sábado, 24 de julho de 2010

O amor em quatro estações

John Keats (Ben Wishaw) e Fanny Brawne (Abbie Cornish) viveram um romance curto, mas profundamente intenso. Um amor que perdurou até o fim da vida de Fanny em 1865. Nem um casamento 20 anos após a morte de um dos últimos poetas românticos em 1821 ou mesmo a chegada de filhos fizeram Fanny esquecer aquele que foi o grande amor de sua vida.

Um romance trágico, fugaz, absolutamente lírico e mais idealizado do que consumado foram o que viveram o poeta e Fanny naquelas poucas estações que a vida lhes proporcionou. Do desconfiado encontro invernal, passando pelo despertar do sentimento na primavera e o auge da paixão no verão, o casal viveu encontros e desencontros semeados pelas próprias dúvidas e pela falta de dinheiro de Keats, que por vezes não se considerava o homem certo para Fanny ao mesmo tempo em que a jovem via a sua paixão crescer a uma dimensão como ela jamais sentira.

Esta é a história que Jane Campion tenta transpor para a tela em “Brilho de uma paixão”. O filme da diretora de “O Piano” (1993) tem a beleza desse amor entre Keats e Fanny, que atravessa as estações da mesma forma em que parece ser influenciado por elas. Os dois se conheceram quando ela tinha 18 anos e Keats já estava com 23, dois anos antes, portanto, de sua morte por tuberculose na Itália.

Poeta em busca da fama após a recepção fria de “Endymion” (1818), Keats era um atormentado em busca das palavras ideais para a sua poesia, mas também bastante endividado e vivendo de favores de amigos como Mr. Brown (Paul Schneider). Contudo, Fanny vê alguma beleza no seu texto e deseja conhecê-lo.

A empatia é instantânea e a paixão vai florescendo, só cresce com o beijo no despertar da primavera e atinge seu ponto de maior palpitação justamente num verão em que os dois estão separados e apenas a troca de cartas alimenta o espírito sedento por mais e tão insatisfeito com tão pouco.

Keats, porém, não se achava bom o suficiente para Fanny e por mais que a amasse tentou se separar dela. A jovem era a mulher idealizada, e, portanto, intocável de Keats. A musa inspiradora, amada, desejada, mas pouco tocada. O filme dá a entender que Keats pouco foi além dos meros beijos em Fanny, que também se envolveu na teia subjetiva do poeta romântico.

O poeta, por sua vez, parecia temer estar finalmente diante da sua musa e por vê-la acessível ao contrário de um objeto de pura beleza e onírico que transpirava do seu coração para o papel e os livros.

Pode ter tentado se separar por medo, culpa, por ser e se achar um frágil prendendo uma mulher que não poderia viver presa a um calabouço e precisava flanar como uma borboleta. Só não contava que Fanny também embarcasse neste jogo de sonhos e intensidade que a fez segui-lo até o fim.

“Brilho de uma paixão” pode ser por vezes arrastado - não há muita ação. São apenas diálogos e longos planos contemplativos – ou excessivamente “meloso” (principalmente para quem não está apaixonado), mas é uma bela história de um grande amor que só se encerra no túmulo. E que Jane Campion retrata com a beleza, as cores, os dissabores e as características de cada estação.

Já que estamos falando de estações do ano, um pouco de Vivaldi para encerrar o post.
Primavera
Verão
Outono
Inverno

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Um time de primeira

Quando vi “Cruzada” (2005), lembro de ter comentado com um amigo que o filme acabou na primeira meia hora quando um grupo então liderado pelo personagem vivido pelo ator Liam Neeson era simplesmente dizimado. Fiquei com a sensação de que a morte deles estragou o filme protagonizado por Orlando Bloom. E “Cruzada” era realmente bem meia-boca.

Cinco anos depois, entro no cinema para novamente ver Liam Neeson, dessa vez no papel do Coronel John Hannibal Smith, comandando mais uma equipe que promete boas batalhas em duas horas de “Esquadrão Classe A”. E que decisão acertada tem sido a do ator de 58 anos em protagonizar filmes de ação e aventura. Eles são sempre excelentes como “Batman Begins” (2005) ou pelo rendem uma boa diversão, caso de “Busca Implacável” (2008).

Tenho poucas lembranças da série de TV dos anos 80 do século passado que originou o filme dirigido por Joe Carnahan, o mesmo do excelente “Narc” (2002). Lembro que era criança quando isso passava uma vez por semana num horário da TV Globo muito mais bem aproveitado do que hoje, quando passa uma “novelinha jovem”.

Por ser algo bem distante para mim, acompanhar a saga de Hannibal, dos figuraças Templeton “Cara de Pau” Peck (Bradley Cooper), Bosco B. A. Baracus (Quinton “Rampage” Jackson) e do completamente insano Murdock (Sharlto Copley), mercenários que fazem o trabalho sujo dos Estados Unidos quando são chamados, é quase inédito para mim. E esse quarteto toca o terror em cenários que vão desde o deserto no Iraque a Alemanha sempre com ideias mirabolantes e supostamente impossíveis de realizar. Lembro que a série tinha algo semelhante também.

Cada membro desse quarteto tem o seu estilo. Hannibal é o líder cerebral sempre com um plano na cabeça e “subplanos” dentro dos planos para o caso de algo dar errado ou tomar rumos diferentes. Cara de Pau, como o próprio apelido diz é o canalha sedutor do grupo. Sempre disposto a arriscar uma missão por uma bela mulher e o que mais dá a cara a tapa nas missões. Baracus é o brutamontes, pura força bruta, cujo ponto fraco é o medo de voar, o que o coloca sempre em conflito com Murdock, o piloto enlouquecido que faz manobras de revirar o estômago dos mais experientes aeronautas.

Esses quatro já valem uma conferida em “Esquadrão Classe A”, que conta anda com Patrick Wilson como um agente da CIA que conduz a história manipulando-a como, bem, um agente da CIA, ora.

“Esquadrão Classe A” é um blockbuster, mas não é um filme para topeiras ao estilo Rambo (tá, eu gosto de Rambo, mas o filme é ruim). É divertido, tem tiradas bem humoradas e os atores estão bem em cena.

A história, porém, poderia ser melhor explicada. Tem alguns momentos que você se perde nas reviravoltas entre uma explosão aqui e um tiroteio ali. Fica a sensação de que o roteiro de Carnahan e Brian Bloom poderia ser mais bem trabalhado. Mas nada que prejudique seus 120 minutos de pura diversão ou nostalgia para os que pretendem se reencontrar com a série.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Um bom filme de Polanski

Encerrada a maratona futebolística da Copa do Mundo, Memórias da Alcova retoma suas atividades normais. Pretendo não sumir mais por muito tempo. A menos que a eleição me pegue da mesma forma que o Mundial da África do Sul. Tentando recuperar o tempo perdido, assisti à três filmes nos últimos dias, sobre os quais falarei com calma neste e nos próximos posts.

O primeiro deles foi o mais recente trabalho do diretor francês Roman Polanski. “O escritor fantasma” está quase saindo de cartaz, mas para quem não viu vale dar uma conferida. O tempo que demorei para assisti-lo, aliás, acabou sendo de certa forma benéfico, pois me afastou de tentar associá-lo à prisão do cineasta na Suíça e à tentativa de extradição para os Estados Unidos que acabou não acontecendo por causa do processo pelo qual ele é acusado de abusar de uma garota de 13 anos em 1977.

Pude me concentrar, portanto, apenas neste trabalho do diretor de “O Pianista” (2002). Inferior ao filme que lhe rendeu o Oscar, “O escritor fantasma”, porém, é um bom trabalho de Polanski. Embora nada na película tenha de diferente de outros filmes de suspense "investigativo/policial" – inclusive ele tem um clima soturno que lembra muito “Ilha do Medo”, recente trabalho de Martin Scorsese que esteve em cartaz antes da Copa -, o desenrolar da trama o prende diante da tela e você fica ali junto com o Ewan McGregor, o tal escritor fantasma do título, querendo juntar as peças do quebra-cabeça e tentando adivinhar esse enigma que começa a se formar a partir de um enredo simples: um ghost writer que tem que escrever a autobiografia do ex-primeiro-ministro britânico Adam Lang (Pierce Brosnan, o grande 007).

Lang, aliás, se parece muito com o velho Tony Blair, cuja popularidade despencou desde que apoiou incondicionalmente George Bush nas suas guerras no Oriente Médio. E Polanski e o roteirista Robert Harris criam a partir dessa história simples, “teorias conspiratórias” interessantes para conduzirem o seu filme.

A partir daí, cabe ao sempre talentoso Ewan McGregor, no seu melhor trabalho desde “Peixe Grande” (2003), embora nada profundamente marcante, dar as inflexões necessárias para te deixar com aquela pulga atrás da orelha e aquela frase na cabeça: “Aí tem”.

Tem muito, como mostra o desfecho da película que gera, no mínimo, um ponto de exclamação positivo de quem encontra uma curiosa surpresa. Por isso, “O escritor fantasma” vale o ingresso. Se você ainda conseguir comprá-lo.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

A última cena de um grande ator

Parafraseando narradores, jogadores e comentaristas de futebol, Heath Ledger era um ator “diferenciado” (como odeio essa palavra). Mas é preciso dizer que o ator que morreu há dois anos era realmente diferente. Seu incrível trabalho em “Batman, o Cavaleiro das Trevas” (2008) era possivelmente um divisor de águas para a continuidade de uma carreira que poderia ter sido brilhante.

Mas a morte precoce aos 29 anos ceifou qualquer possibilidade de os fãs do seu trabalho e do cinema em geral acompanharem essa ascensão de Ledger.

Restou apenas uma incompleta “saideira”. Último trabalho da carreira de Ledger, “O mundo imaginário do Dr. Parnassus” nos oferece uma mostra de como o ator estava evoluindo cada vez mais. Num filme por vezes confuso de entender, de um realismo fantástico saído da mente do diretor e roteirista Terry Gilliam, Ledger brilha a cada cena que aparece. Cenas essas cuidadosamente colocadas no filme.

Foi durante as filmagens de “Parnassus” que o ator veio a falecer. O trabalho incompleto fez com que Gilliam tivesse que convocar três atores para substituí-lo e o obrigou a reinventar alguns pontos da história numa conclusão que acredito ter ficado bem satisfatória.

Convocados para filmar o que faltava, Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell nos permitem fazer uma comparação que mostra que Ledger estava cada vez mais próximo do primeiro e bem distante do último, disparado um dos pontos fracos do filme e que quase o coloca a perder.

Mas Farrell não chega a estragar uma película que embora seja um tanto quanto louca se revela uma divertida, interessante e despretensiosa história. Desde que, claro, você esteja disposto a mergulhar nesse mundo bizarro em que a razão não é lá muito bem exercitada. Mas é cinema, e cinema não é realidade.


E com tudo isso, em poucas inserções, Ledger mostra o bom ator que já era. Uma pena que “O mundo imaginário do Dr. Parnassus” tivesse que ser a última vez em que o vimos exercitar o seu talento.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Alice cresce e amadurece


Não sou daqueles caras que têm orgasmos múltiplos com novas tecnologias ou a cada lançamento. Embora confesse que com o passar do tempo, acabo me rendendo a algumas facilidades interessantes. Mas ainda assim, não tenho I-Pad, I-pod ou qualquer coisa do gênero - a indústria erótica ainda vai acabar inventando o I-Phode (não podia perder a piada).

Essa introdução é para dizer que embora reconheça que isso seja o futuro, não me empolgo com o chamado cinema 3-D que vai ganhando força a cada blockbuster que surge por aí. Não é que eu lidere uma resistência pelo 2-D ou me recuse a assistir filmes neste novo formato. Só não vejo muita graça em colocar uns óculos no cinema para ver uma borboleta voar na minha cara. Talvez até porque eu viva numa cidade em que ainda é possível que uma borboleta voe na minha cara. Pelo menos até o apocalipse ambiental que muitos desejam.

Então foi por falta de opção que vi “Alice no país das maravilhas” em 3-D. Não queria, pois acredito que um bom filme é bom até em 1/2 D, mas não tive escolha e paguei um pouco a mais para ver o novo filme de Tim Burton.

Menos mal que ao contrário de “Avatar”, a bomba sem graça de James Cameron, “Alice” é até interessante. Sim, Burton e a roteirista Linda Woolverton fizeram algumas alterações na história original de Lewis Carroll, fundiram personagens, mudaram uma coisa aqui e ali, mas na essência os principais personagens estão lá, incluindo o Chapeleiro Louco (Johnny Depp, sempre bem, em mais um personagem esquisito para a sua coleção) e as rainhas vermelha (Helena Bonham Carter) e branca (Anne Hathaway).

Contudo, o mais interessante desta leitura é que embora a película tenha o mesmo nome do livro de Carroll, Burton optou por contar a história do retorno de Alice, vivida pela até então desconhecida australiana Mia Wasikowska, ao País das Maravilhas.

Assim, sai a menina inocente, entra a adolescente quase adulta petulante, com posições firmes e decidida e uma missão nesta história de contornos levemente medievais. Alice agora é trazida de volta a este mundo paralelo e fantástico para cumprir o seu destino e decidir o que deve fazer enquanto no “mundo real” parentes o aguardam para uma resposta diante de um pedido de casamento arranjado.


A jornada de Alice é de reaprendizado, crescimento e reflexão que vão culminar na sua entrada definitiva na idade adulta. Afinal, todos já conhecem a história da pequena Alice. Era preciso, portanto, tomar a liberdade de avançar sobre ela. O resultado pode não ter uma marca tão forte como a que Burton impõe aos seus filmes, mas a conclusão é de um filme que seria divertido em qualquer dimensão.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Zico à Maradona

Ao assumir o risco de comandar o futebol do Flamengo, Zico mostra ter a coragem de um Maradona ou de um Roberto Dinamite. Maior ídolo da história do Rubro-negro, o ex-jogador tenta retomar sua vida no esporte após passagem apagada como treinador pelo futebol grego justamente no clube onde ele conquistou tudo e se tornou um Deus. Logo, Zico não tem nada a ganhar no Flamengo, embora o Flamengo tenha muito a ganhar com Zico.

Maradona também sempre foi Deus para os argentinos. Com a camisa da seleção ganhou uma Copa do Mundo e carregou o time ao vice-campeonato do Mundial seguinte. Mais do que a mão de Deus foi a genialidade do seu pé esquerdo que o tornou senhor absoluto de uma Igreja que só existe na Argentina.

Mesmo assim, Maradona topou em 2008 assumir o risco de treinar a seleção da Argentina. Saiu do pedestal de ídolo maior para virar vidraça no exigente futebol local. Rei dos campos, virou mortal no banco de reservas e apanhou da imprensa e dos súditos que viam uma talentosa Argentina não jogar bem e sofrer para chegar na Copa do Mundo. Garantida a vaga, o ídolo não teve pudores ao endereçar os seus piores xingamentos aos maiores detratores.

Zico também vai virar vidraça e por mais que tenha sucesso na sua nova empreitada uma hora terá decisões contestadas e poderá ter, inclusive, sua imagem de Deus arranhada. Mas ainda assim preferiu descer do Olimpo para lutar na planície.

Isso é algo que Pelé, por exemplo, nunca fez. E isso não é uma crítica, apenas uma constatação. O rei do futebol sempre manteve a sua majestade justamente por não se arriscar a assumir um cargo no Santos ou na seleção brasileira. Era preferível deixar o Pelé na história e viver a vida do Edson em paz.

O que pode acontecer com Zico, já acontece com Roberto Dinamite. Os campeonatos ruins do Vasco e a objetividade extrema a que se impõe o futebol não perdoam o comandante de agora, por mais que o ex-atacante ainda esteja tentando consertar os erros terríveis deixados pela administração Eurico Miranda. O presidente Dinamite já foi vaiado como um jogador medíocre que o atacante jamais foi.

É a isso que Zico estará exposto agora. Mas a conversa de domingo com a presidente Patrícia Amorim, que definiu sua contratação, parece tê-lo convencido. Em março, o ex-craque afirmara que seria constrangedor para ele e para o torcedor assumir o cargo de treinador do clube. Isso porque, o torcedor poderia querer chamá-lo de burro e não o faria mesmo que estivesse certo porque ele é o Zico.

Mas o projeto rubro-negro o seduziu. O fez mudar de ideia. Não sem antes garantir que receberá o dinheiro dos patrocinadores e não do clube, onde por vezes os meses têm 60 ou 90 dias.

E Zico é uma figura fundamental no futebol brasileiro. Principalmente porque não faz parte da podridão dele. Porque tem valores que os dirigentes que cresceram e enriqueceram as custas dos clubes de futebol jamais tiveram. Porque gosta do futebol bem jogado por ter sido expoente de uma seleção e de um time que sabiam jogar futebol. Para Zico vencer é preciso, mas sempre jogando bem. Dentro e fora do campo.

Como Maradona, Zico vai se expor novamente na arena em que foi rei. Torçamos para que ele dê certo. Até porque as críticas injustas que Patrícia Amorim já começa a ter de colegas rubro-negros do blog crescem a cada resultado ruim do Flamengo dentro do campo. E uma queda de uma dirigente aparentemente honesta que faz parte de uma renovação absolutamente necessária no futebol carioca é uma dupla derrota. Significa o fim de um projeto sério de reconstrução do clube (sim, o Flamengo estava mal, mas sua situação foi maquiada com o título brasileiro) e o retorno das aves de rapina que jogaram o futebol carioca na segunda divisão nacional. Que Zico consiga voltar a marcar os seus golaços na nova função.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Sonhos

Gritos medievais
Vitórias incontestes
Desejos imortais
O espelho que não reflete

Realismo fantástico
Cores, luzes
Realizações impossíveis
Clímax orgástico

Numa cama as ilusões
De batalhas campais
Um mundo em realizações
Exageros por demais

Um galã infalível
Uma mulher imprevisível
Num castelo cintilante
E o mar adiante

Futuros previstos,
Passados relidos
Um ciclo se encerra
Quando nada se emperra

E no despertar do guerreiro
A melancólica verdade
A vida se apresenta
Hora de encarar a realidade

sábado, 22 de maio de 2010

De olho na franquia

Às vezes tenho a sensação de que não se faz mais nada em Hollywood hoje em dia quando se pensa em filmar um blockbuster que não seja antes responder à seguinte pergunta: Como será a sequência deste filme?

Estava pronto para esculhambar a visão de Ridley Scott para o cinema do lendário fora da lei que “roubava dos ricos para dar aos pobres” quando lá pelo terço final de “Robin Hood” caiu a ficha exclamativa. Porra, Marcelo! Esse é um filme do gênero “como-o-herói-se-torna-uma-lenda”.

Assim, esqueça pelo menos por 2h20m do Robin Hood vivido há 19 anos por Kevin Costner - e também de Sean Connery, Errol Flynn, entre outros – e concentre-se na história de Robin Longstride (Russel Crowe, vivendo muito bem outro herói de época, embora extremamente parecido com Maximus, o herói de “Gladiador” - 2000, também de Ridley Scott), arqueiro do exército do rei Ricardo Coração de Leão (Danny Huston), nobre, corajoso, capaz de dar a própria vida pelos seus ideais. Ele está neste momento fazendo uma revisão de sua existência enquanto procura juntar os cacos soltos de sua história. E a maneira como montará esse quebra-cabeça é das mais estranhas possíveis. A ponta que ficou solta foi no roteiro.

Floresta de Nottingham, roubar dos ricos, esqueça. Robin aqui ainda está formando seu grupo, composto, entre outros por frei Tuck (Mark Addy), Little John (Kevin Durand) e o seu grande amor, Lady Marion (Cate Blanchett).

Aqui, Robin é um líder de uma região do norte da Inglaterra. Na impossibilidade de Sir Walter Loxley (Max von Sydow) participar, fala por ela nas demandas com o rei John (Oscar Isaac), irmão do morto monarca Coração de Leão, e tenta unificar a Inglaterra em torno de um bem comum: a luta contra a invasão francesa do rei Filipe.

Um herói nobre, quase perfeito, mas fora da lei. Taí a semelhança com o general Maximus, tão brilhantemente vivido por Crowe numa atuação que lhe rendeu um Oscar no início da década.

Isso significa que “Robin Hood”, o filme, é ruim? Não. É um bom filme de aventura. Mas é aqui que retorno ao tema de abertura do texto. O trabalho de Ridley Scott é, de fato, uma mera preparação para uma sequência e prenúncio de uma milionária franquia. Não é a toa que o filme termina com a mensagem: “E a lenda começa”. Parece que ninguém mais consegue contar uma história em 120 minutos. Ou consegue, mas não quer. Uma espécie de efeito Matrix.

Assim, “Robin Hood” é a história de como Robin Longstride se tornou Robin Hood. Agora, aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Escada para os Vingadores

Sim, Robert Downey Jr. continua excelente no papel de Tony Stark/Homem de Ferro. A trilha sonora do novo filme de Jon Favreu também é de primeira, começando com “Shoot to thrill”, do AC/DC, passando por “Should I stay or should I go”, do Clash, e encerrando apoteoticamente com “Highway to hell”, da banda de Angus Young e Bon Scott. E a presença da maravilhosa Scarlett Johansson como a Viúva Negra (como ela ficou espetacular ruiva) e de Mickey Rourke interpretando sempre com paixão, afinco e loucura os seus papéis, dessa vez o russo Ivan Vanko, foram um ganho à série.

Apesar disso, “Homem de Ferro 2” é lamentavelmente inferior à primeira aventura, de 2008, e infelizmente foi feito mais para servir de escada para o filme dos Vingadores que está por vir (especula-se que ele sairá em 2012, depois dos filmes do Thor, previsto para 2011, e do Capitão América, também previsto para 2011), do que como uma sequência da história do playboy dos quadrinhos que vira um herói.

Assim, temas importantes como o problema de alcoolismo de Tony Stark vira uma mera brincadeirinha de uma bebedeira numa festinha. Todas as ações são pensadas, compassadas para um “bem maior” que é esta grande aposta da Marvel. Nada contra, mas acho que isso poderia ter sido feito com mais equilíbrio como no primeiro filme, quando algumas pílulas apareciam escondidas aqui e ali, da mesma forma que aconteceu no filme do Hulk, e no final ganhávamos ainda uma cena extra que dava um aperitivo interessante.

Isso se perdeu um pouco na atual aventura. Ou melhor, houve uma inversão de conceitos, causando a sensação de estar se vendo um trailer de um filme maior que está por vir. E para mim já é aguardadíssimo. Só quero saber como eles vão fazer para começar a história do Capitão América do zero – lembremos que ele é um herói da segunda guerra mundial – e jogá-lo já no século XXI. Afinal, o filme anterior feito em 1990 e estrelado por Matt Salinger, era tão tosco que não dá nem para ficar como referência. Também estou curioso para saber se o Thor será devidamente tratado como o deus do trovão de Asgard com a presença do seu pai Odin, seu meio-irmão Loki etc..., ou vai ser aquela palhaçada de um homem batendo o martelo no chão e saindo voando por aí (lembram da velha série do Hulk com Lou Ferrigno no papel principal?).

Mas de volta ao Homem de Ferro, o filme de Favreu tem outro defeito grave para uma película do gênero. As seqüências de lutas e de ação são bem fraquinhas, mal coreografadas e sem graça. O clímax, que deveria ser uma luta do herói e do coronel James Rhodes (Don Cheadle) contra dezenas de máquinas de Justin Hammer (Sam Rockwell) criadas por Vanko, é na verdade um anticlímax, por ser uma cenazinha bem chinfrim. Decepção total. E num filme blockbuster como esse isso não pode acontecer.

Apesar disso, Downey Jr. tem carisma suficiente para segurar a película até o fim. E a história do herói acaba ganhando uma correção na sua trajetória no final que pode ser melhor desenvolvida no terceiro filme que virá após o trabalho dos Vingadores. Resta-nos aguardar os próximos capítulos dessa história, pois “Homem de Ferro 2” é apenas um médio aperitivo para o melhor que está por vir. E espero que ele seja realmente melhor.

Enquanto o filme dos Vingadores não vem, apreciemos a sempre espetacular trilha sonora do Homem de Ferro. AC/DC e Clash para os amigos.

Shoot to thrill

Highway to hell

"Should I stay or should I go"

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Mais do mesmo (mas é bom)

Um indivíduo neurótico, hipocondríaco e/ou completamente nonsense não é uma novidade na vasta filmografia de Woody Allen. O próprio já o interpretou em trabalhos recentes como “Sonhos de Cassandra” (2007) e “O escorpião de Jade” (2001). Da mesma forma, Nova York não é um cenário absolutamente novo nas lentes da câmera do diretor, por mais que nos últimos anos ele tivesse dado uma “europeizada” nos seus trabalhos filmando em Londres (“Match Point”, de 2005, e “Scoop”, de 2006) e na Espanha (“Vicky Cristina Barcelona”, de 2008).

Assim sendo, o novo filme de Allen pode ser considerado um retorno ao ponto comum de sua zona de conforto? Sim, mas isso não é necessariamente um defeito.

Sinto-me à vontade para falar do diretor, pois estou longe de ser fã do trabalho dele. Acho que ele alterna filmes excelentes com outros que não consigo gostar. Não é que ele não tenha a qualidade abordada por muitos. Quem sou eu para dizer isso? É só uma questão de gosto pessoal.

Por outro lado, confesso que a cada dia gosto mais dos seus filmes. Talvez a idade e a experiência cinematográfica esteja me fazendo enxergar outros ângulos ou apenas tenha aprendido a apreciar seus filmes docemente leves, apesar da profundidade de suas mensagens passadas com sutileza e de forma cirúrgica.

Woody Allen consegue falar de Teoria das Cordas e física quântica como quem frita um ovo ou faz um miojo. E falar sobre o difícil de forma simples e se fazendo entender é uma arte.

Em “Tudo pode dar certo” nos deparamos com a história de Boris (Larry David), um frustrado indicado ao prêmio Nobel que vive num apartamento pequeno e sujo em Nova York e ganha a vida dando aulas de xadrez para crianças que ele considera em um nível de estupidez próximo ao dos protozoários. Um fim melancólico para uma mente considerada por ele mesmo privilegiada e brilhante.

Tão brilhantemente racional, Boris odeia os micróbios humanos e teoriza sobre tudo. Até sobre seus sentimentos por uma jovem que bate à sua porta à procura de comida e vai ficando após dobrar o seu mal humor. Melody (Evan Rachel Wood) é habilidosa na sua ignorância e consegue até criar uma relação com Boris. Relação esta que vai crescendo a partir da convivência entre duas pessoas tão diametralmente opostas. Para mostrar o crescimento da admiração daquele velho turrão conforme o tempo de convivência, Allen usa nada menos do que a matemática e insights filosóficos.

Como uma comédia de costumes, assim, digamos, moderno, Allen usa a história desses dois como linha central para criar um série de situações perpendiculares onde o acaso e o destino se mostram mais senhores da verdade do que qualquer decisão racionalmente tomada sob cálculos pré-medidos.


E nesse contexto, o diretor exercita o que ele tem de melhor: seu texto criativo que faz a plateia rir satisfatoriamente. Por isso, “Tudo pode dar certo” pode até ser mais do mesmo de Allen, mas é uma iguaria a ser apreciada com deleite.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Ciclos

Hábitos rítmicos
Como pedras
Explodindo na água

Lampejos sônicos
Bomba de nêutrons
Devastação, silêncio
Ditirambos histriônicos

Eterno retorno
Conceito alemão
Kant, Schopenhauer
Nietzsche rejeita Platão

Filosofia na vida
Práxis, eternidade
Oráculos se visita
Por caminhos de lealdade

Círculos concêntricos
Elipses no compasso
Almas se repetem
Diferentes são os passos

E tudo se encerra
Onde absolutamente começa
Aos que não aprendem
As falhas se repetem

Mas como questionar, reprimir
Um mísero comportamento
tão humano,
demasiado humano?