segunda-feira, 27 de abril de 2009

Superando limites de chatice

É muito difícil um filme me fazer dormir no cinema. É muito difícil uma obra praticamente me expulsar, pois quase sempre eu sou receptivo e tento entrar em todas as histórias. Mas “A Fronteira da Alvorada” conseguiu superar todas as expectativas negativas. Há muito tempo eu não dormia dentro de uma sala. Tá certo, eu não cheguei a cochilar completamente, mas fechei os olhos incontáveis vezes e isso só não se transformou em sono de fato porque eu sou brasileiro e não desisto nunca.

Outro retrato de que a película é de uma chatice atroz é a quantidade de vezes em que eu olhei para o relógio de olho no tempo, contando os segundos que se arrastavam para me libertar daquela tortura.

Por que o novo trabalho do diretor Philippe Garrel, o mesmo do ótimo “Amantes Constantes” (2005) é tão insosso? São vários os motivos. Em primeiro lugar o filme é arrastado, mas não positivamente arrastado. A história não se desenvolve. E o pior, é entrecortada por saltos temporais na história de François (Louis Garrel, o filho do diretor) e Carole (Laura Smet) que você tem que refletir alguns segundos para deduzir o que aconteceu naquele hiato entre a cena anterior e esta nova.

Tudo bem, cinema é reflexão, é incômodo. Concordo. Mas estamos falando de uma história de amor. Uma simples, mera, história de amor. “A Fronteira da Alvorada” não é um filme filosófico, não é um, sei lá, “Ponto de Mutação” (1990). É apenas uma história de amor trágica entre François e Carole. É (ou deveria ser) Shakespeare passado na França atual, mas em preto e branco.

Mas ao contrário das histórias do bardo inglês, o roteiro de Marc Cholodenko e Arlette Langmann é fraco. Tudo bem que ele reflete a história conduzida por Philippe Garrel, cheia de silêncios, imagens paradas e com diálogos marcados por um incômodo “monossilabismo”. E este é o segundo problema do filme.

Estas duas questões refletem na interpretação dos protagonistas. Louis Garrel nem de longe lembra o outro François que interpretou em “Amantes Constantes”. Laura Smet não convence nem como mulher apaixonada, nem como suicida (pronto, falei, mas você pretendia ver o filme?). E sua aparição como fantasma, bem, acho que nessa parte eu já devia estar babando na cadeira.

O grande problema da história é que não há história e sim fragmentos, passagens sem um ponto mesmo que ínfimo de ligação para que possamos fazer um link. E os diálogos reduzidos ao mínimo fazem parecer que o filme foi feito num certo tom de improvisação em que os atores apenas sabiam duas coisas: vocês estão apaixonados e devem seguir mais ou menos esta linha do roteiro. Só que o resultado nem de perto lembra trabalhos excelentes e ricos em improvisação como os de Gus Van Sant, que alimenta a liberdade, mas dentro da linha central do seu roteiro.

Shakespearianamente ainda há espaço para um certo tom sobrenatural na história que supostamente era para ser de amor. Mas o resultado é esquisito. Há quem pense até que houve uma ressurreição. Uma catástrofe.

“A Fronteira da Alvorada” é, portanto, uma bola fora de Garrel. Está mais para crepúsculo do abismo cinematográfico do que para qualquer tipo de alvorecer. Passe longe. A menos que sofra problemas de insônia.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Quinze anos sem Kurt Cobain

Eu devia ter uns 10 anos quando tive meu primeiro contato com o rock and roll. Até então, eu gostava do que todo mundo gostava naquele final de anos 80 e início de anos 90. Ou seja, Madonna, Michael Jackson e Tina Turner. Bem, acho que nem todo mundo gostava de Tina Turner. Por outro lado, eu detestava e ainda detesto Prince, que era igualmente idolatrado como os ídolos pop aqui citados.

Mas como eu dizia, devia ter uns dez anos quando do rádio do carro do meu pai ouvi pela primeira vez “Smells like teen spirit”. Não entendia praticamente nada de inglês (um "yes", um "no" e um "apple pie" ou "chocolate cake" era o máximo que eu poderia arriscar), mas aquele riff de guitarra e a voz agonizante daquele vocalista que parecia estar expulsando demônios ou, vá lá, espíritos, do recinto, entraram pelo meu ouvido e eu não queria escutar mais nada dali para frente.

Assim eu era apresentado ao Nirvana e ao chamado “Movimento de Seattle”, uma vez que logo depois eu ouviria outro som definitivo, “Even Flow”, do Pearl Jam. Mas esta é outra história.

Eu já era um fã de rádio do Nirvana - não tinha discos, não gostava dos bolachões e quase não comprava fitas – quando Kurt Cobain foi encontrado morto no dia 8 de abril de 1994 em sua mansão em Washington. Eu tinha 12 anos e lembro vagamente da tristeza das pessoas. Lembro de uma senhora loura com cara de maluca completamente desolada (ela era Courtney Love, a então mulher de Cobain e vocalista do Hole), via várias pessoas chorando, lembro vagamente de outras cantando em volta do túmulo e de notícias começando a surgir de outros adolescentes tirando suas vidas pelo mundo afora como fizera Cobain na estufa de sua casa.

Não senti a dor lancinante de um ídolo que se fora, pois eu era novo demais para esses tipos de manifestações adolescentes. Mas tinha alguma noção da importância que ele tinha. Desconhecia seus problemas de depressão, seu vício em heroína, seus problemas com Love e as terríveis dores no estômago. E lamentavelmente não estava presente no show chamada por muitos de catártico e por alguns de desastroso do Nirvana no Hollywood Rock de 1992. Dizem que Cobain teria esculachado com a apresentação quando descobriu que o festival era patrocinado por uma marca de cigarro. Ele achava que o Hollywood fazia referência à meca do cinema. Pelo visto, no entanto, para a grande maioria o tiro saiu pela culatra.

Enfim, meu gosto se resumia a algumas excelentes canções contidas em “Nevermind” (1991), certamente um dos 100 maiores discos de rock de todos os tempos.

Mas tudo o que eu descrevi acima fui descobrindo conforme o Nirvana ia se tornando importante na minha vida e na minha discografia da banda orgulhosamente completada. Incluindo os caça-níqueis, para a alegria da gravadora.

Por isso neste mês quando se completou 15 anos da morte/suicídio de Cobain sinto falta dele. Lamento mais ainda saber que nunca poderei assistir a um show do Nirvana. É um vazio que jamais será preenchido.

Se não fosse pela banda formada por Cobain, pelo baterista Dave Grohl, hoje líder dos Foo Fighters, e pelo baixista Krist Novoselic, hoje um irreconhecível político, o grunge talvez não teria saído das garagens e porões de Seattle. Suas guitarras distorcidas e suas letras um tanto depressivas, que demonstravam ansiedade, infelicidade, a apatia da vida, enfim, um completo niilismo, contrastavam com todo o colorido e brilho que imperava até então sobre e através dos reis do pop.

Cobain foi um chute na porta da música e atrás dele vieram outras grandes bandas como o Pearl Jam, o Soundgarden e o Alice in Chains, além do Mudhoney, que até hoje permanece fiel e único sobrevivente do som de Seattle.

Dois discos são fundamentais para o movimento. “Ten”, do Pearl Jam, lançado em agosto de 1991 e o "Nevermind", lançado um mês depois. Eles são os pilares que sustentaram o grunge e possibilitaram o surgimento de outras bandas, além de uma maior atenção à música que se fazia por ali até então.

Curiosamente Cobain tinha uma rixa com o Pearl Jam. Neste mês, a “Rolling Stone” do Brasil resgatou duas matérias da “Rolling Stone” americana para lembrar os 15 anos da morte de Cobain. Numa delas, é reproduzida uma entrevista com o líder do Nirvana em que ele diz que não gostava da banda por ela não desafiar seus fãs fazendo novas experiências.

“É um exemplo de banda de rock segura e agradável que todo mundo gosta sem desafiar seu público”, disse ele, afirmando ser necessário usar novas idéias e conceitos, o que ele estaria propondo com o lançamento de “In Utero” (1993), terceiro e último disco de estúdio da banda, que realmente tinha uma sonoridade levemente diferente dos dois primeiros álbuns do Nirvana. Mas Cobain depois reconhecia na entrevista, feita seis meses antes do suicídio, que não deveria ter criticado o Pearl Jam, mas a sua gravadora.

Seja como for, havia muito respeito entre as duas bandas. Tanto é que quando soube da morte de Cobain, Eddie Vedder cancelou o prosseguimento de uma turnê do Pearl Jam e disse durante um show em Washington que “nenhum de nós estaria aqui nesta sala hoje se não fosse Kurt Cobain”.

Cobain tinha um gosto mais refinado do que podiam imaginar os preconceituosos de plantão. Apreciava os clássicos – na entrevista à “Rolling Stone” citou os discos “Rocks”, do Aerosmith, “Led Zeppelin II”, do Led Zeppelin, “Never mind the bollocks”, do Sex Pistols, e “Back in Black”, do AC/DC, como os seus favoritos – e admirava o R.E.M. (“Se eu pudesse compor tão bem quanto eles. Não sei como conseguem fazer o que fazem. Meu Deus, eles são os maiores”, declarou ele, revelando que gostaria de trabalhar com Michael Stipe, projeto que realmente estava em andamento como revelou o vocalista do R.E.M. após a morte de Cobain).

Revelava ainda a sua preocupação em não ser rotulado (“Grunge é um termo tão potente quanto new wave. Não dá para cair fora. E uma hora vai ser um termo ultrapassado”) e sonhava em fazer coisas diferentes, trabalhos diferentes, o que desembocou na gestação de “In Utero” e o fez se “desarmar” para expor a voz que supostamente não tinha no acústico da MTV.

Gravado cinco meses antes da morte de Cobain, o acústico pode ser visto como uma espécie de despedida e uma biografia musical do cantor. Em um documentário feito pela MTV quando fez dez anos da morte do líder do Nirvana, o produtor do unplugged Alex Coletti contou que a decoração com velas e flores foi sugestão de Cobain, que respondeu positivamente quando ele perguntou se o cantor queria uma decoração como se “fosse um funeral”.

No set com um total de 14 canções, havia poucas músicas conhecidas do Nirvana e seis covers. Todas eram de certa forma autobiográficas como “Something in the way”, que fala de um período de sua vida em que ele dormiu embaixo de uma ponte, “All Apologies”, dedicado à sua esposa Courtney Love e sua filha, Frances Bean Cobain, ou “About a Girl”, que fala sobre uma antiga namorada de Cobain, Tracy Marander.

A expressão de Cobain durante o acústico era de alguém que havia sido realmente derrotado pelo vício em heroína, pela depressão, pelas dores no estômago, o estilo de vida que ele aparentemente detestava ou simplesmente não via mais sentido, ou todas as respostas anteriores. Enfim, era alguém cansado de tudo e preso em si mesmo. Cobain mergulhara fundo na temática do grunge e se fechara completamente para o mundo exterior. “Last Days” (2005), o filme de Gus Van Sant levemente inspirado em sua história, mostra bem como foram os últimos dias do cantor.

Com a sua morte todo o movimento grunge perdeu o fôlego. Poucas bandas ainda seguem o estilo e o outro ícone do movimento, o Pearl Jam, soa mais roqueiro desde “Yield” (1998). Prova de que o líder do Nirvana era o grande catalisador de tudo ou que talvez tivesse certo ao dizer que o grunge era um som que iria se tornar ultrapassado.

É difícil saber o que Cobain estaria fazendo hoje se estivesse vivo e com 42 anos. Nunca soube que tipo de projeto ele teria com Stipe. Ao mesmo tempo ele parecia inquieto com o som do Nirvana, em que não via muito futuro mais pelo castigo que ele trazia à sua garganta.

“É impossível olhar para o futuro e dizer que vou conseguir tocar as músicas do Nirvana daqui a dez anos”, declarou na já citada entrevista à “Rolling Stone” americana.

Cobain tinha 27 anos quando deixou o mundo. “Entrou para aquele clube idiota”, declarou na época sua mãe, Wendy O’Connor, num misto de revolta e tristeza, referindo-se a Janis Joplin, Jim Morrison e Brian Jones, também mortos aos 27 anos. Deixou um legado musical e muita saudade daqueles que amam a boa música.

Discografia comentada:

“Bleach” (1989) – A estreia do Nirvana com suas marcas registradas. A guitarra distorcida, os vocais de Cobain e a temática grunge. Destaque para “Floyd the Barber”, “Negative Creep”, “Scoff”, “School” e “About a Girl”, a única canção mais diferente do resto do álbum e que se tornou um sucesso.

“Nevermind” (1991) – Um clássico. Poucos discos conseguem ser bons do primeiro ao último segundo. Tem “Smells like teen spirit”, “Lithium”, outra porrada espetacular, “Come as you are” e uma espetacular “Territorial Pissing” com Cobain perdendo a voz de tanto berrar.

“Incesticide” (1992) – Compilação de gravações demo e sobras não lançadas muito interessante. Tem “Sliver” e “Aneurysm”.

“In Utero” (1993) – Último álbum de inéditas do Nirvana. A banda soa mais pesada neste disco que tem com destaques “Heart-Shaped Box”, “Rape Me”, “Pennyroyal Tea” e “All Apologies”.

“MTV Unplugged in New York” (1994) – O acústico definitivo da MTV. Depois disso, a emissora seja aqui ou lá fora jamais conseguiu fazer um acústico tão bom. Colocar o Nirvana, banda explosiva, para tocar com banquinho e violão foi uma idéia sensacional que Cobain soube levar ao seu jeito para protagonizar uma apresentação histórica.

“From the muddy banks of the wishkah” (1995) – Disco que tenta captar algo próximo do que era o Nirvana ao vivo. Bom para fãs que nunca verão Cobain ao vivo.

“Nirvana” (2002) – Coletânia caça-níqueis que só vale a pena por ter uma canção inédita: “You know, you’re right”.

“Silver: The best of the box” (2005) – Mais restos de gravações demo e sobras jogadas por aí que a gravadora resolveu usar para fazer caixa. Só para fãs como eu e você que chegou até o fim deste texto.

Abaixo alguns momentos marcantes da carreira Nirvana:

Imagens do último show do Nirvana, em 1º de março de 1994:

Videoclip de "Smells like teen spirit":

Videoclipe de "Lithium":

Videoclipe de "Heart-shaped Box":

Nirvana tocando "Drain You" durante a turnê do disco "In Utero":

Nirvana tocando "Come as you are" durante o Hollywood Rock no Rio de Janeiro:

Nirvana tocando "Territorial Pissing" em apresentação na MTV americana:

Nirvana tocando "About a Girl" no Acústico MTV:

Nirvana tocando "Where did you sleep last night" no Acústico MTV:

sábado, 18 de abril de 2009

A redenção de Dirty Harry

Perto de completar 80 anos, Clint Eastwood parece ter resolvido fazer uma revisão ou um exercício de futurologia para um dos seus mais conhecidos personagens, Harry Calahan. Dirty Harry era basicamente um justiceiro na pele de um policial que fazia a justiça com as próprias mãos sem se importar com regras ou ter papas na língua.

Os filmes de Dirty Harry – “Dirty Harry” (1971), “Magnum 44” (1973), Sem Medo da Morte (1976), “Impacto Fulminante” (1983) e “Dirty Harry na lista negra” (1988) – fizeram muito sucesso nas décadas de 70 e 80, mas também eram bastante criticados pela postura politicamente incorreta, preconceituosa e misógina do seu principal personagem.

Há, portanto, uma semelhança entre Harry e Walter Kowalski, personagem central de “Gran Torino”, novo e elogiável trabalho de Eastwood. Recentemente, o diretor deu declarações criticando toda essa postura politicamente correta do cinema e até da vida atualmente. Foi apenas uma constatação. Não significa que Eastwood pense como seu personagem, mas revelou a sua necessidade de mostrar outras cores em sua obra. Por mais que elas não sejam das mais agradáveis.

Em “Gran Torino”, o diretor e ator vive um trabalhador aposentado da Ford que viveu as agruras da guerra da Coreia e hoje é praticamente um estrangeiro num bairro americano cercado de “chinas”, “pretos” e toda a “escória da humanidade”, como ele pensa.

Para todos eles, Kowalski rosna como um cão raivoso seja pelo seu comportamento, sua cultura e, claro, sua aparência nada caucasiana. A recente viuvez de Kowalski só aguça sua impaciência e preconceito, ainda ampliada por um padre mala que tenta cumprir o último desejo da esposa de Kowalski: fazê-lo se confessar.

Kowalski é, assim, alguém que só aceita viver entre os seus, o que exclui a sua própria e problemática família, cujos netos se vestem mal, são mal educados e apenas ambicionam o seu Ford Gran Torino estacionado na garagem, e os filhos usam carros japoneses, ou “chinas”, fabricados por gente que ele se “acostumou a empilhar e transformar em sacos de areia ou trincheira” quando estava no Exército.

Ao conviver forçosamente com os hmong, povo que lutou ao lado dos americanos na guerra do Vietnã e foi perseguido e massacrado pelos comunistas depois que os americanos abandonaram, derrotados, a região, ele vai perceber, no entanto, que tem mais em comum com aquela família de hábitos para ele estranhos do que com a sua própria.

O ponto de ligação com os hmong é Thao, jovem tímido que cultiva os valores que Kowalski admira e é importunado juntamente com sua família por uma gangue do bairro. É para ajudá-los que Kowalski entra em cena com sua pistola e escopeta e acaba virando, inicialmente a contragosto, o herói do bairro.

Ironicamente são os hmong outrora vistos como inimigos que vão lhe dar um sopro de vida na sua até então amarga existência e a chance de recomeçar, de rever os seus erros, tão perto do seu fim.

Pode-se dizer, portanto, que “Gran Torino” é a redenção de Dirty Harry. E seu desfecho não poderia ser mais apropriado a alguém que de qualquer forma sempre foi um herói.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

O teatro do rock

Entre as grandes bandas do mundo, o Kiss talvez tenha sido a primeira a fazer com que um show de rock tenha um conceito maior do que simplesmente subir no palco e tocar algumas músicas por duas horas. Com o Kiss, o concerto ganha tons de espetáculo (em todos e positivos sentidos). Mais até do que o U2, que experimentou algo parecido na turnê “Zooropa” no início dos anos 90 e desde então vem realizando megaturnês com megashows, mas que são mais focados na sua música do que em efeitos mirabolantes e pirotecnias.

No caso do Kiss é diferente. Seus números vão do circense – e não é a toa que um dos seus álbuns de estúdio, o último, aliás, se chama Psycho Circus (1996) – ao teatro. Tudo é muito bem ensaiado para que não saia nada errado. Mas quando chove, evidentemente, planos devem ser desfeitos.

E o Kiss sabe dar o seu recado com tamanha competência que ficaria difícil contestar um de seus líderes, o baixista Gene Simmons, quando ele abre o show dizendo: “All right, all right, all right. You wanted the best. You got the best. The hottest band in the world: Kiss!!!!”.

Os bafos de labaredas que frequentemente vinham do palco e as explosões de fogos de artifício mostram que realmente o Kiss é uma banda quente. E quando eles entram no palco para abrir os trabalhos com “Deuce”, a platéia já está num transe digno do mostrado no videoclipe de “I Love it Loud”.

“Loud”, “love” e “hot”, aliás, são as palavras que mais se repetem no repertório do Kiss e o cantor e guitarrista Paul Stanley, o mestre de cerimônias na Apoteose, o senhor do picadeiro, se esforça para seduzir a platéia. Nem é preciso muito, diga-se de passagem. A galera já está de quatro pelos mascarados. Alguns, ou melhor, algumas até querem mais, como mostraram duas mulheres que jogaram seus respectivos sutiãs para Paul. Uma delas também resolveu pagar um peitinho para o telão para delírio dos presentes.

Dizendo que ama todo mundo, principalmente as garotas mais safadinhas, Paul toca uma música segurando as peças íntimas das moças que depois virariam um novo objeto de decoração do palco inspirado na turnê do disco “Alive” (1975), de onde a banda tira a maioria das músicas do show (14 das 19 canções) e da turnê que celebra os 35 anos de sua carreira. Uma atitude simpática e melhor do que o velho truque da bandeira nacional, aliás, usado por eles no bis.

Tal qual a apresentação do Iron Maiden, o show do Kiss é para lembrar os grandes momentos da banda (para poucos que estiveram presentes no espetáculo de 1983 no Maracanã) ou apresentar aos novos membros do Kiss Army suas velhas composições ao vivo.

E havia muitos estreantes na Apoteose. Crianças, adolescentes, muitos pintados com as máscaras de Paul e Gene, todos num misto de empolgação e hipnose, mesmerizados pela magia daqueles senhores fantasiados.

Mas não havia novatos apenas na platéia. O guitarrista Tammy Thayer fazia sua segunda turnê após a saída/demissão de Ace Frehley, chamado por Gene numa entrevista ao GLOBO de “loser”. Mesmo adjetivo ganhou o baterista Peter Criss, substituído por Eric Singer, velho colaborador do circo do Kiss.

E Thayer se sai muito bem. Reproduz com fidelidade e desenvoltura as notas de Frehley e ainda tem espaço para brilhar num solo pirotécnico, com sua guitarra disparando fogos pelo palco. Teve gente até que disse que ele é melhor do que Frehley, mas não entrarei neste mérito. Gosto para guitarrista é algo que não se discute, pois há a parte dos fãs que sabem tocar o instrumento e geralmente preferem os guitarristas mais técnicos e há uma outra parte de apreciadores de música que gostam dos técnicos, mas também curtem aqueles guitarristas mais performáticos (e até presepeiros), que têm presença e carisma. Poucos unem técnica e presença de palco. Exemplo mais comum? Mestre Jimi Hendrix.

Talvez até pelo fator surpresa, Thayer tenha brilhado tanto quanto Paul e Gene. Até porque você já sabe o que esperar desta dupla. São as caras de mau, a espada de fogo (logo após a execução de “Hotter than Hell”), e o sangue cenográfico (já no bis, antes de “I love it loud”) de Gene e a lascívia/malícia de Paul, que, aliás, cantou bem em quase todo o show. No fim, durante “Detroit Rock City”, contudo, você nota que ele já está sem voz. Mas devemos dar um desconto. O rapaz tem 57 anos de rock and roll e nem a chuva o desanimou. “We don’t care about the rain. We gonna keep playing”, disse o cantor.

A chuva, todavia, atrapalhou um dos números mais aguardados. O vôo sobre a platéia de Gene durante “Love Gun”, música cortada do set list final que acabou ficando com uma canção a menos em relação ao show de São Paulo.

Nada que atrapalhasse um espetáculo impecável que conseguiu reunir só no bis e em seqüência “Shout it out loud”, “Lick it up”, “I love it loud”, “I was made for lovin’you” e a já citada “Detroit Rock City”.

Melhor do que isso só se eles tivessem colocado “Rock and roll all nite”, canção escolhida para encerrar a primeira parte do espetáculo sob outro imenso temporal, mas de papel picado que caia sobre a (abominável) área vip e sobre a platéia menos abastada. É o Kiss, a banda mais capitalista/consumista do mundo, socializando a festa.

Em resumo, mesmo com seus principais integrantes beirando os 60 anos (Gene tem 59), o Kiss sabe dar uma festa. Com “God gave rock and roll to you” tocando nas caixas de som e muitos fogos de artifício, o público deixou a Apoteose de alma lavada.

Set list: “Deuce”, “Strutter”, “Got to Choose”, “Hotter Than Hell”, “Nothin’to Lose”, “C’mon and love me”, “Parasite”, “She”, “Watchin”, “1000.000 years”, “Cold Gin”, “Let me go, rock’n’roll”, “Black Diamond”, “Rock and roll all nite”, “Shout it out loud”, “Lick it Up”, “I love it loud”, “I was made for lovin’you” e “Detroit Rock City”.

Abaixo alguns dos grandes momentos do show do Kiss.
"Deuce"

"Hotter Than Hell"

"Nothin' to Lose"

"Rock and roll all nite"

"Lick it Up"

"I love it loud"

"Detroit rock city"

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Um terrível massacre

Logo no início de “Katyn”, o diretor Andrzej Wajda mostra dois grupos de refugiados se cruzando numa ponte. De um lado, o grupo onde fazia parte Anna (Maja Ostaszewska), mulher do oficial Andrzej (Artur Zmijewski), fugindo do cerco alemão em plena Segunda Guerra Mundial. Do outro lado, aqueles que fogem da invasão soviética.

Estamos em 1939 e a Polônia acaba de ser duplamente invadida. De um lado, os nazistas de Hitler querendo expandir o domínio da raça ariana. Do outro, os soviéticos também querendo ampliar o domínio comunista sobre o planeta. Na conversa entre Andrzej e Jerzy (Andrzej Chyra), há uma dúvida do que poderia ser pior. A única certeza é que a Polônia está sitiada.

Os crimes alemães naquela guerra já são mais do que conhecidos e “Katyn” apenas passa por alguns deles como a morte de intelectuais levados para campos de concentração. O propósito do filme, portanto, não é tratar dos crimes cometidos por Hitler, mas pelo massacre impetrado por Stálin na floresta de Katyn em abril de 1940, onde mais de 20 mil poloneses entre militares, intelectuais e meros civis foram cruelmente assassinados e jogados em valas comuns.

Tão pior quanto o genocídio, foi a cruel ditadura soviética impetrada no país reforçada por uma revoltante máquina de propaganda e censura que divulgava uma mentira: de que o massacre foi cometido pelos alemães. O objetivo é fazer com que os poloneses acreditem que os soviéticos são amigos e aceitem seu domínio.

Desnecessário dizer que a mentira não conseguia se disseminar facilmente como desejavam os acólitos de Stálin. Nada que o Exército não pudesse resolver com mais seqüestros, torturas e até mortes. O importante era manter a farsa.

Ao se propor a contar esta história, Wajda não trata apenas do massacre, mas também da maneira como a ditadura soviética deixou suas marcas no povo polonês. As cicatrizes estão no próprio diretor de 83 anos, cujo pai foi uma das vítimas do império soviético em Katyn. Assim como Anna, ele e sua mãe esperaram por anos pelo retorno do pai que nunca aconteceu.

Enquanto a névoa do massacre pesa sobre aquela Polônia, acompanhamos a angústia de um país que não tem voz, onde pessoas vivem acuadas e deve-se tomar cuidado com tudo o que se diz, para quem se fala e com as atitudes tomadas. A atmosfera criada por Wajda é claustrofóbica, pesada como uma cortina de ferro. As terríveis marcas da saudade, da desesperança, da falta de informação podem ser vistas nos rostos cansados, desolados e/ou cínicos de uma população que aparentemente não tem escolha e até acredita que a Polônia jamais vai se reerguer novamente.

Esse retrato é o que faz de “Katyn” um grande filme. As cenas do massacre são apenas o clímax do horror. O início, o meio e o fim da tragédia causada pelos soviéticos. E ainda há quem considere Stálin um exemplo a ser seguido. Lamentável.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Um pouco de luz sobre o mito

Cinco anos depois de a juventude de Ernesto Che Guevara ter sido descrita sob a ótica de Walter Salles em seu “Diários de Motocicleta”, o cinema volta suas atenções para uma nova cinebiografia do ex-líder revolucionário que ajudou a libertar Cuba da ditadura de Fulgêncio Baptista e acabou morto na selva boliviana. “Che”, a biografia de Steven Soderbergh com Benício Del Toro no papel principal é um épico de 4h30m dividido em duas partes.

A primeira, “The Argentine”, chegou aos cinemas tentando dar uma visão menos romântica, mas ao mesmo tempo complementar, do médico argentino que se juntou a Fidel e Raul Castro na revolução cubana durante o exílio no México.

É lá que o filme começa, com Che conversando sobre a revolução com Raul (Rodrigo Santoro) e aguardando a chegada de Fidel (Demián Bichir), que o convidaria a participar do combate em Sierra Maestra.

A partir daí, a película se divide em duas partes mostradas alternadamente. O treinamento e combate na floresta e a invasão de Cuba até a chegada a Havana e o discurso de Che na Assembléia Geral da ONU, quando reconheceu os fuzilamentos durante a sua revolução, defendeu Cuba, rebateu as críticas e proclamou o conhecido “pátria ou muerte”, e uma entrevista dada à imprensa.

Em Cuba, a revolução é mostrada em todas as suas cores, enquanto nos Estados Unidos Soderbergh opta por filmar em preto e branco, como são conhecidas, aliás, as imagens de Che na ONU.

Se em “Diários de Motocicleta” Walter Salles mostra uma visão quase heróica do jovem Che Guevara (na pele de Gael Garcia Bernal) na sua fase pré-revolucionária - é emblemática a cena dele, que sofre de asma, mas vence a travessia de um rio – em “Che”, Soderbergh não se afasta completamente do mito imortalizado na foto de Alberto Korda, mas tenta mostrar um outro lado de Che, seja na insegurança de liderar um grupo por se considerar um estrangeiro, nas sérias crises de asma, que o fragilizavam ou na crueldade de quem expõe à humilhação aqueles que não o seguem e assassina friamente os que não obedecem as leis impostas pela “revolução”.

Mas o herói não deixa de aparecer no filme. Che é saudado como mito a cada cidade que domina na guerrilha urbana. É visto como o grande herói da revolução quando toma Santa Clara, a penúltima e cidade-chave antes de partir para a capital Havana apenas para consolidar algo que já estava certo com a ridícula fuga de Fulgêncio Baptista.

Contudo, mesmo essa mitificação vem mais de um campo externo do que num foco dado por Soderbergh ou por Del Toro. E o principal “culpado” disso é o ator, que empregou muito tempo neste projeto de filmar estas partes da vida de Che e interpreta a figura histórica com a correção de quem tem o cuidado e o equilíbrio de não descambar para a glorificação do mito ou para a completa iconoclastia.

Surgiram críticas, porém, de que o filme é panfletário, esquerdista, essas bobagens ainda vigentes (direita e esquerda, sinceramente, são versos de um poema ultrapassado). Talvez pelas cenas exatamente de Che figurativamente carregado nos braços do povo e demonstrando alguma humildade ao dar o crédito a todos pela revolução ou grandeza/honestidade, ao mandar um grupo de soldados comandados por ele devolver um carro roubado.

Ora, mas Che era então visto como herói pelo povo cubano. Se ele cometeu erros, crimes ou qualquer outra coisa que o desabone, é algo que pode e deve ser discutido. Mas é impossível remar contra a história. Da mesma forma, ele é chamado de assassino por manifestantes na porta da ONU em outra parte do filme. Estas críticas, acredito, são mais partidárias e de um pseudo-ideologismo do que pelo filme, que acredito ser bastante equilibrado.

Isso me faz lembrar certa vez as críticas de uma amiga ao filme “A Rainha” (2004), que ao deixar o cinema disse que a película era muito pró-Tony Blair. Na época em que o filme foi lançado, Blair já não gozava de muita popularidade no Reino Unido e no resto do mundo por causa da guerra do Iraque e era chamado pela imprensa de poodle de George W. Bush. Acontece que no período em que o filme se passa, quando o Partido Trabalhista finalmente chega ao poder após os 11 anos de Margaret Tatcher, Blair tinha todo aquele capital político, que seria mantido próximo do intacto não fosse a excessiva proximidade com o governo americano.

Da mesma forma, gostando ou não de Che Guevara, é preciso entender que ele era visto como herói, como é visto até hoje por muitos círculos ditos socialistas. E sua morte aos 39 anos, muito jovem, portanto, reforça o mito. Enquanto Fidel agoniza nos erros cometidos e na longevidade que transformou a revolução libertadora em cruel ditadura, Che foi parcialmente absolvido pela sua morte.

Mas no caso dos filmes de Soderbergh, este é um capítulo para ser analisado na segunda parte, "Guerrilla", que vai abordar o momento de Che levando sua revolução para a Bolívia (no filme, ele diz que quer levá-la para toda a América Latina), onde sucumbirá diante do exército local. No Brasil, a película tem previsão de estrear em maio, data que, no entanto, pode ser alterada. Por enquanto, o resultado do trabalho de Soderbergh e Del Toro é satisfatório.

Abaixo, como curiosidade, alguns trechos do discurso de Che Guevara na ONU na década de 60.


sábado, 28 de março de 2009

Cassem o Oscar

Alguém deveria cassar a premiação do Oscar de melhor filme deste ano. Podem me xingar à vontade, mas “Quem quer ser um milionário?” não é melhor do que “Frost/Nixon” nem aqui nem na Índia. É claro que o filme de Danny Boyle tem seus méritos, mas quem tinha que levar para casa a estatueta era Ron Howard.

Por mais paradoxal que seja, o filme de Howard, no entanto, não é superior a “Quem quer ser um milionário?” em diversas categorias que deram o Oscar ao filme de Boyle, como montagem, trilha sonora, canção e até roteiro, pelo qual Frost/Nixon sequer concorreu. A direção de Boyle em relação à de Howard pode ser discutida, mas não dá para dizer que o prêmio é injusto. Porém, apesar disso tudo, “Frost/Nixon” é mais filme do que “Quem quer ser um milionário?”.

E por quê? Porque não há em nenhum momento no filme de Danny Boyle um ator que possa rivalizar, chegar perto da atuação hipnotizante de Frank Langella no papel do ex-presidente Richard Nixon. Langella é o dono do filme. Era para ter sido também o dono do Oscar, que poder ser muito bem dado para Mickey Rourke e foi muito mal dado para Sean Penn.

Sua atuação, que se concentra mais em detalhes de Nixon como o jeito de sorrir, a maneira de falar, o corpo meio curvado, do que numa imitação de Nixon, é a melhor do ano até agora. É uma atuação tão impactante e sedutora que você quase gosta de Nixon, mesmo sabendo de Watergate e todos os crimes cometidos pelo ex-presidente americano (parênteses: Aliás, como tem viúvas de Nixon no YouTube). É como estar em frente a Medusa e ficar petrificado diante da tela do cinema. É seguramente uma atuação melhor que a de Anthony Hopkins em “Nixon” (1995). E olha, que a atuação de sir Hopkins é muito boa.

Mas Langella, ator de personagens pequenos em filmes grandes como “Boa Noite, e Boa Sorte” (2005), “Dragão Vermelho” (2002), “Superman Returns” (2006) ou “Lolita” (1997) ou de personagens marcantes em filmes de qualidade duvidosa - “Mestres do Universo” (1983) – ou muito antigos e pouco vistos, “Dracula” (1979), não é a única qualidade do filme.

Ele é apenas o motor propulsor desta obra marcada por um estilo de falso documentário, que eu achei bastante curioso, embora não seja nenhuma novidade. Mas e daí? Onde estaria o novo em “Quem quer ser um milionário?”?

O filme, como todos já devem saber, conta a história de um apresentador de um programa de TV no estilo talk show, David Frost (Michael Sheen, o Tony Blair de “A Rainha (2006) que resolve entrevistar Nixon como a sua grande empreitada para reconquistar a fama nos Estados Unidos.

Ele conta com a ajuda de dois jovens idealistas que querem dar a Nixon o julgamento que a renúncia e o perdão do presidente Ford o impediu de ter, James Reston (Sam Rockwell, muito bem) e Bob Zelnick (Oliver Platt). Conseguida a entrevista, eles dissecam a vida de Nixon para fazer do encontro histórico.

Como se sabe, depois de muitos vacilos de Frost a entrevista acabou sendo verdadeiramente bombástica com Nixon admitindo os seus erros. Ela representou, acho, a morte política dele, que contava exatamente com este programa para ressuscitar politicamente, recobrar a confiança do povo americano.

Enquanto o filme vai se desenvolvendo, o documentário fake é produzido com opiniões de “quem esteve envolvido”, no caso os próprios atores dando entrevistas como se fossem os verdadeiros protagonistas daquele episódio. Um recurso curioso e feito com maestria para parecer uma outra época. Tanto é que são mudados o corte de cabelo, as roupas, etc. Em cada momento, os atores estão tão diferentes que no início cheguei a pensar que estava vendo depoimentos dos próprios envolvidos naquela "entrevista". Depois a ficha caiu. Era um documentário fake. Perfeitamente fake.

No final, Nixon teve que aceitar a aposentadoria causada pela trágica entrevista. Na tela, o filme de Howard e o roteiro de Peter Morgan não chegaram a criar um filme histórico, mas era digno do Oscar que lamentavelmente não veio. É como eu já disse algumas vezes: o Oscar, sempre foi muito político.
Em função do filme, a real entrevista de David Frost com Richard Nixon foi lançada em DVD. Abaixo, alguns pequenos trechos de vídeos promocionais no YouTube.




segunda-feira, 23 de março de 2009

Sofrendo de felicidade com o Radiohead

Todos os que lêem este blog com alguma freqüência sabem da minha campanha contra o lead, esta medida reducionista do jornalismo contra a boa arte. Mas desta vez e pela primeira vez, subvertendo as leis do blog, darei o lead do que foi o show do Radiohead na sexta-feira na Apoteose. Para isso, tomarei emprestado uma frase dita em bom português pelo guitarrista Ed’Obrien e direi que “foi bom para caralho”.

Dito isto, vamos ao texto.

Com 17 anos de existência e sete álbuns de estúdio lançados, o Radiohead pisou pela primeira vez no Rio de Janeiro na sexta-feira para a turnê de lançamento de seu mais recente disco, “In Rainbows”. A longa espera se refletia na ansiedade do público presente, nos rostos de felicidade, na sensação de que se estaria diante de algo histórico – uma garota ao meu lado chegou a dizer “Cara, está todo mundo aqui”. Todo mundo, leia-se, são os amigos dela de faculdade (a PUC) – e na preocupação com o que estaria presente no set list.

“Fake Plastic Tree” tem que entrar. “There There” também. Será que eles vão tocar “Creep”? Eles não vêm tocando essa música na turnê, mas disseram que por ser a primeira vez no Brasil, poderia ser incluída. Tomara”, revelou um ansioso rapaz, que acredito que tenha saído satisfeito com o desvendar do set durante as 2h15m de espetáculo.

Esse era o clima da agradável noite de sexta-feira. Entre copos de cerveja e insossos cachorros-quente e hambúrgueres, cujo sabor de isopor faria inveja aos melhores cozinheiros do McDonald’s, os mais de 20 mil espectadores da Apoteose aguardavam olhando no relógio, fazendo contagem regressiva para a entrada do Radiohead no palco.

Mas havia duas atrações no meio do caminho. No meio do caminho havia duas atrações para esquentar a galera enquanto o headliner não entrava no palco. Headliner apenas pela ordem dos shows, pois para muita gente, importante mesmo era o Los Hermanos, que voltavam após um hiato de dois anos em que Marcelo Camelo lançou o elogiado disco “Sou” e Rodrigo Amarante criou o Little Joy com o batera do Strokes, Fabrizio Moretti, ou os homens-robôs alemães do Kraftwerk, que pelo que notei tinham até torcida organizada. Vi várias camisas do grupo.

“Gostei mais do show do Kraftwerk”, disse-me um. “O show do Kraftwerk foi bom demais”, contou-me outro no ônibus de volta a Niterói.

Dois exemplos de que gosto não se discute (para muitos até, se lamenta). Entendo a importância do Kraftwerk para a música, como já escreveram alguns dos críticos que considero os mais importantes, mas, porém, contudo, todavia, aquilo é muito chato. Gosto de música e não consigo ver quatro caras parados em frente a computadores ou seja lá o que estava na mesa deles no palco, fazendo barulhinhos e repetindo palavras em inglês, alemão ou francês enquanto apareciam diversas imagens no telão.

Podem-me chamar de preconceituoso, mas isso para mim não é música. Música tem que ter instrumentos, gente cantando, tocando, interação com o público (e não apenas um “thank you” e “good night”). Me senti numa boate, numa rave, em qualquer lugar menos num show de rock.

Enfim, o Kraftwerk serviu apenas para treinar o ouvido para futuras provas de alemão. Aliás, se minha professora estiver lendo isso, aprendi que Kraftwerk é usina de energia elétrica. Tanta energia e meu deu um sono danado ver aquilo. Serviu apenas de trilha sonora para o lanche de qualidade já descrita.

Mas antes dos alemães, havia os Hermanos. Foi comovente ver muita gente em transe, outros tantos que ainda entravam na Apoteose correndo aos primeiros acordes de “Todo carnaval tem seu fim”. Vi mulheres se acabarem de dançar, marmanjos cantando todas as letras. Acho emocionante ver fãs tão devotados a sua banda. Eu também sou um fã e sei como é isso.

Por causa de tudo isso, acho que o público merecia um tratamento melhor dispensado pela banda. Salvo uns “vocês são do caralho” de Camelo, e uma brincadeirinha de Amarante enquanto afinava sua guitarra, os Hermanos foram frios, distantes, quase como se estivessem ali por obrigação. Sabe banda contratada para festa de empresa? Mais ou menos por aí. Aliás, o resumo da ópera foi Camelo dizendo que “acho que já deu o tempo”, em referência a 1h15m que eles tinham para tocar.

E quem diz não sou só eu, alguém que não trata os Hermanos como religião, mas que gosta da banda. Meu amigo Fábio, presente no espetáculo e fã da banda, disse o mesmo. Outro crítico que respeito e também amigo, Luiz Felipe Reis, escreveu sobre algo semelhante no seu blog, o “Radar Pop”. Foi, portanto, uma volta esquisita. Talvez fosse melhor ter ficado em casa.

Mas estes foram apenas aperitivos para o que haveria de mais importante na noite. O Radiohead entra no palco com a discrição que passeou no Rio de Janeiro nos dias de folga pré-show. A diferença é a ovação do público que foi saudado com “15 Step”, do disco “In Rainbows”.

Dali para frente seriam mais 24 passos e todas as fases da banda repassadas no palco. Não houve disco que não estivesse representado na noite. De “Pablo Honey” (1993), passando por “The Bends” (1995), o clássico “OK Computer” (1997), os complexos “Kid A” (2000) e “Amnesiac” (2001) até “Hail to the Thief” (2003).

Quem ainda não tinha escutado o novo álbum, saiu conhecendo o disco inteiro. Sim, enquanto soltava pílulas do passado, o Radiohead executou todas as dez faixas de “In Rainbows”. Todo o álbum é bom, mas gostei mais de “15 Step”, “All I Need”, “Reckoned” e “Weird Fishes/Arpeggi”.

Thom Yorke (voz), Jonny Greenwood (guitarra), Colin Greenwood (baixo), Ed O’Brien (guitarra) e Phil Selway (bateria) são ainda melhores ao vivo do que nos discos. Se nos álbuns, ouve-se a voz melancólica de Yorke de quem está sofrendo de morte, no palco, ela é amplificada, mas ganha as cores, a textura de um vocalista que se mexe quase como um showman. Nem parecia o frontman de uma banda marcada por suas composições tristes.

Os demais membros, porém, fazem jus à postura até certo ponto blasé da banda e são econômicos nos movimentos deixando apenas que a potência do seu som fale por si. E precisa mais do que isso? O repertório do Radiohead é impecável, ainda que a galera tenha começado a se empolgar apenas a partir da quinta música, “Karma Police”.

Mas isso é natural. O Radiohead não é uma banda de refrões grudentos nem de letras fáceis de assimilar. Das canções apresentadas, talvez só “Karma Police” e “Creep” tenham frases que a galera consegue levar.

Não é, portanto, uma banda para a galera fazer coro, mas para apreciar como um grande concerto. Embora em diversos momentos, o povo tenha conseguido suplantar estas “dificuldades”. Um dos momentos mais emocionantes, por exemplo, foi no coro de “Paranoid Android” (cujo vídeo você pode ver abaixo), que até fez Yorke e O’Brien sorrirem. É o tipo de emoção que só a platéia brasileira, principalmente a carioca, consegue passar. Cantam a plenos pulmões e apaixonadamente. Até um casal estrangeiro do meu lado ficou boquiaberto.

E não tinha sido a primeira vez na noite que a banda reagira bem a uma manifestação da platéia. Em “Karma Police”, o refrão a mais cantado por Yorke já no final foi certamente uma reverência ao público.

Do “Ok Computer”, o Radiohead ainda cantou a ótima “No Surprises” e “Airbag”. Foi o segundo disco em número de músicas do set junto com “Kid A”, que veio com “National Anthem”, “Idioteque”, “How to disappear completely” e “Everything in its right place”.

Cada música, aliás, tinha um jogo de luzes específico num palco que contava ainda com um telão que se dividia em quatro mostrando nuances da banda. Detalhes da interpretação de Yorke, os acordes de Jonny e O’Brien, a maneira como Selway toca. Era tanta informação que ficava difícil escolher para onde olhar. A performance da banda como um todo ou os detalhes que os músicos e apaixonados por música gostam de ver? Dúvidas cruéis numa apresentação absolutamente rica e com direito a dois bis.

Foi durante o primeiro bis que O’Brien soltou a frase que eu reproduzi lá em cima. Eles pareciam realmente felizes com o retorno da platéia carioca. Talvez seja por isso – ou já tendo esperado isso – que resolveram incluir no set a mais clássica de suas músicas. “Creep” foi a única canção do “Pablo Honey” na noite, mas era aguardadíssima.

“Toca Creep”, gritou um maluco atrás de mim que quase me deixou surdo. “Eles não vão tocar Creep”, disse outro, resignado, embora feliz com o show, ao ver que a apresentação já caminhava para o fim.

Realmente “Reckoner” parecia ter sido a última canção da noite. Yorke largou a guitarra, fez os agradecimentos. Mas logo depois, Jonny Greenwood puxou os acordes que fizeram o Radiohead mundialmente conhecido. Um presente da banda para o público que a emocionou. Assim, a platéia pôde deixar a Apoteose de alma lavada. E da mesma maneira que entrou no palco, o Radiohead saiu. Discretamente e intensamente aplaudido por um público que acabara de ver um senhor show de rock.

Abaixo o set list completo e mais embaixo, alguns dos melhores momentos do show colhidos no YouTube:

15 Step (In Rainbows)
Airbag – (OK Computer)
There There – (Hail to the Thief)
All I Need – (In Rainbows)
Karma police - (OK Computer)
Nude - (In Rainbows)
Weird Fishes/Arpeggi -(In Rainbows)
National Anthem - Kid A
The Gloaming - (Hail to the Thief)
Faust Arp - (In Rainbows)
No Surprises - (OK Computer)
Jigsaw Falling Into Place - (In Rainbows)
Idioteque – (Kid A)
I might be wrong – (Amnesiac)
Street Spirit – (The Bends)
Bodysnatchers - (In Rainbows)
How to disappear completely – (Kid A)
Videotape - (In Rainbows)
Paranoid Android - (OK Computer)
House of Cards - (In Rainbows)
Just - (The Bends)
Everything In Its Right Place – (Kid A)
You and whose army – (Amnesiac)
Reckoner – (In Rainbows)
Creep – (Pablo Honey)

"Creep"

"Paranoid Android"

"Karma Police"

"Reckoner"

"All I Need"

"No Surprises"

sexta-feira, 20 de março de 2009

A insuperável Donzela de Ferro

Poucas bandas são capazes de fazer um show tão bom quanto o do Iron Maiden. Poucas bandas fazem três turnês com passagens pelo Brasil num espaço de oito anos e conseguem manter o seu público vidrado no palco, hipnotizado, mesmerizado, com um repertório com 70% das músicas completamente diferentes entre uma apresentação e outra.

O Iron Maiden já seria um espetáculo de alta qualidade se subisse ao palco para ser simplesmente o Iron Maiden. Mas a banda se preocupa em fazer um show que grude na retina dos fãs, que seja sentido no coração do seu público e seja lembrado e passado para gerações e gerações de “maidenmaniacos”.

Referência no metal e, obviamente, no rock and roll, o Iron voltou ao Rio de Janeiro cinco anos depois da turnê do disco “Dance of Death”, que resultou no excelente show num entupidíssimo Citibank Hall (se é que ele tinha esse nome na época).

Dessa vez, a turnê “Somewhere back in time” faz uma referência aos clássicos do Iron na década de 80, tempos da “World Slavery Tour”. Tempo de discos como “The number of the beast” (1982), “Piece of Mind” (1983), “Powerslave” (1985) e “Seventh Son of a Seventh Son” (1988). E em 2 horas de show, é só o que Bruce Dickinson (voz), Steve Harris (baixo), Janick Gears (guitarra), Adrian Smith (guitarra), Dave Murray (guitarra) e Nico McBrain (bateria) fazem. Desfilam clássicos para o deleite dos veteranos de shows do Iron e conhecimento das novas gerações que se fizeram presentes entre as mais de 20 mil pessoas que estiveram no sábado na Apoteose (parênteses: como tinha muita mulher também. Será que as metaleiras estão ressurgindo das tumbas?).

É sensacional poder ouvir músicas que não costumam ser incluídas no set list do Iron como a emocionante “Children of the Damned”, a belíssima “Wasted Years” ou a longa e arrebatadora “Rime of the Ancient Mariner” e seus quase 14 minutos de puro metal. São canções que dificilmente voltarão a figurar no set do Iron, assim como outra música igualmente longa e ótima: “Phanton of the Opera”.

Só por isso já valeria a pena pagar o ingresso para assistir a este show só com clássicos. Mas o Iron é mais do que música: é um espetáculo. O seu palco e suas parafernálias, incluindo aí dois Eddies que aparecem em “Iron Maiden” (esse uma espetacular versão de múmia gigante que solta fogo pelo olhos), e “The Evil that man do” (já no bis em sua versão boneco ameaçador), são o sétimo maiden. E o Iron não economiza nos fogos, nas lufadas de fogo, cujo calor é sentido a uma longa distância, e nos cenários. Havia um tema de fundo para cada uma das 16 músicas tocadas no sábado.

Valeu a pena esperar pelo Iron de novo. Só com a introdução no discurso do ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill seguida de “Acces High”, “Wratchild” e “2 minutos to midnight” seria preciso sair, comprar outro ingresso e entrar de novo.

Em “The Trooper”, com o tradicional gesto de Bruce Dickinson cantando segurando e agitando a bandeira da Grã-Bretanha, você quase tem vontade de se alistar no Exército inglês. “Fear of the Dark”, uma das poucas que não são da década de 80 mantidas no set, tem exatamente a mesma e histórica interpretação do Rock in Rio de oito anos atrás.

E ainda teve “Run to the Hills”, uma das mais celebradas pela platéia, que, diga-se de passagem, cantou todas as músicas com devoção religiosa, “Hallowed by the name” e “Powerslave”, com Bruce cantando usando uma máscara.

Na hora do bis, a sensação de que se podia ficar ali mais umas duas horas pulando e cantando músicas do Iron. Só que o público tem que se contentar apenas com “The number of the beast”, “The evil that man do” e Sanctuary”, que fechou o show com direito a promessa de retorno em 2011, quando o Iron estará em turnê divulgando o álbum que será lançado no ano que vem.

Seja onde for que o Iron vá tocar daqui a dois anos eu estarei lá. Um show do Iron é sempre imperdível. O set vai, obviamente, mudar de novo e o Iron permanecerá fazendo o espetáculo no qual é mestre.

Abaixo, alguns dos momentos imperdíveis do espetáculo:

Acces High

2 Minutos to Midnight

The Trooper

Children of the Damned

Fear of the Dark

Iron Maiden

The Evil that Man Do

sábado, 14 de março de 2009

Uma operação meio assim assim...

Desde que se separou da agente Paula Wagner, rompendo com uma parceria em uma produtora de filmes, passou a falar demais da cientologia e subiu em 2005 no sofá da apresentadora Oprah Winfrey para declarar de forma inusitada seu amor a Katie Holmes, Tom Cruise vem se especializando em fazer filmes que variam entre o ruim e o meia-boca.

“Guerra dos Mundos” (2005) era, com muito boa vontade, um filme bem nota 5,5. “Missão Impossível III” (2006) foi uma decepção total, só salvo da tragédia pelo vilão vivido por Phillip Seymour Hoffman. “Leões e Cordeiros” (2007) é outro trabalho em que ele passa discretamente. Já em “Trovão Tropical” (2008) o ator até consegue brilhar num personagem que o deixa quase irreconhecível.

O último grande filme de Cruise, porém, é “Collateral” (2004), este sim um trabalho em que o ator mereceu muitos elogios no papel de um assassino que tem que matar cinco pessoas e usa o motorista de táxi vivido por Jamie Foxx para conduzí-lo.

“Operação Valquíria”, ora em cartaz, está muito longe de “Collateral”. Ele é mais um filme assim assim de Tom Cruise. Na película, Cruise vive o coronel Claus von Stauffenberg, considerado um dos heróis alemães, que organizou a última tentativa de matar o ditador Adolf Hitler durante a Segunda Guerra Mundial.

O trabalho de Bryan Singer, diretor de ótimos filmes baseados em quadrinhos como “X-Men” (2000), “X-Men II” (2003) e Superman Returns (2006), além do clássico “Os Suspeitos” (1995), conta, portanto, como o plano foi desenvolvido até a tentativa fracassada no atentado na Toca do Lobo, como era chamado o esconderijo de Hitler, vivido por David Bamber (para mim, sempre sob a sombra de Bruno Ganz, que vive magistralmente o ditador em “A Queda” – 2004).

Como todos nós sabemos, a tentativa de assassinar Hitler deu errado até o ditador vir a se matar em 1945, quando a Segunda Guerra já caminhava para a vitória dos aliados. Saber o final da história certamente prejudicou o seu desenvolvimento, mas Singer também não mostrou muita disposição em oferecer algo que pudesse surpreender o seu espectador.

A conspiração se desenvolve num ritmo extremamente previsível e sem inspiração de quem deveria comandá-la. Tom Cruise hoje parece ser um ator no piloto automático que faz filmes em que usa as cenas de ação para correr (sempre é preciso correr nos seus filmes). Quando a cena precisa de alguma dramaticidade, ele usa aquela expressão fechada de quem é o herói do filme e sabe que está dizendo as frases mais sábias do roteiro e bola para frente.

Muito pouco para um ator ainda muito jovem, com 46 anos. Ainda mais se pensarmos que o seu contemporâneo, Brad Pitt (tem 45 anos), com quem ele já rivalizou no coração das adolescentes, fez no mesmo período da “queda” de Cruise três bons filmes: “Sr. e Srs. Smith” (2005), “O Assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford” (2007) e “O Curioso Caso de Benjamin Button” (2008).

Apesar destas críticas, “Operação Valquíria” não é de se jogar fora. Pode ser uma boa diversão se você não se importa em chegar no cinema já sabendo o final do filme.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Um filme a ser assistido


Estados Unidos, década de 80. Richard Nixon (Robert Wisden) está no seu quinto mandato como presidente do país e a relação com a União Soviética em plena Guerra Fria nunca esteve tão próxima de explodir em centenas de milhares de ogivas nucleares que destruiriam o planeta e as bilhões de pessoas que nele vivem. Neste cenário sem esperança em que um relógio mede a tensão entre as nações e faltam apenas quatro minutos para a meia-noite, quando o holocausto nuclear se tornará inevitável, vive um grupo de heróis entre a aposentadoria, a marginalidade e o trabalho de cooperação com o governo federal.

O mundo nunca fora tão niilista. Os super-heróis mascarados, tidos como fundamentais para a segurança e responsáveis, neste, como você já percebeu, fictício Estados Unidos, pela vitória no Vietnã, hoje são vistos como vigilantes criminosos que escondem suas identidades para não serem presos.

A população está cansada de vigilantes e seus poderes. O tempo vai passando ao som de mestre Bob Dylan e sua magistral “The Times – They Are A Changin’”. Com a vitória americana no Vietnã, todo o movimento pacifista acaba em mortes. Os tempos estão mudando, mas o violento assassinato do Comediante (Jeffrey Dean Morgan) joga luz sobre um novo mistério. Estariam os super-heróis sendo alvo de uma cruzada assassina para exterminá-los de vez? É o que Rorschach (um espetacular Jackie Earle Haley) está investigando.

Este é o ponto de partida de “Watchmen”, filme de Zack Snyder baseado na graphic novel de Alan Moore que estreou neste fim de semana em todo o mundo. Um trabalho grandioso não apenas nas suas três maravilhosas horas de duração, mas um filme estupidamente bom neste ano com tanta película boazinha ou mais ou menos.

Quem viu “300” (2006), também de Snyder e também baseado numa graphic novel, mas do papa Frank Miller, reconhecerá a linguagem usada pelo diretor em “Watchmen”. Aquelas cenas em câmera lenta que repentinamente aceleram numa mistura de John Woo com “Matrix” (1999) estão presentes. Assim como a forma crua como são mostradas as lutas onde os socos são amplificadamente pesados e ecoantes e o sangue escorre além do normal.

Nos dois trabalhos, parece que a história em quadrinhos salta aos seus olhos no melhor 3-D já feito sem que fosse necessário qualquer óculos especial. A fidelidade é impressionante, embora sempre possa haver fãs mais xiitas contrariados com determinadas e sempre inevitáveis licenças poéticas. Mas assim como é complicado transpor para a tela um livro, é igualmente complexo, embora os desafios sejam completamente diferentes, levar uma história em quadrinhos para o cinema.

E Snyder com seu estilo singular foi muito bem sucedido até aqui. Se “300” é um bom filme, mas que causa certa estranheza, até porque era o segundo filme do diretor – o primeiro fora a refilmagem de “Madrugada dos Mortos” clássico do terror de 1978 lançado em 2004 – e poucos conheciam seu trabalho, “Watchmen” é um degrau acima em beleza, competência e dedicação a uma história que parecia “infilmável”.

Bem diferente da maioria dos heróis mais tradicionais da Marvel e da DC, os super-heróis de “Watchmen” vivem com a humanidade em, digamos, “harmonia”. Não se escondem nas sombras e surgem de tempos em tempos para salvar o mundo. São mais humanos e, como tais, cometem erros e até brocham. Mas ainda assim são vigilantes que mantém o equilíbrio do mundo para que ele não seja ainda pior.

Alguns como Rorschach e o Coruja (Patrick Wilson) trabalham na noite, prendendo bandidos e salvando vidas. Outros como o Dr. Manhattan (Billy Crudup, que achou personagem perfeito para suas limitações) ou Spector (Malin Akerman), colaboram de alguma forma para o governo e realizam pesquisas. Há ainda os que resolveram lucrar com a própria imagem num tempo em que a sociedade está dividida sobre o que acha dos vigilantes. É o caso de Ozymandias (Matthew Goode), tido como o homem mais inteligente do mundo, mais rápido do que uma bala, que resolve revelar sua verdadeira identidade e passa a lucrar com isso.

Mas os caminhos de todos eles vão se cruzar novamente na medida em que esta desconhecida ameaça, o misterioso assassino, estaria à espreita. O Comediante foi o primeiro. Quem seria o próximo? Por ter a identidade mundialmente conhecida, Ozymandias seria uma potencial vítima. Senhor de si, ele não demonstra muita preocupação.

Enquanto isso, o aviso de Rorschach não seduz o Dr. Manhattan, mais preocupado em encontrar um meio de evitar um holocausto nuclear enquanto questiona a sua humanidade (ou o que resta dela) e tenta entender a humanidade, mais complexa, aparentemente, que seus cálculos de físico e seu frio racionalismo possam imaginar.

O mundo de “Watchmen” não é de santos. O próprio Comediante não foi propriamente um coroinha. Matou crianças e uma mulher que ele engravidou no Vietnã, inocentes nos Estados Unidos, tentou estuprar a primeira Spector (Carla Gugino). Não é alguém que você chamaria de herói e que você nem sente pena ao saber que ele foi assassinado - numa das melhores cenas de luta que já vi ao som de “Unforgettable”, de Nat King Cole - depois de tudo isso. Mas lá fora a coisa está tão feia, a cidade é tão fétida, que o Comediante não chega a ser uma piada de mau gosto.

O mundo de “Watchmen” é hipócrita, cínico, pessimista, niilista, degradado. Moldado a feição de um presidente corrupto que permanece por duas décadas no poder. É um mundo, portanto, à feição do Comediante e não do onipresente e quase onisciente Dr. Manhattan, que tenta não ser um Deus, embora tenha poder para tal, ou do idealista pessimista Rorschach, para quem os humanos mais parecem vermes se reproduzindo na sarjeta, ou mesmo do quase inocente Coruja, que acredita naqueles valores mais nobres que a capa de herói poderia lhe oferecer. Cada um a seu modo, no entanto, entende a necessidade de proteger os humanos por mais que eles os odeiem.

Assim é “Watchmen”. Uma obra luxuosa garimpada do mundo dos quadrinhos que me fez até refletir sobre qual seria a melhor de todas as adaptações já feitas até agora. Criei até uma pequena enquete ali do lado com algumas opções para os que quiserem se manifestar. Caso não concordem com nenhuma delas, o espaço para os comentários está aberto a novas sugestões e ao debate.

O filme de Snyder é também belíssimo por sua trilha sonora. Abaixo, três craques: Bob Dylan, Jimi Hendrix e Nat King Cole num dueto espírita com a filha Natalie Cole.

Bob Dylan - "The Times They Are A Changin'"



Jimi Hendrix - "All Along the Watchtower"



Nat King Cole e Natalie Cole - "Unforgettable"