domingo, 26 de outubro de 2008

Da solidão

Na casa dos 60 anos, o professor David Kepesh (Ben Kingsley numa de suas melhores atuações) desafia o tempo com os mesmos hábitos que tinha aos 40 e aos 50. A cada semestre, escolhe uma vítima para levar para o seu abatedouro particular. Tudo é planejado. Da seleção que é feita nos primeiros dias de aula ao momento certo, no caso, uma festa precedida das notas finais de sua matéria.

Foi assim há 20 anos com Carolyn (Patrícia Clarkson), hoje empresária de sucesso e habitué da sua cama, será assim com Consuelo Castillo (Penélope Cruz), jovem por quem ele desejará simples e loucamente transar.

Divorciado e com um filho com o qual não mantém bom relacionamento desde que se separou de sua mulher, Kepesh “vampiriza” a juventude de suas mulheres para se manter espiritualmente jovem. Ele mesmo reconhece que devia estar “fazendo coisas da sua idade”, mas não consegue parar. A arte da sedução é algo que o excita e o estimula. Ainda mais numa cidade com tantas mulheres interessantes.

Kepesh não contava, porém, que Consuello retornasse. Não apenas uma, duas ou três noites. Mas com a freqüência suficiente para concluir que estavam apaixonados. Eis que Kepesh, tão seguro de si, com sua vida de conquistas e transas corriqueiras, perde o chão. Vê-se tendo sentimentos juvenis, sofrendo com a distância como um adolescente. Torna-se um novo velho jovem.

Baseado no livro “Dying Animal”, de Philip Roth, “Fatal”, péssimo e incompreensível título em português para “Elegy”, aborda sob um diferente ponto de vista uma relação mais do que carnal entre professor e aluna. Se o óbvio, o chavão, sempre foi marcado pela aluna que seduz o professor bobalhão, “Elegy” coloca um duplo mestre – na arte de ensinar e seduzir – como ponta da lança. Kepesh é o desencadeador de uma relação cujo rumo invariavelmente será o do questionamento sobre o futuro que inexiste para um e que aparentemente é longo para a outra.

E este é um dos temas do filme dirigido por Isabel Coixet. Diante da inevitável finitude das coisas e da vida, é necessário planejar tanto a ponto de 30 anos de diferença entre duas pessoas serem um empecilho para um relacionamento?

Por outro lado, o medo de Kepesh de ser mais dia menos dia trocado por alguém mais jovem faz com que ele mesmo mine esse relacionamento. Um caso que, ao mesmo tempo em que curte, o incomoda, acomodado que está com sua vida solitária aplainada por visitas constantes e diferentes para suas necessidades primitivas (ou primevas).

Sua indefinição e sua paixão juvenil, parecendo, inclusive, ser o seu primeiro grande amor, acabam minando o relacionamento com Consuelo, jovem até certo ponto pacata e centrada. Nem os conselhos do poeta George O’Hearn (Dennis Hopper, excelente), construídos sempre em deliciosos encontros no café da cidade ou numa quadra de squash o fazem amadurecer. Não do ponto de vista da experiência amplamente acumulada, mas nas idéias.

Ainda lidando com suas angústias, Kepesh ainda terá de O’Hearn é um novo ensinamento com sua morte fruto de problemas decorrentes da própria velhice. E quando a jovem Consuelo lhe reaparece com um câncer de mama, ele desaba em lamentações, dores e percebe o valioso tempo que perdeu ao não ter feito nada de relevante com Carolyn ou assumido verdadeiramente o relacionamento com Consuelo. Ou mesmo de não ter se esforçado mais para melhorar o relacionamento com seu filho, Kenneth (Peter Sarsgaard).

Quando tenta de alguma forma recomeçar, já é tarde para alguns. Carolyn diz que já não dá mais para fazer alguma coisa depois de 20 anos naquela vida. Perdeu a esperança em qualquer mudança e também está acomodada. Mas com seu filho, a conexão que é o hospital onde Consuelo se opera é a largada para uma reconciliação. Uma reconciliação paterna e, quem sabe, com a própria vida.

É por isso que o filme de Coixet é muito menos “Fatal”, que pode significar a proximidade da morte, mas também um nível de sedução, e mais a elegia do título em inglês. Um poema, no caso cinematográfico, devotado ao luto e à tristeza, mas que busca um balanço reflexivo da existência.

domingo, 19 de outubro de 2008

Pequenos grandes shows


Sempre gostei de assistir à mega-concertos mesmo de bandas que eu não seja muito fã. Para um aficionado por espetáculos como eu, é muito legal ver toda a produção de um show, as eventuais surpresas preparadas, enfim, há muito por trás de uma banda e no mundo do rock a música é o que há de mais importante, mas não a única coisa a admirar. O que seria o Kiss sem toda aquela teatralidade de Genne Simmons e cia. com sangue, explosões, fogos de artifício, etc? Uma grande banda, mas talvez não uma banda lendária.

Com esse espírito apreciador vi, por exemplo, um bom show do Police no Maracanã no ano passado, embora não considere a banda de Sting nem uma das 50 melhores da minha lista particular.

Por outro lado, e sem que isso seja contraditório, também sempre gostei de pequenos shows, que fossem focados mais naquela coisa de baixo-guitarra-bateria-voz e platéia. Tudo meio improvisado, simples, com uma banda no palco e um público honesto e fiel.

A cada dia, porém, eu gosto mais desses pequenos grandes shows do que dos mega-concertos que rolam por aqui. Na semana passada, tive mais uma mostra de como eles estão mais prazerosos.

Estive no Circo Voador para ver pela segunda vez o Mudhoney tocar ao vivo aqui no Rio de Janeiro. A última já havia sido espetacular. Lembro-me até hoje de que após vê-los abrindo para o Pearl Jam no show de dezembro de 2005, disse que o espetáculo magistral da banda de Eddie Vedder fora, para mim, gratuito, pois o Mudhoney já havia “pago o ingresso”, como se diz na gíria.

Desde aquele show espetacular, o Mudhoney lançou mais dois discos (a banda tem nove no total): Under a Billion Suns (2006) e The Lucky Ones (2008). E veio uma vez ao Brasil antes do show que vi, mas só tocaram em São Paulo no ano passado.

Assim, esta apresentação foi a primeira desde aquele dia 4 de dezembro de 2005. Num palco diferente (o grupo tocara no Sambódromo) e com muito menos gente – dos 40 mil daquela ocasião para uns mil ou talvez um pouco mais de agora – a banda de Seattle formada por Mark Arm (vocal e guitarra), Steve Turner (guitarra), Matt Lukin (baixo) e Dan Peters (bateria) manteve ao menos duas semelhanças com relação ao show de três anos atrás: a potência do seu som e uma apresentação irretocável.

O público era pequeno, mas aguerrido. Cantava boa parte das músicas, pulava muito, fazia as tradicionais (e, convenhamos, desnecessárias) rodas no meio da pista, enfim, era uma platéia empolgada. Muitos ali já tinham visto o Mudhoney tocar pelo menos uma vez, mas mantinham a alegria de ver a banda.

E aí está o grande diferencial dos shows pequenos atualmente. Os fãs ficam onde realmente deveria estar, grudados no palco, tentando subir para tocar nos ídolos e sendo violentamente jogadas para fora, fazendo toda aquela algazarra saudável. Bem diferente do cordão de isolamento chamado área vip dos médios e grandes shows da atualidade aonde os verdadeiros fãs, aqueles que chegam cedo para ficarem mais próximos do seus ídolos, aqueles que contam cada centavo do dinheiro para comprar o ingresso sempre absurdamente caro (o do Mudhoney nem estava tão caro, pois todos podiam pagar meia desde que levassem um livro ou um quilo de alimento não perecível para doar), ficam tão distantes daqueles que eles tanto admiram.

O preconceito forjado por organizadores incompetentes de espetáculos não existe em shows pequenos. Dessa forma, o fã fica próximo do ídolo e acontece aquela saudável alimentação cíclica. A banda toca bem, o público se empolga e faz a banda tocar melhor que empolga ainda mais a sua platéia. Isso faz os concertos serem inesquecíveis e diferencia um show correto, mas frio como o do Police de uma apresentação incendiária como a do Mudhoney ou a de um Iggy Pop, por exemplo.

Sem contar que só um show pequeno numa casa pequena, embora bastante aprazível, como o Circo Voador poderia proporcionar um encontro antes da apresentação entre fãs e banda como aconteceu com os aficionados que chegaram cedo na casa. Eles puderam tirar fotos, pedir autógrafos, gritar e espernear com a presença fortuita de Mark Arm e Steve Turner, que chegaram por volta das 23h, pouco antes do Rockz iniciar o show de abertura.

Por falar em Iggy Pop, é impossível não lembrar dele ao ver Mark Arm no palco. Nos momentos em que está sem a sua guitarra ele parece o velho roqueiro cantando. Os mesmos trejeitos, a mesma disposição. Um animal no palco. Quando o set exige mais um guitarrista, ele se transforma naquilo que Seattle produziu de melhor. É quase um Kurt Cobain no auge.

Nas mãos do Mudhoney está o que restou do grunge. O som que viveu o seu auge nos anos 90 capitaneado pelo Nirvana e pelo Pearl Jam, mas que tinha outros dois grandes representantes no Soundgarden e no Alice in Chains, acabou saindo do cenário com a bala que matou Cobain e a mudança de estilo da banda de Eddie Vedder para um rock mais tradicional.

É a cada show do Mudhoney, porém, que o pessoal da minha geração ressuscita as camisas de flanela xadrez e vai para imensas rodas no meio da platéia para celebrar por um momento aqueles dias pós-Nevermind (1991) e Ten (1991), talvez os dois mais importantes discos do grunge, respectivamente do Nirvana e do Pearl Jam.

Nas quase duas horas de espetáculo, a banda procurou cobrir toda a sua história com muito peso, distorção e tudo o mais que caracteriza o grunge. Se clássicos como “Touch me, I’m sick”, primeiro single do álbum de estréia do Mudhoney, “Superfuzz Bigmuff” (1988), continuam sendo uma das favoritas, e outras grandes músicas como “You gotta it (keep it out my face)”, “Sweet young thing and sweet no more” e “Hate the Police”, mostram que o Mudhoney não banda de uma música só, as novas canções mostram a qualidade do novo trabalho do grupo.

Cinco delas foram cantadas – pouco menos da metade do novo disco - e tiveram ótima recepção da galera. “The Lucky Ones” é a melhor, mas “I’m Now”, “Next Time” e “Tales of Terror” também têm seu valor e ajudam a manter o peso da banda. Elas também comprovam que o Mudhoney continua sendo uma banda essencial e que com eles o grunge nunca morrerá.

Foi difícil escolher quatro vídeos para postar aqui. Aqui vão algumas pedradas citadas acima:
“Touch me, I’m sick”


“You gotta it (keep it out my face)”



“Sweet young thing and sweet no more”



“The Lucky Ones”



sábado, 11 de outubro de 2008

Troféu olho de peroba

É sempre possível ficar impressionado com a cara-de-pau alheia. É que ela nunca tem limites. E no Brasil está sempre pronta para atingir novos estágios. O Brasil é, indubitavelmente, o país de caras-de-pau. E dessa vez não estou falando dos políticos. Falo de Carlos Arthur Nuzman.

Na semana passada, Nuzman convocou uma eleição as pressas, sem oposição, sem data marcada com antecedência, sem muita coisa que existe num regime que seja minimamente democrático. Ele convocou uma eleição para ser aclamado presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), entidade que comanda desde 1995, por mais quatro anos.

No subsolo de um hotel, como se fosse um gangster de quinta categoria jogando pôquer em Chicago, sem a presença da imprensa, Nuzman foi aclamado, aplaudido, homenageado por seus pares, que assim como ele têm como esporte favorito se eternizar no poder, e ficará no comando do COB pelos próximos quatro anos. Ora, quem fica 13, pode ficar 17, não acham?

Mas eu fico feliz que algumas pessoas não ficaram caladas e protestaram. Vejam só, Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e no poder da entidade desde 1989, criticou a eleição. Disse que ela não foi transparente. Tendo Ricardo Teixeira como baluarte da democracia, eu realmente me sinto mais tranqüilo. Já posso até dormir.

É impressionante. Se eu tivesse que lançar o troféu óleo de peroba do esporte brasileiro teria muita dificuldade em saber a quem eu daria o prêmio. Mas Nuzman e Teixeira certamente sairiam na frente.

A cara-de-pau destes senhores, verdadeiros déspotas do esporte nacional não têm fim. Eu poderia dizer que pelo menos Nuzman fez uma eleição. De araque, mas fez. E o Ricardo Teixeira que foi automaticamente reeleito até 2014 quando a Fifa escolheu que o Brasil seria a sede da Copa?

É inadmissível que o comando do esporte olímpico brasileiro esteja na mão de uma única pessoa há tanto tempo. E o mesmo vale para o futebol brasileiro. Se o presidente da República, cargo máximo do país, por melhor ou pior que seja não fica mais do que oito anos no posto, como pode um dirigente de uma confederação ficar 17 ou 25 anos no poder? Que país é esse? Que democracia é essa?

A título de comparação. Desde que Nuzman assumiu o COB, cinco pessoas passaram pelo Ministério do Esporte do país. De Pelé a Orlando Silva, que, aliás, se cala sobre o episódio da reeleição fantasma mesmo sendo o responsável por repassar mais de R$ 700 milhões ao esporte brasileiro. Para ser mais esclarecedor, foram todos os ministros do Esporte que o Brasil teve, pois a pasta foi criada em 1995 durante o governo Fernando Henrique Cardoso. Ou seja, Ricardo Teixeira, assumiu a CBF antes mesmo que existisse um ministério sobre o assunto.

Ah, esqueci. O Nuzman deu duas entrevistas esclarecedoras (e estarrecedoras) para a ESPN Brasil que mostram tudo o que ele pensa sobre democracia. Durante o programa “Brasil Olímpico”, ele foi claro, cristalino. Disse com todas as letras: “Eu sou contra limitação de mandato”.

Na semana passada, após a “reeleição”, afirmou que não vê nenhum vantagem em ter um adversário e disse que o vôlei brasileiro quando ele foi dirigente da CBV só evoluiu quando ele “praticamente não tinha oposição. Tanto é que o entreguei campeão olímpico”.

Pode ter entregado o vôlei campeão olímpico, mas o esporte brasileiro sob o seu comando só teve campanhas pífias em todas os Jogos que disputou. Foram quatro Olimpíadas de fracassos retumbantes. Quatro Olimpíadas em que o esporte brasileiro viveu de heróis que lutaram muito para realizarem seus sonhos. Pois não há, nunca houve uma política esportiva para o país.

É lamentável e revoltante que o esporte brasileiro ainda viva na ditadura. Tomado por uma piscina cheia de ratos como magistralmente cantou Cazuza. Quando os “Fidéis” da Barra da Tijuca vão largar o osso? Alternância de poder é regra básica da democracia. Não importa se a gestão é boa ou pífia.

Depois disso tudo, só me resta protestar. Que país é esse? Como dizem as platéias a cada vez que esta música da Legião Urbana é tocada por aqui: “É a porra do Brasil”.





Cazuza - "O tempo não pára"



sábado, 4 de outubro de 2008

Tabelinha de craques

Walter Salles é um craque que a cada dia parece jogar melhor. Tirando a bomba “Água Negra” (2005), que ele mesmo disse que não gostou, desde “Central do Brasil” (1998), muito elogiado e premiado, mas que eu não gostei muito, ele tem feito filmes cada vez melhores seja sozinho ou com Daniela Thomas, sua parceira habitual.

“Diários de Motocicleta” (2004), cinebiografia do jovem Che Guevara antes de ele se tornar um líder revolucionário, já era uma obra-prima. E “Linha de Passe”, seu mais novo trabalho construído ao lado de Daniela, segue o “absurdo” padrão de qualidade que ele impõe à sua filmografia.

Capitaneado pela atriz premiada em Cannes Sandra Coverloni (Cleuza), o filme conta a história de uma dona-de-casa grávida que trabalha como empregada doméstica e se desdobra para cuidar dos quatro filhos, o moto boy Denis (João Baldasserini), o frentista evangélico Dinho (José Geraldo Rodrigues), o aspirante a jogador de futebol Dario (Vinicius de Oliveira, uma das estrelas de “Central do Brasil” e hoje com 23 anos), e o jovem Reginaldo (Kaique Jesus Santos).

Quatro filhos de pais diferentes que vivem dramas paralelos. Denis tenta se equilibrar entre suas aventuras sexuais, o pouco dinheiro e um filho para sustentar. Dinho se apega à religião para se recuperar do passado de crimes que sempre o persegue. Dario busca vencer no futebol mesmo já tendo 18 anos, uma idade cruel para jovens promessas, mas descobre que é preciso mais do que talento e sorte no mundo corrupto da bola. E Reginaldo passa a vida entre a escola e passeios de ônibus à procura da identidade do pai, que ele sabe ser apenas um motorista.

Em meio a isso tudo, Cleuza tem que se equilibrar em ser a provedora da casa, enfrentar as frustrações de seus filhos e manter o emprego numa casa de classe média-alta, pois é ele que coloca a comida no prato.

Além da relação co-sanguínea, Cleuza é o elo de ligação entre estes irmãos que saem por São Paulo construindo e desconstruindo suas histórias, tentando vencer na dura realidade brasileira.

Se filmes como “21 Gramas” (2003) e “Babel” (2006), ambos de Alejandro Gonzalez Iñarritu, partiam de diferentes pontos para se cruzarem em alguns momentos na história numa narrativa fragmentada, Walter Salles inverte essa relação e faz da casa pobre na periferia de São Paulo, o ponto de partida para esta família ganhar de alguma forma o mundo com seus dramas pessoais nunca compartilhados entre si.

E destas histórias a mais interessante é a de Dario. Ao desnudar o mundo podre do futebol, Walter Salles (e provavelmente nem era essa a intenção dele) expõe o que todo mundo já sabe, mas um filme sempre reforça de maneira importante, como é o calvário de jovens que tentam o estrelato no mundo da bola.

Bom jogador, Dario sabe que não vencerá nessa vida se não molhar a mão de quem deve ser molhada. O pagamento de propinas é apenas uma das faces perversas das divisões de base do futebol, que envolve dirigentes corruptos, empresários interesseiros que querem apenas o lucro, e, como conseqüência, clubes falidos. Mais ou menos como tem mostrado a série de reportagens da ESPN intitulada "O Buraco Negro do Futebol"

Sempre arraigado ao último fio de esperança e sabendo que só o talento não basta, Dario, num ótimo trabalho de Vinicius de Oliveira, tem a história mais comovente na minha opinião. E seu desfecho ainda é deixado em aberto como uma grande obra cinematográfica. Coisa de feras como David Lynch em “Cidade dos Sonhos” (2001), “Veludo Azul” (1986) ou “Império dos Sonhos” (2006).

Mas ao contrário das loucas obras de Lynch, o trabalho de Walter Salles mostra um recorte da realidade e não uma história acabada. Adoro filmes com este tipo de construção.

Com seu título de metáfora futebolística, só posso dizer, portanto, que “Linha de Passe” é coisa de craque. De um craque chamado Walter Salles, que agora trabalha para finalizar seu mais novo trabalho, “On the Road”, filmagem do famoso e cultuado livro de Jack Kerouac com previsão de lançamento para o ano que vem. Alguém tem dúvida de que será outro grande filme?

sábado, 27 de setembro de 2008

A cegueira onde se deve ver

Fazer comparações entre livros e os filmes feitos com base em suas histórias é tão inevitável quanto cruel. Embora haja películas bastante elogiadas por sua fidelidade à obra na qual foram inspiradas, nunca é possível transpor toda uma história contida em 200, 300 ou 400 páginas em duas horas de filme. O que eu não esperava é que “Ensaio sobre a cegueira”, o filme, - o trabalho que eu mais aguardava neste ano – fosse tão decepcionante, apesar da total fidelidade ao que é mostrado, quando comparado a “Ensaio sobre a cegueira”, o livro, obra-prima do português José Saramago.

Digo isso sabendo que o próprio Saramago aprovou a obra de Fernando Meirelles. Compreendeu as necessidades de cortes na história e da transposição para uma outra realidade. Saramago viu o filme e considerou o trabalho de Meirelles genial.

Portanto, ter a ousadia de discordar do próprio autor e de praticamente 90% da crítica nacional e internacional pode até soar um tanto quanto petulante, mas tenho meus motivos e, com base na leitura do livro e ao assistir o filme, hei de expô-los agora. É claro que o debate é aberto e a discussão é livre a quem quiser participar.

Antes de qualquer coisa é necessário dizer que “Ensaio sobre a cegueira” não é um filme ruim. Longe disso. Não pode ser considerado um trabalho de baixo nível uma película que tem uma Julianne Moore (sempre maravilhosa atriz) vivendo com intensidade toda a dor da mulher do médico. Ou um Mark Ruffalo (o médico) provando que sua boa atuação como o inspetor David Toschi em “Zodíaco” (2007) não foi apenas um isolado trabalho competente. Ele vive um novo patamar.

Até mesmo Danny Glover, ator limitado mais conhecido pelo detetive Roger Mortaugh, parceiro de Martin Riggs (Mel Gibson) na série de filmes “Máquina Mortífera”, surpreende no papel do velho da venda preta.

Por outro lado, “Ensaio sobre a cegueira” é o pior trabalho de Meirelles desde que ele atingiu o patamar de diretor de ponta. Guardados os devidos estilos, seu novo trabalho é bastante inferior a “Cidade de Deus” (2002) e “O Jardineiro Fiel” (2005).

Se é necessário apontar culpados pela película ser decepcionante – e um deles é a própria expectativa que eu tinha do filme – meu pêndulo acusador vai para Meirelles e suas escolhas, que considerei um tanto quanto equivocadas, e o roteirista Don McKellar, que não conseguiu transpor satisfatoriamente a história de Saramago para a tela grande do cinema.

O grande problema de “Ensaio sobre a cegueira” está ironicamente pelo que não se vê. Se na história de Saramago, os personagens são tomados por uma cegueira branca que os fazem viver eternamente numa paisagem leitosa, num mar de leite, o trabalho de Meirelles inclui inquietantes planos escuros que escondem praticamente toda a náusea, a crueldade que o livro de Saramago descreve ricamente. Sim, eu sei que a questão da eletricidade é descrita pelo escritor e que Meirelles não está de todo errado em jogar essa escuridão na tela. Contudo, isso também vira um elemento de fuga para o que o livro tem de mais inquietante.

O incómodo gerado pela leitura jamais é sentido ao assistir ao filme. Temeroso e surpreso, Meirelles chegou a declarar que o filme era pesado demais para a abertura de um festival como Cannes, o que aconteceu neste ano. Eu diria que ele é bem soft diante da escrita nauseante de Saramago. O escritor sim implementou uma leitura por vezes difícil de engolir, com capítulos em que, por vezes, é necessário parar para respirar e tentar esquecer que algo tão opressor pode acontecer na sociedade que eu, você, qualquer um capaz de ler isto, faz parte.

Não sei se foi para se incluir na censura de 16 anos, mas o trabalho de Meirelles não tem o peso que o livro impõe. O que é estranho se pensarmos o quão cru – apesar da estética pop – foi o diretor ao fazer “Cidade de Deus”. Se a embalagem videoclípica aliviava até certo ponto momentos lancinantes deste trabalho, não dá para não dizer que ele não teve seu grau de ousadia e risco. No caso de “Ensaio sobre a cegueira”, talvez fosse preciso ser mais ousado e pegar uma classificação adulta. Seria o melhor caminho para a fidelidade da obra.

Meirelles se impõe pudores e censuras que não surgem na prosa de Saramago. Na sua mão, cenas como a do banho das três mulheres na varanda já no final da obra deixam de ser um momento que eu descreveria como de purificação, principalmente pelo que vem em seguida, e se tornam quase uma brincadeira entre amigas, com direito a uma leve insinuação lésbica. Mas talvez eu esteja sendo excessivamente maldoso.

Para as terríveis cenas de estupro, a escuridão acalentadora que escondem a torpe violência e o boquete da mulher do médico que praticamente inexiste. Da mesma forma, é escondido outro momento tenso do livro, com a mulher do médico matando a tesouradas o “rei da ala 3” do sanatório, vivido por Gael Garcia Bernal.

Não estou aqui defendendo que o filme fosse uma obra pornográfica e sanguinolenta. Porém, Saramago descreve com crua riqueza todas essas cenas que são inexplicavelmente escondidas. Este é um dos momentos de náusea que o livro provoca e que aumentaria exponencialmente no cinema. Optou-se, infelizmente, pela insinuação.

É um trágico desperdício também a cena da Igreja. Tão impactante na obra de Saramago o momento em que são descritas as imagens com os olhos vendados, ela virou uma mera passagem curiosa naquele mundo de cegos que então se vive.

Além de mais leve do que o livro, o filme também peca pelo roteiro que teve suas situações mal coladas na passagem da literatura para o cinema. Na sua primeira hora, o filme caminha bem ao contar a história de uma misteriosa epidemia de cegueira branca que assola a população, mas a partir dos 40 minutos finais (a película tem 2h1min), se começa a correr demais com a história, cortar situações importantes (exemplo: a vida não fica uma maravilha quando os cegos saem do sanatório) e o filme fica deveras capenga neste momento.

Talvez fosse o caso de Meirelles ter feito um trabalho de três horas. Acredito que, apesar das dificuldades que um filme tão longo possa ter para ficar no circuito, contaria melhor a história de Saramago sem que fosse preciso mudar a marcha.

Lamentável também é a imposição do capital japonês, um dos que bancam o filme junto com o brasileiro e o canadense, no trabalho, que fazem o ator Yusuke Iseya viver o primeiro cego. Tudo bem que Saramago não descreve a etnia e o jeito das pessoas no livro, mas como ele se passa obviamente em Portugal e não há qualquer menção a um estrangeiro, é natural que ele não seja do Oriente. Isso não podia acontecer logo num personagem importante, mas reconheço que são os ossos do ofício.

É com tristeza, portanto, que digo que “Ensaio sobre a cegueira” não passa de um ensaio com muita cegueira de Meirelles. Seu filme nunca provoca, não seduz, não incomoda o espectador. Apesar destas e de outras ressalvas, é sem dúvida bom trabalho, mas está longe de ser a obra genial que o diretor podia ter feito. Faltou-lhe a ousadia de outrora.

Por outro lado, talvez eu tenha sido “contaminado” pelo livro e esteja agora exigindo demais. Um problema que não aconteceu com “O Jardineiro Fiel”, por exemplo, pois eu nunca li o livro e acho o trabalho de Meirelles acima da média. Mas ainda assim, acredito que “Ensaio sobre a cegueira” poderia ter sido menos decepcionante e mais arrebatador. Uma pena.

domingo, 21 de setembro de 2008

Um dia em terreno inimigo

Eu poderia começar esta crítica dizendo que nunca se deve deixar uma mulher escolher um filme. Mas eu não quero perder leitoras, afinal meu público já é bastante pequeno. Por outro lado, o título já é uma pequena provocação. Não com as leitoras, evidentemente, mas talvez com a situação.

Pois bem, deixei minha guitarra e amplificador em casa e fui ao cinema assistir “O mistério do samba”, documentário de Carolina Jabor e Lula Buarque de Holanda sobre a Velha Guarda da Portela. Se eu disser que sai da sala em êxtase, cantando e batendo palmas como 90% da platéia, eu estaria mentindo. Não, não paguei esse mico de bater palma para ninguém. Até onde eu sei, telas de cinema ainda não são interativas. Tipo ter uma manifestação agora e de algum ponto no fundo da película a Marisa Monte agradecer por aquilo.

Além disso, não bato palmas para qualquer coisa. Sou chato e valorizo a qualidade artística. Se eu batesse palmas para tudo, o bater de palmas seria absolutamente banalizado.

Tudo bem, estou sendo muito garoto enxaqueca. Mas eu juro de pés juntos que gostei do filme. Embora Marisa funcione muito melhor como cantora do que como repórter, postura que ela por vezes adota no longa, achei um documentário interessante. Nostálgico, é verdade. Mas diante do caos atual, como não reverenciar o passado? Diante das marchas imperiais do Carnaval do Sambódromo, como não gostar daquela malandragem, da fina ironia, dos amores e da simplicidade bem construída das letras daqueles sambistas sexagenários, septuagenários que fizeram a história da Portela e, é claro, do samba carioca?

Acho que o maior mérito de “O mistério do samba” é o resgate das deliciosas histórias que rolaram lá por Osvaldo Cruz, Madureira, enfim, toda aquela área que é berço do samba de qualidade (eu posso não gostar de samba, mas reconheço o que é bom ou ruim). É uma maneira de manter eternamente viva toda essa riqueza que se perderia no tempo com a morte de seus personagens se não tivesse sido registrada de alguma forma.

Por isso, deve-se reverenciar Marisa, Carolina e Lula (o Buarque, evidentemente, e não o Luiz Inácio). Mais do que um trabalho cinematográfico, eles fizeram uma expedição arqueológica do samba carioca.

Encontraram ótimas histórias, excelentes pessoas, e entrecortaram com boas rodas de samba, conversa e cerveja. Claro, com Zeca Pagodinho no quadro é natural saber qual é o copo que está sempre cheio.

Enfim, “O mistério do samba” tem o valor de ser um documento histórico mais do que um filme. E tenho a impressão de que com o passar dos anos, será uma obra cada vez mais importante. Agora deixa eu pegar minha guitarra de volta, pois eu gosto mesmo é de “Satisfaction”.

domingo, 14 de setembro de 2008

Tarja segue arrebatando corações

Promessa é dívida. Antes tarde do que nunca, vamos a alguns comentários sobre o show da Tarja Turunen há duas semanas.

Descrevi aqui neste espaço no final do mês passado sobre o quão encantado fiquei quando vi Tarja cantando pela primeira vez. Na ocasião eu fora a um show do Nightwish no Canecão. Há duas semanas, retornei à mesma casa de shows em Botafogo para assistir ao espetáculo de sua primeira turnê em carreira solo: “My Winter Storm”, nome do (bom) disco recém-lançado da cantora.

Após 1h45m de show, posso dizer que Tarja continua me encantando pelos mesmos motivos que há quase quatro anos: sua voz incrível, seu domínio absoluto do palco, sua energia e, claro, sua beleza capitaneada por duas esmeraldas na face no lugar de onde deveriam estar seus olhos.

Tarja é uma deusa finlandesa no palco que magnetiza todos os olhares, recolhe para si todos os flashes das câmeras (como vocês vão notar nos vídeos que selecionei e estão abaixo). Ofusca mesmo uma banda extremamente competente e que conta com nomes conhecidos como o guitarrista brasileiro Kiko Loureiro e o baixista Doug Wimbish, do Living Colour.

Eles, ao lado do baterista Mike Terrana, da tecladista Maria Ilmoniemi e do violoncelista Max Lilja, seguram muito bem a cozinha para Tarja brilhar intensamente num set que, obviamente, privilegia as canções de seu novo álbum como “Boy and the ghost”, que abre o show, a bela “Sing for Me”, “Lost Northern Star” e “Our great divide”.

A apresentação é composta por vários momentos marcantes e Tarja se sente bastante à vontade num palco do Brasil, onde recebe um amor incondicional dos seus fãs. Ela retribui cantando músicas do Nightwish. Toca “Nemo”, talvez o grande sucesso comercial do grupo, e “Wishmaster”, cantada em coro pela galera.

Mas os fãs provam que são realmente seguidores fiéis de Tarja e mostram conhecimento de sua nova fase ao cantarem com a mesma intensidade uma música como a linda “I Walk Alone”, que foi o primeiro single do disco novo.

Outra música de muito sucesso nas paradas da casa é a ótima “Poison”, cover de uma canção de Alice Cooper que cai realmente no gosto de quem ouve na linda voz da finlandesa.

Dois bis depois e Tarja parecia já ter tocado o disco quase todo. Com direito a um momento à capela com Kiko Loureiro no violão e ela entoando “Calling Grace”. Satisfeita consigo mesma e vendo seus fãs extasiados, ela promete retornar mais rapidamente do que o cruel intervalo de quatro anos que representou o hiato entre a vinda com o Nightwish e sua carreira solo.

Esperamos que ela cumpra realmente essa promessa. É sempre muito bom ver Tarja cantando. É maravilhoso vê-la no palco. Pelo menos para os que gostam de metal melódico.

Três grandes momentos do show. Tarja cantando “Poison”, “I Walk Alone” e Wishmaster”.





segunda-feira, 8 de setembro de 2008

A deusa e suas escolhas


Angelina Jolie não é má atriz. Ela pode não ser uma Helen Mirren ou uma Meryl Streep, mas tem seu valor. No entanto, por vezes ela faz cada escolha que é uma verdadeira bomba. Ultimamente então, ela tem se revezado entre um bom filme e outro absolutamente dispensável.

Fez “Alexandre” em 2004, no vergonhoso papel de mãe de Colin Farrel, a versão bicha louca daquele que outrora ficou conhecido como “O Grande”. Se recuperou em seguida com o divertido pipoca “Sr. e Srs. Smith” (2005), filme de ação em que contracena com o marido e ganhador da Mega Sena exatamente por isso Brad Pitt. Em seguida, um excelente filme de espionagem “O Bom Pastor” (2006), mas com uma atuação abaixo da crítica emendada posteriormente com outro filme constrangedor “Beowulf” (2007). No mesmo ano, a recuperação com a elogiada atuação em “A might heart” e uma indicação ao Oscar que ela já venceu em 1999 por “Garota, Interrompida”.

Entre filmes “sim” e filmes “não”, “O Procurado” é um filme não. Claro que a culpa deste filme dirigido pelo russo Timur Bekmambetov ser ruim não é da atuação piloto automático de La Jolie, que não faz muito esforço a não ser a cara de mau com aqueles lábios carnudos bem fechados, o olhar para o infinito e a maquiagem escura nos olhos fazendo o resto do serviço para que ela fique bem, digamos, “assassina” de uma Fraternidade. Pensando bem, precisa mais do que isso num filme de ação?

A culpa desta bomba também não é de Morgan Freeman, excelente ator que aparentemente estava ali ganhando uns trocados, ou de James McAvoy, elogiado por sua atuação no indicado ao Oscar “Desejo e reparação” (2007), outro ótimo filme, mas que nesta película não convence como um loser que vira um assassino. Taí outro problema da fita. Dá para confiar que um loser virará um assassino? É quase tão difícil quanto acreditar em balas que mudam de direção. Por essa nem os traficantes cariocas esperavam.

Enfim, o filme é ruim pelo conjunto da obra que vai da direção tosca que tenta imitar John Woo com suas câmeras lentas, que são mais sonolentas do que licença poética, ao roteiro sem pé nem cabeça do trio Michael Brendt, Derek Hass e Chris Morgan que, entre outras pérolas inventa a história de um grupo de assassinos que recebe ordens supostamente do destino com pedidos de assassinato vindo de marcas no tecido (será que a camisa que estou vestindo diz alguma coisa?).

Ainda há espaço para uma reflexão rala sobre livre arbítrio, fazer seu próprio destino e brincar de Deus. Ela acontece mais ou menos entre um salto e outro em câmera lenta e balas e contra-balas se chocando. Tudo muito estético, tudo muito viajante, so boring.

Linda e milionária, penso que Angelina não precisava disso. Mas ao lembrar de “Sr. e Srs. Smith”, um filme de ação com muito tiroteio, mas divertido como já disso, acho que só posso concluir que ela gosta de um pouco de adrenalina de vez em quando. Um pouco dessas injeções deve lhe fazer bem entre um filme sério e outro.

“O Procurado” é sem dúvida uma bola fora de nossa deusa. Para não dizer que o filme é uma completa perda de tempo e dinheiro, posso dizer que a câmera tem um ângulo um pouco maior do que o mostrado na foto acima. Afinal, alguma coisa tinha que ser nota 10 neste filme.

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PS: Sim, eu sei que prometi falar sobre o show da Tarja hoje, mas não pude concluir o comentário que estava preparando. Prometo que o próximo post será sobre ela.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Escorpião verde e amarelo

Vamos combinar uma coisa. O Brasil é legal, o Brasil é maravilhoso, Brazil is beautiful, Brazil is hot, mas não tem qualquer peso no mercado fonográfico mundial. Vender discos aqui ou não, não faria qualquer diferença para uma banda mundialmente conhecida. Tudo bem que vender discos hoje é um detalhe, mas isso é papo para outro post e no final das contas vocês me entenderam.

Portanto, uma banda internacional que vem seis vezes ao país é porque realmente gosta de tocar por aqui. E dessa vez o Scorpions fez de tudo para que o show no HSBC Arena fosse uma homenagem inesquecível aos brasileiros. Até questões de como sairiam as músicas acústicas – que, aliás, nem foram tão acústicas assim, mas isso fica para mais para baixo – ficaram relegadas ao segundo plano. O show de sábado passado ficará conhecido como o que rendeu homenagens, e algumas críticas, ao nosso país.

Como esquecer o vocalista Klaus Meine cantando em muito bom português “Cidade Maravilhosa” (tudo bem, ele falava txidade maravilhôssa, mas se eu tenho dificuldades para falar “ich” ou qualquer palavra que tenha trema em alemão, por que ele não pode ter algum sotaque?) e lembrando o espetáculo da banda no Rock in Rio em 1985?

E o baterista James Kottak com gorrinho do Brasil e bandeira pendurada no gongo ao fundo? Sem contar a mensagem “Rio Rock$” em frente ao palco e os muitos convidados. Foram três backing vocals e três percussionistas nacionais para fazer um batuque maneiro – com exceção do samba que eles ensaiaram com o batera – e o guitarrista do Sepultura (ainda existe o Sepultura?), Andreas Kisser, para fazer a pauleira ficar ainda melhor.

Em suma, bom ou ruim é uma questão pessoal, mas o que não se pode dizer é que o show do Scorpions não foi simpático. Teve até uma puxada de orelha com imagens da Amazônia ardendo em chamas e protestos do Greenpeace durante a execução de “Humanity”. Ora, quem gosta e é amigo também deve fazer uma crítica pertinente.

O clima era tão cool que teve espaço até para dois “Happy Birthdays” puxados pelo baixista Pawel Maciwoda e cantados pela platéia em homenagem ao aniversariante Rudolf Schenker, que fez 60 anos.

Além de simpático o espetáculo pode ser definido também como divertido. Acho que pouquíssimas pessoas não devem ter saído com um sorriso no rosto. Até porque, apesar do clima grande família, o Scorpions fez e muito bem o seu trabalho e cantou os clássicos que a galera queria ouvir como “Wind of change” (maravilhosa), “Still Loving you” (espetacular, tocante, emocionante) e “Rock you like a hurricane” (uma pauleira que fechou magistralmente o show oficial, pois depois teve mais uma música de bônus, “A moment in a million years”).

Antes do show havia alguma resistência quanto ao fato do Scorpions tocar algumas canções no formato acústico como vem fazendo na turnê. Fãs mais xiitas não gostaram disso e alguns até deixaram de ir enquanto outros poderiam até pensar em ir, mas desistiram por causa do indecente preço do ingresso, nunca inferior a R$ 130. Talvez isso possa explicar o baixo quorum no HSBC Arena. Estava tão vazio que a casa resolveu até fechar o setor de arquibancada 3 levando alguns sortudos, portanto, (eu entre eles) para o setor 1, mais perto. Ainda assim, a pista estava na metade da sua capacidade.

Não sou muito bom de “olhômetro”, mas calculo que tenha tido umas quatro mil pessoas na casa. O suficiente para abarrotar um Citibank Hall, mas que deixa claros na Arena, que deve caber umas 10 mil pessoas.

Bom, se havia algum temor quanto ao formato acústico, pode-se dizer que o Scorpions não desapontou e, mais do que isso, agradou a gregos e troianos. Além do set list rico em clássicos, a banda abriu um show, que durou pouco mais de duas horas, com o puro rock and roll capitaneado pelas guitarras de Rudolf e Matthias Jabs. Neste primeiro momento, passaram pelo palco canções novas – “Hour I”, que abre o espetáculo – e conhecidas como “Bad boys running wild” e “The Zoo”. Com a banda já com a platéia na mão, Andreas Kisser entra em cena para um mega solo intraguitarras durante “Coast to coast”. Estratégia para que o palco fosse arrumado com os banquinhos, violões e instrumentos de percussão.

“Always somewhere” abriu o set acústico, ou melhor, semi-acústico, pois os caras estavam relativamente plugados, a bateria era a mesma, o baixo não mudou e os violões só faziam, obviamente, um som um pouco mais abafado e menos estridente. Enfim, não chegou a ser um João Gilberto para assustar os fãs, que foram completamente conquistados pelo novo, digamos, formato, em “Dust in the wind”, que realmente fica excelente.

Havia ainda outra diferença em relação ao que o Scorpions registrou em um DVD (“Momento f glory”). Foi exatamente a participação dos músicos brasileiros. Lembremos que o set acústico do Scorpions sempre usa músicos e instrumentos clássicos como violoncelos. No Brasil, foi dado um toque mais de percussão que causou grande diferença principalmente em “Wind of change”. Aquelas batucadas e as backing vocals ao fundo ficaram bem legais e a canção ganhou um formato único. Foi para guardar como um daqueles momentos inesquecíveis para quem gosta do Scorpions (e não é muito xiita). “Holiday” foi outra música inesquecível da noite.

Após o set acústico estrategicamente colocado no meio do show, o Scorpions voltou para a sua melhor leva de canções a fim de fechar a noite lá em cima na sua cotação com a galera brasileira. Além das já citadas “Still Loving You” e “Rock you like a hurricane”, cantadas em coro pela platéia, é nesta parte que eles tocam “Big City Nights” e “Blackout”. Vimos uma coleção de grandes canções nos 40 minutos finais.

Enfim, o show do Scorpions foi acima de tudo uma grande festa. E os que ganharam foram os fãs que encararam o frio, a chuva e a distância do HSBC Arena para ver uma ótima apresentação. Que o Scorpions continue vindo ao Brasil com freqüência e sempre sem medo de arriscar. É sempre bom ouvir novidades das boas velharias.

PS: No domingo falarei sobre o outro show do final de semana, da cantora Tarja Turunen no Canecão.

Abaixo, o Scorpions arrebentando no Rio de Janeiro. Na seqüência, “Still Loving You”, “Rock you like a hurricane”, “Wind of Change” e “Dust in the wind”.








sábado, 30 de agosto de 2008

Um tiro de canhão em Obama

Um dia depois do apoteótico fim da convenção democrata que formalizou a chapa Barack Obama-Joe Biden para a presidência dos Estados Unidos, o candidato republicano, John McCain, dá um golpe de mestre que pode representar um tiro de canhão na candidatura de Obama ao anunciar como sua vice a governadora do Alasca, Sarah Palin.

Apresentada como “exatamente o que a América precisa”, Sarah derrubou favoritos como Mitt Romney e Joe Lieberman e pode dinamitar daqui para frente não apenas Obama como também Hillary Clinton.

O que McCain quis dizer com a frase “exatamente o que a América precisa”? Isso significa que Sarah é conservadora, mãe de família – ela tem cinco filhos, sendo um com síndrome de down e outro militar que parte para o Iraque exatamente no dia 11 de setembro -, contrária ao aborto, apaixonada por pesca e caça e integrante da polêmica Associação Nacional do Rifle. Ela é a perfeita republicana.

Como se não bastasse tudo isso, Sarah ainda é bonita (ela é ex-modelo e ficou em segundo lugar no concurso de Miss Alasca em 1984), jovem (tem 44 anos, três a menos do que Obama) e uma governadora bem avaliada.

Sarah é uma típica americana e fez questão de parecer assim quando surgiu ao lado de McCain com um visual bem anos 50, não por acaso uma "era romântica" para os Estados Unidos.

Se Joe Biden, com seus 65 anos e o status de presidir a Comissão de Relações Exteriores do Senado, foi o antídoto arranjado por Obama das acusações de que era muito jovem e inexperiente em assuntos internacionais, o contragolpe de McCain, 72 anos e chamado de velho demais, foi perfeito ao anunciar exatamente uma mulher, jovem, conservadora e ótima mãe de família. Sarah é perfeita para conquistar a classe média, os trabalhadores e o voto das mulheres. Algo, aliás, que ela já demonstrou querer logo na estréia no palanque de McCain ao avisar que “ainda não acabou a missão das mulheres”.

Obama e o Partido Democrata ganharam um problema para a reta final da campanha americana e uma derrota neste pleito pode representar para eles no mínimo mais 12 anos longe da Casa Branca. Isso se McCain não quiser um segundo mandato. Do contrário, ele terá um trunfo bem ao seu lado. Sarah roubaria facilmente o sonho de Hillary de ser a primeira mulher presidente dos Estados Unidos.

Para anular este pior cenário, Obama terá que rebolar muito, como se diz aqui no Brasil. É chegada a hora do discurso da mudança colar realmente e de posições mais pragmáticas que conquistem os trabalhadores, o eleitorado latino e as mulheres. Para isso, a ajuda de Hillary será fundamental. Novamente, estúpido, é a economia que pode decidir. Do contrário, não terá adiantado nada ter arrecadado mais dinheiro, feito discursos históricos e lembrar Martin Luther King dizendo que “o sonho americano continua”. Para que ele finalmente vire realidade, é preciso agir.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Dois bons shows nesta semana


Não me lembro da última vez que tivemos um final de semana tão interessante e com dois bons shows como teremos nesta semana. No sábado, os veteraníssimos Scorpions voltam ao Brasil pela, bem, não vou me arriscar a dizer quantas vezes eles tocaram por aqui. Digamos que o Scorpions vem para mais um show em que estão garantidos clássicos como “Rock you like a hurricane”, “Wind of Change”, “No one like you”, “Dust in the wind” e “Still Loving You”.

Serão muitas emoções na HSBC Arena com a banda alemã formada na segunda metade dos anos 60 que atualmente conta no seu line up com o vocalista Klaus Meine, os guitarristas Matthias Jabs e Rudolf Schenker, o baixista Pawel Maciwoda e o baterista James Kottak.

Em turnê com o seu 21º disco, “Humanity: Hour I”, lançado no ano passado, o Scorpions promete um set acústico. Sim, meus amigos, banquinho e violão para as feras alemãs do heavy metal.

Será interessante acompanhar algumas músicas neste novo formato. Pelo que vi dando uma vasculhada no "Youtube", elas ficaram diferentes. Palatáveis, até agradáveis, mas definitivamente diferentes. Como ninguém é de ferro, porém, principalmente o conservador fã do metal, eles também prometem um set list pesado como nos bons tempos.

No domingo, o show que tenho mais curiosidade de assistir. Quase quatro anos depois da sua última apresentação com o Nightwish no mesmo Canecão que a acolherá, a finlandesa Tarja Turunen vem ao Rio para sua primeira turnê como cantora solo.
Tarja deixou o Nightwish em 2005 – a banda, inclusive, já tem vocalista nova, Anette Olzon, e também promete visitar o país em dezembro, mas não foi confirmada ainda uma data carioca – pelas famosas “divergências musicais” e agora dá a largada nesta nova fase da carreira após lançar seu primeiro e bom disco, “My winter storm”.

Além de músicas dos seis álbuns de estúdio do Nightwish, esta apresentação será bastante focada no repertório novo, que tem pelo menos três ótimas canções “Poison”, “I walk alone” e “Die Alive”.

Na primeira vez que eu vi Tarja cantando, durante a turnê do disco “Once” (2004) do Nightwish, fiquei completamente apaixonado por ela. Ela canta demais – além de ser linda nesta mesma proporção - e entra no palco completamente possuída pelos deuses do metal (melódico, evidentemente). E pelo que andei vendo na internet, a cantora de 31 anos continua em grande forma.

Vamos ver como os dois se saem no fim de semana. Como aperitivo, quatro vídeos. O Scorpions cantando “Dust in the wind” e “Still Loving you” em versão acústica em Portugal, e Tarja detonando em duas músicas do novo disco “I walk alone” e “Poison”, em show em Zurique, na Suíça.