domingo, 6 de março de 2022

"The Batman": Quando apenas a vingança não é o suficiente

O Batman de Pattinson em busca de um caminho
Depois de cinco anos e três filmes com uma versão “velha e cansada” mostrada nos filmes mais recentes interpretados por Ben Affleck, fez bem ao Batman retornar às origens de sua história. Versão imaginada pelo diretor Matt Reeves, “The Batman” é um dos filmes mais inspirados do Homem-Morcego. Uma versão pé no chão e calcada em temas da atualidade que não víamos desde “O cavaleiro das trevas” (2008).

Misto de trama de investigação, ação e thriller psicológico, “The Batman” tem todos os elementos para os que gostam da versão mais detetive do vigilante de Gotham. E personagens absolutamente cinzentos, com uma moral maleável em uma Gotham sinistra e tomada pela corrupção em todas as escalas do poder.

O filme de Reeves mostra um jovem Batman lutando e reconhecendo que vem falhando no combate ao crime. Numa Gotham estrangulada pela corrupção e violência em todos os níveis, Bruce Wayne (Robert Pattinson) está obcecado pelo seu alter ego. Movido pela vingança contra todos os criminosos como forma de buscar uma resposta pela morte dos seus pais na infância, Wayne passa tanto tempo como Batman que ele é mais conhecido por ser um bilionário recluso do que pelas ações filantrópicas que seu pai comandava.

Em dois anos, o Batman consegue construir uma reputação de terror e onipresença nas trevas suficiente para aterrorizar qualquer criminoso com poucos recursos, que desaparece apenas por ver o sinal do morcego no céu.

Mas nada disso é suficiente. O Batman de Pattinson é inexperiente, mal visto pela polícia e vem falhando em proteger uma cidade cada vez mais decadente e que está passando por um processo eleitoral para eleger o novo prefeito.

É neste cenário que surge um novo assassino em série pronto para “desmascarar” os podres de Gotham. Em sua nova versão, o Charada (Paul Dano, numa interpretação impecável) é um vilão que se acha um salvador em uma missão. Expor as mentiras de Gotham e aniquilar os protagonistas da decadência moral e corrupta da cidade. E para completar com sucesso o seu plano, o Charada precisa usar o Batman como parte de uma trama criada por seus jogos de palavras.

E assim temos uma dinâmica interessante entre herói e vilão, uma busca de gato e rato que envolve outros personagens relevantes da cidade e com o Batman descobrindo a teia de crimes e imoralidade que vai escalando até a sua própria família.

Aterrorizante e inspirada num criminoso real, o Zodíaco, esta é uma das melhores versões do Charada. Uma versão que funciona perfeitamente com o clima soturno com pitadas de noir e inspiração gótica que o filme de Reeves quer mostrar.

Se “Cavaleiro das Trevas” era um filme sobre terrorismo com o Coringa sendo o arquétipo do terrorista psicopata em uma década que muitos filmes refletiam sobre a guerra ao terror comandada pelos Estados Unidos, “The Batman” é um filme que obriga todos os seus personagens a olharem para as raízes do problema em aspecto macro (toda a cidade) e microscópico (em suas próprias vidas) para enxergarem que a corrupção tem bases muito sólidas e muito perto de todos nós. E a cidade só se encontra em profunda decadência por causa de todos os atores que são protagonistas dela.

E isso inclui o próprio Batman, que passa o filme inteiro afirmando ser a vingança. Ainda que tenha limites que não ultrapassa como, por exemplo, cometer um assassinato, ele ainda é um homem tomado pela sede de sangue, pois a morte de seus pais é ainda fresca em sua memória. O Batman de Pattinson em sua jornada precisa entender que ao mesmo tempo em que deve inspirar medo nos bandidos, precisa que o seu sinal, o sinal do morcego no céu enevoado e chuvoso de Gotham, seja o da esperança para o cidadão comum.

Ao seu redor, temos dois personagens importantes que, de certa forma, o ajudam a entender a necessidade de buscar um outro caminho. James Gordon (Jeffrey Wright), o bastião incorruptível da polícia de Gotham, e Selina Kyle (Zoe Kravitz), ela também em busca de uma vingança pessoal em uma Gotham em que as famílias criminosas, os Maroni e os Falcone, ainda se digladiam pelo poder. Ainda que os Maroni estejam em decadência e Carmine Falcone (John Turturro) seja a voz mais forte por trás das sombras do poder da cidade.

E quem expõe as chagas da cidade acaba por não ser o Batman. Aos olhos do Charada, o Batman é um grande enxugador de gelo que prende batedores de carteira, enquanto não ataca o verdadeiro problema: o poder da corrupção que se imiscui na alta sociedade. O poder que à luz do dia veste a capa da justiça diante da imprensa, mas ao anoitecer mergulha nos mais profundos pecados na boate comandada pelo Pinguim (Colin Farrell, irreconhecível e muito bem no papel).

São estas as feridas que o Charada expõe e, com o seu discurso de ódio e extremismo, consegue angariar seguidores por toda a cidade, ultrapassando ele mesmo os limites e tornando-se ele próprio um agente do caos e da…. vingança.

Por isso o Charada se vê como um espelho e um parceiro do Batman em sua luta. E o Batman se enfurece em negação diante desta possibilidade, pois, no fundo, sabe que está caminhando sob um terreno pantanoso em sua cruzada de vingança.

Selina, Gordon, Alfred (Andy Serkis), Pinguim, Charada, Falcone, Thomas e Martha Wayne… todos são peças de um quebra-cabeça que vão indicando os sinais aos quais o Batman e, consequentemente Bruce Wayne, precisa prestar atenção para refletir como ele de fato pode fazer a diferença em Gotham.

É fascinante o trabalho de Matt Reeves em construir um filme tão rico do Batman, ainda que não tenha sido nada inovador seja em roteiro ou linguagem. “The Batman”, porém, tem o mérito de beber nas fontes certas para criar uma história calcada no melhor do gênero de thriller policial para construir um filme de super-herói que se desvia do padrão mais colorido, cômico e com proporções grandiosas estabelecido nos últimos anos para trazer uma história pé no chão. Afinal, o que não faltam são vilões terríveis e de carne e osso para combater nas quadras das nossas próprias cidades.

Nota 9.



sábado, 5 de março de 2022

"A filha perdida" e as escolhas certeiras nas adaptações de Elena Ferrante

Olivia Colman pegando um bronze numa praia grega
Se tem algo que o fã de Elena Ferrante ainda não pode reclamar é de como a obra da escritora italiana é adaptada para os meios audiovisuais. A série “A amiga genial”, que já está na sua terceira temporada, é quase uma cópia da sua tetralogia napolitana e tem um nível de qualidade que remete ao neorrealismo italiano ao mesmo tempo em que mostra um trabalho de atores, diretores, roteiristas, direção de arte e fotografia quase impecáveis. 

Adaptação de um romance anterior da escritora, “A filha perdida” (“The Lost Daughter”, no original) também não deixa a dever à série. O filme dirigido por Maggie Gyllenhaal consegue captar bem a essência da história de uma mulher que enfrenta os traumas do passado enquanto passa férias numa praia durante o verão europeu. 

Primeiro longa dirigido por Gyllenhaal, que também assina o roteiro, “A filha perdida” é bem sucedido também porque suas atrizes que dividem o papel principal, Olivia Colman, que faz a Leda madura, e Jessie Buckley, a Leda jovem, dão um show de interpretação à parte. 

Colman como a mulher mais velha, com seus traumas e remorsos, usa das sutilezas do seu olhar e do minimalismo de sua interpretação para passar todas as hesitações, dúvidas, incertezas e até um certo ar misterioso para a Leda de 48 anos que se sente uma mãe ruim pelas escolhas que fez no passado ao mesmo tempo em que não superou alguns traumas vividos na juventude. 

A Leda de Colman é mais experiente e a melhor versão de si mesma em que alterna hesitações com uma sabedoria tão latente que te faz querer conviver mais com ela, ainda que ela seja econômica em revelar-se. 

Ao mesmo tempo, sua personagem tem um ar nostálgico de quem deseja reviver alguns dos momentos mais libertadores de sua vida, como nas passagens do filme com Lyle (Ed Harris), mas algo a trava. Seja ela mesma ou o ambiente que se revela aparentemente inóspito. 

Já a Leda de Buckley é a natural jovem impulsiva com ânsia de viver, mas travada por um casamento, duas filhas pequenas e todos os freios sociais possíveis e imagináveis. Uma mulher que vai se revelando brilhante no mundo acadêmico ao passo em que vai sendo devorada por uma vida desonestamente assoberbada. Até que chega o dia em que ela joga a toalha numa atitude que gera consequências para toda a vida da personagem. 

Buckley está brilhante no papel de Leda jovem e mereceu demais sua indicação ao Oscar. Ela soube transmitir as dores, as crises e as frustrações da personagem, mas também um grau de sedução que a mesma deseja ressaltar. 

O trabalho de Gyllenhaal na direção também é notável. A diretora soube nos trazer a intimidade, a hesitação das personagens e seus plenos fechados nos levam a sentir a intimidade dos personagens, as incertezas, as frustrações latentes. Tudo isso é muito enriquecedor em um filme que é bem bonito visualmente.

Talvez a única nota negativa de “A filha perdida” seja mais algo menor. Mas em comparação com “A amiga genial” a série ganha por ser falada em italiano e estrelada por atores locais. É claro que, como já disse, os trabalhos de Colman e Buckley são impecáveis. Por outro lado, acho que o filme perde força porque americanos e britânicos estão tão fora do seu habitat natural que soa estranho todos ali passando dias na praia num verão europeu. E isso é algo muito europeu. 

Isso acontece porque, embora os temas de Elena Ferrante sejam universais, sua ambientação tem uma cor marcantemente local. Suas histórias são muito italianas. Quiçá muito napolitanas. Então soa estranho uma penca de personagens falando em inglês e comportando-se como tais italianos, ainda que o filme deixe bem marcado que eles não o são a partir de escolhas naturais da adaptação. 

Não ajuda o fato de o filme se passar na Grécia ao invés da Itália da obra original. No livro, a família que contracena com Leda é a típica – talvez até a partir de uma ideia generalista de quem lê a obra - família italiana numerosa e barulhenta que americano nenhum reproduziria no contexto específico que Ferrante descreve. 

Houve um estranhamento natural pelas escolhas da adaptação. Ainda que o trabalho de Gyllenhaal seja muito bom. 

Mas os acertos de “A filha perdida” são enormes. Ferrante definitivamente sabe para quem distribuir as suas obras para que elas permaneçam quase imaculadas quando saiam dos seus livros para ganharem vida em outros meios. 

Nota 8,5.  



sábado, 26 de fevereiro de 2022

“Belfast” é bem intencionado, mas falha em suas ideias

Pai e filho conversam em meio a tensão em Belfast

Eu tinha grande expectativa por “Belfast”, mas definitivamente elas não foram cumpridas. Escrito e dirigido por Kenneth Branagh, o filme é uma espécie de “Jojo Rabbit” do Oscar de 2022.

Extremante autobiográfico, visto que sua inspiração está na infância de Branagh, “Belfast” tenta se equilibrar entre o olhar lúdico a partir das experiências de Buddy (Jude Hill) e a vivência dramática dos conflitos entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte da virada dos anos 60 para os 70 do século passado.

O problema é que o filme não consegue atingir plenamente os seus objetivos em nenhuma das propostas que parece ter. Onde ele vai melhor é quando coloca a família de classe trabalhadora que está no centro de “Belfast” como o olhar do espectador por dentro do início daqueles conflitos político-religiosos.

Por outro lado, o aspecto político do filme é reduzido a flashes que podem ser pouco ou nada compreendidos pelo espectador comum que não tem o background de conhecimento ou familiaridade histórica/acadêmica/sanguínea com aqueles eventos. Aliado a isso, Branagh acrescenta discursos simplórios como a mensagem de tolerância entre pai (Jamie Dornan) e filho no fim do filme. A frivolidade de determinados trechos do roteiro de fato compromete a própria mensagem.

Ha uma outra discussão que o filme propõe sobre a dificuldade de decidir largar ou não as próprias raizes, que é centrado na indecisão da mãe de Buddy (Caitriona Balfe). Talvez esta seja a camada mais interessante entre as exploradas no caldeirão de ideias jogadas por Branagh que não se converteram num filme com coesão.

Resta ainda a pureza do filme nas relações construídas pela família que está no centro da história. E os melhores momentos são quando Buddy está convivendo e conversando com os avós vividos por Judi Dench e Ciarán Hinds e com o pai. São momentos que tornam o filme fofo. Mas toda a fauna no seu entorno parece um tanto asséptica e artificial.

Fica a sensação que por mais marcantes que tenham sido as lembranças da sua infância, Branagh não tinha necessariamente um grande filme nas mãos. “Belfast” não é exatamente ruim. Mas deixa a desejar em suas propostas políticas e estéticas.

Nota 7.

Indicações ao Oscar: Filme, roteiro, direção, ator coadjuvante (Ciarán Hinds), atriz coadjuvante (Judi Dench), som e canção original (“Down to Joy”)



quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

"Macbeth": a mistura de Shakespeare e Expressionismo de Joel Coen

Denzel Washington e Frances McDormand
William Shakespeare é um autor ao qual volta e meia algum cineasta recorre quando sonha em filmar um texto clássico. Entre filmes mais antigos, as diversas adaptações de Kenneth Branagh e versões mais ou menos fiéis ao texto do bardo inglês, mais de 500 adaptações de suas peças já foram feitas no cinema. Fica, portanto, difícil imaginar que em pleno 2022 alguém possa trazer algo de novo ou que se desvie um pouco do que já foi feito.

Joel Coen, porém, não se intimidou com isso para criar a sua versão para “Macbeth”. E pode-se dizer que o diretor, pela primeira vez sem a companhia do irmão Ethan, trouxe um interessante olhar para esta que é uma das tragédias mais encenadas de Shakespeare.

“The tragedy of Macbeth” é visualmente exuberante. Filmado todo em preto e branco e em cenários construídos, o filme tem uma linda fotografia e uma estética inspirada no Expressionismo alemão que combinou muito bem com o texto de Shakespeare.

Ao contrário da versão mais recente “Macbeth: Ambição e Guerra” (2015), de Justin Kurzel, “The tragedy of Macbeth” valoriza mais o texto de Shakespeare, que pode ser visto como algo rebuscado ou exagerado para ouvidos contemporâneos, mas por trás de um inglês que por vezes soa arcaico há toda a universalidade dia temas tratados pelo escritor. Texto este que Coen dá ainda mais força pelas escolhas e cortes que dá para que a trama caiba em 1h45min.

E neste ponto Denzel Washington tem todo o espaço para fazer do seu Macbeth o vetor do ritmo colérico que o filme tem. Nos momentos mais relevantes da trama, as frases de Shakespeare soam enfurecidas até culminarem com o ápice da tragédia.

E, neste ponto, quem também entendeu bem a proposta de Coen de combinar imagem e fúria foi Kahtryn Hunter. Suas três bruxas são perfeitamente assustadores e arautos do apocalipse vindouro.

Talvez o lado negativo de “The tragedy of Macbeth” seja a Lady Macbeth de Frances McDormand. Ela ficou um pouco reduzida dentro da trama que fala sobre uma profecia e a tomada de poder na Escócia. Na obra de Shakespeare ela é mais relevante dentro da espiral de poder e loucura na qual os Macbeth se enredam. Mas no filme de Coen sua trajetória ficou jogada num canto e dada menor importância.

Mas são visões. A casa versão cinematográfica, sempre se pode recorrer ao belo texto de Shakespeare para um novo ou diferente entendimento da história. O que se pode concluir é que “The tragedy of Macbeth” é uma obra poderosa e ao mesmo tempo respeitosa com o texto do dramaturgo. A despeito dos necessários cortes para caber no tamanho pretendido do filme, Coen mexeu muito pouco no texto original. Sua proposta era apenas ditar o tom de fúria e casar o texto com uma estética certeira e bela.

Nota 8,5.



domingo, 9 de janeiro de 2022

“Licorice Pizza”, o filme sobre amadurecimento de P.T. Anderson

"Licorice Pizza" é uma trama sobre amadurecimento
Considero Paul Thomas Anderson dos diretores mais interessantes de acompanhar. O intervalo entre seus filmes nunca é menor do que dois anos, mas quando ele surge com um novo trabalho é sempre algo que vale a pena de ser visto. Foi assim com “Trama Fantasma” (2017), o filme anterior do diretor de filmes super interessantes como “Boogie Nights” (1997), “Magnólia” (1999) e “Sangue Negro” (2007).

Ao contrário destes filmes citados e outros como “O mestre” (2012) e “Vício Inerente” (2014), “Licorice Pizza”, seu mais recente trabalho, é também o seu filme mais solar. É possível inserir o filme num sub-gênero chamado de “coming of age movie”, ou seja uma trama sobre o amadurecimento de um personagem e sua passagem de uma espécie de inocência da juventude para as delícias, incertezas e intempéries da vida adulta.

“Licorice Pizza” gira em torno dessa passagem tanto para seu personagem adolescente, Gary Valentine (Cooper Hoffman, filho do falecido grande ator Philip Seymour Hoffman), quanto para a sua personagem adulta Alana (Alana Haim).

Gary e Alana são opostos complementares. O primeiro tão jovem, mas tão certo do que quer, passando de ator mirim de sucesso a proto-empresário do que por ventura estiver bombando na sociedade americana, mais especificamente a comunidade de Encino. Assim vemos Gary vendendo de colchões d’água até entretenimento com sua loja de fliperamas.

Paradoxalmente, falta a Gary experiência, vivência. Ele parece estar atropelando desde cedo as etapas da vida. Errando muito para tentar acertar. Tem um senso de urgência de querer crescer logo e mostrar-se adulto e provedor porque deseja muito isso e também porque encontrou o que define como o amor da sua vida, Alana. Mas ao mesmo tempo em que tenta atropelar etapas Gary não percebe que o tempo é igual para todos. E tudo tem sua hora.

Alana, por sua vez, é uma adulta de 25 anos que ainda não encontrou um rumo para a sua vida. Não fez universidade, trabalha em empregos menores e passa de fazer bicos como ser tutora de Gary a sócia do menino enquanto tenta buscar uma escapatória da sua vida comum com atores que orbitam o mundo de Gary, como Lance (Skyler Gisondo) e Jack Holden (Sean Penn).

Para Alana o senso de urgência se deve ao fato de ela perceber que não fez nada de relevante para a própria vida. Isso lhe causa frustração e traz mais incertezas, Tudo está passando enquanto ela segue presa em empregos duvidosos e sem entender o que de fato deseja. E Gary não pode ser uma saída. Pelo menos não por agora.

Contudo, entre as sístoles e diástoles da vida, a afeição entre ambos vai crescendo. E junto o amadurecimento deles. E como é bonito acompanhar essa história que parece tão improvável.

“Licorice Pizza” é visualmente bonito e tem uma leveza que contrasta com o peso e o jeito quase sombrio de “Trama Fantasma”.

É um filme quase idílico. Não por acaso é ambientado nos anos 70, uma espécie de passado ideal e imaculado lotado de transformações, mas sem as urgências do mundo moderno sobrecarregado de tecnologia. Não há pressa naqueles anos dourados e tudo passa no tempo da vida.

“Licorice Pizza” é um mundo lúdico e gostoso de se viver. E mostra que crescer não é fácil. Mas sempre vale a pena.

Nota 8.



quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Os melhores e os piores filmes de 2021

Ao contrário da pandemia, o ano de 2021 acabou. Mas antes da grande despedida, não podemos deixar de divulgar o prêmio Corneta Ballon D´Or Awards 2021 com os 30 melhores filmes do ano.

Este foi um ano de tímida retomada aos cinemas. Muito tímida. Um retorno lento, gradual e TEMEROSO, porque o corona está em todas as partes e com mais variantes do que as que vimos em “Loki”.

A retomada, novos lançamentos, e cada vez mais filmes pululando em streamings, deixou esta lista ainda mais difícil de fazer. Mas nunca ficamos em cima do muro.

Para o Corneta Ballon D’Or, permanecem os critérios estabelecidos pelo júri do prêmio formado por mim mesmo. Estavam elegíveis para o top-30, os filmes que estrearam entre o primeiro e o último dia do ano nos cinemas do Rio de Janeiro e de Lisboa em circuito aberto e disponível para qualquer mortal assistir. Além, é claro, dos filmes formados pelos cinco principais serviços de streaming cujos nomes eu não direi, pois eu não sou pago para fazer propaganda.

Não enrolemos mais. Vamos ao ranking dos filmes que brilharam e sobreviveram ao crivo implacável da Corneta.

1-Ataque dos cães (The power of the dog – ING, CAN, AUS, NZL e EUA). Diretora: Jane Campion.

2-Nomadland (Nomadland – EUA, ALE). Diretora: Chloé Zhao.

3-Quo Vadis, Aida? (Quo Vadis, Aida? – BOS, AUT, ROM, HOL, ALE, POL, FRA, NOR, TUR). Diretora: Jasmila Zbanic

4-Duna (Dune – part 1 – EUA, CAN). Diretor: Dennis Villeneuve.

5-Roda da Fortuna e da Fantasia (Gûzen to sôzô – JAP). Diretor: Ryusuke Yamaguchi.

6-A crônica francesa (The French Dispatch – EUA, ALE). Diretor: Wes Anderson.

7-Homem-Aranha: sem volta para casa (Spider-man: No way home – EUA). Diretor: Jon Watts.

8- A mão de Deus (È stata la mano di Dio – ITA, EUA). Diretor: Paolo Sorrentino.

9-Berlin Alexanderplatz (Berlin Alexanderplatz – ALE, HOL, FRA, CAN). Diretor: Burhan Qurbani.

10-Mães paralelas (Madres Paralelas – ESP, FRA). Diretor: Pedro Almodóvar.

11-Bela Vingança (Promising young woman – ING, EUA). Diretora: Emeral Fennell.

12- Judas e o Messias Negro (Judas and the Black Messiah – EUA). Diretor: Shaka King.

13- Uma noite em Miami… (One night in Miami… – EUA). Diretora: Regina King.

14-Malcolm & Marie (Malcolm & Marie – EUA). Diretor: Sam Levinson.

15-Vingança e Castigo (The harder they fall – EUA). Diretor: Jeymes Samuel.

16-A noite dos reis (La nuit des rois – FRA, CI, CAN, SEN). Diretor: Philippe Lacôte.

17-Tick, tick…. boom! (Tick, tick…boom! – EUA). Diretor: Lin-Manuel Miranda.

18-Matrix Ressurrections (Matrix Ressurrections – EUA). Diretora: Lana Wachowski.

19-Annette (Annette – FRA, BEL, ALE, EUA, JAP, MEX, SUI). Diretor: Leos Carax.

20-Meu pai (The Father – ING, FRA). Diretor: Florian Zeller.

21- Minari (Minari – EUA). Diretor: Lee Isaac Chung.

22-Ainda há tempo (Falling – ING, CAN, EUA). Diretor: Viggo Mortensen.

23- 7 prisioneiros (7 prisioneiros – BRA). Diretor: Alexandre Moratto.

24-Identidade (Passing – ING, EUA). Diretora: Rebecca Hall

25- O espião inglês (The courier – ING, EUA). Diretor: Dominic Cooke.

26- O Esquadrão Sucida (The Suicide Squad – EUA, CAN, ING). Diretor: James Gunn.

27- Finch (Finch – ING, EUA). Diretor: Miguel Sapochnik.

28- Encounter (Encounter – ING, EUA). Diretor: Michael Pearce.

29–007: Sem tempo para morrer (No time to die – ING, EUA). Diretor: Cary Joji Fukunaga.

30-A noite passada no Soho (Last night in Soho – ING). Diretor: Edgar Wright.

Além dos melhores filmes, não podemos nos despedir sem divulgar o prêmio Titanic de piores filmes do ano. Vamos aos dez torpedos horrorosos largados em 2021:

1-Alerta Vermelho (Red Notice – EUA). Diretor: Rawson Marshall Thurber.

2-A Sentinela (Sentinelle – FRA). Diretor: Julien Leclerq.

3-A mulher na janela (The woman in the window – EUA). Diretor: Joe Wright.

4-Terra de ninguém (No Man´s Land – MEX). Diretor: Conor Allyn.

5- Space Jam – um novo legado (Space Jam: a new legacy – EUA). Diretor: Malcolm D. Lee.

6- Tempo (Old – EUA). Diretor: M. Night Shyamalan.

7-Na mira do perigo (The Marksman – EUA). Diretor: Robert Lorenz.

8-Bliss: Em busca da felicidade (Bliss – EUA). Diretor: Mike Cahill.

9-A guerra do amanhã (The Tomorrow War – EUA). Diretor: Chris McKay

10-Titane (Titane – FRA, BEL). Diretora: Julia Ducournau.

E assim despeço-me deste ano. Que venha a maravilhosa temporada do Oscar.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

As melhores e as piores séries de 2021

O ano de 2021 está acabando, mas não sem antes divulgarmos os vencedores do prêmio Golden Cornetemmy Globe de melhores séries e minisséries de 2021. O novo prêmio do grande conglomerado Corneta Inc. chega a sua segunda edição com uma seleção com tudo o que de melhor (e pior) aconteceu ao longo deste ano.

Sem mais delongas, vamos polemizar com o top-15 das melhores séries e minisséries de 2021:

1- The Underground Railroad: Os caminhos para a liberdade (The Undeground Railroad – EUA – Amazon) – Isso não é uma série. É uma obra de arte de Barry Jenkins.

2- Mare of Easttown (EUA – HBO) – It’s not TV. It’s Kate Winslet.

3- Exterminate all the brutes (EUA – HBO) – O manifesto de Raoul Peck sobre a história de genocídio e escravidão perpetrada pelo ser humano.

4- Ted Lasso (ING, EUA – Apple TV) – Segunda temporada – Por um momento eu quis o Ted Lasso treinando o meu time no lugar do Roger. Aí chegou o Marcão e passou.

5- Succession (EUA – HBO) – Terceira temporada – He fuck won!

6- Cenas de um casamento (Scenes from a marriage – EUA – HBO) – O famoso copia, mas não faz igual da HBO sobre a obra original do gênio Ingmar Bergman. E quem discorda e não acha Bergman um gênio tá errado.

7- Dopesick (EUA – Hulu) – É só um remedinho. E tua vida é destruída pela indústria farmacêutica que não tem o mesmo padrão de fiscalização dos alemães.

8- Handmaid´s Tale – (EUA – Hulu) – quarta temporada – A famosa temporada meu ódio será sua herança.

9- Gomorra (ITA, ALE – Sky Atlantic) – Quinta temporada – A temporada final da saga dos Savastano. Como viveremos agora? Preciso de mais séries de máfia!

10- Invencível (Invincible – EUA. – Amazon) – Ninguém na Marvel conseguiu chegar neste patamar.

11- Your Honor (Showtime – EUA) – Walter White totalmente em apuros. Principalmente quando ele tem os amigos mais eficientes da história.

12- WandaVision (EUA – Disney Plus) – Melhor série da Marvel em 2021.

13- Fundação (Foundation – EUA – Apple TV) – Eu quero mais coisas sobre os Cleons e sobre Asimov.

14- Dom (BRA – Amazon) – A história do “bandido gato” do Hell de Janeiro.

15- Manhãs de Setembro (BRA – Amazon) – Não farei piada. Apenas direi que é bem bom.

Menções honrosas: Halston (Netflix), Eles (Amazon), Modok (Hulu), Katla (Netflix) e Missa da Meia-Noite (Netflix).

E agora vamos ao prêmio “La casa de papel” de piores séries e minisséries de 2021:

1-Eu sei o que vocês fizeram no verão passado (I know what you did las summer – EUA – Amazon) – Eu não sei o que deu na minha cabeça no outono passado para ver um remake de um filme ruim.

2-O legado de Júpiter (The Jupiter´s Legacy – EUA – Netflix) – Meus olhos sangraram com a história e os figurinos desta série.

3-Os Irregulares de Baker Street (The Irregulares – ING – Netflix) – Zillennials diriam que Sherlock Holmes estava se revirando no túmulo com esta série. Pelo menos até descobrirem que Sherlock não existiu.

4-Os segredos de Manscheid (Capitani – LUX – Netflix) – Ninguém mandou eu ter me arriscado pelo audiovisual de Luxemburgo.

5-Nove Desconhecidos (Nine Perfect Strangers – EUA – Hulu) – Pô, Nicole Kidman. Me ajuda a te ajudar.

Por hoje é só. Parabéns aos premiados. Amanhã voltamos com os melhores filmes de 2021.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Lana Wachowski faz de Matrix um manifesto sobre a nostalgia

Matrix ainda tem muito o que dizer
Dezoito anos depois do fim da primeira trilogia de “Matrix” e 22 anos depois da estreia do filme que revolucionou muita coisa entre linguagem e tecnologia dentro do cinema, Lana Wachowski está de volta e mostra que ainda tem muito a dizer sobre o mundo em que vivemos. Dessa vez sem a parceira da trilogia original, a irmã Lilly, Lana usa a retomada ao universo sci-fi criado por ela para produzir uma espécie de manifesto sobre o mundo moderno.

“Matrix Resurrections” fala sobre as epidemias que vivemos na cultura e na sociedade. O poder da nostalgia, o retorno ao passado, o reaproveitamento cíclico do que supostamente dá certo. Está tudo lá na nova e atualizada versão da Matrix. A vida em looping, a falta de reflexão, seres humanos pregados em telas apenas fazendo o que estão programados para fazer. O filme e parte de suas ideias pode ser resumido em uma frase que Morpheus (Yahia Abdul-Mateen II) diz se dirigindo a Neo (Keanu Reeves): “Nada conforta mais a ansiedade do que um pouco de nostalgia”.

É uma frase poderosa. Lana sabe que vivemos a era da nostalgia. O desejo de voltar a uma vida não poderosa, mas sim confortável. Algo que a cultura pop tão bem identificou e do qual o cinema vem se alimentando para lucrar. O que mais se vê nas últimas décadas é a reprodução desta nostalgia com o retorno de franquias de cinema, retorno de personagens, retorno de histórias consagradas. Piscadelas em filmes para um público que viveu aquela história e sente o coração confortado quando é chamado a reconhecer o que se convencionou chamar de easter eggs.

E o próprio “Matrix Resurrections” não se vê longe disso. Lana, no entanto, vê o seu passado construído entre o final do século passado e o início do século XXI como uma ironia sobre o tempo presente. Todas as imagens usadas da primeira trilogia, em especial do filme de 1999 são para traçar a teia de ironia que ela usa nos conectar ao passado. No filme, nós somos as pessoas nesta Matrix 2.0 criada pelo Analista (Neil Patrick Harris). Nós vivemos confortáveis nas zonas de nostalgia que ela nos joga enquanto alimentamos a indústria com a nossa força (financeira, consumidora, de trabalho) tal qual os humanos presos e vivendo na irrealidade da Matrix, essa força aparentemente indestrutível que rege os destinos do mundo. Nós servimos à Matrix da indústria que nos devolve com pílulas azuis de nostalgia quando as próprias pílulas não tem lá grande importância. No novo Matrix, elas mais parecem placebos que funcionam de forma psicológica do que propriamente são uma libertação. Ou mesmo criam conexões com o já vivido, retomando a teoria inicial da nostalgia.

Lana usa o próprio filme como metalinguagem para desenvolver sua teoria nostálgica. São deliciosas as referências que ela faz à trilogia original, com direito a piada interna com a tecnologia do bullet time, e referências ao próprio estúdio Warner Bros., quando afirma que o estúdio queria fazer uma sequência da trilogia original do game que Neo criou em sua nova versão depois de ter retornado a Matrix. É neste momento que Smith, um dos personagens mais interessantes do filme vivido pelo excelente ator Jonathan Groff se vira para Neo e diz: “As histórias nunca acabam. Estamos sempre contando as mesmas histórias com nomes e rostos diferentes”.

Mais a frente isso vai se complementar de forma perfeita quando Neo percebe que a história da sua vida foi pasteurizada dentro da própria Matrix, transformada em “algo trivial”, como afirma Bugs.

No novo Matrix, Lana desconstrói o cânone da sua trilogia e rearruma o equilíbrio de forças. Outra frase poderosa do filme é quando Bugs (Jessica Henwick) se dirige a Morpheus para dizer que “a escolha é uma ilusão. Você já sabe o que tem que fazer”. A diretora sabia perfeitamente. Tanto que usou o quarto filme de sua história para fazer uma espécie de manifesto anti-nostalgia em um filme cercado de pílulas de nostalgia. Ao longo de “Matrix Resurrections” vemos rápidas imagens dos filmes anteriores, cenários remontados logo na abertura e no meio da história, retorno de personagens em momentos distintos e a própria história parece uma cópia do primeiro Matrix. Com adaptações aqui e ali para mostrar que você está vendo algo novo com carinha de repetido.

Para além de um belo manifesto, Matrix tenta trazer de volta seus principais personagens, Neo e Trinity (Carrie-Anne Moss) e buscar uma nova origem para eles depois dos acontecimentos em “Reload” e “Revolutions” (ambos de 2003). Aqui temos uma nova história de origem, perguntas que ficaram no trailer sendo respondidas e um desfecho que deixa em aberto para um futuro.

Ao contrário do primeiro filme, Suas cenas de ação não são das mais inspiradas. Há alguns bons momentos, mas nada marcante como o que vimos no Matrix original. Além de uma repetição de ações de Neo que tornam o trecho final do filme um pouco mais pobre.

Mas a ação e mesmo uma fetishização de armas nunca foi o foco do mundo de Matrix. Tanto a ação quanto os combates são vetores intermediários para as ideias que as irmãs Wachowski tinham para seus filmes. E isso se mantém com este trabalho de Lana. Não é por acaso que “Matrix Resurrections” tem incomodado e dividido opiniões. O quanto será que nos vimos presos na espiral de nostalgia da Matrix?

Cotação da Corneta: nota 8.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

"Sem volta para casa", o melhor filme do Homem-Aranha

Peter sofre neste filme
Três é o número mágico como diz a canção de Bob Dorough no fim de “Homem-Aranha: sem volta para casa” (Spider-Man: no way home, no original). E a Marvel realmente acreditou nessa premissa para realizar não apenas o melhor filme do Homem-Aranha como um dos melhores já feitos sobre personagens baseados em seus quadrinhos.

“Sem volta para casa” é um caso raro nos quase 30 filmes da Marvel. Ele consegue fazer dar certo a combinação entre o desejo dos fãs e a construção da história do universo (ou multiverso) da Marvel. Neste ponto, ele se alia a dobradinha “Guerra Infinita” — “Ultimato” tornando-se um dos grandes filmes do universo e trazendo a sensação de satisfação plena que os lançamentos recentes do estúdio não davam.

Se em “Viúva Negra”, no bom “Shang-Chi” ou em “Eternos” havia mais expectativa sobre as cenas extras e para onde elas apontariam no futuro do universo do que propriamente sobre o filme, aqui as duas cenas finais são apenas o que eles deviam ser: extras divertidos, interessantes e que, claro, apontam para o futuro sem gerar uma ansiedade sobre ele.

E por que elas são assim? Porque “Sem volta para casa” é um filme bem conduzido em sua mistura de aventura, suspense, drama, emoção e fan service. Tem uma história bem contada e bom trabalho dos atores envolvidos no projeto.

Mas nada acontece por acaso. Tudo está a serviço da história envolvendo uma implosão do multiverso a partir dos atos envolvendo Peter Parker (Tom Holland) e os problemas que ele passou a enfrentar depois de ter sua identidade revelada pelo famigerado jornalista J.Jonah Jameson (J.K. Simmons) e a tentativa de consertar tudo por um perigoso feitiço lançado pelo Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch).

Holland está no seu melhor trabalho no papel de Parker. O filme também ganha muito tendo Willem Defoe de volta no papel do Duende Verde. Sua interpretação de Norman Osbourne é ainda melhor do que sua aparição inicial no “Homem-Aranha” de Sam Raimi. Alfred Molina é outro ator de peso que volta como Doutor Octopus e entrega um bom trabalho. Juntando eles com Cumberbatch e Zendaya (MJ) o filme tem um grupo de atores que entregam algumas de suas melhores interpretações para seus respectivos personagens.

“Sem volta para casa” é ainda bem sucedido por funcionar perfeitamente como um filme único. Ou, vá lá, como o tomo final da primeira trilogia de Holland como “Homem-Aranha”. Ainda que você não tenha visto os outros filmes da Marvel ou mesmo outros filmes da Sony envolvendo o Homem-Aranha a experiência do filme continua sendo boa.

É claro que as piscadelas são muitas. Algumas mais permanentes, outras sutis. Fãs podem se empolgar com uma ou mais situações. Mas ainda que nada tenha sido visto, “Sem volta para casa” funciona muito bem como uma aventura do Homem-Aranha como não viamos desde os dois primeiros filmes do herói, quando sequer havia a atual febre de super-heróis.

O cabeça de teia merecia um filme assim depois de ser quase um coadjuvante de luxo dos filmes da Marvel na fase 3. E as perspectivas são muito boas para o futuro, quando, aparentemente, veremos um Parker entrando numa fase mais madura e lidando com os problemas e idiossincrasias da vida adulta.

É claro que “Sem volta para casa” tem seus problemas. Um pedaço da trama pareceu bem aleatório envolvendo um soro. Mas no mais complicado, que era lidar com o conceito de multiverso, o filme vai bem. E sabemos que isso vem atravessando todos os projetos da Marvel desde a aparição de Kang em “Loki”, que pode vir a ser o grande vilão da atual fase da Marvel.

Resumindo, “Homem-Aranha: sem volta para casa” entregou tudo o que prometeu. É um filme para fãs e haters encontrarem um caminho do meio em busca da paz.

Cotação da Corneta: nota 9.

(ATENÇÃO QUE A PARTIR DAQUI PEQUENOS COMENTÁRIOS COM SPOILERS)

1- Impossível não ter sentido uma pontinha de emoção ao rever Tobey Maguire e até Andrew Garfield de volta em seus papéis. Nem fui muito fã da fase de Garfield, mas este filme representou para mim uma redenção do seu personagem. Deu até vontade de rever seus dois filmes.

2- Estou curioso para saber, inclusive, se ambos voltarão um dia. Com o multiverso, é possível haver diferentes Homens-Aranha cada um no seu universo e tudo bem.

3- O filme também foi uma reabilitação do Parker de Garfield, que aqui consegue salvar a garota.

4- Inclusive, será inevitável a chegada de Miles Morales com a menção de que deve haver um Aranha negro em algum universo.

5- Ainda bem que o Multiverso trouxe de volta os vilões que morreram em filmes anteriores. Com isso a porta está aberta para que a Marvel possa fazer o que quiser. Desde trazer de volta o Capitão América e o Homem de Ferro se a coisa ficar feia, até trazer personagens de volta a vida como é bem frequente nos quadrinhos. A Marvel transformou o cinema em quadrinhos e nele tudo cabe.

6- É claro que Maguire e Garfield monopolizaram as atenções, mas o que mais me empolgou foi a breve aparição de Charlie Cox como Matt Murdock. Estou bem feliz que a Marvel está aproveitando os personagens que estavam aparecendo na Netflix. Já tínhamos visto o Rei do Crime de Vincent D’Onofrio na série do Gavião Arqueiro e agora vemos o desembarque do Demolidor no Universo Marvel.

7- Será interessante ver o que será dos vilões do Aranha daqui para frente e como o multiverso funcionará. Será que voltam? Será que o Aranha vai cruzar com o Venom? Será o Aranha do Holland? Muitas questões ficam.

8- Com um pedaço de simbionte perdido no universo do Holland a próxima trilogia promete envolver algum Venom e não necessariamente o Venom que vimos no cinema.

9- Muito triste pela morte da Tia May (Marisa Tomei).

10- Será muito interessante ver Parker lidar com todo o conhecimento que tem sem que todo o universo saiba que ele também estava lá nos acontecimentos. E lidando agora com a falta de dinheiro, a solidão de não ter mais amigos e precisando trabalhar, estudar e salvar a cidade dos vilões e bandidos.

11- Interessante ver como o Capitão América virou o símbolo do heroísmo após os eventos de Ultimato. Tão marcado agora com o escudo na estátua da liberdade.