Quando James Marshall Hendrix resolveu fazer uma visita ao inferno para nunca mais voltar eu não era nem um projeto de sêmen. Não havia eu. Apenas o nada. Enquanto isso, este americano com nome de xerife do Velho Oeste, mas chamado apenas de Jimi, já carregava legiões de fãs. Foi em 18 de setembro de 1970 que Hendrix resolveu tomar uma overdose de barbitúricos misturado com bebida e deitar na cama. Vomitou tudo, mas não botou para fora e foi aos poucos morrendo de forma estúpida afogado pelo próprio vômito.
Hendrix tinha 27 anos e estava no quarto de sua então namorada Monika Dannemann em um hotel de Londres na região de Notting Hill. Assim o guitarrista conhecido como o maior da história deixava o mundo após três discos obrigatórios e algumas apresentações memoráveis. A mais conhecida delas no Woodstock de 1969, quando mandou o hino nacional americano às favas e fez sua própria interpretação sem escrúpulos.
Aquela altura já tinha conseguido realizar o sonho do início da carreira quando era um guitarrista que gostava de ouvir feras como B.B. King, Muddy Waters e Elmore James.
- Quero fazer com a minha guitarra o que Little Richard faz com a sua voz – disse o músico que nasceu em Seattle, mas conheceria a fama primeiro em Londres.
Hendrix fez muito mais. É comum vê-lo no topo de todas as listas imagináveis de maiores guitarristas de todos os tempos. Alguns podem até contestar com argumentos consistentes (há quem prefira deus Eric Clapton ou Jimmy Page) ou meras birras iconoclastas. Mas Hendrix é o preferido de nove entre dez cidadãos que tentam honrar esse que é o instrumento do rock and roll. Gente que é tida como genial ama Hendrix e bebeu direto em sua fonte. E, convenhamos, como já disse o velho Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra.
Entre os gênios Hendrix foi o maior. Suas performances eram sempre incendiárias e não apenas quando ele colocava fogo na guitarra. Três delas podem ser encontradas em DVDs ou vídeos no YouTube. Além do show de Woodstock, há sempre os excelentes registros do Festival de Monterrey de 1967 e o festival de Isle of Wight de 1970. Basta apenas vê-lo no palco para entender algo que texto nenhum deste blog conseguiria explicar. Neste último, ele tocou 18 dias antes de morrer. Posso imaginar qual deve ter sido a sensação de quem estava presente quando soube que ele tinha batido as botas.
Certa vez li que Hendrix não gostava de sua voz e evitava cantar. É verdade que se sentia mais à vontade com sua guitarra, a extensão da sua alma. Alternava poucos versos com longas performances com o instrumento, experimentava, fazia o que se poderia dizer numa linguagem popular, “miséria” com a guitarra. Tudo sem precisar ser um poser se fazendo de deus do rock. Sua música falava por si.
Hendrix deixou de herança musical para a eternidade “Are You Experienced?” (1967), “Axis: Bold as Love” (1969)e “Eletric Ladyland” (1969). O primeiro, além da faixa-título tinha canções como “Foxy Lady”, “Manic Depression”, “Red House” e “Fire”. A versão americana ainda contava com “Purple Haze”. O segundo tem canções como “Up from the skies”, “Spanish castle magic” e “Castles made of sand” enquanto no terceiro se destacam “Voodoo Child” e o cover “All along the watchtower” entre outras ótimas músicas.
Após a sua morte, Hendrix foi canibalizado e mais 11 discos póstumos foram lançados. O mais recente deles, o “Valleys of Neptune” neste ano, supostamente com algumas canções novas tiradas de sobras de algum sótão de Hendrix e que foi recebido friamente pela crítica. Eu confesso que ainda não ouvi. Não posso opinar.
O que importa, porém, são os três discos lançados em vida e suas apresentações ao vivo disponíveis em CDs e DVDs. Alí você vai encontrar o mestre em ação no auge de sua forma. Infelizmente é o máximo que pode ter alguém que não teve a sorte de ver este gênio ao vivo.
Há 35 anos na estrada, o Iron Maiden já mudou duas vezes de vocalista, ganhou e perdeu membros, mas sempre foi uma indústria muito bem controlada pelo seu baixista, Steve Harris, fundador do grupo lá pelos idos de 1975 junto com os guitarristas Dave Murray e Dennis Stratton, o vocalista Paul Di’Anno e o baterista Clive Burr. Deste quinteto, apenas Harris, que assina boa parte das músicas da donzela de ferro, e Murray permaneceram no Iron que no terceiro disco, “The number of the beast”, de 1982, ganhou o vocalista que mudaria a história da banda.
Substituto de Di’Anno, que afundava em drogas e não se recusava a sair do seu processo de autodestruição, o baixinho Bruce Dickinson assumiu com personalidade a função e foi a voz do Iron nos seus discos mais bem sucedidos. De “The number of the beast” passando por outros álbuns clássicos como “Piece of mind” (1983), “Powerslave” (1984), “Seventh Son of a Seventh Son” (1988) a “Fear of the dark” (1992), da canção-símbolo do Iron.
Um ano depois do lançamento de “Fear of the dark”, Bruce abandonou a banda para cuidar de sua carreira solo e deixou um Iron apático com um vocalista – Blaze Bayley – muito fraco e dois discos que não deixaram saudade, “The X-Factor” (1995) e “Virtual XI” (1998). Seis anos depois, Bruce e o guitarrista Adrian Smith retornaram à banda que desde então mantém a atual formação com três guitarristas – além de Smith e Murray, Janick Gears – mais Harris e o baterista Nico McBrain.
A volta de Bruce não poderia ter sido melhor. Eles fizeram um discaço, “Brave New World” (2000), cuja turnê passou pelo Brasil para um antológico show no Rock in Rio. Na seqüência, outro ótimo disco, “Dance of death” (2003), e nova passagem no Rio para um grande show no então Claro Hall, hoje Citibank Hall (pelo menos até o fechamento desse texto). Há quatro anos, “A matter of life and death” quebrou o encanto. Um disco bem meia-boca e que nem ganhou muito destaque, logo depois atropelado pela turnê retrô da banda “Somewhere back in time”, que mais uma vez visitou o Brasil para um show na Apoteose.
Mas agora Bruce, Harris e os demais membros do sexteto de Leyton, ao leste de Londres, podem se orgulhar e sair pelo mundo em mais uma turnê tocando um disco inteiro se quiserem. Lançado no mês passado, “The Final Frontier” é o melhor disco do retorno de Bruce à banda e rivaliza com as melhores obras que a banda já produziu. É de levar os fãs a se regozijarem e fazerem sacrifícios em nome dos deuses do metal em celebração pela obra-prima que receberam. “The Final Frontier” é a saída para um dia de trabalho estressante e para um bombardeio de tanto lixo que recebemos hoje em dia nos ouvidos. Não precisamos citar nomes, né...
Mais longo trabalho do Iron (são 76 minutos do mais puro metal), o 15º álbum de estúdio da donzela de ferro é bem diferente dos recentes discos da banda. Não tem canções fáceis e de refrões que fixam na cabeça como o que encontramos em “Brave New World” ou mesmo em “Fear of the dark” e “The Number of the beast”. Os “ôoos” e “lálalalas” de “Brave...” também ficaram definitivamente para trás num processo que já se iniciara no álbum seguinte e fora concluído em “A matter of life and death”.
O Iron claramente optou por sair de sua zona de conforto criando letras (todas contendo a assinatura de Harris) mais complexas e difíceis de acompanhar e canções mais longas (apenas uma tem menos de cinco minutos. Uma tem 11 minutos e outras duas têm nove minutos). Tudo isso mantendo os conhecidos e longos solos de guitarra da banda.
O risco corrido por uma banda que não precisaria se arriscar mais por ter um grupo de fãs fiéis e que consumiria qualquer coisa vindo dela foi louvado pela imprensa internacional e ganhou também retorno comercial. O álbum estreou em primeiro lugar nas vendas em 21 países, incluindo o Reino Unido e o Canadá. Duas semanas depois, estava em primeiro em 28 países. Números que o Iron não colhia desde “Fear of the dark”.
Entre as críticas positivas, a revista “The Quietus” disse que “The Final Frontier” leva tempo, exige esforço, mas é esmagadoramente brilhante. Eles (o Iron) não optaram apenas pela opção mais fácil, que teria sido chato para nós, e, mais importante, que você sente que seria chato para eles também”. A “Metal Hammer” disse que “somos inacreditavelmente sortudos por eles ainda estarem por aí. Longa vida ao reino do Maiden”. A “Mojo” afirmou que era um dos álbuns mais ambiciosos do Iron enquanto a “One Metal” chamou o disco de uma “odisséia prog rock que confirma que o Iron Maiden é a melhor das grandes bandas em atividade hoje”.
A “MusicRadar” disse que o Iron “criou uma obra cheia de emoção, hipnótico, com uma estrutura não-convencional e visão estonteante”. E encerrou afirmando que o “grupo tem conseguido ir além dos seus sonhos”. Já a “BBC” elogiou o disco como “uma realização notável”.
Não é fácil sucesso de público e crítica e o Iron conseguiu com um disco que, como disse, é um dos mais bem trabalhados pela banda e um disco em que todos participaram ativamente do processo criativo mais do que em outros trabalhos como disse Smith em entrevistas um mês antes do lançamento do álbum.
Musicalmente, “The Final Frontier” tem um quê de metal progressivo como disse a "One Metal", mas a assinatura do Iron Maiden está em cada um dos seus 76 minutos que não o fazem confundir com bandas especialistas no estilo como o Dream Theater. Estão lá os longos e trabalhados solos como em “Satellite 15...the Final Frontier”, belos riffs como o que abre “Starblind”. Sem contar a absurda introdução de Harris no baixo em “El Dorado”. De fazer qualquer fã do Iron soltar urros e palavrões de emoção. Deve ser de arrepiar ao vivo. Bruce está cantando ainda melhor lembrando as turnês do “Brave new world” e do “Dance of death”. No último disco de estúdio, achei sua voz um pouco distante e perdida em meio aos instrumentos. Em “The Final Frontier”, há espaço para todos brilharem e se complementarem numa obra que se encaixa perfeitamente, em engrenagens que se movem de forma sincrônica. É devastador de se ouvir.
Os temas do álbum vão de histórias de terror a preocupações econômico-climáticas do Iron. “Satellite 15”, que abre o disco e foi o primeiro videoclipe lançado pelo grupo (clique aqui para ver), é a história de um astronauta num planeta desconhecido que se vê na sua “fronteira final”, diante da morte que será causada por uma versão alienígena do Eddie Hunter, o mascote da banda. Mas ele não se arrepende de nada. Queria apenas uma chance de falar com a família que não terá. Afinal, Eddie não perdoa. Esmaga.
“El Dorado” tem como tema a crise econômica. Fala sobre uma “noite fria de inverno em que você navega para a glória sem saber o que é certo”. Após falar sobre as “pirâmides de ouro” e avisar que “o seu dinheiro foi deixado para queimar”, a letra de Smith, Harris e Bruce diz que “não há caminho fácil para um homem honesto hoje”.
“El Dorado tem uma letra cínica sobre a crise econômica que aconteceu. Parece com uma tempestade perfeita, pessoas emprestando dinheiro como loucas. Eu pensei: 'Isso vai ferrar algumas pessoas o suficiente e estamos numa boa'. E é sobre isso que é El Dorado. É sobre vender o mito que as ruas estão pavimentadas de ouro e perguntar depois: Onde eu assino?”, disse Bruce ao explicar a letra.
As guerras sem sentido como as do Iraque e do Afeganistão são o tema de “Mother of mercy” (“Sempre pensei que estava fazendo o certo/agora não tenho tanta certeza”, “Você me disse o que é certo/Mas eu vou lhe contar a verdade/Você me disse o que é honesto/Mas tudo a volta é morte e crueldade”) e “Coming Home” (Na agridoce reflexão/quando damos o beijo de despedida na terra/quando as ondas e ecos da/cidade se tornam fantasmas do tempo”), dois musicaços que vem na seqüência.
Mais rápida do que a média do disco, “The Alchemist” pode ser encarada como uma metáfora para um período de obscurantismo na vida de alguém que foi mergulhado na ignorância e nas trevas manipulado por um alquimista de histórias e informações. Agora o personagem tenta ser resgatado dessa caverna numa alegoria platônica que parece ressurgir de forma ainda mais iconoclasta em “Starblind” (“Somos a luz que traz o fim da noite”).
“Isle of avalon” parece uma alegoria para um renascimento enquanto o pregador Bruce Dickinson anuncia nietzschianamente a liberdade em “The Talisman”. O momento é de “abraçar o oceano” e se livrar das amarras.
Fechando o belíssimo disco do Iron, “The man who would be king” fala sobre arrependimentos de decisões tomadas enquanto “When the wild wind blows” parece uma alegoria de um apocalipse ambiental como se as decisões equivocadas do rei na canção anterior levassem ao clímax negativo do planeta quando o “vento sopra selvagem”.
É quando se chega a fronteira final da existência e deve-se buscar uma saída. A do Iron foi não optar pelo óbvio. E com isso seus fãs ganharam um álbum daqueles inesquecíveis e que já nascem clássicos.
Quentin Tarantino é extremamente previsível. Em todos os seus filmes, você vai encontrar aquela linguagem pop, homenagens ao cinema com citações de filmes em diálogos do roteiro ou em cenas e os indefectíveis closes de pés femininos. Um certo jeitão trash e de filme B também é esperado.
Paradoxalmente, apesar de sua previsibilidade, quem gosta de Tarantino não se cansa dele. Seus roteiros têm quase sempre como tema central a vingança (como “Cães de Aluguel - 1992, “Pulp Fiction” – 1994, “Kill Bill” – 2003 e 2004 e “Bastardos Inglórios” – 2009) e são sempre de uma originalidade que só pode ter saído de uma cabeça no mínimo insana. E isso é um elogio.
“À prova da morte” tem tudo isso. Finalmente em cartaz no Brasil depois de três anos de espera, o filme estava incluído no projeto “Grindhouse”, parceria de Tarantino com Robert Rodriguez. A idéia dos dois era fazer o espectador ter a mesma sensação que eles tinham ao ir para uma sessão-poeira no cinema, ou seja, ver dois filmes quase sempre toscos, sem contar os trailers e propagandas bizarras.
As salas, porém, não compraram a idéia e para piorar os filmes foram mais malhados do que exaltados. “Planeta Terror”, o trabalho de Rodriguez, passou em torno de duas semanas por aqui há dois anos e poucos viram.
Beneficiado pela grife Tarantino que vem junto com as indicações ao Oscar de “Bastardos Inglórios” no início do ano, “À prova da morte” vai resistindo um pouco mais, embora em poucos e bravos cinemas do Rio de Janeiro. E o que é “À prova da morte”? Ora, um filme de Tarantino com tudo aquilo que eu já descrevi no início do texto.
Há um transbordar de pés femininos para todos os gostos, uma ode aos filmes B, diálogos criativos, belas mulheres com pouca roupa e, claro, é mais uma obra com a vingança como tema central.
No filme, Kurt Russel é Stuntman Mike, um dublê de cinema que dirige um carro potente e tem como único objetivo passar o rodo nas mulheres, matando-as com requintes de crueldade. Os motivos dele não são muito bem esclarecidos, mas Tarantino é um homem de ação e a idéia é fazer um filme tosco (inclusive com aqueles riscos e cortes surpreendentes na tela).
Mike, porém, só não contava que depois do seu primeiro e bem sucedido plano, ele fosse encontrar três garotas casca grossa na sua segunda investida dispostas a tudo a ponto de arquitetarem uma contra-vingança. É aqui que Tarantino faz sua homenagem às boas e velhas imagens de perseguições de carro para deleite dos fãs.
Em comparação com “Planeta Terror”, “À prova da morte” é menos trash e sanguinolento. Mas ambos não passam de diversão gratuita e uma grande brincadeira da dupla Tarantino/Rodriguez. Pena que poucos verão o filme na tela grande, onde as perseguições de carro e os closes na bunda de Rose McGowan ficam bem melhores.
O signatário deste blog reconhece que não esteve muito presente nos últimos meses. Culpa da Copa do Mundo, que me afastou das salas de cinema por quase dois meses. Mas aos poucos vou recuperando o tempo perdido. Tenho outras críticas a publicar que, porém, terão que esperar um pouco mais. É que beneficiado pelos ditames da Era Vargas sairei de férias com a promessa de breve retorno no alvorecer do mês seguinte.
Mais uma vez inspirado em Chris McCandless, herói improvável desta natureza selvagem chamada planeta Terra, vou invadir outras plagas, buscar inspiração na respiração de outros ares, no sabor de outras comidas, no deleite de outras paisagens.
Assim, o blog e o Twitter desligar-se-ão por breve tempo (talvez eu apareça de vez em quando, mas é pouco provável). Período suficiente para um novo rol de poesias e para viver novas prosas neste livro chamado vida (bonito isso, parece lição de manual de auto-ajuda).
Quando voltar, tecerei comentários sobre o filme do Tarantino em cartaz e muito mais, é claro.
Enquanto o dia não chega, divido com os nobres leitores duas músicas e dois videoclipes inspiradores e que não me saíram da cabeça nos últimos dias. Até breve.
Quando foi lançado em 1999, “Matrix” foi chamado de revolucionário pelas técnicas de filmagem desenvolvida pelos irmãos Wachowski copiadas em dezenas de filmes e paródias que vieram posteriormente. Em meio a tanta tecnologia, seu roteiro navegando entre o real e o imaginário também era celebrado e gerou de teorias mirabolantes a matérias de capas de revistas científicas. E estar dentro ou fora da Matrix ganhou ares de discussão filosófica.
Onze anos depois, o diretor americano Christopher Nolan chama Freud para entrar nessa conversa e eleva o potencial de Matrix a quarta potência nos presenteado com um dos melhores filmes do ano.
“A Origem”, título em português para “Inception”, é uma viagem pelo subconsciente com a materialização de seus desejos, medos, ideias e o benefício de que o pior que lhe pode acontecer é acordar.
No filme, Leonardo Di Caprio é Cobb, um agente especializado em roubar informações da mente dos indivíduos. Para isso, ele invade os sonhos de quem precisa roubar as informações ou faz a pessoa entrar no seu ou no sonho de outros de sua equipe para viver uma experiência quase real.
O problema é que quanto mais complexa a informação, maior deve ser o seu mergulho no inconsciente. O que pode levá-lo ao limbo e uma conseqüente vida vegetativa no mundo real.
Tudo, porém, começa a complicar quando Cobb e seu parceiro Arthur (Joseph Gordon-Levitt) recebem do empresário Saito (Ken Watanabe) uma missão das mais complicadas. Eles não têm que roubar informações, mas inserir uma ideia na mente de Robert Fischer (Cillian Murphy), filho de um magnata que acabara de morrer. É preciso convencer, ou melhor, fazer Fischer ter a ideia natural de que ele deve dividir a fortuna do pai.
Algo aparentemente simples, mas que exige um esforço sobre-humano, pois a ideia precisa nascer naturalmente, não pode ser uma mensagem ou um delírio destacado num sonho. Em inglês, inception significa “o começo de uma organização ou atividade oficial”. O que Cobb aceita fazer, portanto, é criar um mundo paralelo, uma história completa com diversas camadas para fazer Fischer atingir menos do que a luz. É para que ele viva um momento de “pré-eureca”. Que ele sonhe com um estalo que o fará formar uma ideia que parecerá ser sua e não uma encomenda de uma multinacional que compete com a do pai dele.
Cobb, assim, reúne uma nova equipe formada por ele, Arthur, o próprio Saito e mais a arquiteta Ariadne (Ellen Page), Eames (Tom Hardy) e o químico Yusuf (Dileep Rao). O objetivo é plantar a ideia de forma que ela pareça ser do próprio Fischer. Para isso, porém, Cobb e seu time terão que entrar em três camadas de sonhos criando sonhos dentro dos sonhos de Fischer, mergulhando mais profundamente no inconsciente do jovem empresário. Tudo isso com Cobb tendo que lidar com a culpa da morte de sua mulher, Mal (Marion Cotillard), numa relação fundamental para a história criada pelo diretor. O próprio Cobb já foi um perfeito arquiteto de sonhos, mas teve que abrir mão de fazer suas próprias construções para não ter problemas com a mulher que ainda vive em suas lembranças e que ele não deixa partir. É aqui que Nolan subverte completamente o tempo e o espaço criando uma seqüência de acontecimentos em dobras espaços-temporais oníricas e embaralhando as cartas até o fim para que fiquemos sempre com a pulga atrás da orelha sobre o que é verdadeiro e o que não passa de projeção, lembrança ou criação da mente sonhadora.
Se a comparação com “Matrix” é a mais próxima da nossa realidade, não é a primeira vez, no entanto, que Nolan joga com projeções de real e imaginário na tela. Ele fez o mesmo em “O Grande Truque” (2006), em que dois mágicos vividos por Hugh Jackman e Christian Bale duelavam em apresentações marcadas por truques supostamente simples, mas que flertavam com a magia num enredo que ia se descortinando aos poucos.
Um descortino em camadas como foi o próprio mergulho de Batman (Christian Bale) na sua transformação de herói em vilão de Gotham em “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (2008), que, aliás, terá uma nova continuação, a terceira dirigida por Nolan. Ou mesmo Leonard (Guy Pearce), o personagem principal de “Amnésia” (2000) que tenta resolver um crime ao mesmo tempo em que lida com a doença de sofrer a perda de memória recente.
Experiências que Nolan levou para “A Origem” e com mais verba no bolso criou cenários fantásticos como a Paris que se dobra até os prédios se encaixarem com perfeição num retângulo em três dimensões para contar uma história em que tempo, espaço ou gravidade são absolutamente relativos. E da suposta realidade ao limbo, tudo depende da perspectiva de quem vive e de como e da intensidade em que se vive.
Nada como sair de casa e ver um filme do qual não se tem expectativas e ser positivamente surpreendido. Esta foi a sensação que experimentei após assistir à “A jovem rainha Vitória”, ainda em cartaz em pouquíssimos cinemas. O filme que concorreu a três Oscars em categorias técnicas e ganhou apenas o de figurino tem mais do que roupas e belas paisagens da Inglaterra na Era Vitoriana.
Ele pode ser encarado primeiro como uma bonita história de amor, que foi se construído entre a rainha Vitória (Emily Blunt), coroada aos 18 anos, e o príncipe Albert (Rupert Friend) com o passar dos anos e a espera dele por um casamento que sonhava desde que começou a conhecê-la. Vitória e Albert parecem ter vivido felizes até a morte dele aos 42 anos de febre tifóide.
Mas o trabalho de Jean-Marc Vallée também pode ser encarado como um interessante filme sobre os jogos e manipulações políticas. Podemos notar como até a rainha, uma inexperiente soberana, ficou a mercê daquela disputa de poder entre os partidos ingleses.
Uma disputa que começa bem antes de Vitória completar 18 anos, quando a sua mãe, manipulada por Sir John Conroy (Mark Strong), tenta fazer a vontade deste de instituir uma corregência por mais sete anos até que ela completasse 25. Tudo para que Conroy pudesse mandar. Não deu certo, abrindo espaço para a chegada ao poder de Lorde Melbourne (Paul Bettany), primeiro-ministro bastante influente junto à jovem a ponto de conseguir indicar e aprovar todos os “cargos” no Palácio de Buckingham. Nada perto de diretorias de estatais que estamos acostumados a ver loteadas por aqui, mas damas de companhia e outras acompanhantes que estão sempre perto da rainha e por isso são boas fontes de informação e de influência sobre a soberana.
Sua confiança em Melbourne é tão grande, que Vitória, num erro grave de sua reinado, chega a rejeitar a indicação do primeiro-ministro do partido rival eleito pelo povo. Uma medida que é protocolar, já que a soberana jamais deve rejeitar o desejo do seu povo. As conseqüências são graves. Protestos e um atentado que quase mata Albert em uma bala que tinha a direção certa de Vitória.
Assim, os jogos de poder e de influência envolvendo de políticos a parentes próximos da rainha num país que já vivia uma monarquia parlamentarista são o que há de mais interessante em “A jovem rainha Vitória”. O filme se ocupa em mostrar não apenas a sua história de amor, mas o seu amadurecimento num reinado que foi marcado por ser o mais longo da história (63 anos, de junho de 1837 a janeiro de 1901), período em que a Inglaterra passou por grande crescimento populacional, mudanças econômicas, culturais, sociais e a Revolução Industrial. A partir do seu reinado, nascia uma nova Inglaterra.
No post abaixo, falei sobre as escolhas equivocadas de Angelina Jolie. Mas ela ainda é uma estrela que pode cobrar fácil US$ 20 milhões por filme que pagam e dá retorno. Mas o que dizer de Tom Cruise? Astro da série de filmes “Missão Impossível” (que, aliás, ganhará o quarto filme e espero que seja melhor do que o último), o ator de 48 anos se perdeu na vida cinematográfica desde que subiu no sofá de Oprah Winfrey para declarar o seu amor a então nova namorada Katie Holmes.
Nos últimos anos, o ator que foi o queridinho das mulheres da minha geração (ao lado do Brad Pitt) raramente emplacou um grande filme ou uma atuação digna de elogio. E em “Encontro Explosivo”, filme que o fez vir ao Brasil para fazer a divulgação, ele é simplesmente constrangedor.
Na pele do agente secreto Roy Miller, Cruise é aquele herói da nação que tanto os americanos gostam de criar, que abre mão da vida com a família e é absolutamente dedicado à profissão, mas que num dado momento o destino lhe reserva um surpresa, uma paixão – no caso personificada em June Havens (Cameron Diaz) – e ele vai fazer toda uma reavaliação da sua existência e ver se vale a pena levar a vida que leva.
Ah, tudo isso acontece em meio a cenas de ação e de lutas fraquinhas, alguns tiros e explosões e momentos para Cruise e Cameron exibirem seus corpos dentro do que é permitido na censura de 12 anos.
Absolutamente mergulhado num oceano de clichês e formado por um roteiro que é uma verdadeira colagem de situações bastante repetitivas na história do cinema, “Encontro explosivo” é uma comédia romântica com distrações para os homens não ficarem tão entediados. Atende à mulher romântica média com um agente secreto forte, educado, sensível e que “pensa nas pequenas coisas que fazem a diferença”, com diz a personagem de Cameron, e atende ao homem médio com suas ceninhas de luta mirabolantes tentando puxar um pouco do talento de Ethan Hunt, o outro agente secreto que Cruise já interpretou. Mas nada disso funciona. O filme na realidade é formado por uma série de esquetes sonolentas da dupla que tentam ser engraçadinhas. Só tentam.
É muito pouco para um diretor que já fez trabalhos bem mais interessantes. Das mãos de James Mangold vieram, por exemplo, “Garota, Interrompida” (1999), filme que deu um Oscar para Angelina Jolie, “Johnny & June” (2005), muito boa cinebiografia do cantor Johnny Cash, que deu um Oscar de atriz para Reese Whiterspoon, e “Os Indomáveis” (2007), um bom western com suas pitadas de humor e excelente atuação de Russel Crowe.
Nada de bom destes três filmes podem ser encontrados em “Encontro Explosivo”. E quase nada de interessante pode ser visto no filme. Para Cruise, é mais um fracasso que se soma a “Operação Valquíria” (2008), “Leões e Cordeiros” (2007), muito bom filme, mas não por sua causa, “Missão Impossível III” (2006) e “Guerra dos Mundos” (2005). Seu último trabalho com algum destaque digno de nota foi “Collateral” (2004). Desde então, tirando a pequena e hilária participação em “Trovão Tropical” (2008), Cruise só fez películas dispensáveis.
Antes de assistir “Salt”, li a crítica do filme no Globo. Era negativa e num jogo de palavras português-inglês dizia que faltava “salt” ao filme. O Bonequinho foi bastante bonzinho com o novo trabalho de Angelina Jolie, pois falta não apenas sal à película. Falta o tempero todo e a comida ainda azedou.
Tentativa de ser uma espécie de Jason Bourne de saias, “Salt” é um equívoco daqueles que você se pergunta por que pagou para ver. Tudo bem, eu tinha como motivo bastante nobre ver a Angelina Jolie, mas o excesso de roupas da moça desanima os seus fãs. Afinal, com meia hora de filme não tinha mais nada de interessante para fazer do que apreciar a beleza da atriz.
Se isso, porém, fosse o único problema de “Salt” estaria ótimo. A questão é que o trabalho do diretor Phillip Noyce – de bons filmes como “Jogos Patrióticos” (1992) e “O Colecionador de Ossos” (1999) – é extremamente ruim, sem pé nem cabeça, um desastre como poucas vezes vi nos últimos anos.
No filme, Jolie vive Evelyn Salt, uma agente da CIA, mas que está apenas usando um disfarce. Na realidade, ela é uma agente russa que faz parte de um programa do extinto serviço secreto soviético de infiltrar agentes em órgãos do governo americano em preparação para um tal de dia X, quando começam uma série de ataques dentro dos Estados Unidos para derrubar o “império”. A transição da mocinha para a suposta bandida que é mocinha, aliás, é lamentável.
Mas lendo assim o enredo até parece interessante. Só que na prática não funciona porque o roteiro desenvolvido por Kurt Wimmer é fraco, muito fraco. Da maneira como Salt tem a identidade desvendada até os eventos que vão se desenvolvendo culminando num final que não tem final como quem está dando uma deixa para uma seqüência (afinal, não existe mais blockbuster que não pense em seqüência).
E nesse meio tempo Salt vem e vai, há as reviravoltas que não funcionam e você fica ali vendo aquilo sem entender muito bem como se chegou naquele ponto. E tome seqüências de lutas, tiros e explosões que culminam em interpretações canastronas numa embalagem de enlatado americano que já nos acostumamos a engolir aqui em Pindorama.
E assim Angelina Jolie mais uma vez desperdiça seu talento (tá, eu sou fã, me perdoa) e beleza (indiscutível, por favor) com mais um filme inútil. Foi assim com “Bewoulf” (2007) e “Procurado” (2008), numa sequência de bombas só quebrada por “A Troca” (2009), filme de Clint Eastwood que a levou a concorrer ao Oscar. A musa definitivamente precisa inverter essa equação.
John Keats (Ben Wishaw) e Fanny Brawne (Abbie Cornish) viveram um romance curto, mas profundamente intenso. Um amor que perdurou até o fim da vida de Fanny em 1865. Nem um casamento 20 anos após a morte de um dos últimos poetas românticos em 1821 ou mesmo a chegada de filhos fizeram Fanny esquecer aquele que foi o grande amor de sua vida.
Um romance trágico, fugaz, absolutamente lírico e mais idealizado do que consumado foram o que viveram o poeta e Fanny naquelas poucas estações que a vida lhes proporcionou. Do desconfiado encontro invernal, passando pelo despertar do sentimento na primavera e o auge da paixão no verão, o casal viveu encontros e desencontros semeados pelas próprias dúvidas e pela falta de dinheiro de Keats, que por vezes não se considerava o homem certo para Fanny ao mesmo tempo em que a jovem via a sua paixão crescer a uma dimensão como ela jamais sentira.
Esta é a história que Jane Campion tenta transpor para a tela em “Brilho de uma paixão”. O filme da diretora de “O Piano” (1993) tem a beleza desse amor entre Keats e Fanny, que atravessa as estações da mesma forma em que parece ser influenciado por elas. Os dois se conheceram quando ela tinha 18 anos e Keats já estava com 23, dois anos antes, portanto, de sua morte por tuberculose na Itália.
Poeta em busca da fama após a recepção fria de “Endymion” (1818), Keats era um atormentado em busca das palavras ideais para a sua poesia, mas também bastante endividado e vivendo de favores de amigos como Mr. Brown (Paul Schneider). Contudo, Fanny vê alguma beleza no seu texto e deseja conhecê-lo.
A empatia é instantânea e a paixão vai florescendo, só cresce com o beijo no despertar da primavera e atinge seu ponto de maior palpitação justamente num verão em que os dois estão separados e apenas a troca de cartas alimenta o espírito sedento por mais e tão insatisfeito com tão pouco.
Keats, porém, não se achava bom o suficiente para Fanny e por mais que a amasse tentou se separar dela. A jovem era a mulher idealizada, e, portanto, intocável de Keats. A musa inspiradora, amada, desejada, mas pouco tocada. O filme dá a entender que Keats pouco foi além dos meros beijos em Fanny, que também se envolveu na teia subjetiva do poeta romântico.
O poeta, por sua vez, parecia temer estar finalmente diante da sua musa e por vê-la acessível ao contrário de um objeto de pura beleza e onírico que transpirava do seu coração para o papel e os livros.
Pode ter tentado se separar por medo, culpa, por ser e se achar um frágil prendendo uma mulher que não poderia viver presa a um calabouço e precisava flanar como uma borboleta. Só não contava que Fanny também embarcasse neste jogo de sonhos e intensidade que a fez segui-lo até o fim.
“Brilho de uma paixão” pode ser por vezes arrastado - não há muita ação. São apenas diálogos e longos planos contemplativos – ou excessivamente “meloso” (principalmente para quem não está apaixonado), mas é uma bela história de um grande amor que só se encerra no túmulo. E que Jane Campion retrata com a beleza, as cores, os dissabores e as características de cada estação.
Já que estamos falando de estações do ano, um pouco de Vivaldi para encerrar o post.
Quando vi “Cruzada” (2005), lembro de ter comentado com um amigo que o filme acabou na primeira meia hora quando um grupo então liderado pelo personagem vivido pelo ator Liam Neeson era simplesmente dizimado. Fiquei com a sensação de que a morte deles estragou o filme protagonizado por Orlando Bloom. E “Cruzada” era realmente bem meia-boca.
Cinco anos depois, entro no cinema para novamente ver Liam Neeson, dessa vez no papel do Coronel John Hannibal Smith, comandando mais uma equipe que promete boas batalhas em duas horas de “Esquadrão Classe A”. E que decisão acertada tem sido a do ator de 58 anos em protagonizar filmes de ação e aventura. Eles são sempre excelentes como “Batman Begins” (2005) ou pelo rendem uma boa diversão, caso de “Busca Implacável” (2008).
Tenho poucas lembranças da série de TV dos anos 80 do século passado que originou o filme dirigido por Joe Carnahan, o mesmo do excelente “Narc” (2002). Lembro que era criança quando isso passava uma vez por semana num horário da TV Globo muito mais bem aproveitado do que hoje, quando passa uma “novelinha jovem”.
Por ser algo bem distante para mim, acompanhar a saga de Hannibal, dos figuraças Templeton “Cara de Pau” Peck (Bradley Cooper), Bosco B. A. Baracus (Quinton “Rampage” Jackson) e do completamente insano Murdock (Sharlto Copley), mercenários que fazem o trabalho sujo dos Estados Unidos quando são chamados, é quase inédito para mim. E esse quarteto toca o terror em cenários que vão desde o deserto no Iraque a Alemanha sempre com ideias mirabolantes e supostamente impossíveis de realizar. Lembro que a série tinha algo semelhante também.
Cada membro desse quarteto tem o seu estilo. Hannibal é o líder cerebral sempre com um plano na cabeça e “subplanos” dentro dos planos para o caso de algo dar errado ou tomar rumos diferentes. Cara de Pau, como o próprio apelido diz é o canalha sedutor do grupo. Sempre disposto a arriscar uma missão por uma bela mulher e o que mais dá a cara a tapa nas missões. Baracus é o brutamontes, pura força bruta, cujo ponto fraco é o medo de voar, o que o coloca sempre em conflito com Murdock, o piloto enlouquecido que faz manobras de revirar o estômago dos mais experientes aeronautas.
Esses quatro já valem uma conferida em “Esquadrão Classe A”, que conta anda com Patrick Wilson como um agente da CIA que conduz a história manipulando-a como, bem, um agente da CIA, ora.
“Esquadrão Classe A” é um blockbuster, mas não é um filme para topeiras ao estilo Rambo (tá, eu gosto de Rambo, mas o filme é ruim). É divertido, tem tiradas bem humoradas e os atores estão bem em cena.
A história, porém, poderia ser melhor explicada. Tem alguns momentos que você se perde nas reviravoltas entre uma explosão aqui e um tiroteio ali. Fica a sensação de que o roteiro de Carnahan e Brian Bloom poderia ser mais bem trabalhado. Mas nada que prejudique seus 120 minutos de pura diversão ou nostalgia para os que pretendem se reencontrar com a série.
Encerrada a maratona futebolística da Copa do Mundo, Memórias da Alcova retoma suas atividades normais. Pretendo não sumir mais por muito tempo. A menos que a eleição me pegue da mesma forma que o Mundial da África do Sul. Tentando recuperar o tempo perdido, assisti à três filmes nos últimos dias, sobre os quais falarei com calma neste e nos próximos posts.
O primeiro deles foi o mais recente trabalho do diretor francês Roman Polanski. “O escritor fantasma” está quase saindo de cartaz, mas para quem não viu vale dar uma conferida. O tempo que demorei para assisti-lo, aliás, acabou sendo de certa forma benéfico, pois me afastou de tentar associá-lo à prisão do cineasta na Suíça e à tentativa de extradição para os Estados Unidos que acabou não acontecendo por causa do processo pelo qual ele é acusado de abusar de uma garota de 13 anos em 1977.
Pude me concentrar, portanto, apenas neste trabalho do diretor de “O Pianista” (2002). Inferior ao filme que lhe rendeu o Oscar, “O escritor fantasma”, porém, é um bom trabalho de Polanski. Embora nada na película tenha de diferente de outros filmes de suspense "investigativo/policial" – inclusive ele tem um clima soturno que lembra muito “Ilha do Medo”, recente trabalho de Martin Scorsese que esteve em cartaz antes da Copa -, o desenrolar da trama o prende diante da tela e você fica ali junto com o Ewan McGregor, o tal escritor fantasma do título, querendo juntar as peças do quebra-cabeça e tentando adivinhar esse enigma que começa a se formar a partir de um enredo simples: um ghost writer que tem que escrever a autobiografia do ex-primeiro-ministro britânico Adam Lang (Pierce Brosnan, o grande 007). Lang, aliás, se parece muito com o velho Tony Blair, cuja popularidade despencou desde que apoiou incondicionalmente George Bush nas suas guerras no Oriente Médio. E Polanski e o roteirista Robert Harris criam a partir dessa história simples, “teorias conspiratórias” interessantes para conduzirem o seu filme.
A partir daí, cabe ao sempre talentoso Ewan McGregor, no seu melhor trabalho desde “Peixe Grande” (2003), embora nada profundamente marcante, dar as inflexões necessárias para te deixar com aquela pulga atrás da orelha e aquela frase na cabeça: “Aí tem”.
Tem muito, como mostra o desfecho da película que gera, no mínimo, um ponto de exclamação positivo de quem encontra uma curiosa surpresa. Por isso, “O escritor fantasma” vale o ingresso. Se você ainda conseguir comprá-lo.