sábado, 27 de novembro de 2021

“Spencer” e a vida sufocante da princesa Diana

Stewart não conseguiu se amalgamar a Diana

Cinco anos depois de fazer um estudo sobre um duplo luto do marido e do poder em “Jackie”, o chileno Pablo Larraín resolveu buscar outra mulher icônica do poder para um novo exercício dramático. “Spencer” joga uma lupa sobre a falecida princesa Diana e sua relação com a família real britânica num dos momentos finais de sua relação com o príncipe Charles.

Assim como “Jackie”, o filme foca quase que 100% sobre sua personagem principal fazendo com que todos as demais figuras orbitem em torno dela, reajam a ela ou sejam empáticas ou não a ela.

“Spencer”, porém, não é tão bem sucedido quanto “Jackie”. Tem altos e baixos. Como reflexão sobre uma vida sufocante e suas consequências sobre alguém completamente deslocada daquela realidade cheia de padrões, horários rígidos e tradições ele vai bem. Mas o que falta a “Spencer” é o que “Jackie” tinha de sobra: uma atriz que segurasse firme o protagonismo do filme.

É claro que Natalie Portman é mais atriz que Kristen Stewart. Mas Stewart pareceu não ser a melhor escolha, ainda mais com uma comparação tão próxima a ela. A Diana de Emma Corrin, em “The Crown”, é mais rica ao mesmo tempo em que passa os mesmos dramas que o filme tenta colocar. É claro que uma série tem mais espaço de desenvolvimento, mas Corrin pareceu captar melhor a essência da princesa de Gales a ponto de vermos mais a Diana do que propriamente Corrin, o que não acontece em “Spencer”. O que vemos no filme de Larraín é mais Stewart tentando imitar e dar sua visão para Diana, mas sem conseguir se amalgamar com a personagem.

Também são discutíveis os maneirismos que Stewart impôs à personagem. Aquela fala travada, quase sufocante o tempo inteiro cansa um pouco. Por outro lado, se o objetivo era exatamente este, mostrar como aquela família sugava a alma de Diana a ponto de ela mal conseguir respirar pareceu uma saída interessante.

No entanto, “Spencer” se sai melhor mostrando isso com atos e imagens. O controle absoluto sobre a vida dela, as constantes observações, a sensação de prisão (a cena das cortinas costuradas é terrível e ao mesmo tempo muito emblemática), a necessidade de estar sempre seguindo protocolos burocráticos de uma realidade hipócrita enquanto a realidade estava desmoronando em meio a uma conhecida traição de Charles e seus problemas de bulimia. Tudo isso é muito bem feito no filme de Larraín.

“Spencer” é uma reflexão sobre a falta de ar e uma vida sufocante. Sobre como um ambiente é nocivo para alguém que não se enquadra na rigidez da família real. A primeira tomada dele já é brilhante em mostrar os contrastes entre Diana e o seu universo. Ela livre, perdida, sozinha tentando encontrar o caminho para o fim de semana de Natal em família. Do outro lado, exércitos seguindo rígidos protocolos. Do exército que entrega a comida ao exército de cozinheiros do castelo.

Gosto de como Larraín usa as dualidades do filme. De como ele faz Diana querer fugir e ser livre o tempo todo enquanto todo o universo da família real precisa seguir uma rotina de relógio suíço e até a diversão é controlada. Tudo o que Diana busca é um Natal e, consequentemente, uma vida normal. Mas é tudo o que ela não pode ter. Presa que está naquela hierarquia feudal e com um marido que o mundo inteiro sabe que a trai.

Os únicos momentos que não são de martírio dela são com os filhos. Larraín vê William e Harry como o ponto de alívio e amor que Diana tinha no inferno que sofria. O diretor também faz questão de reafirmar o título de princesa do povo ao mostrar que os empregados têm simpatia por ela. Ao contrário dos olhares atravessados, opacos, distantes da família, que parece querer se livrar dela tanto quanto ela deles.

“Spencer” mostra um momento sufocante pré-ruptura. Dali para frente, tudo seria diferente para todos até a trágica morte da princesa. E a escolha de Larraín em mostrar isso justamente num momento de Natal, que devia ser de celebração e união, foi certeira.

O filme, porém, só reforça os entendimentos que se criaram sobre todos estes personagens tão fartamente retratados no cinema e na TV. Neste ponto, portanto, “The Crown” e “A Rainha” são mais interessantes por discutirem e tentarem se aprofundar um pouco mais sobre eles. “Spencer”, por outro lado, tem seu lugar. E não deixa de ser um exercício interessante de Larraín sobre uma mulher com uma vida tão fascinante quanto trágica.

Cotação da Corneta: Nota 6,5.



sábado, 13 de novembro de 2021

"Eternos" ficou devendo, mas ainda assim é divertido

Eternos e suas belas fantasias de carnaval
Levar para o cinema os personagens cósmicos da Marvel era um grande desafio. Primeiro, eles nunca foram realmente incríveis nos quadrinhos. E ainda assim era preciso torná-los interessantes e palatáveis para o grande público que não consome e desconhece completamente estas histórias numa narrativa que se enquadrasse no universo cinematográfico do estúdio e pudesse criar uma nova mitologia neste mesmo universo.

“Eternos” (“Eternals”, no original) não consegue atingir todos os ambiciosos objetivos. De fato, se o filme for visto apenas como uma aventura de uma gama de heróis da Marvel, ele até vai bem. Tem uma história tradicional, plot twists, batalhas interessantes e um final em que o bem vence o mal e, entre ganhos e perdas, a vida segue rumo a próxima aventura.

O filme, porém, não é bem sucedido quando vai para além desta camada primeva. Quando tenta discutir o papel dos Eterno na humanidade e sua função durante sete mil anos, quando levanta as capas de uma suposta hipocrisia e de um jogo de peões interplanetário em um xadrez muito maior do universo ele não passa de uma camada um pouco pálida.

É perceptível o esforço do filme em trazer uma camada de importância e construir um filme que se distancia vagamente da chamada fórmula Marvel, trazendo algumas discussões, digamos, sociológicas. E é muito válido que isso seja feito de alguma forma. Mas era preciso fazer tanta coisa neste filme: apresentar e mostrar quem são os Eternos, explicar o que são os Celestiais e os Deviantes, apresentar Dan Whitman, que deve vir a ter um papel importante na futura formação dos Vingadores, explicar por que os Eternos não interferiram na batalha contra Thanos e os demais conflitos da humanidade. Enfim, era muita coisa a fazer em 2h37min. Portanto, essa tentativa de dar um corpo acadêmico ao filme fica em quinto plano e não passa de flashes numa história que precisa seguir em frente nas batalhas e na construção daquele universo. Creio que “Pantera Negra” (2018) tenha sido mais bem sucedido em tentar ir para além de uma trama tradicional de quadrinhos.

Mas dito isso, “Eternos” é bem legal. Nos apresenta uma gama de personagens que no cinema ficaram interessantes em uma trama tradicional que envolve o dilema entre seguir o seu destino ou cuidar da sua família. Mas essa é muito uma perspectiva de um leitor de quadrinhos.

Para alguém mais leigo, “Eternos” parece um filme bastante frio e distante. Confuso com todos aqueles saltos temporários e um pouco vazio, com pouco aprofundamento da maioria dos seus personagens. Ao mesmo tempo em que talvez seja didático demais. Por outro lado, talvez seja fundamental que ele seja didático para o grande público se ver inserido no contexto daquela mitologia.

Falta a “Eternos” também uma assinatura mais forte de sua diretora. Num ano em que Chloe Zhao ganhou um Oscar por um filme tão autoral e excelente como “Nomadland”, esperava-se que “Eternos” tivesse mais da diretora, por mais que Kevin Feige fosse quem comanda a roda da Marvel. O filme não parece muito diferente do que seria sob o comando de outra cabeça. Mas creio que Zhao pelo menos consegue fazer um feijão com arroz satisfatório na construção desta aventura e, eventualmente, implantar as suas ideias em pontos específicos da história.

Narrativamente, porém, o filme falha na trama de Ikaris (Richard Madden). A virada que o personagem ganha soa artificial uma vez que é abordado de forma muito rápida os conflitos entre a fé e a razão entre os Eternos. E depois disso, quando Ikaris hesita não fica muito claro os seus motivos ou soa um tanto quanto um “momento Martha” por ser simplesmente por amor enquanto até ali ele foi intransigente no seu plano a ponto de ter tomado decisões tão drásticas.

O que fica de positivo em “Eternos” é sua aventura, a participação de Angelina Jolie, os personagens interessantes, as boas cenas de luta e a perspectiva de um segundo filme que aprofunde mais suas histórias e desenvolva as consequências dos atos dos personagens neste filme, uma vez que o universo já está estabelecido.

O futuro parece promissor. O presente, porém, ficou entre o morno e o divertido. E com umas boas piscadelas da Marvel para a DC, talvez uma das boas sacadas do filme em seus momentos mais cômicos.

Cotação da Corneta: Nota 7.



"Duna" é um filme grandioso

Paul nunca abandona a mãe
Originalmente um longo romance de ficção científica de Frank Herbert, “Duna” parecia infilmável. Afinal, como jogar para a tela um livro de mais de 600 páginas com uma gama relativamente grande de personagens importantes e várias tramas relevantes? Foi um desafio que o diretor canadense Dennis Villeneuve pegou para si. E tal qual um fremen cavalgando nas costas de um verme de areia, Villeneuve dominou muito bem o desafio.

“Duna” (“Dune: part 1”, no original) é um filme grandioso, solene, irresistivelmente belo e uma adaptação respeitosa e cirúrgica do livro de Herbert. Será preciso ser muito chato e cri-cri para que o fandom de “Duna” torça a cara para este filme. Estão ali todo os elementos do livro explorados com a minúcia que 2h35min de uma adaptação de aproximadamente metade do livro permitem. As casas são destacadas, os conflitos políticos, a questão envolvendo o meio ambiente, a luta pela especiaria, os interesses particulares das Bene Gesserit. a jornada do herói Paul Atreides (Thimothée Chalamet).

É claro que “Duna” não é um filme perfeito. E nem o melhor filme de Villeneuve. Mas isso diz mais sobre as qualidades de um diretor que já realizou trabalhos como “Blade Runner 2049” (2017), “A Chegada” (2016), “Sicário: Terra de Ninguém” (2015) e “Incêndios” (2010) do que depõe contra o seu trabalho em construir o mundo e os conflitos imaginados por Herbert.

Entre os acertos de “Duna” estão as escolhas de Villeneuve. Primeiro focar sua adaptação em uma parte do livro e não em sua totalidade. Assim, “Duna” pôde ter um ritmo mais lento, trabalhar mais a construção de seu universo e copiar até diálogos inteiros do livro. Segundo, escolher no meio de tudo focar na jornada do jovem Paul Atreides, filho do Duque Leto (Oscar Isaac) e, para os habitantes de Arrakis, o escolhido. Tudo gira em torno de Paul enquanto a trama política e ecológica fica como pano de fundo. Com destaque também, mas num patamar um pouco abaixo. Talvez isso não fosse o mais interessante para quem gosta mais das tramas políticas de “Duna”. Mas era preciso fazer escolhas e Villeneuve fez as dele.

Esteticamente é preciso destacar a trilha sonora inspirada de Hans Zimmer, que soube dar corpo à grandiosidade visual do filme. Também vejo como pontos positivos, detalhes das escolhas de Villeneuve como o uso da Voz, espécie de poder mental exibido pelas Bene Gesserit. O tom meio aterrorizante pareceu ser correto. Também foi boa escolha a sutileza que se exibem as especiarias, quase invisíveis para olhos mais distraídos, mas sempre ali relativamente brilhando em sua cor alaranjada e misturada a areia do deserto. Assim como o conceito dos escudos dos personagens.

Outro acerto foi a estética dos vermes do deserto, assustadores, meio escuros, sem um rosto aparente e raramente aparecendo em sua plenitude. Villeneuve soube ainda emular muito bem a forma como o deserto se movimenta como se fosse um mar de areia tão bem descrito no livro de Herbert.

Por outro lado, muito do que torna “Duna” grandioso pode incomodar o espectador comum. Por vezes, o filme de Villeneuve parece frio e sem alma. Crítica que “Blade Runner 2049” também já sofrera. Eu discordo. Acho que ele tem a força em sua beleza e os personagens carregam muito desta alma do filme desde as menores participações até Chalamet. E como estão bem Isaacs, Rebecca Ferguson, Stellan Skarsgaard, Javier Barden, Josh Brolin, Jason Momoa, Charlotte Rampling e outros. Cada ator entrega bem o que seu personagem pede.

É questionável também o modo como o filme termina. Me parece que só não causará incômodo e estranhamento em quem leu o livro, pois este grupo já conhece o que está por vir. Mas quem nunca pegou na obra de Herbert e vai conhecer o universo pela primeira vez pode ficar frustrado, mesmo que tenha sido enredado pela beleza do filme.

Haveria outro momento melhor para encerrar esta primeira parte? Talvez. Faltou um clímax ao filme? Provavelmente. Contudo, não foi exatamente ruim que a primeira parte terminasse com o amadurecimento de Paul, a sua necessária morte metafórica, enquanto a segunda deve se ocupar mais com a ascensão de Muad’Dib.

“Duna” correspondeu a muitas das expectativas. Sua grandiosidade, porém, só terá um atestado definitivo quando a parte 2 ganhar a luz do dia. Até lá, no entanto, nos contentemos com uma primeira parte cheia de predicados.

Cotação da Corneta: Nota 8,5.



sábado, 16 de outubro de 2021

007 apela ao sentimentalismo em despedida de Daniel Craig

Um filme imperfeito, mas um final perfeito para Craig
O que menos se espera de um filme de James Bond é um apelo a emoção e a sentimentos tão humanos. Mas o que os 15 anos de Daniel Craig no papel do mais famoso agente secreto no cinema nos ensinou é que a sua versão para 007 pode ser considerada a mais humana de todas. Em cinco filmes, o James Bond de Craig amou, sofreu, sentiu raiva, entregou-se a um alcoolismo, sentiu-se traído, chorou, errou…Tudo isso, claro, enquanto não falhava em apenas uma coisa: salvar o mundo dos grandes vilões que querem destruí-lo, dominá-lo ou qualquer coisa semelhante a isso. Não seria por acaso, portanto, que “Sem tempo para morrer” (“No time to die”, no original), o filme que marca a sua despedida do papel surgisse como uma revisão do seu legado e uma homenagem ao seu Bond humano.

“Sem tempo para morrer” tem uma série de defeitos. É quebradiço, tem um roteiro que tenta ser complexo e com reviravoltas, mas na maioria das vezes não funciona e é muito mais problemático e confuso. E tem um vilão que prometia mais do que cumpriu. A falta de uma boa história faz com que o filme pareça muito longo em suas 2h43min.

Por outro lado, o filme ganha força quando se coloca expondo o legado de Craig no papel. E apela a um sentimentalismo que talvez arranque algumas lágrima dos fãs de 007. E arrancar lágrimas de um espectador num filme de James Bond é algo que por si só seria raro.

Ao tentar se equilibrar em muitas frentes, porém, “Sem tempo para morrer” fica no meio do caminho de todas elas e entrega justamente um filme longe de ser perfeito. Para começo de conversa, a trama é confusa. Gira em torno de uma tentativa do vilão principal, Lyutsifer Safin (Rami Malek), de adquirir um vírus tecnológico poderoso que o permitirá matar milhões de pessoas ao redor do mundo. Ao mesmo tempo, a trama lida com a aposentadoria de Bond, agora vivendo recluso na Jamaica, enquanto há uma nova 007 no MI6, Nomi (Lashana Lynch). Ao mesmo tempo, a organização terrorista Spectre continua ativa e misteriosamente comandada da cadeia pelo arqui-inimigo de Bond, Blofeld (Christoph Waltz).

Alguns passos da história, porém, não ficam muito claros. Por exemplo, por que Safin tem interesse em fazer o que fez com a Spectre? Além disso, não entendemos muito bem quais foram as motivações dele para reproduzir um vírus mortal em larga escala para destruir milhões de pessoas se, supostamente, a morte da família dele está vingada. Falta, assim, mais esclarecimento para a trama da ameaça global.

Por outro lado, a história da vida miserável que Blofeld armou pra Bond no início do filme foi pouco explorada. Vimos o ato, o sentimento de traição que ele sentiu de Madeleine (Léa Seydoux) e pulamos imediatamente para a consequência: um Bond sozinho, isolado numa ilha e bebendo cada vez mais, e, por fim, no turbilhão de outros acontecimentos, a resolução desta subtrama no reencontro de 007 com Blofeld na prisão em Londres.

Havia um potencial maior nesta subtrama a ser explorado e faltou uma conexão maior com a história principal que envolvia Safin e suas motivações. Também faltou ao filme explorar um pouco mais do potencial de Paloma, personagem de Ana de Armas que tem uma pequena e interessante participação na parte da história que se passa em Cuba. É igualmente pouco explorado o potencial do vilão vivido por Malek, ainda que o ator esteja defendendo como pode o seu personagem em meio ao roteiro irregular.

O mesmo não acontece com Nomi, que ganha bom destaque na tela e tem boas interações com Bond. Esta é uma personagem que poderia voltar nos futuros filmes, quando for escolhido um novo ator para o papel principal.

Não necessariamente estes problemas ou defeitos atrapalham a experiência de “Sem tempo para morrer”. O filme tem boas cenas de ação, a melhor delas a primeira, na Itália, antes dos créditos de abertura com a música de Billie Eilish. E tem um final emocionante, quando Bond precisa enfrentar Safin e impedir a morte de milhões de pessoas na Europa em meio a uma potencial crise internacional entre Inglaterra, Japão e Rússia. Emocionante e até inesperado para os filmes de 007.

Ao longo de toda a trama, Bond está tentando se reconciliar com o seu passado após as escolhas equivocadas que fez no início do filme. E é nos minutos finais que ele encontra a paz no ponto alto do sentimentalismo que a trama vinha nos conduzindo. Ainda que a missão de Bond nunca esteja concluída, afinal, sempre haverá um vilão megalomaníaco querendo dominar o mundo, a missão de Craig ali se concluiu. E ele soube entregar um grande James Bond. Um grande e humano James Bond que aprendemos a gostar ao longo de uma década e meia. Eu não queria estar na pele de quem terá que substituí-lo.

Cotação da Corneta: nota 7.



domingo, 22 de agosto de 2021

Finalmente um bom "Esquadrão Suicida"

Isso sim é um Esquadrão Suicida
Não sou muito fã de fazer comparações ou tomar partido em um dos lados da dualidade do cinema pop atual. Mas como fã e leitor de quadrinhos tanto da Marvel quanto da DC, vou abrir uma pequena exceção para traçar um tímido paralelo entre as duas rivais.

É inegável que a Marvel faz filmes bons em quantidade maior do que a DC. Seus acertos são maiores do que os seus erros. Mas também é inegável, pelo menos do meu ponto de vista, que quando a DC acerta, ela acerta num nível que a equipara, quiçá a faz superar, alguns dos melhores filmes da Marvel.

“O esquadrão suicida” (The Suicide Squad, no original) é desses filmes do patamar mais alto da DC. E traz justiça. Traz justiça para esse grupo de vilões e anti-heróis tão mal tratados na versão de David Ayer de 2016. E vamos combinar que depois deste filme podemos definitivamente esquecer que o anterior existiu.

O filme também traz justiça para uma personagem tão legal como a Arlequina (Margot Robbie). Finalmente ela ganha um filme bom, excelentes cenas e um roteiro um pouco melhor, embora longe de ser perfeito. Mas melhor do que o que vimos no primeiro “Esquadrão Suicida” e do fraco “Aves de Rapina” (2020).

“O esquadrão suicida” também traz um sopro de novidade na monocultura contida dos filmes de super-heróis. Num mercado dominado pela Marvel, que só faz filmes PG-12, a classificação indicativa de “O Esquadrão Suicida” é 18+. Isso proporciona um filme nada contido e, exatamente por isso, mais “carnal” e vivo nos mais diferentes aspectos.

Longe de mim, porém, achar que a qualidade de um filme se resume a violência extrema e sexo. Isso está muito longe de ser verdade. Mas um grupo de personagens como o do Esquadrão Suicida pede um filme de censura mais alta para que seja mais fiel aos feitos de cada um deles. É claro que isso, por outro lado, não mascara os eventuais problemas do filme. Uma história um pouco jogada e num esquema mais de montanha-russa do que de encadeamento de ideias.

E aqui é preciso ressaltar o trabalho de James Gunn. Diretor e roteirista do filme, o cineasta deixa claro desde os primeiros minutos que tudo pode acontecer neste filme. E que não devemos nos apegar a nenhum personagem. Esse caráter de imprevisibilidade do filme é um dos méritos dele.

Em suas 2h14min, Gunn também consegue apresentar mais do que cenas apoteóticas. Num filme com 18 personagens supervilões. ele também consegue desenvolver minimamente seus personagens principais. Em especial Sanguinário (Idris Elba), Ratcacher 2 (Daniela Melchior) e Rei Tubarão (Sylvester Stallone). Tudo isso aproveitando para dar uma continuidade à história da Arlequina, que o fã já conhece de outros filmes e atiçando a curiosidade do fã com relação ao Pacificador (John Cena), cuja série spin-off já havia sido confirmada enquanto o filme estava sendo finalizado. E, por isso, talvez ele não ganhe destaque maior com alguma história do seu passado, embora tenha bastante tempo de tela.

Gunn também nos apresenta uma história divertida com um roteiro simples — o grupo é enviado a uma nação sul-americana qualquer para cuidar dos interesses americanos em meio a um golpe militar — que também é marcado por pitadas de humor que variam entre o pastelão da típica piada de tiozão e alguma elegância.

Mas o grande trunfo do “O Esquadrão Suicida” é mesmo seu grau de imprevisibilidade. E não deixamos de nos surpreender até o fim, até as cenas pós-crédito.

“O esquadrão suicida” merece todos os elogios e é um dos bons filmes deste ano. Esperamos que Gunn faça uma sequência. Ainda que ele tenha perdido muitos personagens neste filme. Se bem que, quando se trata de quadrinhos, ninguém morre de fato.

Cotação da Corneta: nota 8.



"Loki" apresenta novo supervilão da Marvel

Dois Lokis é um problema duplo
“WandaVision” foi o aquecimento. “Falcão e o Soldado Invernal” uma história paralela para criar um novo líder e herói. É em “Loki” que a Marvel deu o pontapé inicial na sua nova saga que virá após o desfecho da Saga do Infinito em “Vingadores: Ultinato” (2019).

Única das três séries lançadas até aqui confirmadas com uma segunda temporada, “Loki” teve altos e baixos no seus seis primeiros episódios. Como série, ficou aquém do esperado. Mas no fim revelou-se fundamental para o desenvolvimento da nova fase do Universo Cinematográfico da Marvel graças ao seu episódio final.

(ATENÇÃO QUE A PARTIR DE AGORA TEREMOS SPOILERS)

Foi no episódio final que o Deus da Trapaça se viu diante daquele que será o próximo supervilão da Marvel: Kang, o conquistador (Jonathan Majors).

Até de forma surpreendente, Kang aparece no episódio final da temporada como o grande arquiteto mantenedor da linha do tempo que então se acreditava ser comandado pelos Guardiões do Tempo e sua TVA.

Desmascarada a farsa e revelada que todos os funcionários da TVA são variantes, os dois Loki (Tom Hiddlestone e Sophie Di Martino) se veem num dilema esfíngico proposto por Kang após uma longa explicação dos seus atos: Aceitar a ausência de livre-arbítrio e comandar a TVA ou matá-lo ali imediatamente e fazer com quem as linhas temporais percam o controle com os atos de todas as suas variantes.

Fica a sensação de que Kang sabia o que estava fazendo e saberia qual seria o seu desfecho. Como se quisesse recomeçar toda a sua obra por puro sadismo de viver tudo aquilo de novo.

Assim, o último episódio de “Loki” mostra o pontapé inicial de algo que deve reverberar em todos os filmes e séries da Marvel daqui para frente. Com especial foco em “Doutor Estranho e o Multiverso da Loucura”, previsto para ser lançado em 2022. Ao implodir a única linha do tempo, gerando ramificações infinitas, os heróis devem enfrentar diversas consequências nos próximos anos a partir dos atos de Kang.

Embora toda esta parte seja empolgante, também é preciso falar sobre como “Loki” enquanto série deixou a desejar, após um primeiro episódio muito bom e um segundo bem legal, a série foi se perdendo em episódios fracos. O pior deles foi o que envolveu Loki e Sylvie num mundo próximo do apocalipse. Ali não havia absolutamente nada a se aproveitar e foi uma grande perda de tempo.

Claro que Tom Hoddlestone é carismático e Loki é um ótimo personagem. Sua relação com Mobius (Owen Wilson) rendeu alguns bons momentos no início. E Sylvie, a Lady Loki, foi um acréscimo positivo ao universo. Mas foi pouco para uma série que passou a impressão de ser mais uma escada para futuros acontecimentos da Marvel do que uma história que poderia ter sido mais bem construída em si.

Aliás, as três séries lançadas até aqui neste ano pela Marvel têm muito está cara. No fim, “WandaVision” foi a mais interessante das três. E foi a que pareceu ter uma história mais coesa com começo, meio, fim e uma ideia de para onde vai.

Mas no cômputo geral, a Marvel está devendo em suas séries. As três lançadas até aqui não são ruins, mas não estão no patamar de “Demolidor”, “Justiceiro” ou “Legion”.

Cotação: nota 7.



"Um lugar silencioso: parte II" é uma decepção

Um filme que não sai do lugar
Quando foi lançado em 2018, “Um lugar silencioso” conquistou público e crítica com uma ideia inventiva que possibilitava usar os recursos de som e silêncio numa história de terror passada em um mundo pós-apocalíptico. Ao explorar bem os recursos técnicos e construir um filme muito tenso e com monstros assustadores, porém cegos, que “farejavam” suas vítimas pela sensibilidade que tinham com o mínimo barulho que ouviam, o filme agradou muitas pessoas.

Embora tivesse uma história que se fechava em si mesma, era inevitável que no mundo atual do cinema marcado por dezenas de sequências, prequels e construções de sagas, que o filme ganhasse uma continuação. É uma pena que “Um lugar silencioso: parte II” (A quiet place: part II, no original) seja tão pobre de ideias, convertendo-se uma verdadeira decepção quando colocado em comparação com o primeiro filme.

(ATENÇÃO QUE A PARTIR DE AGORA TEREMOS SPOILERS).

“Um lugar silencioso: parte II” se passa quase imediatamente após os acontecimentos do primeiro filme. Passaram-se apenas cinco dias em relação ao dramático final da história anterior, que terminou com a morte de Lee (John Krasinski, também diretor e que participa do roteiro desta sequência).

Mas antes temos um longo e um tanto quanto desnecessário flashback que não serve para muita coisa a não ser apresentar o personagem de Cillian Murphy. Ali conhecemos Emmett, aparentemente um amigo da família com contatos no exército, mas nada disso será usado mais a frente. Fica a impressão de que Emmett é a figura masculina da vez na ausência de Lee.

Enquanto isso, acompanhamos a tentativa de Evelyn (Emily Blunt) de sobreviver junto com seus três filho. Entre eles Regan (Millicent Simmonds), que dias atrás (no filme anterior para os espectadores) havia descoberto um ponto fraco das criaturas alienígenas, que dá aos humanos uma pequena vantagem na tentativa de exterminá-las.

O maior problema desta sequência é a falta de ideias novas. Se fosse apenas um capítulo de série, daria para dizer que era um bom episódio que continua a história em questão, mas andando de lado, sem avançar muito. Como na verdade é um filme, é um pouco triste ver que ele não avança em praticamente nada na história. Os personagens continuam tendo que fugir sem fazer nenhum barulho, os humanos continuam se escondendo dos alienígenas em silêncio, Evelyn continua tendo que cuidar de um bebê que neste mundo é uma verdadeira bomba relógio e a tensão e os truques do primeiro filme apenas se repetem no segundo.

Do meio para o final do filme, Regan descobre o que pode ser uma solução para destruir as criaturas. Uma ilha de onde uma estação de rádio transmite em looping uma única música. Ela decide ir lá, Emmett a acompanha, a família se separa e parece que teremos uma busca de uma solução para a trama. Ao chegar na marina a procura de um barco, um grupo é atacado pelos monstros e descobrimos que as criaturas não podem nadar. Uma informação que poderia ser relevante, pois isso converteria a ilha numa zona de segurança deste mundo pós-apocalíptico. Mas a informação não é usada como uma forma de os humanos levarem vantagem na luta pela sobrevivência. Pelo contrário, um barco surpreendentemente — ou melhor, convenientemente — chega a deriva com um monstro justamente até a ilha. Soou como um recurso barato de filme B para levar o monstro até lá. Este foi o maior exemplo da falta de ideias que este filme tem. No jogo de forças entre humanos e monstros, não é possível que o roteiro tenha sido tão empacado e ausente de ideias que fizessem avançar a história.

O que fica de bom de “Um lugar silencioso: parte II” é apenas a repetição dos recursos do primeiro filme. O personagem do Cillian Murphy revela-se quase desnecessário em uma história que fica empacada e não traz nada além do que já não foi visto. Para ver mais do mesmo não era necessária uma continuação.

Cotação da Corneta: nota 6.



Viúva Negra e a despedida de Scarlett Johansson da personagem

Scarlett se despede em belo filme
A Viúva Negra sempre foi uma personagem querida e popular dos fãs de quadrinhos. Pelo menos desde o primeiro filme dos Vingadores, lá em 2012, um filme solo da personagem era desejado. A Marvel demorou demais. Mas antes tarde do que nunca. “Viúva Negra” (Black Widow, no original), primeiro filme da fase 4 do Universo Cinematográfico da Marvel, finalmente chegou aos cinemas após diversos adiamentos causados pela pandemia de Covid-19. A longa espera e os diversos contratempos foram compensados por um trabalho que, embora controverso entre os críticos, eu me alinho entre os que gostaram do filme.

“Viúva Negra” é bem escrito, bem dirigido, tem uma história muito legal, tem boas atuações de seus atores, tem excelentes cenas de ação. Em resumo, é a Marvel mais acertando do que errando. “Viúva Negra” se coloca entre os pontos altos do longo universo desenvolvido pelo estúdio e deixa como questionamento qual seria o potencial deste filme se tivesse sido lançado primeiro num momento mais próximo ao tempo em que ele passa, ou seja, após “Capitão América — Guerra Civil” (2016). Em segundo lugar, sobre o que ele teria feito de bilheteria num mundo normal em que todos podem ir ao cinema.

Nunca saberemos. O que é certo é que o filme dá certo em quase todos os seus aspectos e, num momento em que a Marvel lança séries que não atingiram o potencial esperado, “Viúva Negra” mostra que o estúdio ainda tem boa lenha para queimar e aquecer o coração de seus fãs.

Não é por acaso, aliás, que “Viúva Negra” tem entre suas escritoras a mesma Jac Schaeffer responsável por “WandaVision”, a melhor das três séries da Marvel lançadas até aqui no Disney Plus (as outras são “Falcão e o Soldado Invernal” e “Loki”). Junto com Eric Pearson e Ned Benson, Schaeffer aqui acerta de novo ao investigar o passado da personagem estrelada por Scarlett Johansson criando um filme que é sobre famílias despedaçadas que estão tentando se acertar, mas também sobre vingança, passagem de bastão e que se mostra relevante dentro do universo transmedia da Marvel, explicando pontas da personagem que ficaram perdidas ao longo das fases do estúdio (finalmente sabemos o que aconteceu em Budapeste entre Natasha e Clint Barton), e dando à personagem a importância que ela têm dentro dos Vingadores, com suas camadas e sua história complexa.

E neste contexto, Scarlett entregou uma de suas melhores atuações no papel de Natasha. Tudo isso sendo muito bem assessorada por Florence Pugh (Yelena Belova), uma estrela em ascensão, David Harbour (Guardião Vermelho), que surge como o alívio cômico do filme, e Rachel Weisz, que faz Melina Vostokoff, que os fãs dos quadrinhos conhecem como a Dama de Ferro. Além deles, temos um Ray Winstone inspirado como Dreykov, sendo a sua cena com Natasha na parte final uma das melhores do filme.

É ima pena que Scarlett não deve retornar à personagem. Não apenas porque conhecemos o seu destino, revelado em “Vingadores: Ultimato” (2019), mas porque a tendência é que a Marvel a substitua por Pugh. Infelizmente. Acho que as duas podiam conviver juntas, pois Scarlett se mostrou tão importante quanto Robert Downey Jr, Chris Evans e Chris Hemsworth na construção deste Universo do estúdio. Sua Viúva Negra é tão relevante quanto o Homem de Ferro, o Capitão América e o Thor, interpretado pelos três atores aqui citados.

Mas o legado de Natasha tem tudo para continuar com Pugh, Harbour e Weisz, que esperamos que retomem seus personagens em futuros filmes.

Lamentos à parte, “Viúva Negra” pega a personagem num momento completamente quebrada. O filme se passa imediatamente após os acontecimentos de “Guerra Civil”, em que os Vingadores se dividiram por causa do Tratado de Sokovia. A família de Natasha está rompida enquanto ela é forçada a procurar a sua família falsa russa na busca por finalizar uma missão do passado: acabar com o Salão Vermelho, onde mulheres são treinadas cruelmente para virarem assassinas de aluguel de Dreykov.

O filme aqui aproveita para tocar em questões importantes como o tráfico de mulheres e a invisibilidade de jovens que vivem à margem da sociedade e são “recrutadas” para servirem à uma organização que, no fundo, não deixa de ser terrorista, influenciando em toda a geopolítica do planeta com suas ações.

É na tentativa de resolver estas questões do passado, de entender o papel do que Natasha conhece como família, embora sua construção tenha sido muito falsamente criada dentro de um departamento de espionagem do governo russo nos Estados Unidos, que a personagem buscará forças para encontrar a paz interior que precisa para ajudar a resolver o problema com a família que a adotou, a dos Vingadores. E o resto da história nos conhecemos muito bem.

Assim, o filme se equilibra entre acenar para grandes temas e investigar a intimidade de uma personagem que está num momento de reconstrução para poder finalmente se reerguer.

Talvez a única crítica que se possa fazer ao filme seja o papel do Treinador. Um vilão B, mas que dentro deste grupo está entre os mais legais da Marvel, com um poder de copiar tudo de quem ele está enfrentando, merecia um tratamento melhor do que a ideia que lhe deram para o cinema. O Treinador podia voltar em outro contexto, pois ele tem um potencial a ser explorado.

Cotação da Corneta: nota 9.



sábado, 26 de junho de 2021

Cantoria, imigração e o sonho americano “Em um bairro de Nova York”

Usnavi e Vanessa rebolando para viver
Trabalho seguinte de Lin-Manuel Miranda depois do estrondoso sucesso de “Hamilton” (2020), “Em um bairro de Nova York” (“In the hights”, no original) já sofreria por si só com a pressão das comparações que teria com o grande sucesso que contava a história dos fundadores dos Estados Unidos com uma trilha sonora de rap, hip-hop e R&B. Até por também ser um musical.

É claro que “Em um bairro de Nova York” não tem a mesma força de “Hamilton”, mas não quer dizer que o filme se saia mal numa análise mais aprofundada. Pelo contrário, o trabalho dirigido por Jon M. Chu e roteirizado por Lin-Manuel Miranda e Quiara Alegria Hudes é muito interessante e trata de temas importantes, que não ficam escondidos mesmo com a alegria, leveza e beleza que este musical traz.

O filme conta a história de um grupo de imigrantes e descendentes de imigrantes que vivem num bairro do subúrbio de Nova York. Em Washington Heights, estão cubanos, mexicanos, porto-riquenhos, dominicanos… todos vivendo uma vida dura, simples, mas feliz e sonhando com uma realidade melhor.

É ali que vive Usnavi (Anthony Ramos), o querido dono de uma bodega que sonha em voltar para a República Dominicana. Usnavi deixou o país aos oito anos de idade, mas tem uma querida lembrança da ilha onde, ao lado do pai, viveu “os melhores anos da sua vida”. Seu objetivo é juntar cada centavo possível para poder voltar ao país junto com a abuela Claudia (Olga Merediz), a sorridente matriarca de todos no bairro.

Usnavi, porém, tem uma queda pela bela Vanessa (Melissa Barrera), que trabalha como manicure no salão de Daniela (Daphne Rubin-Vega), Carla (Stephanie Beatriz) e Cuca (Dascha Polanco), mas deseja mesmo virar uma estilista famosa e sair do bairro em que vive num apartamento ruim de frente para a linha do trem.

Ali perto, também vive Nina (Leslie Grace), espécie de irmã de Usnavi e que sofre com a pressão de ser a única que deixou o bairro para cursar uma universidade em Stanford, na Califórnia. Ela é o orgulho do bairro e do pai, Kevin (Jimmy Smits), que faz tudo por ela. Nina é o interesse romântico de Benny (Corey Hawkins), que trabalha na pequena empresa de Kevin, que vive em dificuldades financeiras.

Junto destes orbitam uma série de personagens que dão todo um colorido particular ao bairro, lidando com os problemas pessoas com muito otimismo e esperança.

“Em um bairro de Nova York” é um filme leve, com algumas belas canções, mas trata de temos muito importantes. Através das imagens bonitas, quase idílicas da Washington Heighrs filmada por Chu, vemos serem levantados temas relevantes em torno da imigração, da sensação de pertencimento a um lugar e da busca e reconhecimento de uma identidade própria. Personagens se questionando sobre suas próprias origens, sobre o que de fato se constitui a sensação de se estar em casa, o peso de não apenas viver a própria vida, mas carregar toda uma bandeira e bagagem cultural consigo quando se atinge uma posição mínima de destaque e as diferenças culturais.

Ao longo de 2h20m, vamos acompanhando como cada um dos personagens lidam com estas questões. Usnavi vive o sonho de uma Porto Rico encantadora pela infância e pelo tempo que passou ao lado de um pai que já faleceu. Para ele, foram os melhores momentos da sua vida, esquecendo-se que nos 20 anos seguintes ele construiu ali em Nova York relações de amizades muito fortes e leais e o respeito de todos num bairro que, por si só, está passando por mudanças causadas pela gentrificação da região. Este é outro tema abordado pelo filme a partir da necessidade do salão de beleza de Daniela, Carla e Cuca ter que deixar a região por causa do aumento dos aluguéis.

Vanessa, por sua vez, vive em negação daquela cultura. Ela quer ser estilista famosa, transpor a barreira da sua origem e se internacionalizar como a cosmopolita Nova York. Vanessa não quer ter problemas para alugar um apartamento por causa da sua origem. Mas só muito a frente ela vai perceber que a sua força está no que a faz ser única, bem como a própria força de Nova York está nas individualidades culturais tão únicas que constroem o dia a dia da cidade.

Já Nina carrega o fardo de ser a destaque do bairro. Enquanto todos pensam que ela vai brilhar e levar para o mundo o nome de Washington Heights, o que ela encontra lá fora, longe do ecossistema que tanto ama e sente saudades, é uma vida dura de xenofobia e desconfiança. Mesmo numa universidade conceituada. Ao contrário de Vanessa que sente a repulsa, mas se encontra dentro da cultura, Nina quer cada vez mais estar com a sua gente enquanto o bairro a “expulsa” para o mundo, dando a ela a dura missão de resolver as frustrações de todos que permanecem e permanecerão ali vivendo. Cabe a Nina ensinar ao pai, e, consequentemente, ao bairro que, por vezes, não há lugar como o próprio lar para renovar as energias e pensar em passos melhores a serem dados no futuro.

Todos no bairro têm questões com as quais lidar, nem sempre os caminhos serão os melhores, mas sim os possíveis. Tal qual a vida. “Em um bairro de Nova York” pode não ser brilhante como “Hamilton”, mas é bonito e divertido, expõe com beleza parte da riqueza cultural latino-americana. Tudo com bonitas e envolventes canções. É daqueles filmes good vibes para levantar um pouco o astral em tempos tão pandemônicos.

Cotação da Corneta: nota 7,5.

terça-feira, 15 de junho de 2021

"Cruella" e as justificativas para um vilão ser mau

Cruella pronta para estourar a boca do balão
Segundo filme da Disney focado em uma vilã do seu universo depois de “Malévola” (2014), “Cruella” não chega a ser uma tristeza completa como os dois filmes estrelados por Angelina Jolie, mas é preciso ligar a suspensão da descrença em modo turbo para justificar a origem das vilanias de Cruella de Vil (Emma Stone).

E esse é um problema de filmes focados em vilões que vimos também no “Coringa” (2019). A tentativa de normalizar o comportamento “psicopata” de alguém a partir de um trauma passado numa busca de encontrar ou criar camadas de profundidades que explorem uma humanidade daquele personagem que sabemos que é ruim. E por causa disso “Cruella” tem que rebolar muito para dar um sentido a uma pessoa que é má.

Não que os vilões não tenham que ter camadas e desenvolvimentos. É necessário e fundamental. Mas o antagonista não vive sem um protagonista. E quando o vilão vem para o foco do protagonismo, é preciso criar um antagonista que puxe ainda mais os limites anteriormente estabelecidos. No caso do Coringa era a sociedade decadente e caótica em uma vida miserável. No caso de Cruella, a figura da Baronesa (Emma Thompson), estilista extremamente cruel e egocêntrica que humilha todos os seus empregados e todos ao seu redor, os trata como lixo e tem uma personalidade absurdamente narcísica. Mais a frente entendemos, inclusive, a dinâmica entre ela e Cruella a partir de um plot twist, que não faz muito sentido e não funcionou muito bem.

A Baronesa, porém, acaba sendo o personagem mais interessante do filme. Mérito total de Emma Thompson. Emma Stone também não está mal, mas no duelo de Emmas, Thompson leva vantagem.

É questionável, porém, se funciona bem a dinâmica de rivalidade entre elas. Duas mulheres que se detestam por motivos que o filme tenta explicar a partir de um passado cujas verdades vão se descortinando com o passar do filme.

No fim, o que há de melhor no filme está na questão estética. Os figurinos e a maquiagem se destacam na produção, especialmente nos momentos em que Cruella está exibindo a sua arte para o mundo. A trilha sonora também é excelente, embora intermitente e sem deixar o filme respirar um pouco. Praticamente não há momentos de silêncio entre diálogos e música em mais de duas horas, jogando o filme numa desnecessária montanha-russa sonora.

Além disso, outro destaque é a carismática presença de Paul Walter Hauser no papel de Horace. O ator tem um ótimo tom cômico e todas as vezes que está em cena são cenas marcantes e divertidas.

Apesar destes destaques positivos, “Cruella” está longe de ser um grande filme. Ficou devendo. Mas talvez vejamos um segundo filme que, passada a fase do filme de origem, vejamos novas camadas sendo exploradas. Uma sequência de “Cruella” pode ser mais interessante e este filme mostrou uma história que tem potencial para crescer e não cair de forma decadente como a história de Malévola.

Cotação da Corneta: nota 5,5.