sábado, 8 de setembro de 2012

Feriado com Alanis

Alanis Morissette/Reprodução da internet
Entre suas poucas aventuras cinematográficas, Alanis Morissette fez o papel de ninguém menos do que Deus no filme “Dogma”, de Kevin Smith, lançado há 13 anos. Naquela época, a cantora canadense tinha então 25 anos, quatro discos – sendo dois mundialmente conhecidos, Jagged Little Pill (1995) e “Supposed former infatuation junkie” (1998) - e ainda cantava com fúria e o seu característico jeito de andar para frente e para trás de lado para a plateia no palco a cada show e balançando o cabelo preto até a cintura. A plateia formada na sua maioria por adolescentes ou jovens adultos como ela a seguiam religiosamente e liberavam todos os seus fantasmas em canções contra namorados vacilões, as dores e os altos e baixos do amor.

Era basicamente disso que músicas como “You oughta know”, sempre uma das minhas favoritas, e “You Learn”, dois dos seus maiores sucessos do seu disco de maior sucesso, o “Jagged Little Pill”, com 33 milhões de cópias vendidas no mundo todo, tratavam em versos como “Did you forget about me, Mr. Duplicity?/ I hate to bug you in the middle of dinner/But it was a slap in the face/How quickly I was replaced/And are you thinking of me when you fuck her?” ou o refrão de “You Learn” que evoca o aprendizado a cada vez que você ama, grita, perde, chora e sangra.

O tempo passou e Alanis hoje é uma mulher de 38 anos resolvida com os seus fantasmas, casada com um rapper e pai de uma criança de dois anos. Seus fãs também cresceram e muitos dos que estiveram no Citibank Hall para reencontrá-la em mais uma de suas passagens pelo Rio são balzaquianos como ela e certamente estiveram na frente dela nas outras quatro passagens pelo Brasil. Mas o “Jagged Little Pill” é eterno no coração de todos e a canadense sabe disso.

O disco ocupa uma generosa porção da aproximadamente 1h40m do show da cantora no feriado de 7 de setembro. Uma apresentação que fez a alegria dos cariocas que decidiram não viajar para ver Alanis, que continua a mesma no palco, mas agora conta com uma nova, boa e afinada banda formada pelos guitarristas Julian Coryell e Jason Orme, pelo baixista Cedric Lemoyne, pelo baterista Victor Indrizzo e pelo tecladista Michael Farrell.

Assim como nos shows de 2003 e 2009, são sete canções do disco. Uma a mais até do que o bom álbum novo, “Havoc and bright lights”, e que motivou a atual turnê. Mas ao contrário dos shows anteriores (incluindo também o de 1999), Alanis resolveu dar uma atualizada, uma refrescada nos arranjos de seus “clássicos”. Alguns ganharam de sua banda arranjos que amainaram só um pouquinho a fúria. Outros ganharam solos de guitarra que agradaram bastante ao público. Foram mudanças sutis que praticamente só seriam percebidas se comparadas com vídeos da velha Alanis de anos atrás.

Nada que desagradasse o seu público. “You Learn” estava lá com Alanis dando a sua lição de crescimento sorrindo e quase dizendo ao seu público que a dor e o amor são necessários para a adolescente virar mulher. O recado ao ex-namorado em “You oughta know” ficou datado em uma nova vida cheia de “bright light” de agora, mas não é possível nunca tirar uma canção tão poderosa de um set list dela.

Assim como “All I really want” e sua indefectível gaita, também presente em “Head over feet”. E fica a reflexão de como Alanis abandonou a sua gaita nos discos posteriores, salvo algum engano do signatário. Ela nunca mais aparece no show que não seja numa música de “Jagged Little Pill”. Completam a lista do álbum a sempre fofa “Hand in my pocket” “Right through you” e o megasucesso “Ironic”, cantada com tanto fervor pelo público quanto “You oughta know”.

Mas Alanis não vive só do passado e ganha uma calorosa recepção para suas novas canções. “Guardian”, o primeiro single do disco novo, foi cantada pelos seus fãs como uma velha conhecida. Com versos como “Give me celebrity my kingdom to be famous/Tell me who I have to be/Starting to be famous”, “Celebrity” mostra que suas críticas se voltaram para as celebridades instantâneas que aparecem a cada momento e se perpetuam por mais de 15 minutos.

“Woman down”, que abre os trabalhos com Alanis no palco depois de “I remain” cantada com ela no backstage, “Lens” e “Numb” comprovam a qualidade do novo álbum, que nada tem de diferente do ponto de vista musical dos seus últimos trabalhos, embora “Havoc and bright light” seja superior a “So-Called Chaos” (2004), talvez o mais fraco da cantora, e “Flavors of entanglement” (2008), que, aliás, não tiveram nenhuma canção tirada para as 20 do show.

O set, por sua vez, recebeu poucas alterações em relação ao show de Curitiba e ao segundo show de São Paulo. Aqui foi tocada “Celebrity” enquanto na capital paranaense Alanis cantou “Spiral” e na paulista “Edge of evolution”. No primeiro show em São Paulo, as mudanças foram maiores com quatro músicas que os cariocas não ouviram: “Perfect”, “Forgiven”, “Citizen of the planet” e “21 things I want in a love”.

Nada que fizesse os cariocas que encerraram a noite em êxtase cantando “Uninvited” e “Thank U” lamentarem. Enquanto isso, Alanis distribuía sorrisos e agradecimentos pela sempre calorosa recepção do seu público. Já a sua banda tirava fotos dos fãs, que deixavam o Citibank Hall satisfeitos por terem ficado no Rio no feriadão para se reencontrarem com a canadense.

Set list: I remain (part 1), Woman Down, All I really want, You Learn, Guardian, Flinch, Right through you, Hands Clean, So Pure, Celebrity, Ironic, Havoc, Head over feet, I remain (part 3), Lens, You oughta know, Numb, Hand in my pocket, Uninvited, Thank U.


Abaixo a íntegra do show: 



quinta-feira, 10 de maio de 2012

Marilyn, a mala

Michelle Williams e sua Marilyn Monroe
É um pecado, uma falha grave, mas vou confessar: conheço muito pouco do trabalho de Marilyn Monroe. Quase nada. Minha única e quase esquecida experiência com a mulher que tinha legiões de fãs no planeta na década de 50 do século passado foi ter visto em algum momento da minha vida “Quanto mais quente melhor” (1959), filme do qual eu mal me lembro da história.

Apesar de o seu trabalho ser quase desconhecido para mim, a presença de Norma Jeane Mortenson na cultura pop é tão grande, que parece que eu conheço a vida dela como se tivéssemos sido amigos de infância. Nasceu em Los Angeles, foi amante de John Kennedy, cantou aquele sexy “Parabéns para você” para o presidente, símbolo sexual, desejada por todos os homens da sua época, fotos nuas para a Playboy e, por fim, a morte por overdose de barbitúricos. Isso é basicamente um rápido resumo da atriz.

O que eu não sabia, e agora serei um pouco maldoso sim, é que Marilyn Monroe era uma mala sem alça, mimada, um tanto vazia e atriz até certo ponto medíocre. Essa foi a primeira impressão que o filme “Sete dias com Marilyn” me deixou. Ok, ela era uma mulher problemática, que tinha a clara necessidade de ser amada por todos para suprir a falta de amor que teve em casa na sua infância, adolescência e por aí vai. Quando Norma cresceu virou uma personagem. Mas no fundo era uma mulher tristemente frustrada porque todos amavam Marilyn e não Norma. Imagina o Édson em conflito com o Pelé com tinturas freudianas, entende?

Essa carência é outra ferida bem exposta no filme de Simon Curtis. Marilyn quer a atenção de todos e quase uma overdose de amor, um culto a si mesma para compensar as perdas da juventude. Tanto é que quando o jovem Colin (Eddie Redmayne, tão expressivo quanto um picolé de chuchu) se propõe a cuidar dela e a pede para largar a vida de estrela, Marilyn recua. Mas diante da postura do jovem de que então vai seguir a vida e não quer mais saber dela, a atriz pede ao menos uma “troca de olhares”. Norma não consegue largar a personagem mesmo na intimidade. E não tem pena dos corações que vai devastando no caminho, embora ela aparentemente não tenha consciência da dor que causa, pois na verdade se alimenta e precisa desse amor que a cerca.

“Sete dias com Marilyn” é um belo filme. A película se passa durante a gravação de “O príncipe encantado” (1957), cinco anos antes da morte da estrela. Naquele tempo, Marilyn, vivida por Michelle Williams, já era uma estrela mundial que buscava o reconhecimento artístico e contracenava com Laurence Olivier (Kenneth Branagh, o grande ator do filme), ator que tinha o respeito da crítica, mas almejava se tornar uma estrela do cinema.

O filme se centra na viagem de Marilyn para a Inglaterra e na sua experiência no set de filmagem inglês com Olivier e os conflitos com a forma de trabalho no set e o chamado método de Paula Strasberg, uma mala puxa-saco dela no filme, que era responsável por fazer uma atriz medíocre como ela ter momentos de brilho em suas películas por fazê-la aceitar, acreditar e “entrar no personagem”. Era o chamado “Método” que podia dividir os artistas e até dar uma impressão de propaganda negativa neste filme sobre a estrela hollywoodiana, mas muita gente boa o defende e é adepto. É o caso de Al Pacino. Já o vi dar entrevistas elogiando muito essa forma de trabalhar.

"Sete dias..." tem essa linha mestra centrada em Marylin Monroe, mas através dela várias camadas dramáticas vão se descortinando. O próprio Olivier revela a sua insegurança. Em 1957, ele tinha 50 anos e quis usar Marilyn não apenas para tentar finalmente se tornar um astro, mas também para parecer mais jovem num trabalho que ele já tinha tido sucesso de crítica através de uma peça de teatro em que encenou com a sua então mulher Vivien Leigh (Julia Ormond), estrela de, entre outros filmes, “E o vento levou...” (1939), e que foi rejeitada pelo próprio Olivier por ser muito velha para o papel no cinema. Na época ela tinha 44 anos e reconhecia com uma ponta de amargura não poder competir com a jovem estrela de apenas 31 anos.

E assim Curtis vai expondo as fragilidades destas estrelas. Se Marilyn é um poço de problemas que só sessões de análise resolveriam, Olivier também sofria por sua vaidade e temia ser esquecido por se achar já velho para as câmeras. Vivien, por sua vez, sentia-se rejeitada pela escolha do marido, tinha ciúmes, pedia para Colin vigiá-lo, pois claramente o marido desejava aquela jovem. E quem não desejava Marilyn na flor da idade? Três anos depois do lançamento do filme, Vivien se separou de Olivier.

Se Kenneth Branagh é o cara da película, Michelle Williams, de 31 anos, não fica muito atrás do ator. Marilyn Monroe talvez seja o seu grande papel na carreira até aqui. Michelle conseguiu mostrar as fraquezas da estrela que encantava Hollywood, assim como exibir a atriz que tinha um carisma sem concorrência no seu tempo. E sempre que necessário fazia a transição com extrema facilidade como na cena em que ela visita o colégio em que Colin estudou. Quando é reconhecida pelos alunos, a mulher que está ali encantada com a vida comum do seu colega, logo se transforma “nela”, distribuindo encantadores sorrisos e beijos para a plateia ávida por ter um pedaço de Marilyn para si.

Michelle não chegou a “incorporar” Marilyn como o “Método” exige, mas deu sua própria visão para a estrela 50 anos após a sua morte. De certa forma, Marilyn Monroe ganhou o amor e a admiração eterna uma vez que sua história ainda desperta muito interesse. Após as gravações de "O príncipe encantado", Marilyn ainda estrelaria mais três filmes. Entre eles "Quanto mais quente melhor", um dos seus grandes sucessos.

domingo, 29 de abril de 2012

Avante, Vingadores!

Rogers e Stark resolvem as diferenças
Até sentar a bunda na cadeira para escrever o roteiro de “Os Vingadores”, Joss Whedon tinha feito pouca coisa relevante na indústria cinematográfica. Filho e neto de dois conhecidos roteiristas de TV, Tom e John Whedon, ele seguia pelo mesmo caminho com “Buffy – A caça-vampiros” e outras séries de TV americanas. Mas também ensaiava novos voos ao ser um dos responsáveis pelo roteiro de Toy Story (1995), pelo qual concorreu ao Oscar em 1996.

Mas ai surgiu o projeto dos “Vingadores”, o grupo de heróis superpoderosos, uma espécie de Liga da Justiça da Marvel. E Whedon seria responsável não apenas pelo roteiro, mas pela direção do filme que era uma das grandes apostas para este ano.

Caberia a ele reunir em 2h e pouco alguns dos heróis mais famosos da Marvel para contar a origem do supergrupo após outros diretores filmarem as histórias de quase todos separadamente. Sendo que alguns foram bem sucedidos e outros não. O Homem de Ferro ganhou um bom filme e outro razoável com Robert Downey Jr., mas o Capitão América não teve a mesma sorte, com um trabalho sofrível. Os filmes do Hulk foram bons, mas nem Eric Bana, nem Edward Norton entraram no papel de Bruce Banner, que ficou com Mark Ruffalo. Já o Thor ganhou um filme razoável, com tintas shakespearianas, mas com uma atuação irregular do seu elenco.

Whedon seria responsável, portanto, por juntar todos estes elementos difusos, acrescentar outros personagens e bolar uma história que agradasse aos fãs de quadrinhos e aos não iniciados em um arrasa-quarteirão bom de público e de crítica.

O diretor americano não era um rauli no mundo dos quadrinhos. Já tinha escrito, por exemplo, histórias dos X-Men. Portanto, sabia do que os fãs gostam e não gostam. Faltava apenas dar liga a uma história que fosse palatável a todos os públicos sem ferir os "comic-xiitas".

E eu diria que Whedon conseguiu realizar o seu intento com louvor. “Os Vingadores” saiu da ilha de edição para o cinema como um dos melhores filmes sobre super-heróis dos quadrinhos já feitos desde que isso virou febre em Hollywood. Ao contrário de “Watchmen” e “Batman – Cavaleiro das Trevas”, que eram trabalhos mais focados no drama e em temas como o terrorismo, “Os Vingadores” aposta no humor para conquistar o seu público.

Os diálogos de Whedon são o grande herói do filme. São com eles que Downey Jr. deixa todo o sarcasmo de Tony Stark aflorar com frases como “Shakespeare no parque?” ou “Sua mãe sabe que você usa as cortinas dela?” ao se referir ao Thor ou em meio a uma discussão com o Capitão América, responde com “Gênio, playboy, milionário, filantropo” a uma pergunta sobre o que ele é sem a armadura do Homem de Ferro. Ou ainda “Eu sou fã da maneira como você fica nervoso” no seu primeiro contato com Bruce Banner.

O diretor também cria situações divertidíssimas que fizeram o público na sessão de cinema que eu estava reagir com aplausos. Mas não vou entregar as cenas aqui para não estragar a película para os que ainda não a viram.

Scarlett Johansson e sua Viúva Negra
O roteiro é o grande craque dos “Vingadores”, mas o filme tem outros pontos fundamentais que o fazem ser excelente. Um deles é a parcimônia no uso de efeitos especiais. Eles só entram quando realmente são exigidos, deixando o foco na história que já é por si só riquíssima. Isso, inclusive, torna o 3-D irrelevante. Eu vi numa sessão dessas, mas não perderia quase nada se tivesse visto numa sessão convencional. O 3-D aqui só serve para te tirar mais dinheiro no ingresso.

O segundo ponto está na atuação dos atores. Se Downey Jr. é a grande estrela do filme, até por ser o melhor ator em cena mesmo, Ruffalo se revela o melhor de todos os Bruce Banners/Hulks. Já Scarlett Johansson (Natasha Romanoff/Viúva Negra) parece estar se divertindo no meio daquela brincadeira de meninos enquanto Jeremy Renner (Clint Barton/Gavião Arqueiro) dá mais importância a um personagem que sempre foi coadjuvante nos Vingadores.

As grandes aquisições, porém, são as de Chris Evans e Chris Hemsworth. Depois de ver o desastroso filme do Capitão América e de saber que Evans tinha sido o Tocha Humana em outros desastrosos filmes do Quarteto Fantástico temia pelo pior. Afinal, Steve Rogers é peça fundamental nos Vingadores por ser o líder da equipe. Mas Evans se revelou bem mais à vontade na roupa do Sentinela da Liberdade. Nem parecia a figura patética do seu filme-solo.

Hemsworth, por sua vez, só não viveu o mesmo perrengue porque o filme do Thor era superior ao do Capitão América. Mas em “Os Vingadores” ele é outro que parece ter se sentido um pouco melhor no papel do filho de Asgard. Assim como Tom Hiddlestone, cuja interpretação é digna das vilanias e da vaidade de Loki.

Em “Os Vingadores” tudo dá certo. Por isso tem tudo para ser um dos filmes mais divertidos do ano. Whedon acertou em cheio nas suas escolhas e agora pode se cacifar para uma provável continuação da franquia. Mas enquanto ela não vem, o diretor vai brincar de “Shakespeare no parque” ao levar para as telas o texto do bardo inglês “Much ado about nothing”.

sábado, 21 de abril de 2012

O nome da banda é...

Os Ink Spots, grupo vocal dos anos 30 e 40
…The Ink Spots. Confesso que fiquei curioso ao ler a entrevista-ataque de Joaquim Barbosa com uma coisa. Afinal, que diabos é esse tal de The Ink Spots, que fez o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) se diferenciar do seu colega-arquirrival-inimigo-número-1, Cezar Peluso, como se o mundo se dividisse entre os apreciadores do The Ink Spots e o resto.

Para não sofrer "supreme bullying" dos meus colegas, fui pesquisar sobre o tal grupo que na entrevista virou o divisor de águas na rixa do STF. De onde veio, para onde foi e o que ele representa no cenário musical que vemos ai. É isso mesmo. Pensei numa pauta meio "Globo Repórter". Para tirar as minhas conclusões, li algumas coisas e consultei as duas Bíblias modernas. Obrigado, Google, também chamado de Velho Testamento. Obrigado, Wikipédia, também chamada de Novo Testamento. Por fim, encontrei coisas interessantes, ou nem tanto, sobre o tal "Manchas de Tinta".

Os Ink Spots foram fundados em 1931 em Indianápolis. Desde o início até o seu fim, em 1964, o grupo teve mais formações do que qualquer banda que você conheça. Mas originalmente os fundadores foram Orville “Hoppy” Jones (baixo), Ivory “Deek” Watson (vocal, guitarra e trompete), Jerry Daniels (vocal, guitarra e ukelele) e Charlie Fuqua (vocal e guitarra). Deek e Daniels faziam as vezes de tenores enquanto Fuqua era o barítono.

Outros seis músicos fizeram parte do grupo. E todos eles já estão mortos. O último a falecer foi Huey Long, em junho de 2009, aos 105 anos, quando os Ink Spots já tinham entrado para a eternidade no Hall da Fama dos grupos vocais (1999) e no prestigiado Rock and Roll Hall of Fame (1989).

Mas por que eles entraram num espaço que supostamente seria para o rock and roll? Ora, meus caros, porque os Manchas de Tinta são considerados uma importante influência para o bom e velho rock. Mais do que isso, eles são considerados um dos grupos que ajudaram a definir o gênero do Rhythm and blues (R&B), que, por sua vez, desembocaria no Elvis Presley rebolando, no Bill Haley e seus cometas contando as horas e no rock and roll que você passou a escutar desde aqueles mágicos anos 50 até o Jack White (and counting...).

É por isso que o grupo tem todo esse reconhecimento e o respeito do mundo do rock. E por isso que o Megadeth já gravou uma música usando um sample de “I don’t want to set the world on fire” na música “Set the world afire” (veja o vídeo no fim do post), do disco “So far, so good.. so what!” (1988). Quem diria que Dave Mustaine e Joaquim Barbosa tinham algo em comum. Embora eu não consiga imaginar o Mustaine cantando “If I didn’t care”, outro sucesso dos The Ink Spots, nem escondido no chuveiro.

É claro que eu não ouvi todas as canções do grupo para fazer esse post, mas escutei um número suficiente para dizer que as músicas do Ink Spots seguiam sempre um padrão. Um riff de guitarra no início bem tranquilo (afinal, estávamos nos anos 40, né, não dá para acelerar muito a batida), e a entrada de um dos vocalistas soltando a voz sempre estendendo a última sílaba das últimas palavras de cada frase/estrofe. Ali pelo meio, o cantor que fazia a segunda voz entrava quase declamando um texto com os demais tocando seus respectivos instrumentos ao fundo. No fim, repete o refrão, mantém o coro e pronto. Receita de bolo.

O padrão era esse e fez muito sucesso nas décadas de 30 e 40. E o mais importante para quem tentava fazer música nos Estados Unidos daqueles tempos: foi um grupo que fez um som extremamente bem aceito entre os brancos. Se isso não tivesse acontecido, provavelmente eles não tinham durado e Joaquim Barbosa ia ter que citar outra coisa para exemplificar suas adversidades com colegas de tribunal.

Embora tenham existido até a década de 60, o grupo concentrou a maior parte dos seus sucessos nas décadas de 30 e 40. Natural. Depois outros sons começaram a surgir e os Ink Spots passaram a fazer parte dos livros de história.

“If I didn’t care” foi a primeira canção a entrar nas paradas americanas, mas ficou em segundo lugar. Contudo cinco músicas do grupo atingiram o topo. A primeira foi “Adress Unknow", em 1939, mesmo ano de “If I didn’t care”. Também foram campeãs, “Whe Three” (1940), “The Gipsy” (1946) e “To Each his own” (1946) e dois duetos com Ella Fitzgerald: “I’m making believe” e “Into each life some rain must fall”.  

A última a figurar nas paradas americanas, mas numa modesta 23ª posição, foi (That’s just the way of) Forgetting you”, em 1952. Os Ink Spots começavam a sair de cena dando lugar a uma turma um pouco mais barulhenta e agitada.
   
Abaixo, o vídeo do Megadeth com a citação e canções dos Ink Spots.






















sexta-feira, 6 de abril de 2012

Entre muros e tijolos

Waters com o muro-telão ao fundo
Num determinado momento, ali pelo meio do show no Engenhão, uma amiga vira para mim e diz: "Esse cara fez muita análise". No que eu rebato: “Não, ele fez o "The Wall". Essa foi uma das conclusões que tirei ao ver de perto o espetáculo que Roger Waters fez no estádio no Rio de Janeiro.

Cinco anos depois de ter trazido para o Rio, mais especificamente na Apoteose, a íntegra do disco “Darkside of the moon” (1973) – e mais outras tantas canções num show de mais de duas horas -, Waters voltou à cidade desta vez para um projeto ainda mais ambicioso: expor suas vísceras novamente com a ópera-rock “The Wall”, disco igualmente clássico lançado em 1979 que foi idealizado principalmente por Waters, mas também contava com a fundamental participação de David Gilmour nas faixas mais conhecidas e que se eternizaram no coração dos fãs do Pink Floyd.

No Engenhão, Waters não está mais com os parceiros da velha banda Gilmour, Nick Mason e Richard Wright. Compensa a ausência do trio com nove músicos que o acompanham nessa jornada lisérgica que exorciza monstros interiores e aponta para as nossas fraquezas, temores e insignificâncias.

Além dos membros da turnê que passam o show erguendo o muro num espetáculo visual incrível (um dos muitos, aliás), estão ali para compensar a ausência do trio restante do Pink Floyd os vocalistas Robbie Wyckoff, Jon Joyce, Kipp Lennon, Mark Lennon e Pat Lennon, os guitarristas Snowy White e Dave Kilminster, que faz os solos de “Comfortably Numb” e “Another brick in the wall – part II”, o baterista Graham Broad, o guitarrista e baixista G.E. Smith e os tecladistas Jon Carin e Harry Waters, o filho do homem que vê ali do palco, enquanto toca, um pouco da história da sua família e de como papai via os vovôs.

“The Wall” é mais que um espetáculo musical. É uma experiência sensorial. É melhor do que qualquer filme 3-D que você tenha visto no cinema. Em todo lugar há o que ver e ouvir. É o som fantástico do álbum clássico de 81 minutos, é o muro que é construído, o muro que vira um mega telão, aviões que explodem no palco, caixas que se abrem, projeções, bonecos, um porco voador que denuncia o que a humanidade produz de pior e o absurdo som quadrifônico que o faz ouvir uma coisa a sua frente e outro atrás de você ao mesmo tempo criando uma atmosfera única. Com Waters nunca há problemas de acústica ou som ruim. Com Waters tudo é grandioso, perfeito, único.

“The Wall”, o show, assim como o filme de Alan Parker (1982) conta a história de um roqueiro decadente que perde o pai na guerra (o pai de Waters morreu na Segunda Guerra Mundial, quando ele não tinha nem um ano de idade) e cresce sob a superproteção da mãe, retratada na canção “Mother”, a quem ele dá uma alfinetada no show. O menino também não tem boas palavras a dizer aos velhos e opressores professores, que teimam em ensinar uma “no education”, mas não passam de tijolos nas paredes.

O músico cresce, tem uma vida hedonista com groupies enquanto vê a mulher se afastar dele. Até que percebe que ela faz falta e a implora para que volte. Tarde demais. Ele já está envolto num caos, mas precisa se reerguer para um último momento de brilho.

Tudo é perda na obra de Waters. Cada tijolo dessa parede metafórica que se ergue em torno do personagem central da trama é resultante das frustrações da vida do roqueiro que no filme é vivido por Bob Geldof.

Aqui o próprio Waters assume o personagem, que atualiza e potencializa a dor de sua parede com imagens de vítimas de violência, a começar pelo seu próprio pai e dando destaque ao brasileiro Jean Charles de Menezes, assassinado pela polícia britânica num metrô de Londres em 2005. O show é dedicado a ele, mais um tijolo estendido no muro marcado por sangue.

“In the flesh?” abre o show. De óculos escuros, sobretudo preto e uma faixa no braço indicando a “nova ordem” dos martelos cruzados, uma viagem nazista do roqueiro, que representa uma crítica à cegueira que o fã tem diante do artista numa linha meio “A Onda” (1981), Waters recebe o público com homens de bandeiras hasteadas, compasso militar e fogos de artifício. O show avança por “The Thin Ice”, “Another brick in the wall Part I” com as já citadas imagens de pessoas mortas por diversas formas de violência até desembocar em “The happiest days o four lives”.

Agora os “canhões” se voltam contra os professores e suas atitudes despóticas diante dos alunos. No filme, o jovem é humilhado pelo seu professor por estar escrevendo poemas ao invés de prestar atenção na sua aula sacal e insignificante. Na película, os versos que o professor lê são os de “Money”, que estaria no “Darkside of the moon”.

Em “Mother”, um boneco gigante com jeitão de charge surge para interpretar essa mãe que vigia o filho como um “Big Brother” (o de George Orwell, por favor). A palavra é riscada no muro e vemos “Big Mother is watching you” enquanto Waters questiona se ele deve construir o muro, sonhar com a presidência ou confiar no governo. O muro dá a resposta em inglês e em bom português: “Nem fodendo”.

Waters segue em sua jornada com críticas ao consumismo, aos dogmas e o enterro de seu personagem em uma vida tão vazia quanto hedonista. O muro está quase completo em “Don’t leave me now” e é fechado após “Goodbye cruel world”. Vinte minutos de intervalo depois, a banda retoma com “Hey you”, mas só a ouvimos. Eles tocam por trás do sufocante muro, que se transforma num gigantesco telão.

Waters em "Comfortably numb"
O período de isolamento só se encerra em “Comfortably Numb”, um dos momentos mais fantásticos, visualmente falando, do espetáculo quando Waters, cantando sozinho diante do muro gigantesco de repente soca a parede, que é implodida descortinando um novo e colorido mundo a ser explorado.

No fim, Waters veste novamente a capa de líder nazista, roqueiro preconceituoso que despeja o seu ódio em judeus, negros e homossexuais numa visão crítica dos fãs que seguem seus ídolos sem contestá-los. Isso acontece em “In the flesh”.

“The Trial” marca o julgamento do jovem que estava fechado no mundo e é condenado a se expor para a vida. É a senha para que o muro, agora sim, literalmente venha abaixo. “Outside the wall” encerra o espetáculo gigantesco com todos os músicos reunidos a frente do cenário de destruição. A ópera-rock de Waters está concluída deixando, paradoxalmente, felizes os que acompanharam essa jornada de dor e beleza irretocáveis.

Set list do show: “In the flesh?”, “The thin ice”, “Another brick in the wall part 1”, “The happiest days of our lives”, “Another brick in the wall part 2”, “Mother”, “Goodbye blue sky”, “Empty spaces”, “What shall we do now?”, “Young lust”, “One of my turns”, “Don’t leave me now”, “Another brick in the wall part 3”, “The last few bricks”, “Goodbye cruel world”, “Hey You”, “Is there anybody out there?”, “Nobody home”, “Vera”, “Bring the boys back home”, “Comfortably numb”, “The show must go on”, “In the flesh”, “Run like hell”, “Waiting for the worms”, “Stop”, “The trial” e “Outside the wall”.

Alguns momentos marcantes do show:
"Comfortably Numb"
"Another brick in the wall - part I"
"Mother"
"Another brick in the wall - part II"
"In the flesh"
"Young Lust"

quinta-feira, 8 de março de 2012

O cinema no tempo de sua bisavó

Dujardin e Berenice em "O Artista"
Há dois anos, quando deu a “Guerra ao Terror” o Oscar de melhor filme, a Academia, involuntariamente ou não, sinalizava que o cinema ainda era mais importante pelo seu trabalho de roteiro, direção e dos atores do que toda a tecnologia 3-D daquela bobagem chamada “Avatar”. Neste ano, embora uma produção em 3-D tenha sido uma das grandes vencedoras da noite, foi a celebração de um cinema feito no tempo da sua bisavó, poucas décadas depois dos irmãos Lumiére, que foi o grande vencedor da noite.

A tradição, a delicadeza e a sensibilidade do cinema mudo são os temas centrais de “O Artista” e “A invenção de Hugo Cabret”, dois bonitos filmes ainda em cartaz e que deixaram a festa no Kodak Theatre com dez estatuetas, sendo cinco para cada lado. Enquanto a produção fraco-belga faturou os prêmios de filme, diretor (Michel Hazanavicius), ator (Jean Dujardin), figurino e trilha sonora original, o trabalho de Martin Scorsese levou as estatuetas de fotografia, direção de arte, edição de som, mixagem de som e efeitos visuais.

“O Artista” é a homenagem de Michael Hazanavicius ao cinema mudo da Hollywood dos anos 20 e 30. No filme, ele conta a história de George Valentim (Jean Dujardin, muito bem num papel que ele não abandonou nem na hora de receber o Oscar), ídolo de toda uma era que começa a entrar em decadência com o início das produções com som. Mais do que se sentir deslocado, Valentin resiste à mudança e é ultrapassado na preferência do público e dos estúdios por sua fã e estrela em ascensão Peppy Miller (Berenice Bejo).

Lírico, o filme tem cenas maravilhosas como a de um desesperado Valentim que vê todos os objetos a sua volta finalmente emitirem algum som enquanto ele não consegue fazer nada sair de sua garganta. Uma grande sacada de Hazanavicius que trouxe a modernidade para a sua película muda para exibir os conflitos de um modelo que começa a ser abandonado por outro que indica a nova era do cinema.

Valentim entra em decadência, quase se mata, mas é finalmente salvo por Pepe, que lhe propõe um filme em que os dois atuem juntos. Mas ele não consegue falar. Não é desse tempo. É de uma era assaz morta. É ai que Pepe encontra uma saída e Valentim ganha uma sobrevida a ponto de finalmente conseguir falar, finalmente sair dessa prisão que ele se impunha para ser aceito pelo novo cinema que começa a surgir.

Cena de "Hugo Cabret" com Kingsley 
Scorsese volta ainda mais no tempo no seu lúdico “Hugo Cabret”. A história, que no início se desenhava como um filme fofinho em que o jovem Hugo (Asa Butterfield) tem que lidar com a perda do pai (Jude Law) e escapar do cruel inspetor da estação de Paris vivido por Sacha Baron Cohen para não parar em um orfanato, se transforma numa bela homenagem do diretor americano ao francês Georges Méliès. O ilusionista, que começou a fazer filmes no início do século XX, ficou conhecido por ser um dos primeiros cineastas a usar técnicas como a captura de frames de forma mais lenta, a sobreposição de imagens para gerar um truque de ilusionismo nos filmes, a substituição gradual de uma imagem por outra num processo chamado dissolução e a técnica de pintura dos filmes com a mão.

Visto hoje, soa ridículo e até patético diante da tecnologia que existe para se fazer filmes, mas era algo inovador quando Méliès fez trabalhos como “Uma viagem a Lua” (1902) e “A viagem impossível” (1904), dois dos seus mais famosos trabalhos entre os 531 filmes que dirigiu.

No filme, um Méliès melancólico vivido por Ben Kingsley sobrevive na estação de Montparnasse como um comum vendedor de uma loja de brinquedos. Sua vida é a neta Isabelle (Chlöe Grace Moretz) e a mulher Jeanne D’Alcy, atriz e sua musa nos tempos de cineasta. Essa história é verdadeira e capta junto com a do jovem Hugo o momento em que Méliès é revisitado por seus fãs.

O fã que vai resgatar Méliès no filme é o pesquisador Michael Stuhlbarg (Rene Tabard). Ele será o vetor do reerguimento do cineasta desgostoso da vida artística. É uma bonita história de paixão pela magia do cinema e uma celebração da sétima arte feita por Scorsese, que deixou um lado lúdico aflorar para prestar a sua homenagem ao cinema num filme completamente diferente daqueles que estamos acostumados a ver com o nome do diretor nos créditos.

Tanto “O Artista” quanto “Hugo Cabret” não olham para o passado com saudade, mas com deferência. Uma deferência que só os apaixonados pelo cinema têm. E pelo visto os velhinhos da Academia também curtiram muito as homenagens.


Abaixo, um dos mais famosos filmes de Méliès:


sábado, 3 de março de 2012

Um grande filme

De todos os filmes que eu já vi neste ano que ainda dá seus primeiros passos (foram uns 20), sentia falta de um que eu pudesse chamar de um grande filme. Gostei muito de "O espião que sabia demais" e "Os homens que não amavam as mulheres", mas ainda não eram aqueles que eu podia chamar de "O filme". Nesta semana, vi um que finalmente me arrebatou. “Drive” não concorreu ao Oscar nas principais categorias - recebeu apenas uma singela e escondida indicação em Edição de Som -, mas é melhor do que oito dos nove filmes que disputaram a estatueta de melhor filme conquistada por “O Artista”. “A árvore da vida” é de outro patamar acima. O da genialidade.

Quando os indicados ao prêmio da Academia foram divulgados, houve alguma gritaria pela não indicação de Albert Brooks ao prêmio de ator coadjuvante. Realmente ele não deve nada a Jonah Hill, Nick Nolte ou Max von Sidow, para ficar apenas nos filmes que eu vi. Talvez Brooks merecesse até levar o prêmio que foi faturado por Christopher Plummer. Algo que só posso garantir depois de assistir a “Toda forma de amor”. Seu trabalho é marcante e o caráter do seu personagem pode ser resumido na cena que aparece no trailer. Quando vai cumprimentar o protagonista do filme, que inicialmente rejeita apertar a mão do sujeito, pois diz que suas mãos "estão um pouco sujas", uma vez que estava mexendo no carro, ele responde: "As minhas também". Tudo isso fazendo aquela cara de "não sou flor que se cheire".

“Drive” tem uma certa aura daqueles filmes dos anos 70 mais crus e sem muita verborragia. O diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn economiza nos diálogos e foca mais nas expressões e nas imagens para contar a sua história.

História que começa com uma cena daquelas que marcam por sua maestria. Logo no início conhecemos um motorista sem nome que de dia trabalha como dublê de filmes de ação ou em uma oficina mecânica e de madrugada auxilia bandidos a fugirem após cometerem seus assaltos numa desértica Los Angeles.

Vivido por Ryan Gosling, o motorista é de uma impavidez e sobriedade de quem dirige levando madames ao shopping center. Palito nos dentes, um olho fixo no relógio marcando o tempo que os clientes devem voltar para que eles possam escapar da polícia, o outro nas estradas, os ouvidos no rádio da polícia e a mente de quem tem o mapa da cidade na cabeça, o motorista é de uma calma e suavidade que só os mais frios têm em situações de muita tensão.

A primeira cena é antológica. Algo dá errado com os bandidos para quem ele está dirigindo e Gosling tem que usar de toda a sua perícia para escapar até de helicópteros. Passa por baixo de viadutos, se esconde atrás de caminhões em ruas escuras. Seu carro sequer faz barulho. É discreto como o próprio motorista.

Diante da inevitabilidade de cumprir o combinado por falha do quem o contratara, traça uma estratégia simples. Simplesmente se mistura na multidão de um jogo qualquer em um estacionamento e sai antes que a polícia possa pegá-lo. Os bandidos? Não sabemos o que aconteceu. E nem importa. Embora seja possível concluir que foram presos. Desde o início, porém, o que se quer saber mesmo é quem é esse motorista misterioso que pouco fala e dirige com a sensibilidade de quem conduz uma mulher numa dança.

Ele, no entanto, está disposto a largar essa vida paralela. Quer aproveitar que o dono da oficina pretende investir em uma equipe de Nascar e tê-lo como piloto. O dinheiro virá mais fácil e poderá até, quem sabe, se dar ao luxo de ter uma vida feliz com a jovem Irene (Carey Mulligan), sua bela vizinha que parece estar gostando dele.

Só que nada nessa vida se consegue sem dinheiro. É ai que seu chefe, Shannon (Bryan Cranston), entra em cena para pedir uma verba a Bernie (Brooks), homem que tem ligações com a máfia de L.A. Ao mesmo tempo, porém, o marido de Irene volta da cadeia e está sendo ameaçado pela mesma máfia a pagar uma dívida de US$ 20 mil que cresce diariamente. Um novo golpe é preciso, as duas histórias vão se cruzar e o apaixonado motorista vai entrar mais uma vez em ação para ajudar o marido da moça que ele gostaria de ter em seus braços apenas para proteger ela e o seu filho.

É aqui que “Drive” vira quase um filme de Quentin Tarantino. Refn não economiza no sangue gasto enquanto o motorista tenta sobreviver enfrentando os mafiosos. Torna-se um vingador em busca da própria sobrevivência e para manter as pessoas que ele gosta vivas.


Ele sabe que por mais que exista uma promessa, é difícil ter a certeza que Irene será mantida viva depois de tudo o que acontecera. Por isso está disposto a se sacrificar. É um herói improvável no seu carro pelas estradas de Los Angeles. Estradas que agora são a sua única casa enquanto ele viver.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Entre quadrinhos e cavalos

O jovem e seu amado cavalo: argh!
É raro ter no cinema dois filmes do mesmo diretor passando ao mesmo tempo. Ainda mais raro é o diretor cometer tantos equívocos e errar duas vezes com as suas películas fazendo dois trabalhos bem fracos. Essa é a marca que Steven Spielberg conseguiu com “Cavalo de Guerra” e “As aventuras de Tintim”.

Eu não gostei de “Cavalo de Guerra” com três minutos de uma película que é beeeem longa. Aquela imagem de campos verdes com a câmera voando e com cavalos quase virgens cavalgando numa celebração da liberdade enquanto a música de John Williams ecoava forte, bem forte, nas caixas de som como se fazia nos filmes dos anos 40 e 50, me deu náuseas. Embrulhou o estômago mesmo.

E nas 2h30m subsequentes, “Cavalo de Guerra” só comprovou sua ruindade nas atuações, na pieguice, enfim, é o pior filme que o diretor já fez. Peraí, pior filme? Sai do cinema com essa sensação, mas será que era para isso tudo mesmo? Tudo bem, Spielberg fez “E.T.” (1982), mas até o alienígena conseguia ser mais simpático do que o filme dos cavalos.

Com medo de ser traído pela minha mente, fui consultar a Bíblia do cinema. Leia-se o site “Imdb”. Estão ali. Cinquenta filmes como diretor. Entre eles algumas coisas muito ruins como “Guerra dos mundos” (2005), outras que não fedem nem cheiram como “Prenda-me se for capaz” (2002) ou “O Terminal” (2004), filmes que gosto muito como “Munique” (2005), “A.I. Inteligência Artificial” (2001) e “O resgate do Soldado Ryan” (1998) e outros muito bons como “O império do sol” (1987), “A lista de Schindler” (1993) e “Amistad” (1997). É, Spielberg, você já fez coisa muito melhor.

Após uma acurada análise nos filmes dele que já vi pude concluir com segurança: “Cavalo de Guerra” definitivamente é o pior filme do diretor americano de 65 anos. Tudo ali dá errado. Da direção ao roteiro de Lee Hall e Richard Curtis. Sem contar as atuações lamentáveis. A começar pelo protagonista Jeremy Irvine, o jovem Albert Narracott, que desde cedo se apaixona pelo tal cavalo do título.

Depois que o pai resolve comprar o animal fraco só para não se render aos caprichos financeiros do senhor feudal da região, Albert promete domá-lo e fazer arar a terra mesmo fora de época e num terreno muito ruim. Mas milagres acontecem nos filmes de Spielberg. Chove. Chove muito e a dupla que estava sendo ridicularizada pela população local dá a volta por cima mostrando que persistência é uma virtude dos nobres.

Será a primeira tentativa de Spielberg de nos emocionar. A chuva que salva é a mesma que devasta, no entanto. A colheita não pode ser feita e para pagar o aluguel, Ted (Peter Mullan) precisa vender o cavalo que o filho tanto ama.

A primeira guerra mundial se aproxima e o cavalo vai para o exército. Mas com a promessa de Albert de que um dia eles iriam se reencontrar. Assim que o garoto puder se alistar no exército.

O cavalo faz amizade com outros de sua espécie (sim, o cavalo é quase humano), eles se cuidam, passam pelo exército inglês, pelo exército alemão e o tal cavalo tem, digamos, “a guarda” disputada por um inglês e um alemão num momento de bandeira branca em meio as putrefatas trincheiras. É uma das cenas mais patéticas que eu já vi. Passada, aliás, depois de outra cena igualmente patética do cavalo cavalgando desesperadamente para fugir da loucura da guerra, mas acabando preso no arame farpado das trincheiras.

Mas Albert só quer saber de encontrar o seu querido cavalo, cuja imagem ele guarda na carteira com o mesmo amor que os outros soldados guardam lembranças de esposas e namoradas.

No fim, é claro que tudo ficará bem e terminará com uma tomada em outra nauseante cena de pôr do sol. Como alguém não virou para o Spielberg e disse que estava tudo errado ali?

Tintim é simpático, mas o roteiro é confuso
Esse mesmo indivíduo deveria ter sido crítico com “Tintim”. Ao contrário de “Cavalo de Guerra”, “Tintim” não é um desastre, mas também não figuraria na minha lista de 50 animações a serem vistas antes de morrer.

O problema no filme baseado nos quadrinhos do belga Hergé é o roteiro confuso de Steven Moffat, Edgar Wright e Joe Cornish. Talvez não tenha sido uma boa ideia fazer uma película baseada em três histórias de Hergé. Deixou o filme com uma história meio capenga e confusa.

Mas ao contrário de “Cavalo de Guerra”, “Tintim” tem seus bons momentos, com passagens divertidas que não causam asco como no trabalho sobre o cavalo. Diante da concorrência, até poderia ter recebido uma indicação ao Oscar de animação. Afinal, “Kung Fu Panda 2” está lá, meus amigos. Mas a academia não gostou do simpático jornalista e preferiu dar seis indicações ao cavalo e seu dono chorão contra apenas uma técnica para “Tintim”. Uma das indicações ao cavalo, inclusive é para melhor filme. Eu sinceramente não sei onde os velhinhos do Oscar viram tanta qualidade no trabalho de Spielberg.

Indicações ao Oscar de “Cavalo de Guerra”: Melhor filme, direção de arte, fotografia, trilha sonora original, edição de som, mixagem de som

Indicação ao Oscar de “As aventuras de Tintim”: Melhor trilha sonora original.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

O "Miss Sunshine" da vez

Clooney e Shailene no paradisíaco Havaí
Volta e meia o Oscar aparece com um filme fofinho, comédia leve e divertida e que tem uma lição positiva no fim concorrendo ao prêmio de melhor filme. Foi assim em 2007 com “Pequena Miss Sunshine” e no ano seguinte com “Juno”. Em 2010, “Amor sem escalas” chegava perto do gênero. Agora é a vez de “Os descendentes”.

Estrelado por George Clooney e passado em belas paisagens do Havaí (que vontade de conhecer o arquipélago), o filme de Alexander Payne recebeu cinco indicações ao Oscar, sendo até mais bem sucedido do que os três filmes citados acima em relação ao número de estatuetas a disputar. Resta saber se a película sairá com algum prêmio entre as indicações.

Se a minha opinião valesse mais do que uma nota de R$ 3, o filme sairia de mãos vazias da festa. Não que “Os descendentes” seja ruim. Mas tem concorrentes melhores.

O filme conta a história do riquinho Matt King. O advogado vivido numa boa por Clooney tem uma esposa que está à beira da morte após um acidente no mar e precisa reconstruir sua relação com as duas filhas, Scottie (Amara Miller) e Alexandra (Shailene Woodley). Ao mesmo tempo, Matt precisa decidir com uma penca de primos que vestem bermuda e camisas floridas a venda de uma área ainda virgem no Havaí que será transformada em hotéis, parques temáticos e tudo aquilo possível que serve para dar dinheiro.

Só que sua filha lhe faz uma revelação. A mãe ali agonizando no hospital não é flor que se cheire e estava dando bola nas costas do marido com um corretor de imóveis. Sim, Payne vende a ideia que Clooney também pode levar bola nas costas.

Essa é a senha para Clooney mostrar os valores de ser bom, praticar o bem e fazer a coisa certa, por mais bizarro que algumas de suas decisões possam parecer. E isso vale tanto para como ele vai lidar com a traição, quanto com a relação com as filhas e a venda do terreno. No meio disso tudo, algumas boas e divertidas cenas, piadas leves e a conclusão de que “Os descendentes” é um filme família.

Clooney está bem no filme? Sim (com sorriso amarelo e sem muita animação nesta afirmação). Mas tem trabalhos melhores. “Um homem misterioso” (2010) é um dos meus favoritos. Também gosto muito de “Conduta de risco” (2007), “Syriana” (2005) e "Boa noite e boa sorte” (2005), de modo que não concordo com o merchandising do filme que diz que é a melhor atuação da carreira dele. E se fosse para comparar com os filmes do Oscar que eu vi, Gary Oldman está melhor em “O espião que sabia demais”.

Mas nenhuma ressalva que eu possa fazer tira de “Os descendentes” a aura de filme fofo da vez. É uma boa diversão e em breve estará passando na TV na sua “Sessão da Tarde”. Tire folga no dia e divirta-se.

Indicações ao Oscar: melhor filme, diretor para Alexander Payne, ator para George Clooney, roteiro adaptado e montagem.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

De profundis. Or not

Pintura de Edvard Munch
- Afinal, qual é o sentido da vida?

A pergunta caiu como uma bomba na mesa do bar em que os quatro amigos se encontravam todo mês. Há relatos de que até os copos de cerveja transpiravam de tensão. Uma licença poética que ignorava o calor senegalês que fazia no Rio de Janeiro.

- Eu falo sério. O que faz, eu, você ou ele levantarmos diariamente cedo, encararmos engarrafamentos monstruosos para trabalhar feito cornos. Todo dia sempre igual. De segunda a sexta. Sem falar alguns fins de semana e feriados. Para que fazemos isso tudo? Por que fazemos isso tudo? Foi só para isso que aquele macaco lá atrás resolveu começar a andar, desenvolver o raciocínio e botar para funcionar o seu telencéfalo altamente desenvolvido e a porra do polegar opositor?

João Luiz era o filósofo da turma. Formado em História, cineasta frustrado, escritor com bloqueios que o deixavam ansioso, achando que nunca mais conseguiria fazer algo decente diante do computador, era um professor dedicado de uma faculdade particular. Querido pelos alunos e pelos colegas, parecia pronto a mudar o mundo com suas ideias a cada vez que atravessava a rua.

Era um iconoclasta. E se achava um fracassado por mais que tivesse sucesso no trabalho, bons amigos e realizasse os sonhos que ele podia realizar com o salário que ganhava. A ideia de dirigir uma Ferrari ou um Aston Martin nunca esteve nessa lista de sonhos possíveis.

Mas uma frase tão enigmática quando profunda como aquela deixou seus amigos preocupados. Parecia o primeiro passo para um ato final shakespeariano do suicídio.

- O que você tem, bicho? A vida tem todo sentido. Você não está feliz em estar aqui com a gente, tomando uma gelada, nessa night gostosa?

Esse é Roberto. Mais velho da turma, nasceu no mesmo dia que o cantor Roberto Carlos uns 35 anos depois. A coincidência não deixou dúvida para a sua mãe, fã do Rei. Melhor para ele. Do contrário, receberia o nome de um dos avôs numa curiosa disputa de cara ou coroa em plena maternidade. E, convenhamos, ser chamado de Atanagildo ou Florisberto ia, no mínimo, causar sérios problemas para a criança.

O Rei salvou a sua vida, mas deixou sequelas graves. Uma delas é a cada três frases usar o termo “bicho” que nem o Roberto Carlos deve falar mais. Produtor de TV, Roberto já tinha feito uma série de programas sobre a Jovem Guarda. É um fã a serviço do ídolo, mas também um bom amigo. Talvez o melhor de João Luiz.

- Bicho, a vida é amor. Você está aqui interagindo conosco e com a sociedade para ajudar a criar um mundo melhor para os seus filhos. As suas aulas são a sua contribuição para este mundo novo que surge a partir dos teus atos. Bicho, tudo é muito astral... Você não sente isso? Essa energia que nos move?

- Poucas vezes em ouvi tanta bobagem. Só faltou você citar que Deus nos criou a sua imagem e semelhança – rebateu de primeira Rogério.

Rogério é cientista, niilista e ateu. Todo o papo flower power de Roberto o dava azia. É prático, cartesiano e, principalmente, kantiano. O baixinho de Kögnisberg era o seu ídolo, a ponto dele saber citar de cor trechos da “Crítica da Razão Pura” ou da “Fundamentação da Metafísica dos Costumes”. João Luiz, no entanto, gostava de dizer que Kant estava mais para o seu Deus só para provocá-lo. Rogério é tão kantiano que tem um hábito bizarro. Todo dia, no mesmo horário, caminha pela Lagoa. Até ai, nada demais. O problema é que ele não faz isso por causa do exercício em si, mas porque Kant, quando vivo, lá no século XVIII, fazia o mesmo pelas ruas da sua cidade na antiga Prússia a ponto da população local acertar os seus relógios a partir das passadas do filósofo.

Se o Rio de Janeiro soubesse daquele segredo de Rogério como os três amigos da mesa, também faria o mesmo com o seu relógio.

- Kant dizia: “Eu dormi e sonhei que a vida era beleza. Acordei e notei que a vida era dever”. É isso, meu caro. E não adianta procurar tal explicação para o seu dilema porque você não vai encontrá-la. Talvez o propósito não seja questionar qual é o sentido da vida, mas como você a faz ter sentido. Ou o que você fará para dar a ela algum sentido.

- Eu tenho 30 anos e não fiz nada de relevante. O que o faz crer que nos próximos 30 eu farei algo?

- João, estamos aqui há uma hora e meia. E eu não bebi o suficiente para ter afetada as minhas funções matemáticas. Cinco ex-alunos seus fizeram questão de parar aqui para te cumprimentar. Você de alguma forma marcou a vida destas pessoas e as ajudou a torná-las melhor, mais divertida ou a tê-las mais sapiência. Isso sem contar aquelas duas mulheres que você fez questão de NÃO nós apresentar.

- Bicho, a loura tinha os peitos maiores do que os da Wanderléia!

- E a morena com aquele olhar de Rita Hayworth em “Sangue e Areia”? Divina e pura sensualidade como uma Gilda do século XXI.

Até então Walter José estava quieto. Mas quando se trata de falar de mulher, ele sempre se manifesta. Walter é cineasta e tem prazer em filmar tudo o que diz respeito ao universo feminino. Trata mulheres com lirismo. São poesias vivas e sua única inspiração.

- Você está em crise, João. É a crise dos 30. Ela passa. Vai por mim. Estou com 33 e bebo aqui sem culpa enquanto penso no meu próximo filme e na minha próxima mulher. Não necessariamente nessa ordem.

Galã da turma e com nome de astro da Hollywood dos anos 40 – pelo menos é assim que ele gosta de imaginar -, Walter se vê como um Cary Grant ou um Clark Gable melhorado (mas os amigos dizem que ele não passa de um Mazaropi pós-moderno). Boêmio, um tanto fanfarrão, mas divertido, era a face vídeo-intelectual do grupo, sendo capaz de citar diálogos inteiros de cenas de filmes de Fellini, imitando os atores envolvidos, o que era sempre garantia de diversão.

- A vida, meu caro, não tem um sentido único. É você que o constrói a partir do uso que faz destes anos que teve, tem e terá a partir do momento do seu nascimento. Questionar um sentido para ela, me soa como sintoma de depressão. E um passo para o suícido, pois se você questiona um sentido para ela dá margem a questionar todo o resto e ficará paralisado.

- A questão não é - retrucou João - dar cabo da vida porque eu posso estar vendo alguma falta de sentido nela. O que eu questiono é a razão de todos os meus atos. Ou dos nossos atos. Com que objetivo eu levanto, me alimento, trabalho, saio no fim de semana, vejo um filme ou não. Vou a um show ou não. Qual o motivo da minha existência? Por que eu estou aqui?

- Você não deve fazer estas perguntas, porque muitas delas não têm resposta. Você deveria procurar ser feliz, bicho.

- Mas o que é a felicidade, Roberto?

Nesse momento, Roberto vira para Walter e diz:

- Maldito Sócrates! Eu falei que você não devia tê-lo apresentado aos diálogos de Platão.

- Certa vez eu conheci um guia turístico que devia ter a minha idade numa ilha que visitei nas férias. O lugar era paradisíaco com uma água de um azul mais azul que os olhos da Kate Winslet. Ele ficava ali de bermuda e camiseta ensinando a história da ilha para nós turistas num inglês bem aceitável. Tinha uma serenidade que eu não tenho. Ou sequer acho que possa ter tido mesmo num momento em que eu poderia estar mais perto da plena felicidade em que o ser humano pode alcançar. Ele parecia ser feliz e não ter angústias. Era um estado de plenitude. Tudo isso sem toda a I-tecnologia, sem carro, sem nada de extra. Apenas ali, ele de bermuda, chinelo e camiseta e o mar a sua frente. 

Roberto e Walter observam o desabafo de João aparentando não saber mais o que fazer para animar o amigo. Rogério, no entanto, arrasta o copo uns dois palmos na mesa, vira-se para João e, olhando nos seus olhos, diz:

- A felicidade é um ponto fora da curva numa escala de tormentos e provações pelas quais o ser humano passa. É impossível ser feliz. Todavia, você pode estar feliz. Só que buscar isso, paradoxalmente o trará angústia e infelicidade. Kant dizia que “a felicidade não é um ideal da razão, mas sim da imaginação”. Ou seja, o que discutimos aqui é uma abstração difícil de chegar a uma conclusão. Trocando em miúdos, estamos perdendo tempo dando círculos numa versão pasteurizada do eterno retorno nietzschiano.

- Resumindo o que o Rogério disse, deixe a vida te levar, meu caro. Entra no carro e segue pelas curvas da estrada de Santos sem olhar para trás, bicho.

- Mas com que motivação eu entro nessa estrada? Por que pegar o carro para o desconhecido?

- E há algo melhor e mais excitante do que embarcar no desconhecido? Já imaginou se o Frodo tivesse continuado naquela área idílica da Terra Média? Nunca teria conhecido o lado bom e o lado ruim de tudo naquela aventura. Ele sofreu muito, ganhou e perdeu, mas saiu maior do que entrou. Arriscar é preciso. Sempre.

As palavras de Walter não trouxeram conforto nem solução para as questões de João. O cineasta rebateu dizendo que a arte nunca visa o conforto, mas o incômodo.

- Olha, não sei a que conclusão chegaremos aqui, nem se chegaremos a ela. Mas sei de uma coisa. Esse papo meio “Ponto de Mutação” me deixou com fome. Ainda servem aqui aqueles bolinhos de bacalhau divinos?

- Claro que sim, Roberto! Aquilo é praticamente a definição de felicidade e o sentido da vida que o nosso amigo aqui tanto procura.

Enquanto Walter pede os famosos bolinhos da casa, Rogério vira para João e resolve propor um brinde à vida e à sua total falta de sentido.

- Mas ainda assim, é o nosso bem mais valioso.


E todos finalmente concordam com uma coisa. Os bolinhos de bacalhau realmente são divinos.