quinta-feira, 14 de novembro de 2019

A fábula fofinha e rasa de Woody Allen

Selena e Chalamet no meio da chuva
Ser um diretor prolífico é bom para os fãs, mas também pode causar um cansaço de quem olha, ou fazer o próprio autor cair em fórmulas repetitivas. Nos últimos 37 anos, só teve um em que Woody Allen não lançou um filme. Foi justamente o ano passado. Mas também pode-se dizer que desde 2011, quando lançou “Meia-noite em Paris”, que o diretor americano não traz ao cinema algo verdadeiramente brilhante. “Blue Jasmine” (2013) e “Roda Gigante” (2017) têm seus bons momentos, é claro, mas muito mais calcados na interpretação de suas atrizes principais, Cate Blanchett e Kate Winslett, do que propriamente em suas histórias. 

“Um dia de chuva em Nova York” (“A rainy day in New York”, no original) é mais um filme médio do diretor. Não é ruim como “Magia ao luar” (2014), mas está longe de ser marcante na filmografia de Allen. É mais um conforto para seus fãs passarem duas horas agradáveis e sem grandes conflitos numa sala de cinema do que propriamente um filme para entrar em qualquer lista de best of do diretor. 

“Um dia de chuva em Nova York” é uma fábula onde Allen discorre sobre duas visões de mundo. Uma pessimista e outra otimista. Para expor suas ideias, seus personagens usam a linguagem do cinema. Chan (Selena Gomez) quer ver o mundo como um conto de fadas em que tudo dá certo e o casal romântico se beija no fim. Gatsby (Timothée Chalamant, em uma interpretação que é um dos pontos altos do filme), já vê o mundo de uma forma mais cinica e niilista. 

Tudo é fruto de como eles se encaixam no mundo. Chan sabe que não é exatamente a garota perfeita que encanta todos, mas tem noção do seu valor e sabe se encaixar no mundo. Gatsby, por outro lado, teve tudo na vida, mas parece não se encaixar naquele mundo. Ao mesmo tempo em que é um jovem rebelde sem causa cheio dos sintomas do chamado “white people problems”. 

E este é um dos problemas do filme. É difícil se encaixar na fábula bourgeois de Allen onde ninguém realmente sabe o que é viver uma real dificuldade. Além de ser rico, Gatsby ganha dinheiro facilmente num estalar de dedos porque é um ás no poker e tem uma sorte que o acompanha o tempo todo para justificar os excêntricos gastos que faz durante todo o filme. Além, é claro, de uma família rica por trás. Tudo lhe vem fácil. Fácil até demais. A ponto de ele de fato não enfrentar um desafio realmente importante que não seja um auto-conhecimento que, ainda assim, é muito raso para os padrões e reflexões que Allen costumava nos dar.

Não é que os ricos não possam ter voz no cinema. Longe disso. E estamos falando de Woody Allen e não de um Ken Loach, cineasta mais afeito a filmar os dramas da classe trabalhadora. Seu cinema sempre refletiu essa burguesia com um certo cinismo e um texto criativo. Porém, falta algo que justifique esse filme para além de uma mera fábula que procura dar beleza aos dias de chuva, tão odiados por todos.

E é este ponto do texto que faz falta em “Um dia de chuva em Nova York”. Salvo raros momentos, seu roteiro não tem as boas tiradas que o diretor mostrou em filmes passados e falta a sua história um pouco mais de conflito que vá além de pessoas flanando por Nova York discutindo de forma desinteressante sobre a vida e cujo único contratempo é uma chuva torrencial. 

No meio disso, está o outro vértice de um triângulo amoroso. Ashleigh (Elle Fanning) é uma jovem jornalista do interior deslumbrada pela oportunidade de entrevistar um dos seus diretores de cinema favoritos, Rolland Pollard (Liev Schreiber). Através dele, Ashleigh se imiscui no jet set cinematográfico de Nova York a ponto de se transformar numa caricatura de si mesma enquanto Allen a usa para tecer seus pensamentos sobre o trabalho da imprensa. 

“Um dia de chuva em Nova York” é cercado de homenagens. A começar pelo nome de um dos seus personagens principais. Chalamet interpreta um jovem chamado Gatsby Welles. O primeiro nome é um conhecido personagem criado pelo escritor F. Scott Fitzgerald no romance “O grande Gatsby” (1925). Tal como o Gatsby de Allen, o de Fitzgerald também era um bon vivant que circulava entre a high society e tinha um gosto pelo submundo a ponto de quebrar regras. Fitzgerald é um dos grandes nomes da literatura norte-americana.

Já o sobrenome é uma homenagem a Orson Welles, diretor de clássicos como “Cidadão Kane” (1941), filme que também reflete sobre o jornalismo. Welles é um dos mais conhecidos diretores de cinema e não é à toa que o personagem de Chalamet é um apaixonado por filmes antigos. 

Chalamet, aliás, interpreta também um alter-ego de Allen. As ideias pessimistas dele estão ali, o jeito de andar pela cidade e de se vestir também. Ele é uma cópia de personagens vividos pelo diretor em filmes como “Noivo Neurótica, Noiva Nervosa” (1977). 

Donde se vê, portanto, que “Um dia de chuva em Nova York” tinha muito potencial. Mas os temas abordados (jornalismo, visões de mundo, lições da vida) acabam ficando apenas numa camada superficial a partir de um roteiro pouco inspirado. 

É um filme agradável e bonito como costumam ser os filmes de Allen. E só o diretor para encontrar beleza na chuva. Porém, “Um dia de chuva em Nova York” ficou devendo um mergulho mais profundo nas questões que aborda. Acabou prevalecendo a doçura de uma história de amor tradicional. 


Cotação da corneta: nota 6,5. 

domingo, 13 de outubro de 2019

Phillips vê o Coringa como uma vítima, quando na verdade ele é o caos

Phoenix brilhante no papel do Coringa
Uma das frases mais reproduzidas do filósofo Jean-Jacques Rousseau é a que diz que o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe. A sociedade transforma o homem num individuo ruim porque, com o desenvolvimento da civilização, os homens teriam se tornado gananciosos, mesquinhos, avarentos e invejosos, estabelecendo uma desigualdade entre eles e encerrando para sempre a naturalidade humana e, consequentemente, a sua bondade. A ideia presente no “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens”, de 1755, parece ser a base teórica na qual o diretor Todd Phillips se inspirou para levar às telas a sua versão tão particular do Coringa, arqui-inimigo do Batman e que agora ganha um filme solo que procura explorar uma origem para um dos maiores vilões da história dos quadrinhos.

Parar criar a sua versão do vilão, Todd renegou a história conhecida do personagem, ainda que o filme tenha até mais conexões com o universo do Batman e da DC do que se esperava. O que interessa ao diretor, que também escreveu o filme junto com Scott Silver é investigar uma genealogia do mal por trás da mente psicótica de Arthur Fleck, o homem que se transformaria num dos mais perversos, sádicos e cruéis criminosos dos quadrinhos. Essa é a base de “Coringa” (“Joker”, no original).

Há um mérito neste estudo de personagem feito pelo diretor, mas ele também esconde um problema envolvendo o personagem que, queira ou não, tem uma mitologia de oito décadas e alguns filmes construída desde a sua primeira aparição em uma história do Batman em 25 de abril de 1940. Incomoda a tentativa de justificar a maldade do Coringa. O maior problema, aliás, está nessa eterna busca nas duas horas de filme de um “por que?”. Essa tentativa de explorar uma tese sob a lógica de Rousseau de que todo homem nasce bom, mas o meio o deteriora. Ou, parafraseando um trecho de “Bacurau”, mais recente filme de Kléber Mendonça Flho, todo mundo já teve uma mãe.

Funcionaria melhor se fosse um estudo sobre um psicopata fictício qualquer. Mas ao colocar o selo do Coringa no título, há todo um passado que o mostra como alguém que é a essência da maldade e o mensageiro do caos. Que com sua risada sádica pratica o mal simplesmente porque é o que lhe dá prazer. O Coringa não tem explicação. Ele é o mal e o terrorismo em estado bruto. Ou se aproxima mais da máxima do inglês Thomas Hobbes em “O Leviatã”, de 1651, de que o homem é essencialmente mau. 

Contudo, entre Rousseau e Hobbes, o Coringa não ocupa nenhum destes espaços. Ele é o que é com os buracos de ser uma criação. Afinal, ele não é humano e sim um personagem de quadrinhos. E também foi construído sem ter o sentido de humanidade. Até pela loucura causada pelo que se entende ser a sua origem mais conhecida, a queda em um tanque de produtos químicos que o desfigurou e o tornou insano.

Ao longo das décadas após a sua criação, o Coringa foi incorporando ainda mais esse sentimento de falta de humanidade, horror, terrorismo e mensageiro do caos no seu estado mais bruto. Ele é um psicopata que tem uma mente naturalmente doentia e que tem prazer em fazer o mal. Daí a sua risada sádica e apavorante, que tão bem foi construída pelo ator Joaquin Phoenix. Tanto que nos quadrinhos é quem comete alguns dos crimes mais terríveis no universo do Batman, como a morte de Jason Todd, o segundo Robin, e a paraplegia de Barbara Gordon.

Phillips tenta pintar o Coringa como fruto de uma sociedade doentia. Na vida particular, ele tem uma mãe doente que já fora internada no Asilo Arkham, o mesmo asilo onde o Coringa é um morador constante. Que trabalhara para Thomas Wayne, pai do jovem Bruce. Ele próprio já fora internado no Arkham por motivos que o filme não revela. Arthur frequenta uma psicóloga, toma sete remédios diferentes, tem distúrbios neurológicos e ainda apanha da vida em uma Gotham City que é puro caos e desordem. Nesse ponto, aliás, o filme faz uma ponte bem interessante com a série “Gotham” (2014-), que procura contar a história da cidade justamente neste momento em que Bruce é uma criança, não há Batman e Jim Gordon ainda é um policial. 

Estamos, portanto, numa época em que a cidade não tinha o Batman, era infestada de ratos e a criminalidade era galopante e a luz do dia. Arthur aqui é pintado como uma vítima desse caos. Sofre bullying dos colegas, apanha na rua, é humilhado constantemente, não é amado e é frequentemente rejeitado por todos. Phillips tenta dizer que este homem vai explodir a qualquer momento. E nós sabemos disso, pois sabemos quem ele é e no que irá se tornar. E deixa implícito que se a sociedade não cuida de homens como este, eles irão explodir. Toda essa tentativa de justificá-lo é uma visão um pouco equivocada do Coringa.

Acontece que o personagem em sua essência não é vítima. É e sempre foi um vetor do caos. É disseminador da desordem. É o próprio condutor do terror. É no terço final do filme, quando Phoenix já está devidamente transformado neste personagem, que o Coringa é brilhante. 

Num momento em que o mundo vê a ascensão perigosa da extrema-direita em diferentes países, o Coringa virou a personificação do fascismo. Ele é o símbolo de uma Gotham cansada de desmandos e da mentira dos políticos, da corrupção dos policiais, da violência. E surge como o símbolo de mudança pela força desejada por um povo que está cegamente em busca de uma solução rápida para os seus problemas. 

Está não é a primeira vez que o personagem é usado para refletir sobre um estado doentio do mundo. O Coringa de Heath Ledger era um terrorista e foi construído na esteira de uma série de atentados que aconteceram anos antes do filme “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (2008). Do 11 de setembro de 2001, quando foram derrubadas as torres gêmeas do World Trade Center, passando por atentados em Madri (2004) e Londres (2005).  

Mas ali, e aqui temos outro problema deste filme, o Coringa era o antagonista. Aqui, não há Batman. Ou qualquer outro contraponto. Bruce Wayne é apenas uma criança e sequer há o comissário Gordon para ser o herói de um filme dominado e domado por um vilão. Há um certo buraco neste ponto que vemos também no filme do “Venom” (2018). A diferença, porém, está na execução. No “Venom” há uma ridícula tentativa de transformá-lo num herói. Em “Coringa”, pelo menos, o personagem está longe de ser um herói. Porém, não há quem o combata, quem apareça com um discurso de que isto que está acontecendo não é correto e expondo os motivos. De fato, o “Coringa” é um voo solo do pensamento anárquico e explosivo de alguém que se sente uma vítima do sistema. E não há quem o defronte.

Com isso, “Coringa” se segura em dois pontos. O primeiro está no fato de ser brilhantemente dirigido. Há uma boa dose de cenas belíssimas, assim como a caracterização dessa Gotham City mergulhada no caos também merece ser elogiada.

O segundo e mais importante ponto é a atuação magnética de seu ator principal. Phoenix é o filme. O seu trabalho para construir o personagem envolveu a perda de 25 kg, o desenvolvimento de feições que evocam uma tristeza e uma maldade assustadoras e de uma risada perturbadora. Ele caminha como uma leveza assustadora no filme enquanto vai se transformando de Arthur em Coringa. Ao mesmo tempo que exibe uma brutalidade crua quando precisa. Suas cenas de dança, seu sorriso desalinhado... tudo evoca o psicopata que o Coringa é. Ele só perde a força justamente quando tenta se justificar. E o discurso no show de Murray (Robert de Niro) é tão ruim que não faz sentido depois de tudo o que ele fez com a mãe, com o ex-colega de trabalho e dias antes no metrô. 

Isso porque o diretor é obsessivo por esse “por que?”. Por que Arthur Fleck transformou-se no Coringa? Essa é a teoria dele. Quando, insisto, o Coringa é o que é porque ele é pura maldade e caos sem justificativas.

A preparação de Phoenix para fazer o personagem não envolveu qualquer mergulho no trabalho original ou mesmo nos filmes em que o personagem foi interpretado por Heath Ledger ou Jack Nicholson, que o interpretou em “Batman” (1989).

- A maneira como ele se move. Há momentos em que dança tão levemente que parece surgir da tristeza do mundo em que vive. É por isso que fui inspirado por Ray Bolger, o espantalho de “O Mágico de Oz” (1939). Adoro o fato de seu personagem brilhar através da dança, música, notas e solfejos. Meu Coringa tem alguns movimentos mecânicos, uma maneira de gesticular e mover a cabeça que denota uma arrogância silenciosa. Muitas vezes combinei dança moderna e música disco: a beleza do Coringa é que é realmente imprevisível. Eu não fui inspirado por nenhum outro Coringa. Mas lembro-me muito bem de Jack Nicholson no Batman de Tim Burton. E o excelente Heath Ledger. Mas eu preferi me preparar sem me referir a nenhum trabalho anterior, nem mesmo quadrinhos ou séries de TV. Eu queria criar o meu Coringa, que foi uma invenção da minha imaginação. Ou da minha loucura. Não é um filme sobre os super-heróis habituais, bandidos e humanos com poderes especiais. Para mim, gostam dos personagens inspirados nos quadrinhos porque têm problemas reais, o mesmo que nós. O Coringa é apenas isso. Um de nós. Ele não tem pai, ele não tem amigos, ele está ansioso e deprimido. O Coringa sofreu trauma e também foi abusado quando criança... Pobre homem... Ele tem todos os problemas deste mundo. Não foi agradável nem fácil entrar na cabeça dele, mas estou orgulhoso de conhecê-lo – disse Phoenix em entrevista à imprensa, ao falar sobre o seu papel.

Percebe-se, portanto, a tentativa no mínimo complicada de humanizar o personagem. Ainda que seja fantástico, diria até soberbo, o trabalho de Phoenix, não apenas pela forma como ele entrou fisicamente, mas também na psicologia do personagem.

Esquecendo os problemas/defeitos/contradições, “Coringa” chega até a ser um bom filme. Falha sim como ensaio sobre a genealogia do mal, mas compensa no trabalho de Phoenix. Ele é a razão da existência do filme. E tem seus melhores momentos quando sai da tentativa de justificar e emula o legado de Ledger. Ali é quando eu fiquei mais interessado em ver um embate com o futuro Batman de Robert Pattinson. 

Phoenix nos entregou uma versão muito boa do Coringa. O que lhe falta, porém, é o freio, o elemento que antagonize o seu discurso. Falta-lhe o Batman, pois o Coringa nunca existiu sem o seu adversário. E vice-versa. E é neste ponto que a construção de Ledger leva vantagem. O Coringa de Ledger tem mais força e um propósito maior, tem um rival e não é um pobre coitado que se desviou porque a vida não lhe sorriu. É claro que ele se passa em outro momento histórico. Mas sua atuação é tão marcante que há pelo menos duas referências ao seu personagem no filme de Phillips. 

As questões que ficam agora é: que papel terá este Coringa no universo cinematográfico da DC? O veremos já no novo Batman previsto para 2021? Ele terá um papel maior como vilão dos heróis da Liga da Justiça? Ou tudo se resumirá a este filme. Seria triste, porém, se esta última opção fosse a escolhida. O Coringa de Phoenix tem espaço para brilhar até melhor nas telas quando encontrar um adversário para ele.  


Cotação da Corneta: nota 8. 

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Rock in Rio 2019 - sétimo dia

O zumbi do Muse
Acabou! Infelizmente o Rock in Rio acabou. Mas também é muito bom saber que agora eu só volto para a Barra da Tijuca em 2021.
Mas a edição 2019 da Corneta musical não vai embora sem os comentários finais sobre os shows da última noite de festival.
Paralamas do Sucesso - Se tem uma banda brasileira que fez um showzão foi o Paralamas. Despejarem uma usina de hits e não deixaram ninguém respirar em uma hora de apresentação. Um dos melhores shows brasileiros.

Lulu Santos & Silva - Outro artista que é uma usina de hits. Queria muito falar sobre esse show, porém, o som do Palco Sunset estava tão baixo que foi impossível ouvir decentemente. Por isso, vou me abster.
Nickelback - No dia em que eu criar o festival Worst Bands of The World, o famoso WBW, o Nickelback será uma das estrelas do Palco Pântano, que ainda terá Creed, The Calling e Coldplay. É muito triste ver um show do Nickelback. Não sei como o Canadá dorme tranquilo ao saber que deu ao mundo Nickelback e Celine Dion. O Chad até que tentou convencer a galera usando uma camisa dos Ramones e tocando um cover do Metallica, mas é simplesmente impossível engolir o Nickelback. Espero nunca mais passar por essa experiência.
King Crimson - Isso não foi um show. Foi um masterclass! O King Crimson brilhou e ainda me entra no palco com três fucking baterias. Quem é que toca com três baterias? Só eles. E o melhor é que deu para ver bem de perto porque os millenials do Imagine Dragons não ligaram para o show. Não sabem o que perderam.
Imagine Dragons - Banda favorita de Daenerys Targaryen, o Imagine Dragons foi simpático, fofo, seu vocalista disse que gosta de guaraná, mas.... que banda INSUPORTÁVEL. Eu só pensava nas árvores que deram a vida para ter três chuvas de papel picado neste show. Mas seus fãs curtiram. E no fundo é isso que importa.
Muse - O show até foi legal, mas foi mais frio que um frigorífico. Como só tinha fã do Imagine Dragons na Cidade do Rock e o Muse me entregou um show conceitual, hermético e baseado num disco ruim, a recepção foi congelante. Chegava a dar pena do Matt Bellamy quando ele pedia para o povo que sobrou por lá cantar os hits e vinham aqueles sussurros localizados. E pensar que a banda não economizou na luz e levou até um boneco zumbi à moda Iron Maiden para fechar o Rock in Rio em grande estilo. Quero ver quando vier a conta de luz.
E assim terminou mais um Rock in Rio. Até 2021! #CornetanoRockinRio

sábado, 5 de outubro de 2019

Rock in Rio 2019 - quinto dia

O Iron fez uma apresentação impecável
Scream for me Rock in Rio! Ontem foi o dia de celebrar as camisas pretas, as vozes finas e o maior de todos os Bruces. E um dia de despedidas. Obrigado por tudo, Slayer!
Ainda bem que o Dia do Metal voltou. E esperamos que não deixe nunca de fazer parte deste festival. Afinal, heavy metal é vida.
Dito isso vamos ao que interessa. Tudo o que vimos neste dia em que o povo passa calor, mas não deixa de usar a única cor possível: o preto.
Sepultura - Quando o Sepultura começou a tocar, o sol ainda estava se pondo. Logo, ainda não era a hora do capeta. A gente sabe que hoje em dia a banda é mais do Derrick Greene do que foi do Max Cavalera. Pelo menos pelo número de discos lançados. Mas sejamos francos, a galera só solta o grito da garganta com músicas como “Territory”, “Refuse/Resist” e “Roots Bloody Roots”. Afinal, quem foi rei no Sepultura nunca perde a majestade.
Anthrax - Eu tenho dificuldades em respeitar bandas que tiveram mais do que três vocalistas. O Anthrax teve seis. Sabemos que o Anthrax faz parte do big four, mas neste quarteto fantástico do thrash metal eles estão mais para Coisa do que para Senhor Fantástico, Mulher Invisível ou Tocha Humana.
Helloween - Quando uma banda atinge algumas décadas de carreira, a tendência é que comecem a surgir mais solos de guitarra e bateria para poupar a voz do seu vocalista. O Helloween, porém, fez diferente. Resolveu trazer seus dois cantores anteriores de volta e agora toca com três vocalistas e três guitarristas, visto que Kai Hansen também toca guitarra. Com sete membros, o Helloween virou o Titãs do power metal. Bom, pelo menos no tempo em que o Titãs era uma banda enorme. E deu certo? Bom, qualquer medida para não termos solos de bateria é válida. E três vozes finas fazem mais barulho do que uma.
Slayer - Acabou, amigos. Quem viu, viu. Quem não viu, agora só terá mais 22 oportunidades (duas no Chile e 20 nos Estados Unidos) antes do adeus final do Slayer. A banda resolveu se aposentar depois de três décadas e meia de bons serviços prestados ao thrash metal. O show foi ótimo, apesar de o Tom Araya ser esse trumpminion que conhecemos. Eu só não entendi o que o guitarrista Gary Holt tem contra as Kardashians para vestir uma camisa defendendo a morte delas. Será que é inveja? Ele queria ter um reality show só para ele? Vamos fazer aqui uma enquete sobre quem tem mais dor de cotovelo? Holt pelo sucesso das Kardashians ou Martin Scorsese pelo sucesso dos filmes da Marvel?
Iron Maiden - Bruce Dickinson tem 61 anos e já venceu um câncer na língua. E continua sendo um MONSTRO no palco. O show do Iron Maiden foi sem sombra de dúvidas um dos melhores da história do festival. Comparável, inclusive, aquele épico de 2001. Se a gente pensar que 18 anos separam as duas apresentações... O que esses caras fazem para manter o alto nível? Que suquinho de frutas que eles tomam? Não é só laranja com acerola, certamente. Só sei que o legado da besta está garantido e o Iron pode voltar quando quiser, tocar na hora que quiser e pedir a quantidade de toalhas brancas que quiser que a gente aceita tudo.
Scorpions - Quando acabou o show do Iron ficou aquela sensação de que tinha dado ruim para o Scorpions tocar depois. Tudo bem que fora um pedido da banda inglesa, mas como os alemães iam motivar a galera depois daquela apoteose catártica? A gente só esqueceu que o Scorpions não está nesta vida há 50 anos de graça. Tem que respeitar esta banda, que, inclusive, veio ao Rock in Rio de 1985, quando o mundo todo achava que o Brasil era só mato e areia. Klaus Meine, Rudolf Schenker e cia chegaram no palco e mandaram um “respeita a minha história” em formato de “Send me an angel”, “Wind of change”, “We built this house”, “Big City Nights”, “Still loving you”, “Rock you like a hurricane” e outras. Meine teve a galera tão na mão que fez até metaleiro cantar “Cidade Maravilhosa”.
E assim nos despedimos de mais um dia. Está acabando. #CornetanoRockinRio .

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Rock in Rio 2019 - quarto dia

Quarto dia de Rock in Rio. Eu queria dizer que foi um grande dia, mas esta expressão caiu em desuso por ser usada por aquele que não deve ser nomeado. Contudo foi um dia de bons shows em que, 18 anos depois, eu fiz as pazes com o Red Hot Chili Peppers.
Mas vamos aos comentários sobre tudo o que rolou na City of Rock.
Capital Inicial - Repararam como Dinho canta sempre sorrindo e mostrando todos os dentes? Então, deixa ele. Ele acabou de tirar o aparelho. A gente sabe que o Capital Inicial só toca no mesmo dia que o Red Hot Chili Peppers e vice-versa. É por isso que a gente já viu o Capital pela enésima vez no Rock in Rio. Só acho que “Primeiros erros” funcionaria melhor na semana passada, quando só chovia. De resto, eu queria entender duas questões: De onde se tirou que o som dos pneus de carro cantando é tchuruptchuru tchuru? E o que vocês fazem quando ninguém vê vocês fazendo?
Emicida & Ibeyi - Que show PODEROSO, amigos. Um dos melhores do Palco Sunset nesta edição do festival. A combinação dos dois artistas funcionou muito bem. E ainda foi uma apresentação cheia de manifestações políticas importantes. Foi musicalmente bom e com conteúdo.
Nile Rodgers e Chic - Quem também viu a segunda temporada de “Big Little Lies” sabe o quanto eu invejei não ter participado da festa disco de Renata Klein. Nile Rodgers me deu isso de presente. Me senti embarcando nos embalos de sábado à noite com direito ao gramado sintético à moda Athlético-PR do Rock in Rio se transformando em pista de dança. Foi outro grande show desta night. E a julgar pela quantidade de John Travolta que eu vi surgir no gramado, foi um dos que o público mais curtiu.
Panic! At the Disco - Minha primeiro impressão diante de uma banda que se chama pânico na discoteca foi a rejeição. Afinal, não podemos confiar em quem usa microfone dourado. Mas Brendon Urie conseguiu dobrar meu preconceito com um show bastante bom. E nem precisava ter cantado “Bohemian Rhapsody” para eu ter achado agradável.
Red Hot Chili Peppers - Desde o patético show de 2001 eu tinha implicância com o Chili Peppers. Para piorar, desde o disco “Californication” (1999), a banda ganhou um séquito de fãs playboys malas demais. Mas 18 anos depois, que diferença da banda no palco. Eu fiz as pazes com os Chili Peppers depois do show de ontem. Foi do jeito que queríamos. Estou até pensando em cultivar um bigodinho à moda Anthony Kiedis. Ok, acho melhor não. Só falta mesmo os playboys pararem de frequentar os concertos.
É isso. E lá vamos nós para o dia do metal. #CornetanoRockinRio

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Rock in Rio 2019 - terceiro dia

A jam session do Dave Matthews Band
Eu queria dedicar esta Corneta a Jon Bon Jovi, homem que tantos hits deu e tantos corações embalou nas últimas quatro décadas, mas cuja voz não resistiu e faleceu em algum ponto nos últimos anos. Rest in peace, voz de Jon. Você sempre será lembrada a cada aniversário dos primeiros álbuns do Bon Jovi.
Dito isto, vamos às impressões do terceiro dia do Rock in Rio.
Ivete Sangalo - Há limite para tudo nesta vida. O meu limite é Ivete Sangalo. Nem de graça. Next.
Iza & Alcione - O mais legal de festival é você conhecer artistas que nunca ouviu falar ou mesmo ver shows de artistas pelos quais talvez você nunca pagaria por um ingresso e acaba gostando da apresentação e virando fã. Ou o inverso. Você gostava, vê um show e passa a odiar (Ouviu, Red Hot Chili Peppers? Essa foi para vocês). Cheguei ao show da Iza sem qualquer expectativa é achei agradável. E ainda teve a Alcione, nosso meme nacional, chegando dizendo que tem que seduzir. Só faltou mesmo o Axl Rose. Ainda sonho com esse dueto entre os dois amigos.
Goo Goo Dolls - O dia em que eu criar o festival “One Hit Bands”, o Goo Goo Dolls será headliner de uma noite que também terá 4 Non Blondes e Chris Isaak. Antes que me perguntem, o Twisted Sister fechará a noite do metal deste festival. Porque a única coisa que as pessoas esperam desse sub-Bon Jovi é ouvir “Iris”, a música daquele filme com a Meg Ryan. É por causa dela que o povo ficou lá com cara de paisagem vendo o vocalista Johnny Rzeznik se esforçar no palco.
Embora não pareça, o Goo Goo Dolls tem mais de 30 anos de carreira. Só “Iris” já tem 21 anos. Neste mês, a banda lançou até um disco novo. Ninguém ouviu. Aliás, ninguém ouviu nada para além de “Iris”. Tanto que ao fim do show Rzeznik até disse: “Então, vocês conhecem essa? Vamos cantar juntos”. Coitado. Mas foi um show muito ruim. Sorry.
Jessie J - Lembro que em Lisboa Jessie J fez um show muito legal e eu tinha a maior expectativa para vê-la de novo. Foi um pouco frustrante. Não tanto por culpa dela, mas porque o som estava muito baixo. Pô, maior vacilo, Palco Sunset.
Dave Matthews Band - Um cara como eu que nunca passa roupa, usa tênis Adidas e vive no mundo do heavy metal não devia gostar desta banda. Afinal, o Dave Matthews Band é quase um ícone da galera coxinha que usa casaco amarrado na ombro e sapatênis. Mas como não amar a jam session (por si só uma expressão elitista) de Dave Matthews e o VIRTUOSISMO desta banda? Vou bater o pé (sem sapatênis) para afirmar que foi um dos melhores shows da primeira semana. Não que a concorrência fosse grande coisa.
Os músicos do Dave Matthews são excelentes. Pagaria por um show só deles? Não. Compraria um CD? Não. Mas poxa, para ouvir ali num bolo dentro do festival ou num consultório médico esperando para ser atendido está ótimo.
Bon Jovi - Como diria a letra de “Livin’ on a prayer”, “Once upon a time, not so long ago”, Jon Bon Jovi conseguia cantar suas músicas. Hoje ele precisa da ajuda de todos da banda para tentar não fazer feio.
Foi um pouco constrangedor e até triste acompanhar o show da banda. A gente viu o Bon Jovi no auge, e, de repente, vemos uma banda em franca decadência a olhos vistos. O David Coverdale está cantando melhor que o Jon, que chegou a níveis preocupantes na escala Sebastian Bach de perda de alcance vocal. Talvez só abaixo do Axl Rose. Enfim, o Medina vai ter que procurar outra opção para 2021 porque não dá mais para o Bon Jovi. Fiquem apenas com as músicas no Spotify.
E depois de 19 shows, terminamos a primeira semana. Vou dormir até quinta-feira e já volto. #CornetanoRockinRio

domingo, 29 de setembro de 2019

Rock in Rio 2019 - segundo dia

O Weezer fez um dos melhores shows do festsival
Segundo dia de Rock in Rio e precisamos falar sobre uma coisa importante no mundo do rock. Solo de bateria? Por que? Para que? Se você não é o Neil Peart, não precisa fazer solo de bateria. Ponto final. Ontem, primeiro dia em que o pretinho básico saiu do guarda-roupa das pessoas, tivemos que aturar dois solos no Whitesnake e no Foo Fighters. Amigos, solo de bateria é chato. Só é legal para quem toca bateria.
Também precisamos falar sobre a moda do momento. Artista que pede para apagar a luz para economizar a energia do Medina e manda o povo acender a lanterna do celular. Eles acham bonito. De fato fica bonito. Mas isso come bateria e na Cidade do Rock não tem lugar para a galera dar aquela carguinha e reforçar a bateria dos seus celulares que já vai em coisa de 9% lá pela a meia-noite.
Feitas estas ressalvas, vamos ao que interessa. O que é que só a Corneta viu?
Detonautas & Pavilhão 9 - Tico Santa Cruz chegou numa moto AMARELA emulando as entradas de Rob Halford com sua Harley Davidson nos shows do Judas Priest. Acho que a ideia do Detonautas tocar no fim do dia era dar um clima legal quando a banda cantasse aquela letra de quando o sol se pôr blá-blá-blá, mas o tempo chuvoso não colaborou e ainda não vimos sol na City of Rock.
O discurso do Tico foi legal falando sobre intolerância, Jesus Cristo, etc... mas ele acabou se atrapalhando num momento em que foi citado um presidente cujo nome não devemos dizer para não dar ibope. Aí depois ele se corrigiu, mas aí já era tarde. A gafe estava lá e vão usar isso eternamente contra ele.
O Detonautas nunca me empolgou muito, mas fez lá o seu show honesto. A coisa ficou boa mesmo é quando entrou o Pavilhão 9. Como não recordar aquele show épico de 2001 que um millenium do meu lado teve a audácia de dizer que foi num tempo em que ele não se recorda. Como pode alguém não ter ido ao Rock in Rio de 2001? Naquele festival tinha dia com 250 mil pessoas.
CPM 22 e Raimundos - Confessa que o seu primeiro pensamento ao ver estas duas bandas foi: “Mas eles ainda existem?”. Então, existem. O Rodolfo pode ter virado roqueiro de Cristo, mas o Raimundos segue aí firme com o Digão nos vocais. Depois da segunda vez vendo a nova versão do Raimundos já estou mais acostumado. E não tinha como dar errado juntar os sucessos das duas bandas para um show de uma hora no Palco Mundo. O problema é que algumas músicas dos Raimundos envelheceram mal. Como a galera consegue cantar “Me lambe”? Rola um desconforto, vai. Isso, porém, não foi um problema para um cara do meu lado que berrava mais que o Badauí e se contorcia como se estivesse com uma dor de barriga homérica. Espero que ele tenha melhorado. As bandas só não precisavam babar ovo do Medina o tempo todo.
Titãs convidam Ana Cañas, Edi Rock e Érika Martins - É incrível como a cada ano que passa o palco dos Titãs fica mais vazio. Eu fico imaginando a reunião da banda a cada vez que alguém sai. “Então, galera, o fulano resolveu deixar a banda e ir para novos desafios. Como a gente faz? Continua? Vocês estão a fim? Ah, vamos tentar meus um pouco. Eu topo”. E eles continuam. Meu sonho hoje, inclusive, é ver no Palco Sunset um Titãs convida ex-integrante dos Titãs. Tomara que isso aconteça antes de a banda virar uma dupla sertaneja, pois da formação clássica só restaram Sérgio Britto, Branco Mello e Tony Belotto.
Mas para mostrar para os ex que eles estavam bem, convidaram duas mulheres e um cara dos Racionais para exibirem no palco. Até que funcionou cada um à sua maneira. Mas quem causou mesmo foi a Ana Cañas e seu striptease à moda atitude roqueira.
Um show dos Titãs é igual em todo Rock in Rio. Tem “Flores”. “Comida”, “Polícia”, “O Pulso”, “Lugar Nenhum”, etc... Enfim, é comfort food. É como comer açúcar. Mas confesso que gostaria de ver mais músicas dos dois últimos álbuns da banda, que eu acho bem legais.
Tenacious D - Quando foi que chegamos ao ponto de ter Jack Black no palco mundo? Quem deixou isso acontecer? Eu não consigo olhar para o Tenacious D e não pensar que é uma espécie de Massacration americano. Me disseram que fica melhor se eu ver o filme. Bom, então fica para a próxima.
Whitesnake - O Whitesnake é uma lenda do rock. É de um tempo onde o peso de uma banda era medido pelo cumprimento dos cabelos. Nada é mais brega que o Whitesnake, o Wando britânico. Mas como não amar? Na verdade, hoje em dia a gente vai ao show do Whitesnake para cantar o amor e se emocionar com três músicas: “Love ain’t no stranger”, “Is This Love” e “Here I for again”. E, claro, quebrar tudo com “Burn”. Até porque, conforme o tempo passa, o voz de David COVER DELE (vocês sabem quem) parece gradativamente piorar. Mas é impossível não amar o Whitesnake e todas as suas presepadas. Os movimentos fálicos de Coverdale com o microfone, o jeito de cantar com a mão no coração, os gritinhos de “Are you ready?”, os guitarristas. O Whitesnake é maravilhoso. Que venha o próximo show da banda. Estamos aguardando ansiosamente. Até porque já se passaram 24 horas desde a última vez que cantamos juntos “Is This Love”, “Love ain’t no stranger” e “Here I hoje again”.
Weezer - Que show FODA. Eu passaria cinco horas ouvindo esses nerds tocarem as músicas deles e seus covers. Foi por shows como esse que a gente vê um monte de porcaria nos festivais. É a moeda de compensação. Rivers Cuomo disse que “O Brasil é foda”. Amigo, fodas são vocês. Voltem sempre porque foi um show TRANSCENDENTAL. Eu só não entendi porque o guitarrista Brian Bell estava vestido de Severus Snape.
Foo Fighters - Eu queria saber qual é o suquinho de limão que o Dave Grohl toma para manter a voz intacta após 2h de show. Porque ele berra O TEMPO TODO. Eu fiquei sem voz só porque estava conversando com uns amigos.
Grohl está sempre possuído e faz cada show do Foo Fighters como se fosse uma sessão de descarrego. Ele continua tergiversando e estendendo as músicas para o infinito e além. Mas foi menos do que no último show que vi da banda, quando parecia que eles queriam quebrar todos os recordes do Dream Theather de canções mais longas. E como tinha tempo para tocar foi obrigado a cortar quatro músicas em relação ao set list originalmente divulgado.
Mas também é preciso dizer que o show foi bem divertido e bem melhor do que o de 2015, no Maracanã. Hoje ele deve estar sem voz, mas pelo menos fez jus ao alto salário que ganhou para ser um headliner.
É isso. E vamos para o terceiro dia. #CornetanoRockinRio

sábado, 28 de setembro de 2019

Rock in Rio 2019 - primeiro dia

Mano Brown brilhou no primeiro dia
E lá se foi o primeiro dia de Rock in Rio! Em oito festivais, acho que foi um dos dias mais ecléticos e aleatórios que presenciei. Teve funk roots, teve pop, teve rap, teve um DJ e teve um cara com a camisa do Iron Maiden que deve ter errado o dia de aparecer lá na City of Rock.
Mas vamos agora aos comentários malemolentes deste primeiro dia. Lembrando que não trabalhamos com shows que começam antes do chá das 17h.
Alok - Em 37 anos eu nunca havia estado numa boate. Acho que o Alok entrou na minha vida para cumprir a função de me dar esta sensação. Claro que tem que ser muito ALOKO para repetir isso. Como vocês sabem, o Alok é um DJ. Logo, não tem muita coisa criativa ali. Desculpe, DJs. São colagens de sucessos de bandas como Cranberries, Bon Jovi, Pink Floyd, System of a Down, Red Hot Chili Peppers, Queen, e eu poderia estar até amanhã citando outras bandas. Tem também tunti-tunti eletrônico chato pra cacete, muita luz, uns foguinhos aqui e ali e muita lambaeróbica. Nem o “tira o pé do chão” e o “joga a mão pra cima” são originais, pois a Ivete faz isso há 75 Rock in Rios. Ah, teve um exercício de levantamento de celular também para malhar os braços. Alok também repetiu o tempo inteiro que ia fazer história, que era histórico etc... bom, a noção de história está um pouco complicada aí. Espero nunca mais passar por isso. Ou talvez seja necessário um ácido para entrar no clima.
Mano Brown e Bootsy Collins - Depois de uma hora de ALOKURA e batidão, entramos na máquina do tempo e voltamos algumas décadas para aquela combinação de soul, black music e passinhos cadenciados. E foi outro nível, amigo. Mano Brown deixou o lado Racionais de lado e baixou o Tim Maia para receber Bootsy Collins junto com a banda Boogie Naipe (que belo nome!). Mano, aliás, chegou trajando uma beca impecável. Todo de branco e um colar dourado que reluzia até o palco mundo. Durante o show teve espaço até para um brinde com uma água que passarinho não bebe. O clima era agradável e com MALEMOLÊNCIA, mas quando Bootsy Collins entrou ofuscou todo mundo. Afinal, ele trajava uma fantasia psicodélica dourada onde tudo brilhava. Até os dentes! Foi bonito. Ali o festival começou para valer.
Bebe Rexha - O show era da Bebe Rexha, mas quem brilhou mesmo foi o Gustavo. Quando ele entrou no palco não teve para ninguém. Dançou, cantou, disse que amava a menina americana e deve ter irritado bastante os seus inimigos. Bebe é uma cantora pop americana. Como tal, tem um séquito de adolescentes enlouquecidas por ela. E quando um grupo de sete delas na faixa de uns 12 anos passou por mim eu quase fiquei surdo. Nem em show de heavy metal meus tímpanos foram tão atacados. Mas Bebe é simpática. Foi lá, deu o seu recado, cantou suas músicas (por incrível que pareça eu até conhecia algumas), mas não precisava mentir que “I love you so much”. Fala sério. Acabou de nos conhecer. Momento Corneta é cultura: Bebe é de uma família de albaneses e macedônios. O pai, Flamur, nasceu na Macedônia, enquanto a mãe Bukurije, nasceu nos Estados Unidos, mas é descendente de albaneses. De nada.
Seal - Rapaz, eu acho o Seal um cara legal, simpático, um homem de classe. Gosto de algumas de suas canções. Mas esse foi o show em que eu bati recordes. Foi um dos shows que eu mais bocejei na vida. Parecia que eu não conseguiria chegar acordado até a música do Batman. Mas eu cheguei. O problema é que a música do Batman é lenta, e tinha uma chuva torrencial caindo (cadê o Cacique Cobra Coral que não vê isso?). Mas depois teve “Crazy” e no fim um David Bowie que é sempre ótimo. Só não precisavam ser deselegantes com o Seal e cortarem o som no fim da música. Muito feio, Rock in Rio!

Ellie Goulding - Quando Ellie Goulding começou a cantar eu pensei: minha cota de cantoras pop já se esgotou por hoje né. Mas eu fui lá dar uma conferida. Não estava fazendo nada mesmo e tinha parado de chover. Ao vivo ela até soa melhor do que nos discos, que são chatos DEMAIS. Mas eu não vou guardar nada de interessante deste show. E ainda colocaria o tributo a George Michael que rolou mais cedo na Rock District à frente dele no ranking do dia.
Drake - Então chegamos a GRANDE atração da noite. Até ontem, Drake para mim era:
1. Um meme
2. Produtor da excelente série “Euphoria”
3. O Jack Nicholson do Toronto Raptors.

Mas aí a gente descobre que ele canta, faz uns raps aí e tal. E que ele sofre de ansiedade. Porque ele parece querer chegar logo ao fim de tudo. Do set list de 27 canções, acho que o Drake deixou umas 22 pela metade. Por que ele não completa uma música? É o oposto do Dave Grohl, que estende até o infinito suas canções. Mas a galera pareceu ter curtido. Drake fez varias citações ao Brasil, disse que estava encantado pela plateia, o que o fez superar o medinho da chuva, e que era o maior show da vida dele. O que pareceu papo da macho que diz isso para todas: “Eu nunca conheci ninguém como você” (até a próxima da semana que vem). Drake também é um macho escroto porque não autorizou que o fotografassem. Até a tirolesa ele cortou! Que feio! A gente entende o David Coverdale vetar isso para não querer mostrar as rugas, mas logo você, Drake? No auge da forma e dos seus 32 anos?
Fato é que o cara deu seu recado. Foi um recado curtinho para um headliner, mas deu seu recado e deixou seu público de alma lavada. O corpo lavado ficou por conta de São Pedro, esse vacilão.
É isso! Amanhã tem mais com o capítulo 2 desta saga. E esperamos que seja sem chuva.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

O cinema de resistência de Kleber Mendonça Filho

Domingas, um dos símbolos da resistência em "Bacurau"
É muito difícil escapar de uma leitura política contemporânea para “Bacurau” diante dos tempos difíceis em que o Brasil e lideranças importantes do mundo vivem. Em tempos em que a democracia é chacoalhada, a desesperança toma conta de corações e mentes e volta a imperar uma espécie de terraplanismo ético, estético, moral, filosófico e político, o cinema de Kleber Mendonça Filho grita para que a sociedade moderna, plural e multifacetada resista.

(ATENÇÃO PARA POTENCIAIS SPOILERS A PARTIR DAQUI)

Com três longas de ficção na carreira, Kleber, que em “Bacurau” divide o roteiro e a direção com Juliano Dornelles, sempre mostrou fazer esse cinema de resistência tendo o Nordeste e, em especial, a sua Pernambuco, como principal cenário de suas histórias. “O som ao redor” (2012) era sobre resistir a uma certa oligarquia e cultura dominantes, ao mesmo tempo em que uma espécie de milícia tomava conta de um bairro de classe média de Recife. Ali haviam todas as reflexões envolvendo a alta sociedade e a pobreza no entorno de um microcosmo num estilo de cinema que, por vezes, lembra o de Robert Altman. “Aquarius” (2016), por sua vez, era sobre uma resistência também ao poder de uma empreiteira e uma batida de pé da cultura e dos valores locais sobre a voracidade e a arrogância de quem comanda o mercado e tenta impor o poder econômico sobre indivíduos menos respaldadas por esse poder. 

É quando chegamos a “Bacurau” onde resistir é, acima de tudo, sobreviver. Ao contrário de seus trabalhos anteriores, Kleber, ambienta seu filme num futuro próximo distópico em uma cidade do interior do Nordeste, onde os habitantes vivem numa sociedade quase igualitária em que a comida é dada a quem precisa e as dificuldades com o fornecimento de água são dribladas pelo trabalho em conjunto. 

Em Bacurau, tudo funciona como uma engrenagem. Dos habitantes na entrada da cidade, passando pela médica vivida por Sônia Braga, os comerciantes, as prostitutas, e os habitantes e até os bandidos. Cada um tem a sua função para que a cidade não falhe. E a coesão dá um certo grau de fascínio a existência daquela cidade. Bacurau é um único organismo vivo. E como tal organismo, cada célula tem sua função e meios de defesa. 

Nada é por acaso nas cenas de “Bacurau”. Há uma explicação na placa próxima da cidade que diz “Se for, vá na paz”, que se percebe mais ao fim do filme e é complementada quando finalmente conhecemos o museu da cidade, frequentemente mostrado durante o filme e tão falado quando lá surgem os primeiros forasteiros. Entrar no museu é entender que Bacurau é essa resistência a quem tenta impor o seu domínio sobre a cidade. 

Resistência que está na marca de cada um dos seus habitantes, mas é principalmente refletida em Domingas (Sônia Braga) e Lunga (Silvero Pereira). A primeira é quase uma liderança intelectual da cidade junto com o professor Plínio (Wilson Rabelo). Os dois detém o conhecimento médico e histórico de Bacurau. O segundo é a força, a violência que, por vezes, é necessária para conter o avanço do inimigo. 

Inimigo este que na história é personificado por forasteiros americanos que surgem na cidade comandados por Michael (Udo Kier). E nesse choque entre os habitantes da cidade e os forasteiros, percebemos as sutilezas do discurso por trás de “Bacurau”. O avanço de uma máquina de dominação, o discurso extremista, os fins que justificam os meios, a violência sádica e desmedida. Tudo isso enquanto do outro lado há uma cidade que resiste e reafirma o seu modo de ser. 

Claro que está apenas é uma leitura possível de “Bacurau”. Uma tentativa de interpretação. Também podemos interpretar o filme como uma aventura distópica num futuro não muito distante onde cidades inteiras são transformadas em jogos de matar para ricos colecionadores de armas e "emoções". E podemos nos divertir de forma despretensiosa com essa narrativa com ecos no cinema de Quentin Tarantino. Mas é nos pequenos detalhes que “Bacurau” mostra sua grandeza. E quão grande e cheio de camadas interessantes este filme é. 

Cotação da Corneta: nota 9. 

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Um olhar para a intimidade de Almodóvar

Banderas como o alter-ego de Almodóvar
Pedro Almodóvar tem uma frase em que diz que “a sala de cinema é o refúgio dos assassinos e dos solitários”. É difícil ter certezas sobre alguém que não se conhece pessoalmente, mas o Almodóvar diretor é um pouco de ambos. Pelo menos figurativamente falando no caso da expressão "assassino".

“Dor e Glória” (Dolor y gloria, no original), seu novo filme é apenas uma reafirmação desta condição do cinema de Almodóvar. O diretor espanhol faz de boa parte da sua filmografia uma sessão de terapia em que tenta lidar com o passado, exorcizando seus fantasmas ao mesmo tempo em que exibe na tela a solidão de um alter-ego que, em contraste, vive numa casa que por si só parece cheia de vida e cores. As tão características cores do cinema de Almodóvar, que, como sempre, abusa dos tons vermelhos e das cores vibrantes tornando cada cenário numa obra de arte. 

E como Almodóvar precisava voltar a lidar com seus fantasmas. Depois da fraca comédia “Os Amantes passageiros” (2013) e de um “Julieta” que dividiu opiniões, o que se vê em “Dor e Glória” pode não ser um Almodóvar na forma exuberante de “Fale com Ela” (2002), “Má Educação” (2004) ou “Volver” (2006), mas é um Almodóvar que volta a discutir os temas que permeiam o seu cinema: as dores da alma, a relação com a mãe, a influência da educação religiosa, a homossexualidade e a descoberta da mesma, os amores que vêm e vão e as decepções e marcas que daí surgem e os desencontros da vida. O cinema de Almodóvar é sobre as pessoas, é sobre os conflitos da alma, sobre o que deve ser dito para o outro e as oportunidades que se perde por não falar e não se permitir sentir. É, portanto, uma investigação da alma humana e suas sutilezas conduzidas pela leveza da câmera em contraste com os temas complexos a que ele se propõe debater.

Em “Dor e Glória” o texto de Almodóvar é claro e direto. Aos 69 anos, ele busca reavaliar a relação com a mãe e quando expõe a dicotomia entre a homenagem e a exposição dela e das pessoas que o cercaram como fonte de inspiração para seus personagens. É curioso como no filme a mãe diz detestar a maneira como ela e as amigas do seu povoado são retratadas no cinema do personagem principal, enquanto ele afirma que cada linha, cada película é uma homenagem a quem o transformou em quem ele é.

Em entrevistas, Almodóvar disse que "Dor e Glória" é um filme que o representa mais intimamente, ainda que determinadas situações sofridas pelo seu protagonista, como o uso de drogas e as dores terríveis não sejam verdadeiras, mas apenas licença poética com fins dramatúrgicos.

"Não é a minha biografia, mas sim o filme que mais me representa intimamente", disse o diretor, garantindo não esta tão fisicamente mal quanto o protagonista e nunca ter usado drogas como o mesmo. 

Para viver este Almodóvar "piorado" temos um António Banderas que não víamos desde “A pele que hábito” (2011), uma de suas últimas grandes atuações, justamente num filme do cineasta espanhol. Na pele do também diretor e roteirista Salvador Mallo, Banderas retrata muito bem o alter-ego de Almodóvar. Envelhecido, cheio de dores físicas e da alma, com relações estremecidas ou perdidas por décadas com diferentes personagens que passaram pela sua vida e um iniciante problema com drogas, Banderas entrega uma de suas melhores atuações emulando a alma do diretor. O ator espanhol parece ter conseguido captar perfeitamente uma persona de Almodóvar com seus silêncios, olhares cansados e hesitação na fala.  

Ao mesmo tempo, Mallo quer se reerguer, voltar à ribalta do cinema. E a inspiração vem justamente do material farto que é a sua vida. E é o que Almodóvar faz. Usando os exemplos do que viveu, ele busca se conectar com seu público, que também vive angústias e desejos semelhantes. Afinal, viver, tal qual o título do seu filme, é uma experiência frequente de dor e glória. 

O filme ainda conta com a participação de Penélope Cruz, que ajuda a contar histórias de um Salvador jovem que também são as de um Almodóvar jovem. Ali vemos o que já nos acostumamos a ver em diferentes passagens de filmes do diretor. A infância economicamente difícil, o estudo no colégio de padres e a vida pela arte que o resgatou daqueles momentos de pobreza. 

Extremamente metalinguístico e cheio de acertos de contas com o passado, talvez “Dor e Glória” só peque por ser excessivamente e tão claramente autobiográfico, o que torna a experiência de ver o filme com uma sensação de déjà vu e sem um frescor de novidade que o acompanhe. É mais sessão de terapia do que cinema e tem um texto mais confessional e menos criativo em comparação com o que nos acostumamos a ver na filmografia do diretor. 

Mas isso é um ponto de vista absolutamente pessoal. E não faz com que a experiência do filme seja ruim. Longe disso. “Dor e Glória” tem o seu valor e tem um Antonio Banderas simplesmente imperdível. A assinatura de Almodóvar também é garantia de prazer para seus fãs, que não se sentirão decepcionados. Mas não acredito que seja um tipo de filme que geraria novos fãs para o diretor. 

No balanço final, “Dor e Glória” é como reencontrar um velho amigo de quem se admira pela delicadeza, inteligência, perspicácia e até imperfeições. E um Almodóvar imperfeito ainda é um Almodóvar acima da média. 


Cotação da Corneta: nota 7,5.