quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Tomando banho com Madonna

Há dez anos, quando chegava a casa dos 40 e lançava “Ray of Light”, Madonna foi perguntada em uma entrevista se ela se via fazendo a mesma coisa em dez anos. Sua resposta foi: “Não. A Madonna com 50 anos é uma cantora aposentada”. O tempo passou e a cantora americana como todo mundo sabe abandonou a idéia e está mais viva do que nunca, faturando montanhas de dinheiro com uma das turnês mais lucrativas do mundo, a “Sticky and Sweet”, de divulgação do seu novo álbum, “Hardy Candy”, lançado neste ano.

Foi exatamente este novo disco e a nova turnê que a fizeram interromper um longo hiato de 15 anos – desde a turnê Blonde Ambition, quando vestiu a camisa do Flamengo (ninguém é perfeito) e gritou “bunda suja” para o país todo ouvir – e aportar no Brasil.

O que dizer sobre a Madonna que fez dois shows no Maracanã no domingo e segunda, um deles, o primeiro, presenciado por este signatário? Pode-se tirar algumas conclusões. Em primeiro lugar, pode-se dizer que Madonna continua dando as cartas no mundo do pop por dois motivos. Primeiro porque ela é boa mesmo no que faz (e aí, é no sentido artístico, embora mereça a conotação sexual também). Segundo porque falta concorrência. Britney Spears e Justin Timberlake, só para ficar em parceiros recentes da cantora, não engraxariam o sapato de Madonna.

Um outro ponto importante é que Madonna sabe fazer um show. Pensou em entretenimento, no showbizz, pensou em Madonna. Seu espetáculo é tão rico que você até releva alguns momentos de playback, algo que eu abomino em qualquer artista. São luzes, telões, toda uma produção realmente de tirar o chapéu. Talvez eu só tenha visto algo parecido no show do Roger Waters no ano passado.

Claro que justamente desde “Ray of Light” a cantora não faz um disco a contento. “Music” (2000), “American Life” (2003), “Confessions on a dance floor” (2005) e Hardy Candy são apenas álbuns Ok, com seus bons momentos, mas irregulares. Mas foi uma opção dela mergulhar de vez na música eletrônica e tornar o flerte de “Ray of Light” num casamento mais longo do que os seus na vida real. Tem o mérito de ter atraído os jovens e renovado a sua platéia. Do contrário, ela continuaria ganhando muito dinheiro hoje, mas apenas graças ao seu velho público saudoso de álbuns “mais clássicos” como “True Blue” (1986) e “Like a Prayer” (1989). Bons tempos aqueles em que ela compunha com Patrick Leonard.

Mas no show do Maracanã se tem a oportunidade de ver todas as Madonnas. Ela, portanto, não deixa de agradar todo mundo, embora, obviamente o que predomine sejam as cações do novo disco. Em diferentes momentos, nos quatro ou cinco – confesso que não me lembro agora – sets que compõem o show, ela canta sete músicas do disco. De “Candy shop”, que abre os trabalhos com a cantora adentrando o palco num trono se colocando como “Rainha do Pop”, a “She’s not me”, em que bailarinos “vivem” suas diferentes fases e Madonna acaba dando um beijo na boca da bailarina vestida de noiva, como em “Like a Virgin”, passando pela balada “Miles Away” e os sucessos “4 Minutes” e “Give it 2 me”.

Quando abre espaço para seus antigos sucessos, Madonna os apresenta em novos arranjos. Alguns deles dão certo como a versão rock and roll de “Borderline”, que tirante a sua desafinação ficou bem melhor do que a original, ou “Human Nature”, também com uma pegada mais roqueira. Parêntesis: Madonna, aliás, tomou gosto pela guitarra. A toca (ou faz pose que toca) em diversas partes do show, faz pose de “frontwoman” e até o símbolo do metal (aquele dos chifrinhos feitos com a mão) ela ousou fazer. Sua entrada no Rock and Roll Hall of Fame deve tê-la deixado empolgada.

Outras versões ficaram satisfatórias, como “Vogue”, “Into the groove” e “Like a Prayer”, que, contudo, foram responsáveis por alguns dos momentos mais emocionantes para a platéia que pulou, dançou e estremeceu a arquibancada em que eu estava.

La Isla Bonita, porém, ficou bem abaixo com sua versão meio cigana, meio sei lá o que dos confins da Romênia. Parecia que o Gipsy Kings estava tocando com a Madonna. Enfim, não se pode acertar sempre. Só não se pode acusá-la de não ter arriscado.

Em duas horas de espetáculo (e chuva ininterrupta, que fez a cantora, visivelmente irritada, entoar um “Fuck the rain” e até limpar o palco com um paninho), Madonna revisitou toda a sua carreira. Se minhas contas estiverem certas e eu não esqueci de nada, apenas três álbuns não tiveram canções lembradas: “American Life”, “Erotica” (1992) e “Like a Virgin” (1984).

Entre uma música e outra, ela procurava ser simpática com a platéia. Respondia com um “I love you to” aos gritos históricos de “I love you”, “We love you” e similares. Até trocou o trecho final da balada “You must love me” para “I must love you”. Truques velhos, batidos, mas que agradam uma multidão ávida por uma palavra de carinho de seu ídolo.

Mas o grande momento da relação artista-platéia aconteceu na parte do show em que Madonna deixa que um fã peça uma música. O felizardo foi um tal de Fábio, um dos que pagaram o explosivo ingresso de R$ 600 para ficar na pista vip (até quando essa aberração vai existir?). Fábio levou um fora de Madonna ao fazer seu primeiro pedido, que não consegui escutar qual foi, mas Madonna disse que era uma boa canção, só que não cantava mais, ou já esquecera a letra, coisa parecida. Andei lendo que foi “Everybody”, que é do seu primeiro disco, “Madonna” (1983), mas infelizmente não posso confirmar.

Fábio teve direito a uma segunda chance e Madonna aceitou cantar “Express Yourself”. Só que com uma condição. Dizendo que ela sabe o quanto os “brasileiros são bons em trabalhar em equipe” (e tome reboladas provocativas), Madonna afirmou que cantaria um verso e o público outro. O improviso até que saiu direitinho. Se gravaram para o DVD não ficará feio.

No final, apesar da chuva, o saldo foi positivo. O show foi melhor do que eu esperava (tudo bem que eu aguardava uma tragédia) e pode-se dizer que pagou o ingresso. Além disso, falem o que quiser, mas Madonna continua gostosa. Pena que provavelmente foi minha última chance de ir para a cama com ela.

Enquanto eu lamento minha falta de sorte, deixo para vocês alguns momentos do show. “Human Nature”, “Vogue”, “Like a Prayer”, “You must love me” e “Borderline”. Infelizmente, apenas o segundo tem uma boa qualidade de imagem, mas dá para acompanhar trechos importantes, Madonna cantando, Madonna em playback. Tem um pouco de tudo.


Borderline

You must love me

Vogue

Like a Prayer

Human Nature

sábado, 20 de dezembro de 2008

Só faltou um final épico

O que esperar de um boxeador de 46 anos, endividado, que volta da aposentadoria para enfrentar um adversário que é campeão do mundo, 11 anos mais jovem, 25cm maior e muito, mas muito mais forte? Se o enredo é de cinema, uma vitória épica como as melhores de Rocky Balboa (Sylvester Stallone). Se é a vida real, um massacre de conseqüências provavelmente irreversíveis. Pois neste sábado, ao contrário do que normalmente acontece, a vida quase imitou a arte.

Há muito tempo não ficava de pé e ansioso pelo desfecho de uma luta de boxe. Nem me lembro qual foi a última vez. Talvez alguma vitória do George Foreman num passado distante, uma vez que as do Mike Tyson eram sempre massacres de muita porrada e pouca técnica. Nesses tempos todos, até discuti se boxe era verdadeiramente um esporte. Como pode ser se em nada ele valoriza a vida e seu aspecto saudável. É um homem querendo matar o outro sem piedade.

Mesmo com todas as minhas dúvidas, estava curioso para assistir à luta entre o americano Evander Holyfield, que pressionado pela pensão que deve pagar para os nove filhos gerados com seis mulheres, resolveu desafiar o gigante russo e campeão pela Associação Mundial de Boxe, Nikolay Valuev. Independentemente do resultado, a luta já valeria ao ex-tricampeão mundial US$ 750 mil. Dinheiro que aliviaria o bolso estourado de Holyfield.

Acontece que o americano não entrou no ringue apenas pelos dólares, mas para ganhar do russo. Tal qual um enredo hollywoodiano, Holyfield lutou como um verdadeiro gigante, um verdadeiro campeão.

Com uma tática parecida com a usada por Muhammad Ali na histórica luta contra George Foreman em 30 de outubro de 1974, no Zaire - excelentemente bem reproduzida, aliás, no ótimo filme "Ali" (2001), estrelado por Will Smith - Holyfield, que sempre foi mais conhecido por ser um boxeador agressivo, usou toda um técnica de "dançar" pelo ringue enquanto deixava Valuev no meio tentando socar um adversário menor e mais ágil do que ele.

A única diferença em relação ao que Ali usou contra Foreman, é que Ali também se deixou bater muito, mas nunca em pontos fracos do seu corpo que pudessem comprometer sua performance. Isso foi fundamental para cansar Foreman e fazer com que ele vencesse a luta. Holyfield não podia, no entanto, usar artifício semelhante. Do contrário sairia da Suíça num caixão. A luta do Zaire, aliás, pode ser encontrada inteira no Youtube. Basta digitar "Ali vs Foreman". Vale a pena. É um dos maiores momentos da história de todos os esportes. (Embaixo eu coloco apenas o desfecho do combate, a título de comparação com a luta de hoje).

É interessante mesmo a semelhança entre as duas lutas. Assim como Holyfield vs Valuev, o confronto Ali vs Foreman também reunia uma diferença considerável de idade (no caso, sete anos, pois Ali tinha 32 e Foreman, 25) e o boxeador mais velho era considerado acabado para o esporte. Ali acabou dando a volta por cima justamente neste confronto.

Mas como eu dizia era impressionante o preparo físico de Holyfield. Correu pelo ringue durante os 12 rounds, bateu mais e melhor do que Valuev, deixando o russo atônito. Ele certamente não esperava enfrentar um adversário tão bem preparado como o americano que surpreendeu a todos e conquistou imediatamente a simpatia da torcida.

Já que eu entrei na seara dos filmes, a trajetória de Holyfield e a luta em si é tão hollywoodiana que você podia ver ali no ringue o lutador quebrado financeiramente que tem que voltar literalmente à luta de "Rocky 3" (1982), o confronto épico-patriótico contra uma máquina russa de matar então vivida por Dolph Lundgren em "Rocky 4" (1985) - com exceção que no filme o confronto é na Rússia e na vida real, foi na Suíça -, a torcida que se volta completamente para o mais fraco, como em todos os filmes de Rocky Balboa - e você pode ver a galera torcendo pelo Holyfield no vídeo abaixo.

Há ainda o outro lado, o adversário mais jovem, mas com uma carreira que sofre com a desconfiança. Até lutar contra Holyfield, Valuev não havia enfrentando nenhum adversário de respeito. Muito porque o boxe hoje não é o mesmo esporte nobre, ou, vá lá, romântico de outrora quando contava com lutadores do naipe e também carisma de Foreman, Tyson, Joe Frazier, Joe Louis, Sugar Ray Robinson, Sonny Liston ou Floyd Patterson. Um enredo muito parecido com o mais recente filme de Stallone, "Rocky Balboa" (2006).

Ao ver Holyfield quase que lutando para se reerguer do fundo do poço, como não lembrar de James Braddock, que não teve uma carreira tão brilhante, mas uma história de vida que rendeu um filme "A Luta pela Esperança" (Cinderella Man - 2005, no original, um dos apelidos de Braddock), estrelado por Russel Crowe. No filme, quando tentava se recuperar em meio a Grande Depressão americana do final da década de 20 e início dos anos 30, Braddock chega a dizer uma frase emblemática: "Agora eu sei pelo que estou lutando. Eu luto por leite", explicando que ele precisa levar comida para casa. Holyfield não chegou tão ao fundo do poço quanto Braddock, que passou fome, mas dizem que sua situação não é das mais tranqüilas.

Todos esses filmes podiam ser vistos ao vivo no ringue de Zurique. E no final eu já estava de pé torcendo por um nocaute de Holyfield, pois temia que os juízes dessem a vitória ao russo, repetindo, assim, o que acontece em "Rocky Balboa", que perde a luta por pontos. E que anticlímax ao ver a decisão dos juízes. Mesmo com o mundo inteiro tendo assistido claramente que Holyfield lutou melhor e merecia conquistar pela quarta vez o título mundial - e se tornar o mais velho boxeador a conseguir tal feito, ultrapassando Foreman, campeão com 45 anos - os juízes da luta deram a vitória a Valuev.

No final, vaias e protestos dos que lotavam o ginásio e merecidos aplausos para Holyfield, que desafiou o tempo para protagonizar uma das maiores lutas - e injustiças - da história do boxe. Foi quando veio a minha mente o outro lado do esporte que sempre detestei. O estilo Don King. Aquele cheiro de marmelada que sempre permeou o boxe (principalmente a categoria pesado) nas últimas quatro décadas pelo menos.

A luta deste sábado foi uma aula de boxe de Holyfield. Uma pena que ela não tenha tido o mesmo final feliz da de Ali no Zaire. Neste enredo cinematográfico faltou apenas o desfecho épico e glorioso para que pudesse ser filmado pelos estúdios. Uma pena que a decisão dos juízes tenha sido tão conservadora diante do óbvio que foi visto nos 12 rounds de Zurique. Após o combate, Holyfield, muito contrariado com o resultado, disse que não sabe ainda o que fará daqui para frente. Aos 46 anos, ele não tem mais muito futuro na carreira. Se decidir se retirar definitivamente dos ringues, espero que o dinheiro tenha servido para que ele consiga se livrar de suas dívidas e curta uma merecida e tranqüila aposentadoria. Afinal, depois deste sábado ele escreveu definitivamente seu nome na história dos verdadeiros gigantes do boxe.
Abaixo, o oitavo e o décimo-segundo rounds da luta entre Holyfield e Valuev e o final do combate histórico entre Ali e Foreman.





quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Sobre neurônios

Roberto Horcades é um dos piores presidentes da história do Fluminense. Como se não bastasse a imbecil frase de que mulheres "só tem dois neurônios", ele protagonizou neste segundo mandato a frente do clube das Laranjeiras fatos vergonhosos e/ou pastelões que só me fazem gostar cada vez menos do futebol brasileiro.

Aliado do ex-presidente do Vasco Eurico Miranda, Horcades vem se revelando um exímio sucessor (estaria ele disputando com Elias Duba, do Madureira?) das piores práticas adotados pelo velho ditador vascaíno. Nesta semana, então, ele se superou.

Enquanto soltava mais uma de suas pérolas - quem não se lembra de outras como "eu ganhei tudo aqui no clube" como se "tudo" se resumisse a um Estadual e uma Copa do Brasil - Horcades liderava nos bastidores um golpe de estado na Federação de Futebol do Rio de Janeiro. O golpe fez com que o presidente Rubens Lopes, cujo mandato se encerrava em 2011, esticasse seu período a frente da entidade até a Copa de 2014.

Parênteses. Parece que tudo no futebol brasileiro se resume a Copa de 2014. Lembremos que o mandato de Ricardo Teixeira na CBF também foi estendido até a Copa. E que esta medida vem se repetindo em outras federações. Se o Pan foi uma farra de superfaturamentos e falcatruas, esperem para ver o que será a Copa. A menos que a Fifa faça alguma coisa e transfira o Mundial para o Canadá ou para a Alemanha, o que seria bem mais sensato.

Mas como eu dizia, apoiado por todos os clubes - com exceção do Flamengo - Horcades conseguiu o seu intento. Mas a decepção não parou por ai. Na quarta-feira ele apresentou com a pompa de um Oráculo de Delfos, Alexandre Faria para comandar as divisões de base do clube e fazer a ponte com os profissionais.

Nada demais se Faria não tivesse sido demitido neste ano do Atlético-MG acusado de empresariar jogadores ao mesmo tempo em que comandava o futebol do Galo. De acordo com Afonso Paulino, ex-presidente do clube mineiro, Faria recebia 3% de alguns contratos de atletas do clube. Faria, obviamente, nega. Não estou querendo acusar ninguém, mas como se dizia da mulher de César "não basta ser honesto, tem que parecer honesto". Ou seja, não seria melhor isso tudo ficar completamente esclarecido antes de contratá-lo? Será que ele é o único profissional capaz de cuidar de um departamento de futebol? Por enquanto, a imagem que me vem na cabeça é da Raposa flanando livre no galinheiro.

Além disso, ainda está muito mal explicado o escândalo dos ingressos da final da Libertadores contra a LDU. Por causa de uma situação obscura, metade dos 68 mil ingressos simplesmente não foram destinados à bilheteria, causando transtorno e frustração aos torcedores. Durante o escândalo, que teria contado com a participação de dirigentes do clube, foram retirados ingressos das bilheterias e destinados a chefes de torcida, agências de viagem e uma rede de cambistas que faturou alto na decisão. Horcades não foi acusado de estar diretamente envolvido, mas não fez nada para aprofundar as investigações ou afastou quem estava sendo acusado.

Além dos desvios éticos e das decisões equivocadas, Horcades permanece petrificado como quem se vê diante da Medusa diante do desmantelamento do time que foi vice-campeão da Libertadores. Depois de perder Cícero, Gabriel e Thiago Neves no meio do ano, o Flu perde agora o lateral-esquerdo Júnior César para o futebol alemão e o zagueiro Thiago Silva para o Milan. Ainda está ficando sem seu artilheiro, Washington, praticamente negociado com o São Paulo, inexplicavelmente não tem dinheiro para pagar os US$ 2,8 milhões para manter Conca, emprestado pelo River Plate, e agora está ameaçado de perder Arouca também para o São Paulo.

Que time o Fluminense terá no ano que vem? Um arremedo? É para brigar para não cair no Brasileiro? Convém fazer uma pergunta. Horcades, com quantos neurônios se faz um time de futebol?

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

The show must go on

Uma das vozes mais marcantes da história do rock, Freddie Mercury é considerado por muitos o maior cantor do gênero. Não sei se ele é realmente o melhor, mas certamente deve ser figura presente em qualquer top10. Seu talento aliado à sua presença de palco o credencia facilmente a isso. Portanto, a idéia de substituir o insubstituível seria no mínimo espinha atravessada na garganta de qualquer fã xiita.

Só que o guitarrista Brian May e o baterista Roger Taylor nem pensaram nisso quando em 2004 convidaram o cantor Paul Rodgers, ex-Bad Company, Free e The Firm, para formarem uma parceria que ficaria conhecida como Queen + Paul Rodgers. A associação de uma das maiores bandas da história com Rodgers, um vocalista de conhecido talento e que era um ídolo para Freddie, pareceu um tremendo projeto caça-níqueis mais ou menos como a que o tecladista Ray Manzarek e o guitarrista Robby Krieger fizeram ao convidar o vocalista do The Cult, Ian Astbury, para substituir outro insubstituível, o poeta Jim Morrison, para formar o The Doors of 21st Century.

Assim como o baterista John Densmore no caso do Doors, o baixista John Deacon não quis participar da reunião naftalínica do Queen. Cizânia no grupo? No caso do Doors, sim, uma vez que Densmore não concordava com uma banda que não tivesse Morrison nos vocais. No caso do Queen, ninguém sabe, mas May deu entrevistas dizendo que hoje Deacon é um cara recluso e que as portas estão abertas para ele aparecer e tocar quando quiser.

O Queen + Paul Rodgers lançou um disco ao vivo em 2005, “Return of the Champions”, e neste ano saiu “The Cosmos Rocks”, bom álbum de inéditas que começou a dar a impressão de que o projeto era mais para valer do que brincadeirinha para encher as contas bancárias.

O novo disco trouxe a banda ao Rio para uma apresentação na HSBC Arena. E o que se pode dizer da nova banda? Se eu comecei comparando projetos, pode-se dizer que o Queen + Paul Rodgers é muito mais Velvet Revolver, a agora ex-banda que foi formada pelo vocalista do Stone Temple Pilots, Scott Weiland, e pelos ex-Guns N’Roses, Slash (guitarra), Duff McKagan (baixo) e Matt Sorum (bateria), do que The Doors of 21st Century. Uma nova banda formada por membros de outras bandas conhecidas. Ponto. Afinal, como diz uma letra do velho Queen, “the show must go on”.

Assistir ao show com esse espírito é a melhor maneira de aproveitá-lo. Até porque, se Freddie Mercury é, como já disse, insubstituível, Paul Rodgers é um cantor excelente, de luz própria e que não caiu no projeto de pára-quedas. Rodgers tem história e parte dela foi vista na apresentação do grupo quando ele cantou duas ótimas músicas de suas antigas bandas, “All right now”, do Free, e “Feel like making love”, do Bad Company, além de “Seagull”, também desta banda.

Se seu alcance vocal não atinge o que era conseguido por Freddie, Rodgers é um cantor, digamos, mais rock and roll e dá um peso ainda maior a, vamos chamar assim, este novo Queen.

E essa diferença de som é marcante quando são mostradas as músicas do novo disco. “Cosmos Rocking” é uma pauleira sensacional com uma pegada blueseira. Rock clássico. “C-elebrity” uma canção forjada para ser o single de uma banda enquanto “Say it’s not true” se revela uma linda balada. Ainda foram tocadas as ótimas “We Believe” e “Surf’s up school’s out”. Definitivamente, “The Cosmos Rocks” é um álbum que precisa ser ouvido com atenção e sem pré-conceitos.

Rodgers também não faz feio quando canta as canções do velho Queen. “Hammer Fall”, que abre o show, e “Tie your mother down” ficam ótimas na sua voz, assim como “Another one bites the dust”, “Crazy little thing called love”, “Radio Ga Ga”, “We will rock you” e “I want it all”, canções acompanhadas com fervor pela platéia.

Mas o Queen + Paul Rodgers sabe respeitar a história e tem consciência de que nem sempre Rodgers funciona em algumas músicas do antigo Queen. É por isso que Brian May canta a balada das baladas “Love of my life” – o guitarrista ainda faz um agrado à platéia dizendo que “ainda ouve aquelas vozes” do Rock in Rio de 1985, na histórica apresentação da banda com Freddie nos vocais – muito ligada a Freddie Mercury. Ele ainda pede para o público “cantar por Freddie” e é prontamente atendido sem esconder uma lágrima caindo no canto do olho. Taylor também coloca as cordas vocais para funcionar em “Underpressure”, “Kind of magic” e “I’m love with my car”.

Mas a presença de Rodgers é tão marcante, que é possível estranhar o longo tempo em que ele fica ausente do palco no meio do show. O cantor já havia conquistado a platéia e por mais criativa e espetacular que seja Taylor usando as baquetas para tocar o baixo de Danny Miranda (também acompanham a banda o guitarrista James Moses e o empolgadíssimo tecladista Spike Edney) ou o baterista tocando uma bateria que era montada na hora pelo rodie, faz uma falta danada no palco.

Mas são irregularidades naturais para um show de 2h30m. Só vi uma banda ser espetacular do início ao fim de uma apresentação, o Pearl Jam. No cômputo geral, o show do Queen + Paul Rodgers é ótimo e emocionante. Muita gente deve ter se emocionou quando Freddie Mercury apareceu no telão cantando “Bohemian Rhapsody” num “dueto espírita” com Paul Rodgers. Uma bela homenagem ao cantor que morreu em 1991 em decorrência de complicações causadas pela Aids.

Para finalizar, a clássica “We are the champions”. Se o tempo não está para perdedores, como diz a canção, o Queen + Paul Rodgers mostra que já nasce vencedor. E que é mais do que uma banda que vive do passado, mas que o reverencia e também aponta para um futuro honesto. Superior aos grupinhos da moda de hoje, ele é. Portanto, God save the (new) Queen.

Abaixo, alguns dos grandes momentos do show:
"Bohemian Rhapsody"


"I Want it All"



"The show must go on"


"We will rock you"

"Cosmos Rocking"

domingo, 7 de dezembro de 2008

A hora de abrir o olho

Deixando um pouco de lado o problema da tentativa de manipulação de jogos, o Campeonato Brasileiro deste ano pode ser considerado um divisor de águas na história do futebol carioca. Há mais de uma década vivendo do passado glorioso, o Rio de Janeiro caminha para o nono ano sem ver um clube sequer ser campeão brasileiro. Desde que o Vasco de Romário, Juninho Pernambucano, Juninho Paulista, Euller, Viola e outros nomes de peso conquistaram a competição de 2000, o Rio bateu na trave algumas vezes com o Fluminense, neste ano com o Flamengo e foi muitas vezes ameaçado de rebaixamento. Além de cair com o Botafogo e agora com o Vasco.

Neste meio tempo, o São Paulo foi tricampeão (2006-07-08), o Santos foi bicampeão (2002 e 2004), e o Corinthians faturou o título de 2005. Os únicos a quebrar a hegemonia paulista foram o Atlético-PR em 2001 e o Cruzeiro em 2003. O Rio ficou chupando dedo ou vivendo de pequenas glórias nas Copas do Brasil de 2006 (Flamengo) e 2007 (Fluminense).

O Rio começou o ano de maneira promissora. Com dois times na Libertadores (Fla e Flu), parecia que seria a redenção. Apesar do vice-campeonato do Flu, um baque muito duro para o torcedor tricolor, mas de valor pela dificuldade da competição, o Fla liderava o Brasileiro e dava pinta de que poderia brigar por pelo menos uma nova participação na Libertadores.

O fim de ano ao invés de significar uma subida de degrau na corrida atrás do futebol paulista, representou muito mais do que um rebaixamento, no caso do Vasco, mas uma redução ainda maior do poderio fluminense.

Em 2009, o Rio de Janeiro terá três times na primeira divisão – contra seis dos paulistas – nenhum clube na Libertadores, após o patético fim de campeonato do Flamengo, que perdeu por 5 a 3 para o Atlético-PR, e apenas três times na Sul-Americana (a dupla Fla-Flu, “rebaixada” em âmbito internacional, e o Botafogo). Neste ano, os quatro grandes cariocas disputaram uma competição internacional.

Nem a história está mais ao lado do Rio. Por 16 anos, o Flamengo bateu no peito para dizer que era o maior vencedor de títulos brasileiros do país - embora isso sempre fosse discutível, pois essa conta simplesmente ignorava os títulos de Santos e Palmeiras na Taça Brasil e no Torneio Roberto Gomes Pedrosa, precursores do atual Brasileiro -, agora o São Paulo é hexa (acima, na foto de Wander Roberto, de divulgação da Vipcomm) e o Flamengo, apenas penta.

Por tudo isso, o futebol carioca termina o ano menor do que entrou. Menor do que estava no meio do ano. Será que o Rio continuará insistindo em dirigentes amadores e incompetentes? Até quando o mês terá 60 ou 90 dias por aqui? O Rio precisa reagir. Precisa abrir o olho. Do contrário, será um pôster amarelado na parede do bar.

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PS: O fim do Campeonato Brasileiro me fez adiar a postagem da crítica do shomzaço do Queen + Paul Rodgers. Mas na quinta-feira prometo pagar essa dívida.

Outra contaminação

Um dia antes da última rodada do Campeonato Brasileiro eu planejava fazer um balanço da competição que foi muito emocionante na tabela, mas sofrível dentro de campo. Sem bons times, com poucos jogos dignos de nota, para mim este Brasileiro foi um dos piores. Apesar da tabela.

Ainda assim, num exercício natural em cada fim de campeonato, me arrisquei a fazer uma seleção da competição e até que o cômputo final não ficou tão ruim. Algo como Marcos (Palmeiras), Leonardo Moura (Flamengo), Miranda (São Paulo), Ronaldo Angelim (Flamengo) e Leandro (Palmeiras); Ramires (Cruzeiro), Hernanes (São Paulo), Wagner (Cruzeiro) e Alex (Internacional); Guilherme (Cruzeiro) e Alex Mineiro (Palmeiras). Técnico: Muricy Ramalho (São Paulo). Até que não é nada mal. Levando-se em conta que eu ainda teria no banco jogadores como Rogério Ceni (São Paulo), Jonathan (Cruzeiro), Juan (Flamengo), Thiago Silva (Fluminense), Jean (São Paulo), Arouca (Fluminense), Sandro Silva (Palmeiras), Marquinhos (Vitória), Tcheco (Grêmio), além dos atacantes Nilmar (Inter), Keirrison (Coritiba) e Kleber Pereira (Santos).

Só que meus planos de análise do Brasileirão foram suplantados por uma nova reflexão após mais um possível escândalo de arbitragem no futebol nacional. Dessa vez envolvendo o árbitro carioca Wagner Tardelli, cujo nome estaria sendo usado por alguém que só a CBF sabe, mas não quer contar como vejo na ESPN, para a manipulação de resultados na competição. Em troca disso, duas versões. Uma diz que é dinheiro, outra que é um envelope com ingressos para o show da Madonna. Essa cantora realmente adora um escândalo.

Tardelli, que aparentemente (e por enquanto só aparentemente), não tem qualquer envolvimento no caso foi afastado do jogo decisivo deste domingo entre Goiás e São Paulo, que pode valer o título para o Tricolor paulista na disputa contra o Grêmio, que enfrenta no mesmo horário – 17h – o Atlético-MG. No seu lugar foi escalado Jailson Macedo de Freitas.

A menção de mais uma notícia de manipulação de resultados fez vir à tona a velha expressão “campeonato contaminado” usada em 2005, quando o escândalo Edílson Pereira de Carvalho desvendado pela revista Veja explodiu como uma bomba atômica no futebol brasileiro. Na ocasião, movimentos muito suspeitos de todos os lados (CBF, STJD, etc...) anularam 15 jogos apitados por Edílson que foram decisivos para o título do Corinthians num momento em que Internacional e Fluminense disputavam a liderança da competição.

Sem contar o escandaloso pênalti não marcado pelo árbitro Márcio Rezende de Freitas em cima de Tinga numa partida decisiva entre Inter e Corinthians no Pacaembu. Aquele campeonato (aparentemente, e só aparentemente) tinha que ser mesmo da misteriosa parceria Kia/Corinthians. Aliás, de onde vinha o dinheiro do iraniano?

Se o Brasil fosse um país sério, ou melhor, mais ou menos sério, o Brasileiro de 2005 não teria continuado. Até porque eu não conheço esquema de uma pessoa só e nesta confusão toda só quem se deu mal foi o Edílson. Não que ele não tivesse qualquer culpa. Ele, inclusive, assumiu a sua parte. Os demais é que continuam nas sombras.

Um exemplo de um país que eu considero mais ou menos sério - afinal, quem elege diversas vezes Silvio Berlusconi para primeiro-ministro não pode ser plenamente sério: a Itália. Nos últimos 28 anos, o país teve três sérios escândalos de manipulação de resultados. O primeiro, o famoso escândalo da Totonero em 1980, resultou como principais conseqüências a punição de dois anos para o atacante Paolo Rossi, que, ressaltemos, foi punido não por participar, mas por saber da história e não ter revelado, e o rebaixamento de Milan e Lazio para a segunda divisão.

No segundo, em 1986, também envolvendo a loteria esportiva italiana, um esquema semelhante resultou no rebaixamento da Udinese para a Série B, além de punições para times da segunda, terceira e quarta divisões.

O terceiro, mais recentemente, envolvendo manipulação de resultados, resultou no cancelamento do campeonato de 2004-05, conquistado pela Juventus, no título da Inter na temporada 2005-06 ganho no tapetão por causa do envolvimento da Juventus, que foi rebaixada para a segunda divisão com direito a perda de pontos, e na perda de pontos de diversos times na Série A, o principal deles o Milan, que começou com 15 pontos a menos.

No Brasil, a título de comparação, aconteceram quatro escândalos de arbitragem/manipulação de resultados nos últimos 12 anos, mas ao contrário da Itália a impunidade imperou por aqui.

Por causa da patética cena do ex-presidente Álvaro Barcelos estourando uma garrafa de champagne para comemorar a “virada de mesa” do Fluminense, rebaixado em 1996 e mantido na primeira divisão em 1997 (até cair de novo), pouca gente lembra que aqueles anos foram marcados pelo escândalo Ivens Mendes. O esquema envolvia manipulação de jogos, financiamentos para eleições e figuras que até bem pouco tempo estavam ainda comandando seus clubes como se nada tivesse acontecido. Daquele tempo para cá, nada aconteceu realmente – além da morte de Mendes - e o esquema caiu no esquecimento. A única alteração foi a manutenção de Fluminense e Bragantino na primeira divisão de 97.

Além disso, tivemos o caso Loebeling, cujo chefe na comissão de arbitragem, Armando Marques, o pediu para adulterar uma súmula. Lembravam disso? Pois é. Mais recentemente o já listado esquema de 2005 e agora esse que mancha o campeonato deste ano. Nos três anteriores, uma única marca: a impunidade. Continuará assim? A saber.

O fato é que se houve manipulação de jogos é preciso ter a coragem de pedir desculpas aos torcedores e simplesmente acabar com o campeonato. Sem choro nem vela. Sem volta olímpica, sem grito de campeão. Provada qualquer tipo de manipulação, a “contaminação” do campeonato é inerente. E aí só restará a lamentação. Mas ninguém terá coragem de fazer isso. A CBF jamais teria coragem de fazer isso. Não fizera antes, por que faria agora?

Assim, fica apenas uma pergunta. Enquanto a impunidade estiver mandando no futebol – e no Brasil como um todo, aliás – você confiará no que vê na TV ou no estádio? Eu só sei que hoje meu amor por esse esporte foi novamente atingido, aumentando ainda mais a minha descrença.

sábado, 29 de novembro de 2008

Ainda tentando entender o ogro

Quando Cassino Royale (2006) estreou, eu destilei bile sobre o 007 de Daniel Craig. Violento demais, sem classe, com uma leve tendência a não apreciar a vida e as mulheres a sua volta e cometendo erros infantis, Craig era praticamente a antítese de um James Bond imortalizado basicamente na pele de três atores: Sean Connery (principalmente), Pierce Brosnan e Roger Moore (menos).

Craig então, na minha opinião, se credenciava a ficar no limbo dos Bonds fracassados como George Lazenby, que fez um filme apenas, e Timothy Dalton, que estragou dois filmes. Se o 007 de Craig tinha todos os defeitos listados acima, o de Lazenby entrou para a história como o primeiro e único a se casar, embora a noiva tenha sido assassinada logo em seguida em “007 – A serviço secreto de sua majestade” (1969), e o de Dalton, estrela de “007 - Permissão para Matar” (1989) e “The Living Daylights” (1987), era simplesmente apático e sem graça.

Em “007 – Quantum of Solace”, portanto, eu não esperava de Craig nada diferente do que o ogro mostrado em sua estréia no papel do agente secreto mais famoso do mundo. Embora algumas coisas ainda me incomodem como a sua postura absolutamente ranzinza com a vida, o amor que ele ainda nutre por uma bondgirl, no caso Vesper Lynd, morta em “Cassino Royale”, o excesso de violência e a falta de classe, ainda permanentes, devo reconhecer que Craig evoluiu no papel.

Ele está longe de ser o 007 ideal, muito longe dos três Bonds clássicos, mas se esforça para melhorar. Ou o seu personagem, que parte do zero na filmografia do herói, começa a entender também seu papel no mundo. Embora eu discorde disso tudo que os produtores resolveram criar para o herói, pois quando um agente do MI-6 recebe a permissão para matar – no caso o 00 do seu número – ele já é próximo da perfeição na hierarquia dos agentes secretos.

Porém, “Quantum of Solace” não é um filme superior do que “Cassino Royale” apenas pela evolução de Craig. Pelo contrário. Se Judi Dench, mais uma vez no papel de “M”, dá a classe, sobriedade e altivez ao filme, é Mathieu Amalric, no papel do vilão Dominic Greene, que dá o molho que faltou a “Cassino Royale”, que tinha um vilão com tudo para ser carismático, Le Chifre, vivido por Mads Mikkelsen, mas que infelizmente não funcionou em cena. Faltou química.

Neste ano, Amalric já apareceu para nós num filme mais desafiador do que qualquer Bond, no papel do jornalista Jean-Dominique Bauby em “O escafandro e a borboleta” (2007). Neste trabalho, o ator francês é um editor arrogante da revista “Elle” que sofre um acidente vascular cerebral e fica com o corpo paralisado. Seu único meio de comunicação é através de uma linguagem desenvolvida por sua fonoaudióloga em que ele usa unicamente o olho esquerdo.

Em 007 Amalric troca a arrogância e mau-humor de Jean-Do pelo deboche e sensação absoluta de impunidade de seu vilão, que tem uma empresa de fachada, supostamente para defender o meio ambiente, mas que ele usa pura e simplesmente para se dar bem como um excelente vilão deve fazer. Dominar o mundo, assim como o dólar descrito no filme, não está mais com nada. O que importa é faturar, mesmo que seja necessário patrocinar um golpe de estado na Bolívia.

Alguns dos melhores momentos de “Quantum of Solace” são com Amalric em cena. O Bond de Craig não é páreo para ele, pois não combate sua soberba com o que os 007 sempre tiveram de melhor e Craig não demonstra: a ironia. A vida é muito séria para o Bond de Craig. Alguém precisa ensinar esse cara a levá-la mais na flauta.

Além de melhorar o humor, o 007 de Craig precisa corrigir duas coisas primárias. Tratar melhor as mulheres (ele não leva o menor jeito com Camille, vivida pela ucraniana Olga Kurylenko) e não ser tão violento (afinal, é Bond, James Bond e não Jason Bourne). Suas falhas desanimam um bondmaníaco. Continua matando demais, sendo emotivo demais, sofrendo, onde já se viu um Bond sofrer?

É curioso que esse James Bond tão violento tenha saído das mãos do diretor Marc Forster, conhecido por obras tão delicadas, acuradas como “O Caçador de Pipas” (2007) e “Em Busca da Terra do Nunca” (2004), e do roteirista Paul Haggis, vencedor do Oscar por “Crash” (2004), além autor de “Cartas de Iwo Jima” e “A Conquista da Honra”, ambos de 2006. Convocados para fazer um Bond supostamente “mais humano”, eles o transformaram numa máquina de matar que não pensa direito e age por impulso.

Enfim, entre altos e baixos, continuo tentando entender o ogro interpretado por Craig que nada tem a ver com o velho Bond de sempre. E, claro, ainda tentando entender os motivos da substituição de Pierce Brosnan. Mas já que temos que engoli-lo, prometo ceder um pouco e continuar acompanhando seus “bondtrabalhos”. Todavia, Craig ainda não me parece a figura ideal para viver o agente secreto de Sua Majestade.

Bom, pelo menos a trilha sonora continua boa. A deste filme é de Jack White e Alicia Keys. Confere abaixo o clipe da música “Another way to die”.


domingo, 23 de novembro de 2008

Reconciliações

Tenho um defeito cinematográfico. Nunca gostei de Woody Allen. Confesso que vinha me esforçando para curar essa doença, afinal, se todo mundo que eu gosto de ler no mundo da crítica gosta dele, o problema só pode ser comigo. Se eu me esforçava vendo praticamente todos os seus últimos filmes, pode-se dizer que o diretor americano, ou melhor, nova-iorquino, não me ajudava.

Achei “Match Point” (2005) um filme apenas razoável e “Scoop” (2006) ainda abaixo daquele, apesar da presença de Ian McShane, que abrilhanta o filme como um jornalista morto que aparece para uma jovem jornalista vivida por Scarlet Johansson para dar uns conselhos. Não vi o elogiadíssimo (sempre) “Sonhos de Cassandra” (2007), pois ficou pouquíssimo tempo em cartaz. Aliás, parece que hoje em dia para ir ao cinema você precisa correr mais rápido do que o Usain Bolt. Mas isso é papo para outro dia.

O que importa é que eu dei mais uma chance para Woody Allen (ou seria para mim mesmo?) e fui assistir “Vicky Cristina Barcelona”, seu mais novo trabalho, que passou por aqui no Festival do Rio – sempre num horário impróprio para um trabalhador, mas isso também é reclamação para outro dia – e agora estréia verdadeiramente no circuito nacional.

E o que posso dizer do diretor de 72 anos? Finalmente não sou mais um pária. O filme é excelente. Arrisco-me a dizer, sem ter conhecimento de sua obra completa (quem tem? São mais de 60 películas), um dos melhores filmes de Allen.

Ele conta a história de duas amigas que viajam para Barcelona para passar o verão. Vicky (Rebbeca Hall), frígida, metódica, sem graça e prestes a se casar com um americano almofadinha (Doug, vivido por Chris Messina) e Cristina (Scarlet Johansson, a musa do diretor, presente em três dos seus últimos quatro filmes), apaixonante, envolvente, imprevisível e com um enorme naipe de decepções amorosas nas mãos.

Completamente diferentes, as duas vão até a cidade espanhola também com objetivos distintos. Vicky quer completar o seu mestrado em cultura catalã e Cristina esquecer traumas passados e passar um tempo se distraindo e se dedicando à sua nova paixão: a fotografia.

Acontece que lá eles conhecem o pintor Juan Antonio (vivido de maneira extrema e deliciosamente canalha por Javier Bardem), que não perde tempo e logo as convida para um fim de semana em Oviedo com boa comida, bom vinho e um sexo a três.

Juan Antônio estava então se recuperando de uma confusa separação de sua mulher, Maria Elena (Penélope Cruz em uma de suas melhores atuações), que simplesmente havia tentado lhe matar. Como o próprio pintor diz, porém, eles foram feitos um para o outro e não foram feitos um para o outro. É um casal explosivo.

Sob protestos de Vicky, as duas vão até Oviedo onde começa o triângulo amoroso que levará Vicky a repensar sua vida completamente “boring”. Mas é Cristina, mais afeita aos sedutores encantos do pintor, que cai nas garras de Juan Antônio e vai morar com ele.

Só que Maria Elena retorna e quer o marido de volta, afinal sempre o amou. Mas vê como extremamente vantajoso manter química do romance entre Cristina e Juan Antônio. Daí para um relacionamento aberto e a três não demora. Quando menos se espera, Cristina se vê envolta em diferentes emoções e tendo relações com Maria Elena, Juan Antônio e com ambos. E não questiona isso. Não há limite para amar.

A partir desse inusitado quarteto amoroso de tonalidades completamente diferentes das usuais e digna de um surrealismo de Salvador Dalí, Woody Allen constrói seu roteiro de ótimas tiradas. Mas é a sua capacidade de captar o espírito da cidade em que filma a grande sacada do diretor. Se “Match Point” e “Scoop” eram quase fleumáticos e com momentos de formalismo dignos da Londres que ele escolheu filmar (até mesmo na hora em que os crimes são cometidos), em “Vicky Cristina Barcelona” ele capta toda a sensualidade da Espanha, principalmente a Barcelona que ele deseja focar, que a própria cidade se torna um vértice dos casos amorosos que ele constrói.

Barcelona, Oviedo, sejam quais forem, são cidades envolventes e que, graças ao excelente roteiro de Allen e às interpretações dos principais atores, cercam o espectador e o enredam na louca trama construída pelo diretor.

“Vicky Cristina Barcelona” é uma aventura de verão de suas protagonistas, uma sedutora viagem pela Espanha, mas, acima de tudo, um clássico de Woody Allen, que mostra estar, mais do que com a câmera, com a pena afiada para escrever um roteiro tão brilhante, embora não cercado de muita sofisticação. E daí? Grandes filmes também são feitos com simplicidade.

domingo, 16 de novembro de 2008

Da caipirinha a cerveja em sete anos

Muitos podem não concordar comigo, mas eu acho o R.E.M. uma das melhores bandas do mundo em atividade. Em 28 anos de carreira, os americanos de Athens, na Geórgia, colecionam bons discos – o mais recente dos 21 álbuns, “Accelerate”, lançado neste ano – e sempre fazem shows que ficam no imaginário de quem os presencia.

Mesmo que você não seja fã da banda, a apreciaria ao vê-la tocar. No palco, eles são simples, sem rodeios, mas extremamente competentes. Um telão é o que há de mais “luxuoso” na arena que reúne o vocalista Michael Stipe, o guitarrista Peter Buck e o baixista Mike Mills, acompanhados pelo guitarrista Scott McCaughey e pelo baterista Bill Rieflin. Os cinco fazem o que há de melhor deles com o mínimo de esforço, que pode parecer até não muito empolgante, ou meio blasé para quem olha de fora, mas basta observar os rostos felizes da platéia para ter a certeza que o show é excelente.

No sábado passado, assisti ao segundo show do R.E.M. no Brasil. Foi a primeira vez que eles vieram ao país desde aquela espetacular apresentação no Rock in Rio de 2001, um dos melhores shows daquele festival, talvez só inferior ao do Neil Young. Sete anos mais velhos, Stipe, 48 anos, Buck, 51, e Mills, 49, mantêm a mesma vitalidade e a disposição para experimentar de tudo. Não é a toa que dessa vez Stipe resolveu dispensar a caipirinha de outrora se arriscar bebendo uma cerveja nacional. “Não sei como se fala. Itapaiva. Muito bom”, diz o vocalista, num marketing espetacular para os donos da marca, que, porém, não é muito cultivada entre os especialistas no assunto.

Em turnê de lançamento do novo disco, o R.E.M. fez, obviamente, um set list bastante diferente do que o apresentado no Rock in Rio. O que não os impediu de brindar a galera, composta por muitos que ainda lembravam e estiveram no show de 2001, com clássicos da banda como “One I Love”, “Losing my Religion”, “Everybody Hurts” e “It’s the end of the world as we know it (and I feel fine)”. Todas acompanhadas por um empolgado público que respondia a todos os estímulos feitos por Stipe. Se ele pedia para cantar, o público respondia. Uma resposta, a galera estava lá. Aplausos eram sempre e merecidamente constantes.

Não é a toa que Stipe e a banda pareciam realmente felizes em voltar. O vocalista agradeceu a todo o momento o carinho do público brasileiro e, com uma imagem do presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, no telão pediu desculpas pelos últimos oito anos de governo Bush. “We are fucking happy”, disse ele, sobre a vitória de Obama.

A política, aliás, não esteve presente apenas na reverência a Obama. No set list, foi incluída “Exhuming McCarthy”, do disco “Document” (1987), que traça um paralelo entre a perseguição política aos esquerdistas feita pelo senador Joseph McCarthy nos anos 50 – bem reproduzida no filme “Boa Noite, Boa Sorte” (2005), de George Clooney – e uma espécie de "americanismo" da era Ronald Reagan (1981-89), quando os americanos acreditavam estar por cima da carne seca. Com um gravador na mão, Stipes reproduzia a discussão entre o então advogado do Exército americano Joseph Welch e McCarthy: “Have you no sense of decency, sir, at long last? Have you no sense of decency?”. Era como se Stipe estivesse dizendo o mesmo para Bush e sua era do terror.

Em duas horas, o R.E.M. desfilou sua competência em 24 excelentes canções, a maioria delas dos discos “Accelerate” e “Automatic for the people” (1992), um dos grandes clássicos da banda. Deste álbum, a banda tocou “Drive”, “Ignoreland”, a já citada balada “Everybody Hurts”, cantada em coro por um emocionado público que encheu satisfatoriamente a HSBC Arena, “Sweetness Follows”, “Night Swimming” e “Man on the moon”, uma das melhores do R.E.M. que fechou brilhantemente o espetáculo.

Com músicas de dez discos diferentes, reverenciou, portanto, seu passado, mas sem qualquer sentimento de nostalgia. De “Accelerate”, a platéia ouviu as boas “Living well is the best revenge”, que abriu os trabalhos, “Man Sized Wreath”, “Hollow Man”, “Horse to Water” e a ótima “Supernatural Superserious”. Eu, que não havia escutado ainda o disco novo, fiquei com uma ótima impressão de que “Accelerate” lembra o que há de melhor do R.E.M.

De “Reveal”, lançado meses depois da última apresentação no Rio, a banda trouxe a excelente “Imitation of Life” e “She just wants to be”. Deu espaço ainda para canções novas pinçadas de coletâneas ou trilhas sonoras, como “Bad Day”, tirada do “Best of R.E.M. 1998-2003”, que mais parece uma nova “It’s the end of the world as we know it”, e outra grande canção, “Great Beyound”, do disco “Man on the moon” (1999), trilha do filme de mesmo nome de Milos Forman estrelado por Jim Carrey sobre a vida do comediante Andy Kaufman, que morreu em 1984.

Houve ainda espaço para momentos intimistas, como quando a banda se reuniu num canto do palco para cantarem para si sob os olhares da platéia, “Let me In”, e para um barulho de qualidade com, por exemplo, “What’s the frequency Kenneth?”. Que grande canção esta.

“Nós somos o R.E.M. e viemos aqui para fazer música”. Assim, Stipe anunciou a banda. Ao final do show, ninguém teve dúvidas de que o R.E.M. faz mais do que música. Eles produzem canções e espetáculos que se tornam clássicos.

Foi difícil demais selecionar os vídeos para colocar aqui. Tirei algumas, fiquei com pena de não ter colocado outras, mas, de qualquer maneira, se estiverem interessados, o show inteiro está no youtube. Aproveitem.

“Man on the Moon”


“The Great Beyound”


“Losing my religion”


“What’s the frequency, Kenneth?”



“Exhuming McCarthy”

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Ensinando a votar

Quando chamam o Brasil de terceiro mundo, há quem fique puto ou pelo menos chateado com a afirmação. Mas é inegável que este país está algumas décadas (para ser bem bonzinho) atrás de nações mais desenvolvidas. Pode-se falar o que quiser dos americanos – e eu tenho muitas restrições quanto a eles, principalmente pelo seu conservadorismo ferrenho -, mas quando é preciso votar decentemente, num momento em que uma perspectiva de mudança se avizinha, eles não titubeiam e fazem o que deve ser feito.

Tudo bem, alguém poderia argumentar que os americanos não são tão espertos assim, uma vez que eles reelegeram o senhor da guerra George W. Bush. Mas não ficamos muito atrás em decisões semelhantes.

Há muitas semelhanças entre a campanha de Obama e a de Fernando Gabeira (PV) para a prefeitura do Rio, guardado o devido peso de cada uma. Ambos propuseram uma certa dose de mudança. “Change” era um dos bordões de Obama, assim como “Yes, we can”. Sim, nós podemos mudar este país, podemos construir um mundo melhor. Um rosto novo, longe do stablishment de Washington, que propunha uma revolução silenciosa. Perfeito para o marketing e sedutor o suficiente para conquistar o eleitor.

A mudança de Gabeira começou na campanha com ruas limpas, sem ataques aos adversários e campanha enxuta e agradável na TV. Promessas foram apenas três. Todas cumpridas: não sujar as ruas, não atacar os adversários e transparência. Caso eleito, ele propunha ainda mais. Queria conduzir o Rio de Janeiro a uma mudança de paradigma. Convocar a cidade a governar com ele numa co-participação saudável e jamais testada.

De histórias de vida absolutamente ricas, mas totalmente opostas, tanto Obama quanto Gabeira fizeram da internet sua trincheira de batalha mais importante. A partir dela, tiveram uma arrecadação recorde de dinheiro para a campanha (Obama) e mobilizaram os jovens (ambos).

Foram modelos de inspiração e trouxeram de volta uma palavrinha surrada e desacreditada: esperança.

No entanto, e voltando aquele papo iniciado lá em cima, a educação faz uma diferença danada. Enquanto os americanos superaram o preconceito racial e apostaram no novo, o Rio de Janeiro preferiu mergulhar no arcaísmo da velha política. Obama venceu, porque, entre outras coisas, os americanos, que não são obrigados, foram às ruas para votar. Saíram de casa, encararam horas e horas de filas porque sabiam que seu voto faria diferença. Eles têm consciência do poder do voto.

Aqui, embora o voto seja obrigatório, sempre é possível justificar, pagar uma módica quantia de multa, e seguir na praia. Afinal, esse negócio de política é muito chato. Diante da ignorância, basta um feriado antecipado para facilitar as coisas.

O desafio de Obama não será fácil. Bush deixou os Estados Unidos financeiramente e moralmente destruídos. A imagem dos USA fora do país é a pior possível. Internamente, terá que lidar com guerras em curso – dois atoleiros chamados Afeganistão e Iraque – um déficit de mais de US$ 1 trilhão, dívida pública de mais de R$ 10 trilhões e uma crise financeira só comparável à Grande Depressão iniciada em 1929. Internacionalmente, terá desafios no Oriente Médio e de lidar com as questões nucleares de Irã e Coréia do Norte. Além disso, uma mudança de paradigma não será completada se Obama não tomar uma atitude diferente para a prisão de Guantánamo e o embargo econômico de Cuba.

Como se pode ver, “change” ou “mudança” são palavras curtas tanto em inglês quanto em português, mas dão muito trabalho para fazê-las ter algum sentido. Se Obama será capaz de promover uma mudança no espírito americano, só o tempo dirá. A única certeza que existe é que os americanos lhe deram uma chance para provar isso. Se arriscaram a quebrar a cara, mas não fugiram da raia. Yes, they can.

O Rio preferiu viver o seu momento avestruz e enfiar a cabeça no buraco. Optou pelo velho modo de fazer política. Observar a mudança (ou não) de longe é o que restou ao carioca. Essa é a nossa Grande Depressão. No, we can’t.

Abaixo, o discurso histórico de Obama após ser confirmado como o novo presidente dos Estados Unidos.

sábado, 1 de novembro de 2008

Dois craques e um filme médio


Com mais de 130 anos de carreira somados, Turk (Robert de Niro) e Rooster (Al Pacino) são mais do que parceiros, mais do que amigos. Eles se completam. Com é bem lembrado em “As duas faces da lei”, são como o Lennon e McCartney da polícia. Veteranos do Departamento de Polícia de Nova York, eles se deparam com o caso de um vigilante que estaria fazendo justiça com as próprias mãos matando os bandidos da cidade. A única conexão entre eles são os poemas deixados pelo assassino. Uma suspeita: ele é policial.

A partir desta premissa começa um jogo de gato e rato que até guarda semelhanças com o outro encontro cinematográfico entre estes dois monstros sagrados das telas: “Fogo contra Fogo”. No filme de 1995 dirigido por Michael Mann, porém, Pacino e De Niro estão em lados opostos e sequer travam diálogos. De Niro vive o ladrão Neil McCauley e é perseguido pelo detetive Vincent Hanna, interpretado por Pacino.

Em “As duas faces da lei”, por outro lado, os dois são amigos de longa data e trabalham juntos perseguindo alguém que pode até ser um deles. E todas as suspeitas conduzidas pelos detetives Perez (John Leguizamo) e Riley (Donnie Whalberg) recaem sobre Turk, policial violento, mas extremamente correto, de comportamento diferente do aparentemente frio e cético Rooster.

Um enredo, portanto, que daria um ótimo filme, principalmente pelo final que só se torna óbvio pela maneira como o diretor Jon Avnet e o roteirista Russel Gewirtz conduzem a história. Faltou um pouco mais de tato para conduzir esse filme a um thriller policial de qualidade.

É claro que em filmes do gênero não faltam clichês como os refletidos nas personalidades de Turk e Rooster. Mas a premissa de caçar alguém do próprio meio e utilizando a possibilidade de um dos dois atores principais ser, na verdade, o vilão da história, não deixa de ser interessante por isso.

Acontece que a película dá pistas de mais, escolhe caminhos excessivamente óbvios o que conduz a um desfecho meia-boca e nada dramático (é claro, porém, que eu não vou contar quem na verdade é culpado pelos assassinatos).

“As duas faces da lei” só não é um filme completamente dispensável pela oportunidade de assistir a dois atores como Pacino e De Niro juntos em cena. São dois mestres. E é sempre bom ver craques deste quilate contracenando. Pelas suas idades avançadas – Pacino tem 68 anos e De Niro, 65 – é cada vez mais difícil vê-los em películas novas, pois é natural que diminuam o ritmo de trabalho. Mas diante da câmera, eles, mesmo, de longe, não cumprindo a melhor de suas atuações, ainda dão prazer em quem gosta de um bom cinema.