terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Ah, os amores da Itália

"How yoy doin'?
Não tem como um filme que se passa na Itália não ser bonito. Na Itália, a grama é mais verde, as pedras da rua são mais bem esculpidas... Até a poeira de casa tem um ar renascentista como se fosse soprada por anjos gordinhos pintados por Michelangelo. Então, não tem como não achar “Me chame pelo seu nome” um filme bonito.
Mas não é só pelo cenário idílico que o filme de Luca Guadagnino é bonito.
(E ATENÇÃO, A PARTIR DE AGORA: CALL ME BY SPOILERS THAT I CALL YOU BY CORNETA)
“Me chame pelo seu nome” é bonito porque é delicado, terno, FLUIDO, ALGODÂNICO, se equilibra entre uma certa tensão e uma leveza e é uma história de amor que não tem aquelas coisas bobas, idiotas e clichês de Hollywood com gente se esbarrando e encontrando coincidências na vida enquanto come macarrão.
O filme só não precisava ter aquele final feito propositadamente e de forma PICARETA para você chorar. Uma cena interminável onde o menino Elio chorou até o momento em que a tela mostrava “Fulana de tal: assistente de maquiagem dos figurantes. Siclano, figurinista do dono do bar na cena 56”. Obviamente eu não cai nesse recurso barato de novela e não chorei. Deixei o moleque sozinho nessa. Sorry, Elio. Mas nada que prejudique um filme que muitos só não consideram mágico porque falta ter arco-íris e unicórnios.
“Me chame pelo seu nome” começa com mais um dia bucólico de verão europeu no norte da Itália. Em meio a um vilarejo qualquer cheio de prédios milenares, sol, árvores e terra batida, vive um professor de história da arte calminho (Michael Stuhlberg) e sua família. Todos passam o verão na Itália só curtindo os aspectos hedonistas da vida. Elio (Timothée Chalamet), por exemplo, adora ler, tocar piano, agitar uns dates com uns brotos, mexer o esqueleto em festinhas e nadar no lago. É a vida que qualquer um pediria a Deus.
Só que a vida de Elio começa a bagunçar quando o americano Oliver (Armie Hammer) chega para uma temporada de troca de experiências com o professor Pearlman. Mas, aparentemente, não apenas com ele. Logo de cara, Oliver mostra que não está ali a passeio. No primeiro jogo de vôlei, já manda um “how you doing” para o Elio.
- Você está muito tenso, amiguinho. Relaxa. Distende os músculos. Sente o clima.
- Ih, para com isso. Eu estou bem. Sai pra lá.
Elio não percebe nada. Caramba, Elio! Até eu que sou tapado notei que ele estava te dando mole.
Pois bem, depois dessa vacilada, ele fica recebendo uma sequência interminável de “Later” que o faz até procurar a Mariza (Esther Garrell). Mariza, coitada, ama o menino Elio e por isso demora a perceber o que até os pais dele já sabem. Ele está em outra e tem “uma BELA AMIZADE” com Oliver.
A partir daí é tudo poesia, amigos. Porque o amor é esse farfalhar de borboletas num interminável bosque italiano ao som da bela canção “Mistery of love”, de Sufjan Stevens.
Uma pena para o Elio que não apenas todo carnaval, mas todo verão também tem seu fim. E a realidade é uma enchente que bate à porta da sua casa. Uma pena para ele, mas melhor para o filme, é claro. Final feliz quase sempre é brega.
No fim, “Me chame pelo seu nome” nos dá uma lição que eu só captei mesmo depois de uma conversa-debate com um amigo que me disse a seguinte frase: “Às vezes, o amor não basta”. E segue o baile.
Cotação da Corneta: nota 7,5.
Indicações ao careca dourado: melhor filme, roteiro adaptado, ator (Timothée Chalamet) e canção. 

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Quanta gritaria...

Então, a mamãe está resolvendo uns probleminhas
Um filme que começa com três crianças gritando por trinta segundos naquele clima de praça de alimentação de shopping numa tarde de domingo não pode ser bom. E é pior ainda quando você percebe que a gritaria perpassa as quase duas horas de “Projeto Flórida”. Eu não sei como eu sobrevivi. Mas cá estou para falar deste filme. 

Para começo de conversa, “Projeto Flórida” está no Oscar e eu não entendo o motivo. Isso porque a sua única indicação é para um Willem Defoe apenas sendo Willem Defoe. Nada de especial, nada de destacado. Consigo pensar em pelo menos dez papéis mais interessantes que o Defoe fez ao longo da vida. Logo, pareceu-me um exagero essa indicação de coadjuvante. 

E ainda tem as crianças malas. É um filme com a maior reunião de crianças malas da história recente de Hollywood. É de enlouquecer vê-las gritando e fazendo merdinhas o tempo todo. Quer dizer, nem tudo é merdinha. Afinal, colocar fogo numa casa é uma merdona. 

Mas nem tudo é ruim em “Projeto Flórida”. O filme tem umas sutilezas interessantes, e, de longe, a personagem de Bria Vinaite é a mais interessante. Bria faz Hailey, a mãe de Moonie (Brooklynn Prince), a mais espevitada das crianças. Hailey é a história sofrida de uma mulher em que tudo dá errado, mas ela tem que se virar para criar a filha da melhor maneira possível. 

Ela mora com a criança num quarto de motel xexelento na Flórida, no caminho para a Disney, mal tem dinheiro para pagar o aluguel, não consegue emprego, já foi presa, já foi stripper e usa a prostituição como último artifício para tentar dar alguma alegria e manter a filha consigo, antes que o pessoal do serviço social a tire dela. 

A menina, por sua vez, passa os dias todos brincando (e fazendo merdinhas) no motel e no seu entorno, dando pequenos golpes e transformando a sua realidade da forma mais lúdica possível. O importante para ela, porém, é essa relação inquebrantável de amizade com a mãe. Inclusive, elas são muito parecidas nas atitudes e posturas. Natural. 

É uma história dura, quase um cruzamento de “Pequena Miss Sunshine” (2006) com a trama da mãe drogada de Little em “Moonlight” (2016), mas isso é mais explorado apenas no terço final do filme.

Durante toda a projeção o que ficam mesmo são os gritos. Eles vão batucar no meu cérebro ainda durante um tempo. 

Cotação da Corneta: nota 4,5.

Indicações ao careca dourado: Ator coadjuvante (Willem Defoe)

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Um 'A Bela e a Fera' que deu certo

Um mergulho apaixonado
Guillermo del Toro curte uma fábula. E curte uns personagens desajustados para tratar do respeito ao que é diferente, ao que tem uma cultura que não é a da maioria, para falar do medo do diferente e do que vem de fora e de como usamos a ignorância e expomos cruelmente os nossos preconceitos. Para isso, ele gosta de usar monstros. Podem ser criaturas próprias como as do “Labirinto do Fauno” (2006), ou mesmo Hellboy, o personagem dos quadrinhos em dois filmes de 2004 e 2008.
E o que podemos dizer sobre “A forma da água”? É sobre tudo isso aí no parágrafo anterior. E é bonito, é singelo, é fofo e.... convenhamos, não é nada original. “A forma da água” nada mais é do que um “A bela e a fera” que deu certo. Isso porque “A bela e a fera” é um desenho ruim e um filme medíocre. Tudo o que “A forma da água” não é. Talvez a Disney pudesse contratar o Del Toro para um reboot para ver se ele consegue salvar aquela história brega.
Então, o filme do diretor mexicano é uma fábula bonita sobre o amor. Aliás, quantos filmes sobre as mais diferentes formas de amar neste Oscar, hein? É o amor idílico e fugaz de “Me chame pelo seu nome”, é o amor através do ódio mútuo e da manipulação de “Trama Fantasma”, é o amor transcendental freudiano de “Corpo e alma”, o amor incondicional e sem barreiras de “Uma mulher fantástica”.... e eu nem terminei de ver todos. Hollywood deve estar carente.
Mas apesar desse momento amorzinho, “A forma da água” vale por duas coisas.
1- A participação impagável de Octávia Spencer como a faxineira Zelda Fuller. Os diálogos feitos pelo Del Toro para ela são maravilhosos, as histórias do marido mala são muito divertidas e a atriz está inspirada como o personagem cômico do filme.
2- Sally Hawkins no papel da outra faxineira, a Elisa Esposito, que se apaixona pelo anfíbio Aquaman da Amazônia com sérias restrições orçamentárias. Sem dúvida é um dos seus grandes trabalhos no cinema. A sua personagem é apaixonante e uma das grandes criações de Del Toro. Essa mulher muda e solitária que mora num apartamento no topo de um cinema que exibe filmes hoje considerados clássicos, divide o espaço com um homem gay e se apaixona por uma entidade que só ela tem a paciência e a ternura de tentar se comunicar (e fazer uns ovos para ele lanchar). E que no seu silêncio nos faz refletir sobre o que é ser humano e o que é ser monstruoso.
Muito bonita essa descrição acima né? Uma pena que eu não posso dizer o mesmo dos personagens de Michael Shannon e Nick Searcy. Toda a criatividade e ACUIDEZ que Del Toro usou para criar as suas personagens femininas, transformou-se em preguiça e caricatura no caso dos militares Richard Strickland e do coronel Hoyt. Duas figuras sem camadas usadas apenas para serem os homens maus, pois toda história de amor precisa de homens maus. Qual eram suas motivações? Por que tiraram o Aquaman da Amazônia, onde ele era adorado pelos índios? De onde veio a informação que tinha um Aquaman lá? Por que o governo João Goulart não se manifestou sobre esse roubo? Ou será que foi no início da ditadura e os militares colaboraram com o governo americano? Nunca saberemos.
E aí no meio disso tudo surgem os russos, que não querem ser passados para trás na Guerra Fria, mas ninguém sabe como eles se infiltraram no laboratório e receberam as informações. O doutor Hoffstetler está lá, mas por que ele está lá? As instalações aparentemente não têm outras criaturas inanimadas e X-Men em geral. Pelo contrário, o tal laboratório, que ninguém sabe a quem pertence e que trabalho desenvolve não parece ter nada interessante até a chegada do anfíbio que grunhe e gosta de comer ovo e ouvir música. Por que os russos estão lá? E que esquema de segurança é esse que qualquer faxineira pode entrar nos lugares mais top secrets e mandar um how you doing em linguagem de sinais para monstros marinhos?
Mas você sempre pode acreditar no amor sem fronteiras e preconceitos. E como fábula desse amor “A forma da água” talvez te faça até escorrer uma lagriminha. Não foi o caso da Corneta porque aqui é trabalho sério.
Antes de ir embora, um parênteses. E o Michael Stuhlbarg hein? Resolveu aparecer em todos os filmes do Oscar? Ele é o cientista Hoffstetler aqui, é o pai do Elio, o menino gay de “Me chame pelo seu nome”, é o diretor de redação do “New York Times” em “The Post”. Acho até que eu vou rever os outros filmes para ver se ele está bancando o Stan Lee na Marvel e aparecendo em todos os filmes do Oscar.
Cotação da Corneta: nota 7,5.
Indicações ao careca dourado: melhor filme, atriz (Sally Hawkins), atriz coadjuvante (Octávia Spencer), ator coadjuvante (Richard Jenkins), diretor (Guillermo del Toro), trilha sonora, roteiro original, fotografia, montagem, figurino, mixagem de som, edição de som e edição.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Não se aposente, Daniel!

Belo vestido. Fui eu que fiz
Daniel Day-Lewis está se aposentando e a Corneta não está sabendo lidar com isso. Tudo porque ele não se aposenta decadente e como um fantasma dele mesmo como muitas vezes vemos acontecer com os atletas. Ele se aposenta com um personagem maravilhoso e um trabalho impecável.
Ao finalizar “Trama Fantasma”, Day-Lewis disse que foi sobrecarregado por um sentimento de profunda tristeza e que ainda tentava viver com isso. E disse ainda que não sabia exatamente o motivo da tristeza. Eu entendi perfeitamente. Seu Reynolds Woodcock é um dos personagens mais intragáveis, asquerosos e DEPLORÁVEIS que eu já vi. Provavelmente uma das figuras mais vis que o ator já interpretou. Tudo isso banhado pela trilha sonora de Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead, banda especialista em músicas para cortar os pulsos.
E não é só isso. Para piorar, o diretor Paul Thomas Anderson conta a história desse renomado estilista da high society inglesa com uma classe e uma beleza que o prende numa maldita linha de costura te apertando numa roupa cheia de alfinetes.
(CUIDADO QUE AGORA VEM UM DESFILE DE SPOILERS)
“Trama Fantasma” é basicamente uma história de amor entre duas pessoas que não valem nada. Reynolds é um estilista cheio de mania, cheio de mi-mi-mi, cheio de frescurinhas, cheio de toques e que claramente teve uma infância em que foi excessivamente mimado pela mãe. Pior, o cara ainda tem que ter o cabelo impecavelmente escovado e só usa meias grená.
Tudo o incomoda. Não pode fazer barulho no café da manhã porque “o gênio está criando”, não pode mudar a rotina porque “o gênio fica abalado”, não pode fazer barulho chupando a sopa na colher porque “o gênio perde a concentração” enfim... é uma vida toda de negações para que o estilista possa criar os vestidos para as ladies da Inglaterra. E as roupas são encantadores porque realmente o cara é bom no que faz.
Só que Reynolds está entediado. Tem uma mulher que não o entretém mais e procura tratá-la com o seu frequente olhar de tédio e desprezo e a frase: “Estou trabalhando. Não me enche o saco”.
Até que um dia ele resolve ir passar um tempo na roça (o campo, em inglês vitoriano) e lá encontra a garçonete da sua vida. Logo de cara ele pensa: “Meu amigo, que tiro foi esse?”. Foi amor (ou o mais próximo disso) à primeira vista. E o que o encantou? Sua caligrafia impecável para escrever ovos e bacon e sua...barriguinha. Morram de inveja musas fitness e blogueirinhas. Ele se apaixonou pela moça porque ela tem BARRIGUINHA.
Mas como tem sempre que ser desprezível para manter a sua fama de gênio maldoso incompreendido, Reynolds diz: “Você não tem peito”.
“Desculpa. Eu posso colocar silicone”.
“Não, não precisa. Você é perfeita assim”, apressa-se a dizer.
Parecia uma vida de sonho para Alma (Vicky Kreaps). Era amada por um homem importante, poderoso e genial e que ainda fazia as roupas dela.
Mas logo a rotina daquela união ia começar a desagradá-la. Primeiro porque Reynolds desde sempre fazia questão de dizer que ela não era relevante na vida dele. Só mais uma peça no tabuleiro de xadrez, só mais uma linha na costura que se soltasse ele comprava outra e substituía.
E você agora poderia estar dizendo: “Mas isso é uma relação abusiva! Sai dessa, miga!”. Pode ser, mas Alma não tinha vocação para Amélia, meus caros. Para conquistar finalmente o amor daquele homem, para conseguir o que as outras não conseguiram, só transformando-se na sua versão feminina e sendo igualmente desprezível.
Alma foi à luta, colheu uns cogumelos venenosos (nunca confiei em comidas com cogumelos) e o deixou na SARJETA. O deixou dias sentado no trono chamando urubu de meu louro. Depois disso, não restou a Reynolds nada além de pedi-la em casamento. “Eu te amo (Amo-te em português de Portugal). Casa comigo? Você é a Alma do meu negócio?”
“Agora tenho esse macho no meu cabresto. Fiz esse Clodovil vitoriano comer na minha mão”, pensou a moça.
Nã-ná-ni-nã-não. Reynolds era carne de pescoço e logo a relação volta a dar curto circuito. Ele percebeu que casamento estraga qualquer criatividade e passa a colocar a culpa na mulher, é claro.
Obviamente, ela não ia deixar barato. Eis que temos uma das mais belas cenas do filme. “Ah é assim? Quer um omelete de cogumelos, my dear?” Alma o faz com muita manteiga só porque ele ODEIA manteiga. Mas ele come, come com gosto porque sabe que a dor vindoura libertará a sua criatividade para inventar vestidos incrivelmente brilhantes, mas nunca chiques porque chique é uma palavra horrenda.
Reynolds pensa: “Finalmente eu tenho uma mulher que me entende. Ela só precisa aprender a fazer aspargos, mas fora isso é perfeita”. E faz a declaração de amor mais asquerosa deste ano no cinema: “Eu te amo, garota. Me beije antes que eu vomite”.
Enfim. Dêem o quarto Oscar para Daniel Day-Lewis que ele merece. E só para aumentar o peso da bagagem na viagem que ele planeja fazer pelo mundo.
Cotação da Corneta: nota 8.
Indicações a careca dourado: Melhor filme, ator (Daniel Day-Lewis), atriz coadjuvante (Lesley Manville), diretor (Paul Thomas Anderson), figurino e trilha sonora.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Um filme para Gary Oldman brilhar muito

Gary Oldman perfeito como Churchill
Eis o desafio que a Corneta lhes impõe. Já que TODO mundo nos últimos anos resolveu abordar mais ou menos os mesmos assuntos, vamos organizar este super filme sobre a Inglaterra durante a Segunda Guerra ficar bonito. Para essa receita dar certo precisaremos de três computadores (ou três TVs com DVDs, depende de como vocês se sentem mais à vontade). No primeiro, vocês começam o aquecimento vendo “O discurso do rei” (2010). Na sequência, vejam “O destino de uma nação”, este novo filme de Joe Wright ora em cartaz.
Quando o covarde e mané do Halifax (Stephen Dillane) começar a desafiar o Churchill (Gary Oldman está simplesmente maravilhoso no papel), vocês pegam o segundo computador e vejam o sexto episódio da segunda temporada de “The Crown”, aquele mesmo que fala no que a Inglaterra se transformaria se a Alemanha tivesse vencido a guerra e fala da aliança do ex-rei Edward, o traidor safado, com Hitler.
Faltando mais ou menos 40 minutos para o fim de “O destino de uma nação”, quando a operação Dínamo estiver prestes a ser anunciada, vocês pegam o maravilhoso “Dunkirk”, de Christopher Nolan, e dão play no terceiro computador. Ao fim de “Dunkirk”, entrem com “Churchill” (2017) e arrematem com a primeira temporada de “The Crown”, para acompanharmos a decadência de Churchill (por sinal, um John Litgow igualmente muito bem).
É fato que um dia farei isso. Para quem já viu “O mágico de Oz” (1939) ouvindo “Darkside of the moon” (1973), do Pink Floyd, isso é só mais um desafio.
Feita esta receita de molho inglês, o que podemos dizer sobre “O destino de uma nação”? É um filme feito para o talento de Gary Oldman ser finalmente recompensado com um Oscar. E lembremos que esse ator incrível NUNCA ganhou um careca dourado. Será que depois de faturar o Globo de Ouro, Churchill vai lhe dar um Oscar? Gary devia emular o trecho do discurso mais emocionante do filme e gritar: “We should fight! We should never surrender!”
O problema é que nessa categoria ainda temos o Daniel Day-Lewis, que já anunciou a sua aposentadoria após “Trama Fantasma”. Aí complica. Não sei para quem torcer!
(E ATENÇÃO, TEMOS AGORA SANGUE, SUOR, LÁGRIMAS E SPOILERS).
O filme todo gira em torno de Churchill. Sua indesejada ascensão ao cargo de primeiro-ministro inglês, sua batalha dentro do gabinete de guerra contra qualquer proposta de paz com Hitler (esses caras estavam LOUCOS), o jeito como ele tem que vencer a desconfiança até do Rei George VI - aquele mesmo, o gago, pai de Lilibeth (já tenho intimidade com a rainha) - e manter a Inglaterra “in good spirit” para continuar lutando contra os nazistas...
Gary Oldman está muito bem num papel que no cinema e na TV já foi vivido por inacreditáveis 63 atores. E eu achando que o Batman já teve atores demais. Diante disso tudo, não tem muito o que fazer. É repetir aquele ar carrancudo, o jeito um tanto convencido e petulante, o andar curvado e... fumar e beber em escala industrial.
“O destino de uma nação” talvez só peque em colocar Churchill num pedestal quase divino como o herói incontestável que luta contra tudo e contra todos para liderar uma Europa quase esmagada pelo exército nazista numa virada digna de um Vasco x Palmeiras na final da Mercosul de 2000. Ok, tudo bem que o Churchill foi quase um Romário do seu tempo, mas calma aí. No filme, o cara vira um super-herói com o poder da oratória que convence a todos como se fosse uma sereia cantando para os piratas. Até o Rei George fica bo-bo-bo-bolado. Bom, mas não podíamos esperar algo diferente de um filme inglês.
Por outro lado, como não querer ir para a batalha depois do discurso no final do filme? Se juntar aquelas palavras de Churchill com “The Trooper”, do Iron Maiden, eu embarco para Dunkirk amanhã.
Cotação da Corneta: nota 7.
Indicações ao careca dourado: Melhor filme, ator (Gary Oldman), maquiagem e cabelo, fotografia, design de produção e figurino.


segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

The Post

Eu tenho os documentos todos. E agora?
O menino Steven Spielberg é muito malandrinho. Ele sabe que guerras e conspirações são bons temas para ganhar um Oscar. Ele mesmo ganhou dois graças à Segunda Guerra Mundial com “O resgato do soldado Ryan” (1998) e “A lista de Schindler” (1993). Ele também sabe que nestes tempos doidos que vivemos, o jornalismo e todo aquele blá-blá-blá de primeira emenda, liberdade de imprensa, matérias investigativas, blá-blá-blá... também dá um Oscar. Não é à toa que aquele MEDIANO filme do “Spotlight” ganhou o careca dourado há dois anos. Um erro terrível. E eu ainda tive que ouvir que era vitória do jornalismo.
Então, o que o Spielberg fez? Reuniu os dois assuntos, a guerra e o jornalismo, e juntou num filme só para ver se sai da seca de 20 anos sem faturar o prêmio da festinha fancy de Los Angeles.
E para reforçar o argumento de que seu filme é top, ele ainda convocou a Meryl Streep, a única pessoa do planeta que é indicada ao Oscar todo ano em que trabalha (já são 21 indicações), e o Tom Hanks, um bicampeão do careca dourado, ator de excelência, e provavelmente o único homem que vai sobrar em Hollywood quando todas as denúncias de assédio e agressão contra mulheres forem devidamente apuradas (Se o Tom Hanks for acusado de algo eu não acredito mais na humanidade e vou me isolar numa ilha deserta).
O resultado dessa mistura deveria ser IMPLACÁVEL. E “The Post” tinha tudo para ser isso se não fosse em muitos momentos um filme TEDIOSO.
(E ATENÇÃO! PAREM AS ROTATIVAS QUE LÁ VEM SPOILER).
“The Post” conta basicamente a história de um jornal pequeno que sonhava em ser grande. Naqueles anos 70 de black power, governo Nixon, óculos grandes e hippies, o “Washington Post” era uma espécie de Manchester City sem o dinheiro dos árabes. Um PSG sem a grana do Qatar. Um jornal mediano que lambia as botas do poder de Washington e não queria saber de se envolver em muita confusão.
Seus donos e muitos jornalistas viviam o dolce far niente da bajulação ao governo de Truman a Lyndon Johnson. Pelo menos é isso o que o filme dá a entender. Se você tem reclamações, cartas para o Spielberg.
Só que alguns jornalistas já começavam a se incomodar com tudo isso. Em especial Ben Bradlee (Tom Hanks, como você foi esnobado pela Academia??!!), aquele editor-chefe que você sempre quis ter. Ben não aguentava mais o 7 a 1 que estava tomando do “New York Times”. Todo dia era um furo por causa dos documentos secretos produzidos a mando do ex-secretário de Defesa Robert McNamara (Bruce Greenwood) sobre a Guerra do Vietnã que só manchavam ainda mais o governo Nixon e muitos governos anteriores.
Você sente o quanto Ben está puto da vida com os caras do Times. Praticamente ouve os pensamentos dele: “Maldito Rosenthal (Michael Stuhlbarg)! Fica aí nas férias na Itália posando de pai amoroso de filho gay em “Me chame pelo seu nome”, mas vai lá, faz a barba e me ferra comandando o Times”.
Só que Bradlee planeja a reação. Vai atrás dos documentos duela a quién duela. E não tem ninguém naquela redação mais bem capacitado para conseguir isso do que... Saul Goodman, ou melhor, Ben Bagdikian (Bob Odenkirk).
Bagdikian então diz: “Better call Dan (Mathew Rhys)”. E voilá, eis que surgem quatro mil páginas de podridão na história da América.
Os jornalistas fazem então aquilo para o qual são pagos: começam a escrever a matéria sem nenhuma garantia de que ela vai sair. Isso porque falta a decisão final de Kay Graham (Meryl Streep), cujos laços com o poder eram tão fortes a ponto de McNamara ter sido convidado para a sua festinha de aniversário.
A senhora Graham não era muito bem vista pelos acionistas. Embora fosse dedicada, eles a achavam fraca e sem pulso para comandar o jornal que fora do marido dela até o seu suicídio. Bradlee sabia que o problema era grande e foi logo mandando a real:
- Chefinha, não quero pressionar muito, mas o que você vai fazer quando eu tiver estes documentos em mãos? Porque eu os terei. Tenho meus melhores repórteres nisso.
A pressão dos acionistas contrários à fazer alguma coisa tipo jornalismo também era grande. Mas foi justamente neste momento que Mrs. Graham botou o pau na mesa e mostrou quem manda: “Publiquem essa joça! Não quero saber das consequências! Isso é um jornal, não é uma paróquia!”.
O resto é história. Nixon depois cairia por conta de outra série de reportagens do mesmo jornal e retratadas em “Todos os homens do presidente” (1976), o “Washington Post” é hoje um jornal grande e respeitado (É o que dizem) e “The Post” conseguiu duas indicações ao careca dourado. Mas Spielberg ficou sem a dele para diretor. Talvez porque... não era para tanto mesmo, meus caros. Aliás, “The Post” nem merecia estar concorrendo à melhor filme. Deve ter entrado na cota da imprensa.
Cotação da Corneta: nota 6.
Indicações ao careca dourado: melhor filme e atriz (Meryl Streep).


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Que jogada certeira

Que roubada que você se meteu, hein?
Acho pôquer um jogo muito maneiro. Coisa de gente rica né. Eu me sentiria com mais dinheiro se eu jogasse pôquer, mesmo que minhas apostas tivessem o peso de um croissant de amêndoa e um pão de Deus. Mas eu entendo tanto de pôquer quando de física quântica.
Aaron Sorkin fez uma bela tentativa de me fazer aprender o jogo, mas eu continuo não entendendo BULHUFAS. Só acho que uma jogada que tenha o nome de Royal Straight Flush devia ter a maior pontuação em todos os jogos de carta possíveis.
Ainda bem que “A grande jogada” não é um filme apenas sobre pôquer. É um filme sobre ousadia, sobre apostar contra a banca e ver no que dá. É também sobre Freud e sobre orgulho.
É um filme também do Aaron Sorkin. Quem viu “A rede social” (2010) e “Steve Jobs” (2015) sabe que ele é VERBORRÁGICO a ponto de quase ser impossível acompanhar as legendas. Tem aqueles cortes secos e você fica meio que disputando corrida com as letrinhas. Mas no fim tudo dá certo, porque os filmes do Sorkin são muitas vezes divertido.
(E AGORA VAMOS A UM FLUSH DE SPOILERS)
“A grande jogada” conta a história de Molly Bloom (Jessica Chastain, a senhora quase absoluta do filme). Ex-atleta de esqui, ela tem que abrir mão da vida na neve por causa de uma lesão na coluna. Mas, vocês sabem, ganhar está no sangue de qualquer atleta muito competitivo.
Diante disso, Molly vai para Los Angeles decidir o que quer da vida. Ela não sabe se casa, se compra uma bicicleta, se vira advogada... Até que na night ela descobre uma mina de dinheiro chamada pôquer.
Maluca, obsessiva e muito mais inteligente que eu, Molly logo aprende todos os fundamentos do jogo, as artimanhas, os blefes e os tiques dos atletas da alta roda. Queria ter uma filha assim.
Aos poucos, ela vai se tornando a grande dama da jogatina (e aí de você se chamá-la de princesa). E tudo sem infringir a lei. Mas andando bem na margem dela. BEEEEEEM na margem.
É claro que quanto maiores as apostas de Molly, maior a chance de dar merda. E quando ela se mete com os russos.... aí ferrou né. Pô, Molly, uma mulher tão inteligente como você não pode dizer que não era suspeito um dinheiro vindo de uns caras com nomes com fim OFF E OV que jogavam despretensiosamente no Brooklyn. Isso fedia num nível...
Claro que o FBI bateu na porta dela. E ela foi bater na porta do Idris Elba. Elba ainda não é um agente secreto, mas veio para salvar o dia no papel do advogado Charlie Jaffey. No início ele reluta. Não quero me envolver com você. Você é fria. Mas Molly sempre entra para ganhar. De alguma forma consegue convencer o advogado a trabalhar para ela. Só não sabe ainda como pagar os US$ 250 mil de honorários.
No momento pré-tribunal, o filme transforma-se em um filme sobre a honra. Os advogados de acusação oferecem imunidade se ela contar tudo o que sabe sobre quem esteve jogando nas suas mesas. Molly se recusa e diz que só tem uma coisa que presta na vida: seu nome. Bate o pé e diz não. “Eu não sou uma personagem de James Joyce, mas sou uma Bloom de respeito”.
Aí o filme vai para a Sessão de Terapia. Porque o pai dela, o Larry Bloom (Kevin Costner), resolve falar umas verdades. “Você só organizou essa porcaria toda aí para ter o prazer de ter os homens no cabresto. Você gosta de dominar os homens. Porque você não gosta do seu pai porque eu tinha uma amante”. Molly só diz: “Você está de sacanagem? Lavação de roupa suja a essa hora?”
O paizão responde: “Eu sou terapeuta, freudiano na veia. Você desprezou Freud na infância e agora ele veio te assombrar”.
Eu não consegui engolir muito bem a explicação psicanalítica para Molly ter se tornado quem é. Porém, se foi assim que aconteceu na vida real, paciência né?
Ah, faltou contar isso. Molly Bloom existia mesmo, teve esse império do pôquer mesmo e há quem diga que o jogador X, vivido por Michael Cera no filme, era o Tobey Maguire (daí a piadinha no roteiro: “Ele era o meu super-herói”, pois Maguire já foi o Homem-Aranha). E sabe que outras celebridades já estiveram na mesa de carteado de Molly? Leonardo Di Caprio, Matt Damon, Ben Affleck, Pete Sampras... Pelo menos é o que dizem na boca pequena. Molly mesmo nunca revelou as identidades de quem jogou com ela, como o filme mostra.
“A grande jogada” é uma boa diversão, tem uma Jessica Chastain brilhando, tem um Idris Elba muito bem, mas Sorkin já nos entregou filmes melhores. Eu acho, por exemplo, “Steve Jobs” (2015) e “O homem que mudou o jogo” (2011) trabalhos mais interessantes. Porém, o filme valeu cada centavo. Não chega a ser um royal straight flush, mas passa por um full house.
Cotação da Corneta: nota 7,5.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Um Black Mirror mais ou menos

Que isso, fera
Pode não ter sido a melhor temporada de “Black Mirror”, mas “Metalhead” (Excelente. E nunca confiei em cachorros), “Black Museum” (apavorante) e “Hang The DJ” (super Tinder, ativar!) foram episódios que eu gostei bastante. Nesta ordem, inclusive.
“Hang the DJ” perdeu pontos porque tem final feliz. Onde já se viu final feliz? Se eu quisesse isso não via “Black Mirror”, via “A Bela e a Fera”. Gostamos do horror e da humanidade mostrando o seu lado perverso, vil, vingativo, cruel, obsessivo, possessivo e egoísta com o auxílio das tecnologias.
‪Depois, meu ranking teria “Crocodile” (quase um “Eu sei o que vocês fizeram no verão passado” abaixo de zero), “Arkangel” (final molenga e decepcionante para uma ideia boa) e “USS Callister”.
Este último só valeu mesmo pela zoeira com “Star Trek” e pelo Charlie Brooker mostrar qual é o limite desta série exemplificado na frase da personagem Nanette Cole que ilustra este post.
Vou ali ver Arquivo X e já volto.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Esse grego tem problema (ainda bem)

Você mal perde por esperar a minha vingança
Tem um maluco relativamente novo no pedaço. Ele é grego, mas não é tão difícil falar o nome dele. Chama-se Yorgos Lanthimos. Isso não é nada para quem já teve que escrever PAPASTATHOPOULOS, o nome do zagueiro do Borussia Dortmund. Mas como eu dizia, não sei o que dizer sobre Lanthimos. Só sentir.
Só vi dois filmes dele, mas agora desejo ver toda a sua curta filmografia. As únicas coisas que eu posso dizer dos filmes que eu vi é:
1- Ele gosta de histórias que incomodam, causam desconforto e te deixam bolado dentro do desconforto.
2- Ele gosta de títulos de filmes com nomes de bichinhos (lagosta, cervo... sabe lá qual será o próximo)
3- Ele tem obsessão pelo Colin Farrell, pois ninguém é perfeito.

Mas poucas vezes eu saí de um cinema tão embasbacado e pensando: “Cara, você foi longe demais”. Mas eu logo censurei esse pensamento. Não há longe demais para a arte. Então, “cara, você esticou a corda dos limites com esse “O sacrifício de um cervo sagrado”.
(E A PARTIR DE AGORA, AVANCEM POR SUA CONTA E RISCO PORQUE É UMA MANADA DE SPOILERS)
Falemos o português claro, “O sacrifício de um cervo sagrado” é uma história sobre ciência e macumba e no que você acredita. Eu poderia ser pedante-místico-moralista e dizer que é uma PELÍCULA sobre a lei do retorno e de como sempre pagamos pelos nossos pecados. Dizer que nunca um filme foi tão longe em sua ousadia ao expor os conflitos de um homem, um profissional e um pai que definha em desespero até encontrar uma saída sobre uma escolha tão difícil e inimaginável. Eu poderia buscar metáforas em Derrida, Nietzsche, Platão...
Mas é tudo BALELA.

No fundo, é um filme sobre ciência e macumba. Porque tudo começa com um jovem muito esquisito. Aliás, o filme todo é formado por gente esquisita e que anda e fala de um jeito meio robótico, frígido e monocórdico. Até a menina quando canta parece ter a emoção de uma BJORK. Um prato cheio para o Colin Farrell. Sem muito esforço ele consegue uma atuação digna, pois basta fechar a cara e falar.
Então, o Farrell vive um médico cardiologista que vai sendo stalkeado na vida real por um menino misterioso chamado Martin (Barry Keoghan). Martin é um jovem curioso que fica querendo saber tudo da vida de Steven (Farrell), da família, do casamento com a Nicole Kidman, etc....
Steven até então achava que o menino só estava perturbado pela perda do pai. Mas a coisa fica esquisita quando surge do nada a... ALICIA SILVERSTONE. Eu não sei vocês, mas acho que a última vez que vi a Alicia Silverstone foi em “Batman e Robin” (1997). Enfim, Alicia vive a mãe de Martin, dá em cima de Steven com um papinho de que “você tem mãos lindas e tal”, mas Steven dribla a moça e avisa: “Para com isso! Eu sou casado e amo a minha mulher! Eu pego a Nicole Kidman!!”. É quando ela responde: “Pelo menos experimenta a minha torta de limão”? (Aparentemente não era uma metáfora).
Steven declina da proposta. Mal sabia ele que aquela torta de limão seria o menor dos seus problemas. Nos ultimas seis meses, Martin estava preparando uma vingança. Uma macumba sinistra, magia negra pesada que faria os dois filhos e a mulher de Steven caírem doentes. Primeiro perderiam os movimentos, depois a vontade de comer. Por fim, chorariam sangue. E eles só melhorariam quando o médico assassinasse um membro da família. Tudo porque o moleque perdeu o pai na mesa de operação do médico.
Steven diz que isso é bobagem. Que não acredita em galinha morta e farofa na encruzilhada, mas vai vendo os filhos caírem e não há exame que dê jeito ou ache uma maneira de curar as crianças. Enquanto isso, Martin segue pregando a sua vingança travestida de metáfora bíblica: olho por olho, dente por dente e spaghetti se come enrolando o macarrão e jogando na boca.
Steven sofre, chora, vê suas convicções científicas sofrerem abalos tectônicos... mas no fim, sabe que o seu destino está no acerto de contas espiritual com a vingança de Martin. É o famoso aqui se faz, aqui se paga. Para Yorgos Lanthimos é muito mais legal quando o vilão vence no final (acrescente áudio de risada maléfica de Dr Evil).
Agora eu quero ver os outros filmes desse maluco.
Cotação da Corneta: 8,5.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

The Crown é lindo demais

Claire Foy está perfeita como a rainha
Como eu amo essa família. Como eu sentirei falta desse elenco. O que dizer da segunda temporada de “The Crown”? Apenas as linhas malemolentes abaixo:
(AND GOD SAVE THE SPOILERS A PARTIR DE AGORA)
1- Claire Foy, amigos, merece um Oscar. Eu sei que é impossível, mas ela tinha que ganhar um Oscar, pois a sua interpretação da rainha Elizabeth é impecável. Arrisco-me a dizer que nem a própria Elizabeth atuou tão bem como rainha Elizabeth do que a Claire Foy. Os silêncios, os olhares, a postura, a forma de falar, o como falar... tudo foi maravilhoso. Vai embora, não, Claire. Fica até passar o bastão para a Helen Mirren.
2- Vanessa Kirby e Matt Smith também estão de parabéns pelos seus trabalhos como Margaret, a irmã porra-louca da rainha, e Philip, o marido desbocado e sem noção da mesma. Já estamos com saudades.
3- Por falar no Philip, que temporada do marido hein. Achou que ia faturar a jornalista e levou uma volta bonita dela para deixar de ser otário. Perdeu o assessor que, como diria o Tite, FALA MUITO, viu o ridículo clube do bolinha ficar queimado por causa de um caso de divórcio, vacilou ao frequentar casas pouco ortodoxas com pessoas pouco republicanas e ainda teve que botar o rabo entre as pernas e pedir arrego para a rainha. Ok, os dois se amam, blá-blá-blá, mas será que ele aprendeu?
4- A julgar pelas gafes que ele comete até hoje, não.
5- Aliás, ela deve amar demais o Philip, pois, suportou fazer a ceninha da vaca leiteira e o momento Caco Antibes dele zoando o cabelo dela e comparando a um capacete.
6- “Não fazer nada às vezes é a melhor opção”. Essa lição da rainha pode ser aplicada em algumas situações.
7- Por falar na rainha, qual a vantagem de ter o cargo dela e ser sempre última a saber das fofocas?
8- Por outro lado, só ela pode convocar uma audiência oficial apenas para fofocar sobre um jantar.
9- A segunda temporada só reforçou o quanto a Margaret era uma excelente personagem nessa família e o quanto o Charles, coitado, era um zé ninguém desde sempre.
10- Por falar no Charles, foi impossível não rir quando a Elizabeth solta em plena década de 50 a frase: “Ele é o futuro da coroa”. Está esperando até agora. Nunca uma promoção demorou tanto a chegar. E olha que nem tem aumento de salário.
11- Mas ninguém sai mais chamuscado dessa temporada do que o irmão do antigo Rei George. Edward já tinha fama de covarde por abdicar do trono, mas como foi por amor muita gente perdoou. Agora, depois das provas e da sua relação com Hitler e o nazismo, com direito a episódios de traição à coroa... não sei como não tem fila de pessoas cuspindo no túmulo dele.
12- Lorde Altrincham ganhou o prêmio jornalismo ousadia e alegria por criticar a rainha quando ninguém podia falar mal dela e, graças a isso, provocar umas mudanças no castelo de Windsor. Deixaram até os pobres entrarem para visitar o castelo e brincar com os cachorros de Lilibeth.
13- “The Crown” é lindo, maravilhoso, tem um cuidado enorme com a história e a produção, dá para enumerar pelo menos umas 15 cenas absolutamente brilhantes nessa temporada... Então como conseguiram arranjar uma Jackie Kennedy tão sem sal? Uma Jackie Kennedy que não brilharia nem no jantar de Natal das nossas famílias, quiçá falando com o Charles de Gaulle e a Elizabeth. Deviam ter convocado a Natalie Portman que já estava treinada para o papel.
14- Vocês repararam que toda vez que um assessor tinha um assunto delicado para falar com a rainha, chegava sempre com duas ou três bundices antes? É tipo, “mãe, fiz o dever de casa e lavei a louça, mas quebrei a janela do vizinho jogando bola”.
15- Cotação da Corneta: nota 10.
16- É isso. Vou ali me dedicar a “Black Mirror” e qualquer dia eu volto.