sexta-feira, 27 de março de 2015

Cotação da corneta: 'Insurgente'

Quebrando tudo sem perdão
Foi-se o tempo em que o cinema era palco de jovens garotos que vão para a Califórnia em busca de aventuras, sexo e diversão. Não necessariamente nesta ordem. Aquela era mágica compreendida entre os filmes do "Cinema em Casa", do SBT, até pérolas do DESVIRGINAMENTO, como "American Pie" (1999).

Os jovens ficaram mais complexos. Eles agora vivem em mundos distópicos que pretendem libertar das amarras de regimes opressores. Governos estes liderados por atores de peso que dão credibilidade e servem de escada para uma nova safra oriunda das divisões de base virar protagonista.

Sim, amigos, a corneta passou por um intensivão e viu no mesmo dia "Divergente" e "Insurgente" para falar com (pouca) propriedade e (muita) malemolência sobre o novo filme de baseado nos livros de Veronica Roth.

A série "Divergente" é evidentemente um lado B de "Jogos Vorazes". É como se "Jogos Vorazes" fosse "Brown Sugar" e "Divergente" fosse "Play with fire", sacou? Não é necessariamente ruim, é um hit mas também não é O hit. Afinal, todos sabemos que Jennifer Lawrence >>>>>>>>>>>>>> Shailene Woodley.

No novo filme, Beatrice Prior (Shailene Woodley), Tris para os íntimos, e seus amigos continuam praticando o péssimo hábito de pular em trens em movimento. Essa galera da Audácia se acha. Por isso que eu sempre preferi Franqueza e Amizade, ainda que Abnegação também tenha o seu valor. Já Erudição tem muita gente metida e de nariz em pé.

Agora, Tris tem duas missões importantes: salvar o mundo e conhecer a sogrinha. Que momento difícil da vida de uma jovem.

A história começa pouco tempo depois do fim de "Divergente", quando Tris enfiou a faca na mão de Kate Winslet, que vive Jeanine, e estragou os planos da vilã erudita. Nossa heroína agora está com um novo corte de cabelo, mais alinhado com os novos tempos e a modernidade, e novas ambições.

Mas... Jeanine também tem novos planos. E eles não são nada estéticos. Ela encontrou uma caixa secreta na casa dos pais de Tris que contém uma mensagem que para ela vai mudar o mundo até onde conhecemos. Só que ela precisa de um divergente nível alfa, com características de todos os povos para abrir a tal caixa de pandora pós-moderna. E vocês sabem que esse divergente só pode ser Tris. É o destino, Tris. A culpa é das estrelas. Opa, desculpa, esse é o seu outro filme. É que você vive contracenando com Ansel Elgort que eu confundi.

Sabemos que no fundo, lá no fundo, tudo o que Tris queria era continuar o seu romance água com açúcar com Quatro (Theo James) e viver feliz para sempre na Amizade (a comunidade, é claro). Mas ao mesmo tempo ela tem um desejo de vingança e sangue contra Jeanine que é mais forte e precisa ser saciado.

Antes de tudo, porém, uma missão mais complicada. Tris precisa conhecer a sogra. E que sogra! Afinal, estamos falando de Naomi Watts. Naomi, ou melhor, Evelyn, é também a líder dos sem-facção, uma comunidade de desajustados que quer dominar essa Chicago do futuro, derrubando os eruditos. Os eruditos são um problema para a sociedade, como vocês estão vendo. Para isso, ela terá a ajuda de Tris e Quatro, na missão. Além de Peter (Miles Teller), que largou a bateria de "Whiplash" para ficar transitando entre o apoio aos rebeldes e ao governo. Bem em cima do muro. Parece até partidos políticos.

Então está traçado o cenário de “Insurgente”. No corner esquerdo, divergentes e sem-facção. No canto direito, eruditos e audaciosos. Em cima do muro, amigos, francos e abnegados. E vamos para a guerra.

“Insurgente” é um típico filme para jovens fãs dos livros de Verônica Roth. Não tem muita profundidade e segue a fórmula menina deslocada e diferente dos demais embarca numa jornada de autoconhecimento e ao mesmo tempo bagunça a sociedade e tenta mudar o mundo.

Insira no meio disso um romance fofo com um cara bonitão e forte pronto para protegê-la, alguns gritos, uma pitada de efeitos especiais e bata no liquidificador (juro que não é merchan do blog). Temos um filme.

Claro que o filme vai faturar muito. Só nos Estados Unidos já fez US$ 54 milhões. Como “Divergente” faturou. Foram US$ 288,7 milhões. Mas Shailene não tem o mesmo carisma de Jennifer. E a própria história de “Jogos Vorazes” é mais interessante.

As duas franquias tem ainda um erro em comum: o fato de dividirem o último livro em dois filmes criando a famigerada trilogia de quatro trabalhos. Mas enquanto “Convergente - parte 1” não vem ao mundo (só em março do ano que vem), “Insurgente” vai ganhar uma nota 5.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Slash rocks

Slash no comando da festa/Marcelo Alves
Então vamos aos comentários malemolentes sobre o Slash in Rio. 
1) Definitivamente Slash se deu melhor procurando um cantor para suas músicas do que Axl procurando guitarristas para as suas músicas. Myles Kennedy é muito rock and roll, enquanto DJ Ashba e Ron Bumblefoot são apenas bons imitadores dos solos clássicos de Slash. 
2) Slash também é >>>>>>>>>>> que Axl porque começa o show RIGOROSAMENTE na hora. Isso é compromisso com os fãs. Ganhou estrelinha. 
3) Slash troca de guitarra umas sete vezes (uma mais foda que a outra) em 2h20min de show, incluindo aí uma sinistra de dois braços que o de cima é violão e o de baixo guitarra. Preciso de uma dessas.
4) Ele também ajeitou a calça três vezes (sabe aquela puxadinha por trás para levantar?), fez duck walk pelo menos seis vezes e requisitou um ventilador, mas ele devia estar fraco porque não fez aquele efeito Beyoncé de cabelos esvoaçantes.
5) Slash ainda arrebentou a corda de uma guitarra após um longo e FODERÁSTICO solo de pelo menos dez minutos.
6) Sete músicas do Guns N'Roses. Incluindo o hino do Hell de Janeiro ("Welcome to the Jungle"), além de "Nightrain" e "Paradise City", que, claro, fecha o espetáculo. Mais duas do Velvet Revolver. Um cover de Led Zeppelin ("Communication Breakdown"). Foi lindo.
7) Por que é tão difícil tocar "Sweet Child O'Mine" se Slash faz isso com cabelo na cara, óculos escuros e olhando para cima?
8) Slash, vocês sabem, é o maior homem da história que usa cartola. Em segundo lugar no ranking vem Abraham Lincoln.
9) O resto da banda é boa, mas ninguém repara que existem outras pessoas além do guitarrista e do vocalista. Pelo menos o baixista tem seus 15 minutos de fama cantando duas músicas. Entre elas, "Welcome to the Jungle".
10) Cariocas cantam "Ixxxxléshê", "Ixxxxléshê". Ou então a indefectível "olê, olê, olê, olê, "Ixxxxléshê", "Ixxxxléshê". Pelo menos não cantaram que são brasileiros com muito orgulho e muito amor. Myles também ganhou homenagens.
11) Tem várias músicas interessantes da carreira solo dele, algumas muito boas, mas ninguém conhece, ninguém canta. No máximo batem palminha e balançam a cabeça.
12) Eu não sei o que dá mais trabalho para os funcionários da banda. Recolher as camisas e outros objetos jogados no palco ou desembolar os fios a cada vez que o Slash se movimenta.
13) Conclusão da corneta. Show acima das expectativas. Foi bom demais. Nota 8 e volte sempre Slash. De preferência para me dar aula.

O taxista nostálgico

O taxista nostálgico estava impossível naquela noite. Ainda não engolira o passageiro que pegara uma hora antes e tentara humilhá-lo. Era um típico playboy da South Zone do Hell de Janeiro querendo impressionar a gatinha da vez que ele estava pegando. Mas voltemos um pouco no tempo. O tempo em que um operário das palavras encontrou o taxista nostálgico.
No rádio, Rita Lee exibe todo o seu talento. O taxista aumenta o rádio e começa a cantar. "E nem só de cama vive a mulher/Por isso não provoque/É cor de rosa choque".
Exibindo uma boca com sorriso largo que revelava a ausência de laterais no sistema defensivo, o taxista para a cantoria e comenta:
- Isso é que é música! Rita Lee, parceiro! Não se encontram mais cantoras como a Rita Lee. Quem é que seria capaz de fazer uma poesia como essa hoje? Um funkeiro? Nada. Espera sentado. Vocês vivem na pior - disse o taxista no alto dos seus 50 e muitos anos para o operário da escrita.
- No meu tempo de jovem, na sexta-feira eu escolhia o que eu ia ver no Circo Voador. Era Rita Lee, Cazuza, Raul Seixas... Eu conheci todos eles. Para não falar no Legião Urbana. E o que eu deixei de herança para vocês? Anitta! Hahahaha - gargalhou diabolicamente o taxista.
- Alto lá! Anitta não é do meu tempo não! É para os mais jovens - argumentou o operário das palavras.
- Agora há pouco peguei um rapaz todo metidinho. Acho que ele queria impressionar a mulherzinha que ele tava comendo e começou a esculachar as músicas que eu estava ouvindo no rádio, falando que era coisa de velho - disse ele, frequentemente tirando as duas mãos do volante para dar emoção à viagem. - Foi quando eu comecei a acabar com ele em todas as áreas da vida.
A partir daí, o taxista nostálgico exibiu todo o museu de grandes novidades de sua existência. E o tempo, como o taxímetro, não para.
- Eu desfilei em escola de samba, sabe. Ai falei para ele. Cara, eu desfilava na avenida com a Pinah. O que você tem hoje? Claudia Leitte! - vangloriou-se ele, dando novas gargalhadas de lobo mau que comeu os três porquinhos e gesticulando muito enquanto olhava para o operário da escrita. Afinal, o trânsito está sempre livre e os sinais estão sempre abertos para o táxi.
- Acabei com ele em todas as áreas. Música? Rita Lee, Legião, Cazuza. E você tem o que? Mr. Ca-tra? A-nit-ta? Fala sério - completou ele falando daquele jeitinho debochado e fazendo questão de separar as sílabas dos artistas que desprezava.
O taxista nostálgico é o típico carioca de almanaque. O léxico é rico em gírias e palavrões intercalados pela construção dos pensamentos. Ele tem ainda aquela fala malemolente, espécie de cruzamento de Evandro Mesquita com Fernanda Abreu. E, claro, adora futebol, uma especialidade do brasileiro médio. Flamenguista, o taxista faz uma revelação.
- Eu era da torcida do Flamengo. Naquele tempo só tinha craque. E a gente conhecia todo mundo de frequentar a casa. Zico, Júnior, Leandro. Quando tinha aniversário eles sempre chamavam a gente. E ai deles se não chamassem - disse o taxista, revelando as práticas "carinhosas" das torcidas organizadas desde tempos imemoriais.
Vejam bem, o taxista nostálgico desfilou com a Pinah, foi de torcida organizada, conhecia craques do futebol. Eu não sei como ainda não lançou uma biografia. Mas ele queria mesmo era contar como achincalhou o playboy.
- Acabei como ele. Naquela época todo time tinha craque. Zico, Roberto, o Fluminense tinha um jogador. Como era mesmo o nome?
- Romerito?
- Isso! Jogava demais o Romerito. O Vasco tinha um timaço também. Nunca ganhava do Flamengo, mas era um timaço. Enquanto isso, o rapazinho aqui tem que aguentar Lu-cas Mug-ni. Porra, vai tomar no cu. Acabei com ele.
A viagem está chegando ao fim. Não sem antes o taxista nostálgico simular lances do Zico tirando as mãos do volante e os pé da embreagem e do acelerador. E revelar velhas praticas da torcida rubro-negra.
- A torcida do Flamengo era foda. Botava 60 mil pessoas no Maracanã contra o Bonsucesso. Jogava junto. Mas também cobrava. Quando tinha jogador na noite, a gente ia em cima deles. Qual é? Está fazendo o que aqui? Tem jogo amanhã, parceiro. Por isso que o Zico tem toda a moral que tem. Nunca foi para a noite. Foi aquela mulher, a Sandra, que deu um jeito na vida dele.
Já o Marcelinho Carioca não gozou do mesmo prestígio.
- Isso era um filho da puta. Perdeu um pênalti contra o Vasco. Uma vez teve uma festa na casa do Júnior Capacete e nós da torcida fomos. Lá na festa juntamos ele. Se o Júnior não impedisse, a gente ia encher ele de porrada. Saiu daqui correndo.
- Para brilhar no Corinthians - provocou o operário das palavras.
Um breve silêncio tomou conta do taxista nostálgico. Mas ele logo voltou a falar dos seus dias gloriosos de manda-chuva informal da Gávea. Eram bons tempos aqueles, mas hoje ele garante estar sossegado. Ajeita os óculos de aro grosso e traça as linhas presentes de sua biografia.
- É uma vida dura a de taxista. Trabalha sábado, domingo, feriado... Mas eu não reclamo não. Eu vivi - disse ele, dando aquela ênfase de quem sentiu a vida empiricamente.
Chegamos ao destino.
- É R$ 30, parceiro.
- Taí.
- Obrigado. E vai com Deus. Até a próxima.


O taxista nostálgico aumenta o som do rádio e segue revigorado pelas ruas do Hell de Janeiro. De certa forma, naqueles minutos, ele viajou no tempo para aquele Circo Voador e aquele Maracanã que não voltam mais.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Cotação da corneta: 'O sétimo filho'

Esse cara não sente calor?
Vejam como é a vida. Num dia, você está por cima da carne seca, faz um filme sobre um tema sério e ganha um Oscar por ele. No outro, você faz um blockbuster pop medieval em que interpreta um dragão de cabelos vermelhos esvoaçantes como aqueles de propaganda de shampoo. Foi isso que aconteceu com Julianne Moore, que no mês passado ganhou uma estatueta pelo seu trabalho como uma mulher que sofre do Mal de Alzheimer em "Para sempre Alice", que a corneta recomenda fortemente, e agora chega aos cinemas ao mesmo tempo, e talvez para pegar uma rebarba de "Para sempre Alice" com este "O sétimo filho".

Bom, tanto Julianne Moore quanto Jeff Bridges, que faz o herói do filme, devem ter se divertido fazendo isso. Bridges então, aproveitou sobras de interpretação de "Coração Louco" (2009), que lhe deu um Oscar de ator, e “Bravura Indômita” (2010), aquele ótimo faroeste, para compor um cara divertido. E é preciso ser honesto. Os dois deram alguma dignidade ao trabalho do russo Sergey Bodrov. E “alguma dignidade” é o único elogio que eu posso fazer.

“O sétimo filho” é um filme B para quem anda com saudades de “Game of Thrones” (volta dia 12 de abril!). Afinal, ele tem cavaleiros, heróis, se passa numa era medieval e tem... dragões! Mas a comparação para nesta superficialidade, afinal, ninguém no filme chega perto da saga dos Stark contra os Lannister.

O filme conta a história do tatatatatatatatatatata (acrescente mais 200 tatas) tataravô do doutor Peter Venkman, personagem de Bill Murray em "Os Caça-fantasmas" (1984). Jeff Bridges faz o mestre Gregory, um cavaleiro caçador de bruxas, antigos espíritos do mal de forma decadente e Mumm-Ras em geral. Sua missão é simples e direta como um álbum do Metallica: "Kill’Em All".

Gregory é o último remanescente de uma ordem de cavaleiros lendários fãs do Iron Maiden. Você só podia entrar no clubinho se fosse o sétimo filho do sétimo filho. Vocês podem imaginar como era difícil encontrar jovens para se alistarem nesse exército para combater as forças do além. Certamente foi no período dessa galera que houve uma explosão demográfica na Idade Média.


O que o filme não diz, mas podemos tomar como verdade é que essa ordem de caçadores de bruxa foi extinta porque naturalmente quase ninguém mais tem sete filhos. Custa muito caro. Pois bruxas continuam existindo. Perguntem só o que muitas pessoas acham de suas sogras (perdendo leitoras que são sogras em 5...4..3..2...)

Bom, há muito tempo, Gregory prendeu uma bruxa sinistra num calabouço distante e pensou tê-la deixado apodrecendo. Mas os anos se passaram e veio a grande lua cheia de sangue, que, segundo as lendas antigas, libera todos os demônios internos e fortalece os dragões. Pronto, Mãe Malkin (Julianne Moore) se libertou dos grilhões, saiu da sarjeta, levantou, sacudiu a poeira e deu a volta por cima, voltando com sede de vingança.

Malkin é poderosa, sedutora, lê mentes e redecora a sua casa num balançar de mãos. Sabendo de tudo isso, Gregory evita o contato direto com os seus olhos, pois Malkin pode te deixar paralisado como se você estivesse diante da Medusa. Mas a brincadeira está só começando.

A bruxa-dragão fica a cada dia mais forte, mas ela só ficará invencível quando a lua de sangue chegar ao estágio lua cheia. Ai é que Malkin ficará com um super borogodó invencível e poderá, adivinhem, dominar todos os reinos do mundo conhecido. Gregory sabe disso e não perde tempo: vai atrás de um seventh son of a seventh son (leiam como se cantassem com o Bruce Dickinson) para ser seu aprendiz e ajudar a matar a bruxa má.

É aqui que o filme desanda e ganha a sua porção "Crepúsculo". Estava tudo indo tão bem com o bom e velho "bem" contra o “mal”, mas o jovem Tom (Ben Barnes) tem que encontrar uma jovem bruxinha, Alice (Alicia Vikander), e os dois têm que se apaixonar. Aff, tem horas que o romance só atrapalha. (Perdendo leitores e leitoras românticas em 5...4...3..2..)

Ai é aquilo que já sabemos. O garoto faz juras de amor para ela, juntos na cama diz que a ama e quer construir uma vida de casal de classe média americano com casinha e filhos, canta “Evidências”, de Chitãozinho e Xororó... Ela responde soltando aqueles olhares do tipo “te quiero” e suspirando de paixão. Por fim, os dois prometem viver felizes para sempre, embora saibam que não podem se misturar. São como Montecchios e Capuletos numa tragédia shakespeariana. Enfim, podíamos ter cortado uns 15 minutos de filme aqui, pois sabemos que ele tem um destino a cumprir. Está no roteiro.

Resolvido parcialmente o problema, Gregory e Tom vão para a batalha. Do outro lado, Malkin está reunindo o seu exército de bruxos e fantasmas sinistros. Tem o guerreiro que se transforma em dragão Radu (Djimon Hounson, que desde que foi indicado ao Oscar de coadjuvante por “Diamante de Sangue” faz mais personagens secundários que cabeça de área dá passe para o lado), Urag (Jason Scott Lee), que vira urso, Sarikin (Kandyse McClure), que vira uma onça, Virahadra (Zahf Paroo), um cara de quatro braços que tem o nome parecido com o de um personagem da mitologia hindu (não me peçam para explicar), e Strix (Luc Roderique), uma entidade maligna com língua de serpente.

Tal qual um videogame que você vai avançando de fase, nossos heróis vão passando por todos eles. Até que... Bem, uma hora Gregory e Malkin estariam novamente frente a frente para um acerto de contas né? Para saber o que acontece, só vendo o filme. Não vou ficar aqui dando spoiler.

Confesso que "O sétimo filho" podia ser pior. Mas está longe de ser a última bola de chocolate da sorveteria. As participações de Julianne Moore e Jeff Bridges dão alguma graça ao filme, mas os dois jovens têm tanta expressão quanto uma porta bege. Mas "O sétimo filho" pode agradar quem curte filmes do gênero, mesmo que óbvios. Entre bruxinhas boas e más, guerreiros e dragões, a corneta dará ao filme uma nota 5.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Cotação da corneta: 'Kingsman: Serviço Secreto'

Colin Firth é puro estilo
Há filmes que nos ensinam algumas lições. Em "Kingsman: serviço secreto" uma delas é: Não incomode um homem que esteja bebendo uma cerveja. Principalmente se for uma famosa marca irlandesa em um pub inglês. Você pode se arrepender. Afinal, é preciso uma certa fleuma até entre adversários.

"Kingsman" é daqueles tipos de filme que você sabe tudo o que vai acontecer a partir do momento em que viu o trailer. Mas como não se divertir com as melhores cenas de luta do cinema ocidental desde, sei lá, "Matrix" (1999)? Pois, convenhamos, é muito difícil bater os chineses especialistas em kung fu no quesito cenas de luta.

Eu não sei qual foi o orçamento gasto com o coreógrafo dos combates e todos os que trabalharam nestas cenas (o filme todo custou US$ 81 milhões), mas eles mereceram cada centavo. Parabéns a todos os envolvidos. Difícil é escolher qual é o melhor momento. Se é a cena do bar da lição de moral citada no início deste texto, a da igreja ou o bom e velho um contra um entre herói é o capanga do vilão ao fim que costuma marcar o clímax de filmes deste gênero. E tudo com um clima, digamos, “tarantinesco”.

Este é um dos motivos de o filme ser o mais divertido do ano até aqui. Veja bem, não é o melhor, não é o roteiro mais incrível ou com atuações dignas de prêmio de nome complexo em festival francês. O quesito aqui é o Oscar da diversão/zuera. E o filme de Matthew Vaughn sai na frente.

"Kingsman" é o típico filme de herói veterano que prepara o terreno para passar o bastão para o novato assumir o protagonismo. Nesse meio tempo, eles tentam salvar o mundo de um tirano maluco.

Tudo é uma paródia dos filmes de espionagem. As citações são muitas, 90% delas envolvendo James Bond (Uma hilária versão de como o Martini deve ser preparado e a cena com o herói e uma bela mulher, por exemplo). Mas também há a um pouquinho de Jason Bourne e até Jack Bauer, que nem agente secreto é. É ir pescando é rir das situações.

A história? Basicamente é o seguinte: o vilão Valentine, vivido de forma propositalmente caricata e com língua presa por Samuel L Jackson, tem um plano de dominação mundial que precisará ser executado, pois todo grande vilão deste tipo de filme tem Síndrome de Cérebro e acorda pensando num plano de como vai conquistar o mundo. Caberá aos alfaiates superpoderosos impedi-lo de realizar o feito. Você sabe que isso vai acontecer né? Não existe spoiler neste tipo de filme. 

Enquanto isso, o Kingsman precisa encontrar um novo agente secreto para substituir o antigo que morreu no Iraque em uma missão no início do filme ao som de Dire Straits. Pelo menos ele se foi com uma bela canção.


O bambambã do grupo é Galahad, vivido em corpo, alma, terno e sotaque britânico por Colin Firth (descrição feita de propósito só para fazer as mulheres suspirarem). Numa dessas coincidências da vida (é mesmo? – “sinal de ironia”), ele escolhe o filho de um agente morto no passado para indicar para o grupo secreto. O problema é que Eggsy (Taron Egerton) não tem nenhuma classe. É um fora da lei do subúrbio de Londres cheio de problemas, mas que pelo menos sabe parkour. Em meio a vários almofadinhas, ele terá que aprender não apenas a lutar, como a ter algum estilo, requisito fundamental para o trabalho.

E Galahad estará sempre pronto para ajudá-lo. Afinal, se tem alguém que tem classe nesse mundo é Colin Firth. Não importa se você está por cima da carne seca, é um rei gago (“O discurso do Rei”, de 2010) ou um soldado torturado por japoneses durante a II Guerra Mundial (“Uma longa viagem”, de 2013). Colin daria um James Bond infinitamente melhor que Daniel Craig. 

Então Egssy terá que aprender a ser “phyno”. Assim mesmo. Com ph e y. Não como em "Uma linda mulher" (1990), porque ele não tinha Sessão da Tarde na TV de casa para conhecer o filme. É sim como em "Minha bela dama”. Ao indicar que gosta de Audrey Hepburn, o rapaz mostra ao menos algum requinte.


Desnecessário comentar o que vem na sequência. Você já pode imaginar. Mas o divertido é ver como a história chega até o final ao som de Bryan Ferry. “Kingsman” realmente gosta de um som dos anos 80.


A corneta curtiu "Kingsman", deu boas risadas e conseguiu chegar até o fim deste texto sem contar a única surpresa que configuraria um spoiler neste filme. Vitória! Sobre a nota final, “Kingsman” ganhará um 7.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Cotação da corneta: '50 tons de cinza'

Agora sem ver
A corneta não leu o livro “Cinquenta tons de cinza”, que agora chega aos cinemas do mundo todo cercado de ti-ti-ti e com mulheres cometendo loucuras nas salas, como a mexicana que foi presa por se masturbar. Mas Madonna leu o texto de E. L. James. E quando se trata de sexo, Madonna entende mais do que eu, você e mais da metade do planeta, dado o que a cantora que lançou o álbum “Erotica” (1992), o livro “Sex” (1992) e o filme “Na cama com Madonna” (1991) “aprontou” nessa vida. E ela classificou “Cinquenta tons de cinza” como “ficção barata”. Disse que o livro “não é muito sexy, a menos que você seja virgem” e ficou esperando alguma coisa realmente "excitante e louca acontecer naquele quarto vermelho".

Madonna ficou decepcionada com o livro. A corneta ficou decepcionada com o filme de Sam Taylor-Johnson. "Cinquenta tons de cinza" é tãoooooo bobinho que realmente eu tenho que concordar que só serve mesmo para donzelas recatadas. Para alguma Rapunzel pós-moderna. Sem tranças para fugir da torre. Citando Madonna, eu diria que ele é muito mais "True Blue" do que "Erótica". E não é por falta de esforço de Dakota Johnson, sempre pronta para fazer um jeitinho sexy. Até em entrevista.


Se a corneta tivesse que resumir "Cinquenta tons de cinza" em uma frase seria da seguinte maneira: "Duas horas de um cara tentando convencer uma mulher que um tapinha não dói". O filme também foi muito bem definido por algum gênio da internet como um "Sabrina com raio gourmetizador". Gostaria de saber o dono dessa pérola para homenageá-lo publicamente.

Para quem não sabe, os "clássicos" de "Sabrina" são livros que vendem (ou ao menos vendiam) em banca de jornal com aquela literatura rasteira e adocicada com histórias de amor e finais felizes. "Cinquenta tons de cinza" embarca numa ondinha parecida. Uma das diferenças é que o texto de E.L.James insere o já conhecido elemento sadomasoquista.

“Cinquenta tons de cinza” não chega a ser uma fábula infantil, mas está longe de ser o novo "Instinto Selvagem" (1992). Aliás, o filme tem sido alvo de muita zoeira por sua falta de libido. Até mesmo involuntária. A maior de todas foi ele ter ganhado classificação indicativa de 12 anos na França. Isso mesmo: 12 ANOS. É o mesmo que recebe uns episódios "mais pesados" dos Simpsons aqui no Brasil, que deu classificação indicativa de 16 anos para o filme de Taylor-Johnson. Para não falar no artista que transpôs as princesas da Disney para o universo "Cinquenta Tons". É muita desmoralização de um filme em que se esperava quase um escândalo.

“Cinquenta tons de cinza” começa quando Anastasia Steele (Dakota Johnson) ainda era uma jovem estudante de literatura inglesa vivendo uma vida "like a virgin". Com a amiga estudante de jornalismo doente, ela vai fazer o favor de ir até Christian Grey (Jamie Dornan) para uma entrevista do jornal da escola. Humm, difícil acreditar que um milionário tenha tempo para isso, mas sejamos polianas. Logo no primeiro encontro, Grey já lança para ela o seu melhor olhar Joey Tribianni, a intimida e deixa escrito em neón na testa: “Te quiero”. Anastasia faz ui, morde os lábios rosados e vai se refrescar na chuva.

Grey tem características de um homem quase perfeito e que, obviamente, só existe na imaginação de E.L. James. Ele se veste bem, tem personalidade, é seguro, consegue tudo o que quer, não falha, tem dinheiro, compra presentes incríveis para Anastasia, livra-a de roubadas e segura o cabelo dela quando ela vomita. Aparentemente, Grey também tem superpoderes, pois surge do nada em diferentes situações, sempre impecável e pronto para causar. A mãe de Anastasia quase tem um orgasmo quando o vê. Já a menina parece vinda de uma mulher de família do interior do país no século XIX. Mocinha em busca do príncipe encantado que não sabe nada da vida, cheia de sonhos e deslumbrada com toda aquela atenção. Embora não aparente ser uma “material girl” encantada com Grey, tudo o que ela quer é um homem para chamar de seu. Francamente, E.L. James.

E ai, sabemos que no amor os opostos se atraem. O cara fica de quatro por ela e faz de tudo para conquistá-la e levá-la para o seu quartinho vermelho onde tem um monte de brinquedinhos que ele garante que ela vai gostar. Sei, no dos outros é refresco né.

O problema é que Grey quer sexo selvagem três vezes por semana (e tudo assinado em contrato!), mas não quer assumir as outras responsabilidades da relação. Levar para jantar, acompanhar no cinema, pegar na mão, segurar as compras do shopping e mudar o status de relacionamento no Facebook nem pensar. “Eu não sou esse tipo de homem” e blábláblá, ele diz. Aliás, o seu distanciamento da moça, se revela no fato de só chamá-la pelo nome inteiro: Anastasia, comprovando que ele não está a fim de qualquer intimidade. Não pretende chamá-la de Ana, como ela pede, muito menos por apelidos fofos e constrangedores que casais adoram adotar. Grey só quer brincar no quartinho.

Ai fica difícil para Anastasia, que, embora demonstre alguns traços de “bad girl”, como na cena do contrato, ainda está aprendendo as coisas da vida. Enquanto o filme fica naquele jogo de empurra entre os dois, você já viu algumas cenas de soft porn estilizadas com direito a vinho, gelo, gravatas, cordas e música de Beyoncé. Nada que vá lhe dar realmente novas ideias.



"Cinquenta tons de cinza", é, portanto, uma perda de tempo. Mas pelo menos é educativo, uma vez que Grey usa camisinha o tempo todo. Afinal, você pode ser sadomasoquista, mas tem que ser consciente.

Como são três livros, é óbvio que vem ai uma trilogia de quatro filmes, a nova onda de Hollywood. Do primeiro, a corneta pode dizer que saiu do cinema com a libido inalterada. "Cinquenta tons de cinza" vai ganhar uma nota 3,5.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Cotação da corneta: 'Caminhos da Floresta'

Quero uma casa na árvore
Nos últimos 35 anos, Meryl Streep frequentou 18 vezes a festa do Oscar. O que significa que ela está presente disputando alguma coisa uma vez a cada quase duas cerimônias (1,94 para ser mais preciso). Sem contar as vezes que ela deu pinta sem concorrer a nada, só para entregar prêmios ou apresentar alguma coisa. No dia 22, ela estará mais uma vez em Hollywood com o seu vestido de grife (será um Prada?), para disputar com Patricia Arquette (“Boyhood”), Keira Knightley (“O jogo da imitação”), Emma Stone (“Birdman”) e Laura Dern (“Livre”) o careca dourado de melhor atriz coadjuvante.

Meryl não é a minha favorita (prefiro Patricia), mas ela estará lá. E não duvide que ela esteja no mesmo lugar em 2016, em 2017 ou enquanto ainda estiver viva. Afinal, Meryl é uma boa atriz e faz trabalhos quase sempre bons. E os velhinhos da Academia parecem gostar dela. (Faça suas apostas para o Oscar)

Vencedora como coadjuvante por "Kramer vs Kramer" (1980), e como atriz principal em "A escolha de Sofia" (1983) e "A dama de ferro" (2012), a atriz americana de 65 anos é recordista de indicações na história do Oscar entre homens e mulheres (a deste ano é a 19ª). E se vencer pela quarta vez se igualará ao mito Katharine Hepburn (pausa solene por Katharine), vencedora em 1934 por "Manhã de glória", em 1968 por "Adivinhe quem vem para jantar", em 1969 por "O leão no inverno" e em 1982 por "Num lago dourado". Todas como atriz principal.

Como se vê, Meryl tem credenciais e está bem acompanhada na história da Academia. Ao lado dela no ranking com três carecas dourados estão Ingrid Bergman, Walter Brennan, Daniel Day-Lewis e Jack Nicholson. E todo este longo preâmbulo é para dizer que somente ela justifica a presença de "Caminhos da Floresta" no Oscar deste ano.

Poucas vezes na vida a corneta viu um filme tão ruim quanto esta produção da Disney. Sabemos que musicais feitos dos anos 80 do século passado para cá quase sempre são ruins, mas o filme de Rob Marshall atingiu 7,5 pontos na escala "Titanic" de bomba cinematográfica. A título de curiosidade, a escala vai até 10.

Tudo o que Marshall fez de bom em "Chicago", ele não conseguiu em "Caminhos da Floresta". “Chicago” era um daqueles raros bons musicais feitos nas últimas décadas e que venceu seis Oscar em 2003, entre eles o de melhor filme. Ainda que não fosse o melhor filme em um ano que tinha “Gangues de Nova York”, “As Horas”, “O senhor dos anéis: as duas torres” e “O pianista” concorrendo. Mas venceu, pois era um musical com boas canções em que Marshall fez até o Richard Gere cantar de uma forma minimamente aceitável e tinha Catherine Zeta-Jones. Enfim, vocês me entendem quando eu digo que o filme tinha Catherine Zeta-Jones.

Já “Caminhos da Floresta” nunca chegou nem perto do outro musical de Marshall. É um grande horror kitsch que fez uma criança chorar durante a sessão de cinema em que eu estava. Ok, eu não sei por que ela começou a chorar depois de 1h10m de filme, até porque não era nenhum bebê, mas estava chorando. Só podia ser por causa do filme.

Vejam bem, fazer um filme todo cantado já soa um tanto quanto ridículo. Você acorda de manhã, está sofrendo, apanhando da vida, vai dar plantão no carnaval e está lá cantando “láriláaaaa lálalaaaa, Into the Woods”. Conhece o príncipe encantado da sua vida e manda “láriláaaaa lálalaaaa, Into the Woods”. Não tem o menor sentido se você não entrar no clima. E há musicais interessantes, como "Moulin Rouge" (2001). Só que "Caminhos da Floresta" atravessa todas as raias do mau gosto. É quase inacreditável que tenha indicações ao Oscar. Um milagre operado por Meryl Streep que, junto como Emily Blunt, se salva nessa hecatombe nuclear.

A cena-símbolo do que o filme representa é a dos príncipes de Cinderela e de Rapunzel cantando as dores do amor e disputando quem sofre mais em uma, acreditem, pequena CACHOEIRA. É algo que Chris Pine e Billy Magnussen ainda vão se arrepender de ter feito. Principalmente Pine. Cara, você é o Capitão Kirk do século XXI. Não pode se sujeitar a essas coisas.

A cena em questão tem ainda os dois abrindo ferozmente a camisa como se estivessem num clube de striptease para mulheres. Diante disse, acreditem, o cinema cai em gargalhadas. Mas são aquelas gargalhadas de constrangimento. Para a sorte de vocês (ou azar) eu encontrei este grande momento no YouTube que pode ser conferido abaixo.

Em “Caminhos da Floresta”, Meryl vive s bruxa má. A ideia do filme é juntar vários contos de fada em um só e dar um tom satírico. Então estão lá a Rapunzel, a Cinderela, João e seu pé de feijão e Chapeuzinho Vermelho e um constrangedor Lobo Mau vivido por Johnny Depp.

Parênteses para um comentário: Depp é alguém que anda precisando rever conceitos na carreira. Especializou-se no nicho figurões esquisitos e faz apenas a mesma coisa com maquiagens diferentes. Muitas vezes em filmes de gosto duvidoso, como “O cavaleiro solitário” (2013). A imprensa já até questiona se sua carreira está ficando decadente.

Mas como eu ia dizendo, nessa salada mista, um casal de padeiros (James Corden e Emily Blunt) precisa reunir elementos destes contos de fada para entregar para a bruxa e ela desfazer o feitiço que impede este casal de ter um filho.

A premissa podia ser interessante, apesar de toda a cantoria, mas a execução fica bem aquém do esperado. Primeiro porque a maioria das músicas não são boas. E quando as canções de um musical não são boas é porque a coisa está feia. Segundo porque ao juntar as histórias, elas tiveram que ser amarradas de uma tal maneira para unir todos os personagens, os protagonistas dos contos de fada num único desfecho ao fim do filme, o que deixou aquela sensação de estranheza e tornou o final confuso, esquisito e sem pé nem cabeça.

“Caminhos da floresta” realmente não convenceu a corneta. Diante deste show de horror cantado em verso e prosa, só me resta dar uma nota 2,5 para a nova aventura musical de Rob Marshall.


Indicações ao Oscar: atriz coadjuvante (Meryl Streep), figurino e design de produção.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Cotação da corneta: 'Birdman'

Eu acho que eu vi um passarinho
Sete razões pelas quais "Birdman" é um filme tão bom, mas tão bom que é digno de soltar aquele palavrão enaltecedor de uma obra ao fim de uma sessão de cinema. Vocês sabem de qual expressão estou falando. Não se façam de santos.

1) É o melhor trabalho de Michael Keaton desde... desde... desde... bem desde o tempo em que vocês só viam “Pica-Pau” e “Tom & Jerry” na TV.

2) Tem um subtítulo que parece tirado de escritos de Aristóteles ou Kierkegaard: "A inesperada virtude da ignorância". E todos sabem que não existem filmes ruins com títulos ou subtítulos filosóficos. Vide "A insustentável leveza do ser" (1988), “O sétimo selo” (1957) ou “Ponto de mutação” (1990).

3) Tem uma trilha sonora ARREBATADORA com solos e levadas de bateria que não te fariam ir ao banheiro se fosse num show de rock. E essa música é fundamental no desenvolvimento da história, pontuando as passagens, distribuindo o jogo.

4) É feito com uma mágica estilo David Copperfield. O diretor Alejandro Gonzalez Iñarrritu faz o filme todo em planos-sequências unidos por truques de edição totalmente excelentes que fazem parecer um só e deixam o a película naquele ritmo frenético. Não, eu não vou citar “Festim Diabólico” (1948), de Alfred Hitchcock. Todo mundo já falou disso.

5) Por falar no diretor mexicano, assim como "Amores Brutos" (2000), "21 Gramas" (2003) e "Babel" (2006), este filme também tem aquele truquezinho de histórias que se cruzam. A diferença é que nos filmes anteriores, elas seguiam paralelas até se encontrarem num ponto futuro no que eu chamaria de “Cinema à moda Claudio Coutinho”, pois ponto futuro era com o ex-técnico da seleção. Aqui, os personagens vão tecendo teias entre si o tempo todo e se cruzando, mas cada um com seu drama particular, seus problemas, suas questões, suas paranoias. Ninguém é mosca morta no filme.

6) Tem ótimas atuações. Tanto que três das nove indicações ao Oscar são para atores: Michael Keaton (excelente), Edward Norton (igualmente excelente) e Emma Stone (nem tão excelente assim).

7) É um filme de super-herói cabeça, afinal estamos falando do Birdman. Tipo "Watchmen" (2009). Ao mesmo tempo que é irônico e crítico aos filmes de super-heróis e à indústria do cinema de Hollywood com seus milhares de filmes de heróis de quadrinhos. Ok, nós nerds amamos filmes de super-heróis, mas entendemos a crítica ao exagero e a produção em excesso em detrimento de outros tipos de filme.

"Birdman" é tudo isso e muito mais. Completa com "Boyhood" e "Whiplash" a trinca de filmes realmente diferentes e, por isso, interessantes, entre os que estão em disputa pelos mais diversos carecas dourados deste ano. Ainda me faltam nove filmes para completar toda a lista do Oscar, entre eles dois candidatos a melhor filme, "Sniper Americano" e "Selma", mas pelo que andei lendo dificilmente estes trabalhos têm algum tipo de FRESCOR ou uma pegada DIFERENCIADA, como os três citados acima.

"Whiplash" é visceral, intenso, um filme sobre obsessões no jazz em ritmo de heavy metal. "Boyhood" uma OURIVESARIA de 12 anos para gerar um filme único que é uma história da vida. "Birdman" é vigoroso, taquicárdico, sofisticado. Ao mesmo tempo em que dialoga com toda essa cultura atual e questiona os valores que a indústria e cada um têm neste mundo de blockbusters explosivos e redes sociais expondo as tripas de cada um.

É tudo começa com um super-herói em crise...

Era uma vez um ator que ficou famoso fazendo um filme de super-herói. Mas ele se recusou a fazer mais uma sequência e foi em busca de novos desafios. Só que ele caiu no ostracismo e agora tenta dar a volta por cima ensaiando uma peça na Broadway feita a partir do texto do poeta Raymond Carver. Não, gente, Iñarritu garante que o filme não é baseado em fatos reais da vida de Michael Keaton, que depois de levar aquela lambida fatal de Michelle Pfeiffer em "Batman - O Retorno" (1992), não quis viver o Homem-Morcego em um terceiro filme, abrindo brecha para a chegada de Val Kilmer.

É a história fictícia de Riggan Thomson, o cara que foi o grande Birdman no passado, uma celebridade a moda antiga na era pré-Twitter e Facebook, e agora está desesperado em obter o reconhecimento e mostrar alguma relevância enquanto artista. Riggan quer mostrar algo mais do que um herói que se vestia de passarinho e piava. 

Volta e meia o filme é sarcástico com a frenética produção de filmes sobre quadrinhos. Ironiza grandes atores que viraram super-heróis ("Meu Deus, até nele colocaram uma capa", diz Riggan ao falar de Jeremy Renner, o Gavião Arqueiro dos “Vingadores”), e trata Hollywood como um celeiro de produções em série de trabalhos sem muito conteúdo.

Riggan quer mudar a percepção que o mundo tem dele. Mas uma voz estilo diabinho do Birdman volta e meia surge na sua cabeça para seduzi-lo a voltar para os arrasa-quarteirões. Enquanto isso, é preciso lidar com o novato “ator de verdade” Mike Shiner (Edward Norton), que despreza o cinemão de Hollywood, despreza Riggan e tenta fazer da peça um momento seu, e com Sam, a filha que se sente rejeitada ao mesmo tempo em que o pai se penitência por não ser tão presente.

Riggan também buscará a aceitação da crítica implacável Tabitha Dickinson (Lindsey Duncan), que já o acha ruim antes de vê-lo em ação, exibindo todos os seus preconceitos. Ok, eu captei a mensagem, Iñarritu, mas s corneta não vestirá a carapuça porque sempre foi adepta do "veja primeiro de coração aberto e pureza no olhar e critique depois". 

Por não ser um filme comum, “Birdman” dividiu as pessoas e os críticos. Tenho amigos que gostaram e que detestaram. Há críticos que o acham um lixo (veja aqui), que o elogiam (clique aqui), que ponderam que é bom, mas é boring (veja aqui) e que aplaudem (clique aqui). Isso é ótimo, pois mostra que ninguém é indiferente ao filme. Da parte da corneta, diria que “Birdman” me conquistou com toda a sua ousadia e alegria. Dizem que é um dos favoritos ao Oscar. Por aqui vai ganhar uma nota 9.

Indicações ao Oscar: Filme, diretor (Alejandro Gonzalez Iñarritu), ator (Michael Keaton), ator coadjuvante (Edward Norton), atriz coadjuvante (Emma Stone), roteiro original, fotografia, edição de som e mixagem de som.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Cotação da corneta: 'O jogo da imitação'

Cumberbatch e seu olhar 43
Da próxima vez que você fizer cara feia nas suas aulas de matemática ou perguntar pra que serve ficar fazendo cálculos de infinito ou raiz quadrada lembre-se de uma coisa: matemática ganha guerras. Pois é basicamente essa a lição que nós recebemos do belo filme (vou logo explanar que o filme é bonzão), "O jogo da imitação". Nele, Benedict Cumberbatch... bem, consigo imaginar gritinhos histéricos de meninas quando escrevo esse nome. Acalmem-se Cumberbitches!

Mas como eu ia dizendo, nele Benedict Cumberbatch, nosso futuro Doutor Estranho e atual melhor Sherlock Holmes do momento, vive o matemático Alan Turing. Este veio a ser um gênio que criou uma máquina capaz de decodificar o sistema Enigma, uma parada muito sinistra usada pelos nazistas para realizar ataques na II Guerra Mundial. Esta máquina sensacional e totalmente excelente poderia ser considerada uma espécie de avó dos computadores. Turing, inclusive, é considerado um dos pais da ciência da computação. Corneta é cultura, meus caros.

Com o seu brinquedinho, Turing ajudou os aliados a vencer a guerra. Sem ele, não haveria a Batalha de Stalingrado, desembarque na Normandia no dia D (pelo menos é o que o filme diz) e a filmografia de Steven Spielberg sofreria baixas consideráveis.

Resumindo, o cara foi um herói de guerra atuando de uma cidadezinha do interior da Inglaterra chamada Bletchley. A questão é que Turing tinha um problema que era considerado grave naqueles tempos ainda mais preconceituosos: era gay.

Naquela época, ser homossexual no Reino Unido era considerado crime com pena de prisão ou um tratamento hormonal violento que prometia reverter o que era chamado de "doença". Sim, o mundo já foi ainda mais idiota. Em um ano, Turing sofreu com as consequências desse tratamento hormonal e acabou vindo a falecer em junho de 1954. O filme de Morten Tyldum encampa a tese de suicídio, o que ainda é contestado. Ele também toma outras liberdades em relação à história real para tornar o filme mais, digamos, hollywoodiano.

Cumberbatch compõe um Turing com todas as características de gênios incompreendidos. Manias, tiques, arrogância, presunção, sensação de não fazer parte daquele mundo e viver num mundo particular, isolamento, dificuldade de se socializar, enfim, um personagem típico de concorrente ao Oscar que ele é. Só não sabemos se vai ganhar, pois neste ano temos outro personagem no estilo gênio com dificuldades e que tudo supera para atingir o seu objetivo, o físico Stephen Hawking, interpretado por Eddie Redmayne, em "A teoria de tudo". o ator ganhou o Globo de Ouro e parece ser favorito ao Oscar. A corneta ainda não teve tempo de conferir se ele é essa última cocada da festa junina mesmo.

Contracenando com Cumberbatch, há um verdadeiro catadão de algumas das principais séries do momento. Temos Charles Dance, o Twyn Lannister, de “Game of Thrones”, que faz o comandante Denniston. Rory Kinnear, o primeiro-ministro inglês de “Black Mirror”, que faz o detetive Robert Nock, policial que prende Turing nos anos 50, e Allen Leech, que faz um dos auxiliares de Turing e ainda manteve algumas das características do Tom Branson de “Downton Abbey”. Quem ver o filme, vai entender o que eu quis dizer.

Junto com essa turma, está Keira Knightley, com aquela mesma atuação que conhecemos. Uma mistura de Anna Karenina sofrida + mocinha de Jane Austen e cuja indicação ao Oscar soou como exagero (mais um, vão computando). É apenas ok. Nada que não tenhamos visto ela fazer igual. No filme, ela faz Joan Clarke, que viria a ser uma importante parceira de Turing e o ajudaria a se enturmar com a equipe de trabalho dele.

"O jogo da imitação" lembra para mim um pouco "Uma mente brilhante" (2001), filme vencedor de quatro Oscar, entre eles o de melhor filme de 2002. Isso porque o trabalho de Ron Howard também falava de um matemático, John Nash, famoso por ter desenvolvido a Teoria dos Jogos. Nash também era genial, antissocial, mas sofria de uma doença real, a esquizofrenia.

O filme de Morten Tyldum é igualmente muito bom. Não é à toa que recebeu oito indicações ao careca dourado. Entre elas a de melhor filme. Não sei se vencerá no dia 22 de fevereiro (é provável que não), mas da parte da corneta "O jogo da imitação" ganhará uma nota 8.

Indicações ao Oscar: filme, ator (Benedict Cumberbatch), atriz coadjuvante (Keira Knightley), diretor (Morten Tyldum), roteiro adaptado (Graham Moore), edição, trilha sonora original e design de produção.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Sobre o show do Foo Fighters

Dave Grohl e o Foo Fighters no Maracanã
Algumas considerações malemolentes sobre o show do Foo Fighters.
- Dave Grohl e sua banda foram possuídos pelo espírito Fidel Castro do Dream Theater e fizeram cada música ter pelo menos 18 minutos. Principalmente os hits. Não precisava. Parecia que estavam tocando para eles. O show podia ser meia hora menor ou ter as mesmas 2h30min com mais músicas.
- Nesse ritmo, ainda bem que quando chegou o momento good times do set cover, eles escolheram tocar Kiss, Rush e Queen. Imagina se decidem mandar "Kashmir", do Led Zeppelin. Estavam tocando até agora.
- Dave Grohl foi simpatia quase amor com a galera. O rapaz estava em casa e acho que até deu uma sambadinha estilo Rubinho Barrichello.
- Segundo as estatísticas, o cantor chamou a plateia de motherfuckers 15 vezes. Acho que foi isso. Uma hora eu parei de contar.
- O ex-baterista da Alanis Morissette canta desgraçadamente mal. Mas não dá para esperar uma banda com dois bateristas que cantam. É mais fácil ter um dating com a Scarlett Johansson.
- Não precisava ter cover de "Blackbird" depois de 25 shows do Paul McCartney no Brasil. Até porque o Dave Grohl não ia fazer melhor.
O show dos aplicativos de lanterna
- Eu tenho saudade de quando acendiam isqueiros nas músicas lentas. Celular e luz branca não é o romantismo-arte, o romantismo-moleque. É um romantismo de resultados.
- Com o futebol carioca falido, decadente e praticamente sem ídolos, acho melhor o Maracanã aproveitar a sua boa acústica e investir em shows. Manda os clubes para o Engenhão que está bom demais para o nível atual.
- Ninguém pode reclamar que faltou música. Todos os hits estavam lá e foram tocados com a FEROCIDADE que se espera no rock and roll. Meu ouvido está, inclusive, zumbindo.
- Por fim, nunca imaginaria na minha tenra adolescência ainda chorando a morte de Kurt Cobain que veria o baterista do Nirvana lotar um estádio de futebol duas décadas depois. O mundo dá voltas.
Cotação final da corneta: 6,5.