O mercado financeiro não é para santos. E isso é uma coisa que “Margin Call – o dia antes do fim”, deixa bem claro. Desde o início é um individuo querendo puxar o tapete de outro para salvar a própria pele e ainda faturar alguns milhões de dólares para garantir uma vida mais tranquila.
Primeiro trabalho do diretor J.C. Chandor, o cenário deste filmaço é a crise econômica de 2008 que iniciou com a quebra do Lehman Brothers. O nome do banco nunca é citado, mas sua história está nas entrelinhas da companhia comandada com inteligência e sagacidade por John Tuld (o sempre ótimo Jeremy Irons). Tuld não entende absolutamente nada de mercado financeiro. Nada do que faz nos mínimos detalhes a empresa que comanda. Mas é um líder e tem visão a frente do seu tempo e isso basta para fazê-lo sentar na cabeceira da mesa e prever o apocalipse com algumas poucas palavras ditas pelo jovem Peter Sullivan (Zachary Quinto), que, para resumir tudo e usar uma linguagem que até um cachorro entenderia, descobre que tem coisa fedendo ali e vai dar merda.
Voltemos um pouco no tempo. Um passaralho está voando pelo banco e cortando cabeças em doses industriais. É um massacre de alta proporção e quem permanece pode se considerar vitorioso.
Uma das vítimas dos agentes de demissão (igual aquele personagem do George Clooney em “Amor sem escalas”) é Eric Dale (Stanley Tucci), da área de riscos. As mulheres com cara de poucos amigos o oferecem um acordo que é aceitar e pegar a grana ou aceitar na marra e ficar sem nada. Dale ainda argumenta sobre uma pesquisa que está fazendo e recebe o seco: “Isso não é mais problema seu”. Em seguida, como um prisioneiro culpado deixa o local escoltado por um segurança mal encarado sem nem ter a chance de retirar suas coisas do seu computador. Sua senha foi bloqueada, seu telefone ficou bloqueado e só lhe resta pegar uma caixa com seus poucos pertences e voltar para a casa.
Antes, porém, entrega um pen drive-bomba para Sullivan, o jovem promissor que ele contratara. Pede que analise os dados com carinho e, principalmente, muito cuidado. O que se segue é a crônica da tragédia da qual os Estados Unidos ainda tentam se reerguer e pode custar a cabeça de Obama na eleição do ano que vem. Afinal, o problema sempre foi a economia, estúpido.
Sullivan tem uma mente brilhante, mas é esta mente que vai provocar o ocaso da companhia a menos que um plano de emergência canalha seja posto em prática. Vender todos os ativos podres para gente que não sabe que eles são podres o mais rápido possível antes que a imprensa comece a investigar e descubra que há algo de, com o perdão da redundância, podre no reino de Wall Street.
Tuld sabe que o que acontece no seu terreno é o divisor de águas. E como águia do mercado quer se antecipar até na tragédia para se reerguer mais forte e antes de todos. O problema é que, aparentemente, Sam Rogers (Kevin Spacey, brilhante), ainda tem um resquício de dignidade nos seus olhos. Talvez a doença do seu cachorro, o único companheiro de um homem separado e sem nada além do trabalho como motivação, tenha amolecido o coração deste velho homem de 34 anos bem frisados na companhia.
Mas Rogers sabe o que deve ser feito. Tuld também. Assim como Will Emerson (Paul Bettany) e Sarah Robertson (a constrangedora Demi Moore). Sarah é a cabeça que Tuld entregará aos investidores, o boi de piranha que terá que aceitar seu destino em troca de um bom acordo. Emerson é o cara que vai se dar bem por estar no lugar certo e na hora certa. É outro que se antecipa aos acontecimentos por conhecer a história da economia do mundo. Sabe que não será demitido e ainda vai faturar uma grana. Previra um colapso, afinal algo tinha que estar errado com tanta gente comprando carros e casas e consumindo cheia de felicidade. Uma hora a bolha iria explodir.
Assim, estes e outros personagens vão se digladiando enquanto o mercado estremece. Uns tiram vantagem de outros, uns se dão bem, outros saem pela porta dos fundos e a tensão toma cada segundo do filme.
“Margin Call” tem muita linguagem econômica. Neste ponto lembra o primeiro Wall Street, “Poder e Cobiça” (1987), mas não é preciso ser versado no glossário de bônus e hipotecas para sentir a tensão do filme. Mérito dos ótimos atores e da direção e roteiro de Chandor. E o que se tem no fim é um filme sensacional. Talvez o melhor que eu tenha visto sobre a mais recente crise. Agora os outros é que vão ter que correr atrás para produzir algo melhor sobre a lama de Wall Street.
No ano passado, a grande história do Campeonato Brasileiro foi a do Fluminense. O time tricolor que arrancou da sarjeta em 2009 para o título de 2010 comandado por um meia incansável, um enganche chamado Dario Conca, que jogou todas as partidas. Neste ano, o Brasileiro foi muito atípico. O craque da vez ficou muito longe da disputa do título. Neymar foi inegavelmente o grande jogador da competição talvez com o Dedé ficando ali com o vice-campeonato (sem qualquer provocação, por favor, não estou em boteco).
Não existe campeão injusto nos pontos corridos. Logo o Corinthians mereceu levantar a taça e sua vitória ficou até mais simpática como uma forma de homenagem a Sócrates, um craque em tudo o que fez. Um craque que mesmo após conquistar um título pelo Corinthians declarou: "Ganhar ou perder, mas sempre com democracia". Mais condizente com o que este blogueiro pensa sobre o esporte e a vida, impossível.
O Corinthians que me dê licença, no entanto, mas a grande história do ano foi a do Vasco. Imagine um time que começou o ano com o pior início de Campeonato Estadual (aquele torneio de bairro que insistem em valorizar) de sua história. Quatro derrotas seguidas, técnico demitido (PC Gusmão), estrela do time afastada (Felipe), e o caos instalado. Uma nau sem rumo.
Veio Ricardo Gomes e tudo mudou. Com um time valente, operário e com alguns lances de técnica e um zagueiro que se consolidava como o melhor do Brasil, o Vasco se reconstruiu do horror para a glória. Sim, o time foi vice-campeão brasileiro, não conseguiu conquistar o título, mas o que importa?
O que importa é que o Vasco voltou a ser protagonista. Que se reergueu ainda no torneio de bairros para ser campeão nacional de novo. A conquista da Copa do Brasil foi um marco. Foi quando pensaram: agora o Vasco vai relaxar como todos fazem, afinal já está na Libertadores.
Não relaxou. Jogou com seriedade até o fim e só sucumbiu no Brasileiro e na Copa Sul-Americana no final. Superou até a doença de Ricardo Gomes, que sofreu um Acidente Vascular Encefálico (AVE) no final do primeiro turno. Cristóvão Borges, o auxiliar, assumiu e manteve o trabalho vencedor. Somente um time pode ser campeão. O Vasco não teve como levantar a taça no final, mas foi o grande vencedor da temporada e o melhor time carioca disparado mesmo diante de um Flamengo e um Fluminense com muitas estrelas e pouco futebol, apesar da boa arrancada tricolor no segundo turno.
Dito isso, vamos à minha seleção do Campeonato Brasileiro:
Goleiro: Júlio César (Corinthians) – Fernando Prass jogou todos os jogos e fez um grande campeonato pelo Vasco, mas este goleiro de 27 anos, o único do time campeão formado na base, é um dos principais responsáveis pelo pentacampeonato do Timão. Foram grandes defesas e muitos pontos garantidos que foram decisivos na reta final.
Lateral-direito: Fágner (Vasco) – Confesso que escolher os laterais da minha seleção foi muito, mas muito difícil. Não vi tanto assim o Figueirense jogar (uns cinco jogos no máximo) para chegar aqui e dar uma de gato mestre e dizer: Bruno na direita e Juninho na esquerda. Não dava para votar em jogador de um time que eu pouco vi. Na direita resolvi ficar com o jogador do Vasco pelas boas partidas que ele realizou no campeonato, pela absoluta falta de concorrência e pela minha falta de visão para observar melhor os jogos do Figueirense.
Dedé, o melhor zagueiro do Brasileiro/Divulgação
Dupla de zaga: Dedé (Vasco) e Antônio Carlos (Botafogo) – Dedé é uma unanimidade e a sua presença não se discute. O seu companheiro aqui poderia muito bem ter sido o Anderson Martins se ele não tivesse preferido ir para o chamado “mundo árabe”. Assim eu fiquei com um problema na zaga. Quem escalar? Nenhum zagueiro me inspirou muita confiança. Pensei no Chicão. Fez um bom início de campeonato pelo Corinthians, caiu de produção, foi afastado, barrado, mas voltou a tempo de erguer a taça. Ainda assim não era o ideal. Acabei jogando a camisa para o alto e quem pegou foi o Antônio Carlos, que não fez um mau campeonato e marcou alguns gols importantes pelo Botafogo.
Lateral-esquerdo: Cortês (Botafogo) – Pelos mesmos motivos listados no texto do lateral-direito, me faltaram opções. Acho que no cômputo geral Cortês fez um bom campeonato, embora tenha caído muito de produção na reta final junto com todo o time do Botafogo. Mas foi uma revelação do Brasileiro e vai pegar a camisa seis do meu scratch.
Dupla de volantes: Paulinho (Corinthians) e Rômulo (Vasco) – Volante é o que não falta nesse país. Volante que saiba jogar, mais ou menos. Mas os dois que entraram aqui na minha seleção fazem parte deste segundo time. Paulinho talvez tenha sido o grande nome do Corinthians campeão. É dessas unanimidades do campeonato. Rômulo também fez uma grande competição e na minha avaliação ganha a vaga que poderia muito bem também ser ocupada por Arouca (Santos), Ralf (Corinthians) ou Renato (Botafogo).
Felipe jogou muito/Divulgação
Dupla de meias: Felipe (Vasco) e Ronaldinho (Flamengo) – Esqueça o Ronaldinho que se arrastou na reta final. Lembre-se do craque que estava fazendo a diferença a favor do Flamengo e chegou a colocar o time rubro-negro na rota do título. A equipe desandou, é verdade, mas Ronaldinho com seus gols e seus passes precisos fez o Fla sonhar. Teve atuações de gala como naquele histórico 5 x 4 contra o Santos e merece um lugar neste seleção, principalmente numa posição em que não houve um único destaque em todo o campeonato. Ao seu lado, um maestro. Felipe jogou muito neste Brasileiro e merece estar na seleção por tudo o que fez ao Vasco, levando o time até o fim a disputar o título.
Ataque: Neymar (Santos) e Fred (Fluminense) – Qualquer um pode gritar. Borges (Santos) foi o artilheiro do campeonato sim, mas não vai entrar na minha seleção. Minha dupla tem a marca do craque do Santos, o melhor jogador do campeonato, e o artilheiro tricolor que se mostrou decisivo na reta final do Brasileiro e terminou apenas um gol atrás do atacante santista. Antes de Borges, Leandro Damião (Internacional) poderia ter entrado nesta festa, mas sua lesão na reta final o fez perder terreno para Fred e seus gols que chegaram a colocar o Flu na disputa do bicampeonato.
Fred, o vice-artilheiro do Brasileiro/Photocamera
Técnico: Ricardo Gomes e Cristóvão Borges – Tite fez um excelente trabalho no Corinthians, Jorginho foi a grande surpresa no Figueirense, mas a dupla do Vasco tirou leite de pedra. Basta rever alguns jogos do time para ver como Cristóvão mudava a escalação de acordo com o adversário e os jogadores se adaptavam e conseguiam surpreender os adversários. O time chegou na reta final bem treinado e jogando com alma, mérito da dupla que fez o Vasco renascer na temporada.
Concluindo – Então a seleção do Brasileiro ficou assim: Júlio César (Corinthians), Fágner (Vaco), Dedé (Vasco), Antônio Carlos (Botafogo) e Cortês (Botafogo); Paulinho (Corinthians), Rômulo (Vasco), Felipe (Vasco) e Ronaldinho (Flamengo); Neymar (Santos) e Fred (Fluminense). Técnico: Ricardo Gomes e Cristóvão Borges. Em relação ao time do ano passado, apenas o zagueiro Dedé está presente.
Não sou muito fã dos irmãos Dardenne. Nada contra a dupla de cineastas belgas. A culpa é minha mesmo. Sempre achei que tive uma incapacidade para entender seus filmes da mesma forma que tenho para compreender coisas como, sei lá, Física ou ver hora em relógio de ponteiro. O conhecimento deste último sempre esqueço segundos depois de aprender. No primeiro, bem, basta revisitar minhas provas na escola para entender que eu era um aluno medíocre na matéria.
Sobre os irmãos Dardenne vi dois filmes. Não gostara de ambos apesar dos elogios da crítica especializada. O mais recente foi “O silêncio de Lorna” (2008), quando me esforcei muito para não dormir no cinema. E olha que o filme ganhou o prêmio de melhor roteiro em Cannes.
Mas eu sou insistente e estava empolgado para ver “O garoto da bicicleta”. As credenciais dele eram boas: venceu o Grande Prêmio do Júri em Cannes neste ano e era estrelado por Cécile de France, a bela e competente atriz belga de 36 anos que eu já vira no início do ano em “Além da vida”, de Clint Eastwood. E não sai do cinema insatisfeito.
Na trama, Cécile é Samantha, uma cabelereira que vai cruzar na vida de Cyril (Thomas Doret), jovem que vive em um internato após ser abandonado pelo pai, e começará a cuidar dele. Problemático, Cyril não consegue lidar com a rejeição de Guy (Jeremie Renier), o pai que não quer ter a responsabilidade de cuidar do garoto, que se sente incomodado, mesmo desconfortável com a sua presença. Mesmo quando o menino demonstra todo o seu amor pelo pai, Guy age de forma fria e quer que o garoto suma da sua vida.
Cyril inicialmente não consegue acreditar na rejeição paterna. O persegue insistentemente para desespero dos assistentes sociais do internato. Ao mesmo tempo quer recuperar a sua bicicleta que ele acredita estar na casa do pai, mas que fora vendida.
Recupera-a num ato de bondade de Samantha, que a compra da criança para quem o Guy tinha vendido a bicicleta e a entrega a Cyril. Era o primeiro gesto de um amor gratuito pelo qual Samantha começará a nutrir pelo garoto.
Vislumbrando inicialmente em Samantha uma chance de reencontrar o pai e restabelecer uma relação, Cyril pede a cabelereira para cuidar dele como guardiã nos fins de semana. Sem muita explicação, ela aceita.
Aos poucos, Samantha vai nutrindo uma relação de amor pelo jovem. Por ele, fará sacrifícios financeiros e sentimentais que vão reforçar no garoto, que passará por tantas situações difíceis, um sentimento de companheirismo com Samantha. Ele precisará do amor dela para se reconstruir após tantas pancadas da vida, a maior delas esta rejeição inexplicável do pai. Tem medo nos seus olhos, está perdido, sem qualquer referência e um olhar que reflete uma falta de esperança na vida.
É Samantha quem vai lutar por ele, para que Cyril possa recomeçar e curar as feridas da alma. E depois de tantas turbulências, os dois vão construir uma relação de amor sincero.
Jean-Pierre e Luc Dardenne constroem um filme delicado sobre o amor gratuito de dois desconhecidos. Se Cyril precisava de Samantha, no fim percebemos que a própria Samantha também tinha a necessidade de ter na sua vida alguém como aquele garoto de 11 anos. E a bela atuação de Cécile é um elemento que nos deixa sair do cinema regozijados.
Eu vi Liam Gallagher cantando com o Oasis em um Wembley lotado de ensandecidos, sei lá, vou chutar, 65 mil ingleses e dois brasileiros (eu e um amigo. Não tenho registro de outros). Eles cantavam todas as músicas e iam a loucura jogando copos de cerveja para o alto dando banhos entre si (eu tomei uns dois). Eu não escrevo isso para contar vantagem ou ser pedante. Até porque viajar para a Europa é uma realidade bem mais palpável hoje para a classe média brasileira e em qualquer país do mundo você vê de tudo, o melhor e o pior do indivíduo tupiniquim.
Eu digo isso para mostrar a sensação de estranheza que é ver aquele cara que dizia que cantava na banda mais importante da história desde os Beatles entrando no acanhado Circo Voador para cantar diante de um público infinitamente menor.
E isso não é uma crítica ao Circo Voador. Pelo contrário. Adoro quando tem show lá. Só é estranho ver um cara que ali pelos anos 90 era quase um dos donos do mundo num palco acanhado e diante de uma pequena plateia. Embora efusivamente apaixonada.
O que deve ter passado pela cabeça de Liam Gallagher ao se dirigir de carro do seu hotel para a casa de show? E quando entrou no camarim? E, em seguida, ao passar por um espaço pequeno, entrar por uma portinha para ser saudado pelo seu apaixonado público? Infelizmente são respostas que não tenho. Se tivesse sido malandro como foi uma amiga minha, poderia tê-lo esperado após o show para tentar fazer estas perguntas. Diante de um surpreendentemente simpático Liam, ela até conseguiu uma foto com o cantor.
Mas esta é, por enquanto, a nova realidade de Liam. Aquele show que eu vi em Wembley há dois anos foi um dos últimos do Oasis que após aquela turnê se separaria depois da enésima briga de Liam com o seu irmão Noel. O cantor pegou o que fazia parte do Oasis – os guitarristas Gem Archer e Andy Bell e o baterista Chris Sharrock – e fundou uma nova banda, o Beady Eye. Noel preferiu preparar um disco solo que já é mais elogiado do que o primeiro trabalho da banda do seu irmão, “Different Gear, Still Spending”. Natural. Noel sempre foi melhor compositor do que Liam.
O cartaz lembrando a goleada do City/Marcelo Alves
Mas é com seus defeitos e virtudes que o Beady Eye se apresenta no Circo Voador. Sim, este é o novo Liam Gallagher. Um Liam Gallagher que se apresenta surpreendentemente simpático diante da plateia. Não sei se é o clima do Circo ou se são as doses cavalares de bajulação dos seus fãs, que vestiam camisas do Manchester City, o time do coração de Liam, também acionista do clube, e exibiam cartazes que lembravam uma recente goleada de 6 a 1 sobre o rival Manchester United ou, bem humorados, perguntavam: “Who the fuck are Man United”.
“Vou responder, Man United sucks!”, mandou o cantor após a primeira canção da noite, “Four Letter World”. É o jeito simpático de ser de Liam, que mostrou estar se divertindo em toda a noite. Quando viu o cartaz referente aos 6 a 1 sobre o United já no fim do show, Liam apontou para o alto e fez um “V”. Estava em casa, quase se sentindo no City of Manchester Stadium.
O show do Beady Eye é irregular como o disco. Muitos ficaram contrariados na casa e eu ouvi muitas críticas. De palavras suaves ao bom e velho “que merda”. Não acho que tenha sido para tanto. É preciso entender que esta é uma nova banda de um cantor que avisara previamente que não tocaria uma única canção do Oasis. “Talvez na próxima turnê”, disse em entrevista ao Globo alguns dias antes do show, quando desfilou a sua marra dizendo que já tinha "ótimas" canções para um segundo disco do Beady Eye.
Com o Oasis fora da festa, sobrou a Liam tocar “Different Gear, Still Spending” na íntegra em 1h20min de show. E dai surgem canções que não são tão ruins assim como a própria “Four Letter World”, “The Roller”, uma das primeiras que eu ouvi e gosto, “Bring the light” ou “The beat goes on”. E outras que são dispensáveis e certamente não estariam num show em que Liam pudesse selecionar um repertório maior.
Se fosse qualquer outro artista, aliás, alguém diria que o cantor teria sido ousado ao optar não usar o recurso fácil de cantar músicas de sua banda anterior. No caso de Liam, poderia ser pura marra de um cara que vivia as turras com o irmão. Talvez tentando provar que poderia fazer um disco e um show excelente sem a ajuda do brother. São coisas que só a psicologia pode explicar.
Difícil saber. Só posso dizer que esse toque de ousadia (ou loucura?) de Liam resulta num show morno para aqueles que ainda não conhecem direito o som do Beady Eye. Embora para os fãs, aqueles com camisas do Manchester City e alguns até com corte de cabelo igual ao de Liam, tenha sido intenso. Eu confesso ter ficado surpreso com a quantidade de gente cantando as letras do Beady Eye como se fossem sucessos do Oasis. Para estes, foi um show espetacular.
No final, parece que todos no palco saíram satisfeitos e muitos na plateia também. O Beady Eye não é o Oasis. Nem nunca será. Mas é um recomeço para Liam Gallagher. Quem sabe em breve ele não estará tocando novamente em Wembley.
Set list do show: “Four letter world”, “Beatles and Stones”, “Millionaire”, “Two of a kind”, “For Anyone”, “Three Ring Circus”, “The Roller”, “In the bubble with a bullet”, “Bring the light”, “Standing on the edge of the noise”, “Kill for a dream”, “The beat goes on”, “Man of misery”, “The morning son”, “Wigwam”, “World outside my room”, “Sons of the stage”.
Parece não existir algo que seja impossível para Eddie Vedder. Há seis anos, eu conversava com um amigo e nós chegávamos à conclusão de que nem o próprio Pearl Jam conseguiria superar uma apresentação tão perfeita quanto a que viramos na Apoteose naquele dezembro de 2005. Era a primeira vez da banda no Brasil para uma turnê que passou por diversas capitais e terminaria com pouco mais de 2h30m de um show espetacular que ficaria marcado na memória das 40 mil pessoas que estiveram no local.
“Sambódromo, eu lembro muito bem daqui”, disse o vocalista, se esforçando para falar português durante o show da noite de domingo no mesmo lugar seis anos depois. Lembrou e para recompensar os seus cerca de 35 mil fãs presentes, os anos de espera e todas as emoções que todos viveram naquela noite, Vedder tratou de se esmerar junto com o seus colegas de banda – Mike McCready (guitarra), Stone Gossard (guitarra), Jeff Ament (baixo) e Matt Cameron (bateria) – para tornar aquela noite ainda mais inesquecível.
E conseguiu. Em 2h40m e 30 músicas, o Pearl Jam repassou a sua carreira de nove discos de estúdio, pouco mais de uma centena de álbuns ao vivo e algumas compilações na apresentação que marca os 20 anos de carreira da banda comemorados com disco, documentário dirigido por Cameron Crowe (que ainda não estreou no cinema aqui, mas passou no Festival do Rio), e biografia. É o “Pearl Jam Twenty”.
Mike McCready e Jeff Ament / Site do Pearl Jam
Em uma carreira tão rica e como o show não costuma ter muito mais do que três horas, é claro que sempre vão faltar músicas. Eu gostaria de ter escutado “I am mine”, “World Wild Suicide”, “Porch” e “Animal”, mas tirar qual do set? Não dava para trocar nada. Só acrescentar. Vedder fez com que tudo fosse perfeito de “Unthought Known”, a canção que abriu os trabalhos, a “Yellow Ledbetter”, a que fechou o show com as luzes da Apoteose já acesas e aquela vontade de não ter que ir embora.
Aos 46 anos, perto de completar 47 daqui a um mês e meio, Vedder continua cantando com a alma, como eu gosto de dizer. Seu jeito emotivo de cantar, segurando com as mãos no microfone e com os olhos fechados reforçam a imagem messiânica que os fãs veem no cantor embora ele mesmo não leve isso muito a sério. O resultado são milhares de marmanjos com camisas pretas da banda ou blusas de flanela, um ícone da estética grunge, chorando copiosamente e/ou imitando o cantor ídolo. Enquanto isso, o vocalista olhava feliz para a plateia entre um gole e outro em uma de suas garrafas de vinho que no final do show foi dividida com os fãs do gargarejo. Só faltou alguém dizer que era o sangue de Vedder, o salvador.
Todos querem ser Eddie Vedder e o cantor retribui esse carinho dando tudo de si no palco. Ao seu lado, McCready é o responsável pela maior parte dos solos que fizeram a marca do Pearl Jam. Com frequência dialoga com Gossard levando o público ao delírio enquanto Cameron e Ament completam um quinteto que está entre os mais azeitados do rock.
Delírio é uma palavra que poderia ser frequentemente repetida ao longo da noite. Foram poucas as músicas que tiveram alguma recepção fria. Três, talvez quatro. Na maioria das vezes, muita emoção e letras na ponta da língua, por mais que isso possa parecer impossível diante das difíceis letras do cantor. “Jeremy” ganhou um coro até quando a banda já tinha deixado o palco para uma pausa. “Given to fly” e “Do the evolution” foram cantadas a plenos pulmões, assim como músicas do “Ten”, o disco que tem duas décadas celebradas neste ano. Além de “Jeremy”, foram tocadas “Even Flow”, “Alive”, “Black” e “Why Go”. Do mais recente álbum, “Backspacer” (2009), vieram, além de “Unthought Know”, as ótimas “The Fixer”, “Got Some” e “Just Breathe”, cantada por Vedder apenas no violão. Faltou apenas “Johnny Guitar” para ficar perfeito.
Entre a primeira e a 30ª canção, o Pearl Jam não deixou passar nada. Lembrou todas as fases da sua carreira e ainda fez uma surpresa. “É a primeira vez que cantamos essa música”, disse Vedder, antes de começar a tocar “Mother”, do Pink Floyd. Este foi um dos três covers da noite, que teve ainda “I believe in miracles”, dos Ramones, logo após “Come Back”, música que o cantor explicou ter sido feita em homenagem ao seu amigo Johnny Ramone (“Sinto falta dele todos os dias”), e “Keep on rocking in the free world”, o clássico de Neil Young que o Rio não viu em 2005. Esta e “State of love and trust”, foram aquisições sonhadas pelo público carioca, que finalmente pôde ver a banda tocar as duas músicas ao vivo.
Foi uma noite perfeita que já tinha começado muito bem com o X, banda punk de Los Angeles que Vedder trouxe para abrir os shows do Pearl Jam no Brasil. Noite perfeita e agora sim insuperável. Será?
Abaixo, o set list e alguns momentos inesquecíveis do show. Durante a semana vou colocando mais vídeos aqui enquanto for encontrando no YouTube.
Set list: “Unthought Known”, “Last Exit”, “Blood”, “Corduroy”, “Given to fly”, “Nothingman”, “Faithfull”, “Even Flow”, “Daughter”, “Habit”, “Immortality”, “The Fixer”, “Got Some”, “Elderly woman behind the counter in a small town”, “Why Go”, “Rearviewmirror”. Primeiro bis: “Just Breathe”, “Come back”, “I believe in miracles”, “State of love and trust”, “Off the Earth”, “Do the Evolution” e “Jeremy”. Segundo bis: “Mother”, “Betterman”, “Black”, “Alive”, “Rockin’In the free world”, “Indifference” e “Yellow Ledbetter”.
Pedro Almodóvar é responsável pelo que talvez seja o vilão mais cruel, traiçoeiro e frio que eu vi neste ano no cinema. O cirurgião plástico Robert Ledgard é a personificação da perversão no trabalho que marca o reencontro do diretor espanhol com o ator Antonio Banderas depois de 21 anos. Desde “Ata-me” (1990), Banderas, hoje com 51 anos, não era dirigido por Almodóvar. Nestas duas décadas, o ator colecionou alguns bons filmes – “Entrevista com vampiro” (1995), “A balada do pistoleiro” (1995) – e muitas bombas dispensáveis.
Banderas nunca foi necessariamente um ator fantástico, mas engana direitinho num filme azeitado. É o que acontece em “A pele que habito”. Na nova película de Almodóvar, ele é Ledgard, o tal vilão maquiavélico que eu descrevi acima capaz de traçar e executar um plano tão bizarro e perverso que faz o thriller de Almodóvar dar uma virada de embrulhar o estômago.
Ledgard é um bem sucedido cirurgião que faz experiências transgênicas para criar uma pele que seja resistente a picadas de mosquito e queimaduras. Por trás da obsessão do cirurgião está um dos seus traumas: a morte da mulher, que comete suicídio meses depois de ficar completamente queimada após um acidente de automóvel em que o carro em que ela está com o amante e irmão de Ledgard pega fogo.
Claro que muito do que ele faz não é considerado legal pela comunidade científica. Por isso usa a sua própria mansão para as suas experiências. Entre elas, está manter a misteriosa Vera (Elena Anaya) presa num dos quartos vestindo apenas um collant que cobre o seu corpo todo, cuja pele é, nas palavras do cirurgião, extremamente macia. Uma pele perfeita como a que ele sonhara.
Vera tem papel fundamental na trama de Almodóvar. Dentro do intrincado roteiro escrito pelo cineasta, ela é a personificação da esposa morta de Ledgard, mas quem assiste ao filme descobrirá que ela é muito mais do que uma personagem que atiça os desejos não apenas de Ledgard, mas do seu irmão.
Vera não é o único ponto fraco do cirurgião numa trama cercada de vingança e paixão de um homem frágil e à mercê das mulheres que o cercam. O trauma com a morte da mulher potencializa com o destino semelhante da filha Norma (Blanca Suárez), menina que está em tratamento de uma fobia social, mas acaba quase sendo estuprada numa festa por Vicente (Jan Cornet), jovem que apronta muito em Toledo, mas vai pagar caro por este último ato. Após acordar de um desmaio, Norma acha que foi estuprada pelo pai, tem que ser novamente internada, e acaba dando cabo da vida da mesma forma que viu a mãe fazer.
No thriller de Almodóvar, canções abrem portas traumáticas na mente, os personagens são psicologicamente perturbados e mesmo as mulheres fortes que são a marca de seus trabalhos revelam alguma fragilidade. Todos tem algum ponto fraco que os despedaça, uma carência que fragiliza.
“A pele que habito” é um thriller clássico, mas tem o toque do diretor espanhol nesta sua primeira incursão neste gênero. O bom humor que é uma das marcas dos seus filmes, assim como as cores fortes, são deixados um pouco de lado em nome de um forte clima de suspense. Mas os temas homossexuais e fortes sentimentos de desejo e paixão estão lá expostos em carne viva a cada passo de Ledgard, o vilão frio e calculista que terá o destino clássico em um filme tenso em que Almodóvar tem o mérito de abrir uma nova pasta nos arquivos de thriller da produção cinematográfica.
É impossível não sair incomodado de uma sessão de “A pele que habito”. Almodóvar usa o tema da cirurgia plástica para dissecar a alma e fazer refluir dela o monstro que habita o inconsciente humano. Ou ao menos aqueles que estão entre os mais perversos deles. E o desfecho de sua experiência é um trabalho que resulta num dos melhores filmes do diretor neste século e talvez um dos melhores de sua filmografia.
“Eu faço todo mundo rir, mas quem é que vai me fazer rir?”, questiona o palhaço Benjamin (Selton Mello) numa frase cortante que resume o seu sentimento de crise existencial, insatisfação e sensação de que não faz parte do mundo em que vive. Benjamin está cansado. É um adulto sem carteira de identidade, que não tem endereço fixo, um amor, nem um sentido para a vida. O circo do seu pai, Valdemar (Paulo José), toma todo o seu tempo, suga a sua vida, mas ele não está dando conta. Precisa parar. Parar nem que seja para voltar a um ponto inicial revigorado. Ou não. Buscar outra vida que o deixe mais feliz.
A jornada de Benjamin é o tema central do novo filme de Selton Mello como diretor, “O Palhaço”. Longe da melancolia do seu primeiro trabalho, o ótimo “Feliz Natal” (2008), a nova película de Selton, que também assina o roteiro com Marcelo Vindicato, parceiro do primeiro trabalho, é mais revestida de ternura e uma homenagem ao trabalho de circo e ao artista em geral do que o primeiro parágrafo deste texto pode sugerir.
Sim, “O Palhaço” tem drama. Mas também sabe ser divertido e engraçado. Mostra o valor de sentimentos como amor, amizade e companheirismo e emociona. Pacote completo para todas as idades e gêneros.
De volta a Benjamin. Herói numa trajetória de autoconhecimento, ele é o palhaço Pangaré, artista de circo que junto com o seu pai, o palhaço Puro Sangue, percorre pequenas cidades do interior do Brasil levando o riso às comunidades como a atração principal do circo Esperança. Um nome curioso e contraditório com o momento vivido inicialmente pelo personagem de Selton.
A cada cidade Benjamin tenta descobrir o nome do maluco local, da zona, e do prefeito e sua mulher, sempre cortejados no número principal de sua rotina de fazer rir. Longe do picadeiro, ele tem que administrar um circo que tem seus problemas e com funcionários com suas demandas como qualquer outro lugar pequeno e que vive em dificuldades financeiras se apresentando para plateias minguadas.
Benjamin acha que não está dando conta. Anda com uma maltratada certidão de nascimento, a única prova que ele existe legalmente. Quer tirar uma carteira de identidade para finalmente poder comprar um ventilador à prestação e mudar de ares. Está cansado de andar pelo interior numa máquina caindo aos pedaços e lidar com as corrupções dos tipos bizarros de cada local. Quer se estabilizar, encontrar um amor e dar início a uma nova fase na vida. Está infeliz.
É assim que ele toma a difícil decisão de abandonar o seu pai e a sua família do circo. Distante daquela realidade é que Benjamin vai perceber que aquela é que é a sua vida. Sente saudades da estrada e de fazer as pessoas rirem. E descobre que ser palhaço é que o torna especial e único.
“O Palhaço” é uma bonita homenagem de Selton ao trabalho do artista de circo e todos aqueles que lutam diariamente contra as dificuldades para viver da sua arte. É um filme terno e de muita sensibilidade do ator que vem se transformando num diretor capaz de contar ótimas histórias de uma forma simples e objetiva. Um belo trabalho.
Não tenho a cultura dos filmes antigos de Zhang Yimou. Infelizmente ainda não vi trabalhos como “Sorgo Vermelho” (1987), “Amor e sedução” (1990) ou “Lanternas Vermelhas” (1991). Aprendi a gostar do diretor chinês com três filmes que foram lançados neste século: “Herói” (2002), “O clã das adagas voadoras” (2004) e “A maldição da flor dourada” (2006).
Estes trabalhos mostram uma temática única falando sempre da China do tempo dos imperadores, disputas marciais envolvendo honra, coragem e glória, além de traição, amor e vingança. Eram filmes também que abusavam de cores vibrantes, instrumentos que remetiam a estados de espírito e situações-limite de seus personagens.
“A árvore do amor” não tem nada disso. Mas se eu pudesse traçar um paralelo entre o novo filme de Yimou e estes trabalhos anteriores do diretor é a delicadeza com que o chinês conta as suas histórias. O diretor sempre faz com que sua câmera capte uma expressão ou um cenário que diga muito sem precisar de uma única palavra.
Duas cenas ilustram muito bem o que estou querendo dizer. Em uma delas, Sun (Shawn Dou) está deitando no ombro de Jing (Dongvu Zhou). Atrás de uma carroça que ele improvisou de vestiário para ela para que pudesse vestir um maiô e nadar com ele no rio, ele tem uma expressão terna, mas seu rosto é marcado pelo cansaço de quem trabalha horas a fio e tem raros momentos para descansar. Ao seu lado, Jing o conforta enquanto os raios do por do sol os iluminam.
Minutos depois, Yimou nos presenteia com outra cena magnífica. Sentindo que veria Jing pela última vez na sua vida, ele pede à mãe da moça por um último ato antes de desaparecer: trocar o curativo nos pés queimados dela pelo trabalho na quadra da escola. O que vem a seguir é uma obra-prima. Num quarto pequeno que é praticamente a casa da família dela, Sun se ajoelha, coloca um dos pés da moça em cima da sua perna e começa a enfaixá-lo. No ar, apenas o som de uma marreta usada pela mãe trabalhando sentada em cima da cama. Enquanto segue lentamente o seu ritual, você sente a expressão de Sun mudar e o reflexo disso são as lágrimas escorrendo no seu rosto. Yimou então foca no rosto de Jing que também começa a chorar.
“A árvore do amor” é uma belíssima, tocante e emocionante história de amor baseada numa história real que aconteceu na China da Revolução Cultural de Mao Tsé Tung em meados da década de 60. Naquela época de repressão do governo chinês para neutralizar a oposição, jovens eram mandados para o interior para viver com camponeses e o ensino superior foi praticamente desativado, pois os intelectuais eram potenciais inimigos do governo local.
Foi nesse contexto que o geólogo Sun conheceu Jing, jovem que sonha em ser professora, mas é de uma família vigiada pela “revolução”, pois o pai é de direita e está preso na cadeia. Qualquer erro cometido por Jing pode acabar de vez com a vida de sua mãe e de seus dois pequenos irmãos.
Jing e Sun se conhecem numa viagem que ela faz ao campo. As horas de conversa se transformam numa admiração mútua e no fim de uma tarde fria, o geólogo não consegue mais esconder que está apaixonado por ela. Há uma barreira, no entanto: “Minha mãe não vai me deixar namorar antes dos 25 anos”, ela diz. “Eu espero”, ele responde. “E se ela continuar proibindo?”, ela questiona. “Eu espero a vida toda por você”, ele insiste.
As palavras de Sun são o alicerce que dá base ao amor que vai nascendo entre os dois. É o que os faz driblar as dificuldades e a repressão nos piores momentos para conseguir viver pequenos momentos de felicidade em um país marcado pela sisudez de um regime repressor e onde sorrir é quase uma afronta ao "grande líder". É também o que vai segurar a distância forçada que eles são obrigados a manter pelo bem dela.
Enquanto faz a sua crítica à Revolução de Mao, Yimou mostra um amor sem um único beijo e uma relação tão intensa que vai perdurar para sempre, mesmo após uma tragédia. A China começaria a mudar politicamente, algum progresso viria, e somente uma coisa jamais mudaria: o amor entre Jing e Sun. E no fim, ele acabaria cumprindo a sua promessa.
Eu tenho uma amiga que se tivesse a oportunidade de ter assistido ao show do Eric Clapton viraria para mim e diria: “Ele é um homem phyno" (fino, de classe, para os não íntimos ao neologismo). Gostaria de dizer que isso é propriedade de todos os cidadãos ingleses condecorados com o título de sir, mas não vou me arriscar. Neste diálogo que não aconteceu, no entanto, eu certamente concordaria com ela. Clapton, o guitarrista que teve o nome pichado nos muros ingleses com o hiperbólico apelido de Deus aliado ao seu nome, é um artista phyno.
E um artista phyno se impõe pela sua música. Clapton não chega no palco e diz “I love you Brazil”. Não ensaia palavras em português, não ergue bandeira nem faz qualquer tipo de manifestação brasileirinha. Ele é o que construiu em 48 anos de carreira. Ele é a sua música e os mestres que ele homenageia como Robert Johnson e Willie Dixon, aqueles que o influenciaram e o levaram a se tornar um mestre na arte de tocar guitarra e de compor clássicos.
Após duas semanas de muita papagaiada, muito “tira o pé do chão” e alguma música no circo do Rock in Rio, Clapton nos traz a arte pura. É o contraste mínimo no mundo de excessos do showbizz. Seu “Thank you” aliado a um leve sorriso é o mesmo de dez anos atrás, quando ele lotou uma Praça da Apoteose para fazer um show de despedida de suas turnês internacionais. Show marcado por sucessos, clássicos, e alguma coisa que Clapton gostava, mas que dividiu opiniões, pois “Reptile” (2001), o disco que ele então lançara e justificava a turnê não era dos mais elogiados.
Se o disco não foi agraciado por público e crítica, o show também não receberia os mesmos elogios. Para mim, no entanto, estar ali já era algo mágico. Afinal, se os muros de Londres estivessem certos, não é todo dia que você se encontra com Deus.
Dez anos se passaram e a promessa de Clapton obviamente não se cumpriu (Ainda bem). O guitarrista voltou com uma banda diferente daqueles tempos – Chris Stainton (piano), Tim Carmon (órgão), Michelle John e Sharon White (backing vocals), Steve Gadd (bateria) e Willie Weeks (baixo) –, para lançar um disco melhor do que o “Reptile", "Clapton" (2010), e fazer um show mais intimista, porém, arrebatador.
Aos 66 anos, Clapton trocou o agrado ao público para um show que ele faz para agradar a si próprio como numas férias prolongadas e espera, claro, que o público o acompanhe nessa jornada. Clássicos que fizeram a sua fama, obviamente, estão presentes. Leia-se as baladas “Wonderful Tonight” e “Ode to Love” e os rocks “Layla” e “Cocaine”. “Layla”, no entanto, ganha um arranjo diferente, menos “acústico MTV”, mas também no meio do caminho de sua versão original. O resultado é uma canção mais lenta, com a participação ativa das backing vocals por vezes fazendo a primeira voz, e em outras oportunidades acompanhando Clapton enquanto a bateria de Gadd ganha um trecho quase militar. E Clapton, sentado no banquinho, sola com a sua guitarra Fender Stratocaster azul de uma forma que leva o público ao delírio.
Além de seus clássicos, o guitarrista homenageia outros mestres. Os já citados Johnson e Dixon e até Bob Marley numa versão de “I shot the Sheriff” considerada por muita gente boa melhor do que a original. São 16 músicas do seu repertório de quase cinco décadas de rock and roll. Dezesseis joias para serem apreciadas pelo público sentado em cadeiras (o único ponto negativo), mas que não consegue ficar parado quando o mestre usa a sua guitarra e o seu violão.
Estas joias são estendidas até onde ele acha que elas devem ir. Há solos de teclado, solos de Clapton. Ele está se divertindo no palco, curtindo o momento com a guitarra, que é quase uma extensão dele mesmo. Às vezes a postura pode ser meio blasé, mas Clapton está experimentando e deixando a música o levar.
Eric Clapton é único, faz um show único e leva pouco mais de dez mil pessoas ao delírio. Foi um grande espetáculo no HSBC Arena. E nada mais precisa ser dito. Apenas apreciado nos vídeos abaixo. Uma degustação para phynos.
Set list – “Key to the Highway”, “Going down slow”, “Hoochie coochie man”, “I shot the Sheriff”, “Old Love”, Driftin’Blues”, “Nobody knows you when you’re down and out”, “Lay down Sally”, “When somebody thinks you’re wonderful”, “Layla”, “Badge”, “Wonderful Tonight”, “Before you accuse me”, “Little queen of spades”, “Cocaine” e “Crossroads”.
Quem acompanhou este blogueiro pelo Twitter e por aqui sabe o quanto eu fui extremamente crítico com o Rock in Rio. Afinal, o festival que se encerrou no domingo passado ficará para a história como o que teve as atrações com o pior nível em relação às outras três edições.
Se alguns shows foram para serem lamentados, o festival, porém, teve os seus pontos positivos. Entre elas a oferta de locais para comer muito maiores do que em 2001, por exemplo, e os brinquedos que podem parecer um tanto infantil na visão de alguns, mas ajudaram a distrair o povo que chegava lá na Cidade do Rock cedo e evitava a concentração da galera num determinado ponto.
Outros dois pontos altos foram a Rock Street, espaço inspirado em New Orleans que sempre contou com bons shows, e o Palco Sunset com suas misturas de artistas de diversos estilos. Alguns shows ali foram tão bons que para muitos deveriam estar no palco mundo. Caso da cantora Joss Stone e do Sepultura. Estes dois realmente mereciam um palco maior.
Com o fim dos sete dias de festival, é chegada a hora de fazer aquele balanço dos melhores e piores shows. É claro que não consegui ver todos eles. Estive in loco em três dias e procurei ver o maior número possível de apresentações pela internet nos outros dias.
Se você sentir falta nessa lista, portanto, de nomes como Red Hot Chilli Peppers, Rihanna, Shakira, Capital Inicial ou Snow Patrol, saiba que eles não estão nem na lista dos melhores nem na lista dos piores porque simplesmente foram shows que eu não vi. Das 35 apresentações no Palco Mundo, eu consegui assistir 25. Será a partir daí e de alguns shows no Palco Sunset que escrevo o meu top 5 do bem e do mal nas próximas linhas. Então, parafraseando a atriz Christiane Torloni, vamos às críticas, bebê.
Os melhores shows:
O Metallica fez o segundo melhor show
Quando terminou o primeiro fim de semana do Rock in Rio, parecia impossível tirar o título de melhor show do Rock in Rio do Metallica. A banda tinha feito uma apresentação espetacular na Cidade do Rock, tocando muitos dos seus clássicos e mostrando que os anos passam, mas James Hetfield (voz e guitarra), Lars Ulrich (bateria), Kirk Hammett (guitarra) e Robert Trujillo (baixo) continuam mandando muito bem ali em cima do palco. Só que no último dia tinha o aguardado show do System of a Down. Um sonho antigo finalmente realizado.
Resultado? Daron Malakian (guitarra e vocal), Serj Tankian (vocal), Shavo Odadjian (baixo) e John Dolmayan (bateria) fizeram um show inesquecível. A apresentação estava dentro da turnê de volta do grupo, que fez um show de duas horas calcado nas músicas dos cinco discos lançados entre 1998 e 2005. A banda americana-armênia-libanesa correspondeu à todas as expectativas dos fãs e brilhou no palco da Cidade do Rock. Foi daqueles espetáculos inesquecíveis. De deixar o cidadão horas, dias, inebriado.
Os mascarados do Slipknot se divertiram muito
Assim, a medalha de prata ficou com o Metallica. O bronze? Este foi para o Slipknot. Os americanos fizeram, digamos, o show mais pirotécnico do Rock in Rio com imagens impressionantes que vão ficar para sempre marcadas no festival como a bateria que quase virou de cabeça para baixo e o mosh duplo de um dos integrantes dos mascarados da banda. Ah, e ainda teve a música que enlouqueceu o público. Eles passaram a impressão também de que foram os caras que mais se divertiram no festival. Estavam totalmente à vontade no palco.
Completam a minha lista dos cinco melhores o Motörhead e o Sepultura, que fez um shomzaço infelizmente em um palco menor, o Sunset.
Os piores shows:
Faltaram bons shows, mas sobrou cada bomba neste Rock in Rio que só comprovou a ideia que foi o pior line up da história do festival. Partindo do pressuposto de que Claudia Leitte e Ivete Sangalo são hors-concours porque nem deveriam ter sido convidadas para a festa, vamos à minha lista.
O pior de todos os shows foi o do Glória. A banda de metal conseguiu ser uma das poucas atrações do palco mundo vaiada e ainda perdeu público para o Sepultura que tocou no mesmo horário no palco Sunset por conta de um atraso na programação.
Ali muito pertinho do Glória, o segundo lugar vai para a Ke$ha, Eu não precisei de mais do que cinco minutos para ver o quanto a cantora que tem um cifrão no nome é fraca. Ainda assim, aguentei mais um pouco, tempo suficiente para fazer com que ela entre no top 5 das bizarrices do festival carioca.
O Jamiroquai irritou
O bronze muito bem dado vai para a banda que veio para o Rock in Rio tocar uma única música, mas ninguém percebeu. Com todo o respeito aos fãs do Jamiroquai, mas a sensação que eu tive foi que a música dele é sempre a mesma. E pior do que isso, é chata. Muitos concordaram comigo, porque o que eu vi de gente sentada esperando mesmo é pelo Stevie Wonder enquanto Jay K ficavam com o seu cocar de índio andando de um lado para o outro no palco não foi pouca coisa.
O quarto pior show foi o do Evanescence. Gosto (ou gostava?) da Amy Lee como cantora. Quando eles tocaram aqui em 2007, porém, parte do encanto foi embora. Tudo bem, Amy Lee cantava muito bem, mas a banda, que já não era a mesma dos dois primeiros discos que a levaram ao sucesso, “Fallen” (2003) e “The Open Door” (2006), mostrava pouca coisa no palco. Parecia um grupo desentrosado fazendo escada para a Amy Lee. No Rock in Rio, no entanto, foi ainda pior. Amy Lee fez um show constrangedor. Até ela estava mal. Por isso o quarto lugar na lista do mal.
Fechando o top 5 do horror, não podia deixar de faltar o Guns N’Roses. É triste dizer isso, principalmente porque eu sou um fã de carteirinha da banda, mas Axl Rose pagou um dos maiores micos da sua carreira neste festival. Errou letras, não teve fôlego para cantar outras, e desafinou até no assobio de “Patience”! (Mais detalhes no post abaixo). Realmente foi uma apresentação de chorar que me fez desejar que Axl se aposente mais cedo ou tente cantar outra coisa que não rock. Quem sabe ele não emplaca uma parceria com João Gilberto ou Chico Buarque?
Ah, e vale uma menção honrosa aqui ao Maroon5. Vai fazer show ruim assim lá em Los Angeles.
As decepções:
Aqui não tem como fugir de dois caras que são considerados lendas, mas fizeram shows muito mornos no Rock in Rio. O primeiro é Elton John. Estrela do primeiro dia do festival, o inglês fez um show para lá de sonolento e ainda não cantou “Your Song”, música aguardadíssima pelo público e que estava no set list.
O segundo é Stevie Wonder. Não me incluo entre os que acharam o show do americano espetacular. Achei para lá de meia boca e ainda teve aquela apelação desnecessária dele cantar “Garota de Ipanema” e “Você Abusou”. Numa boa, se eu quisesse ouvir “Garota de Ipanema” pegava um DVD do Tom Jobim ou aquela famosa gravação do Tom Jobim com o Frank Sinatra.
Pelo fim do cover e de manifestações brasileirinhas:
Isso me leva, aliás, a um problema do festival. Acho que tirando o System of a Down quase todas as bandas fizeram algum cover. Para o próximo Rock in Rio espero mais originalidade e menos cópia de músicas alheias, mesmo que seja na roupagem de uma homenagem.
Também gostaria que as bandas e cantores estrangeiros se concentrassem na sua música. Esse negócio de levantar bandeira, vestir camisa da seleção brasileira, dizer palavras em português, cantar música em português ou escrever “Rio” com coraçãozinho é uma grande palhaçada. Duvido que quando eles chegam na França cantem Piaf, gritem “Viva la France” ou entoem versos da Marselhesa. A gente gosta destes caras exatamente por causa da música deles. Não queremos sambinha nem “Rio, eu te amo”. Por isso, tudo o respeito ao System of a Down, que não ensaiou nem um obrigado. Sua música falou por si para fazer o melhor show do festival. No final, só ergueram uma bandeira jogada no palco pelo público, mas em respeito ao fã ali do gargarejo. Assim, em 2013, menos papagaiada e mais música.
Os brasileiros:
O Skank fez um show animado
Não vi o Capital Inicial que sempre faz um show animado. Assim, o que para mim foi o destaque do Brasil (além do Sepultura, que é parte gringo), foi o Skank. Não gosto do Skank, não gosto de suas músicas, mas é preciso admitir que os caras fizeram um belo show. Melhor até do que o da atração principal no seu dia, o Coldplay e seu show sem graça. No palco Sunset, é preciso destacar o showzaço do Matanza com o BNegão. Inesquecível. Assim como o Angra, que ainda tocou junto com a fantástica cantora finlandesa Tarja Turunen.
E a Pitty, me perguntariam alguns? Pitty não entra aqui pela minha total incapacidade de avaliá-la com isenção, embora eu já tenha feito isso aqui em outros posts. Para mim, ela está sempre ótima e fim de papo. E não ouse discordar! Por isso, ela é hors-concours. Mas de qualquer maneira, o show dela foi muito bom e certamente estaria entre os cinco melhores entre os brasileiros.
Entre os brasileiros não gostei do Frejat e da Orquestra Sinfônica reunida com os ex-membros da Legião Urbana. O primeiro porque usou pouco o próprio repertório. E alguém que tem uma história tão rica na música nacional não precisava ser tão tímido. No caso do segundo, a intenção da homenagem foi boa, mas não deu certo. Quase ninguém foi bem interpretando as músicas da Legião Urbana. A galera se empolgou? Claro, eram as músicas de Renato Russo. Mas na análise fria dos fatos, não deu certo, apesar das boas intenções.
É isso. Que em 2013 o Medina escale um elenco mais bem qualificado para o seu festival. Esse ano, o Rock in Rio deixou um pouco a desejar, apesar de alguns bons shows.
Abaixo, os shows completos de System of a Down, Metallica, Slipknot e Motörhead: