sexta-feira, 21 de março de 2014

Axl Rose de novo

Axl se esforça para agradar
Quando Adriana Calcanhotto cantou que cariocas não gostam de dia nublado, nem sinal fechado, devia ter rimado isso tudo com cariocas adoram chegar atrasado. Sim, pois pontualidade não é uma qualidade do carioca. Pelo contrário, eles acham isso charmoso. Não sei para quem. Certamente não é para quem espera.

Axl Rose também deve achar charmoso chegar atrasado aos seus compromissos. Tenho quatro shows do Guns N'Roses nas costas. Todos em sua versão banda cover (fazer o que? Infelizmente nasci na época e lugar errados). Se eu juntasse todas as horas que eu esperei para ver a diva do Axl Rose subir ao palco e convertesse em horas de voo daria para chegar a Berlim.


Axl é o mais carioca dos habitantes de Indiana. Não apenas porque chega atrasado, mas também porque adora vir ao Hell de Janeiro. Esta é a sétima vez por aqui. Esqueçamos os motivos financeiros.


O cantor cuja voz e a cintura já não são as mesmas por causa do peso de 52 anos de vida intensa, devia ao Rio um show minimamente decente depois daquela pavorosa sessão de horror do Rock in Hell 2011.


Por enquanto o placar shows ruins x shows bons estava 2 a 1 para o time dos detratores e ele precisava tentar empatar a partida. Só posso falar do que eu vi. Então outros shows antes de 2001, quando os vi pela primeira vez, não entram.


Começou mal novamente ao atrasar a entrada ao palco em 1h50min. Continuou derrapando ao abrir com uma música do "Chinese Democracy", o disco que levou 14 anos para ser feito e, apesar de um tempo que sugere uma ourivesaria na construção de um álbum, não deu em um resultado satisfatório não. É um disco para dias nublados.


Mas aí veio o riff de "Welcome to the jungle", a canção-homenagem ao Hell de Janeiro. "You know where you are!!!", se esgoela Axl. "You in the jungle, baby", continua o cantor. É nos sabemos.


"Welcome to the jungle" é a deixa para a galera se empolgar e para Axl executar pela primeira vez a sua dancinha da enguia. O resultado é caricato, mas a gente se diverte mesmo assim.


A partir daí vem uma pedrada atrás da outra com o que tem de melhor nos três discos espetaculares do Guns N'Roses: "Appetite for destruction" (1987) e Use your Ilusion I e II (1991). Tempos em que o Guns era dono do mundo com sua formação clássica com Slash e Gilby Clark nas guitarras e Duff McKagan no baixo.


Os três brigaram com o dono da marca e foram para novos desafios. Vieram o baixista Tommy Stinson e os guitarristas Richard Fortus, DJ Ashba e Ron Bumblefoot. Além do baterista Frank Ferrer. Mas a bateria nunca foi o forte do Guns. Qualquer um podia sentar ali. Até o Ringo Starr. Todos estão há mais tempo na banda que os originais. Sinal que a idade deixou Axl mais tolerante ou são todos masoquistas.


Os três guitarristas do Guns são bons. E Axl tenta mostrar isso para a galera dando a eles generosos espaços no show. Tempo bom também para ele descansar a combalida garganta. É um esforço grande para que a galera esqueça o Slash. Mas acho que não vai rolar.


Ashba usa chapéu e é responsável por alguns riffs clássicos, como o de "Sweet Child O'Mine". Por vezes toca com a guitarra erguida e, enfim, já deu para perceber que ele faz o cover do Slash.


Fortus também tem seu espaço, mas o responsável pela maioria dos solos mais conhecidos do Guns é Bumblefoot. Com seu apelido esquisito e sua barbicha de sábio chinês de filme de espadachim, ele é o verdadeiro cara na banda. O cidadão que executa com perfeição os solos da belíssima "Estranged", por exemplo. E que toca com perfeição o hino nacional na guitarra.  Desnecessário esse toque de brasilidade, mas o povo curtiu.


E assim o Guns foi passando pela HSBC Arena, o menor lugar que eu os vi tocar. Clássicos aqui ("November Rain", a foda "Nightrain", "Patience"), músicas do "Chinese Democracy" ali, numa pausa para os fãs irem ao banheiro ou comprarem cerveja... para tudo se acabar na apoteose de papel picado de "Paradise City".


Axl não é mais o mesmo. Nunca mais será. Sua voz nunca mais fará aquelas estripulias. Para isso, você terá que se contentar com os discos e shows antigos. Mas pelo menos dessa vez entregou um show digno. Não errou nada, a banda esteve bem e ele estava até bem-humorado. Podemos dizer que a partida ficou empatada em 2 a 2.


A corneta musical agora faz as contas. Um ponto perdido por hora de atraso, problemas aqui, coisas positivas ali, e a nota para Axl Rose e sua banda é 6. Agradável, sem empolgar.

quarta-feira, 12 de março de 2014

'Walt nos bastidores de Mary Poppins'

Disney joga aquela lábia em Travers
Walt Disney é o Lair Ribeiro da criançada da minha geração. Guru da autoajuda, moldou baixinhos por décadas com suas produções com mensagens positivas de harmonia, fraternidade, tolerância (quem não tinha simpatia pelo Bambi?) e amor. Tá, esqueçam o Tio Patinhas e seu modelo selvagem de concentração de renda.

Na nossa tenra infância não tínhamos tempo nem conhecimento para questionar por que o Pateta falava e o Pluto não. Ou por que o Mickey Mouse, o Didi Mocó dos cartoons, usava short e o Pato Donald não. Muito menos por que Huguinho, Zezinho e Luizinho viviam mais tempo com o tio do que com o pai. Disney dominou os corações e mentes infantis até a invasão japonesa. Nunca mais fomos os mesmos quando o Jaspion chegou. Mas isso é papo para outro post.

Mas Disney (Tom Hanks) também era um cara chato, insistente (além de fumante e alcoólatra), que fazia qualquer coisa para conseguir o que deseja. Mesmo coisas que não fossem muito éticas. Foi assim que ele conseguiu dobrar a escritora P.L. Travers (Emma Thompson) depois de 20 anos e transpor o livro "Mary Poppins" para o cinema.

"Mary Poppins", o filme estrelado por Julie Andrews e lançado em 1964, é fofo, bonito e tem belas canções. É um filme com o selo Disney de qualidade, que mostra que a vida é lúdica e no fim tudo acaba bem. E "Walt nos bastidores de Mary Poppins", o filme que conta a história de como o filme foi feito? É fofo, bonito e, bem... as canções são as mesmas.

Baseado nas próprias gravações que Travers fez para fazer as correções no roteiro de "Mary Poppins", que considerava pífio e uma grande bobagem capitalista do bobo alegre Disney, o filme não é um grande desafio artístico, mas tem duas qualidades interessantes. Vamos a elas:

1) Para quem viu "Mary Poppins", e aconselho a ver a película antes de assistir a este trabalho, é interessante identificar trechos da história no filme e na vida de Travers. Descobrimos inclusive quem é a real Mary Poppins (se é que o filme é verídico nesta parte).

2) A atuação de Emma Thompson é emocionante. Você consegue gostar dela mesmo ela sendo uma mala sem alça.

Ah, mas o filme não mostra o quanto o Disney era isso e aquilo... blábláblá.... Ora, esse não era o foco do trabalho de John Lee Hancock, que claramente estava mais preocupado em mostrar aquela passagem da vida de Travers num filme em que Disney não passa de um coadjuvante.

Além disso, algumas de suas bizarrices estão lá mostradas de forma sutil, bem sutil, quase esfíngica. Até quando ele não quer saber mais de Travers depois que finalmente consegue os direitos da história. E também não seja tolinho. Você acha que um filme do estúdio vai mostrar seu fundador caindo de bêbado na esquina ou não sendo lá muito ético? Seria o mesmo que... Bem, não vamos falar das relações promíscuas em outras áreas.

Se "Mary Poppins" é a história da salvação da alma de um pai negligente com seus filhos, "Walt nos bastidores de Mary Poppins" celebra o reaquecimento do coração e a redenção - e os filmes Disney adoram isso - da própria Travers.

A escritora começa a ver o mundo com outros olhos a partir de Ralph (Paul Giamatti, o cara que consegue fazer qualquer personagem ser interessante), o motorista que a guia para baixo e para cima em Los Angeles e tolera suas grosserias sempre com um sorriso no rosto. No fundo, talvez ele identifique nela uma alma bondosa.

Mas o papel mesmo de Mary Poppins, aquele que vai livrar Travers dos fantasmas do passado, vocês sabem de quem é né? É claro que fica com Walt Disney. (Pausa para dizer umas verdades: nunca houve o passeio dos dois pela Disneylândia)

Assim, Disney vira o homem que salva o dia. Ok, mas não pensem que Travers ficou 100% satisfeita com o resultado final de “Mary Poppins”. A necessidade de pagar as contas da casa a obrigou a fazer concessões. E Disney também deu umas passadas de perna nela que nunca são mostradas no filme.

Quando voltou a viver no azul, Travers autorizou que Mary Poppins virasse um musical no teatro. Mas deixou claro em contrato de que não queria qualquer participação dos irmãos Richard e Robert Sherman, responsáveis pelas canções do filme. Sinal de que ela tinha algumas coisas a dizer sobre a produção da Disney. E não era supercalifragilisticexpialidocious.

E a corneta tem uma nota para dar. "Walt nos bastidores de Mary Poppins" ficará com um cute e padrão Disney 6,5.

Ficha técnica: Walt nos bastidores de Mary Poppins (Saving Mr. Banks – 2013 – Estados Unidos, Inglaterra e Austrália) – Tom Hanks (Walt Disney), Emma Thompson (P. L. Travers), Annie Rose Buckley (Ginty), Colin Farrell (Travis Goff), Ruth Wilson (Margareth Goff), Paul Giamatti (Ralph), Bradley Whitford (Don DeGradi), B. J. Novak (Robert Sherman), Jason Schwartzman (Richard Sherman), Rachel Grifitths (Tia Ellie). Escrito por Kelly Marcel e Sue Smith. Dirigido por John Lee Hancock.

domingo, 9 de março de 2014

Cotação da corneta: '300: a ascensão do império'

Eva Green botando pra quebrar
Tenho calafrios toda vez que Hollywood se mete a fazer algum filme sobre algo que tenha ocorrido antes de Cristo. Afinal, o potencial para dar errado é grande. Relembremos alguns casos:
                  
1) Em "Alexandre" (2004), o personagem principal foi reduzido por Oliver Stone a um maluco ensandecido mais preocupado com os namorados do que em conquistar territórios e ainda tinha uma mãe manipuladora e quase da idade dele.

2) “Tróia" (2004) tinha tudo para dar certo com um elenco de primeira, Brad Pitt como o herói Aquiles e tal, mas só rendeu algumas cenas boas de batalha.

3) “Fúria de Titãs” (2010), que conta a trajetória de Perseu, é bem meia boca.

4) Assim como “Imortais” (2011), que pelo menos tem um vilão bom feito pelo Mickey Rourke. Aqui, o lance é contar a lenda de Teseu.

E olha que ainda não consegui ver "Hércules" ou "Pompeia", mas eles foram jogados de forma tão constrangedora no cinema, nas sombras dos filmes do Oscar e com trailers pouco empolgantes que desconfio que sejam duas bombas.

Por outro lado, há exceções louváveis. Cito "Gladiador" (2000), "Ben-Hur" (1959), "Spartacus" (1960) e “Cleópatra” (1963). Mas sempre acho que são exceções. Como também é "300" (2006), embora seja um filme que dividiu opiniões. 

Por ter gostado do primeiro, "300: a ascensão do império" tinha tudo para entrar nesse time ai de exceções. Além disso, eu gosto de tudo o que envolva os mitos, as lendas e as verdades da Grécia antiga. Portanto, a corneta já chegou no cinema amaciada e de bom humor, ainda que soubesse que o diretor do novo filme não era Zack Snyder, e sim o desconhecido Noam Murro, e Frank Miller não tivesse participado a gosto da sequência do filme baseado em sua graphic novel.

Mas a corneta não é otária. O novo 300 é:

1) inferior ao primeiro
2) menos inspirado que o primeiro
3) uma trama de vingança atrás de vingança sobre vingança. Povo cheio de ressentimento esse aí.

O filme se passa antes, durante e depois dos eventos no desfiladeiro de Termópilas (vocês vão entender vendo o filme), quando o rei espartano Leônidas fought for glory (essas coisas heroicas soam melhor em inglês) e pereceu diante das tropas persas do deus-rei Rodrigo Santoro, quer dizer Xerxes.

Nesse momento as cidades-estados gregas estão unidas - menos Esparta, que faz beicinho por causa da rivalidade padrão Gre-Nal com Atenas - e se preparam para uma batalha naval daquelas contra as tropas de Artemísia (Eva Green e seus hipnotizantes olhos verdes).

Do outro lado está Temístocles, o grande herói trágico do momento (a Grécia gosta dessas coisas). Excelente estrategista de batalha, great warrior e um líder nato. Ele comanda um grande contingente de guerreiros de barriga negativa para lutarem pela liberdade e democracia contra o império dos tiranos e reis. Aliás, o roteiro tem sempre que ter algum momento que mostra o quanto a Grécia é a paladina da democracia. Nada contra. Quem teve Sócrates, Platão e Aristóteles tem direito a pensar assim. Mas ficou meio forçado.

Temístocles só tem um problema no filme. Uma oratória de picolé de chuchu (não vamos citar políticos famosos para evitar processos). Quando ele fala, não empolga ninguém. Saudades de Leônidas. Quando ele discursava, eu tinha vontade de levantar da cadeira, pegar a minha espada e cravá-la em uns 15 persas. Como não lembrar máximas como: "Ready your breakfast and eat heaty, For tonight, we dine in Hell!". Temístocles só me fez coçar a minha barriga com alto índice de positividade.

Mas é o herói que nós temos. Para quem não sabe Temístocles realmente existiu. E foi um grande herói grego das batalhas de Maratona, de Artemisium e Salamis. Os dois primeiros eventos são mostrados no filme. Xerxes e Artemísia também existiram. Artemisia não era tão bonita quanto Eva Green. Longe disso. Mas era realmente a carne de pescoço que o filme mostra. Ela foi a única mulher a comandar uma frota de navios naqueles tempos.

Então é isso. "300: a ascensão do Império" é uma batalha entre nosso herói grego e a vilã grega de coração persa pelo domínio da Grécia. No meio dos dois, Xerxes é coadjuvante. Temos um uso abusado de sangue cenográfico voando para todos os lados e excesso de câmera lenta. Tudo é hiperbólico e kitsch no longa de Murro.

Temos um roteiro pouco inspirado e atuações apenas ok. Eva Green engole todo mundo. Assim como Lena Headey, a rainha espartana viúva de Leônidas. As mulheres são as exceções e estão acima de todos. As batalhas no mar Egeu, no entanto, são o ponto alto da festa em um filme que é para poucos. Talvez apenas para os fãs tarados e mais condescendentes de Frank Miller e/ou da Grécia Antiga.

A corneta saiu viva desta batalha. Ouviu o oráculo de Delfos e decidiu dar uma nota 6 para "300: a ascensão do império".

Deixo por fim uma pergunta retórica: colocar "War Pigs", do Black Sabbath, na trilha sonora foi uma ironia?

Ficha técnica: 300: a ascensão do império (300: rise of na Empire – 2014 – Estados Unidos) – Sullivan Stepleton (Temístocles), Eva Green (Artemisia), Lena Headey (rainha Gorgo), Hans Matheson (Aesiklos), Callan Mulvey (Scilias), David Wenham (Dilios), Rodrigo Santoro (Xerxes). Escrito por Zack Snyder e Kurt Johnstad a partir da graphic novel de Frank Miller. Dirigido por Noam Murro.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Cotação da corneta: 'Clube de compras Dallas'

Leto e McConaughey: dupla do barulho
Como é bom ver que em algum momento da vida Matthew McConaughey resolveu parar de fazer filmes do tipo soro caseiro e mergulhar na tríade sexo, drogas e rock and roll.

Melhor assim. Ele ganha novos fãs e muitos prêmios na prateleira para tirar a poeira quando faz faxina em casa. Só por "Clube de Compras Dallas" foram 13, denuncia o IMDB. Entre eles O Globo de Ouro de melhor ator.

McConaughey ê favorito ao Oscar. Favoritaço. Pelo menos é o que dizem. Não apenas porque sua atuação é muito boa, mas também porque ele cumpre a cota do sacrifício que o careca dourado exige. Foi assim que Nicole Kidman, por exemplo, passou a exibir a sua estatueta e um beijinho no ombro para as amigas invejosas. Ficou feia, fez um ótimo trabalho como Virgínia Wolff em "As Horas" (2003) e foi para casa abraçada ao seu prêmio.

O que fez o ator para viver Ron Woodroff, homem mulherengo, alcoólatra, drogado e homofóbico que um dia descobre que toda vida de excessos tem um preço e o dele foi ter Aids? Hora, emagreceu 20 quilos fazendo o detox do pudim de tapioca. Vejam bem. De um lado, você tem Christian Bale, que engordou 19 quilos para um papel em "Trapaça". Do outro, McConaughey, que emagreceu 20 quilos. Sacrifício, meus amigos. O prêmio vem com sacrifício e o sacrifício está na dieta.

"Clube de compras Dallas" não é apenas Matthew McConaughey. É também Jared Leto. Quem diria que o presepeiro que fez um dos piores shows do Rock in Hell com o 30 seconds to Mars daria um bom ator? Talvez seja melhor investir mais nessa, hein, Leto? Principalmente depois que eu fiz uma breve pesquisa e vi que você fez filmes muito bons como "Réquiem para um sonho" (2000) e "O senhor das armas" (2005). Investe nisso, rapaz! Larga aquela banda ruim.

Seu travesti Rayon é outro ponto alto de um bom filme sobre um sujeito que ouviu dos médicos que tinha 30 dias de vida e só de birra viveu sete anos. Em uma época em que a Aids era ainda muito mais barra pesada do que é hoje, e sem uma saída médica confiável para ao menos conter a doença (o AZT estava começando a ser testado), Woodroff saiu pelo mundo com a única motivação de se manter vivo, pois "nada pode matar Ron Woodroff em 30 dias".

Assim, virou um traficante de medicamentos que ajudava outros doentes a conseguir novas drogas para aplacar as dores da Aids. Tudo sob uma mensalidade nada camarada no clubinho.

Enquanto isso, ao meu lado no cinema, um cidadão resolveu estudar inglês durante o filme.

- Naice réstorant, biuriful uóman / Ei Zi Ti, etc...

Duvido que vocês já tenham passado por uma situação em que pode ver um filme e uma aula de listening and pronunciation ao mesmo tempo.

O colega ao lado era persistente. Como Woodroff, em nenhum momento desistia de tentar. Só ficava possuído com as cenas envolvendo drogas. A cada momento vinha a exclamação:

- Eita, meu Deus! Isso é a droga do capeta!

É, amigo, Eric Clapton já disse que isso não é flor que se cheire. Ainda bem que você não sentou ao meu lado em "O lobo de Wall Street".

Mas o filme é tão bom, que nem o senhor listening atrapalhou. A corneta estava de bom humor e saúda o novo Matthew McConaughey e seu "Clube de compras Dallas" com uma nota 8,5.

Ficha técnica: Clube de compras Dallas (Dallas Buyers Club – 2013 – Estados Unidos) – Matthew McConaughey (Ron Woodroof), Jennifer Garner (Eve), Jared Leto (Rayon), Denis O’Hare (Dr. Sevard), Steve Zahn (Tucker). Escrito por Craig Borten e Melisa Wallack. Dirigido por Jean-Marc Vallé.

Indicações ao Oscar: Melhor filme, ator (Matthew McConaughey), ator coadjuvante (Jared Leto), roteiro original, montagem e maquiagem.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Cotação da corneta: '12 anos de escravidão'

Fassbender mostra a Ejiofor quem manda
A corneta hoje vai brincar de buzzfeed e traçar aqui 12 razões para explicar por que "12 anos de escravidão" é simplesmente excelente.

1 - É o melhor filme que eu já vi sobre o tema. Superior a clássicos como "Django Livre" (qualquer Tarantino nasce clássico) e "Amistad" (qualquer Spielberg que não tenha criancinhas, bichinhos e aliens fofos é um clássico). Tudo bem, talvez eu mude de ideia no dia que assistir à “Tempo de Glória” (1989), mas por enquanto é o melhor.

2 - É o melhor filme com número no título desde "Onze homens e um segredo" (2001).

3 - É o melhor filme com 12 no título desde "Doze homens e uma sentença" (1957).

4- Gente, o filme tem Michael Fassbender. Vocês já viram um filme com Michael Fassbender que seja abaixo de excelente?  (Fechem os olhos para "Prometheus" – 2012).

5- Fassbender, Benedict Cumberbatch, Brad Pitt... Você vai poder dizer para a sua namorada que escolheu um filme cheio de galãs só para para agradá-la porque a ama. Vai ganhar muitos pontos na relação (antes que as feministas atirem pedras em mim, calma! É só uma brincadeira)

6- É simplesmente incrível a atuação de Chiwetel Ejiofor, o melhor ator com nome diferenciado a concorrer ao careca dourado desde Djimon Hounsou por "Diamante de sangue" (2006). Por falar em nomes diferentes, o filme tem Quvenzhané Wallis, isso mesmo, aquela menininha de dez anos que concorreu ao Oscar de melhor atriz do ano passado por “Indomável sonhadora”, e Lupita Nyong’o, outra atriz que brilha no papel de uma escrava explorada cruelmente por um dos fazendeiros.

7- A trilha sonora tem uma canção instrumental belíssima que vai ficar o dia inteiro na sua cabeça.

8- É um filme de Steve McQueen, o cara que fez o espetacular “Shame”, melhor filme de 2012, e é o melhor diretor que existe com nome de ator famoso do passado.

9 - Não conheço aula de história melhor do que essa para entender a escravidão. De qualquer tipo e em qualquer lugar. E olha que eu tive bons professores de História. 

10- É um filme para provocar várias reflexões. Não vou citar todas, nem fazer críticas diretas. E cada um pode ser tocado pelo filme de um jeito diferente. Não vou criar polêmicas, mas reparem em uma cena como não é nada legal (e bastante ultrapassado) alguém apanhar e ser amarrado a um poste. De resto, é como diz o personagem de Brad Pitt: “Laws change. Social systems crumble. Universal truths are constant. It is a fact, it is a plain fact that what is true and right is true and right for all”. Todo o diálogo é bonito, eu garanto.

11- Não tem mimimi e nada romantizado em "12 anos de escravidão". É um filme cru, direto, que expõe em carne viva como a humanidade não presta.

12- É um filme tão tenso, intenso (teve gente chorando na sala) e importante que pela primeira vez em muito tempo não vi ninguém pegando no celular dentro do cinema. E notei algum constrangimento na pipoca, consumida com comedimento e pouco barulho pela plateia. Meus ouvidos agradeceram muito.

Tudo isso é para dizer para você que veja o filme, leia o livro, visite os locais de filmagem (Louisiana, fica a dica), compre souveniers, porque "12 anos de escravidão" tem potencial para ser o grande filme de 2014.  A nota da corneta é 9.

Ficha técnica: 12 anos de escravidão (12 years a slave – 2013 - Inglaterra) – Chiwetel Ejiofor (Solomon Northup), Kelsey Scott (Anne Northup), Quvenzhané Wallis (Margaret Northup), Cameron Zeigler (Alonzo Northup), Paul Giamatti (Freeman), Benedict Cumberbatch (Ford), Paul Dano (Tibeats), Michael Fassbender (Edwin Epps), Sarah Paulson (Mistress Epps), Lupita Nyong’o (Patsey), Brad Pitt (Bass). Escrito por John Ridley a partir do livro de Solomon Northup. Dirigido por Steve McQueen.

Indicações ao Oscar: Melhor filme, diretor (Steve McQueen), ator (Chiwetel Ejiofor), atriz coadjuvante (Lupita Nyong'o), ator coadjuvante (Michael Fassbender), roteiro adaptado, figurino, montagem e direção de arte.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Cotação da corneta: 'Caçadores de obras-primas'

Os caçadores de obras de arte
A corneta gosta de George Clooney. Gosta de vários dos seus trabalhos como ator e alguns como diretor. Em especial, "Boa noite, e boa sorte" (2005).

Exatamente por isso que ela se desviou da dieta do Oscar por duas horas para ver o quinto trabalho de Clooney como diretor.

E quanta decepção. "Caçadores de obras-primas" conta uma história importante sobre um grupo que salvou milhares de obras de arte durante a Segunda Guerra Mundial. Mas como filme é uma picaretagem de valor de uma aquarela feita por crianças em aula de artes na escola.

Não que eu tivesse grandes expectativas. Esperava mais uma ação entre amigos que se divertem como nos filmes "Onze homens e um segredo", "Doze homens e outro segredo" e "Treze homens e um novo segredo" (quando vão lançar o "14 homens e já não dá mais para segurar o segredo"?)

Mas a caçada de Frank Stokes não chega nem perto da diversão de Danny Ocean e seus colegas ladrões.

A premissa é a mesma destes e de muitos filmes na história da humanidade. Um líder recruta uma equipe de pessoas bem diferentes e com diferentes habilidades para executar uma missão. É isso. Ponto final.

Poderia ser legal. Mas não é. Aí temos George Clooney interpretando George Clooney, Matt Damon interpretando Matt Damon, a participação pequena, mas interessante de Lord Grantham, ou melhor Hugh Bonneville (#DowntownAbbeyfeelings), e uma Cate Blanchett que se salva sem precisar fazer muito esforço. Cate realmente é uma atriz diferenciada.

Mas nada representa a maior encarnação da picaretagem no filme do que Jean Dujardin. Desde que ganhou o Oscar pelo astro de cinema mudo George Valentin em "O Artista" (2011), Dujardin faz o mesmo papel em todos os filmes que o vi aparecer.

Não importa se é na pele de Valentin, na do banqueiro suíço Jean Jacques Saurel em "O lobo de Wall Street" ou na do oficial francês de agora lá está o mesmo cidadão de sorriso de cinema mudo e trejeitos iguais em todos os filmes. Começo a desconfiar que esse vinho Bordeaux é Fanta Uva.

É, dessa vez não deu, meu caro Clooney. "Caçadores de obras-primas" me deixou desapontado e vai receber uma nota 4,5 da corneta implacável.


Ficha técnica: Caçadores de obras-primas (The Monuments Men – 2014 – Estados Unidos) – George Clooney (Frank Stokes), Matt Damon (James Granger), Bill Murray (Richard Campbell), Cate Blanchett (Claire Simone), John Goodman (Walter Garfield), Jean Dujardin (Jean Claude Clermont), Hugh Bonneville (Donald Jeffries), Bob Balaban (Preston Savitz), Dimitri Leonidas (Sam Epstein). Escrito por George Clooney, Grant Hestov. Dirigido por George Clooney.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Cotação da corneta: 'Ela'

Theodore e seu sistema operacional
Imagina a situação. Você é um ator e recebe um convite para um filme em que vai fazer um par romântico com ELA. A Scarlett Johansson. Você diz:

- Legal, sempre quis trabalhar com ela.

Tudo bem, eu sou bobinho. Reconheço que não deve ter sido isso que você pensaria.

Mas este é um filme de Spike "um parafuso a menos na cabeça" Jonze. Spike é o cara de "Quero ser John Malkovitch" (1999). É o cara do ótimo "Adaptação" (2002), um filme daquela época que podíamos levar o Nicolas Cage a sério. Ou seja, um rapaz de algum pedigree é que não é chegado a filmes do tipo papai-mamãe.

Sorry, Joaquin Phoenix. Não foi dessa vez. Phoenix é Theodore, o protagonista de "Ela" e nos dá a chance de ver mais um bom trabalho. Um trabalho tocante, meigo, eu diria até fofo. Nada mal para um porto-riquenho com aspirações de ser rapper (esperamos que ele tenha abandonado este projeto paralelo).

"Ela" Um filme muito interessante. E duro também. É sobre as dores da solidão, sobre como no futuro vamos nos tornar cada vez mais apegados aos nossos smartphones, cada vez mais totalmente excelentes e perfeitos, que nem vamos reparar em quem está ao lado. Um futuro onde é possível comprar... emoções. Sad.

E angustiante. Angustiante como Spike Jonze usa os arranha-céus de Los Angeles (ou pelo menos é onde o filme se passa) para nos passar a sensação de frieza, distanciamento e desolamento dos personagens, que parecem só ter alguma satisfação com seus amiguinhos virtuais.

Mas nem tudo é ruim neste futuro. Os celulares são muito melhores que os Iphones de hoje e duram que é uma beleza o dia inteiro gastando bastante bateria sem precisar recarregar. #evolução.

E se você precisar de um novo amor, compre-o através de um sistema operacional altamente sofisticado e com a voz de Scarlett Johansson. Ele é tão perfeito e real que até discute a relação. 

Mas como é angustiante passar o filme inteiro ouvindo a Scarlett, quer dizer, "Samantha", sem vê-la. Imagine como é para Theodore não poder tocá-la, abraçá-la. Deve ter sido frustrante ser um par romântico de Scarlett nestas condições. Não há sacrifício maior para ganhar um Oscar. Isso é pior que perder peso, Matthew McConaughey! Mas... sorry, Joaquin. Não foi dessa vez que você ganhou uma indicação.

E Scarlett é tão perfeita, que você se apaixona só por ouvir a sua voz. Provavelmente é a melhor atuação da carreira da moça, mesmo sem aparecer em cena. Tá, eu gosto de "Moça com brinco de pérola (2003), gosto de "Vicky Cristina Barcelona" (2008), mas "Ela" é diferente. Samantha é também o melhor ser interpretado por um ator que não aparece em cena desde o Gollum.

"Ela" é uma espécie de "Mulher nota 1.000" (1985) melhorado. Muito melhorado. Samantha é um Hal, o computador de "2001 - uma odisseia no espaço", ainda mais inteligente e muito mais agradável. Tudo sem ser traíra. Ok, deu para entender por que Theodore pira por uma mulher que nem existe?

No fim temos uma mensagem edificante para aquecer o espírito e dar esperança aos nossos corações.  Obrigado, Spike. Foi bonito. A corneta vai dar a "Ela" uma nota 8.

Ficha técnica: Ela (Her – 2013 – Estados Unidos) – Joaquin Phoenix (Theodore), Scarlett Johansson (Samantha), Chris Pratt (Paul), Rooney Mara (Catherine), Amy Adams (Amy), Matt Letscher (Charles). Escrito e dirigido por Spike Jonze.

Indicações ao Oscar: Melhor filme, roteiro original, canção original (the moon song), direção de arte e trilha sonora.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Cotação da corneta: 'Trapaça'

Amy e Christian, os trambiqueiros do filme
A corneta está de volta com olhos de águia e ainda mais anárquica. De olho nos filmes do careca dourado, não vou trapacear ninguém e contar umas verdades.

"Trapaça" é um filme sobre como eram bons os anos 70, quando as pessoas ouviam boas músicas no rádio e as mulheres usavam decotes até o umbigo. O que mais um homem de uma sociedade judaico-cristã ocidental poderia desejar naqueles tempos?

Era uma vida idílica. Mas também tinham alguns homens maus, outros cruéis e alguns trambiqueiros. Nada diferente desde que a humanidade começou a se comunicar por algo além de grunhidos. É aí que entra David O. Russell para contar a nossa história. Usando figurinhas carimbadas de seus dois filmes anteriores - Christian Bale, Amy Adams (Meu Deus, Amy Adams!), Jennifer “Live and let die” Lawrence, Bradley Cooper -, o cineasta vagueia entre o ótimo "O Vencedor" e o meia-boca "O lado bom da vida" neste novo trabalho.

Se Amy e Jennifer já atingiram status de musa no "Marcelômetro", também não deixam a desejar no ofício delas, que é o que realmente importa. Ambas dando show nos seus papéis, assim como Bale, o eterno melhor Batman de todos os tempos.

“Trapaça” tem ainda uma outra característica. É mais uma tentativa de Bradley Cooper de se aproximar dos recordes de John Travolta e Shirley Temple de maior número de filmes em que aparece dançando. Depois de ter aulas com Jennifer Lawrence em “O lado bom da vida”, o cara foi testar o que aprendeu em uma discoteca acompanhado de Amy Adams. Enfim, ele sabe escolher suas companhias (Inveja!). Usou uns passinhos de Tony Manero quase como uma mensagem subliminar a John Travolta: “Eu ainda te pego”. Mas pelas minhas contas (baseado em filmes que eu vi), ainda está 5 a 2 para o veterano ator. Corre atrás, Bradley! Faz um musical.

"Trapaça" é um filme inegavelmente divertido, mas é claramente a cota "Sessão da Tarde" do Oscar desse ano. Legal, cool, nice, supimpa e nada além disso. Daqui a 10 anos será exibido na mesma semana entre "Os Goonies" e "De volta para o futuro". Sendo assim, pesando os prós e contras, a nota final da corneta é 7,5.

Ficha técnica: Trapaça (American Hustle – 2013 – Estados Unidos) – Christian Bale (Irving Rosenfeld), Bradley Cooper (Richie DiMasio), Amy Adams (Sidney Prosser), Jeremy Renner (prefeito Carmine Polito), Jennifer Lawrence (Rosalyn Rosenfeld), Louis C.K. (Stoddard Thorsen), Robert de Niro (Victor Tellegio). Escrito por Eric Warren Singer e David O.Russell. Dirigido por David O.Russell.

Indicações ao Oscar: melhor filme, diretor (David O. Russell), atriz (Amy Adams), ator (Christian Bale), ator coadjuvante (Bradley Cooper), atriz coadjuvante (Jennifer Lawrence), roteiro original, figurino, montagem e direção de arte.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Cotação da corneta: ‘Alabama Monroe’

Elise e Didier mandando no country
A corneta se amarra numa globalização e num mundo sem fronteiras. Só neste maravilhoso planeta novo do Facebook-Iphone (que eu juro que não me patrocinam), você pode ver numa sala de cinema brasileira um filme belga sobre fãs de Chitãozinho e Xororó indicado ao maior prêmio do cinema americano.

Ok, estou exagerando, o sertanejo é o country que deu errado. Mas em alguns momentos o country de “Alabama Monroe” é tão chato quanto qualquer Zezé de Camargo e Luciano. Embora o ritmo seja bem mais palatável.

Mas a música tem a sua função. É preciso reconhecer. É a de pontuar as passagens do tempo, revelar as camadas da relação trágica e dramática de Didier (Johan Heldenberg) e Elise (Veerle Baetens). Cada vez mais profundas, cada vez mais dolorosas. E aí o filme de Felix Van Groeningen vai ganhando pontos com a corneta e ficando mais interessante. Menos Victor e Leo e mais Crosby, Stills, Nash & Young.

Elise, a tatuadora que tem os amores marcados na carne. Didier, o belga que sonha em ser um caipira americano e tem uma banda de bluegrass.

Surge um bebê e os primeiros conflitos. Uma doença e é o momento de mostrar o poder de superação. Entram questões morais, éticas, científicas, religiosas e até uma defesa das pesquisas com células-tronco. O amor sobreviverá a tudo o que vai acontecer ou não? Não darei respostas. Vai ver o filme.

Temos dois atores entregues de corpo e alma aos seus papéis e a corneta até entende o lugarzinho belga no quinteto que briga pelo careca dourado de filme estrangeiro.

“Alabama Monroe” não é melhor que “A grande beleza”. Nem que “A caça”. Mas tampouco é um filme ruim. Vale o ingresso. Com isso, a nota final do drama belga é 7.

Ficha técnica: Alabama Monroe (The Broken Circle Breakdown – 2012 – Bélgica) – Johan Heldenberg (Didier Bontick/Monroe), Veerle Baetens (Elise Vandevelde/Alabama), Nell Cattrysse (Maybelle). Escrito por Johan Heldenberg, Mieke Dobbels, Carl Joos e Felix Van Groeningen. Dirigido por Felix Van Groeningen. Bom filme, belas atuações dos protagonistas e Veerle é candidata a musa da temporada.

Indicação ao Oscar: melhor filme estrangeiro.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Cotação da corneta: O lobo de Wall Street

Di Caprio em bela atuação no filme de Scorsese
A corneta dourada foi a caça neste fim de semana. A ideia era encontrar lobos do mercado financeiro. E foi uma longa e prazerosa caçada de três horas de duração.

Picaretas do mercado financeiro sempre rendem bons filmes. Desde Gordon "Greed is good" Gekko, passando por um incrível Jeremy Irons em “Margin Call – o dia antes do fim”, e chegando até Jordan Belfort. Até hoje eu continuo sem entender o que é swap reverso, blue chip ou spread, mas os filmes são bons. "O lobo de Wall Street" não é diferente.

O filme tem vários méritos (e não vale falar sobre as várias mulheres peladas!). Enumeremos alguns:

1) A impagável participação de Matthew McConaughey, esse ator que resolveu fazer um filme bom atrás do outro. Quando ele sai de cena deixa muitas saudades. Mas prestem bem atenção nele. Ele é a visão do futuro no filme.

2) A atuação simplesmente ANÁRQUICA de Leonardo di Caprio. Desde que começou a trabalhar com Martin Scorsese, esse rapaz faz um filme bom atrás do outro. E desse vez ele nos dá um daqueles trabalhos top que dá gosto de ver.

3) O texto, essa pequena maravilha escrita por Terence Winter, roteirista das séries “Sopranos” e “Boardwalke Empire”, que faz a gente ficar 3h no cinema rindo e se deleitando com a ascensão e queda de Jordan Belfort. Parece que não se passa dois minutos sem se divertir com alguma coisa.

4) Os personagens secundários. Os amigos de Jordan são figuraças, a moça do terninho Armani, o pai de Jordan...impossível não gostar deles. Impossível não rir com e deles.

Por estes motivos, "O lobo de Wall Street" é um belo filme. E assim é hora de refazer o ranking da parceria Di Caprio-Scorsese. Deixemos assim:

1- "Os Infiltrados"
2- "O lobo de Wall Street"
3- "Ilha do Medo"
4- “Gangues de Nova York”
5- "O Aviador"

E a nota para o lobo de Scorsese (outro dos diretores daquela minha listinha top) é 9. A corneta começou muito bem a temporada do Oscar.

Ficha técnica: O lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street – 2013 – Estados Unidos) – Leonardo di Caprio (Jordan Belfort), Jonah Hill (Donnie Azoff), Margot Robbie (Naomi Lapaglia), Matthew McConaughey (Mark Hanna), Kyle Chandler (Agent Patrick Denham), Rob Reiner (Max Belfort), Jon Bernthal (Brad), John Favreau (Manny Riskin), Joanna Lumley (Tia Emma), Cristin Milioti (Teresa), Kenneth Choi (Chester Ming), P. J. Byrne (Rugrat), Brian Sacca (Robbie Feinberg), Henry Zebrowski (Alden Kupferberg). Escrito por Terence Winter a partir do livro de Jordan Belfort. Dirigido por Martin Scorsese.

Indicações ao Oscar: Filme, diretor (Martin Scorsese), Ator (Leonardo di Caprio), ator coadjuvante (Jonah Hill) e roteiro adaptado (Terence Winter)

sábado, 11 de janeiro de 2014

Cotação da corneta: Ninfomaníaca - volume 1

Joe curtindo a vida com culpa
A corneta iniciou os trabalhos de 2014 com um desafio: explicar um filme de Lars von Trier sem tê-lo visto. Se liga na saia justa. O filme não começa no cinema, a sala tem problema com o projetor. Velhinho sentado duas cadeiras a direita se manifesta.

- Está difícil né?
- É
- Esse filme é sobre o que? Eu não li a sinopse.
(Eu penso, reflito, como explicar para o cara que é um filme de Lars von Trier? Como explicar que é um filme que não dá para saber do que se trata sem ver, como "Dogville", "Manderley" "Anticristo" e "Melancolia"?)
- Ah, é meio louco
- É? Mas louco como?
- E pesado
- Pesado como? Muita violência?
- Não
- Sexo?
- É
- Opa! (Velhinho se ajeita na cadeira para ficar mais à vontade)

O velhinho se empolgou, mas não curtiu (ATENÇÃO! SPOILER!) quando por volta de 1h30m depois viu uma quantidade exorbitante de genitais masculinos enfileirados na cara dele de todos os tipos e tamanhos.

Realmente é desagradável. Mas isso é Lars von Trier. Em algum momento ele tem que ser desagradável, incomodar, provocar repulsa ou tudo isso junto. Algumas vezes é genial como em "Dogville" e "Anticristo" (dois filmes que eu amo). Outras nem tanto. Mas o trabalho dele o coloca na minha listinha de diretores top (a lista é minha e eu coloco quem eu quiser). Afinal, se eu gostasse de água com açúcar e final feliz veria novela.

E o que Von Trier me entrega agora com "Ninfomaníaca - volume 1", além de metade de um filme? Mais uma vez, Charlotte Gainsbourg sofrendo, se dilacerando em culpa como um personagem de Dostoievsky. Tudo por gostar de dar loucamente em qualquer situação. Algumas bem escabrosas.

A primeira parte é uma sessão de terapia embalada pelo Rammstein (o que é sempre uma boa pedida, como você pode conferir no no fim do post) e comandada pelo Stellan Skarsgard, chamado de Seligman no filme.

A conversa é muito mais excitante que qualquer cena safadinha. Vai de teorias sobre como pescar à literatura, passando por conceitos musicais. Coisa phyna.

De fato, Von Trier usa o sexo de uma forma tão sádica que provoca esgotamento e escancara o quanto a vida de Joe (a Charlotte) é vazia, oca, solitária, sem sentido. Enfim, uma merda.

Mas só saberemos os motivos disso tudo na segunda parte da terapia (ou nos capítulos finais do seu livro filmado) em março. Por enquanto, a corneta curtiu muito. Von Trier está de parabéns, viu. Nota 8,5 para o dinamarquês de parafusos a menos e ótimas ideias na cabeça.

Ficha técnica: Ninfomaníaca – volume 1 (Nymphomaniac – 2013 – Inglaterra) – Charlotte Gainsbourg (Joe), Stellan Skarsgard (Seligman), Stacy Martin (jovem Joe), Shia LaBeouf (Jerôme), Christian Slater (pai de Joe), Jamie Bell (K), Uma Thurman (Mrs. H), Willem Defoe (L). Escrito e dirigido por Lars von Trier.