sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Um filme saboroso

Se você for ao cinema ver “Julie & Julia” vá comido (no bom sentido). O novo trabalho de Nora Ephron te ganha pelo estômago e, claro, pelos olhos, já que você não pode comer todas aquelas receitas ali mostradas. O Boeuf Bourguignon à moda Julia Child, então, me parece apetitoso.

Vivida com a eterna competência de Meryl Streep, Julia é uma das personagens principais do filme que conta um pouco do livro que teria mudado a história da culinária norte-americana: “Mastering the art of french cooking” (1961). Aceito o argumento, pois não sou expert no tema para questionar. Apenas gosto da fase final dessa história toda que é comer.

Enfim, numa ponta está Julia vivendo em Paris e amando a capital francesa ao lado do seu marido, o embaixador Paul Child (Stanley Tucci), mas buscando novos desafios que desembocaram no curso de culinária e na produção do livro. Quarenta e cinco anos a frente está Julie Powell (Amy Adams), escritora frustrada que trabalha num enfadonho e depressivo emprego público e não tem muito futuro perto de suas amigas que parecem tiradas de uma sobra de estúdio das “Patricinhas de Beverly Hills” (1995).

Uma suposta fracassada que aceita o desafio proposto pelo marido Eric (Chris Messina) de escrever um blog sobre culinária, uma de suas paixões. O objetivo é fazer as 524 receitas do livro de Julia Child em um ano e contar as suas experiências no blog.

Assim, acompanhamos paralelamente a vida e os desafios das duas. E tome receitas gostosas. Tudo com muita gordura e manteiga, um pecado em tempos tão saudáveis. O filme, aliás, é uma ode à manteiga.

Especialista em filmes leves, bobinhos, quase de mulherzinha (que minhas leitoras, se é que eu as tenho, não fiquem bravas com este comentário) como a simpática refilmagem da “Feiticeira” (2005), o terrível e dispensável “Mens@gem para você” (1998) e o apenas razoável “Michael – Anjo e Sedutor” (1996), Nora mantém em “Julie & Julia” seu estilo easy-going, mas constrói um trabalho muito mais saboroso ao ter a ideia de juntar em um único filme dois livros que a inspiraram, “My life in France”, de Julia Child, e “Julie & Julia”, da própria Julie Powell.

O resultado é um filme divertido, bonito e que acredito que vá agradar a todos os paladares.

Espécie de Ana Maria Braga dos anos 50 e 60, Julia Child teve até programa de TV para ensinar as americanas sem-empregada como se deve cozinhar. Depois de “Mastering the art of french cooking”, ela publicou mais 17 livros e morreu em 2004 aos 91 anos. Já Julie Powell, cujo blog “The Julie/Julia Project” ainda pode ser encontrado neste link, se tornou também uma escritora de sucesso e criou outro blog muito visitado e comentado, o “What could happen?”.

Abaixo, alguns vídeos tirados do YouTube só por curiosidade. O primeiro é um trecho do programa da verdadeira Julia Child em que ela ensina a fazer um omelete. No outro, a verdadeira Julie Powell faz um bife que parece muito bom. Bon appétit!


terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Uma grande bobagem de Cameron


James Cameron levou 12 anos para fazer um novo filme desde o tenebroso “Titanic” (1997). Tal qual seu último trabalho – sem contar os três documentários que ele dirigiu neste ínterim – “Avatar”, seu mais novo filme, é longo e ruim. Uma grande bobagem feita a partir de muito dinheiro e uma receita de bolo que deu certo em “Titanic” e dará certo agora, não apenas pelo motivo que fez o seu trabalho anterior um recorde de bilheteria, mas pela sabedoria com que ele usou a tecnologia disponível no mercado.

Chamado de revolucionário por alguns críticos, “Avatar” realmente é belíssimo do ponto de vista estético. Ao criar Pandora, o mundo habitado pelos seres azuis de três metros de altura chamados Na’vi (um cruzamento de smurfs com thundercats), Cameron atinge um estágio, até onde eu sei, nunca antes visto na história do cinema (já aviso que não pagarei royalties ao Lula). E imagino que quem assiste ao filme em 3-D, o que não foi o meu caso, deve realmente ficar embasbacado com a beleza daquele planeta desenvolvido por ele e pela indústria de efeitos visuais de Peter Jackson, ele mesmo, o diretor da trilogia do “Senhor dos Anéis”.

Não é apenas a beleza deste mundo que impressiona, mas o cuidado que Cameron teve de criar uma nova raça, fauna, flora, tribos, costumes, religião e até uma linguagem a partir de uma ajuda providencial de alguns lingüistas. Até parece que não apenas o trabalho de Jackson serviu de inspiração, mas o próprio escritor J. R. R. Tolkien, que fez algo semelhante no seu “O Senhor dos Anéis” a ponto de criar mapas para a sua Terra Média.

Portanto um ponto para Cameron nesta árdua tarefa de levar às telas algo que parecia impossível e me arrisco a dizer que até era ao final do século passado. Pelo menos da maneira que ele desejava.

Contudo, se do ponto de vista estético, “Avatar” é impressionante, como cinema é um fracasso retumbante. De todos os US$ 237 milhões usados na película, certamente pouca coisa foi para a composição do roteiro, escrito pelo próprio Cameron. Seu trabalho é de uma profundidade de uma piscina para bebês. Basicamente ele conta a história de um amor que parecia impossível – e obviamente se realizará no final – entre dois opostos num enredo em que encontramos algumas situações-limite. No final das contas, um sacrifício é necessário, mas dentro do possível tudo acaba bem. Falo da história de Jack (Leonardo di Caprio) e Rose (Kate Winslet)? Não. De Jake Sully (Sam Worthington) e Neytiri (Zoe Saldana). Afinal, tire a roupagem e você vê “Titanic” em “Avatar” e vice-versa.

Em meio a isso tudo há um discurso ecologicamente correto bem ao estilo “Uma verdade inconveniente” (2006). Afinal, os humanos querem destruir aquelas florestas para explorar suas riquezas (qualquer semelhança com o petróleo, além de outras preciosidades encontradas na África não é mera coincidência). E eles destroem porque não tem qualquer conexão com a natureza, o que com os Na’vi é algo inclusive carnal, e no planeta deles isso não existe mais. Não esqueçamos que estamos num futuro apocalíptico já tantas vezes explorado por Cameron nos dois primeiros filmes do “Exterminador do Futuro”. O discurso é bonito, mas soa tão risível e pueril que fica difícil levar a sério.

Os trabalhos anteriores de Cameron, aliás, junto com “True Lies” (1994), também estrelado pelo governator Arnold Schwarzenegger, e “Alien” (1986), estrelado por Sigourney Weaver, que retoma sua parceria com o diretor em “Avatar”, são muito mais interessantes do que a badalada e insossa dupla que Cameron criou nos últimos 13 anos. Ou por serem mais criativos ou por apenas se assumirem como mera diversão sem as tintas revolucionárias de maior, melhor e blábláblá.

Analisando o passado, o século passado, é interessante notar que desde “Titanic” Leonardo di Caprio melhorou muito como ator e enfileirou uma série de ótimos filmes e trabalhos – “Foi apenas um sonho” (2008), “Diamante de Sangue” (2006) e “Os Infiltrados” (2006), só para ficar em alguns mais recentes. Kate Winslet ganhou um Oscar de melhor atriz por “O Leitor” (2008) e só confirmou a excelente atriz que é em trabalhos como “Iris” (2001), “Em busca da terra do nunca” (2004), “Pecados Íntimos” (2006) e o próprio “Foi apenas um sonho”. Já Cameron refez “Titanic” em 3-D e com "thundersmurfs". Ops, fez “Avatar”.

“Avatar”, portanto, pode até ser revolucionário para os que gostam de traquinagens eletrônicas, mas para quem gosta de um bom filme é uma bola fora do estádio. Absolutamente dispensável. No entanto, por sua, digamos, “beleza técnica” é pule de 10 para abocanhar a maioria esmagadora dos Oscar técnicos no ano que vem. E só o que ficam são realmente os números para alguém que é especialista neles. Seja a bilheteria de US$ 1,8 bilhão ou as 11 estatuetas de “Titanic”, seja tudo o que “Avatar” conquistará na sua longa carreira nas salas de cinema do mundo inteiro.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Um discaço do Pearl Jam

No mês passado estive aqui comentando o novo e médio disco do U2 lançado em fevereiro. Continuo com a minha mania de falar sobre os novos álbuns séculos depois de lançados com o mais recente trabalho do Pearl Jam, “Backspacer”. Fazer o que? Embora eu já tivesse escutado o disco lançado em setembro umas 15 vezes (fã é assim mesmo), me faltava tempo para teclar algumas palavras sobre o trabalho de Eddie Vedder (vocais e guitarra), Mike McCready (guitarra), Stone Gossard (guitarra), Matt Cameron (bateria) e Jeff Ament (baixo).

Quando saiu, o álbum foi inundado de críticas positivas das mais diferentes publicações, especializadas ou não, como “New York Times”, “Los Angeles Times”, a revista inglesa “Q”, a americana “Rolling Stone”, além do “The Guardian” e da “Spin”. Concordo com todos. “Backspacer” é um discaço nos seus enxutos e bem lapidados 36 minutos e 38 segundos.

Musicalmente é um disco de rock com suas canções mais pesadas alternadas a baladas sem qualquer vestígio do grunge que consagrou o Pearl Jam no seu début em 1991 com “Ten”. Um movimento natural é que já tinha se iniciado há 11 anos com “Yield”.

Suas letras, como os próprios integrantes da banda reconheceram em diversas entrevistas são mais positivas do que nos dois últimos álbuns de estúdio, “Riot Act” (2002) e “Pearl Jam” (2006). Fruto, dizem, da eleição de Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos. Eddie Vedder sempre foi um anti-Bush (quem em sã consciência não seria?), a ponto de fazer campanha para os candidatos democratas e declarar na sua visita ao Brasil em 2005 para aquele espetacular concerto na Apoteose que a próxima vez que eles voltassem ao país seria muito melhor porque Bush não seria mais presidente.

“Eu tentei durante anos ser esperançoso nas minhas letras e acho que agora é mais fácil”, disse o cantor ao comentar suas novas composições durante o lançamento do álbum.

Assim, Vedder explica que “Gonna see my friend”, canção que abre com maestria os trabalhos de “Backspacer” é sobre um cara que busca os amigos para se livrar das drogas. Na seqüência, “Got Some”, outro rock inspirado, é sobre um “traficante” que vende, na realidade, grandes músicas, grandes rocks.

Terceira faixa, “The Fixer” é a mais pop do álbum. Tem refrão para grudar na cabeça e aquele “iêiêiêiêiêiê” para levar a plateia a uma esperada interação. É boa canção, mas longe da originalidade - dentro do trabalho do Pearl Jam, que fique bem claro – de “Johnny Guitar”, uma música-narrativa sobre um homem que se apaixona por uma mulher que nunca lhe dará bola.

Após uma parada para respirar com a balada “Just Breathe”, que lembra algumas das boas canções que Vedder compôs em “Into the Wild” (2007), trilha sonora do filmaço “Na Natureza Selvagem” (2007), “Amongst the Waves” surge como uma das mais inspiradas músicas do disco junto com as duas primeiras e “Supersonic”.

“Speed of sound”, “Force of Nature” e a balada “The End”, descrita por Vedder como uma “dolorosa canção de amor”, fecham o álbum com a conhecida competência do Pearl Jam.

Tudo isso faz de “Backspacer” um ótimo disco, que ainda vem com um trabalho multimídia e a possibilidade de baixar um show do grupo pela internet. Não confia em mim por ter dito no início ser fã da banda? Basta procurar as críticas citadas lá no segundo parágrafo ou conferir com seus próprios olhos e ouvidos nos vídeos abaixo tirados de shows da turnê do álbum. Tudo ao vivo, no palco, onde o Pearl Jam é mestre.

"Gonna see my friend"


"Got Some"

"The Fixer"



"Johnny Guitar"

"Amongst the Waves"

"Supersonic"

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Uma escorregada de Almodóvar

Quando um diretor vem numa sequência de bons trabalhos como “Fale com Ela” (2002), “A Má Educação” (2004) e “Volver” (2006), o mínimo que se espera para o seu novo filme é que ele mantenha o mesmo nível. Mas todos estão sujeitos a falhas e é realmente muito difícil manter o nível por quatro filmes consecutivos, ou seis se você entender que “Carne Trêmula” (1997) e “Tudo sobre minha mãe” (1999) também têm seu lugar na história. Eu acho que sim.

Com um passado tão rico, Pedro Almodóvar tinha uma responsabilidade natural a assumir com seu novo filme, “Abraços Partidos”. Mas o que se vê é que dessa vez ele errou um pouco a mão.

“Abraços Partidos” tem tudo o que podemos encontrar numa história típica de Almodóvar, um especialista em melodramas envolvendo desejo, paixão, amor, mas com algum espaço para uma certa dose de irreverência e humor. Outra de suas marcas, o uso das cores fortes, embora feita com mais parcimônia nesta película, também estão ali.

Mas falta inspiração ao roteiro, cujos diálogos parecem até retirados de sobras de outros filmes, como aquelas sobras de estúdio que as bandas lançam no fim da carreira ou como caça níqueis após a morte de alguém. Não têm definitivamente a inspiração de outros trabalhos já citados. São frases e frases de um pragmatismo, digamos, peemedebista.

Também pesa negativamente no trabalho a atuação insípida de Lluís Homar, que vive o diretor de cinema e roteirista Mateo Blanco. Um dos vértices do triângulo amoroso vivido ainda pela secretária e aspirante a atriz Lena (a sempre linda Penélope Cruz, que traz luminosidade a este post com a foto acima) e seu idoso marido, o empresário Ernesto Martel (José Luís Gómez), Homar é constrangedor e transparece uma paixão da mesma forma que alguém aprecia um chuchu, alimento que você come, mas não tem gosto de nada. Isso numa história que foi supostamente vivida com intensidade fugaz e num turbilhão de emoções transgressoras. E como o filme é centrado nele e em suas histórias de amor, fica difícil tirar leite de pedra.

Um pouco mais inspirada (mas só um pouco) está Penélope. A talentosa e, vale sempre repetir, linda (não escondo que ela entra fácil no meu top 10), atriz também vem de três elogiáveis trabalhos - “Fatal” (2006), “Vicky Cristina Barcelona” (2008) e “Volver” -, mas aqui ela também acaba se perdendo ou alternando algumas boas cenas com outras em que é tomada pela irregularidade do trabalho do diretor nesta película.

Na sua quarta parceria com Almodóvar, Penélope, porém, tem estrela para dar ao filme os seus melhores momentos e fica provado que quando ela trabalha com o diretor espanhol, ou na sua língua mãe, atua com mais desenvoltura do que em outros trabalhos como “Vanilla Sky” (2001), dispensável filme em que contracenou com Tom Cruise. Embora o já citado “Fatal”, filmado em inglês, seja uma de suas melhores atuações e aos 35 anos ela seja uma atriz em grande fase que pode, evidentemente, dar suas escorregadas como qualquer mortal.

Fato é que “Abraços Partidos” tem um sabor mais de um amor de verão que vai embora com a chegada do outono do que da picante intensidade que o cinema costuma dar aos seus relatos de triângulos amorosos.

Fica apenas a mensagem de Mateo Blanco, que mesmo das profundezas de uma eterna escuridão, diz que “todo filme precisa ser terminado”, todo trabalho precisa ter um fim (no sentido de finitude e propósito, acrescento) e toda obra merece um ponto final. Mesmo que isto não represente nada além do que um mero ponto final que o jogará no baú da história. É mais ou menos o que pode acontecer com “Abraços Partidos”. Um filme que ficará no currículo de Almodóvar, mas que não deverá ser lembrado como um retrato da possível genialidade do seu cinema.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Comentários e a seleção do Brasileiro

Terminado o Brasileirão é hora de fazer aquele balanço e, claro, a seleção do campeonato. Sabe como é, jornalista não vive sem seleções e listas. É o que ele mais gosta.

É inegável que este foi um dos campeonatos mais emocionantes de todos os tempos que culminou com uma nervosíssima e cardíaca rodada derradeira com quatro clubes brigando pelo título e quatro brigando para não serem rebaixados. Sem contar a disputa pelas vagas na Libertadores e na Sul-Americana. O campeonato também foi tecnicamente bem melhor do que os últimos. Espero que seja um bom sinal e não uma fato isolado.

O título do Flamengo, obviamente, foi merecido. O time foi consistente, levou a melhor contra seus principais adversários na disputa pelo título e contou com o talento de jogadores como Petkovic e Adriano para garantir a taça e quebrar um jejum de 17 anos.

Mais emocionante que a arrancada rubro-negra, por mais dramática, só a tricolor, que saiu de uma situação de rebaixamento iminente no final de setembro para uma seqüência de 12 jogos de invencibilidade que deixou o Fluminense longe da segunda divisão.

Uma arrancada, aliás, que ganhou tons ainda mais heróicos graças a emocionante e devotada paixão da torcida do Fluminense, que fez o impossível para fazer esse time lutar até o fim, festas lindíssimas de emocionar qualquer amante do futebol. Confesso ter deixado algumas lágrimas escorrerem quando a torcida cercou o ônibus do time para “levá-lo” ao Maracanã na decisão da Sul-Americana contra a LDU que qualquer ser racional sabia que era praticamente impossível de ganhar.

Se fosse preciso apontar algum destaque nas arquibancadas, a torcida do Fluminense mereceria um prêmio especial da CBF, do país, o que não pode é deixar passar em branco esse amor sem limites do tricolor pelo seu clube.

O futebol carioca, aliás, se saiu por cima nesta reta final. Nem Flu, nem Botafogo foram rebaixados, o Fla foi campeão e o Rio voltará a ter quatro representantes na Série A com o título do Vasco na Série B. Apesar do retorno do Guarani, os paulistas baixaram um pouco a bola com o rebaixamento do Santo André, os fracassos de São Paulo e Palmeiras, que não souberam vencer na hora H, o desinteresse do Corinthians e o papelão do Santos, só fazendo figuração em toda a competição.

Papelão que tem a ver com a queda dos técnicos-professores Vanderlei Luxemburgo e Muricy Ramalho. Não foi definitivamente o ano deles. Não se encontraram e hoje não disputariam a próxima Libertadores da América. A menos que assumam o Flamengo (improvável, que deve manter Andrade), o Internacional (a procura de técnico), o São Paulo (improvável com Ricardo Gomes lá) ou o Cruzeiro e o Corinthians (impossível com Adilson Baptista, que renovou contrato, e Mano Menezes). Ou seja, a rigor, só tem vaga no Inter.

Com Sport e Náutico rebaixados, o futebol pernambucano fica sem representante e o paranaense fica reduzido ao Atlético-PR com a queda do Coritiba. Já o futebol cearense retorna com o Ceará depois de muito tempo e o goiano passa a ter dois representantes com a subida do Atlético-GO. E em 2010 teremos uma inflação de Atléticos: três.

O ano de 2010 promete e que o Brasileiro seja ainda mais emocionante do que o inesquecível deste ano. Agora vamos a minha seleção do campeonato.

Goleiro: Bruno (Flamengo) - Foi um campeonato em que nenhum goleiro brilhou intensamente e constantemente. Muitos cometeram falhas e fizeram partidas incríveis. Foi a competição em que na minha seleção passaram Victor (Grêmio), Marcos (Palmeiras) e Harley (Goiás). A escolha pelo Bruno, que esteve na média dos outros três, acabou sendo feita por causa de atuações fundamentais na reta final.

Zagueiros: Miranda (São Paulo) e Ronaldo Angelim (Flamengo) – Antes de ter feito o gol do título, Angelim já estava na minha seleção do campeonato por suas sempre constantes e seguras atuações. O mesmo vale para Miranda, que fez um campeonato muito correto, tendo sido ameaçado por Álvaro (Flamengo), que na reta final ajudou a acertar a defesa rubro-negra. Mas preferi manter o são-paulino. Coincidentemente esta é a mesma dupla que estava na minha seleção do ano passado. Dois anos jogando o fino.

Laterais: Vítor (Goiás) e Júlio César (Goiás) – Não é só o Dunga que tem problemas para escolher laterais. Eu também tenho. Apesar da queda livre do Goiás no campeonato, mantive a dupla da equipe de Hélio dos Anjos pelas suas boas atuações no primeiro turno e em parte do segundo turno e pela queda de produção do lateral-esquerdo Júnior César (São Paulo), que vinha fazendo um bom campeonato até a virada do turno. Na direita, Leonardo Moura, que esteve na seleção de 2008, acabou batendo na trave e ficando no time reserva. Suas atuações na reta final foram corretas, mas longe das brilhantes partidas do ano passado.

Volantes – Guiñazu (Internacional) e Diego Souza (Palmeiras) – Sim, eu sei que Diego Souza jogou mais de meia do que de volante, sua posição original, neste campeonato, mas esta foi a única vaga que eu encontrei para encaixá-lo no time. Apesar da titubeante reta final do Palmeiras, ele merece a vaga na seleção por tudo o que fez na maior parte do campeonato (até a metade do segundo turno poderia ser apontado o craque da competição) e pelo golaço que marcou contra o Atlético-MG, num chute de primeira do meio-campo. Foi o mais bonito do campeonato. Guiñazu ficou com a segunda vaga por ser um incansável guerreiro no meio-campo do Inter.

Meias – Conca (Fluminense) e Petkovic (Flamengo) – Souza (Grêmio) fez um campeonato muito bom e Fernandinho (Barueri) foi uma revelação, mas eu fico com a dupla gringa fundamental nas arrancadas de Flu e Fla no Brasileiro. Quando o tricolor estava no bagaço, Conca era frequentemente o melhor jogador do time. E o argentino só cresceu quando o tricolor começou a jogar bola. Pet era um desacreditado até por muita gente na Gávea e conduziu o time ao hexa com brilhantismo e paixão. O sérvio, para mim, é o craque do Brasileirão.

Atacantes – Adriano (Flamengo) e Diego Tardelli (Atlético-MG) – Não teria sido um absurdo colocar o Fred (Fluminense) neste time. Ao lado de Conca, ele foi um dos principais responsáveis pela reação tricolor. Mas acabei preferindo manter Diego Tardelli não apenas porque ele foi um dos artilheiros da competição ao lado de Adriano, indiscutível neste time, com 19 gols, mas porque ele fez mais partidas boas do que Fred, que foi herói na reta final, mas ficou muitos jogos fora por causa de contusões.

Técnico: Andrade (Flamengo) – Aqui também não teria sido absurdo colocar Silas, que fez um grande trabalho pelo Avaí, colocando a equipe catarinense numa incrível sexta colocação, mas pesou na escolha de Andrade o seu também excelente trabalho e o título que encerrou o jejum rubro-negro.

Concluindo: A seleção do campeonato então fica assim - Bruno (Flamengo), Vítor (Goiás), Miranda (São Paulo), Ronaldo Angelim (Flamengo) e Júlio César (Goiás); Guiñazu (Internacional), Diego Souza (Palmeiras), Conca (Fluminense) e Petkovic (Flamengo); Adriano (Flamengo) e Diego Tardelli (Atlético-MG). Técnico: Andrade (Flamengo).

Curiosidade: Em relação a seleção do ano passado só a dupla de zaga se manteve. Lembrando o time de 2008: Marcos (Palmeiras), Leonardo Moura (Flamengo), Miranda (São Paulo), Ronaldo Angelim (Flamengo) e Leandro (Palmeiras, hoje no Vitória); Ramires (Cruzeiro, hoje no Benfica), Hernanes (São Paulo), Wagner (Cruzeiro, hoje no Lokomotiv Moscou) e Alex (Internacional, hoje no Spartak Moscou); Guilherme (Cruzeiro, hoje no CSKA Moscou) e Alex Mineiro (Palmeiras, hoje no Atlético-PR). Técnico: Muricy Ramalho, então no São Paulo, hoje no Palmeiras.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Por que o Flamengo será campeão?

Estamos chegando na última rodada de um dos Campeonatos Brasileiros mais emocionantes de todos os tempos (sorry patrulha do mata-mata) com quatro times com chance de ser campeão: Flamengo, Internacional, Palmeiras e São Paulo, separados por dois pontos de diferença. Se a matemática fria da tabela aponta essa disputa acirrada, dentro do campo o time rubro-negro está com a mão no hexacampeonato (sorry torcida do Sport, mas vocês ganharam uma Série B disfarçada em 1987).

Mas por que o Flamengo é o franco favorito a finalmente encerrar um jejum de 17 anos sem conquistar o principal título nacional? Abaixo eu respondo à pergunta com fatos, números e alguma gaiatice.

* Porque o Flamengo precisa de uma vitória simples contra um Grêmio desinteressado, que não quer dar o título ao maior rival Internacional e jogará sem cinco titulares pelo menos até o fechamento deste post (Fábio Rochemback, Maxi Lopez, Tcheco, Réver e Souza).

* Porque mesmo que tivesse algum interesse na partida, o Grêmio tem a pior campanha do Campeonato Brasileiro fora de casa. Venceu apenas um jogo contra o rebaixado Náutico.

* Porque o jogo é no Maracanã, onde o Flamengo só perdeu uma partida no segundo turno.

* Porque no campeonato que ninguém quis ganhar ninguém foi competente para se manter muito tempo na liderança ou teve poder de decisão na hora H. O Fla só precisará de duas rodadas na frente para levar a taça.

* Porque o Fla tem um dos poucos jogadores do futebol brasileiro que tem um olho na terra de cegos: Adriano. Longe de mostrar o futebol apresentado na Europa, o rei, ou melhor, o Imperador é sem muito esforço e algumas confusões artilheiro do campeonato com 19 gols.

* Porque o Flamengo tem no banco um especialista em ganhar brasileiros. Andrade é pentacampeão como o Fla e pode ser hexa com ele. Ele faturou como jogador os títulos de 1980, 1982, 1983 e 1987 pelo Flamengo e 1989 pelo Vasco.

* Porque Andrade soube armar um time seguro na defesa e bom no ataque e ainda recuperou jogadores desacreditados como Zé Roberto.

* Porque o Flamengo mudou o seu jogo já manjado antes apenas focado em explorar os avanços dos laterais atuando como alas (Leonardo Moura e Juan). Diversificou, criou mais opções e ficou menos previsível, graças, principalmente, aos talentos de Petkovic e de Adriano.

* Porque o clube pela primeira vez soube contratar (e, claro, deu um pouco de sorte). Álvaro e Maldonado foram os principais responsáveis pela defesa do Flamengo ter se tornado mais sólida ficando 12 dos 18 jogos do segundo turno sem tomar gol.

* Porque Petkovic insistiu e praticamente impôs a sua contratação enquanto muita gente na Gávea achava que aos 37 anos ele estava velho para jogar pelo clube e não daria caldo. Rendeu uma feijoada.

* Porque é no meio-campo que se ganha uma partida de futebol e dos times que disputam o campeonato só o Fluminense tem um meioa da qualidade do Pet para armar um jogo e decidir uma partida (no caso Conca).

* Porque fora de casa, o Flamengo ganhou 18 dos 30 pontos disputados no segundo turno, mais do que o Internacional (12 pontos), o São Paulo (10) e o Palmeiras (sete). E num campeonato de pontos corridos é fora de casa que se faz a diferença.

* Porque o Flamengo tem a segunda melhor defesa do Brasileiro com 43 gols sofridos ao lado de Palmeiras e Internacional e com apenas um gol a mais do que o São Paulo. E a tônica dos últimos campeões tem sido esta, ter a melhor defesa.

* Porque o Fla levou a melhor no que eu chamo de “finais invisíveis”, pois perdeu apenas um jogo contra os principais postulantes ao título (2 a 1 para o Palmeiras no primeiro turno). De resto, fez quatro pontos contra o Inter (4 a 0 e 0 a 0), quatro contra o São Paulo (2 a 2 e 2 a 1) e três contra o Palmeiras (2 a 0). Isso foi mais do que suficiente para garantir a vantagem de dois pontos que o time tem agora para os rivais.

* Porque o Márcio Braga está calado e, parafraseando o Romário, o Márcio Braga calado é um poeta.

* Porque provavelmente Galvão Bueno não vai narrar a partida de domingo.

* Porque o Flamengo está há 17 anos sem ganhar o Brasileiro e não há mal que sempre dure. Aliás, este já é o 17º motivo do meu post. Fim de papo no Maraca.

Mas e se o Flamengo não for campeão domingo? Bom, além de ser a maior tragédia da história do Maracanã (nem a Copa de 1950 esteve tão na mão), o blogueiro ficará desmoralizado diante dos seus leitores. Mas nesse campeonato maluco em que eu dei como certo o rebaixamento do Fluminense no final de setembro, já estou acostumado a ser derrubado a cada rodada. Não fui o primeiro, nem serei o último. É por isso que o futebol, para usar um velho clichê, é o esporte mais emocionante e imprevisível do mundo.

sábado, 28 de novembro de 2009

Os bastidores de Woodstock

Depois do excelente documentário “Woodstock” (1970), ficou difícil encontrar o que mais se podia fazer para retratar o mítico festival ocorrido há 40 anos. Se o filme registrava quase tudo o que acontecia no palco e nas suas longas imediações naqueles três dias de paz, amor e música, o cineasta taiwanês Ang Lee precisava buscar um outro olhar sobre o festival que mudou o mundo (da música).

Escolheu os bastidores e contar a história do jovem Elliot Tiber (Demetri Martin), que presidia a Câmara do Comércio de Bethel e resolveu mesmo meio que sem querer realizar o festival na fazenda de Max Yasgur (Eugene Levy) naquele ano de 1969.

Filme mais leve e cômico de Ang Lee, “Aconteceu em Woodstock” não se concentra no óbvio da história do concerto que reuniu craques como The Who, Janis Joplin, Crosby, Stills, Nash e Young e Jimi Hendrix. A música aqui é um eco longínquo que reverbera de um ponto para onde a pequena revolução hippie aconteceu naqueles dias mágicos que quase que por milagre deram certo. Ang Lee, aliás, não lança mão na trilha sonora de nenhuma música conhecida de qualquer artista que tenha brilhado no festival, deixando claro que pretende mergulhar em como aquilo tudo foi feito, nas minúcias daquela loucura.

O seu ponto de partida é exatamente Tiber, um jovem gay que não consegue se assumir diante da ditatorial mãe, Sonia Teichberg (Imelda Staunton), e que numa canetada oferece a Michael Lang (Jonathan Groff) a oportunidade de fazer na sua cidade o tão sonhado concerto depois das rejeições de Woodstock e Walk Line.

A partir deste contato Woodstock é viabilizado e os próximos momentos se ocupam em mostrar em como tudo foi feito. Usando a técnica de dividir a câmera exatamente como Michael Wadleigh fez no seu documentário, Lee mostra a maneira quase improvisada, mas bastante organizada de como tudo foi feito ao mesmo tempo em que expunha o contraponto entre a cultura hippie e a conservadora dos americanos, principalmente de Bethel, que tentaram impedir a realização do evento, mas foram engolidos pela invasão de meio milhão de hippies.

A reconstituição de Lee é bastante fiel ao que é mostrado no documentário. Está tudo lá, mas numa visão bastante idealizada, que é a imagem que Lee já reconheceu que tinha do festival quando tinha 15 anos em 1969. Assim vemos sem preconceito as drogas, as pessoas tomando banho pelada nos lagos, os banhos de lama, os problemas causados pela chuva, que atrasou alguns shows e eletrificou tudo o que fosse feito de metal por perto, os protestos contra a Guerra do Vietnã, a liberdade, o sexo e a diversidade de grupos e estilos que reunia de freiras a motoqueiros naquele estilo Hell’s Angels.

É uma visão um tanto romântica de Woodstock? Sim. Mas os relatos de quem esteve lá nunca foram muito diferentes. Afinal aquele foi um momento único na história da música e da cultura mesmo. E para enfatizar isso, Lee coloca perto do encerramento do seu filme um diálogo bastante pragmático. Quando Tiber já resolvido a se emancipar duplamente da família pergunta a Lang "e agora?", Lang, um dos mentores da ideia de Woodstock, responde: "Agora vem o dinheiro. Todo mundo precisa ganhar dinheiro. Provavelmente vamos processar uns aos outros".

Nada mais correto para um festival que virou uma marca, perdeu aqueles ideais de 1969 e pode até ganhar uma edição brasileira no futuro. O sonho de um mundo de total desprendimento material e muita paz e amor durara apenas três inesquecíveis dias.

domingo, 22 de novembro de 2009

Vampira de almas

Enquanto o mundo pré-adolescente se derrete por vampirinhos insossos de literatura barata, da gelada Suécia surge um filme que deixaria Gary Oldman e seu Drácula (1992) do filme de Francis Ford Coppola orgulhoso. É só na aparência e na impressão de quem vê que a história entre Oskar (Kare Hedebrant) e a vampira Eli (Lina Leandersson) em “Deixa Ela Entrar” se parece com “Crepúsculo” (2008) ou “Lua Nova” (2009), série baseada em livros da autora Stephenie Meyer.

“Deixa Ela Entrar” é cruel, ácido e glacial como o inverno sueco ao mostrar a relação de parasita e hospedeiro que Eli tem em relação a Oskar. Além do sangue, a aparentemente doce vampira se alimenta de almas solitárias dispostas a fazer tudo por ela em troca de um mínimo de atenção que lhes é negada.

Assim é Oskar, garoto que sofre com o bullying de colegas de escola e não tem forças para se defender a não ser diante do espelho ou de uma inocente árvore. Eli ajudará Oskar a lidar com os valentões da classe e lhe dará a garantia e a cobertura necessárias para o caso de algo dar errado.

Jovem que tem pouca atenção dos pais e sem amigos, Oskar aos poucos acaba se apaixonando pela estranha Eli, que não tem escola, só aparece no pátio quando escurece e tem “mais ou menos 12 anos há algum tempo”.

Quando ele descobre a natureza demoníaca da menina, já está rendido e nos domínios de Eli que agora necessita de um novo hospedeiro depois da morte de seu último amante que por força do tempo que não passa para ela teve que passar a fazer o papel de pai.

Sem precisar utilizar muitos recursos de computação gráfica, o filme de Tomas Alfredson é assustador exatamente pelo que não mostra. Ao ver a boca daquela aparentemente inocente menina suja de sangue, você só se permite imaginar com que crueldade ela atacou as suas vítimas. Teme-se sua escalada pelo hospital, como se temia cada ação da possuída Linda Blair em “O Exorcista” (1973), cujas transformações na face são semelhantes ao de Eli no longa sueco. Afinal, a menina só aparenta ter 12 anos em séculos de vampirismo, podendo ser exatamente quem qualquer um queira.

Alfredson construiu um assustador filme que embora não abra mão dos clichês vampíricos – seu título, por exemplo, é uma referência à máxima que um vampiro só pode entrar num recinto se convidado – consegue trazer um certo sangue novo (sem trocadilho) ao tema. Algo que a literatura e a filmografia de “Crepúsculo”, cujo terceiro capítulo deve ser lançado em 2010, jamais atingirá.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Uma homenagem à paixão pelo futebol

Jogador de temperamento irascível, o francês Eric Cantona colecionou em seus 14 anos de carreira tantas polêmicas quanto gols e títulos. Responsável pelo reerguimento do Manchester United, que com ele quebrou um jejum de 26 anos sem conquistar o Campeonato Inglês, Cantona é até hoje idolatrado pela torcida dos Red Devils, que sempre pendura faixas em sua homenagem nas partidas no Old Trafford.

Aos 43 anos, 12 depois de pendurar as chuteiras, Cantona é hoje um sujeito, digamos, mais afável. Jogador de futebol de areia, ele ainda faz campanhas publicitárias que exaltam o futebol arte e agora se arrisca no cinema como ator e produtor executivo. Como ele mesmo diz, sempre tentou “se surpreender” para “poder surpreender seus fãs”.

Em “À procura de Eric”, a surpresa, contudo, não está na atuação de Cantona. Até porque, Cantona não aparece na tela para interpretar qualquer personagem. Está ali apenas para ser ele mesmo. Esta surpresa talvez esteja no fato de Ken Loach, conhecido por fazer filmes um tanto quanto pessimistas como “Ventos da Liberdade” (2006), dirigir um filme “para cima” e que te deixa saindo do cinema satisfeito com aquele sorriso de orelha a orelha que só os filmes despretensiosos causam.

Uma ode ao amor pelo futebol, O filme conta a história do carteiro Eric Bishop, torcedor fanático do Manchester United e que vive um período de depressão depois da separação da segunda mulher e de ainda guardar na cabeça a lembrança de sua covardia por ter abandonado sua primeira mulher, Lilly (Stephanie Bishop), ainda grávida e prestes a se casar com ele.

Depois de uma tentativa frustrada de suicídio, Eric recebe a ajuda dos seus amigos para tentar se reerguer. Pouca coisa dá certo e ele continua a passar seus momentos solitário conversando com o pôster de Cantona. Até que num desses momentos, como num passe de mágica digno de filmes de Walt Disney, o próprio Cantona aparece no seu quarto para conversar com ele.

Mais do que um bate-papo, o ex-craque francês vira conselheiro e psicólogo de Eric e passa o filme soltando seus aforismos, suas frases de efeito dignas de um manual de auto-ajuda, e que eram uma das marcas de Cantona. Uma de suas frases mais famosas foi proferida depois que ele foi suspenso por nove meses por ter aplicado um golpe de kung fu num torcedor do Crystal Palace que o provocara. Para criticar a imprensa, Cantona disse na sua maneira peculiar: “Quando as gaivotas seguem o navio pesqueiro, é porque elas sabem que as sardinhas serão lançadas ao mar”. Em seguida ele agradeceu e encerrou a suposta entrevista coletiva que daria.

Sempre polêmico, Cantona nunca demonstrou arrependimento pelo lance que acabou lhe custando não apenas o gancho, mas a vaga na seleção francesa para a Copa do Mundo de 1998, que terminaria com o título dos Bleus. Seis meses antes, embora estivesse jogando muito bem, o técnico Aimée Jacquet declarou que já havia montado a equipe, formado um grupo capitaneado por outro craque, Zinedine Zidane, e não havia mais espaço para Cantona. Como o ponto fraco daquele time era exatamente o ataque, fico imaginando como seria uma França com Cantona de centroavante. De qualquer maneira, em 2007, ele disse: “Eu tive muitos bons momentos, mas o meu preferido foi quando eu dei um chute naquele hooligan”.

Entre o papo onírico com Cantona e a história de recuperação da vida de Eric Bishop, Ken Loach presenteia os fãs do futebol, principalmente os torcedores do Manchester United, com gols inesquecíveis do craque, que conquistou quatro títulos ingleses em cinco anos de Manchester. Sem contar as Copas da Inglaterra e Copas da Liga Inglesa.

O final, como já disse, é para cima, para exaltar o amor do torcedor pelo futebol, pelo seu ídolo, o prazer de se reunir com os amigos num pub para torcer ou num estádio para cantar, sorrir, chorar, viver todas aquelas emoções que só o futebol proporcionam.

E Cantona é para o torcedor dos Red Devils, o maior de todos. Não é a toa que ele é chamado de “King Cantona”, que a torcida cantava uma paródia do hino francês em sua homenagem (consegue imaginar um inglês cantando a Marselhesa?) e que o craque foi eleito o maior jogador do Manchester United de todos os tempos. E olha que muito craque passou por Old Trafford. Para a torcida do Manchester, ele não é apenas um homem, é Cantona.

Há cinco anos, sete depois de sua aposentadoria, o ex-jogador disse: “Fico muito orgulhoso que os fãs ainda cantem o meu nome, mas eu temo que amanhã eles parem. Eu tenho medo porque eu amo isso. E tudo o que você ama, você teme um dia perder”. Disso Cantona não precisa ter medo. Ele será sempre uma lenda em Old Trafford, eternizado nos seus gols memoráveis e agora na tela do cinema.

Abaixo alguns momentos marcantes da carreira do craque francês.



segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Um disco médio do U2

“No line on the horizon” não é um disco espetacular como o “Joshua Tree” (1987) ou o “Rattle and Hum” (1988), ou excelente como “October” (1981), “War” (1983), “Achtung Baby” (1991) e “All that you can’t leave behind” (2000), mas está muito distante de ser um dos piores trabalhos do U2 como parece na primeira vez em que você ouve o álbum.

Este momento negativo ficará sempre compreendido entre os anos de 1993 e 1999, período em que a banda irlandesa lançou seus dois piores discos: “Zooropa” (1993), que apesar de tudo tinha a inesquecível balada “Stay (far away, so close)”, trilha sonora do filme “Asas do Desejo” (1993) de Win Wenders, e “Pop” (1997), o supermercado que desembarcou no Brasil com sua homenagem ao Village People na música “Discotheque” que só não foi completamente esquecido por causa de belas canções como “Staring at the sun” e “Please”.

Mas como eu dizia, no primeiro crivo tem-se a sensação que das 11 faixas do álbum, só duas valem a pena: “Magnificent”, um roquezinho romântico que abre dizendo “I was born to be with you” e cheio de mensagens positivas que são a cara do cantor Bono Vox que solta a voz para dizer que “only love can leave such a mark/only love can heal such a scar”, e “Breathe” uma canção declamada no melhor estilo blueseiro do Mississipi com as levadas da guitarra de The Edge que parece um rescaldo da experiência de duas décadas atrás na viagem pelos Estados Unidos que resultou no disco e na fita já convertida em DVD de “Rattle and Hum”.

Uma segunda escutada e, principalmente, uma conferida nas canções sendo tocadas ao vivo, cortesia do YouTube, percebe-se que “No line on the horizon” tem suas qualidades e funciona melhor no cara a cara com o público - mérito da banda, que sempre foi ótima ao vivo - do que no conforto do lar com o disco tocando e o crítico chato (eu, no caso) anotando tudo e ouvindo cada faixa com extrema atenção. Poderíamos colocar o disco mais ou menos ao lado de “How to dismantle an anatomic bomb” (2004), álbum que não mudou o mundo, mas satisfaz numa tarde chuvosa em que se quer ouvir algo diferente dos clássicos do U2.

“No line on the horizon”, portanto, não será inesquecível, ou a maior revolução como a prometida pela banda antes do seu lançamento. Mas é possível se satisfazer com canções como a faixa-título, apensar do excesso de “oh, oh, oh, oh,oh, oh”, e “I’ll go crazy if I don’t go crazy tonight” com seu refrão que gruda na cabeça “It’s not a hill, it’s a mountain/As you start out the climb/Do you believe me or are you doubting/We’re gonna make all the way to the light/but I know I go crazy if I don’t go crazy tonight”.

Confesso que continuo implicando com “Get on your boots”, primeiro single da banda que foi muito criticado aqui quando do seu lançamento. As únicas coisas positivas da música que mesmo ao vivo não soa bem aos meus ouvidos, são a entrada da bateria de Larry Mullen Jr. e os riffs de The Edge, que também salva da completa desgraça “Stand up comedy”.

Já “Unknown Caller” me parece messiânica demais no seu tom (nada a ver nas letras), quase música de Igreja tal qual “Moment of surrender”, enquanto “White as snow” pouco acrescenta ao histórico de baladas do U2.

“No line on the horizon” é pouco para a história do U2, mas é impossível acertar sempre. E o U2 tem crédito. Basta voltar ao início deste texto e ver a quantidade de discos bons que ele já nos brindou.

Abaixo, o U2 interpretando algumas músicas do álbum:
"Magnificent"


"Breathe
"No line on the horizon"
"I'll go crazy if I don't go crazy tonight"
"Get on your boots"

domingo, 1 de novembro de 2009

O show que jamais aconteceu

“This is It”, documentário póstumo sobre a turnê jamais realizada de Michael Jackson tem um valor muito mais sentimental do que artístico. É um filme para os fãs, como o próprio diretor Kenny Ortega, mais conhecido por ter feito dois filmes da série “High School Musical”, faz questão de ressaltar logo no seu início.

Ortega não está ali para criar controvérsias ou algo que desabone o patrão, mas apenas para reforçar, como se isso fosse possível ou necessário, o mito. Não que Michael Jackson, falecido há quatro meses, não o seja. Alguém que dominou a música no seu tempo, criou canções memoráveis e, na minha modesta opinião, dois discos espetaculares – “Thriller” (1982) e “Bad” (1987) – ultrapassa a mera barreira de Rei, como ele ficou conhecido. Só que um artista como Michael merecia um documentário (e mesmo um filme) melhor do que uma mera compilação de apresentações para o vazio sem os aplausos que ele sempre mereceu.

Não que “This is It” não tenha os seus méritos. Ele tem vários. O primeiro é o de mostrar Michael na intimidade de sua criação artística. Todos já estavam cansados de conhecer a figura extravagante que vivia no rancho de Neverland e não queria crescer. Só que o artista genial que detinha o controle de toda a criação artística do seu show é apresentado aos relés mortais agora.

O trabalho mostra a preocupação obsessiva de Michael em agradar os fãs fazendo com que as músicas sejam tocadas exatamente como eles a conheciam. Até as coreografias procuram ser parecidas com as do passado. Basta comparar com vídeos antigos do cantor. Michael por vezes é duro e discute com alguns membros da equipe, mas logo em seguida diz que faz tudo “com amor” ou “por amor” e manda um “Deus te abençoe” para desarmar qualquer um da sua equipe. Músicos e dançarinos, aliás, que só o idolatram e ocupam o espaço no filme para exaltá-lo.

Michael tinha total conhecimento de sua música nota por nota, verso por verso e cada ligeiro desvio era percebido pelos seus aguçados ouvidos e logo em seguida o cantor pedia para que tudo fosse corrigido. “É por isso que nós ensaiamos”, dizia ele.

O trabalho de Ortega também tem o mérito de mostrar um pouco de como seria a turnê de despedida de Michael. Nota-se que ele preparava um show a altura do seu talento e que pudesse ser grandioso e inesquecível. Algo que ia desde efeitos visuais em canções como “They don’t really care about us”, passando pela roupa que estava sendo especialmente feita para ele usar apenas em “Billie Jean” e chegando aos tradicionais clipes usados em “Earth Song” e “Smooth Criminal”, quando Michael “contracenaria” com Rita Hayworth num dueto com 60 anos de diferença em que o cantor invadiria a cena mais famosa da atriz, o strip-tease (escandaloso para a época) de “Gilda” (1946).

Tudo isso ficou apenas na intenção e algumas coisas acabaram sendo concluídas não para o show, mas para o filme que está ai para homenagear Michael Jackson e seus fãs.

E eles dificilmente sairão do cinema decepcionados. Afinal, aqueles ensaios ganharam ares de registros históricos, pois foram as últimas vezes em que se viu Michael Jackson cantando e dançando antes de sua morte. O cantor parecia satisfeito e feliz com o que estava preparando. E, apesar de algumas desafinadas, parecia em forma, ao contrário do que se escreveu dias depois de sua morte, quando alguns jornais sensacionalistas pintaram uma realidade assustadora devidamente desmentida pelas primeiras imagens divulgadas por Ortega.

Se o documentário pode ter alguns senões quanto a sua qualidade, isso não importa muito. A pecha de “filme feito para os fãs” alivia qualquer crítica mais severa. Ali em “This is It” está Michael Jackson na intimidade de sua música e entre a sua criação. Pela última vez. E só por isso já vale a pena pagar o ingresso.

Como o que fica é o grande artista que Michael foi, divirta-se abaixo com alguns exemplos:


"Smooth Criminal" - turnê History

"Wanna be startin something" em 1997

"Jam"

"Just can't stop loving you" - turnê Dangerous - 1992

"Man in the Mirror"