sábado, 28 de setembro de 2019

Rock in Rio 2019 - primeiro dia

Mano Brown brilhou no primeiro dia
E lá se foi o primeiro dia de Rock in Rio! Em oito festivais, acho que foi um dos dias mais ecléticos e aleatórios que presenciei. Teve funk roots, teve pop, teve rap, teve um DJ e teve um cara com a camisa do Iron Maiden que deve ter errado o dia de aparecer lá na City of Rock.
Mas vamos agora aos comentários malemolentes deste primeiro dia. Lembrando que não trabalhamos com shows que começam antes do chá das 17h.
Alok - Em 37 anos eu nunca havia estado numa boate. Acho que o Alok entrou na minha vida para cumprir a função de me dar esta sensação. Claro que tem que ser muito ALOKO para repetir isso. Como vocês sabem, o Alok é um DJ. Logo, não tem muita coisa criativa ali. Desculpe, DJs. São colagens de sucessos de bandas como Cranberries, Bon Jovi, Pink Floyd, System of a Down, Red Hot Chili Peppers, Queen, e eu poderia estar até amanhã citando outras bandas. Tem também tunti-tunti eletrônico chato pra cacete, muita luz, uns foguinhos aqui e ali e muita lambaeróbica. Nem o “tira o pé do chão” e o “joga a mão pra cima” são originais, pois a Ivete faz isso há 75 Rock in Rios. Ah, teve um exercício de levantamento de celular também para malhar os braços. Alok também repetiu o tempo inteiro que ia fazer história, que era histórico etc... bom, a noção de história está um pouco complicada aí. Espero nunca mais passar por isso. Ou talvez seja necessário um ácido para entrar no clima.
Mano Brown e Bootsy Collins - Depois de uma hora de ALOKURA e batidão, entramos na máquina do tempo e voltamos algumas décadas para aquela combinação de soul, black music e passinhos cadenciados. E foi outro nível, amigo. Mano Brown deixou o lado Racionais de lado e baixou o Tim Maia para receber Bootsy Collins junto com a banda Boogie Naipe (que belo nome!). Mano, aliás, chegou trajando uma beca impecável. Todo de branco e um colar dourado que reluzia até o palco mundo. Durante o show teve espaço até para um brinde com uma água que passarinho não bebe. O clima era agradável e com MALEMOLÊNCIA, mas quando Bootsy Collins entrou ofuscou todo mundo. Afinal, ele trajava uma fantasia psicodélica dourada onde tudo brilhava. Até os dentes! Foi bonito. Ali o festival começou para valer.
Bebe Rexha - O show era da Bebe Rexha, mas quem brilhou mesmo foi o Gustavo. Quando ele entrou no palco não teve para ninguém. Dançou, cantou, disse que amava a menina americana e deve ter irritado bastante os seus inimigos. Bebe é uma cantora pop americana. Como tal, tem um séquito de adolescentes enlouquecidas por ela. E quando um grupo de sete delas na faixa de uns 12 anos passou por mim eu quase fiquei surdo. Nem em show de heavy metal meus tímpanos foram tão atacados. Mas Bebe é simpática. Foi lá, deu o seu recado, cantou suas músicas (por incrível que pareça eu até conhecia algumas), mas não precisava mentir que “I love you so much”. Fala sério. Acabou de nos conhecer. Momento Corneta é cultura: Bebe é de uma família de albaneses e macedônios. O pai, Flamur, nasceu na Macedônia, enquanto a mãe Bukurije, nasceu nos Estados Unidos, mas é descendente de albaneses. De nada.
Seal - Rapaz, eu acho o Seal um cara legal, simpático, um homem de classe. Gosto de algumas de suas canções. Mas esse foi o show em que eu bati recordes. Foi um dos shows que eu mais bocejei na vida. Parecia que eu não conseguiria chegar acordado até a música do Batman. Mas eu cheguei. O problema é que a música do Batman é lenta, e tinha uma chuva torrencial caindo (cadê o Cacique Cobra Coral que não vê isso?). Mas depois teve “Crazy” e no fim um David Bowie que é sempre ótimo. Só não precisavam ser deselegantes com o Seal e cortarem o som no fim da música. Muito feio, Rock in Rio!

Ellie Goulding - Quando Ellie Goulding começou a cantar eu pensei: minha cota de cantoras pop já se esgotou por hoje né. Mas eu fui lá dar uma conferida. Não estava fazendo nada mesmo e tinha parado de chover. Ao vivo ela até soa melhor do que nos discos, que são chatos DEMAIS. Mas eu não vou guardar nada de interessante deste show. E ainda colocaria o tributo a George Michael que rolou mais cedo na Rock District à frente dele no ranking do dia.
Drake - Então chegamos a GRANDE atração da noite. Até ontem, Drake para mim era:
1. Um meme
2. Produtor da excelente série “Euphoria”
3. O Jack Nicholson do Toronto Raptors.

Mas aí a gente descobre que ele canta, faz uns raps aí e tal. E que ele sofre de ansiedade. Porque ele parece querer chegar logo ao fim de tudo. Do set list de 27 canções, acho que o Drake deixou umas 22 pela metade. Por que ele não completa uma música? É o oposto do Dave Grohl, que estende até o infinito suas canções. Mas a galera pareceu ter curtido. Drake fez varias citações ao Brasil, disse que estava encantado pela plateia, o que o fez superar o medinho da chuva, e que era o maior show da vida dele. O que pareceu papo da macho que diz isso para todas: “Eu nunca conheci ninguém como você” (até a próxima da semana que vem). Drake também é um macho escroto porque não autorizou que o fotografassem. Até a tirolesa ele cortou! Que feio! A gente entende o David Coverdale vetar isso para não querer mostrar as rugas, mas logo você, Drake? No auge da forma e dos seus 32 anos?
Fato é que o cara deu seu recado. Foi um recado curtinho para um headliner, mas deu seu recado e deixou seu público de alma lavada. O corpo lavado ficou por conta de São Pedro, esse vacilão.
É isso! Amanhã tem mais com o capítulo 2 desta saga. E esperamos que seja sem chuva.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

O cinema de resistência de Kleber Mendonça Filho

Domingas, um dos símbolos da resistência em "Bacurau"
É muito difícil escapar de uma leitura política contemporânea para “Bacurau” diante dos tempos difíceis em que o Brasil e lideranças importantes do mundo vivem. Em tempos em que a democracia é chacoalhada, a desesperança toma conta de corações e mentes e volta a imperar uma espécie de terraplanismo ético, estético, moral, filosófico e político, o cinema de Kleber Mendonça Filho grita para que a sociedade moderna, plural e multifacetada resista.

(ATENÇÃO PARA POTENCIAIS SPOILERS A PARTIR DAQUI)

Com três longas de ficção na carreira, Kleber, que em “Bacurau” divide o roteiro e a direção com Juliano Dornelles, sempre mostrou fazer esse cinema de resistência tendo o Nordeste e, em especial, a sua Pernambuco, como principal cenário de suas histórias. “O som ao redor” (2012) era sobre resistir a uma certa oligarquia e cultura dominantes, ao mesmo tempo em que uma espécie de milícia tomava conta de um bairro de classe média de Recife. Ali haviam todas as reflexões envolvendo a alta sociedade e a pobreza no entorno de um microcosmo num estilo de cinema que, por vezes, lembra o de Robert Altman. “Aquarius” (2016), por sua vez, era sobre uma resistência também ao poder de uma empreiteira e uma batida de pé da cultura e dos valores locais sobre a voracidade e a arrogância de quem comanda o mercado e tenta impor o poder econômico sobre indivíduos menos respaldadas por esse poder. 

É quando chegamos a “Bacurau” onde resistir é, acima de tudo, sobreviver. Ao contrário de seus trabalhos anteriores, Kleber, ambienta seu filme num futuro próximo distópico em uma cidade do interior do Nordeste, onde os habitantes vivem numa sociedade quase igualitária em que a comida é dada a quem precisa e as dificuldades com o fornecimento de água são dribladas pelo trabalho em conjunto. 

Em Bacurau, tudo funciona como uma engrenagem. Dos habitantes na entrada da cidade, passando pela médica vivida por Sônia Braga, os comerciantes, as prostitutas, e os habitantes e até os bandidos. Cada um tem a sua função para que a cidade não falhe. E a coesão dá um certo grau de fascínio a existência daquela cidade. Bacurau é um único organismo vivo. E como tal organismo, cada célula tem sua função e meios de defesa. 

Nada é por acaso nas cenas de “Bacurau”. Há uma explicação na placa próxima da cidade que diz “Se for, vá na paz”, que se percebe mais ao fim do filme e é complementada quando finalmente conhecemos o museu da cidade, frequentemente mostrado durante o filme e tão falado quando lá surgem os primeiros forasteiros. Entrar no museu é entender que Bacurau é essa resistência a quem tenta impor o seu domínio sobre a cidade. 

Resistência que está na marca de cada um dos seus habitantes, mas é principalmente refletida em Domingas (Sônia Braga) e Lunga (Silvero Pereira). A primeira é quase uma liderança intelectual da cidade junto com o professor Plínio (Wilson Rabelo). Os dois detém o conhecimento médico e histórico de Bacurau. O segundo é a força, a violência que, por vezes, é necessária para conter o avanço do inimigo. 

Inimigo este que na história é personificado por forasteiros americanos que surgem na cidade comandados por Michael (Udo Kier). E nesse choque entre os habitantes da cidade e os forasteiros, percebemos as sutilezas do discurso por trás de “Bacurau”. O avanço de uma máquina de dominação, o discurso extremista, os fins que justificam os meios, a violência sádica e desmedida. Tudo isso enquanto do outro lado há uma cidade que resiste e reafirma o seu modo de ser. 

Claro que está apenas é uma leitura possível de “Bacurau”. Uma tentativa de interpretação. Também podemos interpretar o filme como uma aventura distópica num futuro não muito distante onde cidades inteiras são transformadas em jogos de matar para ricos colecionadores de armas e "emoções". E podemos nos divertir de forma despretensiosa com essa narrativa com ecos no cinema de Quentin Tarantino. Mas é nos pequenos detalhes que “Bacurau” mostra sua grandeza. E quão grande e cheio de camadas interessantes este filme é. 

Cotação da Corneta: nota 9. 

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Um olhar para a intimidade de Almodóvar

Banderas como o alter-ego de Almodóvar
Pedro Almodóvar tem uma frase em que diz que “a sala de cinema é o refúgio dos assassinos e dos solitários”. É difícil ter certezas sobre alguém que não se conhece pessoalmente, mas o Almodóvar diretor é um pouco de ambos. Pelo menos figurativamente falando no caso da expressão "assassino".

“Dor e Glória” (Dolor y gloria, no original), seu novo filme é apenas uma reafirmação desta condição do cinema de Almodóvar. O diretor espanhol faz de boa parte da sua filmografia uma sessão de terapia em que tenta lidar com o passado, exorcizando seus fantasmas ao mesmo tempo em que exibe na tela a solidão de um alter-ego que, em contraste, vive numa casa que por si só parece cheia de vida e cores. As tão características cores do cinema de Almodóvar, que, como sempre, abusa dos tons vermelhos e das cores vibrantes tornando cada cenário numa obra de arte. 

E como Almodóvar precisava voltar a lidar com seus fantasmas. Depois da fraca comédia “Os Amantes passageiros” (2013) e de um “Julieta” que dividiu opiniões, o que se vê em “Dor e Glória” pode não ser um Almodóvar na forma exuberante de “Fale com Ela” (2002), “Má Educação” (2004) ou “Volver” (2006), mas é um Almodóvar que volta a discutir os temas que permeiam o seu cinema: as dores da alma, a relação com a mãe, a influência da educação religiosa, a homossexualidade e a descoberta da mesma, os amores que vêm e vão e as decepções e marcas que daí surgem e os desencontros da vida. O cinema de Almodóvar é sobre as pessoas, é sobre os conflitos da alma, sobre o que deve ser dito para o outro e as oportunidades que se perde por não falar e não se permitir sentir. É, portanto, uma investigação da alma humana e suas sutilezas conduzidas pela leveza da câmera em contraste com os temas complexos a que ele se propõe debater.

Em “Dor e Glória” o texto de Almodóvar é claro e direto. Aos 69 anos, ele busca reavaliar a relação com a mãe e quando expõe a dicotomia entre a homenagem e a exposição dela e das pessoas que o cercaram como fonte de inspiração para seus personagens. É curioso como no filme a mãe diz detestar a maneira como ela e as amigas do seu povoado são retratadas no cinema do personagem principal, enquanto ele afirma que cada linha, cada película é uma homenagem a quem o transformou em quem ele é.

Em entrevistas, Almodóvar disse que "Dor e Glória" é um filme que o representa mais intimamente, ainda que determinadas situações sofridas pelo seu protagonista, como o uso de drogas e as dores terríveis não sejam verdadeiras, mas apenas licença poética com fins dramatúrgicos.

"Não é a minha biografia, mas sim o filme que mais me representa intimamente", disse o diretor, garantindo não esta tão fisicamente mal quanto o protagonista e nunca ter usado drogas como o mesmo. 

Para viver este Almodóvar "piorado" temos um António Banderas que não víamos desde “A pele que hábito” (2011), uma de suas últimas grandes atuações, justamente num filme do cineasta espanhol. Na pele do também diretor e roteirista Salvador Mallo, Banderas retrata muito bem o alter-ego de Almodóvar. Envelhecido, cheio de dores físicas e da alma, com relações estremecidas ou perdidas por décadas com diferentes personagens que passaram pela sua vida e um iniciante problema com drogas, Banderas entrega uma de suas melhores atuações emulando a alma do diretor. O ator espanhol parece ter conseguido captar perfeitamente uma persona de Almodóvar com seus silêncios, olhares cansados e hesitação na fala.  

Ao mesmo tempo, Mallo quer se reerguer, voltar à ribalta do cinema. E a inspiração vem justamente do material farto que é a sua vida. E é o que Almodóvar faz. Usando os exemplos do que viveu, ele busca se conectar com seu público, que também vive angústias e desejos semelhantes. Afinal, viver, tal qual o título do seu filme, é uma experiência frequente de dor e glória. 

O filme ainda conta com a participação de Penélope Cruz, que ajuda a contar histórias de um Salvador jovem que também são as de um Almodóvar jovem. Ali vemos o que já nos acostumamos a ver em diferentes passagens de filmes do diretor. A infância economicamente difícil, o estudo no colégio de padres e a vida pela arte que o resgatou daqueles momentos de pobreza. 

Extremamente metalinguístico e cheio de acertos de contas com o passado, talvez “Dor e Glória” só peque por ser excessivamente e tão claramente autobiográfico, o que torna a experiência de ver o filme com uma sensação de déjà vu e sem um frescor de novidade que o acompanhe. É mais sessão de terapia do que cinema e tem um texto mais confessional e menos criativo em comparação com o que nos acostumamos a ver na filmografia do diretor. 

Mas isso é um ponto de vista absolutamente pessoal. E não faz com que a experiência do filme seja ruim. Longe disso. “Dor e Glória” tem o seu valor e tem um Antonio Banderas simplesmente imperdível. A assinatura de Almodóvar também é garantia de prazer para seus fãs, que não se sentirão decepcionados. Mas não acredito que seja um tipo de filme que geraria novos fãs para o diretor. 

No balanço final, “Dor e Glória” é como reencontrar um velho amigo de quem se admira pela delicadeza, inteligência, perspicácia e até imperfeições. E um Almodóvar imperfeito ainda é um Almodóvar acima da média. 


Cotação da Corneta: nota 7,5. 

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Tarantino em estado puro

Di Caprio e Pitt, dois craques em ação
Quentin Tarantino já disse algumas vezes que pretende se aposentar com dez filmes. Se isso for verdade, “Era uma vez em...Hollywood” (“Once upon a time in... Hollywood", no original) funciona quase como um compilado do modo de fazer cinema que o diretor mostrou nos seus oito trabalhos anteriores. 

Estão presentes no filme a busca pela vingança, a manipulação da realidade a partir de fatos verdadeiros, a violência em doses brutais e secas e, claro, o fetiche pelos pés descalços aqui expostos em doses cavalares pelo diretor. 

Tantas vezes citado e referenciado pelo cinema após o lançamento de “Pulp Fiction” (1994), Tarantino também resolveu citar a si próprio em “Era uma vez em Hollywood...”. E foi mergulhando em um de seus melhores trabalhos, “Bastardos Inglórios” (2009), que ele foi buscar ferramentas para o seu nono trabalho. 

Lá, Tarantino buscava a vingança contra os nazistas. Mudar a história a partir de um turning point nunca ocorrido. Aqui, a referência é direta quando o personagem de Leonardo Di Caprio, Ricky Dalton, surge com um lança-chamas queimando nazistas como também fizera Shoshana em “Bastardos Inglórios”. Mas também é indireta na própria narrativa construída pelo filme, sobre a qual não podemos ir adiante sem entrar no campo dos spoilers. 

A ideia de “Era uma vez em Hollywood...” é contar a história daquele período entre os anos 50 e 70 do cinema americano misturando figuras reais e fictícias. Aquele era o tempo de filmes de artes marciais de Bruce Lee, vivido numa cena hilária por Mike Moh, obras de faroeste americano e dos chamados western spaghetti italianos. Tarantino nunca escondeu sua admiração por estes filmes a quem faz uma extensa homenagem neste trabalho, como já fizera em produções anteriores. 

Margot Robbie exibe os pès para Tarantino
Também foi o tempo de um crime terrível que marcou para sempre Hollywood. O assassinato da atriz e estrela e ascensão Sharon Tate (vivida por Margot Robbie) em 1969. Então mulher do diretor Roman Polanski, ela foi morta por membros de uma seita de Charles Manson. 

Ambos estão presentes no filme, mas seus reais protagonistas são dois personagens fictícios inspirados em personagens reais, Dalton, cuja história é levemente inspirada em atores como Burt Reynolds, Clint Eastwood e Steve McQueen, e seu dublê Cliff Booth (Brad Pitt), cuja história é inspirada no também dublê Hai Needham. Eles conduzem a narrativa do filme de Tarantino desde o início e interferem diretamente no destino dos personagens. 

Di Caprio e Pitt, aliás, estão dando um show à parte no filme. Os dois estão muito bem e trazem uma veracidade a história que nos leva a embarcar na reflexão de vingança de Tarantino como se tudo ali fosse muito biográfico. Pitt está impagável como o dublê bronco do meio-oeste americano e o mesmo vale para Di Caprio, que constrói muito bem a sua estrela de filmes e séries de ação de capacidade interpretativa limitada. E é incrível como quando o seu personagem precisa dar o melhor de si numa interpretação “shakespeariana” que ele mude completamente o tom quase fanfarrão para o de um ator muito superior ao que o Dalton seria. Vemos isso muito bem na cena da gravação do filme em que ele sequestra uma criança. 

De um modo geral, “Once upon a time... in Hollywood” pode até não ser lembrado como um dos melhores filmes de Tarantino, mas é diversão garantida para aqueles que acompanham há muito tempo e gostam do trabalho do diretor. Pregando para os já convertidos, Tarantino fez referências a si mesmo numa obra que tem a marca indelével do seu cinema. 

Mas ainda assim não é um filme que rouba um lugar no meu pódio tarantinesco. Meu ranking agora ficou assim: 

1.      “Bastardos Inglórios” (2009)
2.      “Pulp Fiction” (1994)
3.      “Cães de aluguel” (1992)
4.      “Kill Bill” (2003-2004)
5.      “Os oito odiados” (2015)
6.      “Era uma vez em...Hollywood” (2019)
7.      “Django Livre” (2012)
8.      “À prova da morte” (2007)
     9.     "Jackie Brown” (1997)

Cotação da Corneta: Nota 7,5. 


sexta-feira, 5 de julho de 2019

Os novos desafios do Homem-Aranha

Parker passeando por prédios europeus
Grandes poderes trazem grandes responsabilidades. O lema que acompanha o Homem-Aranha desde a sua origem foi ampliado como nunca antes nesta segunda aventura do herói dentro do Universo Cinematográfico da Marvel. E “Homem-Aranha: longe de casa” (Spider-man: Far from home, no original), que encerra a fase 3 e dá pistas sobre os próximos rumos da Marvel em seus futuros lançamentos, mostra um Peter Parker (Tom Holland, ainda mais à vontade no papel e comprovando sua escolha certeira após a controversa fase Andrew Garfield) sendo obrigado a lidar com todo um turbilhão de emoções nas duas vidas que leva enquanto se depara com novos desafios após os eventos vistos em “Vingadores: Ultimato” (2019). 

O filme de Jon Watts gira em torno de três ideias: ilusão, luto e amadurecimento. Ideias estas que são desenvolvidas numa aventura leve, divertida e que tem a cara do Homem-Aranha praticamente desde a sua criação nos quadrinhos. 

O luto era uma condição natural, uma vez que ainda estaria naturalmente muito presente neste filme a morte do Homem de Ferro. Tony Stark era uma figura paterna para Peter Parker - ideia esta que eu nunca engoli muito bem, mas foi a forma que a Marvel encontrou para inserir o herói no seu universo e acabou funcionando - e era natural que Parker tivesse que lidar com esse buraco, essa ausência daquela figura que sempre apostou muito nele e teve uma presença muito forte em sua vida. 

Com o luto veio ainda a responsabilidade. A Marvel deixa claro no filme que, pelo menos neste momento, Parker e o Homem-Aranha são o novo Homem de Ferro. Se não na liderança, que acredito que venha a ser tomada por nomes como Pantera Negra e Capitã Marvel, ao menos no carisma e na obsessão pelo conhecimento científico-tecnológico Parker está ali para ocupar o vazio deixado por Tony Stark. E são muitas as cenas em que ele demonstra desenvoltura e encanto ao lidar com as tecnologias e o orçamento generoso deixado por Tony para Peter como herança. Pelo visto, dificilmente veremos aquele Parker dos quadrinhos pobre e contando moedinhas de dólar vendendo as próprias fotos para o Clarín Diário para se manter. 

Mas lidar com essa responsabilidade e o luto ainda é muito doloroso para o personagem, que não se vê preparado para o desafio. Nem o quer. Mas acaba sendo cobrado por isso num mundo onde não existem mais os Vingadores. 

É onde entra o segundo tema do filme, o amadurecimento. Se desde o princípio, quando se vê diante dos seus poderes, Parker quer mostrar que é capaz de grandes feitos, a ressaca pós-batalha contra Thanos mostra um garoto que, neste momento, quer apenas ser um... garoto normal. Parker quer viajar pela Europa com seus amigos, tentar conquistar a garota que ele ama e viver as experiências que ele não teve a chance de viver por causa de suas habilidades. 

O problema é que ser o Homem-Aranha é um trabalho full time e nunca se sabe quando os problemas podem surgir. Ainda mais quando se tem o Nick Fury (Samuel L. Jackson) no seu pé o tempo todo. 

Parker sabe que tem um dom e descobre da pior forma que nunca poderá ser um garoto normal. De certa forma, o lema do Tio Ben está implicitamente presente neste amadurecimento do herói. Ele tem um grande poder, proporcional à sua responsabilidade. 

Entender isso, corrigir os erros e aprender com eles é tudo o que Parker faz ao longo do filme. E assim ele cresce, amadurece e o personagem vai moldando o seu caráter enquanto busca viver as experiências de um garoto que tem um crush pela Mary Jane (Zendaya). Parênteses: não vou mais implicar com a Zendaya porque ela não se parece com a Mary Jane porque ela se mostrou ótima neste filme e entendo que ela ainda passará por muitas transformações. 

Parker deu muita trela para o Mysterio
E onde entra a ilusão nisso tudo? A ilusão é o elemento de ação do filme. É onde há o entretenimento mais explícito, afinal não podemos esquecer que é um filme de super-heróis e um blockbuster. 

Um dos desafios do filme era inserir o Mysterio (Jake Gyllenhall), conhecidíssimo personagem dos fãs dos quadrinhos, de uma forma que pudesse surpreender também quem sabe de suas origens e poderes. Para evitar spoilers, podemos dizer que os truques usados foram perfeitos. E de quebra a Marvel fez todo um jogo de ilusões que perpassam o filme que vão para além da presença do Myaterio e culminam com uma cena extra absolutamente surpreendente. 

Mysterio, aliás, é uma das questões sobre as quais Peter tem de lidar. Com o personagem, Peter aprende que nem todos são como Tony Stark. Nem todos os adultos poderosos lhe serão uma figura paterna e ele precisa entender que tem que deixar a inocência de lado para sobreviver e cuidar da segurança dos seus amigos. 

Donde vem a questão sobre o futuro do MCU. O filme dá pistas sobre os próximos passos, embora elas não pareçam ser muito conclusivas. A tão comentada teoria do multiverso é falada, mas ainda não sabemos se ela é ou não verdadeira. Ok, nos quadrinhos o multiverso existe, mas isso não esta claro ainda no cinema. Se o multiverso está finalmente inserido e se o estalo de Thanos provocou estragos provavelmente são coisas que ficarão para outros filmes do universo. 

Mas a cena extra do final revela uma expansão ambiciosa da Marvel e ainda nos deixa com aquela cara de quem foi pego de surpresa por um truque do Mysterio. 

Como ponto positivo extra gostei muito da presença de J.K.Simmons mantido como J.J. Jameson, personagem que ele faz desde o primeiro “Homem-Aranha” (2002). Me pareceu uma boa medida para conectar está nova fase do herói aos filmes do Sam Raimi. Filmes estes - e falo apenas dos dois primeiros, pois o terceiro é muito ruim - que se aliam a “Longe de Casa” e à animação “Homem-Aranha no Aranhaverso” (2017) como os melhores filmes do Homem-Aranha. 

RANKING: 

Se eu tivesse que fazer hoje o meu spider-ranking, ele assim ficaria: 

1.      “Homem-Aranha no Aranhaverso” (2018)
2.      “Homem-Aranha: Longe de casa” (2019)
3.      “Homem-Aranha 2” (2004)
4.      “Homem-Aranha” (2002)
5.      “O espetacular Homem-Aranha 2: a ameaça de Electro” (2014)
6.      “O espetacular Homem-Aranha” (2012)
7.      “Homem-Aranha: de volta ao lar” (2017)
8.      “Homem-Aranha 3” (2007)


Cotação da Corneta: nota 8.

domingo, 30 de junho de 2019

É preciso ser livre para criar

Nureyev, um artista que queria ser livre
Rudolf Nureyev era como um pássaro. E como todo pássaro, jamais poderia viver numa gaiola. Pelo menos essa parece ser a ideia central do filme “O corvo branco” (The White Crown, no original). Dirigido por Ralph Fiennes, o filme opta por abordar o momento que foi o turning point da vida daquele que é considerado um dos maiores bailarinos de todos os tempos: a viagem do balé Kirov - hoje chamado de Mariinsky - para uma turnê por Paris e Londres como uma forma de demonstrar a força da cultura soviética perante o ocidente. 

A viagem tinha um claro componente político, mas Nureyev nunca demonstrou interesse em tratar destas questões ou da Guerra Fria em pleno vigor naquele ano de 1961. “Eu quero ser livre”, afirma ao pé do ouvido da amiga Clara Saint (Adèle Exarchopoulos) no clímax do filme, quando Nureyev se vê preso por oficiais soviéticos no aeroporto de Paris e contempla a iminência de ser levado de volta para Moscou para ser mantido preso e impedido de dançar. 

O trabalho de Fiennnes, que faz um papel de coadjuvante como o professor e mentor de Nureyev, Pushkin, é bastante feliz em alguns pontos. Primeiro por optar por abordar uma trama central alternando-se com outra paralela. O filme acompanha a viagem a Paris do Kirov enquanto vemos flashes da infância e adolescência de Nureyev a partir do seu nascimento em um trem em plena transiberiana a caminho de Vladivostok. 

O passado dá contexto. O presente mostra este animal enjaulado ansiando por sair. Nureyev exclama por ser livre desde o primeiro segundo em Paris. Alterna a disciplina severa que todo bailarino precisa ter com a rebeldia e o inconformismo que só os grandes artistas ostentam. 

Diante de colegas franceses constrói pontes, enquanto o regime soviético quer controlar tudo. Tem sede de ver obras de arte, de conhecer mais e mais sobre a arte, pois para a sua dança um quadro, uma escultura, são fontes de inspiração. E aos poucos o corvo sente a necessidade de voar com a liberdade e a leveza que exibe nos palcos, encantando todos os que têm a chance de ver Nureyev ao vivo. 

É a partir da ideia deste animal com sede de conhecimento que precisa se libertar que “O corvo branco” se vende. Sequer é relatado como foi a vida de Nureyev após o pedido de asilo político. Ou mesmo é abordada a sua morte em consequência de complicações causadas pela AIDS, doença que ele contraiu em 1984. Isso ficam para os livros de história. A força de Nureyev estava nos seus movimentos no palco e na sua irascível busca por liberdade e pela arte em vida. 

Talvez o filme peque por um excesso de cenas de um Nureyev contemplativo diante das obras e da arquitetura de Paris. Talvez, para alguns ele se encontra num formato mais do que batido de cinebiografias. Mas “O corvo branco” tem o seu valor ao nos oferecer um retrato de um artista único que é conduzido com competência pelo ator Oleg Ivenko. 

“O corvo branco” pode não ser fascinante como o bailarino Nureyev, mas como se comparar diante de alguém que ajudou a construir a história da sua arte? É uma missão difícil. Mas o trabalho de Fiennes é satisfatório. 

Cotação da Corneta: nota 7. 

segunda-feira, 10 de junho de 2019

X-Men em clima de fim de feira

Sophie até está ok no papel
É uma pena que uma das histórias mais importantes dos X-Men, a da Fênix Negra tenha acontecido num clima tão fim de feira para a saga que até o filme estrelado por Sophie Turner foi comandada pela Fox. É claro que quando o trailer de “Dark Phoenix” foi lançado, a maquiagem da Mística (Jennifer Lawrence) já evidenciava a falta de cuidado que o filme teria para entregar básico antes de os heróis mutantes entrarem em definitivo para o Universo Cinematográfico da Marvel com a compra da Fox pela Disney. 

A partir de agora caberá a Kevin Feige reintroduzir os mutantes nascidos com um gene X a mais no universo dos heróis Marvel. E já há boas ideias surgindo na internet envolvendo a Feiticeira Escarlate, além de outras pistas sobre um potencial multiverso causado pelo estalar de dedos de Thanos. Fato é que os X-Men vão ganhar um reboot, que eu espero que recupere um pouco da aura dos dois primeiros filmes da saga. Aqueles tinham tudo o que era a essência dos X-Men: heróis que protegem a humanidade “que os teme e odeia”, o embate de ideias entre Charles Xavier e Magneto e o combate ao preconceito contra o que é diferente que sempre esteve na linguagem subliminar dos X-Men. 

Aqueles foram pontos altos da saga que, com “Dark Phoenix” atinge um fim melancólico. O filme de de Simon Kinberg, tem diálogos fracos e uma história preguiçosa que parte de uma suposta evolução da humanidade após anos de trabalho de Xavier e seus mutantes para serem amados até a volta à estaca zero com as atitudes tomadas por Jean Grey (Sophie Turner) ao ser consumida por um poder cósmico. 

É triste que heróis como Ciclope e Tempestade, tão importantes para o grupo, tenham sido interpretados por atores que não conseguiram dar o seu melhor para os personagens. Culpa, também dos diálogos ruins que perpassam todo “Dark Phoenix”. 

Para piorar temos uma vilã vivida por Jessica Chastain, cuja origem e nome sequer sabemos direito e cujas motivações são apenas a velha postura “quero destruir o mundo”. Por que? Não sabemos muito bem. O talento de Jessica foi completamente desperdiçado. 

Mas há pontos positivos em “Dark Phoenix”? Claro que sim. A começar pela trilha sonora brilhante de Hans Zimmer. Ele soube muito bem pontuar o filme e as transformações de Jean ao longo do percurso. A música principal é excelente e daquelas que marcam um personagem. 

Outro ponto positivo é a participação de Sophie Turner. Muito se falou que não há uma Jean Grey como Famke Janssen e que Sophie não seria capaz de assumir esse papel. Seu trabalho só prova que devíamos ser mais paciente e acompanhar o desenvolvimento que os atores dão aos personagens antes de fazer qualquer crítica. Fica a dica para os que gritaram tanto quando Robert Pattinson foi anunciado como novo Batman. 

É claro que por vezes Sophie lembrou muito Sansa Stark, sua personagem em “Game of Thrones”, mas era inevitável ter essa lembrança visto que a personagem ainda está muito viva na nossa memória. Assim como a série. Mas na medida do possível e do que o roteiro permitiu, Sophie soube impingir a sua marca para esta Jean Grey vivendo um conflito enorme com um poder que a consome e transforma até a sua personalidade. Se era relevante ou não inserir a história dos pais, eu não sei, mas não foi isso que fez “Dark Phoenix” ser abaixo do que poderia ser. 

E, se eu pudesse escolher, gostaria de ver a atriz dentro do UCM continuando a desempenhar o papel de Jean. Embora reconheça que a tendência da Marvel seja mudar todos os atores para um verdadeiro reboot. 

Um pouco abaixo de Sophie, eu também destacaria o trabalho de Michael Fassbender. Seu Magneto isolado, depois em busca de vingança e, por fim, querendo ajudar os heróis, trouxe os melhores momentos de ação do filme. Fassbender é outro que eu gostaria de ver um pouco mais de no papel. 

E a cena final dele começando a jogar xadrez com Xavier em Paris, que remete ao filme em que ambos jogam xadrez quando Magneto está na prisão é uma ótima citação. 

No balanço final, porém, “Dark Phoenix” ficou devendo muito. Mas, lamentavelmente para a produção, tornou-se um filme irrelevante assim que foi anunciada a compra da Fox pela Disney. E sua execução só fez o sentimento sobre isso piorar ainda mais. 

Fato é que os fãs de quadrinhos querem mais é saber como os mutantes vão entrar no Universo da Marvel. A “Dark Phoenix” restou o papel de ser apenas um passatempo enquanto o melhor (espera-se) está por vir.

Cotação da Corneta: nota 6.

domingo, 2 de junho de 2019

No cinema, Elton é maior que o Queen

Taron incorpora Elton John em um de seus shows
Sir Elton John está se despedindo dos palcos. A "Farewell Tour" vai até dezembro de 2020, com o último show previsto para Londres. Aos 72 anos, o cantor dono de dezenas de sucessos, quase todos compostos ao lado de Bernie Taupin, parceiro de mais de 50 anos de amizade, quer se dedicar mais aos filhos que adotou junto com o companheiro David Furnish. Com a proximidade do fim de uma carreira brilhante, torna-se quase inevitável as homenagens e os registros biográficos. Além de uma biografia, já se pode ver no cinema a versão de David Fletcher para a vida de Elton. E, por que não pensar nisso?, do próprio Elton John. 

“Rocketman” tem a cara do cantor inglês. É uma viagem lírica sobre uma jornada de dificuldades, dor, solidão, vícios, mas também da sua beleza artística de quem costuma-se chamar ou não de inigualável. E, goste-se ou não de Elton John, ele é inigualável. 

O filme tem muitos acertos. Por trás da já mais do que batida fórmula da jornada de um artista composta por infância-adolescência-sucesso-decadência-redenção, Fletcher trouxe um pouco de frescor ao adotar duas medidas que foram certeiras para que seu filme disse bem sucedido. 

A primeira está na aposta da um Elton John contando a sua história numa sessão de terapia. O filme começa justamente no seu momento mais dramático, quando Elton se interna para cuidar dos vícios em álcool e drogas. Mas só percebemos de fato isso mais para frente. 

A aposta na terapia acaba sendo como um acerto de contas de Elton com seu próprio passado. Não que o artista em sua vida real pareça ter qualquer ressentimento com isso. Se havia uma questão a resolver, a imagem que ele passa é a de paz hoje em dia. Mas ali, no fundo do poço, Elton tinha muito a resolver com os amigos que afastou, a sensação de solidão causada por um pai ausente que lhe negava o mais básico dos carinhos, e até com a mãe, cuja relação foi de altos e baixos, ainda que ela tivesse lhe dado apoio para a sua carreira. Era um apoio tímido, mas ela o incentivava. 

E nesse ponto a entrada triunfal de Taron Egerton vestido de diabo (fantasia perfeita para a ocasião), é o cartão de visitas do filme. Sua atuação é um parênteses que faço na argumentação para contar que Taron é o terceiro mérito do filme. Ele também é a prova de que para interpretar um artista não é preciso meramente copiar o mesmo. Taron não chega a ser fisicamente parecido com Elton. Mas soube incorporar o espírito do personagem aliado apenas ao detalhe dos dentes da frente separamos e do corte de cabelo. Ninguém nega que parecia o próprio Elton na tela. 

Mas faiávamos da sessão de terapia. Ali, Elton enfrenta seus fantasmas das três fases da vida. A infância em negação do pai, a juventude lutando para se firmar, a idade adulta lidando com o sucesso e os vícios. Cada fase um problema que vai se acumulando até chegar ao fundo do poço. Foi uma boa aposta de Fletcher. 

Outro ponto positivo de “Rocketman” está no uso das musicas. Em qualquer cinebiografia de um músico, as musicas naturalmente aparecem para contar a história daquele momento cronológico do artista. Os lançamentos, os sucessos etc... Em “Rocketman”, optou-se por usar uma linguagem de musical com números para uma série de sucessos de Elton que não guardam muita relação com as fases da vida do cantor. “Saturday Nights Alright”, por exemplo, é cantada num número da infância dele e ilustra também a passagem para a juventude, quando o cantor ainda não era uma estrela. 

Essa estratégia trouxe um ganho é um aproveitamento real das canções de Elton que vão para além da mera jukebox rolando na tela (ouviu, “Bohemian Rhapsody”?). As canções têm vida e ilustram passagens e sentimentos da vida de Elton John, trazendo um ganho para o filme. 

E elas não são meramente reproduzidas. Temos aqui outra vantagem do filme. Elas ganham novos arranjos e nova alma pela voz de Taron, que canta em todos os momentos do filme. 

Foi um desafio brutal ao qual ele se impôs e, acredito, teve sucesso em sua empreitada. Taron dá personalidade ao filme ao encarnar todas as fases de Elton, suas inúmeras vestimentas espalhafatosas e seus excêntricos óculos coloridos, duas de suas marcas registradas do ponto de vista estético. 

Principalmente dado ao fato de ter sido feito recentemente e por sua premiação injusta no Oscar, é inevitável comparar “Rocketman” com “Bohemian Rhapsody”. Ainda mais porque Fletcher assumiu as duas semanas finais de filmagem do filme sobre o Queen que até então era comandado por Bryan Singer. O problema é que não há sequer modelo de comparação dentro ou fora da tela. 

Dentro da tela, “Rocketman” é muito superior em todos os aspectos. Da montagem à interpretação dos atores. Do roteiro à escolha de como contar a história. Fora dela, claramente a postura de Elton John sobre o filme que contaria a sua vida foi muito mais liberal e honesta que a de Bryan May e os demais integrantes do Queen. Elton queria mostrar a vida dele como foi. É isso inclui as doses cavalares de drogas, álcool e sexo as quais ele nunca negou que tomou.  Já o Queen tolheu e manipulou a história de Freddie Mercury para contar uma narrativa doce e chapa branca na tela. 

Ao ver “Rocketman”, o que fica, na verdade, é a sensação de como “Bohemian Rhapsody” poderia ter sido muito melhor e mais honesto com a história de outro grande artista que foi Freddie Mercury. 

Para os fãs de Elton John e até os que não são tão fãs da sua música, “Rocketman” é uma boa viagem sobre a complexidade e a rica visão artística de um cantor como Elton, exímio pianista, compositor de sucessos que ficaram para a história é que certamente deixará um legado quando as luzes do seu último show se apagarem. 

Cotação da Corneta: nota 7,5.