Em
seus últimos trabalhos, Clint Eastwood vinha se dedicando a heróis improváveis e traçando um quase memorial de um jeito de ser que o americano se vende para o
mundo. Aquela figura que nos momentos mais improváveis salvará a pátria e
revelar-se-á um grande nome para a história, ainda que apresente seus
problemas. “Sully” (2016) é de certa forma desse jeito. Da mesma forma, “15h17: trem
para Paris” (2018). E mesmo o “Sniper Americano” (2014) apelava para essa narrativa.
Por acaso
ou não, estes estão entre alguns de seus trabalhos mais fracos. Narrativas
óbvias, poucos conflitos e até a ausência de uma história que realmente
merecesse um filme a contá-la. "Sully" tinha conteúdo para, no máximo, um curta metragem.
“A mula” (The Mule, no original),
no entanto, é um retorno de Clint aos seus bons tempos. A história real de um
senhor nonagenário que vira uma mula do tráfico de Sinaloa, no México,
transportando drogas desapercebidamente pelas estradas americanas é um prato
cheio para o trabalho de Eastwood não apenas como diretor, mas também como
ator.
Earl Stone
é aquele anti-herói que costuma render bons filmes. Péssimo pai, péssimo
marido, péssimo avó, Earl dedicou toda a sua vida às flores. Sem perceber,
porém, deixou de dar atenção as três mulheres da sua vida e foi perdendo uma a
uma. A filha, a esposa, e quase a neta, que acaba se transformando na chance de
redenção para ele quando percebe que dedicou toda a sua vida ao trabalho
dirigindo pelas estradas do país, mas nunca deu a atenção merecida à
família.
É
justamente quando vê a sua vida e seu negócio desmoronarem pela chegada da
internet que Earl acaba caindo nas mãos do tráfico. O objetivo do cartel é
fazer mulas circularem pelos Estados Unidos carregando drogas sem serem parados
por policiais. É Earl é um talento exemplar. Em toda a sua vida, nunca levou uma
multa.
Quando
inicia sua jornada pelo submundo do crime, Earl também saboreia um pouco da
vida que tanto deixou para trás. Conforme vai ganhando dinheiro, vai
recuperando um pouco da sua história perdida por uma série de fatores: a casa de onde fora despejado, o clube de veteranos da guerra na Coreia, as datas
importantes da sua família, ainda que sofra muitas resistências.
Earl só
quer recuperar o tempo. Justamente aquilo que ele nunca mais poderá ter ou comprar, pois
encontra-se no fim da vida.
É quase
impossível torcer contra Earl, mesmo sabendo que ele está fazendo algo errado.
Clint Eastwood constrói uma aura de simpatia por aquele senhor frágil que se arrisca nas estradas enquanto busca
um sentido para a vida, mas mais do que isso, redenção. Earl quer a família de
volta, algo que lhe dói profundamente, a ponto de aconselhar justamente ao seu
algoz, o policial Colin Bates (Bradley Cooper) a lembrar que as datas especiais, os
aniversários e a família são importantes.
“A mula”
pode não ser o filme mais brilhante de Eastwood, mas é um trabalho que merece
ser apreciado pela jornada traçada por seu personagem. Ele não traz grandes reflexões, mas é possível encontrar beleza na busca por redenção de Earl.
Nietzsche
certa vez disse que há homens que nascem póstumos. Contemporâneo do filósofo
alemão, embora não se saiba se em algum momento o tivesse lido, o pintor
holandês Vincent Van Gogh talvez tivesse o mesmo sentimento. Um dos momentos
mais interessantes de “No portal da eternidade” (At Eternity´s gate, no original), é a conversa de um Van Gogh
(Willem Defoe) internado no sanatório e o padre vivido por Madds Mikkelsen. Em
meio a reflexões sobre os papéis de Deus e Jesus Cristo, Van Gogh afirma que
talvez tenha nascido na época errada e acabará pintando quadros para
indivíduos que virão.
De fato,
hoje o holandês que teve uma vida cercada de problemas médicos, chegou a
mutilar-se e só conheceu a miséria que não foi absoluta graças à ajuda do irmão
Theo (Rupert Friend), só viria a ser mais fortemente reconhecido após a sua morte. Hoje, é um
pintor celebrado por sua técnica e a maneira vigorosa, exagerada e intensa com
que pintou seus quadros.
Muito do
que vemos em “No portal da eternidade” é a busca de Van Gogh por um elemento
quase divino para a sua pintura. “Eu pinto a luz do sol”, ele diz. É de fato, a
luminosidade do sul da França é o que o ajuda a alavancar a sua técnica. O filme de Julian Schnabel se envolve muito nessa busca pela luminosidade. São
muitas as formas e lugares de onde Van Gogh olha para o céu para buscar a luz
perfeita e pintar de uma forma nunca antes vista.
E quanto
mais mergulha nessa luz, curiosamente Van Gogh cai nas trevas da sua própria
mente confusa e irrequieta. Nem o irmão, nem o amigo Paul Gauguin (Oscar Isaac) conseguem tirá-lo
desse estado, que acaba por ser natural.
O período
em que Gauguin, aliás, vai para Arles gera outra das cenas boas do filme, que é
justamente o debate entre os dois sobre pintar o que se vê da forma que se
quer ver, como Van Gogh, e pintar criativamente a partir do que se está na
cabeça, que é o que defende Gauguin. Obviamente não há conclusão. São apenas
pontos de vista interessantes.
Infelizmente,
“No portal da eternidade” repete-se demais no ciclo pintura, loucura de Van
Gogh e não revela novas camadas ou reflexões sobre o pintor. Da mesma forma não
trás novas interpretações sobre a sua misteriosa morte, algo mais bem
trabalhado na excelente animação “Loving Vincent”.
A
participação de Defoe no papel principal até justifica sua indicação ao Oscar.
O ator convence no papel de um Van Gogh que não está em nenhum momento no seu
lugar e que vive desesperadamente para pintar, o seu único talento, aquele que lhe foi concedido por Deus.
Mas se
“No Portal da eternidade” nos dá algumas belas cenas pela luz do sol, deixa a
desejar com a sua narrativa baseada numa cinebiografia convencional
e naqueles insights de sempre de gênios. Sofrimento, prazer, queda, redenção,
morte.... Van Gogh merecia mais do que apenas isso.
É
possível analisar “Green Book” sob alguns pontos de vista. É um filme que trata
sobre o racismo. Mas é também um road movie que fala sobre uma amizade
inimaginável. É também um filme que esgarça o preconceito da América profunda,
em especial do Sul dos Estados Unidos. É ainda um filme sobre um personagem que
não se encontra em nenhum ambiente por estar na rara posição do negro
privilegiado e sente uma profunda solidão por isso. Nada disso é original. Nada
disso é algo sobre o qual outros filmes não falaram na história do cinema. Mas
quão deliciosa, incomoda e interessante é acompanhar a jornada do pianista Don
Shirley (um brilhante Mahershala Ali) e seu motorista e capenga Tony Vallelonga
(Viggo Mortensen, igualmente maravilhoso).
Particularmente,
“Green Book” tem de mais interessante em dois dos pontos acima. O primeiro é
está relação tão improvável entre Tony, esse italiano bronco e simplório que vê
o mundo de forma tão obtusa e direta, separando pessoas em tribos com seus
próprios costumes arraigados e que não se misturam, e Shirley, um negro de educação erudita, que vive como um rei isolado no topo do Carnegie Hall. E é incrível que mesmo em
tamanha ignorância ele tenha feito Shirley enxergar o quão afastado dele mesmo
ele estava.
A
história do filme de Peter Farrelly é real. De fato nos anos 60, Shirley era um
pianista virtuoso e muito popular que resolve excursionar pelos cantos mais
racistas da América. Seu objetivo? Tocar o coração das pessoas.
Mas quão
difícil é romper barreiras históricas e tão arcaicas. Shirley precisa passar
por situações simplesmente ridículas. De noite, ele é um pianista brilhante aplaudido
por todas as plateias brancas e ricas. Mas durante o dia é só mais um negro que
não pode comer no mesmo restaurante da sua plateia ou usar o mesmo
banheiro.
Por mais
que o filme não retrate o inferno que era ser um negro naquela região - e seu
nome vem justamente de um guia de sobrevivência por aquela região - , ainda
assim é cruel, quase nojento para quem acompanha ver tudo pelo qual Shirley tem de passar para manter viva a ideia da sua turnê. É importante, no entanto,
como o próprio personagem afirma, “manter a dignidade”. Só pela dignidade se
vence o preconceito raivoso.
Mas
“Green Book” não se prende apenas na pura denúncia de racismo de uma região da
América. É no incômodo e na distância que o próprio Shirley sente entre seus pares que o filme
expõe seus sinais de grandeza. É ao mostrar que ele não é negro suficiente para
estar entre os seus, nem branco nem homem suficientes para ocupar outros grupos, que “Green Book” expõe a
terrível solidão de um homem que se vê no meio do caminho de um triângulo sobre
o qual ele não tem as habilidades, ou as supostas qualidades, necessárias para ocupar nenhum vértice.
Numa
sociedade fragmentado que precisa de rótulos Shirley não se encontra jamais.
Não se conecta a nada e sente-se isolado em todos os ambientes. Sua companheira mais fiel é uma garrafa de bebida alcoólica cara, que o mantém distante de todos e mergulhado ainda mais na solidão.
Quem são seus
pares? Não são os brancos que o odeiam quando está fora do palco e o negam até
o direito de experimentar um terno numa loja. Não são os negros, com quem ele
não se conecta justamente por não compartilhar da mesma cultura rica, mas diferente da sua
educação vinda do piano clássico, e por vestir ternos caros e bem
cortados.
Para ele, aproximar os dois lados exige um instrumento de conciliação pela música. Daí a sua turnê tentando repetir algo semelhante que Nat King Cole tentará uma
década antes. Seu objetivo é tocar o coração das pessoas e aproximar os
vértices tão afastados apelando ao senso de humanidade. Para, talvez, sentir-se
menos só. Mas também ajudar a mudar a sociedade.
O trabalho,
porém, é lento e gradual. E na grande amizade que Shirley constrói com Tony, um
homem que se mostra racista no início do filme, mas cuja amizade e parceria com
Shirley vai crescendo ao longo da turnê, é que o seu sucesso pode se fazer
presente.
“Green
Book” fia-se muito nos excelentes trabalhos de Ali e Mortensen. Não é por acaso
que ambos receberam merecidas indicações ao Oscar. O primeiro comprova o
excelente momento que está vivendo dois anos após receber a estatueta de
coadjuvante por “Moonlight” (2016). Seu trabalho na terceira temporada de “True
Detective” também merece elogios. O segundo é um ator que está em sua terceira
indicação ao Oscar e quase sempre faz bons trabalhos.
Mas para
além disso, é uma ótima história e tão necessária de ser contada em tempos em
que o racismo e o preconceito em geral contra diversos tipos de povos, etnias,
orientações sexuais e religiões estão infelizmente tão vivos. São feridas que
ainda sangram demais quando deveria-se trabalhar para construir uma sociedade mais
justa e equilibrada para todos. Se cada um procurasse criar pontes como as que
uniram Shirley e Tony, talvez este fosse um planeta menos solitário, mais rico
e mais interessante de se viver para todos.
Indicações ao Oscar: Melhor filme, ator (Viggo Mortensen), ator coadjuvante (Mahershala Ali), roteiro original e edição.
Muitos
filmes alemães refletem sobre o período entre guerras. Mais especificamente
sobre a segunda guerra e o domínio nazista. Florian Henckel Von Donnersmarck
parece gostar de refletir sobre o quanto a realidade deste período influência o
trabalho de um artista. Pelo menos é o que mostra seus dois filmes alemães. Se
“A vida dos outros” (Das Leben der anderen, 2006), era sobre um autor de teatro
perseguido e que soube driblar a censura e vigília da Stasi, a polícia da
antiga Alemanha Oriental, seu mais novo filme, “Nunca deixes de olhar” (Werke ohne autor, no original), é um
pouco sobre um artista em busca da sua própria identidade em meio a uma vida e a própria Alemanha fragmentária.
“Nunca
deixes de olhar” é um filme brutalmente lindo. Conta a história do jovem Kurt Barnert (Tom Schilling),
que desde pequeno demonstra um grande talento para pintar, mas cresce com
dificuldades numa Alemanha prestes a entrar na Segunda Guerra Mundial.
Estávamos
em 1937, Adolf Hitler era um líder assustadoramente idolatrado pelas massas
enquanto por trás dos panos o governo nazista conduzia uma política terrível de
purificação da população. Qualquer pessoa que mostrasse algum problema físico
ou mental era eliminada. A ordem aos médicos era expressa: a vaga nos hospitais
era apenas para os arianos puros que possam transformar a Alemanha numa raça
perfeita.
É por
causa disso que Kurt se vê diante da sua primeira tragédia: a perda da tia, grande incentivadora do seu talento e de espírito puramente
artístico, mas que supostamente sofria de esquizofrenia.
E a
partir desse momento que as histórias das famílias de Kurt e do professor Carl Seeband (Sebastian Koch) começam a se cruzar. Seeband é um ginecologista famoso que dirige
a clínica de Dresden onde sua tia foi assassinada. Mais à frente, Kurt acabará
entrando para a família do professor a partir do namoro com Ellie (Paula Beer), jovem
estudante de moda da Academia de Artes de Dresden.
Cada um
deles encontra uma forma de sobreviver a mudança do regime ditatorial. Do
nazismo para o socialismo soviético, o professor conta com a sorte para
garantir a proteção de um general e a retomada da sua vida de bonança ao mesmo
tempo em que apaga o seu passado nazista. Kurt, por sua vez, trabalha duro. Os
primeiros passos da sua arte são escrevendo letras em uma fábrica de placas.
Daí, ele ganha incentivo para a escola de Belas Artes e vai galgando trabalhos
graças ao seu talento.
Kurt,
porém, nunca se mostra satisfeito. Von Donnersmarck faz questão de mostrar que
não importa o regime. Quando a arte não é livre, ela não é genuína. Se os
nazistas faziam questão de ridicularizar a arte moderna, os Kandinskys e tudo o
que apresentava uma postura crítica, os soviéticos faziam questão de negar os
artistas que não pensavam no comunismo e no bem do proletariado. Picasso era o
maior exemplo do que não se seguir.
E no meio
disso, Kurt parecia cada vez mais insatisfeito com seus murais exibindo a
glória do trabalhador de foice e martelo. Tudo era falso, tudo era irreal, tudo
era sem identidade. Era preciso mudar para buscar a verdade. A verdade que ele tanto persegue com afinco no filme.
Assim,
Kurt e a namorada vão em busca de um mundo todo novo no lado ocidental antes da construção do Muro de Berlim. Buscar
a verdade acaba sendo a senha para Kurt se mudar e refletir sobre a pureza das
imagens a partir de fotografias antigas. Mas até lá, há um longo processo de
aprendizado, desconstrução, destruição, recriação.
Entre os
méritos do filme de Von Donnersmarck é o de mostrar essa jornada dolorosa que é
a da criação. E de como o meio, o ambiente e a bagagem de vida do artista pesam
demais sob a sua obra.
É curioso
que o diretor tenha optado também por fugir do caminho fácil da revelação
hollywoodiana. Apenas nós enquanto espectadores e, no fim, Seeband,
sabemos da conexão de dor e mortes que liga o professor a Kurt. O personagem
principal nunca sabe disso, mas a sua obra acaba por se revelar, por
coincidência, de uma enorme força a partir destes eventos. Talvez a arte tenha
um aspecto divino que nunca conheceremos de criar conexões inimagináveis.
“Nunca
deixes de olhar” é uma saga muito bela e com merecidas duas indicações ao
Oscar. É um filme que merece ser apreciado pela força dessa jornada de Kurt e
pelas transformações que a arte provoca.
Indicações
ao Oscar: fotografia e filme estrangeiro.
Eu
não sei se desde 2000, quando lançou “Corpo Fechado” (Unbreakable, no original), M. Night Shyamalan tinha
essas duas perguntas na cabeça: “E se o mundo realmente tivesse super-heróis?
Como eles seriam?”. Ao lançar o ótimo “Fragmentado” (Split), há dois anos, porém,
parecia cada vez mais clara a ideia do diretor de criar a sua própria trilogia
de super-heróis original em uma indústria em que boa parte do faturamento tem
vindo das adaptações dos quadrinhos da Marvel e da DC.
Agora que
“Vidro” (Glass, no original) o terceiro tomo de sua história chega aos cinemas,
o sentimento que fica é o de frustração. Entre a tentativa de ironia e a de
construir uma mitologia própria, Shyamalan se perdeu no meio do caminho em um
filme que deixa demais a desejar e com um roteiro que não soube para onde ir.
“Vidro”
ganharia mais se girasse em torno da ironia que Shyamalan tenta criar em
diferentes passagens do filme. Da forma como ele zomba das histórias de
super-heróis, como ironiza a Marvel (citada a partir da capa de uma revista) e
os roteiros destes mesmos filmes e dos próprios quadrinhos. Principalmente a
partir da obsessão do Mister Glass (Samuel L. Jackson) sobre o tema.
Mas
ironia requer sutileza e o terço final do filme é conduzido de forma tão pesada
pelo diretor que ele perde a mão e transforma tudo numa caricatura. E, pior,
leva-se a sério para criar toda uma mitologia nova no que seria a sua história
de origem particular a partir de um grupo comandado pela doutora Staple (Sarah
Paulson). Talvez essa até fosse sua intenção. Mas penso que não funcionou a contento.
No meio
disso tudo, até o trabalho brilhante de James McAvoy, fazendo um homem de 24
personalidades tão diferentes fica meio perdido. Muito da força do seu
personagem é apagada ao transformá-lo num mero capacho de Glass, o eterno
antagonista do Vigilante (Bruce Willis).
De fato,
os três personagens principais estão apáticos e sem qualquer química. Mas o pior de tudo está na
presença natimorta dos três personagens que são os braços direito dos três
protagonistas. Casey (Anya-Taylor Joy), a sobrevivente do cativeiro da Besta,
Joseph (Spencer Treat Clark), filho de Dunn, e Mrs. Price (Charlayne Woodard),
mãe de Glass, figuram entre o nada e coisa nenhuma em interpretações
sofríveis.
Por fim,
temos toda uma trama num hospital psiquiátrico que funciona apenas como cortina
de fumaça para um grupo de pessoas sobre os quais nada se sabe. Uma
interrogação que Shyamalan deixa no ar para o que talvez seja um projeto
futuro, mas que também mata a proposta que se tentava levar entre o descrédito
e a aceitação dos poderes. Há uma tentativa de vários plot twists que não funcionam em nenhum momento.
E com
isso, “Vidro” caminhou para uma grande decepção. Um delírio de Shyamalan que
tinha tudo para dar certo ao fim de “Fragmentado”. Que gerou expectativa. Mas
cujo resultado frustrou quase como os vários trabalhos ruins do diretor.
Vendo
o trailer um pouco antes do seu lançamento, “Vox Lux” pareceu-me um cruzamento
de “Cisne Negro” (2010) com “Nasce uma estrela” (2018). A alusão ao primeiro
filme tinha uma clara relação com o fato de ser também estrelado por Natalie
Portman em um papel de uma artista. Lá, uma bailarina. Aqui, uma estrela pop.
Já a comparação com o segundo filme vinha mais pela temática de falar sobre uma
cantora pop.
“Vox
Lux”, porém, fala mais sobre a decadência de uma estrela, enquanto “Nasce uma
estrela” é mais sobre a ascensão de uma cantora em meio à queda do seu namorado
também cantor.
Grosseiramente
falando, é sobre isso que o filme fala. O difícil é encontrar no trabalho de
Brady Corbet uma estrutura narrativa para além desta visão clichê. E também uma
reflexão sobre o que o diretor pretendia dizer com todos os elementos que
reuniu neste filme.
Falta
profundidade a “Vox Lux”. O que Corbet queria dizer ao associar atentados e a
violência brutal do terrorismo e dos assassinatos em massa com a história de
uma garota que desde cedo torna-se uma estrela pop? Celeste é fruto da
violência por estar numa escola atacada por um garoto nos mesmos moldes de
Columbine? Por isso quer virar uma estrela pop? Para levar alegria aos fãs em
meio as dores da violência?
A
violência está sempre presente na sua carreira. O início pôs-atentado na
escola, o meio durante o ataque às torres gêmeas do World Trade Center em 2001 e
o renascimento quando tem que lidar com um atentado na Croácia que se assemelha
muito ao ocorrido numa praia da Tunísia em 2015. E o que isso tudo tem a ver
com uma estrela mirim que vira mãe muito jovem e torna-se uma adulta inconsequente,
drogada e alcoólatra, mas ao mesmo tempo uma diva pop cheia de fãs?
Corbet
não deixa claro sobre o que pretende com o seu filme. E nem se pretende deixar
no ar temas para o espectador refletir por si mesmo. Na verdade, “Vox Lux” é
uma grande confusão que não aponta para uma direção sequer.
Enquanto
isso, Natalie Portman tenta defender o seu personagem com garra. Nunca a vimos
tão cheia de trejeitos. Sua Celeste é uma caricatura das estrelas pop, mas o
caminho do sarcasmo parece só tomado por ela e não acompanhado pelo filme, que
ainda conta com um Jude Law raras vezes apático no papel do empresário de
Celeste.
“Vox Lux”
ainda encerra com uma longa tomada de um show, que me lembrou o constrangedor
final de “Bohemian Rhapsody”. Se havia algum recado a dar naquele momento, seja
pela performance, seja pelas mensagens passadas no telão, elas não foram
devidamente claras. Ou sequer simbólicas. Foi um grande nada.
A
sensação que fica é exatamente a desse vazio que “Vox Lux” passou. Poderia ter
sido melhor, mas foi um desperdício de tempo.
Há
alguns meses, Robert Redford anunciou que estaria se aposentando. Seu último
filme como ator seria “O cavaleiro com arma” ("The old man & the gun, no original), trabalho em que o ator de 82 anos
interpreta a história real do assaltante de bancos Forrest Tucker.
O papel
de Tucker, que viveu toda uma vida de crimes e escapou de 17 prisões até a sua
morte em 2004, é o canto do cisne de um ator que sempre foi conhecido por sua
classe e altivez aliado aos conhecidos olhos azuis que estamparam as telas dos
cinemas por mais de cinco décadas.
“O cavaleiro
com arma” é um filme delicioso de acompanhar e feito sob medida para Redford
brilhar. O diretor David Lowery aproveita todas as sutilezas, o minimalismo e o
meio sorriso de Redford para contar uma história incrível com um estilo
clássico de filmar, que emula os grandes filmes dos anos 70.
Redford
está impecável e merecia uma indicação ao Oscar, prêmio, aliás, que ele só
venceu uma vez como diretor por “Gente como a gente” (1980). Ele ainda foi
indicado como ator por “Golpe de mestre” (1974), e como diretor e pelo filme
“Quiz Show - a verdade dos bastidores” (1994).
A
história de Tucker é tão improvável que é até difícil acreditar que tenha sido
real. Ele roubou mais de uma centena de bancos em sua carreira de crimes. Tudo
sem dar um único tiro - há quem diga que ele sequer tenha disparado a sua arma
- e sempre usando a mesma abordagem. Sendo gentil, cavalheiro e sorrindo e
acalmando as vítimas impassíveis diante de suas feições idosas e seu termo
impecavelmente cortado.
Redford
encarna brilhantemente este tipo sedutor que usa tão bem as poucas palavras que
profere da mesma forma que tem uma irresistível arte para roubar bancos. A vida
do crime era a maior prazer para Tucker, que aparentemente só se sentia livre na
eterna briga de gato e rato com a polícia. Tanto que não conseguiu sossegar na
vida pacata com a sua terceira esposa, Jewel (Sissy Spacek).
Lowery também aproveita o filme para fazer uma homenagem a Redford. Ao ilustrar as
cenas de diferentes fugas de Tucker, o diretor usa cenas de filmes antigos do
ator, numa jogada brilhante, bem como um belo trabalho de pesquisa.
O sucesso
do filme, que lhe rendeu até uma indicação ao Globo de Ouro de ator, pode ter
feito Redford repensar a sua aposentadoria. Pelo menos é o que diz o diretor do
filme. Mas se este foi mesmo o seu último trabalho como ator, que belo capítulo
final teve a sua cinebiografia.
Muitas
definições já foram escritas sobre a arte. Em geral, o fazer artístico
divide-se entre os que advogam por um talento natural as margens de um dom
divino e os que afirmam a necessidade do suor para lapidar o talento. “A
professora do jardim de infância” ("The kindergarten teacher", no original) é uma história de frustração e de uma luta
constante contra o sentimento de vazio e de inoperância por não ser nada daquilo que se
almejava. E o que todo aspirante a arte mais almeja é o reconhecimento de seu
talento e obra.
Lisa
Spinelli (Maggie Gyllenhall) não tem ambos. Seus poemas são medíocres como a
vida que ela acha levar. Ela é uma professora de jardim de infância com uma
família tipicamente burguesa que leva uma vida que, para ela, é sufocantemente simples.
Lisa é muito boa como professora e mãe, mas a frustração do seu olhar a cada
rabisco torto no caderno prova que ela não está satisfeita com a vida que
leva.
As aulas
de um curso noturno de poesia servem para remexer a artista dentro dela e, quem
sabe, despertar de vez a sua veia natural. Quão frustrante é para ela
compreender a constatação de seu professor, Simon (Gael Garcia Bernal), de que
há um abismo entre o artista e o diletante, o apreciador da arte.
Lisa é a
diletante. Artista é o seu jovem aluno, de seis ou sete anos. Jimmy Roy (Parker Sevak)
parece um “Paterson” (2016) antes de se tornar adulto. Tem um talento natural para
fazer poesias com a profundidade que uma criança raramente alcançaria. E quão
incrível é a atuação do jovem Parker, que declama os textos profundos com inocência e olhar infantil.
Jimmy é
um talento raro que Lisa quer lapidar, mostrar ao mundo. O problema é que ela
coloca suas frustrações a serviço de Jimmy, ao invés de fazê-lo desenvolver-se
naturalmente. Assim, canibaliza-o enquanto se perde em mentiras até o
melancólico desfecho dessa professora que não pôde apenas incentivar de forma
correta o seu aluno, pois queria projetar-se sobre ele e ver alguém da sua
órbita ser grande e não medíocre como ela acha que ela e a sua família
são.
Boa parte
da força de “A professora do Jardim de infância” está no trabalho de Maggie. É
uma de suas melhores atuações. Ela transpõe por cada poro do seu corpo a
frustração e o inconformismo de ser Lisa, a mera professora de crianças. O olhar vazio
a cada poema rejeitado e visto como medíocre contrasta com o brilho dos seus
olhos ao contemplar cada poema de Jimmy. A criança é o seu mundo. O problema é
que nada do mundo dela lhe pertence. O que provoca uma espiral de dor e
contrariedade quase insuportáveis para ela.
“A
professora do jardim de infância” é baseado num filme original israelense de
2014. Não tenho base para comparação, mas é possível dizer que o trabalho da
diretora Sara Colangelo é uma agradável e incômoda experiência sobre a frustração de
ser um diletante e nada além disso. Dói. Deve doer mais ainda aos que não
convivem bem com isso.
Lars
von Trier acha que não há história que não mereça ser contada. Partindo dessa
premissa, o diretor dinamarquês, um dos expoentes do movimento Dogma, caminha
pelos lugares mais obscuros da alma em busca do que há de mais podre na
humanidade. “A casa que Jack construiu” ("The house that Jack built”, no original), pode
ser visto como um resumo de tudo o que é o que tem sido o seu cinema nas
últimas décadas. Também são 2h35min de um filme que só reafirmaria a visão de
seus críticos sobre o seu comportamento doentiamente misógino e seus flertes
com o extremismo. E lembremos que Von Trier já declarou “compreender Hitler”, o
que o fez ser expulso de Cannes quando do lançamento de "Melancolia" (2011).
“A casa que Jack construiu”, pode, portanto, ser visto por, no mínimo, dois prismas. Comecemos
pelo primeiro.
O novo
filme de Von Trier pode ser encarado como um exercício sobre a maldade sem
consequências. Na história, Matt Dillon é Jack, um engenheiro com ambições de
ser arquiteto que sonha em construir uma casa tão perfeita que parece sempre
impossível de construí-la. Mas Jack também é um serial killer, que em 12 anos
matou mais de 60 pessoas sem nunca sequer ter sido pego pela polícia.
Ao longo
do filme, Jack vai desenvolvendo uma teoria numa conversa com uma entidade
chamada Verge (Bruno Ganz) sobre o quão artística é a sua vida de crimes.
Defende que a arte vem da dor e da maldade enquanto Verge entende a arte como
fruto do amor. Esse diálogo de oposições vai mapeando todo o filme a cada ato cada vez mais hediondo de Jack, sempre acompanhado pelo olhar atento, porém, plácido, de
Verge, personagem que só no fim entendemos qual é o papel. E é curioso que este
personagem tenha sido feito pelo mesmo ator que interpretou Hitler em “A queda”
(2004). Difícil crer que foi uma escolha casual.
A cada
assassinato de Jack, Von Trier vai ilustrando como a maldade é banal e como o
desespero de cada um é tão solitário e não encontra eco e nenhuma
solidariedade. Ele é o Senhor Sofisticação e desenvolve crimes perfeitos contanto com
a inoperância da população ao redor e a lentidão das autoridades.
Ao mesmo
tempo, Von Trier desenvolve a tese de que o serial killer é um indivíduo que
nasce com a maldade nele e sempre deixa pistas a cada crime. Pois ele quer ser
encontrado, descoberto. Existe uma vaidade nessa briga de gato e rato, pois o
assassino em algum momento quer ser descoberto para ter a sua “obra de arte”
finalmente divulgada e ganhando público e notoriedade.
Ao mesmo
tempo, o diretor expõe que nós, enquanto espectadores, adoramos estas histórias
e adulamos assassinos. É quando o diretor expõe as imagens de ditadores e
assassinos em massa como Hitler, Mussolini e Stalin.
O filme,
porém, acaba escorrendo no fim por uma longa vertente bíblica que pareceu
destoar um pouco da proposta inicial. Tivesse se mantido na sutileza das
conversas entre Jack e Verge com um desfecho menos longo, ele teria algo melhor
a oferecer.
Mas é
impossível enxergar “A casa que Jack construiu” sobre outro prisma. A da misoginia de Von
Trier. No filme, Jack conta que assassinou todos os tipos de pessoas, mas é a
história de seis mulheres que ele resolve contar para Verge, aquelas que lhe
dão um certo prazer. Uma delas, ele considera a sua grande obra de arte, quando
trata uma mãe e seus dois filhos pequenos como caça e os solta num descampado
apenas para brincar de tiro ao alvo com eles. Mas é a mulher que ele resolve
torturar psicologicamente antes de oferecer a ela um fim trágico.
Von Trier
é um conhecido torturador de mulheres e parece não ter nenhum problema em expor
isso. Numa passagem do filme, quando Jack está prestes a matar Simple (Riley Keough),
nome que por si só é uma enorme agressão e reducionismo à mulher que ele dizia
até gostar, o diretor chega a expor um subtexto no roteiro falando da injustiça que é sempre culpar os
homens de tudo, enquanto as mulheres são sempre vítimas. Em tempos
de #MeToo, denúncias de assédio e um necessário chamado ao protagonismo
feminino, Von Trier vem nos dizer que está pouco se lixando para isso. Para que isso se não expor uma necessidade de ser polêmico apenas pela polêmica em algo que nada acrescenta ao filme?
Simple é
agredida verbalmente, humilhada e tem a mais terrível e sádica das mortes. E que reverbera durante o filme, pois Jack transforma um dos seus seios numa
carteira.
Mas como
eu dizia, Von Trier é um conhecido torturador de mulheres no cinema. Nicole
Kidman é humilhada para além do limite em “Dogville” (2003), provocando um enorme
incômodo. Chalotte Gainsbourg é igualmente levada para além de todos os limites
em “Anticristo” (2009) e nos dois volumes de “Ninfomaniaca” (2013). Björk é igualmente
humilhada em “Dançando no Escuro” (2000). A cantora islandesa, inclusive, teve
problemas de relacionamento com o diretor. E em “A casa que Jack construiu”, Von Trier
expõe suas mulheres ao máximo de dor e horror. Não apenas com Simple ou uma das mulheres sem nome,
mas também com a primeira vitima (Uma Thurman), assassinada com um golpe de macaco enquanto o diretor faz questão de expor o enorme buraco na cabeça da personagem
causado pela peça do carro.
Alguns
poderiam dizer, e não deixa de ser um argumento válido, que tudo não passa da
arte de Von Trier. Que as atrizes continuam topando trabalhar com ele e, no
caso de Charlotte, fazem até mais de um filme. Mas quando se trata de deixar de
ser algo pontual para virar uma marca, e uma incômoda marca, pois não é um
traço de estilo, mas um discurso de ódio imputado em seus trabalhos, torna-se
um problema.
Assim, “A casa que Jack construiu” não acrescenta nada de muito novo à cinebiografia de Von Trier,
que segue soltando suas faíscas do estilo-Dogma de filmar, e fazendo suas
histórias seguirem o mesmo looping narrativo de trabalhos anteriores. De
interessante mesmo só o trabalho de Dilon no papel principal. Se há uma
centelha de valor no filme, está no olhar sádico-enfadonho que ele estabeleceu
para o seu Jack e no proveito que ele teve das ironias do texto para usar no
seu personagem. Mas ainda assim, “A casa que Jack construiu” está longe dos melhores
trabalhos de Von Trier.
“Creed”, o filme de Ryan Coogler
lançado em 2015, de certa forma renovou a franquia de Rocky Balboa ao apresentar
um novo protagonista e dar prosseguimento à vida do lutador interpretado por
Sylvester Stallone, agora no papel de treinador e mentor de Adonis Creed
(Michael B. Jordan), filho do ex-campeão e amigo de Rocky, Apollo.
Tão elogiado, o filme chegou a
ter uma surpreendente, mas merecida indicação ao Oscar para Stallone pelo seu
papel de um Rocky ainda tentando reencontrar seu papel no mundo e sentindo-se cada
vez mais só anos após a morte de sua eterna amada Adrian, interpretado pela
atriz Talia Shire em todos os filmes da franquia até a morte da personagem.
O sucesso de público e crítica do
primeiro filme provocou um natural desejo por uma continuação. Não mais com
Coogler como diretor, que depois passaria a se dedicar ao elogiado “Pantera
Negra” e sua continuação, ainda sem data de lançamento prevista, mas com Steven
Caple Jr. “Creed II” é apenas o seu segundo longa-metragem como diretor e é uma
cópia quase fiel de “Rock IV”.
Talvez não seja por acaso que o
roteiro de Stallone e Juel Taylor fosse revisitar a história mais “nacionalista”
de Rocky para contar a história da continuação da vida de Adonis Creed, agora
um campeão mundial em busca de novos desafios e enfrentando mudanças na vida
pessoal - a possibilidade de trocar a Filadélfia por Los Angeles, o
casamento com a cantora Bianca (Tessa Thompson). O objetivo parece ser atrelar
ainda mais a trajetória de Adonis a de Rocky, mostrar ele enfrentando os mesmos
desafios e apelar à memória afetiva dos fãs da franquia. Eles viram o confronto
de Apollo e Rocky com Ivan Drago (Dolph Lundgren), agora querem ver os filhos
se enfrentando. E, convenhamos, na história do esporte, este tipo de
narrativa é bastante comum.
Por outro lado, justamente por
esse apelo a um mundo que não mais existe nas configurações de 1985, ano do
lançamento do quarto filme do pugilista vivido por Stallone, “Creed II” já nasceu
um pouco datado. Quando “Rock IV” foi produzido, o mundo vivia os anos finais
da Guerra Fria, ainda havia muro de Berlim e a natural polarização entre
Estados Unidos e União Soviética. Incontáveis foram os filmes em que os russos
eram os vilões e os americanos salvavam o mundo nas mais de quatro décadas de
cinema durante aquele período. “Rocky IV” foi só mais um. Naquele filme, Rocky
Balboa via o seu amigo Apollo ser assassinado no ringue por Drago e busca uma
revanche contra Drago na Rússia, casa do inimigo, para vingar a pátria americana.
Tudo com direito a trilha sonora heroica, treinamento heterodoxo e uma clara
visão de hostilidade por parte dos soviéticos. Só o Stallone, aliás, encarnou
dois heróis de sucesso desta época da Guerra Fria. Além de Rocky, o próprio
Rambo, cujo quinto filme tem previsão de lançamento para este ano.
Naquela época de “Rocky IV” havia
um contexto geopolítico, que por mais que fosse maniqueísta, ajudava a criar
uma polarização, embora tacanha, de Ocidente x Oriente, EUA x URSS. O contexto
hoje é um pouco diferente. Heróis e vilões, se fosse possível ver a política
desta forma, estão mais amalgamados do que outrora. Até porque o volume de
informação circulada, bem como de fontes, é bem maior, o que impede uma
narrativa dominante. Se, por vezes, ficou mais fácil manipular a história – e a
indústria de fake News está ai para provar isso – é também mais difícil ser o
dono da história e da sua narrativa. E se a Rússia de Putin ainda merece toda a
desconfiança, os Estados Unidos de Trump não ficam muito atrás.
Portanto, levar esse contexto
para a história de Creed é empobrecer esta leitura contemporânea, mais
diversificada e que se propõe mais moderna para a franquia Rocky Balboa.
Lembremos que quando o primeiro Rocky surgiu em 1976, os grandes nomes do boxe
eram todos negros. Joe Frazier, Muhammadi Ali, George Foreman, Leon Spinks, Ken
Norton e Larry Holmes, todos campeões mundiais dos pesos pesados entre as
décadas de 70 e 80 eram negros. Nesse cenário, Rocky era um lutador de sucesso
branco - seu apelido era “o garanhão italiano” - num mundo em que os negros
davam as cartas tanto dentro quanto fora do ringue. Afinal, Don King era o
grande nome organizador de lutas do esporte.
Na franquia de Rocky, o lugar do
negro era, no máximo, o de coadjuvante. Creed surge para corrigir essa trajetória
e reafirmar o protagonismo negro nesse esporte ao mesmo tempo em que o cinema e,
especialmente, o Oscar eram alvos de críticas pela falta de negros concorrendo
aos prêmios. É curioso que uma das últimas falas de Stallone no filme seja
virar para Creed e dizer: “Este é o seu momento”. É claro que era o personagem
em sua humildade, e Rocky sempre foi pintado como um personagem humilde e
iletrado das periferias da Filadélfia, dizendo que Adonis tinha que brilhar
como o protagonista máximo daquela história, mas, numa interpretação livre,
podemos também dizer que era o momento dessa virada, enquanto Rocky agora é um
coadjuvante. Pois esse é também o papel do treinador.
Da mesma forma, o papel da mulher
na franquia de Rocky, que também era de coadjuvante, é absolutamente diferente
em Creed. Adrian era uma mulher simples que vivia para o marido e sem grandes
ambições a não ser ter uma vida como esposa de Rocky. A Bianca de Creed é uma
mulher independente e com uma carreira ascendente como cantora. Ela está longe
do papel de mulher que sofre na frente da TV vendo o marido apanhar. Ela entra
junto com ele, conduz o marido até o ringue com atitude e desafiando os
rivais.
Além disso, Bianca tem uma
deficiência auditiva agora herdada pela filha do casal, que traz a inclusão das
pessoas com deficiência dentro da nova proposta da franquia e promete render
novas histórias em torno desse tema.
Por tudo isso que revisitar
“Rocky IV”, e olhar mais para o passado que para o presente e futuro, que “Creed
II” deixa a desejar como proposta de cinema para além do mero entretenimento. E como entretenimento ele não deixa de ser muito bom, pois emula tudo o que o
filme de 1985 tinha. A derrota dramática para Drago no início, o treinamento
nada ortodoxo de Creed no deserto lembrando o treinamento na neve de Rocky, a
ida à Rússia para a luta final, a hostilidade do público russo, a trilha sonora
característica...Tudo é igual ao filme de 85. É ainda há o elemento de
“reescrever a história”, visto que o pai de Adonis morreu no ringue para Ivan
Drago.
A questão é que “Creed” apontava
para outros caminhos. E o filme de 2015 é daqueles que poderiam figurar em
listas dos melhores sobre boxe. E neste ponto, esta ainda jovem franquia se desviou
um pouco do que parecia estar se desenhando.
Talvez o objetivo fosse apenas
soltar as faíscas da memória afetiva dos filmes de Rocky. E o quarto é um dos
mais emblemáticos. Porém, “Creed II” merecia mais do que ser uma mera cópia de
um filme de mais de 30 anos atrás. É um filme que diverte e entretém, mas nada
além disso.