quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Eu vou, mas eu volto

O signatário deste blog reconhece que não esteve muito presente nos últimos meses. Culpa da Copa do Mundo, que me afastou das salas de cinema por quase dois meses. Mas aos poucos vou recuperando o tempo perdido. Tenho outras críticas a publicar que, porém, terão que esperar um pouco mais. É que beneficiado pelos ditames da Era Vargas sairei de férias com a promessa de breve retorno no alvorecer do mês seguinte.

Mais uma vez inspirado em Chris McCandless, herói improvável desta natureza selvagem chamada planeta Terra, vou invadir outras plagas, buscar inspiração na respiração de outros ares, no sabor de outras comidas, no deleite de outras paisagens.

Assim, o blog e o Twitter desligar-se-ão por breve tempo (talvez eu apareça de vez em quando, mas é pouco provável). Período suficiente para um novo rol de poesias e para viver novas prosas neste livro chamado vida (bonito isso, parece lição de manual de auto-ajuda).

Quando voltar, tecerei comentários sobre o filme do Tarantino em cartaz e muito mais, é claro.

Enquanto o dia não chega, divido com os nobres leitores duas músicas e dois videoclipes inspiradores e que não me saíram da cabeça nos últimos dias. Até breve.

Van Halen - "Amsterdam"

U2 - "Stay (far away, so close)"

Um Matrix elevado à quarta potência

Quando foi lançado em 1999, “Matrix” foi chamado de revolucionário pelas técnicas de filmagem desenvolvida pelos irmãos Wachowski copiadas em dezenas de filmes e paródias que vieram posteriormente. Em meio a tanta tecnologia, seu roteiro navegando entre o real e o imaginário também era celebrado e gerou de teorias mirabolantes a matérias de capas de revistas científicas. E estar dentro ou fora da Matrix ganhou ares de discussão filosófica.

Onze anos depois, o diretor americano Christopher Nolan chama Freud para entrar nessa conversa e eleva o potencial de Matrix a quarta potência nos presenteado com um dos melhores filmes do ano.

“A Origem”, título em português para “Inception”, é uma viagem pelo subconsciente com a materialização de seus desejos, medos, ideias e o benefício de que o pior que lhe pode acontecer é acordar.

No filme, Leonardo Di Caprio é Cobb, um agente especializado em roubar informações da mente dos indivíduos. Para isso, ele invade os sonhos de quem precisa roubar as informações ou faz a pessoa entrar no seu ou no sonho de outros de sua equipe para viver uma experiência quase real.

O problema é que quanto mais complexa a informação, maior deve ser o seu mergulho no inconsciente. O que pode levá-lo ao limbo e uma conseqüente vida vegetativa no mundo real.

Tudo, porém, começa a complicar quando Cobb e seu parceiro Arthur (Joseph Gordon-Levitt) recebem do empresário Saito (Ken Watanabe) uma missão das mais complicadas. Eles não têm que roubar informações, mas inserir uma ideia na mente de Robert Fischer (Cillian Murphy), filho de um magnata que acabara de morrer. É preciso convencer, ou melhor, fazer Fischer ter a ideia natural de que ele deve dividir a fortuna do pai.

Algo aparentemente simples, mas que exige um esforço sobre-humano, pois a ideia precisa nascer naturalmente, não pode ser uma mensagem ou um delírio destacado num sonho. Em inglês, inception significa “o começo de uma organização ou atividade oficial”. O que Cobb aceita fazer, portanto, é criar um mundo paralelo, uma história completa com diversas camadas para fazer Fischer atingir menos do que a luz. É para que ele viva um momento de “pré-eureca”. Que ele sonhe com um estalo que o fará formar uma ideia que parecerá ser sua e não uma encomenda de uma multinacional que compete com a do pai dele.

Cobb, assim, reúne uma nova equipe formada por ele, Arthur, o próprio Saito e mais a arquiteta Ariadne (Ellen Page), Eames (Tom Hardy) e o químico Yusuf (Dileep Rao). O objetivo é plantar a ideia de forma que ela pareça ser do próprio Fischer. Para isso, porém, Cobb e seu time terão que entrar em três camadas de sonhos criando sonhos dentro dos sonhos de Fischer, mergulhando mais profundamente no inconsciente do jovem empresário. Tudo isso com Cobb tendo que lidar com a culpa da morte de sua mulher, Mal (Marion Cotillard), numa relação fundamental para a história criada pelo diretor. O próprio Cobb já foi um perfeito arquiteto de sonhos, mas teve que abrir mão de fazer suas próprias construções para não ter problemas com a mulher que ainda vive em suas lembranças e que ele não deixa partir.

É aqui que Nolan subverte completamente o tempo e o espaço criando uma seqüência de acontecimentos em dobras espaços-temporais oníricas e embaralhando as cartas até o fim para que fiquemos sempre com a pulga atrás da orelha sobre o que é verdadeiro e o que não passa de projeção, lembrança ou criação da mente sonhadora.

Se a comparação com “Matrix” é a mais próxima da nossa realidade, não é a primeira vez, no entanto, que Nolan joga com projeções de real e imaginário na tela. Ele fez o mesmo em “O Grande Truque” (2006), em que dois mágicos vividos por Hugh Jackman e Christian Bale duelavam em apresentações marcadas por truques supostamente simples, mas que flertavam com a magia num enredo que ia se descortinando aos poucos.

Um descortino em camadas como foi o próprio mergulho de Batman (Christian Bale) na sua transformação de herói em vilão de Gotham em “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (2008), que, aliás, terá uma nova continuação, a terceira dirigida por Nolan. Ou mesmo Leonard (Guy Pearce), o personagem principal de “Amnésia” (2000) que tenta resolver um crime ao mesmo tempo em que lida com a doença de sofrer a perda de memória recente.

Experiências que Nolan levou para “A Origem” e com mais verba no bolso criou cenários fantásticos como a Paris que se dobra até os prédios se encaixarem com perfeição num retângulo em três dimensões para contar uma história em que tempo, espaço ou gravidade são absolutamente relativos. E da suposta realidade ao limbo, tudo depende da perspectiva de quem vive e de como e da intensidade em que se vive.

sábado, 7 de agosto de 2010

Jogos de poder em Buckingham

Nada como sair de casa e ver um filme do qual não se tem expectativas e ser positivamente surpreendido. Esta foi a sensação que experimentei após assistir à “A jovem rainha Vitória”, ainda em cartaz em pouquíssimos cinemas. O filme que concorreu a três Oscars em categorias técnicas e ganhou apenas o de figurino tem mais do que roupas e belas paisagens da Inglaterra na Era Vitoriana.

Ele pode ser encarado primeiro como uma bonita história de amor, que foi se construído entre a rainha Vitória (Emily Blunt), coroada aos 18 anos, e o príncipe Albert (Rupert Friend) com o passar dos anos e a espera dele por um casamento que sonhava desde que começou a conhecê-la. Vitória e Albert parecem ter vivido felizes até a morte dele aos 42 anos de febre tifóide.

Mas o trabalho de Jean-Marc Vallée também pode ser encarado como um interessante filme sobre os jogos e manipulações políticas. Podemos notar como até a rainha, uma inexperiente soberana, ficou a mercê daquela disputa de poder entre os partidos ingleses.

Uma disputa que começa bem antes de Vitória completar 18 anos, quando a sua mãe, manipulada por Sir John Conroy (Mark Strong), tenta fazer a vontade deste de instituir uma corregência por mais sete anos até que ela completasse 25. Tudo para que Conroy pudesse mandar. Não deu certo, abrindo espaço para a chegada ao poder de Lorde Melbourne (Paul Bettany), primeiro-ministro bastante influente junto à jovem a ponto de conseguir indicar e aprovar todos os “cargos” no Palácio de Buckingham. Nada perto de diretorias de estatais que estamos acostumados a ver loteadas por aqui, mas damas de companhia e outras acompanhantes que estão sempre perto da rainha e por isso são boas fontes de informação e de influência sobre a soberana.

Sua confiança em Melbourne é tão grande, que Vitória, num erro grave de sua reinado, chega a rejeitar a indicação do primeiro-ministro do partido rival eleito pelo povo. Uma medida que é protocolar, já que a soberana jamais deve rejeitar o desejo do seu povo. As conseqüências são graves. Protestos e um atentado que quase mata Albert em uma bala que tinha a direção certa de Vitória.

Assim, os jogos de poder e de influência envolvendo de políticos a parentes próximos da rainha num país que já vivia uma monarquia parlamentarista são o que há de mais interessante em “A jovem rainha Vitória”. O filme se ocupa em mostrar não apenas a sua história de amor, mas o seu amadurecimento num reinado que foi marcado por ser o mais longo da história (63 anos, de junho de 1837 a janeiro de 1901), período em que a Inglaterra passou por grande crescimento populacional, mudanças econômicas, culturais, sociais e a Revolução Industrial. A partir do seu reinado, nascia uma nova Inglaterra.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A decadência de Tom Cruise

No post abaixo, falei sobre as escolhas equivocadas de Angelina Jolie. Mas ela ainda é uma estrela que pode cobrar fácil US$ 20 milhões por filme que pagam e dá retorno. Mas o que dizer de Tom Cruise? Astro da série de filmes “Missão Impossível” (que, aliás, ganhará o quarto filme e espero que seja melhor do que o último), o ator de 48 anos se perdeu na vida cinematográfica desde que subiu no sofá de Oprah Winfrey para declarar o seu amor a então nova namorada Katie Holmes.

Nos últimos anos, o ator que foi o queridinho das mulheres da minha geração (ao lado do Brad Pitt) raramente emplacou um grande filme ou uma atuação digna de elogio. E em “Encontro Explosivo”, filme que o fez vir ao Brasil para fazer a divulgação, ele é simplesmente constrangedor.

Na pele do agente secreto Roy Miller, Cruise é aquele herói da nação que tanto os americanos gostam de criar, que abre mão da vida com a família e é absolutamente dedicado à profissão, mas que num dado momento o destino lhe reserva um surpresa, uma paixão – no caso personificada em June Havens (Cameron Diaz) – e ele vai fazer toda uma reavaliação da sua existência e ver se vale a pena levar a vida que leva.

Ah, tudo isso acontece em meio a cenas de ação e de lutas fraquinhas, alguns tiros e explosões e momentos para Cruise e Cameron exibirem seus corpos dentro do que é permitido na censura de 12 anos.

Absolutamente mergulhado num oceano de clichês e formado por um roteiro que é uma verdadeira colagem de situações bastante repetitivas na história do cinema, “Encontro explosivo” é uma comédia romântica com distrações para os homens não ficarem tão entediados. Atende à mulher romântica média com um agente secreto forte, educado, sensível e que “pensa nas pequenas coisas que fazem a diferença”, com diz a personagem de Cameron, e atende ao homem médio com suas ceninhas de luta mirabolantes tentando puxar um pouco do talento de Ethan Hunt, o outro agente secreto que Cruise já interpretou. Mas nada disso funciona. O filme na realidade é formado por uma série de esquetes sonolentas da dupla que tentam ser engraçadinhas. Só tentam.

É muito pouco para um diretor que já fez trabalhos bem mais interessantes. Das mãos de James Mangold vieram, por exemplo, “Garota, Interrompida” (1999), filme que deu um Oscar para Angelina Jolie, “Johnny & June” (2005), muito boa cinebiografia do cantor Johnny Cash, que deu um Oscar de atriz para Reese Whiterspoon, e “Os Indomáveis” (2007), um bom western com suas pitadas de humor e excelente atuação de Russel Crowe.

Nada de bom destes três filmes podem ser encontrados em “Encontro Explosivo”. E quase nada de interessante pode ser visto no filme. Para Cruise, é mais um fracasso que se soma a “Operação Valquíria” (2008), “Leões e Cordeiros” (2007), muito bom filme, mas não por sua causa, “Missão Impossível III” (2006) e “Guerra dos Mundos” (2005). Seu último trabalho com algum destaque digno de nota foi “Collateral” (2004). Desde então, tirando a pequena e hilária participação em “Trovão Tropical” (2008), Cruise só fez películas dispensáveis.

domingo, 1 de agosto de 2010

Falta tudo em “Salt”

Antes de assistir “Salt”, li a crítica do filme no Globo. Era negativa e num jogo de palavras português-inglês dizia que faltava “salt” ao filme. O Bonequinho foi bastante bonzinho com o novo trabalho de Angelina Jolie, pois falta não apenas sal à película. Falta o tempero todo e a comida ainda azedou.

Tentativa de ser uma espécie de Jason Bourne de saias, “Salt” é um equívoco daqueles que você se pergunta por que pagou para ver. Tudo bem, eu tinha como motivo bastante nobre ver a Angelina Jolie, mas o excesso de roupas da moça desanima os seus fãs. Afinal, com meia hora de filme não tinha mais nada de interessante para fazer do que apreciar a beleza da atriz.

Se isso, porém, fosse o único problema de “Salt” estaria ótimo. A questão é que o trabalho do diretor Phillip Noyce – de bons filmes como “Jogos Patrióticos” (1992) e “O Colecionador de Ossos” (1999) – é extremamente ruim, sem pé nem cabeça, um desastre como poucas vezes vi nos últimos anos.

No filme, Jolie vive Evelyn Salt, uma agente da CIA, mas que está apenas usando um disfarce. Na realidade, ela é uma agente russa que faz parte de um programa do extinto serviço secreto soviético de infiltrar agentes em órgãos do governo americano em preparação para um tal de dia X, quando começam uma série de ataques dentro dos Estados Unidos para derrubar o “império”. A transição da mocinha para a suposta bandida que é mocinha, aliás, é lamentável.

Mas lendo assim o enredo até parece interessante. Só que na prática não funciona porque o roteiro desenvolvido por Kurt Wimmer é fraco, muito fraco. Da maneira como Salt tem a identidade desvendada até os eventos que vão se desenvolvendo culminando num final que não tem final como quem está dando uma deixa para uma seqüência (afinal, não existe mais blockbuster que não pense em seqüência).

E nesse meio tempo Salt vem e vai, há as reviravoltas que não funcionam e você fica ali vendo aquilo sem entender muito bem como se chegou naquele ponto. E tome seqüências de lutas, tiros e explosões que culminam em interpretações canastronas numa embalagem de enlatado americano que já nos acostumamos a engolir aqui em Pindorama.


E assim Angelina Jolie mais uma vez desperdiça seu talento (tá, eu sou fã, me perdoa) e beleza (indiscutível, por favor) com mais um filme inútil. Foi assim com “Bewoulf” (2007) e “Procurado” (2008), numa sequência de bombas só quebrada por “A Troca” (2009), filme de Clint Eastwood que a levou a concorrer ao Oscar. A musa definitivamente precisa inverter essa equação.

sábado, 24 de julho de 2010

O amor em quatro estações

John Keats (Ben Wishaw) e Fanny Brawne (Abbie Cornish) viveram um romance curto, mas profundamente intenso. Um amor que perdurou até o fim da vida de Fanny em 1865. Nem um casamento 20 anos após a morte de um dos últimos poetas românticos em 1821 ou mesmo a chegada de filhos fizeram Fanny esquecer aquele que foi o grande amor de sua vida.

Um romance trágico, fugaz, absolutamente lírico e mais idealizado do que consumado foram o que viveram o poeta e Fanny naquelas poucas estações que a vida lhes proporcionou. Do desconfiado encontro invernal, passando pelo despertar do sentimento na primavera e o auge da paixão no verão, o casal viveu encontros e desencontros semeados pelas próprias dúvidas e pela falta de dinheiro de Keats, que por vezes não se considerava o homem certo para Fanny ao mesmo tempo em que a jovem via a sua paixão crescer a uma dimensão como ela jamais sentira.

Esta é a história que Jane Campion tenta transpor para a tela em “Brilho de uma paixão”. O filme da diretora de “O Piano” (1993) tem a beleza desse amor entre Keats e Fanny, que atravessa as estações da mesma forma em que parece ser influenciado por elas. Os dois se conheceram quando ela tinha 18 anos e Keats já estava com 23, dois anos antes, portanto, de sua morte por tuberculose na Itália.

Poeta em busca da fama após a recepção fria de “Endymion” (1818), Keats era um atormentado em busca das palavras ideais para a sua poesia, mas também bastante endividado e vivendo de favores de amigos como Mr. Brown (Paul Schneider). Contudo, Fanny vê alguma beleza no seu texto e deseja conhecê-lo.

A empatia é instantânea e a paixão vai florescendo, só cresce com o beijo no despertar da primavera e atinge seu ponto de maior palpitação justamente num verão em que os dois estão separados e apenas a troca de cartas alimenta o espírito sedento por mais e tão insatisfeito com tão pouco.

Keats, porém, não se achava bom o suficiente para Fanny e por mais que a amasse tentou se separar dela. A jovem era a mulher idealizada, e, portanto, intocável de Keats. A musa inspiradora, amada, desejada, mas pouco tocada. O filme dá a entender que Keats pouco foi além dos meros beijos em Fanny, que também se envolveu na teia subjetiva do poeta romântico.

O poeta, por sua vez, parecia temer estar finalmente diante da sua musa e por vê-la acessível ao contrário de um objeto de pura beleza e onírico que transpirava do seu coração para o papel e os livros.

Pode ter tentado se separar por medo, culpa, por ser e se achar um frágil prendendo uma mulher que não poderia viver presa a um calabouço e precisava flanar como uma borboleta. Só não contava que Fanny também embarcasse neste jogo de sonhos e intensidade que a fez segui-lo até o fim.

“Brilho de uma paixão” pode ser por vezes arrastado - não há muita ação. São apenas diálogos e longos planos contemplativos – ou excessivamente “meloso” (principalmente para quem não está apaixonado), mas é uma bela história de um grande amor que só se encerra no túmulo. E que Jane Campion retrata com a beleza, as cores, os dissabores e as características de cada estação.

Já que estamos falando de estações do ano, um pouco de Vivaldi para encerrar o post.
Primavera
Verão
Outono
Inverno

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Um time de primeira

Quando vi “Cruzada” (2005), lembro de ter comentado com um amigo que o filme acabou na primeira meia hora quando um grupo então liderado pelo personagem vivido pelo ator Liam Neeson era simplesmente dizimado. Fiquei com a sensação de que a morte deles estragou o filme protagonizado por Orlando Bloom. E “Cruzada” era realmente bem meia-boca.

Cinco anos depois, entro no cinema para novamente ver Liam Neeson, dessa vez no papel do Coronel John Hannibal Smith, comandando mais uma equipe que promete boas batalhas em duas horas de “Esquadrão Classe A”. E que decisão acertada tem sido a do ator de 58 anos em protagonizar filmes de ação e aventura. Eles são sempre excelentes como “Batman Begins” (2005) ou pelo rendem uma boa diversão, caso de “Busca Implacável” (2008).

Tenho poucas lembranças da série de TV dos anos 80 do século passado que originou o filme dirigido por Joe Carnahan, o mesmo do excelente “Narc” (2002). Lembro que era criança quando isso passava uma vez por semana num horário da TV Globo muito mais bem aproveitado do que hoje, quando passa uma “novelinha jovem”.

Por ser algo bem distante para mim, acompanhar a saga de Hannibal, dos figuraças Templeton “Cara de Pau” Peck (Bradley Cooper), Bosco B. A. Baracus (Quinton “Rampage” Jackson) e do completamente insano Murdock (Sharlto Copley), mercenários que fazem o trabalho sujo dos Estados Unidos quando são chamados, é quase inédito para mim. E esse quarteto toca o terror em cenários que vão desde o deserto no Iraque a Alemanha sempre com ideias mirabolantes e supostamente impossíveis de realizar. Lembro que a série tinha algo semelhante também.

Cada membro desse quarteto tem o seu estilo. Hannibal é o líder cerebral sempre com um plano na cabeça e “subplanos” dentro dos planos para o caso de algo dar errado ou tomar rumos diferentes. Cara de Pau, como o próprio apelido diz é o canalha sedutor do grupo. Sempre disposto a arriscar uma missão por uma bela mulher e o que mais dá a cara a tapa nas missões. Baracus é o brutamontes, pura força bruta, cujo ponto fraco é o medo de voar, o que o coloca sempre em conflito com Murdock, o piloto enlouquecido que faz manobras de revirar o estômago dos mais experientes aeronautas.

Esses quatro já valem uma conferida em “Esquadrão Classe A”, que conta anda com Patrick Wilson como um agente da CIA que conduz a história manipulando-a como, bem, um agente da CIA, ora.

“Esquadrão Classe A” é um blockbuster, mas não é um filme para topeiras ao estilo Rambo (tá, eu gosto de Rambo, mas o filme é ruim). É divertido, tem tiradas bem humoradas e os atores estão bem em cena.

A história, porém, poderia ser melhor explicada. Tem alguns momentos que você se perde nas reviravoltas entre uma explosão aqui e um tiroteio ali. Fica a sensação de que o roteiro de Carnahan e Brian Bloom poderia ser mais bem trabalhado. Mas nada que prejudique seus 120 minutos de pura diversão ou nostalgia para os que pretendem se reencontrar com a série.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Um bom filme de Polanski

Encerrada a maratona futebolística da Copa do Mundo, Memórias da Alcova retoma suas atividades normais. Pretendo não sumir mais por muito tempo. A menos que a eleição me pegue da mesma forma que o Mundial da África do Sul. Tentando recuperar o tempo perdido, assisti à três filmes nos últimos dias, sobre os quais falarei com calma neste e nos próximos posts.

O primeiro deles foi o mais recente trabalho do diretor francês Roman Polanski. “O escritor fantasma” está quase saindo de cartaz, mas para quem não viu vale dar uma conferida. O tempo que demorei para assisti-lo, aliás, acabou sendo de certa forma benéfico, pois me afastou de tentar associá-lo à prisão do cineasta na Suíça e à tentativa de extradição para os Estados Unidos que acabou não acontecendo por causa do processo pelo qual ele é acusado de abusar de uma garota de 13 anos em 1977.

Pude me concentrar, portanto, apenas neste trabalho do diretor de “O Pianista” (2002). Inferior ao filme que lhe rendeu o Oscar, “O escritor fantasma”, porém, é um bom trabalho de Polanski. Embora nada na película tenha de diferente de outros filmes de suspense "investigativo/policial" – inclusive ele tem um clima soturno que lembra muito “Ilha do Medo”, recente trabalho de Martin Scorsese que esteve em cartaz antes da Copa -, o desenrolar da trama o prende diante da tela e você fica ali junto com o Ewan McGregor, o tal escritor fantasma do título, querendo juntar as peças do quebra-cabeça e tentando adivinhar esse enigma que começa a se formar a partir de um enredo simples: um ghost writer que tem que escrever a autobiografia do ex-primeiro-ministro britânico Adam Lang (Pierce Brosnan, o grande 007).

Lang, aliás, se parece muito com o velho Tony Blair, cuja popularidade despencou desde que apoiou incondicionalmente George Bush nas suas guerras no Oriente Médio. E Polanski e o roteirista Robert Harris criam a partir dessa história simples, “teorias conspiratórias” interessantes para conduzirem o seu filme.

A partir daí, cabe ao sempre talentoso Ewan McGregor, no seu melhor trabalho desde “Peixe Grande” (2003), embora nada profundamente marcante, dar as inflexões necessárias para te deixar com aquela pulga atrás da orelha e aquela frase na cabeça: “Aí tem”.

Tem muito, como mostra o desfecho da película que gera, no mínimo, um ponto de exclamação positivo de quem encontra uma curiosa surpresa. Por isso, “O escritor fantasma” vale o ingresso. Se você ainda conseguir comprá-lo.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

A última cena de um grande ator

Parafraseando narradores, jogadores e comentaristas de futebol, Heath Ledger era um ator “diferenciado” (como odeio essa palavra). Mas é preciso dizer que o ator que morreu há dois anos era realmente diferente. Seu incrível trabalho em “Batman, o Cavaleiro das Trevas” (2008) era possivelmente um divisor de águas para a continuidade de uma carreira que poderia ter sido brilhante.

Mas a morte precoce aos 29 anos ceifou qualquer possibilidade de os fãs do seu trabalho e do cinema em geral acompanharem essa ascensão de Ledger.

Restou apenas uma incompleta “saideira”. Último trabalho da carreira de Ledger, “O mundo imaginário do Dr. Parnassus” nos oferece uma mostra de como o ator estava evoluindo cada vez mais. Num filme por vezes confuso de entender, de um realismo fantástico saído da mente do diretor e roteirista Terry Gilliam, Ledger brilha a cada cena que aparece. Cenas essas cuidadosamente colocadas no filme.

Foi durante as filmagens de “Parnassus” que o ator veio a falecer. O trabalho incompleto fez com que Gilliam tivesse que convocar três atores para substituí-lo e o obrigou a reinventar alguns pontos da história numa conclusão que acredito ter ficado bem satisfatória.

Convocados para filmar o que faltava, Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell nos permitem fazer uma comparação que mostra que Ledger estava cada vez mais próximo do primeiro e bem distante do último, disparado um dos pontos fracos do filme e que quase o coloca a perder.

Mas Farrell não chega a estragar uma película que embora seja um tanto quanto louca se revela uma divertida, interessante e despretensiosa história. Desde que, claro, você esteja disposto a mergulhar nesse mundo bizarro em que a razão não é lá muito bem exercitada. Mas é cinema, e cinema não é realidade.


E com tudo isso, em poucas inserções, Ledger mostra o bom ator que já era. Uma pena que “O mundo imaginário do Dr. Parnassus” tivesse que ser a última vez em que o vimos exercitar o seu talento.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Alice cresce e amadurece


Não sou daqueles caras que têm orgasmos múltiplos com novas tecnologias ou a cada lançamento. Embora confesse que com o passar do tempo, acabo me rendendo a algumas facilidades interessantes. Mas ainda assim, não tenho I-Pad, I-pod ou qualquer coisa do gênero - a indústria erótica ainda vai acabar inventando o I-Phode (não podia perder a piada).

Essa introdução é para dizer que embora reconheça que isso seja o futuro, não me empolgo com o chamado cinema 3-D que vai ganhando força a cada blockbuster que surge por aí. Não é que eu lidere uma resistência pelo 2-D ou me recuse a assistir filmes neste novo formato. Só não vejo muita graça em colocar uns óculos no cinema para ver uma borboleta voar na minha cara. Talvez até porque eu viva numa cidade em que ainda é possível que uma borboleta voe na minha cara. Pelo menos até o apocalipse ambiental que muitos desejam.

Então foi por falta de opção que vi “Alice no país das maravilhas” em 3-D. Não queria, pois acredito que um bom filme é bom até em 1/2 D, mas não tive escolha e paguei um pouco a mais para ver o novo filme de Tim Burton.

Menos mal que ao contrário de “Avatar”, a bomba sem graça de James Cameron, “Alice” é até interessante. Sim, Burton e a roteirista Linda Woolverton fizeram algumas alterações na história original de Lewis Carroll, fundiram personagens, mudaram uma coisa aqui e ali, mas na essência os principais personagens estão lá, incluindo o Chapeleiro Louco (Johnny Depp, sempre bem, em mais um personagem esquisito para a sua coleção) e as rainhas vermelha (Helena Bonham Carter) e branca (Anne Hathaway).

Contudo, o mais interessante desta leitura é que embora a película tenha o mesmo nome do livro de Carroll, Burton optou por contar a história do retorno de Alice, vivida pela até então desconhecida australiana Mia Wasikowska, ao País das Maravilhas.

Assim, sai a menina inocente, entra a adolescente quase adulta petulante, com posições firmes e decidida e uma missão nesta história de contornos levemente medievais. Alice agora é trazida de volta a este mundo paralelo e fantástico para cumprir o seu destino e decidir o que deve fazer enquanto no “mundo real” parentes o aguardam para uma resposta diante de um pedido de casamento arranjado.


A jornada de Alice é de reaprendizado, crescimento e reflexão que vão culminar na sua entrada definitiva na idade adulta. Afinal, todos já conhecem a história da pequena Alice. Era preciso, portanto, tomar a liberdade de avançar sobre ela. O resultado pode não ter uma marca tão forte como a que Burton impõe aos seus filmes, mas a conclusão é de um filme que seria divertido em qualquer dimensão.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Zico à Maradona

Ao assumir o risco de comandar o futebol do Flamengo, Zico mostra ter a coragem de um Maradona ou de um Roberto Dinamite. Maior ídolo da história do Rubro-negro, o ex-jogador tenta retomar sua vida no esporte após passagem apagada como treinador pelo futebol grego justamente no clube onde ele conquistou tudo e se tornou um Deus. Logo, Zico não tem nada a ganhar no Flamengo, embora o Flamengo tenha muito a ganhar com Zico.

Maradona também sempre foi Deus para os argentinos. Com a camisa da seleção ganhou uma Copa do Mundo e carregou o time ao vice-campeonato do Mundial seguinte. Mais do que a mão de Deus foi a genialidade do seu pé esquerdo que o tornou senhor absoluto de uma Igreja que só existe na Argentina.

Mesmo assim, Maradona topou em 2008 assumir o risco de treinar a seleção da Argentina. Saiu do pedestal de ídolo maior para virar vidraça no exigente futebol local. Rei dos campos, virou mortal no banco de reservas e apanhou da imprensa e dos súditos que viam uma talentosa Argentina não jogar bem e sofrer para chegar na Copa do Mundo. Garantida a vaga, o ídolo não teve pudores ao endereçar os seus piores xingamentos aos maiores detratores.

Zico também vai virar vidraça e por mais que tenha sucesso na sua nova empreitada uma hora terá decisões contestadas e poderá ter, inclusive, sua imagem de Deus arranhada. Mas ainda assim preferiu descer do Olimpo para lutar na planície.

Isso é algo que Pelé, por exemplo, nunca fez. E isso não é uma crítica, apenas uma constatação. O rei do futebol sempre manteve a sua majestade justamente por não se arriscar a assumir um cargo no Santos ou na seleção brasileira. Era preferível deixar o Pelé na história e viver a vida do Edson em paz.

O que pode acontecer com Zico, já acontece com Roberto Dinamite. Os campeonatos ruins do Vasco e a objetividade extrema a que se impõe o futebol não perdoam o comandante de agora, por mais que o ex-atacante ainda esteja tentando consertar os erros terríveis deixados pela administração Eurico Miranda. O presidente Dinamite já foi vaiado como um jogador medíocre que o atacante jamais foi.

É a isso que Zico estará exposto agora. Mas a conversa de domingo com a presidente Patrícia Amorim, que definiu sua contratação, parece tê-lo convencido. Em março, o ex-craque afirmara que seria constrangedor para ele e para o torcedor assumir o cargo de treinador do clube. Isso porque, o torcedor poderia querer chamá-lo de burro e não o faria mesmo que estivesse certo porque ele é o Zico.

Mas o projeto rubro-negro o seduziu. O fez mudar de ideia. Não sem antes garantir que receberá o dinheiro dos patrocinadores e não do clube, onde por vezes os meses têm 60 ou 90 dias.

E Zico é uma figura fundamental no futebol brasileiro. Principalmente porque não faz parte da podridão dele. Porque tem valores que os dirigentes que cresceram e enriqueceram as custas dos clubes de futebol jamais tiveram. Porque gosta do futebol bem jogado por ter sido expoente de uma seleção e de um time que sabiam jogar futebol. Para Zico vencer é preciso, mas sempre jogando bem. Dentro e fora do campo.

Como Maradona, Zico vai se expor novamente na arena em que foi rei. Torçamos para que ele dê certo. Até porque as críticas injustas que Patrícia Amorim já começa a ter de colegas rubro-negros do blog crescem a cada resultado ruim do Flamengo dentro do campo. E uma queda de uma dirigente aparentemente honesta que faz parte de uma renovação absolutamente necessária no futebol carioca é uma dupla derrota. Significa o fim de um projeto sério de reconstrução do clube (sim, o Flamengo estava mal, mas sua situação foi maquiada com o título brasileiro) e o retorno das aves de rapina que jogaram o futebol carioca na segunda divisão nacional. Que Zico consiga voltar a marcar os seus golaços na nova função.