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domingo, 5 de junho de 2022

“Top Gun: Maverick” é para os fãs, mas não se apega exclusivamente à nostalgia

Tom Cruise pilotou jatos para fazer o filme


Desde que o projeto de uma continuação de Top Gun começou a ser divulgado, parecia inegável que o objetivo era voltar para aquele universo dos chamados “melhores pilotos do mundo” como um exercício de nostalgia dentro da cada vez mais crescente indústria do cinema nostálgico. “Top Gun: Maverick” não nega tais expectativas. Mas o que faz o filme ser tão bom e talvez até superior ao original é que ele vai além disso.

Dentro da capa de obviedades e previsibilidades que o roteiro nos exibe e as inevitáveis belas e emocionantes imagens que o diretor Joseph Kosinski nos oferece, há uma história que é de fato interessante em torno de culpa, reconciliações, redenção e a tentativa de aprender com os erros do passado.

“Maverick” segue desde o início a trajetória do Capitão Pete “Maverick” Mitchell (Tom Cruise). Já há anos fora do chamado esquadrão Top Gun, de onde foi expulso uma vez que o personagem sempre teve problemas em lidar com autoridades e cumprir ordens, Maverick está trabalhando num projeto do governo em que faz o que sabe fazer melhor: esticar a corda do limite para conseguir resultados excelentes em tempo recorde.

Mas a pedido do velho rival/parceiro, o agora almirante Iceman (Val Kilmer, que com a saúde debilitada faz uma participação especial e recebe uma bonita homenagem no filme), Maverick é convocado para voltar aos Top Gun. O objetivo é fazer o capitão cujas insubordinações e desrespeitos nunca o fizeram ir além na hierarquia da Marinha, ensinar novos pilotos a enfrentarem uma missão suicida num país estrangeiro cujo nome nunca é revelado.

Esta é a história básica do filme. A partir daí, “Maverick” vai aproveitando os cenários para trazer reconfortantes momentos do passado e colocar o seu protagonista em conflito com os traumas de quando era um jovem piloto. O conflito a partir daí se dá com a presença de Rooster (Miles Teller), filho do seu velho parceiro Goose, e que não perdoa Maverick por ter atrasado a sua carreira na Marinha. A relação paternal, a tentativa de proteger Rooster e a busca por reavaliar os erros cometidos no passado e buscar finalmente um caminho para a sua vida que parece ter parado no tempo nas últimas décadas estão no entorno da trajetória de Maverick.

Ao mesmo tempo, cabe ao capitão mostrar que, embora os pilotos de caça sejam uma espécie em extinção numa era de guerra de drones, o ser humano ainda é relevante e, mesmo com sua impetuosidade e desrespeito por hierarquias, ele ainda tem um lugar a ocupar e pode ser útil naquele momento.

“Maverick”, portanto, parece até ter mais camadas interessantes do que um mero filme de ação. Contudo, é claro que o que mais pega no fã do “Top Gun” original são as referências e o conforto nostálgico do que o filme traz da década de 80. “Maverick” teve o cuidado de trazer vários elementos do passado, como a trilha sonora original representada pelo “Top Gun Anthem”, música instrumental de piano e guitarra composta por Harold Faltermeyer e Steve Stevens, e por “Danger Zone”, de Kenny Loggins, que abre o filme para pegar o fã antigo logo de jeito. Só não está presente a balada de sucesso “Take my breath away”, visto que aquele era o tema do par romântico vivido por Cruise e Kelly McGills, que não volta para o filme atual. Novo interesse romântico de Cruise, Penny (Jennifer Connelly) — chamada no primeiro filme de “a filha do almirante” com quem Maverick teve um caso no passado — tem seu romance embalado pela canção original de Lady Gaga, “Hold my hand”.

O filme também procura traçar seus paralelos com o passado. Por isso Rooster é tão parecido com o pai, ao ponto de também tocar no piano do bar como Goose após uma manjada cena de pilotos num papo daqueles de quem está medindo quem tem o pau maior. Um clássico de filmes do gênero.

Além da cena do bar, há uma repetição de elementos do filme original. Entre eles, Tom Cruise andando de moto com o avião levantando voo ao seu lado, usando a jaqueta e o óculos escuro tradicional, a famosa cena na praia com corpos suados apenas substituindo o vôlei por futebol americano, e as belas imagens de jatos e cenários na golden hour, um clássico do filme original de Tony Scott. Todos estes elementos nostálgicos reconfortam o coração do fã antigo, claramente pego pela emoção, ainda que o filme traga também outros elementos.

Entre a história e a nostalgia, “Maverick” ainda traz insanas sequências de ação, que são ainda mais impressionantes quando se tem noção que Tom Cruise e os demais atores realmente se filmaram voando em jatos da Marinha americana. É claro que a edição e a trilha sonora tornam tudo ainda mais perigoso, mas não deixa de ser impressionante o nível de risco a que Cruise se impõe para dar um grau a mais de veracidade ao filme. Realmente desde o treinamento e até a missão real do final são cenas de tirar o fôlego e que valem ser vistas numa tela grande como a do cinema.

Assim, “Maverick” cumpre a sua função de entreter o espectador e reconfortar o coração do fã que talvez nem soubesse que desejava voltar para aquele universo. Pode não ser um filme perfeito, mas é um filme de ação blockbuster como raramente temos visto nos últimos anos, uma vez que o cinema tem estado inundado de filmes de super-heróis e franquias em geral.

Nota 8.

sábado, 13 de novembro de 2021

"Eternos" ficou devendo, mas ainda assim é divertido

Eternos e suas belas fantasias de carnaval
Levar para o cinema os personagens cósmicos da Marvel era um grande desafio. Primeiro, eles nunca foram realmente incríveis nos quadrinhos. E ainda assim era preciso torná-los interessantes e palatáveis para o grande público que não consome e desconhece completamente estas histórias numa narrativa que se enquadrasse no universo cinematográfico do estúdio e pudesse criar uma nova mitologia neste mesmo universo.

“Eternos” (“Eternals”, no original) não consegue atingir todos os ambiciosos objetivos. De fato, se o filme for visto apenas como uma aventura de uma gama de heróis da Marvel, ele até vai bem. Tem uma história tradicional, plot twists, batalhas interessantes e um final em que o bem vence o mal e, entre ganhos e perdas, a vida segue rumo a próxima aventura.

O filme, porém, não é bem sucedido quando vai para além desta camada primeva. Quando tenta discutir o papel dos Eterno na humanidade e sua função durante sete mil anos, quando levanta as capas de uma suposta hipocrisia e de um jogo de peões interplanetário em um xadrez muito maior do universo ele não passa de uma camada um pouco pálida.

É perceptível o esforço do filme em trazer uma camada de importância e construir um filme que se distancia vagamente da chamada fórmula Marvel, trazendo algumas discussões, digamos, sociológicas. E é muito válido que isso seja feito de alguma forma. Mas era preciso fazer tanta coisa neste filme: apresentar e mostrar quem são os Eternos, explicar o que são os Celestiais e os Deviantes, apresentar Dan Whitman, que deve vir a ter um papel importante na futura formação dos Vingadores, explicar por que os Eternos não interferiram na batalha contra Thanos e os demais conflitos da humanidade. Enfim, era muita coisa a fazer em 2h37min. Portanto, essa tentativa de dar um corpo acadêmico ao filme fica em quinto plano e não passa de flashes numa história que precisa seguir em frente nas batalhas e na construção daquele universo. Creio que “Pantera Negra” (2018) tenha sido mais bem sucedido em tentar ir para além de uma trama tradicional de quadrinhos.

Mas dito isso, “Eternos” é bem legal. Nos apresenta uma gama de personagens que no cinema ficaram interessantes em uma trama tradicional que envolve o dilema entre seguir o seu destino ou cuidar da sua família. Mas essa é muito uma perspectiva de um leitor de quadrinhos.

Para alguém mais leigo, “Eternos” parece um filme bastante frio e distante. Confuso com todos aqueles saltos temporários e um pouco vazio, com pouco aprofundamento da maioria dos seus personagens. Ao mesmo tempo em que talvez seja didático demais. Por outro lado, talvez seja fundamental que ele seja didático para o grande público se ver inserido no contexto daquela mitologia.

Falta a “Eternos” também uma assinatura mais forte de sua diretora. Num ano em que Chloe Zhao ganhou um Oscar por um filme tão autoral e excelente como “Nomadland”, esperava-se que “Eternos” tivesse mais da diretora, por mais que Kevin Feige fosse quem comanda a roda da Marvel. O filme não parece muito diferente do que seria sob o comando de outra cabeça. Mas creio que Zhao pelo menos consegue fazer um feijão com arroz satisfatório na construção desta aventura e, eventualmente, implantar as suas ideias em pontos específicos da história.

Narrativamente, porém, o filme falha na trama de Ikaris (Richard Madden). A virada que o personagem ganha soa artificial uma vez que é abordado de forma muito rápida os conflitos entre a fé e a razão entre os Eternos. E depois disso, quando Ikaris hesita não fica muito claro os seus motivos ou soa um tanto quanto um “momento Martha” por ser simplesmente por amor enquanto até ali ele foi intransigente no seu plano a ponto de ter tomado decisões tão drásticas.

O que fica de positivo em “Eternos” é sua aventura, a participação de Angelina Jolie, os personagens interessantes, as boas cenas de luta e a perspectiva de um segundo filme que aprofunde mais suas histórias e desenvolva as consequências dos atos dos personagens neste filme, uma vez que o universo já está estabelecido.

O futuro parece promissor. O presente, porém, ficou entre o morno e o divertido. E com umas boas piscadelas da Marvel para a DC, talvez uma das boas sacadas do filme em seus momentos mais cômicos.

Cotação da Corneta: Nota 7.



"Duna" é um filme grandioso

Paul nunca abandona a mãe
Originalmente um longo romance de ficção científica de Frank Herbert, “Duna” parecia infilmável. Afinal, como jogar para a tela um livro de mais de 600 páginas com uma gama relativamente grande de personagens importantes e várias tramas relevantes? Foi um desafio que o diretor canadense Dennis Villeneuve pegou para si. E tal qual um fremen cavalgando nas costas de um verme de areia, Villeneuve dominou muito bem o desafio.

“Duna” (“Dune: part 1”, no original) é um filme grandioso, solene, irresistivelmente belo e uma adaptação respeitosa e cirúrgica do livro de Herbert. Será preciso ser muito chato e cri-cri para que o fandom de “Duna” torça a cara para este filme. Estão ali todo os elementos do livro explorados com a minúcia que 2h35min de uma adaptação de aproximadamente metade do livro permitem. As casas são destacadas, os conflitos políticos, a questão envolvendo o meio ambiente, a luta pela especiaria, os interesses particulares das Bene Gesserit. a jornada do herói Paul Atreides (Thimothée Chalamet).

É claro que “Duna” não é um filme perfeito. E nem o melhor filme de Villeneuve. Mas isso diz mais sobre as qualidades de um diretor que já realizou trabalhos como “Blade Runner 2049” (2017), “A Chegada” (2016), “Sicário: Terra de Ninguém” (2015) e “Incêndios” (2010) do que depõe contra o seu trabalho em construir o mundo e os conflitos imaginados por Herbert.

Entre os acertos de “Duna” estão as escolhas de Villeneuve. Primeiro focar sua adaptação em uma parte do livro e não em sua totalidade. Assim, “Duna” pôde ter um ritmo mais lento, trabalhar mais a construção de seu universo e copiar até diálogos inteiros do livro. Segundo, escolher no meio de tudo focar na jornada do jovem Paul Atreides, filho do Duque Leto (Oscar Isaac) e, para os habitantes de Arrakis, o escolhido. Tudo gira em torno de Paul enquanto a trama política e ecológica fica como pano de fundo. Com destaque também, mas num patamar um pouco abaixo. Talvez isso não fosse o mais interessante para quem gosta mais das tramas políticas de “Duna”. Mas era preciso fazer escolhas e Villeneuve fez as dele.

Esteticamente é preciso destacar a trilha sonora inspirada de Hans Zimmer, que soube dar corpo à grandiosidade visual do filme. Também vejo como pontos positivos, detalhes das escolhas de Villeneuve como o uso da Voz, espécie de poder mental exibido pelas Bene Gesserit. O tom meio aterrorizante pareceu ser correto. Também foi boa escolha a sutileza que se exibem as especiarias, quase invisíveis para olhos mais distraídos, mas sempre ali relativamente brilhando em sua cor alaranjada e misturada a areia do deserto. Assim como o conceito dos escudos dos personagens.

Outro acerto foi a estética dos vermes do deserto, assustadores, meio escuros, sem um rosto aparente e raramente aparecendo em sua plenitude. Villeneuve soube ainda emular muito bem a forma como o deserto se movimenta como se fosse um mar de areia tão bem descrito no livro de Herbert.

Por outro lado, muito do que torna “Duna” grandioso pode incomodar o espectador comum. Por vezes, o filme de Villeneuve parece frio e sem alma. Crítica que “Blade Runner 2049” também já sofrera. Eu discordo. Acho que ele tem a força em sua beleza e os personagens carregam muito desta alma do filme desde as menores participações até Chalamet. E como estão bem Isaacs, Rebecca Ferguson, Stellan Skarsgaard, Javier Barden, Josh Brolin, Jason Momoa, Charlotte Rampling e outros. Cada ator entrega bem o que seu personagem pede.

É questionável também o modo como o filme termina. Me parece que só não causará incômodo e estranhamento em quem leu o livro, pois este grupo já conhece o que está por vir. Mas quem nunca pegou na obra de Herbert e vai conhecer o universo pela primeira vez pode ficar frustrado, mesmo que tenha sido enredado pela beleza do filme.

Haveria outro momento melhor para encerrar esta primeira parte? Talvez. Faltou um clímax ao filme? Provavelmente. Contudo, não foi exatamente ruim que a primeira parte terminasse com o amadurecimento de Paul, a sua necessária morte metafórica, enquanto a segunda deve se ocupar mais com a ascensão de Muad’Dib.

“Duna” correspondeu a muitas das expectativas. Sua grandiosidade, porém, só terá um atestado definitivo quando a parte 2 ganhar a luz do dia. Até lá, no entanto, nos contentemos com uma primeira parte cheia de predicados.

Cotação da Corneta: Nota 8,5.



sábado, 16 de outubro de 2021

007 apela ao sentimentalismo em despedida de Daniel Craig

Um filme imperfeito, mas um final perfeito para Craig
O que menos se espera de um filme de James Bond é um apelo a emoção e a sentimentos tão humanos. Mas o que os 15 anos de Daniel Craig no papel do mais famoso agente secreto no cinema nos ensinou é que a sua versão para 007 pode ser considerada a mais humana de todas. Em cinco filmes, o James Bond de Craig amou, sofreu, sentiu raiva, entregou-se a um alcoolismo, sentiu-se traído, chorou, errou…Tudo isso, claro, enquanto não falhava em apenas uma coisa: salvar o mundo dos grandes vilões que querem destruí-lo, dominá-lo ou qualquer coisa semelhante a isso. Não seria por acaso, portanto, que “Sem tempo para morrer” (“No time to die”, no original), o filme que marca a sua despedida do papel surgisse como uma revisão do seu legado e uma homenagem ao seu Bond humano.

“Sem tempo para morrer” tem uma série de defeitos. É quebradiço, tem um roteiro que tenta ser complexo e com reviravoltas, mas na maioria das vezes não funciona e é muito mais problemático e confuso. E tem um vilão que prometia mais do que cumpriu. A falta de uma boa história faz com que o filme pareça muito longo em suas 2h43min.

Por outro lado, o filme ganha força quando se coloca expondo o legado de Craig no papel. E apela a um sentimentalismo que talvez arranque algumas lágrima dos fãs de 007. E arrancar lágrimas de um espectador num filme de James Bond é algo que por si só seria raro.

Ao tentar se equilibrar em muitas frentes, porém, “Sem tempo para morrer” fica no meio do caminho de todas elas e entrega justamente um filme longe de ser perfeito. Para começo de conversa, a trama é confusa. Gira em torno de uma tentativa do vilão principal, Lyutsifer Safin (Rami Malek), de adquirir um vírus tecnológico poderoso que o permitirá matar milhões de pessoas ao redor do mundo. Ao mesmo tempo, a trama lida com a aposentadoria de Bond, agora vivendo recluso na Jamaica, enquanto há uma nova 007 no MI6, Nomi (Lashana Lynch). Ao mesmo tempo, a organização terrorista Spectre continua ativa e misteriosamente comandada da cadeia pelo arqui-inimigo de Bond, Blofeld (Christoph Waltz).

Alguns passos da história, porém, não ficam muito claros. Por exemplo, por que Safin tem interesse em fazer o que fez com a Spectre? Além disso, não entendemos muito bem quais foram as motivações dele para reproduzir um vírus mortal em larga escala para destruir milhões de pessoas se, supostamente, a morte da família dele está vingada. Falta, assim, mais esclarecimento para a trama da ameaça global.

Por outro lado, a história da vida miserável que Blofeld armou pra Bond no início do filme foi pouco explorada. Vimos o ato, o sentimento de traição que ele sentiu de Madeleine (Léa Seydoux) e pulamos imediatamente para a consequência: um Bond sozinho, isolado numa ilha e bebendo cada vez mais, e, por fim, no turbilhão de outros acontecimentos, a resolução desta subtrama no reencontro de 007 com Blofeld na prisão em Londres.

Havia um potencial maior nesta subtrama a ser explorado e faltou uma conexão maior com a história principal que envolvia Safin e suas motivações. Também faltou ao filme explorar um pouco mais do potencial de Paloma, personagem de Ana de Armas que tem uma pequena e interessante participação na parte da história que se passa em Cuba. É igualmente pouco explorado o potencial do vilão vivido por Malek, ainda que o ator esteja defendendo como pode o seu personagem em meio ao roteiro irregular.

O mesmo não acontece com Nomi, que ganha bom destaque na tela e tem boas interações com Bond. Esta é uma personagem que poderia voltar nos futuros filmes, quando for escolhido um novo ator para o papel principal.

Não necessariamente estes problemas ou defeitos atrapalham a experiência de “Sem tempo para morrer”. O filme tem boas cenas de ação, a melhor delas a primeira, na Itália, antes dos créditos de abertura com a música de Billie Eilish. E tem um final emocionante, quando Bond precisa enfrentar Safin e impedir a morte de milhões de pessoas na Europa em meio a uma potencial crise internacional entre Inglaterra, Japão e Rússia. Emocionante e até inesperado para os filmes de 007.

Ao longo de toda a trama, Bond está tentando se reconciliar com o seu passado após as escolhas equivocadas que fez no início do filme. E é nos minutos finais que ele encontra a paz no ponto alto do sentimentalismo que a trama vinha nos conduzindo. Ainda que a missão de Bond nunca esteja concluída, afinal, sempre haverá um vilão megalomaníaco querendo dominar o mundo, a missão de Craig ali se concluiu. E ele soube entregar um grande James Bond. Um grande e humano James Bond que aprendemos a gostar ao longo de uma década e meia. Eu não queria estar na pele de quem terá que substituí-lo.

Cotação da Corneta: nota 7.



sábado, 26 de junho de 2021

Cantoria, imigração e o sonho americano “Em um bairro de Nova York”

Usnavi e Vanessa rebolando para viver
Trabalho seguinte de Lin-Manuel Miranda depois do estrondoso sucesso de “Hamilton” (2020), “Em um bairro de Nova York” (“In the hights”, no original) já sofreria por si só com a pressão das comparações que teria com o grande sucesso que contava a história dos fundadores dos Estados Unidos com uma trilha sonora de rap, hip-hop e R&B. Até por também ser um musical.

É claro que “Em um bairro de Nova York” não tem a mesma força de “Hamilton”, mas não quer dizer que o filme se saia mal numa análise mais aprofundada. Pelo contrário, o trabalho dirigido por Jon M. Chu e roteirizado por Lin-Manuel Miranda e Quiara Alegria Hudes é muito interessante e trata de temas importantes, que não ficam escondidos mesmo com a alegria, leveza e beleza que este musical traz.

O filme conta a história de um grupo de imigrantes e descendentes de imigrantes que vivem num bairro do subúrbio de Nova York. Em Washington Heights, estão cubanos, mexicanos, porto-riquenhos, dominicanos… todos vivendo uma vida dura, simples, mas feliz e sonhando com uma realidade melhor.

É ali que vive Usnavi (Anthony Ramos), o querido dono de uma bodega que sonha em voltar para a República Dominicana. Usnavi deixou o país aos oito anos de idade, mas tem uma querida lembrança da ilha onde, ao lado do pai, viveu “os melhores anos da sua vida”. Seu objetivo é juntar cada centavo possível para poder voltar ao país junto com a abuela Claudia (Olga Merediz), a sorridente matriarca de todos no bairro.

Usnavi, porém, tem uma queda pela bela Vanessa (Melissa Barrera), que trabalha como manicure no salão de Daniela (Daphne Rubin-Vega), Carla (Stephanie Beatriz) e Cuca (Dascha Polanco), mas deseja mesmo virar uma estilista famosa e sair do bairro em que vive num apartamento ruim de frente para a linha do trem.

Ali perto, também vive Nina (Leslie Grace), espécie de irmã de Usnavi e que sofre com a pressão de ser a única que deixou o bairro para cursar uma universidade em Stanford, na Califórnia. Ela é o orgulho do bairro e do pai, Kevin (Jimmy Smits), que faz tudo por ela. Nina é o interesse romântico de Benny (Corey Hawkins), que trabalha na pequena empresa de Kevin, que vive em dificuldades financeiras.

Junto destes orbitam uma série de personagens que dão todo um colorido particular ao bairro, lidando com os problemas pessoas com muito otimismo e esperança.

“Em um bairro de Nova York” é um filme leve, com algumas belas canções, mas trata de temos muito importantes. Através das imagens bonitas, quase idílicas da Washington Heighrs filmada por Chu, vemos serem levantados temas relevantes em torno da imigração, da sensação de pertencimento a um lugar e da busca e reconhecimento de uma identidade própria. Personagens se questionando sobre suas próprias origens, sobre o que de fato se constitui a sensação de se estar em casa, o peso de não apenas viver a própria vida, mas carregar toda uma bandeira e bagagem cultural consigo quando se atinge uma posição mínima de destaque e as diferenças culturais.

Ao longo de 2h20m, vamos acompanhando como cada um dos personagens lidam com estas questões. Usnavi vive o sonho de uma Porto Rico encantadora pela infância e pelo tempo que passou ao lado de um pai que já faleceu. Para ele, foram os melhores momentos da sua vida, esquecendo-se que nos 20 anos seguintes ele construiu ali em Nova York relações de amizades muito fortes e leais e o respeito de todos num bairro que, por si só, está passando por mudanças causadas pela gentrificação da região. Este é outro tema abordado pelo filme a partir da necessidade do salão de beleza de Daniela, Carla e Cuca ter que deixar a região por causa do aumento dos aluguéis.

Vanessa, por sua vez, vive em negação daquela cultura. Ela quer ser estilista famosa, transpor a barreira da sua origem e se internacionalizar como a cosmopolita Nova York. Vanessa não quer ter problemas para alugar um apartamento por causa da sua origem. Mas só muito a frente ela vai perceber que a sua força está no que a faz ser única, bem como a própria força de Nova York está nas individualidades culturais tão únicas que constroem o dia a dia da cidade.

Já Nina carrega o fardo de ser a destaque do bairro. Enquanto todos pensam que ela vai brilhar e levar para o mundo o nome de Washington Heights, o que ela encontra lá fora, longe do ecossistema que tanto ama e sente saudades, é uma vida dura de xenofobia e desconfiança. Mesmo numa universidade conceituada. Ao contrário de Vanessa que sente a repulsa, mas se encontra dentro da cultura, Nina quer cada vez mais estar com a sua gente enquanto o bairro a “expulsa” para o mundo, dando a ela a dura missão de resolver as frustrações de todos que permanecem e permanecerão ali vivendo. Cabe a Nina ensinar ao pai, e, consequentemente, ao bairro que, por vezes, não há lugar como o próprio lar para renovar as energias e pensar em passos melhores a serem dados no futuro.

Todos no bairro têm questões com as quais lidar, nem sempre os caminhos serão os melhores, mas sim os possíveis. Tal qual a vida. “Em um bairro de Nova York” pode não ser brilhante como “Hamilton”, mas é bonito e divertido, expõe com beleza parte da riqueza cultural latino-americana. Tudo com bonitas e envolventes canções. É daqueles filmes good vibes para levantar um pouco o astral em tempos tão pandemônicos.

Cotação da Corneta: nota 7,5.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

J.J. Abrams tenta fazer fan service e joga trilogia de Star Wars no lixo

Se há algo de bom no filme são as batalhas
Desde que a saga Star Wars foi retomada em 1999, maiores foram os erros do que os acertos do universo. Com ambições de finalizar uma jornada que começou lá atrás com o primeiro filme da saga lançado em 1977 e então dirigido pelo criador da história George Lucas, “A ascensão Skywalker” (Star Wars: Episode IX – The Rise of Skywalker, no original) tem tantos erros básicos que a conclusão imaginada por J.J. Abrams para esta saga que atravessou quatro décadas e gerações de fãs beira o melancólico.

Em um ano em que vimos a conclusão da “Saga do Infinito” da Marvel com o lançamento de “Vingadores: Ultimato” fica ainda mais gritante a diferença quando comparamos dois dos universos mais populares do cinema. É claro que o da Marvel foi desde o princípio pensado para ser interconectado e ter uma coesão dentro do mundo em que se inserem aqueles persoagens. Já Star Wars inicialmente era uma trilogia entre 1977 e 1983, ganhou outra entre 1999 e 2005 e uma terceira e definitiva trilogia que começou com o bom “O despertar da força” (2015), continuou com o razoável “Os últimos Jedi” (2017) a concluiu tristemente com “a Ascensão Skywalker” neste ano. 

Mas mesmo quando analisados isoladamente, o maior problema da atual trilogia cujo primeiro e terceiro filme foram dirigidos por Abrams e o segundo por Rian Johnson é que os filmes não dialogam entre si. Parece que cada um toma suas próprias liberdades, faz os personagens viajarem de um lado para o outro sem qualquer fundamento básico e tem suas motivações seguidas ao bel prazer de pinceladas mal ajambradas de um roteiro ruim. Sim, porque o roteiro de “Ascensão Skywalker” é ruim, com diálogos sofríveis que variam entre o infantil e o meramente constrangedor. 

(E ATENÇÃO AGORA PARA POTENCIAIS SPOILERS)

O que Abrams pareceu tentar fazer neste filme foi um grande fan service. Mas esqueceu do básico que faz um filme ser... um filme. Ou seja, falta uma história com coesão, começo, meio e fim e um mínimo de profundidade. Ninguém aqui está pedindo para J.J. Abrams fazer NouvelleVague ou Neorrealismo italiano, mas um filme em que não pode se descuidar de duas coisas fundamentais mesmo para um blockbuster hipercomercial: uma boa história e o desenvolvimento dos personagens. E são duas coisas que agora, olhando em perspectiva, a nova trilogia de Star Wars não tem.

Se analisarmos o enredo desta trilogia, muita coisa não faz sentido. “O despertar da Força” tenta acompanhar a jornada de uma ainda desconhecida Rey (Daisy Ridley), enquanto remanescentesdo Império reorganizam-se como a Ordem Final e buscam meios de derrubar a República Galáctica. Em “Os últimos Jedi”, as principais peças do tabuleiro se separam, o Império ganha força e a resistência é praticamente dizimada. Até que chegamos ao atual filme, em que Palpatine surge do nada e com uma saída fraquíssima do roteiro para comandar o Império com dezenas de naves estrela da morte e quase nada do que o Rian Johnson havia apontado no segundo filme vem a tona no terceiro. Porque simplesmente as histórias não dialogam entre si.

Quando tentamos olhar para a jornada dos personagens, também sobram problemas. É possível imaginar a nova trilogia de Star Wars como um jogo de espelhos para com a trilogia original. Em maior ou menor escala e retirando os andróides deste recorte, os personagens que temos mais lembrança da trilogia original são Darth Vader (originalmente interpretado por David Prowse), Luke Skywalker (Mark Hamill), Leia (Carrie Fisher), Han Solo (Harrison Ford), mestre Yoda e Lando Calrissian (Billy Dee Williams). Seus espelhos na formação de uma nova mitologia Star Wars, mas não necessariamente com o mesmo tipo de história ou temperamento, são Keylo Ren (Adam Driver), Rey, Poe Dameron (Osar Isaac), Finn (John Boyega), Maz Kanata (Lupita Nyong´o) e Rose (Kelly Marie Tran).

Finn, Rey e Poe, ótimos personagens com histórias ruins
Como dissemos, é claro que nem todas as “cópias” são idênticas. Poe tem temperamento semelhante ao de Han Solo, Maz Kanata não é exatamente uma guerreira Jedi, enquanto Finn e Rose não encontram semelhantes na trilogia original. Mas a essência da ideia é essa. A de criar novos mitos com personagens mais afeitos aos tempos em que vivemos e principalmente e fundamentalmente mais representatividade. Daí termos um negro como co-protagonista (Finn), uma mulher como heroína principal (Rey) e outra mulher como uma exímia mecânica de naves (Rose).

Pois bem. E o que foi feito de toda essa gama de 12 personagens? J.J. Abrams tinha tudo para encerrar bem a geração de Luke, Leia e Han Solo e abrir um espaço enorme para a nova geração de Finn, Rey e Poe. Ele não fez nem uma coisa nem outra.

O que vimos foi um grande jogo de fantasmas que foram aparecendo ao longo do filme. Todos eles estiveram lá. Teve espaço até para o Yoda aparecer ao menos em voz. Mas qual a função que os velhos pilares tem de fato no filme? Pouca ou nenhuma. Mesmo a Leia não faz nenhum sentido no roteiro. E isso é facilmente entendido pelo fato de que as cenas em que Carrie Fisher aparece no filme foram gravadas anteriormente ao seu falecimento em 2016, mas não foram utilizadas nos filmes “O despertar da força” e “Os últimos Jedi”. É por isso que elas são pessimamente colocadas e não servem em nada à história.

E o que podemos dizer dos personagens novos? Tiveram um desenvolvimento errático com roteiros mais rasos que uma piscina para bebês.

Sim, porque tínhamos três ótimos e promissores personagens para serem os pilares de uma nova era e com uma química excelente. Finn, um stormtrooper que escapa das mãos do império. Poe, um candidato a novo Han Solo, exímio piloto e extremamente arrogante e convencido, e Rey, uma desconhecida que vivia num planeta distante, cuja origem desconhecíamos, mas que detinha um poder diferente da Força. Para onde eles foram depois de tudo isso? Que jornada tiveram? Que provações tiveram que enfrentar? O desenvolvimento deles foi errático e pouco convincente.

Toda a mitologia de Star Wars (e de muitos produtos do cinema) é baseada na jornada do herói. E nós temos três aqui para acompanhar nesta saga. Pelo que eles passaram? Que desafios pessoais enfrentaram para além de combater o Império? Finn foi um personagem esquecível no segundo filme e no terceiro já surge como membro proeminente da resistência sem muito se falar do que aconteceu com ele, das suas origens e da sua história. Poe erra um arrogante no primeiro filme, mas exímio piloto com uma família ligada à resistência, tentou aprender alguns passos com Leia, que o explicou a importância de mais do que ser alguém qualificado era preciso ser um líder, e no terceiro filme virou um mulherengo com um passado de contrabandista em uma história muito mal inserida no roteiro.

E ainda tivemos Maz Kanata, uma personagem promissora que foi subaproveitada na série, e Rose, que foi uma das protagonistas de “Os últimos Jedi” e neste filme foi reduzida a três ou quatro falas irrelevantes e muita correria.

E assim chegamos a Rey. A solução dada para ela foi péssima. Ser neta do Palpatine quando nunca soubemos sequer da existência de uma árvore genealógica básica do imperador parece uma tentativa de dar um plot twist que se revelou muito ruim. Seria a versão destra trilogia para o famoso “Luke, I am your father” de Darth Vader, porém simplesmente não faz sentido. Era melhor que a Rey não tivesse parentesco com ninguém e fosse realmente ninguém e meio que adotada pela família Skywalker. Afinal, a Força não é genética. Qualquer um pode vir a tê-la e desenvolvê-la. Inclusíve essa era uma ideia difundida em “Os últimos Jedi”.

Rey, porém, ainda tem um arco um pouco mais trabalhado. Confuso, é verdade, mas com um pouco maiks de profundidade. Afinal, entre os protagonistas ela é A protagonista da saga. Porém, sua vida se resume a divagações e provações que testem a sua fé enquanto ela passa três filmes em WhatsApp mental com Keylo Ren. Parece mais que ela está sendo treinada para fundar uma igreja do que para ser uma guerreira Jedi. E enquanto isso tem que resistir no deserto à tentação do lado negro da Força. E, convenhamos, Rey e Keylo formando um casal é o que de pior poderia acontecer.

Mais importante de tudo é que os três personagens não têm um desenvolvimento sólido que nos faça comprar as suas histórias.  

E o mesmo vale para Keylo Ren. O personagem de Adam Driver nunca foi o vilão que deveria ter sido nesta trilogia. Sua história é pueril, suas motivações não convencem e a sua participação no último filme se resume a ótimas cenas de batalha e uma indecisão ou mudanças de rumos tomadas a partir de pequenas coisas que o fazem ser um personagem fraco. 

Se tem algo que “A ascensão Skywalker” tem são suas boas cenas de luta. Os efeitos especiais são ótimos, as lutas são bem coreografadas, mas Abrams se esqueceu de que os efeitos especiais precisam ficar a serviço da história e não o contrário. Esta é diferença entre um bom filme e um filme medíocre quando analisamos um blockbuster. E Star Wars, infelizmente, é um filme medíocre. 

É uma pena que Abrams parece não ter compreendido a melhor forma para fechar esta mitologia de Star Wars. Neste ponto, e também olhando em perspectiva, Rian Johnson nos deu um caminho mais interessante a trilhar com o seu filme do meio. Ao menos ali tinha um mínimo de conceito. Com uma série de problemas, é claro. Mas havia uma história em que se podia agarrar e seguir em frente. Abrams não soube aproveitar o que “Os últimos Jedi” tinha de bom, não levou a saga para além de um confronto do bem contra o mal em batalhas de naves espaciais e raios disparados e concluiu a história da forma mais risível possível e com soluções fáceis. 

Johnson, aliás, comandará a nova trilogia de Star Wars que promete ser lançada nos próximos anos. Não sabemos, porém, se Finn, Poe e Rey voltarão, mas ainda é possível aproveitar eles e explorar melhor as suas histórias. Ainda mais em uma saga começando do zero e sem os fantasmas do passado. É preciso, também, haver um vilão bom, o que nunca houve nesta atual trilogia.

“A ascensão Skywalker”, portanto, é decepcionante. Não é por acaso que Abrams anda sendo chamado de Jar Jar Abrams, em referência ao odiado personagem Jar Jar Binks da segunda trilogia. O diretor, de fato, deixou a desejar. Mas é claro que esta saga ainda tem muita força. E fãs que sempre vão querer uma nova história. 

Cotação da Corneta: nota 3,5.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Tim Miller ignora sequências e tenta dar um fim/novo começo à saga do Exterminador

Dani, Grace e Sarah, heroínas da resistência
A essa altura, em pleno 2019, é difícil saber o que aconteceu ou a ordem exata dos acontecimentos após seis filmes do Exterminador do Futuro. Tirando a trilogia clássica iniciada por James Cameron e que teve Jonathan Mostow com diretor do terceiro filme, “A rebelião das máquinas” (2003), a franquia foi tomando outros rumos em que a gente fica se perguntando se de fato a Skynet prevaleceu em algum ponto no futuro ou se impediram mesmo o futuro apocalíptico das máquinas dominando o planeta. 

Batizado de “Destino Sombrio” (“Terminator: Dark Fate”, no original), o novo Exterminador tenta dar uma visão sobre tais acontecimentos. Ao mesmo tempo em que tenta encerrar a história, aponta para um futuro digamos.... sombrio. Afinal, somos humanos e temos uma incrível capacidade de fazer bobagens quando recebemos uma tecnologia de ponta em nossas mãos. Ou nem isso. 

Para isso, o diretor Tim Miller e James Cameron, que está entre os sete criadores da história deste filme, ignorou tudo o que aconteceu em “Rebelião das máquinas”, “A Salvação” (2009) e “Gênesis” (2015). Tudo foi considerado fora do cânone do Exterminador. Focou apenas nos  dois primeiros filmes, lançados, respectivamente, em 1984 e 1991, trouxe de volta a atriz Linda Hamilton, a the one and only Sarah Connor (sorry Emilia Clarke), e apontou para os desafios vindouros. 

E qual o resultado disto? Primeiro, um filme divertido. “Destino sombrio” é bem legal para quem é fã de explosões, perseguições, o famoso “tiro, porrada s bomba” e da resistência implacável do vilão que só encontramos na franquia Exterminador do Futuro. 

Aqui ele é vivido por Gabriel Luna, em sua versão Rev-9, uma máquina de combate implacável feita de fibra de carbono e capaz de se dividir, se amalgamar e se moldar de acordo com o ambiente. Ele é praticamente imparável e indestrutível. Sua versão faz o modelo T-800 de Arnold Schwarzenegger parecer um robozinho inofensivo. 

(E agora atenção para os SPOILERS).

He is back
Na história repaginada, Sarah Connor conseguiu impedir o apocalipse da Skynet, porém, em 1997, um Exterminador surge e mata o seu filho John, o futuro líder da resistência. 

Só que mesmo com o futuro alterado, a humanidade não aprende. E daqui a quatro décadas, uma nova ameaça surgirá a partir de uma guerra cibernética. A Legião é o vilão da vez e para isso um Exterminador volta a 2019 para tentar mudar o futuro. Com ele, claro, vem alguém para defender uma pessoa importante para a resistência humana. 

Ao contrário do T-800, Grace (Mackeinzie Davis, grande aquisição para a franquia) é uma humana “melhorada”. Cheia de componentes eletrônicos e amalgamada com equipamentos tecnológicos que a fazem ser mais forte, rápida e precisa. Ainda assim, isso não é suficiente para combater o mal. É aí que surge Sarah Connor. 

Sua entrada é absolutamente triunfal. Com direito a uma citação da frase clássica de Schwarzenegger : “I´ll be back”. 

Trazer Linda Hamilton de volta foi um dos acertos para a história. Ela é a cara da saga junto com Schwarzenegger, que agora aparece como um androide aposentado que é chamado de volta a batalha para cumprir a missão de salvar Dani (Natalia Reyes), a nova peça-chave no tabuleiro da resistência humana no futuro. 

A participação do veterano ator austríaco é um deleite para os fãs, mas funciona de forma muito ruim para o filme. Não convence muito o fato de encontrarmos um Exterminador que havia matado John Connor e agora tenta se redimir e passou a entender melhor os humanos.

Mas é claro que o personagem se segura bem apesar disso. O trocadilho com sua frase famosa, a brincadeira com os óculos escuros e, por fim, o trabalho impecável de Schwarzenegger .no papel Para um ator de filmes de ação que nunca teve muito talento dramático como o seu outrora par do passado Bruce Willis, nada como um androide de fala robótica para que ele se sinta totalmente à vontade. Para alguém que não é exatamente um Al Pacino da emoção, a melhor coisa que existe é interpretar um personagem sem emoção ou arroubos faciais. Não há papel em que Schwarzenegger se sinta mais à vontade. 

Com isso, “Exterminador do Futuro: destino sombrio” cumpre o seu papel de entreter, dar um destino para os personagens clássicos e apontar para o futuro. Na era atual, deixar as franquias em aberto é fundamental para a sua continuidade. Se é que algum dia isso virá a acontecer. 

Mas com Sarah Connor no comando, a resistência nunca acaba até que o futuro esteja assegurado. E a humanidade aprenda a não se destruir. 


Cotação da Corneta: nota 6,5.