith"
"These Days"
"Livin' On a Prayer"

sábado, 16 de outubro de 2010

Rush destrói na Apoteose

É raro, muito raro mesmo, ter a chance de ver um show que seja bom da primeira a última música, do primeiro ao último acorde. Em mais de 100 concertos nessa minha vida roqueira, poucas vezes presenciei tamanha perfeição. Uma delas foi na noite de domingo passado na Apoteose. De “Spirit of Radio”, que abriu os trabalhos, a “Working Man”, o Rush foi praticamente perfeito.

A turnê que trouxe a banda canadense pela segunda vez ao Rio de Janeiro depois de oito anos se chama “Time Machine” e a todo momento a questão do tempo é lembrada. Com 172 anos juntos de estrada – o baixista e vocalista Geddy Lee e o guitarrista Alex Lifeson têm 57 anos e o baterista Neal Peart tem 58 – o Rush repassou no palco 40 anos de estrada e todos os álbuns. Do primeiro, “Rush” (1974), ao que está por vir, “Clockwork Angels”, a ser lançado em abril de 2011.

O Rush manipula, subverte o tempo e o molda a sua realidade. No palco, o trio nem parece ser formado por quase sessentões tal o vigor e paixão com que toca. Em especial, o desempenho de Peart nas baquetas. Para muitos, ele é o maior baterista de rock de todos os tempos. Na plateia, as 3h10m, com um pequeno intervalo de 20 minutos no meio porque eles “já são velhos”, voam como se o botão da máquina do tempo mostrado nos hilários vídeos da banda no show tivesse sido apertado e valesse também para o mundo real.

Dividido em duas partes, o espetáculo começa com um clássico da banda, “The Spirit of Radio”, do álbum “Permanent Waves” (1980). Na primeira hora e dez minutos, o Rush alterna canções que estão na boca dos seus fãs como “Time Stand Still”, com outras do seu mais recente álbum, “Snakes and Arrows” (2008), caso da ótima “Working them angels”, e uma do disco novo, “Brough up to believe”.

A segunda parte começa com a execução na íntegra do cultuado álbum “Moving Pictures” (1981), o disco que tem “Tom Sawyer”, a mais conhecida música da banda por aqui porque era o tema de abertura do seriado “Profissão Perigo”, aquele do McGyver.

“Caravan” é a outra canção do novo disco tocada antes do magistral solo de bateria de Peart. Quase dez minutos ininterruptos de pura arte. E olha que eu não sou muito fã dos solos de bateria. O trio, aliás, abusa do direito de ser bom. É muito difícil uma banda onde todos os seus integrantes são músicos absolutamente excelentes. E no Rush isso acontece. Lee destrói no baixo enquanto Lifeson brinca alternando suas guitarras Gibson com um violão e uma guitarra de 12 cordas. Seus solos levantam a galera e a fazem urrar palavrões. Coisa de craque.

Quem duvidou quando em entrevistas Lee disse que a banda estava tocando tão bem como nunca queimou a lingua. Com pouco mais de cinco músicas, até um gaiato disse atrás de mim: “Caraca, tem uma orquestra no palco?”. No que outro respondeu: “Não, são só três”. Mas realmente a sensação era de quem estava diante de uma megabanda. E estava. Mas no que diz respeito à sua qualidade

No final foram 24 músicas de 12 dos 20 discos de estúdio da banda. Senti falta apenas de o “Fly by night” (1975) estar representado pelo menos pela faixa-título. Mas num grupo que tem 40 anos de estrada faltar música é o que sempre vai acontecer num show mesmo que ele seja grandioso.

Veja abaixo o set list e alguns dos melhores momentos do show na Apoteose:

“The Spirit of radio”
“Time Stand Still”
“Presto”
“Stick it out”
“Working them Angels”
“Leave that thing alone”
Faithless”
“BU2B – Brough up to believe”
“Freewill”
“Marathon”
“Subdivisions”
“Tom Sawyer”
“Red Barchetta”
“YYZ”
“Limelight”
“The Camera Eye”
“Witch Hunt”
“Vital Signs”
“Caravan”
“Closer to the heart”
“2112 overture”
“Far Cry”
“La Villa Strangiato”

“Working Man”
"Tom Sawyer"

"The spirit of radio"

"Time stand still"

"Faithless"

"Freewill"

"Working Man"

sábado, 2 de outubro de 2010

O festival de novo

Mais um ano, mais um festival de cinema do Rio e mais uma vez vou implicar com ele. Não é de hoje que falo que o festival do Rio não é para quem trabalha. Faltam opções de horário e de lugares para que as pessoas possam ver realmente os filmes que gostam sem ter que fazer sacrifícios para isso. Afinal, eu não consigo conceber que diversão tenha que vir do sacrifício.

Por conta disso, pela enésima vez não conseguirei ver os filmes que mais desejava dessa maratona toda. Os deste ano seriam: “Film Socialisme”, do Godard, e “O retrato de Dorian Gray”, adaptação do livro de Oscar Wilde. O primeiro, pelo menos, tem distribuição garantida nos cinemas brasileiros nos próximos meses. Do segundo ainda não ouvi ou li nada a respeito.

Este blog não me deixa mentir sobre o meu fascínio pelo cinema. Ele praticamente não existiria se eu não fosse tão fanático pela sétima arte. Contudo, mais uma vez passarei praticamente em branco neste festival. Pelo menos já igualei a marca do ano passado e consegui assistir a um filme.

E foi uma bela escolha. Indicado para dois Oscar neste ano, “A última estação” conta a história dos últimos dias de vida do escritor russo Lyev Tolstoi (Christopher Plummer) – 1828-1910 - , quando ele abre mão de todos os bens em nome de uma vida mais simples sem o luxo do qual ele então se envergonhava e que resultava em brigas com sua amada esposa Sofya Tolstoi (Helen Mirren), que queria manter os privilégios da família conquistados graças ao trabalho do escritor de “Guerra e Paz” e “Anna Karenina”. Nascia o embrião de sua doutrina tolstoiana de resistência sem violência e igualdade entre as pessoas que após consultar o vasto mundo da internet descobri que influenciou gente como Mahatma Gandhi e Martin Luther King.

O filme conta com um elenco de primeira. Além da dupla de protagonistas que foi responsável pelas duas indicações ao Oscar como ator coadjuvante e atriz, há ainda o sempre ótimo Paul Giamatti e James McAvoy que vivem o grande amigo de Tolstoi, Vladimir Chertykov, e o secretário deste e aprendiz de escritor, Valentin Bulgakov.

Os duelos entre Mirren e Giamatti, que vivem inimigos na tela, são especialmente deliciosos, e a grande atração de um filme que sabe dosar bem drama e humor ao mesmo tempo em que não deixa de ser uma bonita, apesar de conflituosa, história de amor que durou até a morte do escritor russo.

Amor que também desafia picuinhas de uma doutrina que nem o próprio Tolstoi parecia levar a sério a partir da paixão do jovem Bulgakov por Masha (Kerry Condon). A ele bastava a essência de suas ideias e não pormenores como a necessidade ou não da castidade tão defendia por Chertykov, que estava mais preocupado em criar um mito quase divino para Tolstoi do que em reverenciar a genialidade que o escritor já tinha independentemente de quaisquer conceitos mundanos.

Mais do que reverenciar um escritor genial e amado pelos russos, “A última estação” é um belo e divertido mergulho na história de um gênio que aparentemente fazia questão de ser normal e igual a todo mundo. Pelo menos é isso que o bom filme de Michael Hoffman deixa transparecer numa sessão de cinema muito bem garimpada ao meio as dificuldades de se assistir a um festival de cinema. Apesar da minha implicância, só por esta película o festival do Rio já valeu a pena.

Abaixo um vídeo interessante com imagens do real Tolstoi na Rússia.