A auto-ajuda é uma fórmula que dá certo por lhe oferecer tudo o que você necessita para melhorar a sua vida supostamente medíocre. Uma história de auto-ajuda começa com a pessoa em crise e invariavelmente descobrindo que é infeliz. O próximo passo dessa ópera bufa é a jornada de auto-conhecimento que resulta na busca da felicidade. Por fim, você atinge esse estágio máximo a partir de lições ao estilo parachoque de caminhão e é feliz para sempre. Ou quase, pois o livro acabou e não contou o resto da história. O epílogo nunca é divulgado.
Quem escreveu a obra continuou vivendo e ficamos impossibilitados de saber se as regras funcionaram para a pessoa que as ditou no best-seller do momento.
A auto-ajuda é, portanto, um manual para a sublimação da existência. É o Kama Sutra da alma que promete orgasmos múltiplos para quem segue todos os passos. E se você não segue? Será infeliz para sempre, ora. Pois eu (o auto-ajuda) sou o caminho, a luz que guia a sua alma.
“Comer Rezar Amar” é basicamente isso. Mais um livro de auto-ajuda que a partir de três verbos no infinitivo fundamentais para a humanidade sobreviver descreve uma jornada de erros e acertos, equilíbrio e desequilíbrio, até um final regado a glicose numa paradisíaca ilha do fim do mundo.
Não li o livro. Isso são observações do filme do diretor Ryan Murphy que com sua história adocicada atraiu a atenção da musa dos filmes adocicados Julia Roberts e de um dos grandes atores do momento, o espanhol Javier Bardem (claramente se divertindo e relaxado na película).
No filme, Julia é a escritora Elizabeth Gilbert, que, em linhas gerais, descobre que seu casamento com o loser Stephen (o sem sal Billy Crudup) é uma farsa e o posterior namoro com David (o ainda mais sem sal James Franco) é uma bálsamo para que ela não se afogue na vida.
Resumindo, Elizabeth chega a conclusão que sua vida é uma merda e resolve tentar recuperá-la com um “tratamento de choque” para endinheirados. Vai viajar por um ano onde se dedicará a comer na Itália, rezar na Índia e acabará descobrindo o amor em Bali.
Um ano apenas viajando e vivendo de suas economias e das mais variadas experiências. Liz come sem culpa o melhor da culinária italiana, tenta atingir o equilíbrio espiritual a custo de algumas dezenas de mordidas de mosquitos na Índia e em Bali vai visitar o guru que "previra" (muitas aspas, por favor) um ano antes a sua aventura e dissera que ela voltaria para vê-lo. Destino para os que acreditam, coincidência para os céticos.
Não há ninguém melhor do que Julia para interpretar Liz. Ela parece ter nascido para o papel que desenvolve sem tropeços até por não ter tantas exigências dramáticas. É basicamente uma mulher em crise em busca de salvação. E é claro que ela vai conseguir. Do contrário não haveria livro e muito menos filme. Portanto, não estraguei a sua surpresa caso você não tenha visto a película.
Por outro lado, Bardem desfila no papel do brasileiro Felipe o seu talento transformando um personagem simples num show de atuação. Com suas nuances, o Felipe de Bardem se torna um personagem ainda mais rico fazendo com que as aparições do ator se constituam em alguns dos melhores momento do trabalho junto com as belíssimas paisagens filmadas por Murphy. Paisagens que ajudam a tornar a película romântica, simpática e leve. Uma gostosa diversão numa sessão de cinema sem compromisso.
“Comer Rezar Amar” pode ser um bálsamo cinematográfico para alguns ou mesmo mera diversão despretensiosa para outros. É um filme para almas sensíveis ou para todos os que estão a fim de passar as próximas duas horas e meia longe dos pesadelos da vida real. Murphy acertou em cheio na mensagem que queria passar.
Graziella afasta do rosto o cabelo castanho enquanto coloca o cigarro na boca com a mão esquerda. A noite é agradável. Não há nuvens no céu e a perspectiva é de tempo bom para as próximas horas. É tudo o que ela esperava para fechar em grande estilo as suas férias de um mês no Rio de Janeiro regadas a tudo o que um turista gosta de fazer com idas ao Pão de Açúcar e ao Corcovado. Sem contar as suas paixões: o skate e escaladas, que ela filmou com o que a tecnologia tem de melhor e pode compactar. Hoje em dia somos todos japoneses, eu diria. Mas Graziella não.
Graziella era de Roma, Itália, país que ela fala cantando e com o sotaque que nem o seu inglês perfeito deixa esconder. Se evita o gestual típico do povo italiano para evitar o clichê, os traços no rosto e a beleza não deixam dúvidas que se trata de uma ragazza romana. Estava no Rio para passar férias. Viu todos os prazeres que a cidade pode oferecer e na reta final resolveu se permitir uma pequena extravagância: assistir ao show do Bon Jovi.
“Eu nem sabia que eles iam tocar aqui. Foi muita sorte. Logo que eu vi a publicidade do show corri para comprar o meu ingresso. O meu voo parte amanhã para a Itália. Tomara que seja um show inesquecível”, diz a jovem, sorrindo e sonhando que Jon Bon Jovi, o cantor-galã de voz meio fanha, o guitarrista Richie Sambora, o tecladista David Brian, o baterista Tico Torres e o baixista Hugh McDonald toquem a sua música favorita.
“Always”, sempre Always”, conta ela, fazendo um jogo de palavras enquanto a fumaça do seu cigarro se espalhava na noite em que o DJ parecia ser fã de Chris Cornell na sua fase “Audioslave”, pois tocou simplesmente o primeiro disco inteiro da hoje extinta banda.
Para Graziella, porém, só o Bon Jovi importava. Para aplacar a fome de três horas grudada na grade da área do povão, onde vip não é bem visto - diria até abominado – um saco de batatas fritas industrializadas com refrigerante em copo de plástico. Latinhas são proibidas. Regra, no entanto, que é fragilizada com o apagar das luzes.
Para passar o tempo entre um cigarro e outro, ela revê os vídeos que fez com sua câmera. Manobras de skate, rapel, foram férias radicais que terminarão com 22 músicas da banda de Nova Jersey em, para muitos, decepcionantes 2h15m. Esperava-se três horas, tempo gasto em São Paulo para um set tão generoso quanto melhor, segundo os presentes dos dois lados da Dutra.
Nada que incomodasse Graziella nem outros italianos presentes numa curiosa invasão da Apoteose. Será que tem a ver com a descendência italiana de Jon? Especulações que servem apenas para alimentar a conversa.
“Desde 2003 que eles não vão para a Itália. Por isso não podia perder essa chance”, disse a moça que abre a boca e faz cara de espanto quando fica sabendo que no Brasil a banda não pisa desde 1995.
Nesse hiato de 15 anos, quase nada mudou no Bon Jovi, banda que sempre foi previsível, com discos previsíveis e de letras simples. Ao mesmo tempo, é inegável que Jon e sua banda sabem fazer hits e canções que tocam o seu público. O inexplicável é que eles não tenham aproveitado esse cardápio generoso de 27 anos de estrada de uma forma mais sábia o que resultou num show de altos e baixos incompreensível para uma banda que poderia ter feito um espetáculo apenas de altos e com pouquíssimos baixos. E tome de críticas por ausências “importantes” como a balada das baladas do Bon Jovi, “I’ll be there for you”. Sem contar “Bed of Roses”, “Sleep when I’m dead”, “This ain’t a love song”, etc... O álbum “These Days”, aliás, um dos melhores do grupo, foi pouco aproveitado. Apenas sua faixa-título foi tocada. Assim mesmo a pedido de um fã e num (verdadeiro) bis após o show. Nada que aplacasse a ira de alguns fãs.
Graziella está empolgada e nem percebe o início frio, chocho com “Lost Highway” e a seqüência com “We weren’t born to follow”. Tico se esforça nas baquetas e Richie dá com seus solos relevância musical ao Bon Jovi. O problema é que o frontman, no aparente “peso” dos seus 48 anos não canta mais como outrora. Não que Jon fosse um cantor do primeiro time. Não. Jamais será um Freddie Mercury ou um Bruce Dickinson só para ficar com dois exemplos de excelentes cantores de rock. Mas o passado condena e o registro musical está ali naqueles pequenos disquinhos que compramos e nos fazem comparar. Jon sequer arrisca aqueles agudos banhados a glitter dos tempos de cabelos rebeldes e muita purpurina de discos como “7800º Fahrenheit” (1985), “Slippery When Wet” (1986) e “New Jersey” (1988).
No repertório do show, surgem algumas boas surpresas como “Born to be my baby” e “Runaway”, sendo esta do primeiro disco da banda, de 1984. Outra conclusão que se chega é que o público presente parece realmente preso ao passado. As canções de álbuns mais recentes como “Bounce” (2002), “Have a Nice Day” (2005), “Lost Highway” (2007) e “The Circle” (2009), o motivo da atual turnê são recebidas friamente como interlúdios bons para ir ao banheiro ou comprar algo para comer. Só Graziella parecia empolgada, o que mostra o quanto a relação de cada povo com a música é diferente. O que é inesquecível para ela, é dispensável para muitos presentes na Apoteose e vice-versa.
Claro que boa parte do set é indispensável para ambos. Todos vibram com “You give love a bad name”, terceira música do show e que finalmente levantou a plateia, “It’s my life”, “Keep the faith”, “Wanted dead or alive” e “Livin’On a Prayer”, que fecha oficialmente o show com um simpático mosaico de vídeos no telão com várias pessoas cantando a música em diferentes situações. Ponto positivo para Jon e sua trupe.
Outro ato de coragem que quebrou um tanto quanto o estigma de banda previsível dito acima foi quando Jon pegou o set list e o rasgou dizendo: “Esse era o set list”. A partir daí uma certa dose de improviso tomou conta da noite e algumas canções foram sendo despejadas enquanto outras iam sendo esquecidas. Daí, talvez, a explicação para o show ter durado menos. Ou então, a banda tava mesmo de saco cheio, tinha tomado todas na noite anterior para comemorar o aniversário de 57 anos do seu baterista e resolveu ir embora mais cedo.
O tempo "curto" gerou protestos. Após o show ouvi de alguns fãs que o espetáculo tinha sido uma merda. Creio não ter sido para tanto, mas certamente foi abaixo da expectativa e com um set muito fraco desde o momento que Jon rasgou o papel.
Quem viu o Rush dois dias depois, porém, banda bem mais velha que o Bon Jovi, sentiu que faltou fôlego aos americanos. Nada, porém, que abalasse as convicções de Graziella, que encararia as dez horas de voo para casa de sorriso nos lábios e alma lavada. Não há crítica que abale o amor de uma fã.
Abaixo o set list e alguns dos bons momentos do show:
“Lost Highway” “We Weren't Born to Follow” “You Give Love A Bad Name” “Born to Be My Baby” “Superman Tonight” “The Radio Saved My Life Tonight” “Just Older” “Runaway” “It's My Life” “Bad Medicine” “Homebound Train” “What Do You Got? ” “Always” “Happy Now” “Thorn in My Side” “Someday I'll Be Saturday Night” “Who Says You Can't Go Home” “Love's the Only Rule” “Keep The Faith” “Wanted Dead or Alive” “Livin' On A Prayer”
“These Days”
"We weren't born to follow", "You give love a bad name" e "Born to be my baby"
É raro, muito raro mesmo, ter a chance de ver um show que seja bom da primeira a última música, do primeiro ao último acorde. Em mais de 100 concertos nessa minha vida roqueira, poucas vezes presenciei tamanha perfeição. Uma delas foi na noite de domingo passado na Apoteose. De “Spirit of Radio”, que abriu os trabalhos, a “Working Man”, o Rush foi praticamente perfeito.
A turnê que trouxe a banda canadense pela segunda vez ao Rio de Janeiro depois de oito anos se chama “Time Machine” e a todo momento a questão do tempo é lembrada. Com 172 anos juntos de estrada – o baixista e vocalista Geddy Lee e o guitarrista Alex Lifeson têm 57 anos e o baterista Neal Peart tem 58 – o Rush repassou no palco 40 anos de estrada e todos os álbuns. Do primeiro, “Rush” (1974), ao que está por vir, “Clockwork Angels”, a ser lançado em abril de 2011.
O Rush manipula, subverte o tempo e o molda a sua realidade. No palco, o trio nem parece ser formado por quase sessentões tal o vigor e paixão com que toca. Em especial, o desempenho de Peart nas baquetas. Para muitos, ele é o maior baterista de rock de todos os tempos. Na plateia, as 3h10m, com um pequeno intervalo de 20 minutos no meio porque eles “já são velhos”, voam como se o botão da máquina do tempo mostrado nos hilários vídeos da banda no show tivesse sido apertado e valesse também para o mundo real.
Dividido em duas partes, o espetáculo começa com um clássico da banda, “The Spirit of Radio”, do álbum “Permanent Waves” (1980). Na primeira hora e dez minutos, o Rush alterna canções que estão na boca dos seus fãs como “Time Stand Still”, com outras do seu mais recente álbum, “Snakes and Arrows” (2008), caso da ótima “Working them angels”, e uma do disco novo, “Brough up to believe”.
A segunda parte começa com a execução na íntegra do cultuado álbum “Moving Pictures” (1981), o disco que tem “Tom Sawyer”, a mais conhecida música da banda por aqui porque era o tema de abertura do seriado “Profissão Perigo”, aquele do McGyver.
“Caravan” é a outra canção do novo disco tocada antes do magistral solo de bateria de Peart. Quase dez minutos ininterruptos de pura arte. E olha que eu não sou muito fã dos solos de bateria. O trio, aliás, abusa do direito de ser bom. É muito difícil uma banda onde todos os seus integrantes são músicos absolutamente excelentes. E no Rush isso acontece. Lee destrói no baixo enquanto Lifeson brinca alternando suas guitarras Gibson com um violão e uma guitarra de 12 cordas. Seus solos levantam a galera e a fazem urrar palavrões. Coisa de craque.
Quem duvidou quando em entrevistas Lee disse que a banda estava tocando tão bem como nunca queimou a lingua. Com pouco mais de cinco músicas, até um gaiato disse atrás de mim: “Caraca, tem uma orquestra no palco?”. No que outro respondeu: “Não, são só três”. Mas realmente a sensação era de quem estava diante de uma megabanda. E estava. Mas no que diz respeito à sua qualidade
No final foram 24 músicas de 12 dos 20 discos de estúdio da banda. Senti falta apenas de o “Fly by night” (1975) estar representado pelo menos pela faixa-título. Mas num grupo que tem 40 anos de estrada faltar música é o que sempre vai acontecer num show mesmo que ele seja grandioso.
Veja abaixo o set list e alguns dos melhores momentos do show na Apoteose:
“The Spirit of radio” “Time Stand Still” “Presto” “Stick it out” “Working them Angels” “Leave that thing alone” Faithless” “BU2B – Brough up to believe” “Freewill” “Marathon” “Subdivisions” “Tom Sawyer” “Red Barchetta” “YYZ” “Limelight” “The Camera Eye” “Witch Hunt” “Vital Signs” “Caravan” “Closer to the heart” “2112 overture” “Far Cry” “La Villa Strangiato”
Mais um ano, mais um festival de cinema do Rio e mais uma vez vou implicar com ele. Não é de hoje que falo que o festival do Rio não é para quem trabalha. Faltam opções de horário e de lugares para que as pessoas possam ver realmente os filmes que gostam sem ter que fazer sacrifícios para isso. Afinal, eu não consigo conceber que diversão tenha que vir do sacrifício.
Por conta disso, pela enésima vez não conseguirei ver os filmes que mais desejava dessa maratona toda. Os deste ano seriam: “Film Socialisme”, do Godard, e “O retrato de Dorian Gray”, adaptação do livro de Oscar Wilde. O primeiro, pelo menos, tem distribuição garantida nos cinemas brasileiros nos próximos meses. Do segundo ainda não ouvi ou li nada a respeito.
Este blog não me deixa mentir sobre o meu fascínio pelo cinema. Ele praticamente não existiria se eu não fosse tão fanático pela sétima arte. Contudo, mais uma vez passarei praticamente em branco neste festival. Pelo menos já igualei a marca do ano passado e consegui assistir a um filme.
E foi uma bela escolha. Indicado para dois Oscar neste ano, “A última estação” conta a história dos últimos dias de vida do escritor russo Lyev Tolstoi (Christopher Plummer) – 1828-1910 - , quando ele abre mão de todos os bens em nome de uma vida mais simples sem o luxo do qual ele então se envergonhava e que resultava em brigas com sua amada esposa Sofya Tolstoi (Helen Mirren), que queria manter os privilégios da família conquistados graças ao trabalho do escritor de “Guerra e Paz” e “Anna Karenina”. Nascia o embrião de sua doutrina tolstoiana de resistência sem violência e igualdade entre as pessoas que após consultar o vasto mundo da internet descobri que influenciou gente como Mahatma Gandhi e Martin Luther King.
O filme conta com um elenco de primeira. Além da dupla de protagonistas que foi responsável pelas duas indicações ao Oscar como ator coadjuvante e atriz, há ainda o sempre ótimo Paul Giamatti e James McAvoy que vivem o grande amigo de Tolstoi, Vladimir Chertykov, e o secretário deste e aprendiz de escritor, Valentin Bulgakov.
Os duelos entre Mirren e Giamatti, que vivem inimigos na tela, são especialmente deliciosos, e a grande atração de um filme que sabe dosar bem drama e humor ao mesmo tempo em que não deixa de ser uma bonita, apesar de conflituosa, história de amor que durou até a morte do escritor russo.
Amor que também desafia picuinhas de uma doutrina que nem o próprio Tolstoi parecia levar a sério a partir da paixão do jovem Bulgakov por Masha (Kerry Condon). A ele bastava a essência de suas ideias e não pormenores como a necessidade ou não da castidade tão defendia por Chertykov, que estava mais preocupado em criar um mito quase divino para Tolstoi do que em reverenciar a genialidade que o escritor já tinha independentemente de quaisquer conceitos mundanos.
Mais do que reverenciar um escritor genial e amado pelos russos, “A última estação” é um belo e divertido mergulho na história de um gênio que aparentemente fazia questão de ser normal e igual a todo mundo. Pelo menos é isso que o bom filme de Michael Hoffman deixa transparecer numa sessão de cinema muito bem garimpada ao meio as dificuldades de se assistir a um festival de cinema. Apesar da minha implicância, só por esta película o festival do Rio já valeu a pena.
Abaixo um vídeo interessante com imagens do real Tolstoi na Rússia.
Nunca achei Michael Douglas um grande ator. E os últimos filmes dele que vi - “Refém do Silêncio” (2001) e “O Sentinela” (2006) – só reforçaram esse meu conceito de que ele é um ator mediano de alguns bons filmes. Um Richard Gere melhorado. Mas é fato que quando o filho do também ator Kirk Douglas, uma das estrelas de Hollywood nos anos 40 e 50, penteia o cabelo para trás e veste o terno do vilão Gordon Gekko se transforma e quase me faz mudar a avaliação.
Gekko é o investidor sem escrúpulos e ética que seria capaz de colocar até a mãe a venda desde que o dinheiro fosse bom. Foi este vilão carismático que ninguém conseguiu odiar apesar de seus atos terríveis que deu a Douglas o seu único Oscar de ator em 1988 por “Wall Street – Poder e Cobiça” (1987). Na pele dele, Douglas se sente à vontade e centraliza as atenções no primeiro filme nos seus duelos com Charlie Sheen (Bud Fox), o pupilo que também virá a derrubá-lo num enredo tipicamente hollywoodiano de criador versus criatura.
Mal comparando, Gekko é para Douglas o que Catherine Tramell representa para Sharon Stone. A vilã de “Instinto Selvagem” (1992) e “Instinto Selvagem 2” (2006) torna Sharon melhor do que ela é e também é daqueles bandidos que não conseguimos deixar de gostar. Por coincidência, Douglas, no papel do detetive Nick Curran, é a primeira vítima das maldades de Tramell.
Aliás, seria interessante, curioso e um tanto quanto sádico ver um duelo num hipotético filme entre os dois personagens que fazem tudo por seus únicos objetivos na vida. Gekko cobiça ardentemente o dinheiro como Tramell o sexo e o que dele pode criar de histórias para seus livros com toques para lá de reais. Criar, inventar e especular é também uma arma de Gekko para atuar no mercado e na compra e venda de ações. Verdade e mentira são vias paralelas que volta e meia se encontram a partir do desejo de ambos, os senhores de suas próprias histórias e vetores delas. Se para Gekko “Greed is good” (“Ganância é bom”), o mesmo Tramell poderia achar do sexo selvagem e da provocação que ela faz com conseqüências diabólicas.
Sharon não ganhou nenhum Oscar, mas foi indicada uma vez por “Cassino” (1995). Por outro lado, fez mais filmes bons do que Douglas. Na minha opinião, apenas. Deve-se descontar dela, meus desejos nada ocultos.
Mas voltando ao objeto de observação deste post, Douglas está de volta aos cinemas na pele de Gordon Gekko. Novo trabalho e o melhor em muitos anos do diretor Oliver Stone, “Wall Street – O dinheiro nunca dorme”, coloca novamente o diretor americano no mainstream depois de bobagens como “Comandante” (2003) e “South of the border” (2009) e filmes de qualidade para lá de discutível como “Alexandre” (2004), “As Torres Gêmeas” (2006) e “W” (2008). Sem contar a amizade com Hugo Chávez que depõe contra qualquer um.
O novo Wall Street se passa quase duas décadas depois do primeiro. Gekko acaba de sair da prisão e o mundo vai começar a sofrer com a tal da bolha que levou à crise mundial jogando a economia americana e boa parte da mundial no fundo do poço. Quem leu jornal nos últimos dois anos não terá dificuldades em entender o que se passa nesse cenário ao mesmo tempo em que Gekko está deixando a prisão e usa um ponto de interrogação sobre a sua famosa frase para inverter a lógica, vender livros e faturar alto dando palestras. Greed não é mais tão good, mas se questiona se “Is greed good?”.
Stone usa do artifício americano de quase idolatrar os seus vilões meio canalhas para fazer Gekko dar a volta por cima após ter passado muito tempo mofando na cadeia. Quando ele sai, tem total consciência da nova ordem mundial onde não se usa mais celulares do tipo tijolão e rappers fazem tanto sucesso que podem pagar por limusines que ele costumava usar para iniciar suas festinhas com drogas e prostitutas na sua versão bastante própria de bon vivant.
Mas Gekko é um animal do mercado que sabe agarrar as oportunidades e multiplicar os seus ganhos. Faria US$ 10 renderem cem vezes em uma semana. Imagina o que não faria com os US$ 100 milhões que ele conseguiu esconder muito bem das autoridades federais a partir de uma conta criada para a sua filha Winnie (Carey Mulligan, de “Educação” – 2009)?
Em diversas oportunidades, Stone disse que “Wall Street – O dinheiro nunca dorme” é um filme sobre a família, relações familiares, um pai tentando reatar com a filha. Nada tem a ver com mercado, bolsa de valores e subprimes. De fato, o economês está bem menos presente neste filme do que no primeiro, que era a história de um jovem absolutamente ganancioso querendo enriquecer fácil e rapidamente no mercado a partir do aprendizado com um verdadeiro tubarão de Nova York.
Aqui o papel deste jovem pupilo cabe a Jake Moore (o horroroso Shia LeBeouf), jovem ambicioso que se vê em meio ao furacão da crise, mas tem os mesmos sonhos de fazer dinheiro rápido e vai se casar com Winnie. A relação familiar é que vai aproximar Jake de Gekko e este passará a trocar informação de mercado por reaproximação familiar numa relação que se equilibra entre uma suposta sinceridade e a ganância, sempre ela, de Gekko. Afinal, ela ainda é boa.
Nesse ponto, o roteiro de Allan Loeb e Stephen Schiff tenta mostrar que Gekko deseja redenção, mas não deixou de ser o canalha de sempre. Mas é difícil acreditar que tubarões virem golfinhos, ainda mais num homem que demonstra amargura com a família e o sistema e se sente injustiçado por ter ficado tantos anos na cadeia por um crime supostamente sem vítimas. Ele fora preso por informação privilegiada e fraude na bolsa de valores.
Mas se esse fosse o único problema de “Wall Street”, o filme estaria muito bem posicionado no mercado. A questão é que LeBeouf não segura um trabalho desses em que não precisa correr, pular e gritar como em “Transformes” (2007) e “Transformers – A vingança do Fallen” (2009) como protagonista. Então não há duelo, disputa. Douglas o engole a cada vez que aparece em cena e o espectador deseja ansiosamente que ele retorne. Stone é bem econômico nas aparições de Douglas. O mesmo acontece quando LeBeouf tem que lidar com Josh Brolin, que vive Bretton James o novo senhor do mercado, que subiu na vida a partir da queda de Gekko.
E quando Gekko reencontra Bud Fox numa deliciosa homenagem-reencontro do diretor ao primeiro filme, a falta de um antagonista de peso para Douglas fica absolutamente evidente na tela.
Também incomoda o excesso de merchandising em “Wall Street”. Não se pede nem cerveja, mas a marca numa relação metonímica que o roteiro não precisava. O diretor justificou isso como algo normal, pois é preciso dinheiro para realizar a película. Acontece que nem em filmes de James Bond, o rei do merchandising, se vê algo assim.
Implicância com o excesso de publicidade à parte, aos 64 anos, Stone também parece estar em busca de sua redenção cinematográfica após tantas bolas fora que nem lembram o diretor de ótimos trabalhos como “Platoon” (1986), “Nascido em 4 de julho” (1989), “Assassinos por natureza” (1994) e “Nixon” (1995), para ficar em alguns exemplos. Gekko pode ser o primeiro passo, embora o diretor tivesse pecado um pouco na sua tentativa de amansar a fera. Os fãs de Gekko gostam dele exatamente por suas vilanias e não por sua compaixão e alegria de avô babão. E quem diria que no final das contas não seria um dos predadores do mercado que iriam derrotá-lo, mas apenas um neto gordinho e sorridente.
Ao levantar cabeça se deparou com uma perspectiva jamais imaginada quando deixou aquele pedaço de asfalto para subir uma escada que igualmente se erguia a cada passo dado. A surpresa com a escada que subia acompanhando as passadas dos seus tênis pretos só não foi maior do que o que os seus olhos castanhos viram quando adentrou o que parecia ser uma floresta encravada numa paisagem urbana onde deveria estar aqueles tão comuns prédios de vidros espelhados em que não se vê nada do que está dentro ao mesmo tempo em que todos te observam do lado de fora.
O cenário era quase paradisíaco. O clima, perfeito. O que o fez jogar fora o casaco usado numa tarde invernal apesar do sol que batia no seu rosto. Não havia escuridão, mas a copa das árvores trançadas naquela estrada de terra batida e deserta agiam quase como uma redoma natural para o mundo lá fora. Poucos raios de sol desafiavam os buracos entre as folhas.
A beleza era única. Jamais vira tamanha harmonia na natureza. Não tardou em sacar do bolso a câmera fotográfica que volta e meia o acompanhava para registrar aquilo tudo. Ao empunhar a câmera em busca da melhor imagem, porém, viu o cenário virar-se surpreendentemente num ângulo de 30 graus que quase o fizeram cair. Abaixou a câmera e tudo estava na sua órbita normal. Ergueu-a e a vertigem retornou.
- Isso não pode ser verdadeiro – exclamou.
Tentou uma tacada rápida, um flash, dois segundos. O suficiente para cair no chão. A câmera nada sofreu com a queda, mas o cenário ficou sem foco. Rendido, tentou recuar e viu que a escada havia sumido. As portas não mais estavam ali. Era preciso caminhar e descobrir uma saída, ao mesmo tempo em que estava inebriado com aquele lugar desconhecido.
Percebendo que o único registro possível do lugar só poderia ser feito com os seus olhos e as lembranças que ficariam no cérebro, guardou a câmera e tratou de caminhar.
A cada passo, a floresta o acolhia e se abria um novo caminho, um novo cenário. Estaria ele conduzindo a si mesmo ou sendo conduzido pela floresta? Estaria num labirinto sem paredes? Perdido num estado onírico ou vivenciando aquilo tudo. Não lembrava de ter adormecido.
Enquanto duvidava do que via, entrou por um caminho amplo e ao atravessar duas árvores a frente viu se abrir na sua frente um imenso campo de flores azuis intercaladas por um gramado verdinho e simetricamente aparado pela natureza.
Maravilhado com aquela imagem, não percebeu a mão delicada que o acariciou no pescoço e sem que percebesse que se tratava de uma velha amiga que não via há dez anos era arrebatado por um beijo na boca. Em instantes estava entregue a uma cama natural formada pela grama e as flores azuis.
Em êxtase, abriu os olhos para buscar energia do cansaço e viu a sua frente uma casa de madeira que não se lembrava de ter visto antes. Dois andares uma porta com uma janela ao lado. Três escadas, sempre elas. As escadas o trouxeram a floresta. Poderiam tirá-lo daquela suposta loucura?
Num verdadeiro transe largou a amiga em estado orgasmático e seguiu para a misteriosa casa onde parecia não haver ninguém morando há muito tempo. Ao colocar o pé direito no primeiro degrau da escada e se erguer não sentiu a mesma sensação de horas antes. Eram escadas, digamos, normais. Ganhou confiança e foi em frente sem sequer ter percebido que não estava nu. Quando vestira a roupa? Pergunta que ficou sem resposta.
O interior da casa era escuro, mas não impossível de enxergar. Não sentia medo, talvez pelo clima ameno e o leve e acolhedor perfume. Tomado pelo cansaço não hesitou em deitar na cama que se encontrava próxima a janela. Apesar do ambiente desconhecido adormeceu.
Quanto tempo dormira? Quantas horas passara? Não sabe dizer. Mas acordou com um enorme e repentino calor vindo da janela. Quando levantou percebeu que não mais estava numa casa e sequer na floresta. Era o quarto de um apartamento. Estava escuro, parecia noite, mas o céu era iluminado por clarões vermelhos e amarelos. Foi até a janela e viu um enorme incêndio. Enormes labaredas lambiam o grande morro em frente ao apartamento.
Nada por ali sobrava. As chamas eram gigantescas e não havia bombeiros capazes de interromper a grande tragédia que presenciava. Mesmo estando num andar alto, talvez o 15º ou 16º, conseguia ver na rua grupos religiosos de diferentes matizes rezando por uma chuva. Apenas um dilúvio bíblico, porém, salvaria a vegetação daquele morro.
Sem poder suportar todo aquele calor, fechou a janela. Embora do lado de fora as chamas estivessem consumindo toda a região, não sentia mais o incômodo com o calor. Deu uma última olhada no cenário devastador antes de se virar para explorar o apartamento em que acordara.
Parecia estar sozinho no local, mas ao chegar na sala, encontrou a TV ligada. Ali, as imagens num preto e branco cheio de riscos e áudio ruim revelavam uma figura conhecida a frente de centenas de milhares de pessoas. O homem negro de terno com aura de herói da multidão se postou diante do microfone e iniciou sua fala com a frase elucidatória:
Quando James Marshall Hendrix resolveu fazer uma visita ao inferno para nunca mais voltar eu não era nem um projeto de sêmen. Não havia eu. Apenas o nada. Enquanto isso, este americano com nome de xerife do Velho Oeste, mas chamado apenas de Jimi, já carregava legiões de fãs. Foi em 18 de setembro de 1970 que Hendrix resolveu tomar uma overdose de barbitúricos misturado com bebida e deitar na cama. Vomitou tudo, mas não botou para fora e foi aos poucos morrendo de forma estúpida afogado pelo próprio vômito.
Hendrix tinha 27 anos e estava no quarto de sua então namorada Monika Dannemann em um hotel de Londres na região de Notting Hill. Assim o guitarrista conhecido como o maior da história deixava o mundo após três discos obrigatórios e algumas apresentações memoráveis. A mais conhecida delas no Woodstock de 1969, quando mandou o hino nacional americano às favas e fez sua própria interpretação sem escrúpulos.
Aquela altura já tinha conseguido realizar o sonho do início da carreira quando era um guitarrista que gostava de ouvir feras como B.B. King, Muddy Waters e Elmore James.
- Quero fazer com a minha guitarra o que Little Richard faz com a sua voz – disse o músico que nasceu em Seattle, mas conheceria a fama primeiro em Londres.
Hendrix fez muito mais. É comum vê-lo no topo de todas as listas imagináveis de maiores guitarristas de todos os tempos. Alguns podem até contestar com argumentos consistentes (há quem prefira deus Eric Clapton ou Jimmy Page) ou meras birras iconoclastas. Mas Hendrix é o preferido de nove entre dez cidadãos que tentam honrar esse que é o instrumento do rock and roll. Gente que é tida como genial ama Hendrix e bebeu direto em sua fonte. E, convenhamos, como já disse o velho Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra.
Entre os gênios Hendrix foi o maior. Suas performances eram sempre incendiárias e não apenas quando ele colocava fogo na guitarra. Três delas podem ser encontradas em DVDs ou vídeos no YouTube. Além do show de Woodstock, há sempre os excelentes registros do Festival de Monterrey de 1967 e o festival de Isle of Wight de 1970. Basta apenas vê-lo no palco para entender algo que texto nenhum deste blog conseguiria explicar. Neste último, ele tocou 18 dias antes de morrer. Posso imaginar qual deve ter sido a sensação de quem estava presente quando soube que ele tinha batido as botas.
Certa vez li que Hendrix não gostava de sua voz e evitava cantar. É verdade que se sentia mais à vontade com sua guitarra, a extensão da sua alma. Alternava poucos versos com longas performances com o instrumento, experimentava, fazia o que se poderia dizer numa linguagem popular, “miséria” com a guitarra. Tudo sem precisar ser um poser se fazendo de deus do rock. Sua música falava por si.
Hendrix deixou de herança musical para a eternidade “Are You Experienced?” (1967), “Axis: Bold as Love” (1969)e “Eletric Ladyland” (1969). O primeiro, além da faixa-título tinha canções como “Foxy Lady”, “Manic Depression”, “Red House” e “Fire”. A versão americana ainda contava com “Purple Haze”. O segundo tem canções como “Up from the skies”, “Spanish castle magic” e “Castles made of sand” enquanto no terceiro se destacam “Voodoo Child” e o cover “All along the watchtower” entre outras ótimas músicas.
Após a sua morte, Hendrix foi canibalizado e mais 11 discos póstumos foram lançados. O mais recente deles, o “Valleys of Neptune” neste ano, supostamente com algumas canções novas tiradas de sobras de algum sótão de Hendrix e que foi recebido friamente pela crítica. Eu confesso que ainda não ouvi. Não posso opinar.
O que importa, porém, são os três discos lançados em vida e suas apresentações ao vivo disponíveis em CDs e DVDs. Alí você vai encontrar o mestre em ação no auge de sua forma. Infelizmente é o máximo que pode ter alguém que não teve a sorte de ver este gênio ao vivo.
Há 35 anos na estrada, o Iron Maiden já mudou duas vezes de vocalista, ganhou e perdeu membros, mas sempre foi uma indústria muito bem controlada pelo seu baixista, Steve Harris, fundador do grupo lá pelos idos de 1975 junto com os guitarristas Dave Murray e Dennis Stratton, o vocalista Paul Di’Anno e o baterista Clive Burr. Deste quinteto, apenas Harris, que assina boa parte das músicas da donzela de ferro, e Murray permaneceram no Iron que no terceiro disco, “The number of the beast”, de 1982, ganhou o vocalista que mudaria a história da banda.
Substituto de Di’Anno, que afundava em drogas e não se recusava a sair do seu processo de autodestruição, o baixinho Bruce Dickinson assumiu com personalidade a função e foi a voz do Iron nos seus discos mais bem sucedidos. De “The number of the beast” passando por outros álbuns clássicos como “Piece of mind” (1983), “Powerslave” (1984), “Seventh Son of a Seventh Son” (1988) a “Fear of the dark” (1992), da canção-símbolo do Iron.
Um ano depois do lançamento de “Fear of the dark”, Bruce abandonou a banda para cuidar de sua carreira solo e deixou um Iron apático com um vocalista – Blaze Bayley – muito fraco e dois discos que não deixaram saudade, “The X-Factor” (1995) e “Virtual XI” (1998). Seis anos depois, Bruce e o guitarrista Adrian Smith retornaram à banda que desde então mantém a atual formação com três guitarristas – além de Smith e Murray, Janick Gears – mais Harris e o baterista Nico McBrain.
A volta de Bruce não poderia ter sido melhor. Eles fizeram um discaço, “Brave New World” (2000), cuja turnê passou pelo Brasil para um antológico show no Rock in Rio. Na seqüência, outro ótimo disco, “Dance of death” (2003), e nova passagem no Rio para um grande show no então Claro Hall, hoje Citibank Hall (pelo menos até o fechamento desse texto). Há quatro anos, “A matter of life and death” quebrou o encanto. Um disco bem meia-boca e que nem ganhou muito destaque, logo depois atropelado pela turnê retrô da banda “Somewhere back in time”, que mais uma vez visitou o Brasil para um show na Apoteose.
Mas agora Bruce, Harris e os demais membros do sexteto de Leyton, ao leste de Londres, podem se orgulhar e sair pelo mundo em mais uma turnê tocando um disco inteiro se quiserem. Lançado no mês passado, “The Final Frontier” é o melhor disco do retorno de Bruce à banda e rivaliza com as melhores obras que a banda já produziu. É de levar os fãs a se regozijarem e fazerem sacrifícios em nome dos deuses do metal em celebração pela obra-prima que receberam. “The Final Frontier” é a saída para um dia de trabalho estressante e para um bombardeio de tanto lixo que recebemos hoje em dia nos ouvidos. Não precisamos citar nomes, né...
Mais longo trabalho do Iron (são 76 minutos do mais puro metal), o 15º álbum de estúdio da donzela de ferro é bem diferente dos recentes discos da banda. Não tem canções fáceis e de refrões que fixam na cabeça como o que encontramos em “Brave New World” ou mesmo em “Fear of the dark” e “The Number of the beast”. Os “ôoos” e “lálalalas” de “Brave...” também ficaram definitivamente para trás num processo que já se iniciara no álbum seguinte e fora concluído em “A matter of life and death”.
O Iron claramente optou por sair de sua zona de conforto criando letras (todas contendo a assinatura de Harris) mais complexas e difíceis de acompanhar e canções mais longas (apenas uma tem menos de cinco minutos. Uma tem 11 minutos e outras duas têm nove minutos). Tudo isso mantendo os conhecidos e longos solos de guitarra da banda.
O risco corrido por uma banda que não precisaria se arriscar mais por ter um grupo de fãs fiéis e que consumiria qualquer coisa vindo dela foi louvado pela imprensa internacional e ganhou também retorno comercial. O álbum estreou em primeiro lugar nas vendas em 21 países, incluindo o Reino Unido e o Canadá. Duas semanas depois, estava em primeiro em 28 países. Números que o Iron não colhia desde “Fear of the dark”.
Entre as críticas positivas, a revista “The Quietus” disse que “The Final Frontier” leva tempo, exige esforço, mas é esmagadoramente brilhante. Eles (o Iron) não optaram apenas pela opção mais fácil, que teria sido chato para nós, e, mais importante, que você sente que seria chato para eles também”. A “Metal Hammer” disse que “somos inacreditavelmente sortudos por eles ainda estarem por aí. Longa vida ao reino do Maiden”. A “Mojo” afirmou que era um dos álbuns mais ambiciosos do Iron enquanto a “One Metal” chamou o disco de uma “odisséia prog rock que confirma que o Iron Maiden é a melhor das grandes bandas em atividade hoje”.
A “MusicRadar” disse que o Iron “criou uma obra cheia de emoção, hipnótico, com uma estrutura não-convencional e visão estonteante”. E encerrou afirmando que o “grupo tem conseguido ir além dos seus sonhos”. Já a “BBC” elogiou o disco como “uma realização notável”.
Não é fácil sucesso de público e crítica e o Iron conseguiu com um disco que, como disse, é um dos mais bem trabalhados pela banda e um disco em que todos participaram ativamente do processo criativo mais do que em outros trabalhos como disse Smith em entrevistas um mês antes do lançamento do álbum.
Musicalmente, “The Final Frontier” tem um quê de metal progressivo como disse a "One Metal", mas a assinatura do Iron Maiden está em cada um dos seus 76 minutos que não o fazem confundir com bandas especialistas no estilo como o Dream Theater. Estão lá os longos e trabalhados solos como em “Satellite 15...the Final Frontier”, belos riffs como o que abre “Starblind”. Sem contar a absurda introdução de Harris no baixo em “El Dorado”. De fazer qualquer fã do Iron soltar urros e palavrões de emoção. Deve ser de arrepiar ao vivo. Bruce está cantando ainda melhor lembrando as turnês do “Brave new world” e do “Dance of death”. No último disco de estúdio, achei sua voz um pouco distante e perdida em meio aos instrumentos. Em “The Final Frontier”, há espaço para todos brilharem e se complementarem numa obra que se encaixa perfeitamente, em engrenagens que se movem de forma sincrônica. É devastador de se ouvir.
Os temas do álbum vão de histórias de terror a preocupações econômico-climáticas do Iron. “Satellite 15”, que abre o disco e foi o primeiro videoclipe lançado pelo grupo (clique aqui para ver), é a história de um astronauta num planeta desconhecido que se vê na sua “fronteira final”, diante da morte que será causada por uma versão alienígena do Eddie Hunter, o mascote da banda. Mas ele não se arrepende de nada. Queria apenas uma chance de falar com a família que não terá. Afinal, Eddie não perdoa. Esmaga.
“El Dorado” tem como tema a crise econômica. Fala sobre uma “noite fria de inverno em que você navega para a glória sem saber o que é certo”. Após falar sobre as “pirâmides de ouro” e avisar que “o seu dinheiro foi deixado para queimar”, a letra de Smith, Harris e Bruce diz que “não há caminho fácil para um homem honesto hoje”.
“El Dorado tem uma letra cínica sobre a crise econômica que aconteceu. Parece com uma tempestade perfeita, pessoas emprestando dinheiro como loucas. Eu pensei: 'Isso vai ferrar algumas pessoas o suficiente e estamos numa boa'. E é sobre isso que é El Dorado. É sobre vender o mito que as ruas estão pavimentadas de ouro e perguntar depois: Onde eu assino?”, disse Bruce ao explicar a letra.
As guerras sem sentido como as do Iraque e do Afeganistão são o tema de “Mother of mercy” (“Sempre pensei que estava fazendo o certo/agora não tenho tanta certeza”, “Você me disse o que é certo/Mas eu vou lhe contar a verdade/Você me disse o que é honesto/Mas tudo a volta é morte e crueldade”) e “Coming Home” (Na agridoce reflexão/quando damos o beijo de despedida na terra/quando as ondas e ecos da/cidade se tornam fantasmas do tempo”), dois musicaços que vem na seqüência.
Mais rápida do que a média do disco, “The Alchemist” pode ser encarada como uma metáfora para um período de obscurantismo na vida de alguém que foi mergulhado na ignorância e nas trevas manipulado por um alquimista de histórias e informações. Agora o personagem tenta ser resgatado dessa caverna numa alegoria platônica que parece ressurgir de forma ainda mais iconoclasta em “Starblind” (“Somos a luz que traz o fim da noite”).
“Isle of avalon” parece uma alegoria para um renascimento enquanto o pregador Bruce Dickinson anuncia nietzschianamente a liberdade em “The Talisman”. O momento é de “abraçar o oceano” e se livrar das amarras.
Fechando o belíssimo disco do Iron, “The man who would be king” fala sobre arrependimentos de decisões tomadas enquanto “When the wild wind blows” parece uma alegoria de um apocalipse ambiental como se as decisões equivocadas do rei na canção anterior levassem ao clímax negativo do planeta quando o “vento sopra selvagem”.
É quando se chega a fronteira final da existência e deve-se buscar uma saída. A do Iron foi não optar pelo óbvio. E com isso seus fãs ganharam um álbum daqueles inesquecíveis e que já nascem clássicos.
Quentin Tarantino é extremamente previsível. Em todos os seus filmes, você vai encontrar aquela linguagem pop, homenagens ao cinema com citações de filmes em diálogos do roteiro ou em cenas e os indefectíveis closes de pés femininos. Um certo jeitão trash e de filme B também é esperado.
Paradoxalmente, apesar de sua previsibilidade, quem gosta de Tarantino não se cansa dele. Seus roteiros têm quase sempre como tema central a vingança (como “Cães de Aluguel - 1992, “Pulp Fiction” – 1994, “Kill Bill” – 2003 e 2004 e “Bastardos Inglórios” – 2009) e são sempre de uma originalidade que só pode ter saído de uma cabeça no mínimo insana. E isso é um elogio.
“À prova da morte” tem tudo isso. Finalmente em cartaz no Brasil depois de três anos de espera, o filme estava incluído no projeto “Grindhouse”, parceria de Tarantino com Robert Rodriguez. A idéia dos dois era fazer o espectador ter a mesma sensação que eles tinham ao ir para uma sessão-poeira no cinema, ou seja, ver dois filmes quase sempre toscos, sem contar os trailers e propagandas bizarras.
As salas, porém, não compraram a idéia e para piorar os filmes foram mais malhados do que exaltados. “Planeta Terror”, o trabalho de Rodriguez, passou em torno de duas semanas por aqui há dois anos e poucos viram.
Beneficiado pela grife Tarantino que vem junto com as indicações ao Oscar de “Bastardos Inglórios” no início do ano, “À prova da morte” vai resistindo um pouco mais, embora em poucos e bravos cinemas do Rio de Janeiro. E o que é “À prova da morte”? Ora, um filme de Tarantino com tudo aquilo que eu já descrevi no início do texto.
Há um transbordar de pés femininos para todos os gostos, uma ode aos filmes B, diálogos criativos, belas mulheres com pouca roupa e, claro, é mais uma obra com a vingança como tema central.
No filme, Kurt Russel é Stuntman Mike, um dublê de cinema que dirige um carro potente e tem como único objetivo passar o rodo nas mulheres, matando-as com requintes de crueldade. Os motivos dele não são muito bem esclarecidos, mas Tarantino é um homem de ação e a idéia é fazer um filme tosco (inclusive com aqueles riscos e cortes surpreendentes na tela).
Mike, porém, só não contava que depois do seu primeiro e bem sucedido plano, ele fosse encontrar três garotas casca grossa na sua segunda investida dispostas a tudo a ponto de arquitetarem uma contra-vingança. É aqui que Tarantino faz sua homenagem às boas e velhas imagens de perseguições de carro para deleite dos fãs.
Em comparação com “Planeta Terror”, “À prova da morte” é menos trash e sanguinolento. Mas ambos não passam de diversão gratuita e uma grande brincadeira da dupla Tarantino/Rodriguez. Pena que poucos verão o filme na tela grande, onde as perseguições de carro e os closes na bunda de Rose McGowan ficam bem melhores.
O signatário deste blog reconhece que não esteve muito presente nos últimos meses. Culpa da Copa do Mundo, que me afastou das salas de cinema por quase dois meses. Mas aos poucos vou recuperando o tempo perdido. Tenho outras críticas a publicar que, porém, terão que esperar um pouco mais. É que beneficiado pelos ditames da Era Vargas sairei de férias com a promessa de breve retorno no alvorecer do mês seguinte.
Mais uma vez inspirado em Chris McCandless, herói improvável desta natureza selvagem chamada planeta Terra, vou invadir outras plagas, buscar inspiração na respiração de outros ares, no sabor de outras comidas, no deleite de outras paisagens.
Assim, o blog e o Twitter desligar-se-ão por breve tempo (talvez eu apareça de vez em quando, mas é pouco provável). Período suficiente para um novo rol de poesias e para viver novas prosas neste livro chamado vida (bonito isso, parece lição de manual de auto-ajuda).
Quando voltar, tecerei comentários sobre o filme do Tarantino em cartaz e muito mais, é claro.
Enquanto o dia não chega, divido com os nobres leitores duas músicas e dois videoclipes inspiradores e que não me saíram da cabeça nos últimos dias. Até breve.
Quando foi lançado em 1999, “Matrix” foi chamado de revolucionário pelas técnicas de filmagem desenvolvida pelos irmãos Wachowski copiadas em dezenas de filmes e paródias que vieram posteriormente. Em meio a tanta tecnologia, seu roteiro navegando entre o real e o imaginário também era celebrado e gerou de teorias mirabolantes a matérias de capas de revistas científicas. E estar dentro ou fora da Matrix ganhou ares de discussão filosófica.
Onze anos depois, o diretor americano Christopher Nolan chama Freud para entrar nessa conversa e eleva o potencial de Matrix a quarta potência nos presenteado com um dos melhores filmes do ano.
“A Origem”, título em português para “Inception”, é uma viagem pelo subconsciente com a materialização de seus desejos, medos, ideias e o benefício de que o pior que lhe pode acontecer é acordar.
No filme, Leonardo Di Caprio é Cobb, um agente especializado em roubar informações da mente dos indivíduos. Para isso, ele invade os sonhos de quem precisa roubar as informações ou faz a pessoa entrar no seu ou no sonho de outros de sua equipe para viver uma experiência quase real.
O problema é que quanto mais complexa a informação, maior deve ser o seu mergulho no inconsciente. O que pode levá-lo ao limbo e uma conseqüente vida vegetativa no mundo real.
Tudo, porém, começa a complicar quando Cobb e seu parceiro Arthur (Joseph Gordon-Levitt) recebem do empresário Saito (Ken Watanabe) uma missão das mais complicadas. Eles não têm que roubar informações, mas inserir uma ideia na mente de Robert Fischer (Cillian Murphy), filho de um magnata que acabara de morrer. É preciso convencer, ou melhor, fazer Fischer ter a ideia natural de que ele deve dividir a fortuna do pai.
Algo aparentemente simples, mas que exige um esforço sobre-humano, pois a ideia precisa nascer naturalmente, não pode ser uma mensagem ou um delírio destacado num sonho. Em inglês, inception significa “o começo de uma organização ou atividade oficial”. O que Cobb aceita fazer, portanto, é criar um mundo paralelo, uma história completa com diversas camadas para fazer Fischer atingir menos do que a luz. É para que ele viva um momento de “pré-eureca”. Que ele sonhe com um estalo que o fará formar uma ideia que parecerá ser sua e não uma encomenda de uma multinacional que compete com a do pai dele.
Cobb, assim, reúne uma nova equipe formada por ele, Arthur, o próprio Saito e mais a arquiteta Ariadne (Ellen Page), Eames (Tom Hardy) e o químico Yusuf (Dileep Rao). O objetivo é plantar a ideia de forma que ela pareça ser do próprio Fischer. Para isso, porém, Cobb e seu time terão que entrar em três camadas de sonhos criando sonhos dentro dos sonhos de Fischer, mergulhando mais profundamente no inconsciente do jovem empresário. Tudo isso com Cobb tendo que lidar com a culpa da morte de sua mulher, Mal (Marion Cotillard), numa relação fundamental para a história criada pelo diretor. O próprio Cobb já foi um perfeito arquiteto de sonhos, mas teve que abrir mão de fazer suas próprias construções para não ter problemas com a mulher que ainda vive em suas lembranças e que ele não deixa partir. É aqui que Nolan subverte completamente o tempo e o espaço criando uma seqüência de acontecimentos em dobras espaços-temporais oníricas e embaralhando as cartas até o fim para que fiquemos sempre com a pulga atrás da orelha sobre o que é verdadeiro e o que não passa de projeção, lembrança ou criação da mente sonhadora.
Se a comparação com “Matrix” é a mais próxima da nossa realidade, não é a primeira vez, no entanto, que Nolan joga com projeções de real e imaginário na tela. Ele fez o mesmo em “O Grande Truque” (2006), em que dois mágicos vividos por Hugh Jackman e Christian Bale duelavam em apresentações marcadas por truques supostamente simples, mas que flertavam com a magia num enredo que ia se descortinando aos poucos.
Um descortino em camadas como foi o próprio mergulho de Batman (Christian Bale) na sua transformação de herói em vilão de Gotham em “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (2008), que, aliás, terá uma nova continuação, a terceira dirigida por Nolan. Ou mesmo Leonard (Guy Pearce), o personagem principal de “Amnésia” (2000) que tenta resolver um crime ao mesmo tempo em que lida com a doença de sofrer a perda de memória recente.
Experiências que Nolan levou para “A Origem” e com mais verba no bolso criou cenários fantásticos como a Paris que se dobra até os prédios se encaixarem com perfeição num retângulo em três dimensões para contar uma história em que tempo, espaço ou gravidade são absolutamente relativos. E da suposta realidade ao limbo, tudo depende da perspectiva de quem vive e de como e da intensidade em que se vive.