quarta-feira, 29 de março de 2017

Shyamalan is back

Quem sou eu? Da onde eu vim? Para onde vou?
Teve uma época em que a Corneta achava absolutamente incrível a Glória Pires fazendo a Rutinha boa e a Raquel má naquela novela cujo nome já esqueci e não vou perder meu tempo procurando no Google porque tenho certeza que vocês vão lembrar. E o que dizer de um ator que faz nada menos do que OITO personagens ao mesmo tempo em apenas duas horas de filme? Esse foi o enorme desafio muito bem cumprido por James "Professor Xavier jovem" McAvoy em "Fragmentado". 

Agora é o momento em que vocês dizem: Esse não é o filme novo do M. Night Shyamalan? Fala sério. Ninguém acredita mais no Shyamalan. 

Sim, é verdade que ele andou jogando a reputação na lama em coisas como "Fim dos tempos" (2008), "O último mestre do ar" (2010) e "Depois da Terra" (2013), mas já ensaiava um retorno à boa forma em "A visita" (2015). E o Shyamalan de "Fragmentado" é o dos bons tempos de "O sexto sentido"(1999) e "A vila" (2004). 

Escrito e dirigido pelo cineasta nascido na Índia (e que tradicionalmente faz uma ponta nos seus filmes, pois ele se acha um easter egg vivo), "Fragmentado" conta a história de Kevin (McAvoy praticamente sendo brilhante), um paciente com um transtorno mental que o faz assumir 23 personalidades de tempos em tempos. O ator escocês assume oito delas no filme. Cada uma totalmente diferente da outra, com sotaques, jeitos de falar e de olhar absolutamente únicos, caso da criança Hedwig, do homem com mania de limpeza Dennis, da mulher Patricia e do estilista Barry. De tempos em tempos, uma dessas personalidades fica no comando enquanto Kevin é tratado pela psiquiatra Karen Fletcher (Betty Buckley). 

O problema é que uma 24ª personalidade está para surgir. Uma bestial chamada apenas de "A Fera" e que precisa ser alimentada e etcetera. 

Para executar o plano de alguém que está no comando da chamada "luz" dentro da cabeça de Kevin, Dennis sequestra três garotas após uma festa de aniversário e as mantêm refém. Claire (Haley Lu Richardson), Marcia (Jessica Sula) e Casey (Anya Taylor-Joy) se veem diante do maluco e tentando lidar com as suas diferentes personas. Umas são mais cruéis, outras são mais dóceis, mas aparentemente só Casey sabe lidar com essa figura grotesca por motivos que o filme vai nos mostrando em flashbacks um tanto sonolentos.

E não é só isso. As consultas com a psiquiatra são a única pista que Shyamalan nos dá para tentar entender a personalidade complexa de Kevin. Ou as personalidades tão díspares, mas muito perigosas que ele exibe. 

O objetivo de Kevin é se fazer existir para o mundo. Mostrar que é possível que ele seja muitos. Mas o que para Karen é algo que deve ser tratado com a devida atenção e controle, para Kevin é algo que precisa ser gritado e exposto da forma mais chamativa pelo mundo. A sua Horda quer ser ouvida. Precisa ser ouvida. 

"Fragmentado" podia dar muito errado se não tivesse um ator tão habilidoso para transitar quase que imediatamente pelas diferentes personalidades do personagem. E é incrível como McAvoy consegue realmente fazer isso e até lidar com os conflitos internos das personalidades de Kevin, inclusive quando uma tenta se fazer passar por outra. 

Concebido como a segunda parte de uma trilogia iniciada em "Corpo Fechado" (2000), aquele filme do Shyamalan que dialoga com o mundo dos super-heróis, o filme nos apresenta um vilão psicótico de fazer inveja aos piores vilões dos quadrinhos. O diretor agora trabalha num roteiro que contará com o retorno dos personagens de Bruce Willis e Samuel L.Jackson. Seria o desfecho de sua trilogia prevista para 2019. 

Mas "Fragmentado" também pode ser visto isoladamente sem qualquer prejuízo do seu entendimento. E é um show de McAvoy e um dos melhores filmes de Shyamalan. Assim, "Fragmentado" ganhará da Corneta uma nota 8,5.

terça-feira, 28 de março de 2017

Ah, como era bom aquele tempo...

O importante é que emoções eu vivi
O que você faria se tivesse roubado muita grana dos seus amigos e fugido do país? Eu não voltaria para casa nunca mais. Mas Mark Renton (Ewan McGregor) achou que 20 anos era o suficiente para os velhos fellows esquecerem aquela pequena diferença e voltou para Edimburgo (Edimbrá no sotaque local). 

Renton é um grande filho da puta. Mas seus colegas Sick Boy Simon (Jonny Lee Miller), Spud (Ewen Bremner) e Begbie (Robert Carlyle) não ficam nem um pouco atrás. E karma é uma parada muito séria. Duas décadas depois do primeiro "Trainspotting" (1996), quando o quarteto de degenerados aprontava poucas e boas na capital escocesa e entornava heroína como se fosse água no deserto, a vida não se mostrou solidária com eles. 

"Trainspotting 2" mostra o grupo de mal a pior. Renton, que havia fugido para Amsterdã (e querem que eu acredite que ele se livrou das drogas logo em Amsterdã), ficou com uma mulher por 15 anos, tem um emprego ruim e voltou para a Escócia porque perdeu ambos. Sua única vitória foi sobre as drogas. Spud, coitado, está cada vez mais sequelado e afundando na heroína. Begbie está preso. Aliás, está na cadeia há 20 anos desde que quebrou tudo naquele quarto de hotel em Londres. Já o pobre Simon virou um golpista em uma relação sem sexo com uma prostituta búlgara chamada Verônika (Anjela Nedyalkova). Seu sonho? Abrir um bordel para ela. Ou seja, está claro que Verônika vai dar uma volta nele. 

É neste cenário nada amigável que Danny Boyle nos reapresenta os personagens que aparentemente andavam afastados desde a trairagem de Renton. E tanto Simon quando Begbie mostram que guardaram algum rancor daqueles tempos. Isso só faz mal às pessoas. Não repitam isso na vida, crianças. 

"Trainspotting 2" é um acerto de contas e uma viagem nostálgica aos acontecimentos do primeiro filme. Aquele sotaque esquisito da Escócia está lá, os cabelos são quase os mesmos, a trilha sonora mudou, mas continua ótima.... porém, a vida dessa galera... Quanta diferença!

São muitas as referências ao filme de 1996. Que vão das lembranças daqueles tempos selvagens ao retrato de uma melancolia dos personagens e uma saudade daquele passado. Mas lá dentro cada um tem ainda uma fagulha dos velhos tempos. 

"Trainspotting 2" é uma viagem que será melhor aproveitada se vista logo depois do primeiro filme para refrescar a memória. Como a memória dos quatro personagens é refrescada de tempos em tempos no filme. 

Boyle fez um trabalho que os fãs certamente vão gostar. Ele é esporrento, berrante, cheio de mágoa, mas também uma reconciliação de uns caras que fizeram muita coisa errada na vida, mas de um jeito até certo ponto torto tentam se perdoar pelo passado e seguir em frente à partir de um ponto em que todos juntos voltam a não ter nada. 

Numa era do cinema marcada pela nostalgia, reboots e retomada de velhas histórias, Boyle acerta em equilibrar o passado com o presente e apresentando um olhar para o futuro. "Trainspotting 2" é, acima de tudo, uma ótima viagem com uma trilha de primeira embalando tudo. E nunca é demais ouvir de novo, em nome dos velhos tempos, Iggy Pop e seu "Lust for life". O filme de Boyle, portanto, ganhará da Corneta uma nota 7,5.


segunda-feira, 20 de março de 2017

Um engodo chamado 'A Bela e a Fera'

Aula de dança de salão no castelo da Fera
Todo mundo sabe que a Hermione Granger devia ter ficado com o Harry Potter. Até a J. K. Rowling sabe. Mas por um erro terrível da escritora, isso não aconteceu e ela ficou com o inútil do Rony. O lado bom dessa experiência é que ela deu o EXPERTISE necessário para a Emma Watson se meter em outra roubada: ser obrigada a se apaixonar por um cruzamento genético-mágico de um búfalo com um leão e um lobo que fala. 

Não fosse por seus minutos finais, "A Bela e a Fera" seria a maior história de zoofilia amorosa da humanidade (e do, digamos, mundo animal). Mas como o bicho se transforma em homem no final (fala sério né, não existe spoiler de uma história que já foi filmada pelo menos cinco vezes). Mas como eu dizia, como ele se transforma em homem no final, a história acaba sendo convencional e nenhum pastor famoso poderia implicar com ela. Então, esse famoso pastor resolveu implicar com um personagem gay. Se aquilo, aquelas cenas absolutamente normais o incomodam, imagina se ele estivesse vendo "24 horas: Legacy", onde o principal agente e um dos principais analistas de sistemas da CTU formam um casal em crise e discutindo a relação em meio a atentados terroristas. Ele ia pirar.

A mitologia de "A Bela e a Fera" remonta ao século XVIII, quando Gabrielle-Suzanne Barbot, também conhecida como a dama de Villeneuve, escreveu o conto original dessa historinha de amor. Nos anos 40, um filme francês estrelado por Josette Day (então a Bela) e Jean Marais (então a Fera), foi produzido, mas o cinema ainda era uma arte muito jovem e ninguém que você conhece viu essa versão. Foi quando a Disney pegou a história, modificou, adaptou, simplificou, pasteurizou e a tornou mais palatável em um meloso desenho animado dos anos 90 que "A Bela e a Fera" ganhou corações e mentes pelo mundo. 

Mas um novo século nasceu. Era hora da Disney faturar um qualquer com uma nova versão dessa história. Dessa vez com atores. Dessa vez no chamado "live action". Mas o que dizer de "A Bela e a Fera" versão 2017? É melhor que o desenho? É. Pelo menos parece um pouquinho menos brega. É um bom filme? Hummmm, é adocicado demais. O filme tem mais açúcar que sorvete de doce de leite com beijinho de coco. Enfim, não é recomendado para diabéticos. Além disso, é bobinho né. Esse papo lúdico da Disney não se sustenta nesse mundo selvagem em que vivemos onde não se pode confiar mais nem na carne que comemos. 

"A Bela e a Fera" é um musical. Logo, cada ida à feira é um acontecimento cantado e dançado. Nunca vou me acostumar com isso. Mas é desse jeito que conhecemos a Bela (Emma Watson), jovem inteligente e ávida leitora de romances que vive no pacato vilarejo de Villeneuve onde, basicamente, nenhum homem presta. Naquela época, não havia Tinder, então ninguém podia se oferecer para um date sabendo previamente que o match estava garantido. Eram tempos de romance raiz. Não era como os encontros nutella de hoje. Então o que Gaston (Luke Evans) fez? Chegou junto da Bela cantando e dançando numa roupa cheia de babados e falando: "Bela, how you doing? Quer se casar comigo? Eu sou o melhor partido do vilarejo e só quero você. Só você que me fascina. Só você, que me alucina. Só você que me faz delirar, com o seu jeito de amar". 

Bela não se deixou seduzir pelo latin lover Gaston. O problema é que, além dele ser grosseiro, machista (mas que tem até um amigo gay) e sem noção, a Bela não se sentia atraída por aquilo. Sabe como é. Ela é demisexual. Ela precisa de um envolvimento emocional, conhecer antes a pessoa para gostar dela. 

O tempo vai passando, Bela fica somente com seus livros sem o menor medo de ficar para a titia (aunty em francês de Villeneuve) e virar uma mendiga. Ela quer mais é ganhar o mundo e sair viajando por aí (claramente uma aquariana). 

Mas um dia, seu pai fica preso num castelo mal assombrado onde só é inverno e tem lobos selvagens na floresta. E ainda é habitado por um monstro terrível de chifres enormes. Quase Winterfell. Bela não aceita e troca de lugar com o pai. Promete ficar lá presa para sempre pelo amor ao pai.

A partir daí o filme adota o seu lado "Fica comigo", com um relógio (Ian McKellen) e um candelabro (Ewan McGregor) fazendo as vezes de Fernanda Lima. A Fera (Dan Stevens) precisa conquistar a Bela para quebrar o feitiço de uma bruxa e todos voltarem a ser humanos como em tempos passados. Mas a Fera não tem muito tato né. Não vê uma mulher há tanto tempo. 

Mas com a ajuda de seus empregados acessórios e mobílias a coisa começa a fluir. E todas aquelas fases do amor no cinema (blergh!!) vão acontecendo. A rejeição, a briga, uma certa afeição... E quando a Fera resolve abrir a sua biblioteca enorme e emprestar seus livros para a Bela rola uma palpitação no coração da jovem. Lembremos que ela é uma leitora voraz. Apesar do péssimo gosto de achar que "Romeu e Julieta" é a melhor obra de Shakespeare. Miga, não é nem uma das dez melhores. 

Na tentativa de conquistar a Bela, a Fera faz até o que todo homem rico faria para conquistar uma mulher. Vai com ela para Paris, é claro. Já naquele tempo, a capital francesa encantava as moças de todos os vilarejos. Mesmo sendo mais suja e com mais ratos do que hoje em dia. Mas ele se esforçou. Vamos na Notre Dame, fazer compras na Champs-Èlysee, blá-blá-blá. 

Bela já estava caidinha pela Fera, pelo seu jeito doce e arredio, pela sua forma incomum de jantar sem talheres. O golpe final acontece no baile de duas pessoas, quando ela, em seu vestido amarelo La La Land, dança com ele e suas roupas cheias de babadinhos (era uma tendência naquela época). 

A essa altura do filme, eles já estão praticamente apaixonados e a gente já está cansado de tanta música e tanto açúcar e tomado por um profundo TÉDIO. Meu deus! Vai acontecer alguma coisa minimamente relevante? Cheio de trabalhador ali e ninguém vai subir na mesa e gritar contra a reforma da previdência? 

Não. Nada acontecerá além da mensagem da Disney de que o amor supera todas as barreiras e vence no final (argh!). 

"A Bela e a Fera" é até bem feitinho. A Emma Watson até canta satisfatoriamente e o Luke Evans está caricato como a sua versão desenho animado de 91. Mas, convenhamos, não merece tanto cartaz assim. Tem uns momentos que são absolutamente chatos, beirando o insuportável e outros cheios de fru-frus e guti-gutis e um jeitinho sonhador com os olhinhos virando que dá vontade de sair correndo da sala. E as músicas são chatas demais. Gente, as canções de "La La Land" ainda estão vivas na memória. Não dá para estrear outro musical assim tão perto. Mas até que a experiência foi melhor do que eu imaginava. O filme ganhará da Corneta uma nota 5.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Um Wolverine de primeira

Logan velho de guerra
Nunca achei ruins os filmes já feitos para o Wolverine. Tampouco eles eram espetaculares. Embora o Hugh Jackman desde sempre se mostrasse perfeito para o papel, os filmes não faziam completamente jus ao seu bom trabalho com o personagem. Pelo menos até "Logan" entrar em cartaz. 

Dirigido por James Mangold, mesmo diretor de "Wolverine imortal" (2013), "Logan" é melhor epitáfio para a triste saída de cena de Jackman para o personagem. Esperamos, torcemos DESESPERADAMENTE para que o ator reconsidere. Não deve existir ninguém mais perfeito e poucos captaram melhor a alma de um herói dos quadrinhos quanto Jackman fez com Wolverine. 

"Logan" se passa num futuro não tão distante. É logo ali em 2029. Os Estados Unidos estão um tanto perdidos, acabados, passando do prazo de validade. O que oito anos de governo Trump não fizeram com essa nação? 

Logan também não é mais o mesmo. Depois de 120 anos de vida, seu fator de cura já não age com a mesma velocidade de outrora e ele começa a demonstrar pequenos sinais de velhice como cabelos e barba grisalhos e dificuldades para ler. 

Nosso herói é um homem amargurado como sempre soubemos que ele se tornaria. Seus amigos se foram, vários deles mortos pelo professor Xavier (Patrick Stewart) num acidente de grandes proporções causados pelos seus primeiros sinais de demência. Enfim, é um futuro em que não há mais Jean Grey para ele dar em cima, nem Scott Summers para ele chamar de mauricinho babaca. É um mundo sem Mariko. Como não ser amargurado se não há mais Mariko?

Mas Logan é o melhor no que faz. E atualmente isso se resume a tirar uns bons trocados como motorista de limusine. É o que deu para arranjar em 2029. Mas a sua paz será encerrada quando Laura (Dafne Keen, atriz que rosna que é uma beleza e parece se divertir muito em cada cena de ação do filme) cruza o seu caminho. 

Laura é uma mutante "muito parecida" com Logan, como Charles faz questão de lembrar. E o próprio percebe em suas primeiras demonstrações de fúria. Sem falar nas garrinhas que saem de seus punhos angelicais. 

É claro que Logan vai se meter em roubada, mas o que ele deve fazer? Com mercenários liderados pelo tal de Pierce (Boyd Holbrook) sedentos por sangue no seu encalço depois que a Laura cruzou o seu caminho só o que lhe resta é correr para o Éden dos mutantes antes ele seja tarde demais. 

"Logan" é bem diferente dos filmes anteriores do Wolverine e dos X-Men. É mais violento, por exemplo. A carnificina do Wolverine é bem mais realista. O filme também reflete sobre um futuro sombrio para os mutantes e a humanidade. É a perfeita despedida e o filme que Jackman precisava para o seu talento em interpretar o personagem. Ainda que a Corneta espere que ele reconsidere a decisão. Enquanto isso, Wolverine levará uma nota 8,5. 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Um Oscar bem maluco

O cartão com o verdadeiro vencedor/Reprodução
O que dizer sobre esse Oscar mais maluco dos últimos tempos? 

1- Ainda estamos todos PERPLEXOS com o mico épico de Warren Beatty e Faye Dunaway, mas não me surpreende. Afinal, eles foram Bonny e Clyde no cinema. Obviamente queriam ROUBAR o Oscar de "Moonlight". 

2- Mas como entregaram o envelope errado para eles? Como eles não perceberam que havia algo de errado, pois ali estava escrito EMMA STONE? Como eles não pararam e disseram: "Peraí, tem alguma coisa estranha aqui". Garotearam muito. 

3- Menos mal que pelo menos o prêmio verdadeiro foi para "Moonlight", mas deve ter sido horrível para o povo de "La La Land" ter que devolver os carecas dourados logo depois de colocar as mãos neles. Foi tipo fazer o gol do título, comemorar muito e logo depois marcarem impedimento no lance. 

4- Mas para quem canta e dança até em engarrafamento, acho que eles vão superar isso. 

5- Acho que eles superaram melhor, inclusive, do que o Denzel Washington, que estava com cara de poucos amigos ao ver que perdeu o careca dourado de ator. Também, se eu perco para o Casey Affleck, o máximo que faço é bater palmas no Nicole Kidman style.

6- Mas se investigarem direitinho, acho que descobrem que o envelope do Casey Affleck também estava errado. Será que ainda dá para ir ao STJD?

7- Como se não bastasse o King Kong no prêmio de Melhor Filme, o Oscar ainda prestou homenagem no bloco in memoriam a uma mulher que ESTÁ VIVA. Colocaram a foto da Jan Chapman junto com o nome da Janet Patterson (que realmente morreu). Mas veja o lado bom disso: quando morrer, Jan será a primeira da história a ser duas vezes homenageada no in memoriam. E quando ela vier a falecer, o Oscar poderá dizer: "Conforme antecipamos em fevereiro de 2017...".

8- Mas nem tudo foi gafe ou erro como o prêmio do Casey Affleck. O Oscar também teve coisas boas. 

9- Gostei da abertura animadinha com o Justin Timberlake colocando todo mundo para dançar logo de cara e se misturando com a galera para começar em alto astral. 

10- O Jimmy Kimmel também foi bem como apresentador. As piadas com o Trump eram previsíveis que iriam acontecer, mas foi ótimo ele ter tuitado para o cara ao vivo. Imagina o trabalho que o Trump terá para responder todas as provocações hoje?

11- Amamos a vitória de Viola Davis e seu discurso que fez todo mundo chorar e a vitória de Asghar Farhadi ("O apartamento" é bem bom) e seu discurso lido no palco pela sua representante. Ele não foi por causa da política do Trump. 

12- Adorei também os doces que voavam o tempo todo para a galera. Muita gente saiu da dieta na cerimônia. 

13- Também foi ótimo o povão entrando na festa sem saber e cumprimentando e tirando fotos dos ídolos. Se isso acontece comigo, eu vou direto na Scarlett Johansson e mando: "How you doing?". E se não dá certo com ela, eu tento com a Amy Adams. 

14- Gente, "Esquadrão Suicida" tem um Oscar. Deixaram isso acontecer. Isso é a versão cinematográfica do Anderson Polga tem Copa do Mundo e o Zico não. 

15- Gente, a família Affleck agora tem três Oscar. Deixaram isso acontecer. Como deixaram isso acontecer????

16- Não deu para engolir "Manchester à beira-mar" ganhando em roteiro original. Muito menos a Emma Stone tirando o Oscar da Isabelle Huppert. 

17- No fim, "La La Land" acabou ficando com seis dos 14 prêmios que disputava, incluindo o do Damien Chazelle, o mais jovem diretor a faturar o Oscar. "Moonlight" ficou com três, incluindo os de Mahershala Ali como ator coadjuvante e o de roteiro adaptado. 

18- Agora o Remy Danton tem um Oscar, mas o Frank Underwood tem dois. 

19- E viva "Moonlight". Merece muito. Vejam, revejam e vejam de novo quando chegar na Netflix em maio. 

20- Que pena que acabou. Mas ano que vem a gente volta para cornetar mais. Mas a lição que fica é: leiam direito o conteúdo dos envelopes que vocês recebem.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Os pré-comentários do Oscar-2017

Hoje é o grande dia. O dia de falarmos mal do Oscar. Enquanto a festinha não chega, vamos aos pré-comentários malemolentes para animar este domingo. Afinal, corneta é vida.
1- A gente sabe que "La La Land" vai passar o rodo na festa como galã de novela dos anos 90. Afinal, o filme é bonito, fofinho, muito bem feito e fala bem de Hollywood. É difícil acreditar que uma propaganda chapa branca de Hollywood não vá colecionar vários carecas dourados na festa de... Hollywood.
2- Logo... chegar na festa com 14 indicações e não faturar nada seria tipo um 7 a 1 cinematográfico. Não acontecerá.
3- Mas, porém, contudo, todavia, se eu tivesse que dar o meu voto para melhor filme seria para "A chegada". Mas se "Moonlight" ou "A qualquer custo" vencerem também está muito bem dado e aplaudiremos de pé. Só espero que os candidatos "Spotlight" da vez não vençam neste ano. Vamos evitar o erro do ano passado, por favor.
4- Sei que "Toni Erdmann" é favoritaço na categoria de filme estrangeiro, mas o meu preferido da leva desse ano foi "Um homem chamado Ove".
5- Aliás, o grande vacilo número 1 desta categoria é deixarem "Elle" de fora. O vacilo número 2 veio do governo brasileiro, que não indicou "Aquarius". Talvez não entrasse, mas ESTETICAMENTE falando, ele tinha bola para jogar nesse time.
6- Vou deixar já protocolada uma reclamação prévia de que a cerimônia é longa demais e passou da hora de cortarem os números musicais.
7- Minha torcida entre os atores vai para Viggo Mortensen ("Capitão Fantástico"), mas se o Denzel Washington ("Um limite entre nós") ganhar tudo bem. Se der Casey Affleck ("Manchester à beira-mar"), Ryan Gosling ("La La Land") ou Andrew Garfield ("Até o último homem") vou bater panela na janela e chamar a Academia de golpista.
8- Aliás, para indicar o Andrew Garfield era melhor ter apostado no seu trabalho em "Silêncio", que era melhor do que o de "Até o último homem". Quiçá, a única coisa relativamente boa deste que é um dos piores filmes do Martin Scorsese.
9- Gente, Isabelle Huppert ("Elle") NÃO PODE perder o careca dourado de atriz. Mas, ao que tudo indica vai. E pior. Para a Emma Stone. A vida é muito injusta. A vida é um bloco de carnaval tocando Los Hermanos.
10- Por falar nessa categoria, Amy Adams ("A chegada") e Annette Bening ("Mulheres do século XX") mereciam entrar nessa disputa. Foi vacilo do Oscar deixá-las de fora.
11- Damien Chazelle ("La La Land") fez um trabalho muito bonito, mas a minha torcida entre os diretores ficará com Dennis Villeneuve ("A chegada") e Barry Jenkins ("Moonlight").
12- A cota vacilão dessa categoria é a ausência de David Mackenzie ("A qualquer custo") na disputa.
13- As reportagens do "Hollywood Reporter" com pessoas que votam no Oscar utilizando argumentos toscos para justificarem seus votos comprovam que qualquer um pode votar nisso e sair impune. Então eu também vou dar os meus votos para as demais categorias.
14- Eu daria meu Oscar de ator coadjuvante para Jeff Bridges ("A qualquer custo"). Já o de atriz coadjuvante iria para Viola Davis ("Um limite entre nós"). Mas ficaria satisfeito se a dupla de "Moonlight" (Mahershala Ali e Naomie Harris) vencesse, pois eles estão muito bem no filme.
15- Em roteiro original, não tenho dúvida de que o de "A qualquer custo" é o mais brilhante dos concorrentes. Não li as obras originais dos candidatos a roteiro adaptado. Mas e dai? Eu duvido que o povo da Academia tenha comparado também. Logo, meu voto vai para "A chegada".
16- Não sei quem vai ganhar em trilha sonora. Mentira, eu sei que só pode ser "La La Land". Eu sei também que "Passageiros" não merece ganhar nem eleição para síndico de prédio.
17- Por falar em música, "City of Stars" é tão bonita que eu nem precisava ouvir o resto para torcer pela música de "La La Land" em canção original.
18- Efeitos visuais? "Doutor Estranho", Fotografia? "Moonlight". Figurino? "Aliados". Maquiagem e cabelo? Não, peraí, aí já é um pouco demais.
19- Graças aos deuses, esse ano não tem nenhum filme sobre jornalismo. Ninguém vai falar em vitória do jornalismo em nenhum momento. Ufa!

sábado, 25 de fevereiro de 2017

O ranking do Oscar 2017

"A Chegada", o melhor filme do Oscar 2017
Foi mais um ano vitorioso no desafio do Oscar. Graças a um esforço de reportagem que precisou acionar até a INTERNET PROFUNDA em oito casos específicos, consegui zerar o álbum de figurinhas antes da festa que adoramos cornetar e que acontecerá amanhã em La La Land.
Agora o que resta à Corneta é divulgar o super ranking anual dos filmes que concorrem a alguma coisa no careca dourado-2017. Lembrando, é claro, que não trabalhamos com animações e documentários que não estejam concorrendo em alguma das 19 categorias importantes e/ou técnicas do Oscar. E que canção original, você procura no Spotify para ouvir. Não precisa ver o filme.
Vamos ao ranking:
1º lugar - "A chegada" - 9,5
2º - "Moonlight" - 9,5
3º - "A qualquer custo" - 9
4º- "Elle" - 8

(Os filmes acima estão classificados para a Libertadores)
5º- "Animais Noturnos" - 8
6º - "Jackie" - 8
7º- "Um limite entre nós" - 8
8º- "Doutor estranho" - 8
9º- "La La Land" - 8
10º- "Ave, César!" - 8
11º- "Um homem chamado Ove" - 7,5
12º- "O apartamento" - 7,5

(Os filma acima estão classificados para a Copa Sul-Americana)
13º- "Rogue One: uma história Star Wars" - 7,5
14º- "O Lagosta" - 7,5
15º- "Terra de Minas" - 7 
16º- "Toni Erdmann" - 7
17º- "Capitão Fantástico" - 6,5
18º- "Mulheres do século XX" - 6,5
19º- "Manchester à beira-mar" - 6,5
20º- "Animais fantásticos e onde habitam" - 6,5 
21º- "Loving" - 6,5
22º- "Florence - quem é essa mulher?" - 6,5
23º- "Sully: o herói do Rio Hudson" - 6,5
24º- "Lion: uma jornada para casa" - 6
25º- "13 horas: os soldados de Benghazi" - 6
26º- "Estrelas além do tempo" - 6
27º- "Aliados" - 6
28º- "Silêncio" - 5,5
29º- "Star Trek: sem fronteiras" - 5
30º- "Até o último homem" - 5 
31º- "Horizonte profundo" - 5
32º- "Mogli - o menino lobo" - 5

(Os filmes abaixo foram rebaixadas para o festival de Tribeca)
33º- "Esquadrão suicida" - 4
34º- "Passageiros" - 4
35º- "Tanna" - 3
36º- "Kubo e as cordas mágicas" - 2,5

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Uma obra de pura poesia

Moonlight é pura beleza
Eu vejo muita porcaria, muito filme mais ou menos. Enfim, eu gosto de cinema mesmo quando ele é ruim. Mas é nas raras vezes em que ele é maravilhoso que o amor por essa arte mais vale a pena. "Moonlight" provocou na Corneta esse prazer único e raro. É um dos filmes mais impactantes, bonitos e poéticos entre os que concorrem ao Oscar. 

Segundo longa do diretor Barry Jenkins, o filme é um lírico estudo de um personagem que enfrenta todas as adversidades possíveis da vida, ao mesmo tempo que vai sendo moldado pela realidade difícil num bairro pobre de Miami. Dificuldades que são ainda maiores quando se trata de um jovem negro e gay. 

"Moonlight" tem uma força que não vem das palavras. Vem dos gestos, dos olhares, dos enquadramentos escolhidos por Jenkins, dos silêncios... Da necessidade de buscar um caminho que está no coração e sentir o aperto sufocante de não conseguir gritar para o mundo o que você deseja ser. Há ainda uma força que oprime o personagem principal além do limite, quando tudo o que ele deseja é, primeiro entender quem é, depois ser aceito pelo que é. E, por fim, ter uma vida próxima do normal realizando os sonhos e os desejos que qualquer um tem. 

Dividido em três partes, ele conta a história de um jovem durante a sua passagem da infância para a idade adulta. Tímido, sem saber o que está sentindo, mas vendo-se diferente da maioria, Chiron (Alex R. Hibbert) é quase sempre monossilábico. Uma característica que levará até a idade adulta. A não ser pela relação com Kevin (Jaden Piner), o melhor amigo, ele nunca se sente muito parte daquela coletividade na escola. E ainda precisa encarar uma vida difícil em casa com uma mãe viciada em drogas (a ótima Naomie Harris). 

É na infância que Chiron conhece o traficante Juan (Mahershala Ali, outro que está muito bem no filme), cubano que vive em Miami e vende drogas para, entre tantas outras pessoas, a sua mãe. Ao lado da namorada Teresa (Janelle Monáe), ele ajudará a cuidar de Chiron e dar algumas lições sobre a vida nos poucos momentos em que convivem juntos. 

Sem pai, Chiron acaba tendo em Juan a representação mais próxima possível da figura paterna. É curioso que venha de um bandido a sensibilidade para não julgá-lo e para orientá-lo. E ele sequer se assusta com as perguntas que martelam desde sempre a cabeça do menino: "O que é bicha?", "Eu sou bicha?". 

Mesmo com uma convivência tão curta, o traficante deixa marcas indeléveis no garoto e no homem que ele se tornará. "Isso não é você. Quem você está querendo ser?", questiona Kevin (André Holland) ao reencontrá-lo depois de uma década de afastamento. 

A primeira parte é a mais poética de todas. Com suas pausas, seus silêncios, seu jogo de imagens, por vezes lembra até filmes do diretor Terrence Malick (que eu amo). Mas o filme jamais perde a sua força nos demais capítulos desse livro audiovisual. 

A segunda parte passa pela adolescência de Chiron (Ashton Sanders). Juan já não está mais por perto. Morreu pelo caminho e deixou a sua vida como outras tantas pessoas que vêm e vão na vida do ser humano. Mas a mãe segue presente e cada vez mais afundada nas drogas. Teresa surge ainda mais forte como uma mãe substituta, que lhe dá o carinho que precisa. 

Mas a vida na adolescência torna-se ainda mais infernal quando o que não passava de provocações de colegas na infância transforma-se em bullying violento. Chiron precisa transformar-se, defender-se de tudo e todos até a hora que inevitavelmente terá que explodir. Tantas coisas estão reprimidas por tanto tempo e a adolescência é o momento em que Chiron arromba as portas e sofre as consequências disso. 

Mas a opressão da sociedade é algo do qual Chiron (na vida adulta vivido por Trevante Rhodes) nunca se libertará. Que se revela em seus gestos econômicos e seus movimentos cuidadosos, como se estivesse sempre pisando em ovos e estudando um ambiente potencialmente hostil. Mas ao mesmo tempo que o mundo lhe é hostil, ainda mais agora que, além de negro e gay, ele se vê envolvido com atividades criminosas, seus olhares para o nada buscam alguém que o enxergue e o entenda. Chiron sobrevive enquanto só quer viver. 

"Moonlight" é um filme duro, mas de uma poesia e uma beleza ímpares. É CINEMA em caixa alta, em letras garrafais. Gigante como os que a gente esbarra de vez em quando na vida. Uma obra-prima que merece ser reverenciada. Por isso, ganhará da Corneta uma nota 9,5. 


Indicações ao careca dourado: melhor filme, ator coadjuvante (Mahershala Ali), atriz coadjuvante (Naomie Harris), diretor (Barry Jenkins), roteiro adaptado, trilha sonora original, fotografia e montagem.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Alemães riem

Se joga, filha
Uma das grandes descobertas dessa maratona do Oscar que vai chegando ao fim (para mim, só falta um filme!) é que o alemão tem senso de humor. Sim, é verdade. Eu também não sabia. Eles têm até uma expressão para isso: Sinn für Humor. E é isso que presenciamos em "Toni Erdmann". 

O filme de Maren Ade é o indicado alemão e, dizem, o grande favorito ao careca dourado de filme estrangeiro. Mas ao contrário dos tradicionais dramas de guerra ou que refletem sobre a Alemanha dividida pelo muro de Berlim que nos acostumamos a ver, "Toni Erdman" é uma comédia. Isso mesmo. Essa palavra existe também em alemão: Komödie. 

O enredo de "Toni Erdman" pode ser resumido num tweet: pai malucão e amoroso tenta se reconectar com a filha careta que está desperdiçando a vida só trabalhando (Deu 135 caracteres). Dá até para completar com cinco emojis. 

A filha se chama Ines Conradi (Sandra Hüller). Ela vive em Bucareste, na Romênia, onde trabalha numa firma de consultoria especializada em organizar passaralhos em empresas pelo mundo sob a pecha de "modernizar". Enfim, conhecemos esse discurso. 

É uma função ingrata e logo o pai Winfried (Peter Simonischek) percebe que a filha não é realmente feliz ali pendurada no celular e tendo uma vida workaholic e artificial, sem aproveitar as coisas boas da vida. Pior, bajulando potenciais clientes com comprinhas em shoppings só para fechar um negócio. 

É quando ele resolve agir. Vai para Bucareste, se disfarça como o coach picareta Toni Erdmann e começa a bagunçar as estruturas certinhas da filha, mexer com seus amigos, seus colegas de trabalho, seu amante e, o pior de tudo, forçá-la a cantar Whitney Houston na frente de um monte de romenos desconhecidos. Mandar um "Greatest love of all" foi pesado. Pode até ter sido didático, mas foi pesado. Parecia um dos treinamentos duros do senhor Myiagi com o Daniel San em "Karatê Kid". 

Mas o objetivo de Erdmann/Winfried é não apenas se reconectar, mas humanizar a filha. Mostrar que a vida é mais do que o trabalho.  E com isso eles vão vivendo uma série de situações. Algumas engraçadas, outras bizarras e outras meio nada a ver que eu imagino que sejam engraçadas, mas devem ser mais a cara de um humor típico alemão (deutsche stimmung) e aí eu não peguei. Mas nada supera a impagável cena do aniversário de Ines, que acaba sendo uma metáfora para a desconstrução absoluta do seu personagem e ponto de inflexão psicológico para ela. 

"Toni Erdmann" é um pouco longo. São quase três horas, mas não chega a ser cansativo. Para uma comédia alemã (eu não consigo deixar de achar estranho juntar estas duas palavras), até que se sai relativamente bem no teste da Corneta. Ganhará uma nota 7. 

Indicação ao careca dourado: melhor filme estrangeiro

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Lion não ruge e só sofre

Eu tô voltando pra casa outra vez
O Oscar de melhor filme é como os "Jogos Vorazes". Se na trilogia do cinema cada distrito manda o seu candidato para representá-lo na Copa do Mundo de UFC com armas, o mesmo acontece com a principal categoria do careca dourado. A diferença é que nem todos os gêneros são contemplados como são todos os distritos da série de Katniss Everdeen. Mas até que ficou mais fácil agora que são oito, nove ou dez candidatos. É por isso que todo ano temos o filme cabeça ("A chegada"), temos o filme com jeitão indie/orçamento barato ("Manchester à beira-mar"), temos o filme "Sessão da Tarde ("Estrelas além do tempo"), temos eventualmente a cinebiografia, o drama pesado, o filme de guerra ("Até o último homem"), o filme fofinho, o musical ("La La Land"), o faroeste ("A qualquer custo"), e por aí vai. São muitos distritos/gêneros que vão se digladiando por um lugar na grande final que acontece anualmente em La La Land. Nem todos chegam na decisão. 

Entre todos os gêneros está o chamado "filme para chorar". E essa categoria conseguiu emplacar um representante neste ano. Trata-se de "Lion - uma jornada para casa". 

É preciso ter um coração de pedra, é preciso ser uma Cersei Lannister para não se emocionar com essa história. A Corneta mesmo fez um esforço enorme, mas foi inevitável escorrer uma lagriminha do canto direito do olho esquerdo. Tudo culpa do efeito família + drama + imagens idílicas + pianinho meloso na trilha sonora. 

Ainda bem que jamais nos deixamos tomar pela emoção na hora de fazer a avaliação criteriosa. Logo, vamos falar aqui algumas VERDADES. "Lion" é um filmezinho meia-boca com um protagonista que não me convenceu nem por dois segundos com seu sofrimento e caras de quem está padecendo de dor de barriga e precisando desesperadamente de um Imosec. 

Resumindo, "Lion" conta a história real do jovem Saroo (o garotinho Sunny Pawar na infância, o Jacob Tremblay com IDH mais baixo, e Dev Patel na idade adulta). Ele se perde do irmão quando ambos saiam para trabalhar em algum lugar da Índia, nunca mais encontra a família e acaba adotado por um casal boa praça e com muitos recursos financeiros. 

O trabalho de Garth Davis é dividido em duas partes. A primeira conta a infância de Saroo na Índia. Tem aquela miséria que nos acostumamos a ver toda vez que Hollywood retrata a Índia. Aquelas famílias enormes, a religião, o colorido, a bagunça generalizada, a falta de higiene, enfim, todos os clichês que conhecemos do país. Até que um dia Saroo enche o saco do irmão para ir trabalhar com ele. Chegando lá, porém, o garoto só quer saber de dormir. 

A gente sabe que criança é curiosa e não gosta de ficar parada. Ou seja, para Saroo ir dormir num trem qualquer e parar do outro lado da Índia não custava. Não só não custava, como foi o que aconteceu. O menino foi parar em Calcutá onde nem falava o bengali, o idioma local. O negócio dele era hindi. Não tentem entender, isso é a Índia. Só indo lá para saber como realmente as coisas são. Eu adoraria conhecer. 

A partir daí Saroo começa a correr feito Forrest Gump para escapar de todos os problemas enfrentados por crianças indianas. De mercadores de escravos a pessoas que procuram jovenzinhos pelas ruas para vendê-los. Afinal, ninguém vai te oferecer uma Fanta laranja assim de graça. É o que o menino logo vai perceber. 

Até que um dia a vida sorri para Saroo e ele é adotado pela Nicole Kidman (na verdade, o nome da mulher é Sue). Vai viver na Austrália, mais especificamente na Tasmânia (infelizmente não vemos uma única vez o Diabo da Tasmânia dos desenhos da Warner), e crescer numa vida feliz e velejando para esquecer dos problemas como se fosse um Christian Grey sem quarto vermelho. 

Mas o tempo passa, o tempo voa e a CRISE DOS 30 bate à porta ferozmente como um leão (tum dum tsss) na cabeça de Saroo. Ele está perdido. Vejam bem, ele está perdido e sentindo-se um náufrago no mundo mesmo tendo uma vida nababesca, uma boa educação, um bom emprego e namorando a Lisbeth Salander. Quer dizer, a Lucy (Rooney Mara). 

Na primeira parte, o menino Sunny faz jus ao nome e deixa a sua tela ensolarada (hoje eu estou impossível nos trocadilhos ridiculamente infames). Realmente, o garoto merece os elogios que vem recebendo e consegue conduzir a situação até o momento em que você fica um pouco de saco cheio e pensando se o filme não vai parar em outro lugar ou vai ficar repetindo situações ad eternum. Cansa um pouco. Ok, já entendemos que ele está na merda. 

Até que vem a segunda parte. E aí, amigo, vemos o Dev Patel parecendo aquela hiena depois que finalmente come a iguaria que o irmão Guddu o prometera lá na infância pobre na Índia. Oh céus, oh vida, oh azar. Quem sou eu? De onde eu vim? Para onde eu vou? 

No passado, você mergulharia na religião para responder a estas perguntas. Mas estamos no século XXI. Apesar do esforço do Papa Francisco em fazer a Igreja voltar a ser pop, a tecnologia chegou para ficar. E quem responde todas as suas questões é o Google. No caso de Saroo é o Google Earth. 

É aqui que o filme deixa de contar a história para fazer o merchandising. Sim, ele realmente é incrível, mas se eu ganhasse 100 euros por cada segundo que o Google aparece eu conseguiria passar o fim de semana na Austrália. Mas eu te amo, tá Google? Não vivo sem você. De verdade. Inclusive, você foi usado em pesquisas para a construção desse texto. 

Bom, depois de tanto procurar, Saroo encontra a agulha que tanto desejava no palheiro da Índia. Aí, você tem umas cenas realmente muito bonitas dele redescobrindo a comunidade que morava, refazendo os caminhos da infância (tudo com aquele pianinho meloso). E é isso né? Só faltou mesmo tocarem: Gosto muito de te ver, leãozinho/caminhando sob o sol/Gosto muito de você, leãozinho. 

É claro que a história de Saroo é emocionante. A Corneta não quer desmerecer a busca dele pela família biológica e por resolver seus conflitos internos. Porém, o filme que saiu dali é profundamente irregular. Uma primeira parte de regular para boa e bem interessante e uma segunda parte um tanto ASSÉPTICA e de regular para fraca. Também é difícil entender por que Dev Patel e Nicole Kidman ganharam indicações ao careca dourado de ator e atriz coadjuvantes, respectivamente. Tudo normal, gente. Vemos o que está na tela em qualquer "Malhação". 

Diante disso, a Corneta não se deixará esmorecer por lágrimas derramadas na sala. Sim, teve gente perto de mim fungando o nariz. "Lion" receberá uma nota 6. 


Indicações ao careca dourado: melhor filme, ator coadjuvante (Dev Patel), atriz coadjuvante (Nicole Kidman), roteiro adaptado, fotografia e trilha sonora.