domingo, 4 de setembro de 2011

Capitão Piada

Evans estraga o Capitão América
Há alguns anos o signatário deste blog vem acompanhando com ansiedade quase juvenil os filmes baseados em quadrinhos da Marvel com suas conexões que vão desembocar no ambicioso projeto do primeiro filme dos Vingadores. Quase todos eles variavam entre excelentes películas e razoáveis, mas nenhuma delas até aqui tinha sido patética. Pois bem. Na hora de tirar o 10 e deixar o fã dos quadrinhos com água na boca pela chegada dos Vingadores em 2012, a Marvel faz a patetice chamada “Capitão América – O Primeiro Vingador”.

É difícil saber o que é pior no filme de Joe Johnston. Diretor conhecido pelos seus trabalhos em “Rocketeer” (1991), Jumanji (1995), “Jurassic Park III” (2001) e “O Lobisomen (2010), ou seja, nada de relevante, o próprio Johnston é um dos responsáveis por tudo o que dá errado no filme.

Junte isso ao roteiro mequetrefe escrito por Christopher Markus e Stephen McFeeley, que passa a impressão de ser uma mera colagem de alguns quadrinhos do herói em 2h e temos um desastre.

O que transforma o desastre em tragédia? O elenco como um todo seria uma boa resposta, mas vamos nos concentrar no protagonista. O que faz Chris Evans num filme de super-herói? Ele pode, para começo de conversa, ser considerado no mínimo pé frio. Dos filmes sobre quadrinhos que considero ruins, Evans participa de três.  Para quem não lembra, o ator interpreta o Tocha Humana nos dois e ridículos trabalhos do Quarteto Fantástico lançados em 2005 e 2007 e completamente dispensáveis. Agora é o protagonista deste trabalho do Capitão América que quase me faz sentir saudades do filme de 1990. E olha que aquele lá não era grande coisa. E pensar que Johnston praticamente implorou para Evans vestir o uniforme do Sentinela da Liberdade.

“Capitão América – O Primeiro Vingador” era para ser o último estágio antes dos Vingadores. Era para exibir a origem do jovem franzino Steve Rogers, que sonha em se alistar no exército para derrotar os nazistas na Segunda Guerra Mundial e acaba sendo o único experimento acertado do programa do governo americano para a formação de supersoldados.
Hugo Weaving e seu circense Caveira

Por representar esse início, entramos em contato com personagens conhecidos da história do herói como o eterno parceiro Bucky Burnes (Sebastian Stan) – e não acredite que ele morreu como o filme supostamente mostra –, Peggy Carter (Hayley Atwell) e o arquiinimigo, o Caveira Vermelha (Hugo Weaving, numa atuação, para ser educado, lamentável). Em torno deles, orbitará Rogers, que para defender os Estados Unidos com lealdade, justiça e aquele blablablá cívico aceitará passar por todas as provações possíveis.

É verdade que um filme sobre o Capitão América poderia parecer datado. Esse furor patriótico não convence mais muita gente (ainda bem), mas Johnson e a dupla formada por Markus e McFeeley poderiam ter criado um filme com menos cheiro de naftalina. Sem contar que eles têm zero de talento para a comédia (para não falar da falta de timing de Evans). Os diálogos escritos para serem engraçadinhos são na verdade constrangedores.

Paralelo ao enredo da origem do Capitão América, o filme conta a história de parte da organização americana na Segunda Guerra, inserindo aí uma batalha contra uma organização criminosa alemã chamada Hidra, liderada justamente pelo Caveira Vermelha, ele também um supersoldado criado na Alemanha, mas num experimento que deu errado e o fez ficar com aquela cara de caveira que conhecemos.

Mas no filme a Hidra parece mais uma organização chiliquenta com desejos megalomaníacos de domínio mundial no melhor estilo Dr. Evil, o vilão-trapalhão dos filmes do Austin Powers. O Caveira tem até no doutor Arnin Zola (Toby Jones) uma espécie de mini-mim.

Enquanto isso, Evans segue salvando os fracos e oprimidos e de máquina de propaganda começa a se transformar em máquina de guerra, com direito a sair atirando por ai, o que sinceramente não me lembro de ter visto o Capitão América fazer nos quadrinhos. Sua única arma sempre foi a superforça e o escudo. Mas em meio a tantos erros, esse é o menor dos problemas.

Mas de tudo o que vimos em “Capitão América”, o que sobra? Duas coisas. A primeira é a presença interessante de Howard Stark (Dominic Cooper), que vem a ser o pai de Tony Stark (Robert Downey Jr), o Homem de Ferro, mostrando que ele tinha a quem puxar. Tem até uma cena parecida com a que vemos em “Homem de Ferro 2” (2010), quando ele apresenta uma nova invenção num evento público.

A segunda é a cena extra no final do filme, que na realidade é um trailer do filme dos Vingadores quando pela primeira vez vemos todos os heróis juntos. É empolgante. Só espero que Evans não consiga estragar mais esse filme baseado em quadrinhos. Se bem que para cada mancada do ator, sempre existirá neste caso um Robert Downey Jr. para brilhar em cena. E ainda tem Scarlett Johansson como a Viúva Negra, Jeremy Renner como o Gavião Arqueiro, Mark Ruffalo como Bruce Banner, o Incrível Hulk. Um elenco que deve garantir a qualidade do filme. Espero.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Só um macaco salva

O macaco de olhos verdes que gosta de cookies
Macacos evoluídos têm olhos verdes. Macacos evoluídos gostam de cookies (e quem não gosta?). Estas foram duas conclusões sacanas que tirei ao assistir à “Planeta dos Macacos: a origem”, a enésima versão da história que nunca será superada por aquela protagonizada por um tal de Charlton Heston em 1968, que verdadeiramente era impactante. Para começo de conversa porque não tinha um “a origem” antes dele. Entendíamos o que tinha acontecido no final do filme como uma daquelas revelações bombásticas.

James Franco e Freida Pinto também formam o casal mais insosso do ano no cinema. Esta é outra conclusão, porém ácida, que tiro do filme. Eu acho que um casal de tartarugas de um documentário da Discovery Channel filmado na Nova Zelândia mostraria mais intimidade, química e talento diante de uma câmera do que o indicado ao Oscar deste ano por “127 horas” e a estrela do mediano “Quem quer ser um milionário?” (2008).

Nunca gostei de Franco. Acho-o fraco desde que o conheci nos filmes do Homem-Aranha no papel de Harry Osbourne, vulgo Duende Verde. Como apresentador do Oscar, ele foi desastroso. E ele ainda não tem a beleza de Anne Hathaway, de quem perdôo tudo só por causa daqueles olhos e daquele sorriso irresistíveis. Também acho Freida fraquíssima. E ela só comprova a minha avaliação com sua atuação constrangedora em “Planeta dos Macacos”.

Com um casal como Franco e Freida, o que sobra no filme de Rupert Wyatt? Em primeiro lugar, a boa atuação de John Litgow, que faz Charles Rodman, o pai de Franco que sofre do mal de Alzheimer. Ele ilumina o filme, mas não é suficiente para pagar o ingresso.

O que vale a pena mesmo é um macaco. E quando um macaco é a estrela do filme, a coisa não pode dar certo. Pelo menos não para mim que não gosto muito de filmes com bichinhos em geral. O macaco em questão é Ceasar, criado com computação gráfica a partir da atuação de Andy Serkis, um ator do qual não conhecemos o rosto, mas aprendemos a gostar. Quem não se lembra do “my preeeeeciousssss” Golum da trilogia do Senhor dos Anéis? Por trás do monstrinho estava Serkis atuando com uma roupa especial e um cenário verde no fundo.

Agora ele é o macaco que vai liderar a pequena revolução contra a opressão humana. Tudo começa com a tentativa de um médico, Will Rodman (James Franco) de tentar encontrar uma cura para o Alzheimer e, consequentemente, curar o seu pai. Apertando um fast foward na fita, tudo dá errado, o remédio que ele desenvolve não encontra a cura, mas faz os macacos desenvolverem uma inteligência acima do normal. E o primeiro filho desta leva de macacos evoluídos é Ceasar, a quem ele cria como filho ou mascote em casa.

Ceasar cresce e começa a desenvolver rapidamente o seu QI, mas o instinto animal sempre esteve presente. É o que o leva a ser confiscado pelo governo após atacar um vizinho que agredia o pai doente de Will. A partir daí ele vai entender que a vida não é fácil para ninguém, mesmo para um macaco evoluído acostumado a comer cookies, e vai iniciar um levante revolucionário depois de dar um pouquinho da droga do Will que deixa todos os macacos evoluídos e com os olhos em tom verde-ariano.

Várias coisas são impressionantes na atuação de Serkis. Ele faz com que a gente tenha medo da evolução de um macaco. Pense na imagem de Ceasar numa postura semelhante ao “O Pensador”, de Rodin, pense nele falando para uma multidão de macacos como um Cristo no alto da montanha e se assuste quando você vê aquele macaco proferindo a sua primeira palavra. Um “não” fruto da agonia, repressão e revolta. É emblemático que “não” seja a primeira palavra da nova civilização que vai tomar primeiro a ponte Golden Gate na melhor cena do filme e posteriormente o mundo. Mas isso é papo para outro filme.

Aqui estes são pontos positivos no filme de Wyatt que tem como mérito ter ainda um roteiro simples escrito por Rick Jaffa e Amanda Silver. O primeiro não tem trabalhos de grande destaque. A segunda escreveu “A mão que balança o berço” (1992). Você entende a história numa boa. O problema é que, em geral, os atores são fracos e deixam o caminho aberto para um macaco brilhar. E Serkis/Ceasar cumpre a sua missão perfeitamente.

Por ser uma tentativa de explicar os acontecimentos do filme de 68 (esqueça a bobagem feita por Tim Burton em 2001), o filme até faz umas ligações interessantes. Em uma cena, é exibida uma imagem de TV mostrando os primeiros astronautas em uma missão tripulada para Marte. Era do espaço que o astronauta Charlton Heston voltava quando se deparou com uma Terra desértica e tomada por macacos evoluídos (mas sem olhos verdes) no “Planeta...” original. Lá houve uma hecatombe nuclear. Aqui, o início do ataque de um vírus criado por Will que deveria curar o Alzheimer, mas faz é muito mal aos humanos.

E com isso “Planeta dos Macacos: a origem” se torna o primeiro filme que vi na minha vida que promete mais por sua continuação do que pelo que expõe em duas horas de cinema. O próximo tem tudo para ser mais interessante se mostrar uns anos a frente na destruição humana e o domínio dos “macacos arianos” na Terra. O atual, embora com alguns bons momentos, se mostrou muito mais vezes enfadonho. E se não fosse o Ceaser teria sido muito pior. Mas sempre é possível confiar em quem gosta de cookies.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Mergulho psiquiátrico de Von Trier

Kirsten Dunst nada feliz com o casamento
O dinamarquês Lars Von Trier gosta de uma polêmica. Dois anos depois de provocar vaias e aplausos com o seu “Anticristo” em Cannes, ele voltou ao palco do tradicional festival de cinema francês para virar persona non grata após suas declarações controversas de que entendia Hitler. A piada de mau gosto ofuscou o seu “Melancolia”, bom filme que então fora exibido no festival, mas não impediu a atriz Kirsten Dunst de deixar a premiação com a Palma de melhor atriz.

“Anticristo” e “Melancolia” guardam algumas semelhanças. Primeiro as óbvias: a presença da atriz Charlotte Gainsbourg e uma abertura com uma composição clássica e imagens em câmera lenta. Lá o escolhido era Händel, aqui Von Trier atacou de “Tristão e Isolda”, de Richard Wagner (ouça no vídeo no fim do post). Logo Wagner, o nazista Wagner, e o diretor ainda me elogia Hitler. Queria brincar com fogo.

Uma terceira semelhança é que suas histórias não deixam de ser um certo “drama psiquiátrico”. Se em “Anticristo” Charlotte vive uma mãe em luto eterno e numa dor profunda pela culpa da morte do filho e acaba mergulhando num estado de loucura enquanto o marido psicólogo vivido por Willen Defoe tentava buscar formas de curá-la, em “Melancolia” Kirsten Dunst é a protagonista que navega entre um estado melancólico e a profunda depressão a partir da noite do seu casamento.

Dividido em duas partes, “Justine” e “Claire”, nomes das personagens de Kirsten e Charlotte, “Melancolia” começa com o casamento de Justine, uma noite que teria tudo para ser de muita felicidade numa festa organizada por sua irmã, Claire, com o dinheiro do marido ricaço John (Kiefer Sutherland, cuja imagem não consigo dissociar do Jack Bauer. Sempre acho que ele vai puxar uma arma, torturar alguém em busca de informação ou dizer um dos seus bordões do tipo “Do it, now!!”).

No início Justine parece feliz com Michael (Alexander Skarsgard) e o casal tira de letra e com bom humor um imprevisto com a limusine que não consegue passar por uma rua estreita. Mas é um filme de Von Trier. Não poderíamos esperar que a noite fosse feliz. Aos poucos Justine mostra que sua felicidade é aparente, é para o mundo exterior e o casamento e a vida feliz é algo enfadonho. Justine sofre de depressão. Por isso entendemos a preocupação extrema de Claire com a irmã. A mesma ainda tem que se preocupar com a mala da mãe, Gaby (Charlotte Rampling), mulher que não acredita no casamento e na tal felicidade a dois e faz questão de deixar isso claro no meio da festa. E Rampling está maravilhosa soltando o seu veneno nas poucas cenas que participa.

A verdade é que Justine já não consegue mais disfarçar que o casamento para ela não faz mais qualquer sentido assim como a sua própria vida. Ela tenta manter a capa de felicidade para justificar a festa, mas nada daquilo tem importância e ela mergulha numa profunda depressão após jogar tudo para o alto.

Paralelo ao caso de Justine, “Melancolia” conta a história de um planeta de mesmo nome do título da película que estaria em rota de colisão com a Terra. A possibilidade da morte, que John garante que não acontecerá, paralisa e deixa transtornada Claire, pois ela não consegue entender que seu filho pequeno não terá um futuro por conta dos caprichos da natureza.

Lendo informações sobre o filme, descubro que Trier resolveu filmar essa história após uma sessão de terapia quando ele se tratava de depressão. Na ocasião, o terapeuta lhe informou que uma pessoa depressiva tende a reagir mais calmamente do que as demais diante de uma situação de grande pressão porque ela já tem a expectativa de que coisas ruins vão acontecer.
Kirsten Dunst nua diante de Melancolia

O diretor pegou esse fiapo de informação para fazer o seu muito particular filme-catástrofe. Diante da iminência de o planeta ser atingido pelo Melancolia, Justine e Claire mudam completamente de lado. Justine, que mal conseguia tomar banho sozinha se acalma e até se entrega ao destino inevitável numa bela cena em que Kirsten Dunst aparece nua ao “luar da melancolia” (não podia deixar de destacar isso e postar a foto ai de cima). O fim do planeta representa para ela o fim da dor, o fim de uma vida sem sentido e finalmente a paz que ela nunca teve.

Para Claire, saber que a morte lhe baterá a porta em uma semana é desesperador. Ela “recebe o diagnóstico” de que tem uma semana de vida e não consegue aceitar. Pensa no futuro que o filho não terá e em tudo o que não realizou. As palavras pessimistas de Justine obviamente não a reconfortam e ela passa toda a segunda parte buscando um fiapo de esperança que a mantenha sã. No final, ambas acabarão aceitando o seu inevitável destino.

“Melancolia” é um bom filme, mas me deixou com uma pontinha de decepção por ser exatamente o que se propõe a ser. Esperava algo mais desafiador como “Anticristo” e outros trabalhos anteriores de Von Trier que o forçam a ter mais imaginação.

Mas é impossível assistir ao filme sem celebrar a ótima atuação de Kirsten Dunst. A atriz de 29 anos que até então era conhecida por interpretar a Mary Jane, a namorada de Peter Parker na trilogia do “Homem-Aranha” (entre 2002 e 2007), e a rainha Maria Antonieta no dispensável filme de Sofia Coppola de 2006, tem aqui o seu primeiro grande papel e encara muito bem o desafio. Kirsten é um dos pontos altos do filme e sua atuação é daquelas que valem o ingresso. Ela tem aquele olhar melancólico, derrotado, devastado e depois passa perfeitamente sua serenidade pós-depressiva.


É uma atuação irretocável. Quem vê “Melancolia” entende os motivos que a levaram a ser premiada em Cannes e Kirsten acaba sendo o ponto alto do filme mais óbvio de Von Trier.


domingo, 21 de agosto de 2011

A reflexão existencialista de Malick

A família O'Brien
De uma cidadezinha do Texas, uma família é o ponto de partida para as reflexões de um diretor  sobre a origem da vida, a formação da civilização e tudo o que ela gera de mitos e concepções religiosas. Ela é o microcosmo que representa a natureza e a graça divina na qual o homem se equilibra e contesta suas próprias convicções se jogando numa realidade niilista e devastadora que marca profundamente o ser humano e o faz à poeira voltar. Reflexão existencial, contestação religiosa, muitos caminhos tomam o diretor Terrence Malick na sua obra que usa como mote o conceito de árvore da vida, que aparece na ciência, na religião, na filosofia e na mitologia, entre tantas outras áreas.

“A árvore da vida” é a obra-prima e minha reconciliação com o diretor sobre o qual cuspi abelhas africanas quando me vi diante de “Além da linha vermelha” (1998). Se o filme que usa a batalha do Monte Austin, durante a Segunda Guerra Mundial, para refletir sobre a moral humana e a necessidade da guerra era uma suprema chatice de curar qualquer um que sofra de insônia, apesar de suas sete indicações ao Oscar, a película que faturou a Palma de Ouro de Cannes neste ano me paralisou diante da tela e me conquistou desde os seus primeiros minutos com a câmera de Malick escolhendo planos incomuns com ângulos num campo de girassóis, no movimento do mar ou na explosão de um vulcão, foco em detalhes que vão de uma expressão a um galho de árvore e o brilho do sol sempre a iluminar um determinado ponto que será focado dentro da abordagem a que o diretor se propõe.

Sim, o filme é absolutamente hermético. Sim, ele é de difícil entendimento e um desafio a quem está acostumado com o padrão diálogos/cenas de ação/diálogos/cenas de sexo e por aí vai. Não tem nada disso em “A árvore da vida”. Em suas quase 2h20m, muito do tempo é gasto em reflexões, pensamentos “jogados em voz alta” ou simplesmente imagens que talvez não façam sentido num primeiro momento, mas que casam perfeitamente (acredite!) com o que o diretor se propõe a fazer. Há um longo período só de abstrações na tela que parecem testar o espectador e saber até onde ele pode ir na viagem de Malick da origem do universo até os anos 50 do século passado no Texas.

O filme começa com uma citação do livro de Jó, que diz: “Onde você estava quando eu fundava a Terra... enquanto as estrelas da manhã cantaram juntas e todos os filhos de deus rejubilavam?” Uma imagem disforme é a deixa para sermos introduzidos aos O’Brien, vividos por Brad Pitt e Jessica Chastain, ambos excelentes passando a infelicidade e a frustração de uma vida muito longe daquela que eles sonhavam, mas aturam numa casinha tipicamente americana de um subúrbio tipicamente americano.

O casal tem três filhos criados com disciplina militar pelo pai, um ex-integrante da Marinha, e amor pela mãe, dona de casa. Jessica olha para o céu, observa as folhas das árvores, o cenário bucólico e pensa que a vida é feita de natureza e de graça e que é preciso viver entre uma e outra para atingir a felicidade. Uma felicidade que ela desde sempre aparenta não ter.

A natureza para Malick é tudo aquilo que existe de belo, mas ao mesmo tempo agressivo. É paixão, mas é fúria, é sublime, mas é devastador. É uma dualidade extrema que na sua versão humana é representada por Pitt, um pai que ama os seus filhos, mas não deixa de, ao seu modo, prepará-los para uma vida dura e cruel, pois a sua visão de mundo é pessimista. Pitt é um ser humano frustrado. Sonhava em ser um músico famoso, mas só lhe resta um piano sem plateia. Tem facilidade em criar coisas. Detém 27 patentes, mas seus inventos são rejeitados mundo afora de tão inúteis como inútil é ele para a fábrica que fechará. Seu destino o envergonha e atinge o seu orgulho e sua moral dentro da família.

Jessica é a encarnação da graça divina. É amor acima de tudo e até dela mesma. Sua existência é melancólica, seus prazeres se resumem a sentir a grama do jardim tocar os seus pés e a água a banhá-la limpando mais do que o corpo, mas a sua alma num dos poucos momentos em que ela parece sentir paz. Sua dor é eterna em um casamento infeliz, mas ela nunca deixa faltar aos filhos o beijo e o carinho para que eles tenham o exemplo de que só o amor constrói uma vida sólida.

Cinquenta anos se passam e nos deparamos com Jack (Sean Penn), o filho mais velho, o problemático, o que desafia o pai sendo fruto desse conflito entre os progenitores. Jack tem um olhar declinante, vazio e busca um sentido para a vida em meio a turbulência dos mercados financeiros e aos prédios com seus vidros espelhados que nada refletem. A morte de um dos irmãos quando ele tinha 19 anos (provavelmente em alguma guerra), é uma marca profunda. Havia uma união inquebrantável entre eles. E no seu interior, ele vê o pai e a mãe sempre em conflito como as forças da natureza por vezes entram em choque.
Sean Penn como o Jack adulto e atormentado

A água que escorre da pia não é com a mesma naturalidade com que a que a família O’Brien se banhava no quintal em brincadeiras que ilustravam os raros momentos de felicidade em meio a tensão diária. A casa simples foi transformada num luxuoso, insipiente e vazio apartamento em que ele sequer troca olhares com a mulher que estava na sua cama. O mundo é diferente, embora a ganância seja a mesma. Lá atrás, era o que fazia o pai invejar os donos de grandes propriedades. Hoje é o que derruba os mercados. A natureza não é mais a mesma. A árvore que o jovem Jack (Hunter McCracken) subia ou equilibrava o seu balanço, hoje é, metaforicamente, a sobrevivente solitária de uma selva de pedras de uma metrópole americana.

Me arrisco a escrever que, em Malick, é essa árvore que contém a história da vida. É ela que faz a interconexão dos fatos, que une a explosão solar, os dinossauros que vivem e morrem na Terra, a família O’Brien e, por fim, Jack. Conceitualmente falando, a árvore da vida é uma tentativa de explicar que toda a vida no planeta está interconectada e que uma ação, gera reações e uma cadeia evolutiva que passa das raízes as folhas. Repare no cenário em que dois dinossauros, um maior e outro pequeno se encontram. Repare na forma como o maior segura com a pata a cabeça do menor caído indefeso num riacho e o observa fixamente. Agora compare na forma como Pitt segura seu filho mais velho pelo pescoço, ele tem aquele mesmo olhar firme, às vezes terno, às vezes cruel. É como se a vida no mundo fosse um eterno retorno. E isso é Nietzsche tentando me fazer entender Malick.

A árvore da vida conecta todas as formas de criação. Seu mito é listado desde o Egito Antigo e no Cristianismo ela representa também o amor de Deus. Na Bíblia, a citação no livro das Revelações diz que “o anjo me mostrou o rio da água da vida, claro como cristal, que sai do trono de Deus e do cordeiro no meio da rua principal da cidade. Em cada lado do rio estava a árvore da vida, que produz doze frutos, dando seu fruto de mês. E as folhas da árvore são para a cura das nações”.

Mas o conceito também aparece na ciência e no “A Origem das Espécies”, de Charles Darwin, que vê nas suas ramificações e interconexões uma forma de as espécies evoluírem porque ela “em algum grau pequeno conecta por suas afinidades dois grandes ramos da vida, e que aparentemente foi salvo da competição fatal por ter uma estação habitada protegida”.

Ao contrário de uma suposta imortalidade que uma fictícia árvore da vida poderia nos oferecer como em “A fonte da vida” (2006), de Darren Aronofsky, aqui Malick concebe a mortalidade como instrumento natural para a sequência dos acontecimentos. E fica claro também o quanto ele questiona esse poder divino que tanto se atribui questionando os motivos pela morte de alguém bom e inocente como um dos irmãos O’Brien. A mãe questiona, Jack questiona e pede ainda a eliminação do próprio pai, com quem no início de sua adolescência entra muitas vezes em conflito, mas acabará percebendo que ele o ama da sua forma bem particular. E o momento é do tiro iconoclasta de Malick sobre esse poder superior.

Não há conclusões em “A árvore da vida”, com seu enredo que tem passagens que lembram “2001, uma odisséia no espaço” (1968), de Stanley Kubrick. É uma reflexão existencialista e talvez aqui Malick tente dizer que está um tanto pessimista quanto à humanidade. Ou talvez eu tenha viajado demais.

Seja como for, “A árvore da vida” é uma obra-prima do diretor. Polêmica, difícil, complexa, desafiadora a quem vai ao cinema, mas fantasticamente bem concebida pelo recluso Malick, um cineasta que, agora sim, começo a achar interessante.

domingo, 24 de julho de 2011

De fã para ídolo

Laetitia Casta como Brigitte Bardot e Elmosnino
“Amo demais Serge Gainsbourg para trazê-lo à realidade. Não são as verdades em torno dele que me interessam, mas suas mentiras”. A frase do diretor e roteirista Joann Sfar, se exposta no início de “Gainsbourg – o homem que amava as mulheres”, explicaria muita coisa do que se vê no filme, mas também o faria perder boa parte da graça.

Eu descreveria o primeiro trabalho do diretor como uma respeitosa cinebiografia tomada de licenças poéticas que transformam Serge Gainsbourg (um ótimo Eric Elmosnino) num personagem ainda mais fascinante do que se estivesse assistindo ao modelo tradicional de filme biográfico padrão cantores, ou seja, início, dificuldades, início na música, muita música, lógica de videoclipe, queda, tragédias, música, melancolia e morte. Quando ela existe.

Sim porque Serge Gainsbourg é um personagem fascinante. Pai da atriz e cantora Charlotte Gainsbourg (aquela que fez o polêmico filme “Anticristo” de Lars von Trier), Serge foi um cantor de muitos sucessos e muitas polêmicas na França. Transou com metade das mulheres mais deslumbrantes do seu tempo. Entre elas, a deusa Brigitte Bardot (no filme, a não menos bonita modelo Laetitia Casta) muito antes de ficar feia, se tornar uma mala e virar estátua em Búzios (ele ainda escreveu uma música para ela, “Initials BB”, e gravou outra junto com Brigitte, "Bonnie and Clyde", cujo vídeo você vê clicando aqui), e Jane Birkin (Lucy Gordon), que vem a ser a mãe de Charlotte.

Cantou jazz, fez música popular, rock, pop, música eletrônica e até uma polêmica versão reggae da Marselhesa - e você pode imaginar quanta confusão isso causou numa patriótica França – o que torna difícil defini-lo artisticamente, embrulhá-lo dentro de um rótulo, e entregá-lo facilmente para consumo. Também é responsável pela canção mais erótica que eu já ouvi. “Jet’Aime” é tão bela quanto foi polêmica e explosiva na sua época (os gemidos originalmente foram gravados por Brigitte Bardot, já que Gainsbourg fez a música para ela, mas a versão que foi para as lojas foi com Jane Birkin). Faria “Erótica”, de Madonna, junto com o seu videoclipe, parecer uma canção/vídeo adequada para o jardim de infância. Mas não seria Serge Gainsbourg se não fosse polêmico assim. 
Elmosnino como Gainsbourg no final da carreira

Fez de tudo e abusou de tudo entre cigarros e bebidas, o que o obrigou a passar por uma cirurgia no fígado. Nada que o impedisse de continuar fumando, bebendo e vivendo a vida do seu jeito.

É um retrato de um bon vivant conquistador desde a tenra idade que Sfar nos oferece. Você não verá aqui conflitos ou problemas que não sejam adocicados por sua música ou por suas belas conquistas. Uma biografia chapa-branca? Que seja, mas não se pode dizer que o diretor não avisou. Embora tardiamente.

É no elenco afinado, na música excelente e no lado lúdico que transforma os desenhos de Serge na infância em realidade, trazendo uma pitada de surrealismo ao filme, que Sfar ganha o espectador. Não acredite em tudo em que você vê, mas divirta-se com o que o diretor lhe oferece para contar uma história idealizada de um polêmico ídolo francês filmada por um fã.

Abaixo, Serge Gainsbourg em ação





quinta-feira, 14 de julho de 2011

O despertar do amor

Depardieu e Gisele como Chazes e Margueritte
É sempre prazeroso esbarrar em um filme que você jamais veria nas condições normais de temperatura e pressão e de repente descobre ser prazeroso e um trabalho que lhe garante pouco mais de uma hora de diversão. Foi o que aconteceu comigo nesta semana quando o destino na pele de uma amiga me colocou diante de “Minhas tardes com Margueritte”.

Claro que quando me foi proposto ver o filme, de início eu torci levemente o rosto. Afinal, o mau humor é uma condição inerente ao signatário deste blog. Além disso, não estava muito empolgado com a ideia sabendo que há dois filmes nos cinemas em que eu estava muito interessado em ver. Mas apesar da minha contrariedade, também sou aberto a novas experiências. Então lá fui eu ver o novo trabalho do Gérard Depardieu.

Ah, como foi delicioso quebrar a cara. Não porque “Minhas tardes com Margueritte” seja um filme sobre o tardio despertar do amor de um homem de meia idade vivido pelo astro francês, mas pela maneira como a história se desenvolve tendo a literatura como veia condutora para o clímax do personagem de Depardieu no seu belíssimo e tocante desfecho de escorrer lágrimas dos olhos.

Quem acompanha este blog há algum tempo sabe que eu tenho um fraco por filmes que envolvam a leitura e a literatura. É por isso que sou completamente apaixonado por “O Leitor” (2008), o filme de Stephen Daldry que divide opiniões, e “As Horas” (2002), do mesmo diretor, que deu o Oscar a Nicole Kidman pelo papel de Virgina Woolf, e contava ainda com as magníficas Meryl Streep e Julianne Moore. É por isso também que um dos meus filmes favoritos é “Fahrenheit 451” (1966), o brilhante trabalho de François Truffaut que é uma ode à literatura.

E é isso que me encantou em “Minhas tardes com Margueritte”. Na trama, Depardieu é Germain Chazes, um operário idiota, de parco conhecimento, sem muito rumo na vida e visivelmente carente que passa os seus fins de tarde observando pombos numa pracinha. Pombos que ele batizou porque, afinal, todos os pombos são diferentes.

Um belo dia ele conhece Margueritte (Gisele Casadesus), com dois “Ts”, jovem senhora de 95 anos que passa a freqüentar a mesma praça e observar os mesmos pombos num intervalo entre os livros que ela leva para ler.

A empatia entre o bruto e ignorante Chazes e a frágil e inteligente senhora que mora num asilo ali perto é imediata apesar das diferenças. Ao mesmo tempo em que Margueritte lê para ele, Chazes se encanta com esse mundo novo que lhe surge. Considera-se um derrotado enquanto a senhora sempre otimista diz que é sempre preciso começar de novo.

O ponto de partida para Chazes ampliar seus horizontes é o livro “A Peste”, de Albert Camus. O primeiro em que Margueritte lerá para ele e que ele tentará ler por conta própria. É a partir do romance de Camus que uma amizade sincera vai surgir entre os dois e Chazes vai não apenas encontrar o amor que lhe faltou desde a infância, quando se sentia maltratado pela mãe, como descobrir que apesar de sua ignorância ele é uma pessoa especial que pode fazer feliz a sua namorada Annette (Sophie Guillemin) e mesmo o filho que ela sonha em ter com ele, apesar de sua resistência por achar que nada tem a oferecer a uma criança.

É Margueritte quem o ajudará a superar seus traumas de infância e sorrir novamente para a vida enquanto ele vai se empenhar em não deixar que ela fique sem suas histórias, seus livros, apesar da doença que a fará ficar cega em pouco tempo.

Baseado no livro “La tête en friche”, título original do filme, de Marie-Sabine Roger, “Minhas tardes com Margueritte” é um drama, mas tem aqueles momentos de comédia que o fazem lembrar os trabalhos de Woody Allen. O diretor Jean Becker, que também assina o roteiro junto com Jea-Loup Dabadie, conduz o espectador de forma cativante enquanto se alterna entre os dois gêneros até o emocionante desfecho. Para quem sentia falta de um bom filme francês nesse ano, já não tenho mais esse vazio. Espero agora poder ver outros.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Nostalgias

Quantas vezes você já não se pegou dizendo que uma época que você jamais viveu certamente era melhor do que o seu tempo atual. Eu, por exemplo, queria ter nascido na Inglaterra no início dos anos 50 só para ser adolescente e adulto quando os Beatles e os Rolling Stones tomavam conta do planeta e ir acompanhando todo o resto que veio depois chutando a porta nesse tal de rock and roll. Certamente eu não precisaria mendigar um show de Paul McCartney aqui e ali e jamais lamentaria nunca ter visto o Led Zeppelin, o The Who e o The Doors tocarem.

A nostalgia do que não se vive e de um tempo meramente idealizado e do qual não se conhece os pormenores é um dos temas do novo filme de Woody Allen, o belo “Meia-noite em Paris”. Passado na capital francesa, a película com jeito de fábula do diretor americano conta a história de Gil (Owen Wilson), um roteirista de filmes de Hollywood que está cansado dessa vida e sonha em escrever um romance verdadeiramente relevante. Gil sente-se capaz disso ao caminhar pelas ruas de Paris, sua cidade-paraíso, onde até quando chove ele acha bela. Tem gosto para tudo, né?

Para Gil, Paris é o que há de mais belo no mundo e Allen trata de tentar comprovar isso com os melhores ângulos possíveis da sua câmera (alguns deles focados na Carla Bruni, que faz uma ponta no filme). Mas melhor do que essa Paris que todos conhecemos, diz Gil, era a Paris dos anos 20, onde gente do naipe dos escritores Francis Scott Fitzgerald (Tom Hiddleston), e Ernest Hemingway (Corey Stoll), dos pintores Pablo Picasso (Marcial di Fonzo Bo), Henri Matisse (Yves-Antoine Spoto) e Salvador Dalí (um hilário Adrian Brody em uma cena impagável), do diretor Luís Buñuel (Adrian de Van) e de Cole Porter (Yves Heck) frequentemente se esbarrava em festas, bares ou pela rua sempre criando, fazendo arte numa efervescência cultural jamais vista.

É então que num passe de mágica e ao tocar do sino da Igreja à meia-noite, como numa fábula da Cinderela às avessas, Gil consegue viajar no tempo para aquela Paris supostamente idealizada por ele, se encontrar com todos os seus ídolos e viver por alguns momentos entre eles.

Enquanto vive o seu sonho em meio a todos estes gênios, Gil, que está prestes a se casar com a insossa e mala Inez (Rachel McAdams), conhece Adriana (Marion Cotillard). Namorada sazonal de Picasso e Hemingway, ela também como num conto de fadas previsível passa a gostar do jovem roteirista que ainda busca o seu melhor texto sempre sob a crítica precisa de Gertrude Stein (Kathy Bates).

A questão é que se para Gil os anos 20 foram os anos dourados, para Adriana, que é uma pessoa daquela época, a era de ouro de Paris foi mesmo o final do século XIX, o tempo de Henry de Toulouse-Lautrec (Vicent Menjou Cortes), Paul Gauguin (Olivier Rabourdin) e Edgar Degas (François Rostain). E não é que como num mesmo passe de mágica, em um momento, eles vão visitar essa época e conhecê-los de perto?

Está com a maior cara de “A Origem” (2010), aquele filme do Christopher Nolan estrelado pelo Leonardo di Caprio com seus sonhos dentro de sonhos? Quase isso. Mas o tom aqui é mais lúdico. E não tente encontrar lógica nisso tudo. Apenas embarque nos sempre ótimos diálogos e na viagem de Allen por esse sentimento nostálgico que todo ser humano tem.

É exatamente na conversa entre Gil e Adriana sobre as idiossincrasias do tempo que o roteirista e aprendiz de escritor vai perceber que mesmo diante de tantos gênios nem tudo é perfeito naqueles “perfeitos” anos 20 e nem tudo é uma porcaria na sua Paris do século XXI. Se Allen já tinha apontado no início do filme que “a nostalgia é a negação do presente”, será com o humor peculiar do seu texto que ele fará Gil perceber que se os anos 20 tinham esses gênios todos, faltavam-lhes coisas como remédios tão comuns no dia a dia do novo século ou mesmo a anestesia.

Um dos melhores filmes dirigidos por Allen neste século, “Meia-noite em Paris” não deixa no espectador qualquer sentimento de nostalgia pelos trabalhos do diretor no passado, como o conhecido e badalado “Noivo neurótico, noiva nervosa” (1977). Para os fãs mais antigos, sentir saudades só da Nova York que o cineasta trocou nos últimos anos por Londres, Barcelona e agora Paris.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

See you later alligator…

Uma vez por ano o signatário deste blog tem o péssimo hábito de tirar férias. Fazer o quê? Eu estou apenas cumprindo as determinações trabalhistas desde que esse negócio de descanso batizado de férias foi criado em 1889.

Mais uma vez inspirado no espírito do herói de natureza selvagem Chris McCandless - mas sempre com o objetivo de um final feliz - é chegado o momento de vasculhar novos cantos, jogar em novas plagas e buscar a inspiração perdida em algum ponto dessa história.

Até lá, este blog, o Twitter da Alcova e o Facebook ficam parados. Pelo menos essa é a minha intenção e pretendo cumpri-la. Não haverá internet, telefone, nada que me faça conectar pelas próximas três semanas.

Sendo assim, como diria uma antiga e querida professora de inglês que não vejo há tempos, see you later alligator, after while crocodile...


E fiquem com as trilhas sonoras das férias logo abaixo. Para começo de conversa, tem "Kashmir", do Led Zeppelin. Na sequência, Roger Waters e David Gilmour tocando "Comfortably Numb", Pearl Jam com "Oceans", Dick Dale com "Miserlou" e, fechando, Soundgarden com "Black Hole Sun".








domingo, 5 de junho de 2011

Um bom Mel Gibson

Esqueça por 90 minutos o imbecil que Mel Colm-Cille Gerard Gibson se tornou participando de lamentáveis episódios de espancamento de namoradas. Tente esquecer por 90 minutos o patético antissemitismo do ator americano de 55 anos que dirigiu aquele banho de sangue chamado “A Paixão de Cristo” (2004). Seja superior a ele, dispa-se dos preconceitos e observe em “Um novo despertar” o bom ator que Mel Gibson pode ser quando quer e encontra uma boa história pela frente.

Terceiro trabalho como diretora de Jodie Foster, “Um novo despertar” conta a história de Walter Black, um diretor de uma fábrica de brinquedos maluco, depressivo e com tendências suicidas que um belo dia, depois de ver toda a sua vida familiar e profissional destroçada pelo seu comportamento auto-destrutivo resolve dar a volta por cima de um jeito peculiar: sendo ventríloquo da própria vida através de um castor de pelúcia. Daí o nome original do filme ser “The Beaver”, “O Castor” em inglês.

A ideia de Walter é esquecer todo o passado e começar de novo. Guardar todas as lembranças numa caixa hermeticamente fechada dentro do cérebro e reiniciar a vida, dar o reboot a partir daquele ponto, a partir do momento em que o castor assume o comando dela.

Pode soar uma ideia patética e realmente quem não embarca na viagem do filme o acha alternado entre o ridículo e o sentimento de descrença do tipo “isso não acontece na vida real”. Mas, convenhamos, isso é cinema né. Se você não embarca nessa aposta meio doidona, vai viver a sua própria vida e seja feliz.

E é em Gibson que Jodie Foster aposta para que o discurso do roteirista Kyle Killen tenha alguma veracidade dentro do cenário esquizofrênico que Walter Black vive. Mais do que a depressão é a loucura o seu grande mal. O novo despertar de Walter nada mais é do que um universo paralelo inventado pela sua mente doentia para que ele pudesse viver mais um pouco na sociedade e adiar o inevitável encontro com o manicômio mais próximo.

Em meio a tudo isso, há uma família tentando se reestruturar. A própria Jodie Foster vive Meredith, a esposa de Walter que sustenta a família e busca um pouco mais de carinho de todos, entre eles o filho mais velho, Porter (Anton Yelchin), que por não gostar das atitudes e da vida que o pai leva persegue obsessivamente em si todos os sinais possíveis que o possam fazer ser parecido com ele para eliminá-lo.

O próprio Porter é um desajustado que tem a incrível capacidade de mimetizar as ideias difusas dos seus colegas de escola e transformá-las em belos trabalhos ou textos, como o que prepara para Norah (Jennifer Lawrence), a paquera do jovem e ela também uma desajustada artista de pichações de rua que cerceia a sua arte e quer se ver distante dela após a trágica morte do irmão mais novo.

Enquanto a vida de Meredith com o Walter/Castor vai melhorando e o filho mais novo, Henry, descobre um novo pai que ele não conhecia e o ajuda a construir coisas e liberar sua criatividade, Porter não consegue aceitar que a mãe tenha aberto a casa para novamente receber o pai que por anos foi um estorvo na família. É aqui que Jodie Foster abre caminho para uma lavagem de roupa suja da família Black que para ela pode servir de espelho para muitas famílias de todos os cantos do planeta.

Mas é claro que Meredith vai se cansar da vida de ventríloqua, vai querer o marido de volta, mas não vai perceber que o sonho temporário de um tratamento para atingir uma cura era uma utopia e que o caso de Walter é mais grave do que ela podia imaginar.

E Gibson mostra que por trás daquele monstro descrito lá em cima ainda vive um bom ator que diante de um papel como esse ainda pode mostrar algumas qualidades como no passado. Lembre do guerreiro escocês William Wallace em “Coração Valente” (1995), filme pelo qual ele ganhou um Oscar de direção e outras quatro estatuetas. Lembre de como nos divertimos com Martin Riggs, o impagável policial porra-louca dos cinco filmes da série “Máquina Mortífera”, ou do seu divertido Bret Maverick, em “Maverick” (1994), quando contracenava com a amiga Jodie Foster. Do herói Benjamim Martin de “O Patriota” (2000) ou “O preço de um resgate” (1996) e “O Troco” (1999). E não esqueça de Mad Max. Nunca se esqueça de Mad Max e a trilha sonora da velha Tina Turner.

Interpretações que mereciam ganhar um Oscar? Provavelmente não, mas trabalhos honestos que representam um pouco mais do que qualquer idiotice que esse cara tenha feito para manchar a própria carreira e agora precisar do apoio de amigos como Jodie para mostrar que diante de uma câmera ainda pode dar um caldo.

E assim voltamos a “Um novo despertar”. Que o título em português sirva de inspiração para Mel Gibson olhar para trás e começar de novo. Mas sem esquecer o passado, nem enlouquecer de vez como Walter Black.

sábado, 4 de junho de 2011

A primeira aula

Inaugurada em 2000, a franquia dos X-Men se tornou uma das melhores entre as adaptações dos quadrinhos apoiada não apenas nos efeitos especiais, mas no bom desenvolvimento da história sobre os mutantes que “usam os seus poderes para proteger a humanidade que os teme e odeia” – e no que isso gera num debate acerca do racismo e de uma suposta pureza genética em substituição ao ideal nazista da supremacia ariana – e nas ótimas atuações dos seus três principais atores: Hugh Jackman (Wolverine), Patrick Stewart (professor Charles Xavier) e Ian McKellen (Magneto).

Capitaneada por Bryan Singer no início, a trilogia só deu uma escorregada no terceiro filme, dirigido por Bratt Rattner, quando optou por ser meramente um filme de ação e deixou de lado assuntos bons para serem explorados como a saga da Fênix do ponto de vista puramente dos quadrinhos ou a questão da cura dos mutantes, que seria uma continuidade daquele debate com o racismo como pano de fundo.

Apesar desse leve desvio de rota, a franquia fez sucesso arrecadando muito dinheiro nos cinemas do mundo inteiro e sair dos trilhos para pegar uma nova rota seria uma aposta ousada e ainda bastante arriscada. Mas foi esse o desafio que o mesmo Bryan Singer dos dois primeiros filmes se impôs ao ajudar a escrever a história da origem dos jovens mutantes que formariam o supergrupo X-Men e dos próprios mutantes na Terra na década de 60 do século passado em “X-Men: primeira classe”, que acaba de entrar em cartaz.

Como se trata do início da história do grupo, o filme dirigido por Matthew Vaughn não pôde contar com a trinca de atores que carregaram a trilogia nas costas até 2006 (a não ser por uma hilária ponta de Jackman no papel de Wolverine) e aposta em novos e menos midiáticos mutantes para reiniciar uma história do zero e contar a origem de tudo.

O resultado dessa aposta é mais do que satisfatório. “X-Men: primeira classe” não deve nada aos três primeiros e ganhou em James McAvoy (o novo professor X) e Michael Fassbender (o novo Magneto) substitutos a altura dos mestres Stewart e McKellen.

Base do primeiro filme dos X-Men, o confronto de ideias e estilos dos amigos e rivais Charles e Magneto é mais uma vez a linha mestra que permeia o trabalho de Vaughn. O diretor usa os dois personagens para mostrar que eles se tornarão líderes de todas as gerações de mutantes que dali nasceriam sempre num confronto entre fazer o que é certo e proteger a humanidade apesar da aversão, temor e horror que ela tem pelos nascidos com o gene X a mais, ou simplesmente esmagá-las porque os mutantes são a nova ordem, um estágio a frente da civilização e superiores, logo, devem prevalecer como espécie dominante numa corruptela da teoria darwiniana da evolução das espécies e, por que não?, uma versão mutante do nazismo.

A primeira turma dos X-Men com o seu olhar 43
No meio dos dois, há um inspirado Kevin Bacon (e há quanto tempo eu não digo isso) vivendo Sebastian Shaw, o líder do Clube do Inferno, cujo plano é simplesmente destruir a humanidade provocando uma guerra nuclear entre Estados Unidos e União Soviética. Estamos nos anos 60 e a real crise dos mísseis de Cuba é usada como plano perfeito para inserir os até então escondidos e párias mutantes na história da humanidade.

Com uma identidade alemã, Shaw foi também um oficial nazista e responsável pela morte da mãe de Magneto, quando o jovem judeu Erik Lehnsherr viu sua família ser jogada num campo de concentração nazista. O filme, aliás, começa exatamente como o primeiro trabalho dos X-Men. Desconfio até que seja a mesma cena. O início da película mostra a origem de Magneto e a primeira vez que Erik manifesta os seus poderes (os poderes de todos os mutantes começam a surgir na adolescência deles).

O episódio do assassinato da mãe é o que vai mudar toda a história de Magneto, que crescerá sempre em busca da vingança e nunca confiará na humanidade porque ele sempre vai acreditar que quem é capaz de jogar pessoas diferentes (no caso judeus) numa câmara de gás, muitos deles depois de sofrerem com experimentos científicos, fará o mesmo ou pior com os mutantes se estes não se defenderem.

Charles, porém, acredita no trabalho em conjunto, na bondade da maior parte da humanidade e que exatamente por serem um avanço na genética, os mutantes precisam dar o exemplo, colaborar, proteger os humanos e ensiná-los a não temer o que é diferente deles.

Apesar das diferenças e da sede de vingança de Erik, até o fim do filme os dois ainda estarão juntos. A película mostra exatamente a migração de Magneto para, digamos, “o lado negro da força”, logo após ser o responsável pela irreversível lesão na coluna de Xavier e o assassinato de Shaw. Até lá, eles recrutam mutantes para formar a primeira turma de alunos dos X-Men.

Assim ficamos conhecendo personagens que não haviam aparecido antes ou fizeram pequenas pontas, como o Fera (Nicholas Hoult), Banshee (Caleb Landry Jones) e Destrutor (Lucas Till), que é Alex Summers, irmão de Scott, o Ciclope conhecido por todos os fãs dos quadrinhos. No filme também aparece pela primeira vez com destaque a doutora Moira McTargget (Rose Byrne), que virá a ser uma grande parceira de Xavier e comandará uma divisão da futura escola para jovens superdotados dele na Ilha Muir, na Escócia. Além de Mística, vivida pela indicada ao Oscar deste ano por “Inverno da Alma” Jennifer Lawrence, que tem sua origem e passagem do lado dos bons para o dos maus contada também em “Primeira Classe”, e da Rainha Branca/Emma Frost (January Jones, numa interpretação patética e parecendo uma boneca de porcelana), uma telepata tão poderosa quanto Xavier.

Todos, porém são meros coadjuvantes perto das ótimas interpretações de McAvoy e Fassbender que monopolizam o filme e o tornam ainda mais interessante porque conseguem passar a ternura da amizade sincera entre os dois personagens junto com as diferenças de ideias e o afastamento sem que isso abalasse um profundo respeito mútuo e a sinceridade e reconhecimento da importância de um para o outro.

Resta saber agora o que Vaughn - ou outro diretor - fará no próximo passo dessa nova seqüência dos X-Men. Agora os caminhos das estradas estão delimitados e Magneto precisará colocar o seu plano em ação. Se a história seguir para um próximo momento do grupo de mutantes, será a hora de entrarem em cena o Homem de Gelo, Ciclope, Fênix e Arcanjo, que junto com o Fera formaram o passo seguinte dos X-Men. Mas será que o estúdio vai deixar mais uma vez o personagem mais interessante de todos, o Wolverine, de fora?

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Sem medo de mudar

Pitty fez mais um belo show no Circo/Reprodução
Pitty é uma inquieta. E isso é um elogio. Quando ela poderia deita em berço esplêndido nos seus sucessos, deixou de lado canções como “Anacrônico”, “Memórias”, “Na Sua Estante”, “Equalize” e “Semana que vem” para gravar um DVD diferente, dar uma sacudida no set list e fazer um trabalho ao vivo que fosse verdadeiramente novo e não uma recauchutagem do “(Des)Concerto” (2007).

Foi assim que ela apostou em “O Lobo”, do seu primeiro disco, valorizou o trabalho (muito bem feito, por sinal) do “Chiaroscuro” e botou toda a sua trupe delirante na lona do Circo Voador para gravar um DVD em dezembro do ano passado e que agora chega finalmente às lojas.

Cinco meses depois, a cantora baiana volta ao Circo para o lançamento do resultado desse trabalho. O DVD que ganhou o nome de “Trupe Delirante no Circo Voador” poderia ser todo tocado, mas, como eu dissera, Pitty não consegue se manter quieta e gosta de dar uma mexida no baú, misturar, remexer, mudar, acrescentar músicas e jogar para a galera se divertir sempre buscando uma surpresa.

Assim, das 17 músicas do álbum ao vivo, a cantora retira cinco e traz de volta alguns de seus sucessos. Os fãs que lotam o Circo ficam absolutamente felizes e respondem imediatamente cantando com a alma “Memórias”, “Anacrônico”, “Máscara”, “Admirável Chip Novo” e “Pulsos”.

Não que “8 ou 80”, que abre os trabalhos do show, ou a bela “Água contida”, para ficar em dois exemplos, tenham recepção fria. Pelo contrário, não há recepção fria da calorosa horda de fãs da Pitty. Estava mais para um reencontro com a história mais antiga da cantora que não esteve presente em dezembro, mas estava lá em 2009, quando a baiana esteve no Circo para o show da turnê do “Chiaroscuro”.

Pitty e sua banda/Reprodução
Se podemos dizer que algo do show sempre intenso e de entrega total da cantora não deu muito certo, foi só no momento de “Se você pensa”. O cover da música do Roberto Carlos, que também está no DVD, foi o único em que se percebeu alguma dispersão da galera. Foi o único momento em que a resposta foi menos intensa do que o normal entre os fãs que ignoraram a chuva para mais uma vez prestigiar a roqueira na Lapa.

E Pitty devolveu o carinho da galera com raça. Nas músicas mais pesadas, balançou a cabeça como se não houvesse amanhã e depois brincou pelo Twitter que estava virando uma headbanger da terceira idade por causa das dores no pescoço.

As dores podem ser verdadeiras, mas a moça tem apenas 33 anos de rock and roll e está em grande forma como mostrou numa apresentação mais enxuta do que na de dezembro. Foram apenas 90 minutos e sem bis, um fato raro nos shows de rock. Deixou muita gente com aquele gosto de quero mais e contabilizando as músicas que faltaram. “Na Sua Estante”, “Equalize”... poderíamos ficar escrevendo mais umas três ou quatro linhas aqui. Mas ela avisara que ia fazer algumas mudanças, não uma revolução e nem viraria o baú de cabeça para baixo.

No entanto, o que ela cantou foi para deleite dos fãs. Pitty ainda se permitiu junto com a sua banda fazer umas viagens, “dar uma voltinha ali em outro planeta”, como ela mesmo disse enquanto tocava “Máscara”, quando o guitarrista Martin deu uma volta psicodélica e voltou de não sei onde para depois de tanta distorção, puxar um ritmo de reggae e fechar com muito peso como a música pede. Delírio total do povo presente.

Foi um momento de bom improviso de outros que rolaram e deu ao show um tom positivo. Sem ter que cumprir muito as regras básicas para a gravação do DVD, a banda pareceu até mais à vontade. O que pode ser também um sinal de satisfação do desfecho de um trabalho bem feito. Só especulação. Não tive a chance de perguntar nada a eles depois do show.

A celebração pittyana termina com a catarse de “Me Adora”, com o público cantando o refrão a plenos pulmões exatamente como você poderá ver no DVD. Um bom desfecho de mais uma noite de Pitty no Circo.

Abaixo o set list e alguns bons momentos do show:

8 ou 80
Fracasso
Memórias
Água Contida
Desconstruindo Amélia
Comum de Dois
Só Agora
Medo
Todos estão Mudos
Emboscada
O Lobo
Se você pensa
Anacrônico
Máscara
Admirável chip novo
Pulsos
Me Adora