domingo, 25 de maio de 2014

Scarlett...

Scarlett mostra quase tudo antes de mostrar tudo
A frase está no pôster que Fox Mulder mantinha com ele na sua sala dos nerds excluídos do FBI: "A verdade está lá fora". Eles estão entre nós e adotando métodos cada vez mais sofisticados para exterminar a humanidade. A mais nova arma é baixar na terra com avatares de Scarlett Johansson. Como resistir? Como não ceder se Scarlett vem para você, te chama de lindo e faz um strip-tease? Nunca entrar num buraco negro sem volta foi tão prazeroso.

Quando um filme se vende como o trabalho em que a atriz fulana faz um nu frontal, desconfie. Desconfie muito. É claro que a corneta pisou no cinema achando que se metera numa roubada.

Mas é a Scarlett Johansson. Então lá estavam eu e mais 44 tarados de diferentes idades e sexos (sim, eu contei) para vermos Scarlett se desnudar para o mundo numa produção viajandona e com uma trilha sonora psicodélica tirada de algum filme do Kubrick que, claro, vai me causar uma semana de pesadelos.

No fim, bem, no fim eu julgaria que o filme causou controvérsia.

- Esse filme não acrescenta nada - disse um senhor enquanto deixava a sala.

Amigo, quem quer acrescentar não vai ver filme. Vai estudar matemática, que lida com soma e multiplicação.

A sensação que eu tenho é que algumas pessoas foram levadas ao cinema pelas frases "Vamos ver o filme da Scarlett Johansson" e “Vamos ver a Scarlett Johansson pelada” e não repararam que era uma ficção científica. E para o gênero, "Sob a pele" é bem bom.

A história. Scarlett é um alien que baixa na terra e sai exterminando um monte de seres humanos. Ela começa a missão pela Escócia. Sim, eu também não entendi porque os ETs começam logo pela Escócia. Talvez porque é um lugar tão vazio que dá para abordar uns caras na rua sem ninguém perceber.

O alien tem uma particularidade. Só pega homem solteiro e solitário. É um alien de coração. E só age depois de fazer uma entrevista com as vítimas mais tensa do que entrevista de emprego em multinacional. E quando os caras acham que vão se dar bem, logo percebem que aquela mulher vai é metê-los numa fria. É o que acontece com um torcedor do Celtic, cujo fim deve ter sido comemorado pelos fanáticos pelo Rangers, e o jovem aprendiz de dançarino de Lepo Lepo (que cena constrangedora).

O problema é que quanto mais tempo convive com os seres humanos, Scarlett vai curtindo. Tem uma subtrama por trás que mostra Scarlett descobrindo, tentando entender o que é ser humana. É aí que ela experimenta um bolo de chocolate, uma das melhores maneiras de estrear na culinária terráquea. E é aí também que entra a tão falada cena dela peladona.

Claro que na primeira vez que ela sente um negócio chamado piedade e toma uma atitude diferente do previsto, o chefe não vai gostar. Ao mesmo tempo, o alien também percebe que a humanidade não presta. São coisas da vida. Não importa se você é daqui ou de Urano.

No fim, "Sob a pele" prova que não é só um corpinho bonito (ou melhor, um corpaço de deusa hipnotizante), mas também tem algum conteúdo. A corneta sai do cinema satisfeita e realizada porque em cinco meses já viu Scarlett três vezes na tela grande. Que 2014, amigos! Atento aos sinais das estrelas, a corneta espera que a nota 7 para “Sob a pele” agrade aos alienígenas. Do contrário, espero que Scully me ajude.

Ficha técnica: Sob a pele (Under the skin – Estados Unidos - 2013) – Scarlett Johansson, Jeremy McWilliams. Escrito por Walter Campbell. Dirigido por Jonathan Glazer.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Trabalhadores do Brasil...

Getúlio em fase pós-Friboi
Filmes históricos são aqueles únicos em que você não se incomoda de ver sabendo de um spoiler. A corneta foi dar uma moral para o cinema brasileiro mesmo sabendo que o protagonista de "Getúlio" morre no final. Mas isso não é problema. Certas obras são como peças de Shakespeare. Não importa qual é o final, e sim como se chega a ele.

O filme de João Jardim tem um jeitão de minissérie da Globo. Um cruzamento de “Agosto” com "Anos Rebeldes”. Tudo com algumas restrições orçamentarias em comparação com o cinema americano. É em cenas como a de Alzira Vargas (Drica Moraes) vendo fotos de manifestações que percebemos que o dinheiro no cinema brasileiro ainda não jorra como no mundo encantado de Hollywood. Se fosse nos Estados Unidos, teríamos um take daqueles sanguinários com explosões e vários figurantes correndo de um lado para o outro.

Mas é uma cena digna. Como todo o filme, aliás. Jardim optou por não contar toda a vida do ex-presidente Getúlio Vargas, como 99% das cinebiografias. Pegou aqueles 20 dias finais que abalaram o Brasil a partir do atentado contra Carlos Lacerda em Copacabana para contar a derrocada de Vargas.

Estamos em 1954 e o Brasil vive uma espécie de “Game of Thrones”. Daenerys Getúlio  Targaryen, The Father of the Poor, é amado pelo povo, mas é seguidamente apunhalado pela oposição e por muitos aliados que o querem ver pelas costas como nos tempos em que o então ditador foi jogado para escanteio.

Raposa velha da política, malandro do Rio Grande do Sul, Vargas vai se equilibrando para se manter como pode no poder. Apesar da carne ruim do Palácio do Catete, muito inferior a de São Borja. Naquele tempo não tinha Friboi, né Tony Ramos?

Só que os milicos Lannisters tramam para derrubar Vargas. Eles já querem iniciar a Era das Trevas que só começaria dez anos depois. Enquanto isso, Carlos Lacerda (Alexandre Borges) dá o seu showzinho particular de oposição. Ele faz pose de Ned Stark, mas não passa de um Theon Greyjoy. Afinal, vocês sabem que o que todos desejam é o poder. Certas coisas nunca mudam. Saudades dos verdadeiros debates políticos na ágora grega.

Mas Khaleesi Vargas avisa que só sai do palácio morto e fim de papo. O cerco se fecha na medida em que as investigações sobre o assassinato do major Vaz vão chegando cada vez mais perto do gabinete do presidente. Vargas manda investigar duela a quem duela e se vê traído pelo assessor e capanga Sor Jorah Fortunato.

As conspirações crescem. Não dá para confiar em mais ninguém. Até que o presidente dá um cavalo de pau e entra para a história como nunca antes na história desse país (sorry, Lula).

"Getúlio" é um bom filme. Tem momentos que parecem novela por causa de determinados planos e enquadramentos, mas não chegar a ser uma coisa “for Teletubbies”. Desculpe se você gosta de novela. Eu também gosto de muita coisa ruim.

Mas o filme se destaca pela qualidade de dois atores em especial: Tony Ramos e Drica Moraes. Com toda a maquiagem e próteses necessárias, Tony está muito bem no papel do presidente. Dizem que Vargas tinha um sotaque forte, mas reclamar disso é coisa de cricri e a corneta é chata, mas não é cricri. Três vezes durante o filme ele solta um "Bah!". Isso para mim já é o atestado necessário de gauchice. E tudo fumando um charuto como estadistas do porte de Churchill e Roosevelt.

Já Drica é a melhor dos coadjuvantes. Sua Alzira Vargas é o perfeito ponto de equilibro entre a conselheira política e a filha amorosa. Cada cena dela, acredite, vale o ingresso. Pelo menos a meia-entrada, vai.

No fim, uma frase de reflexão atribuída ao ex-presidente Juscelino Kubitschek diz que o suicídio de Vargas adiou em dez anos o golpe militar, pois os golpistas de 64 eram os mesmos de 54. É como o filme “Premonição”. Será que era o destino inevitável do Brasil passar por aquele período sombrio? Cartas para os videntes.

A corneta não espera ter o apoio das massas após a divulgação da nota do filme. Mas consciente de que mais do que o petróleo, a corneta é nossa, saio deste post para entrar para a história com um 6,5 para "Getúlio".

Ficha técnica: Getúlio (Getúlio – 2014 – Brasil) – Tony Ramos (Getúlio Vargas), Drica Moraes (Alzira Vargas), Clarisse Abujamra (Clarisse Vargas), Alexandre Borges (Carlos Lacerda), Daniel Dantas (deputado Afonso Arinos), Adriano Garib (General Zenóbio da Costa), Paulo Giardino (Brigadeiro Eduardo Gomes), Thiago Justino (Gregório Fortunato), Fernando Luis (Benjamin Vargas), Leonardo Medeiros (General Caiado), Marcelo Médici (Lutero Vargas), José Raposo (Nero Moura).

segunda-feira, 5 de maio de 2014

O escalador de paredes brilha

Homem-Aranha e o Faísca, quer dizer, Electro
“Homem-Aranha/Homem-Aranha/Nunca bate/Só apanha”. Toda vez que eu vou ver qualquer filme do amigão da vizinhança, lembro dessa música que alguém criou a partir do tema de um desenho animado antigo do super-herói e que ganhou um sensacional cover punk rock dos Ramones. E como é legal ver que esse tema é exatamente o toque do celular de Peter Parker em “O espetacular Homem-Aranha 2: A ameaça de Electro”. Gênio. Parabéns aos envolvidos.

Quando a corneta vai ao cinema ver um filme do Homem-Aranha tem que lutar contra um sentimento de jogo praticamente ganho. Afinal, o aracnídeo sempre foi um dos meus três heróis favoritos. Fica ali junto com o Batman e o Wolverine (agora vocês sabem porque eu sou tão condescendente com os filmes dele). O Thor entraria nesse grupo, mas o Thor do cinema não é tão legal quanto o dos quadrinhos porque ele não fala em linguagem shakespeariana com legenda com frases na segunda pessoa do plural e  mesóclises. Lamentável. A mesóclise é a melhor coisa da língua portuguesa.

No caso de Peter Parker, ele é ótimo porque é gente como a gente. Um nerd que tem uma vida complicada em que nada dá certo. Que tem um chefe histérico, histriônico e maluco. Que tem problemas com as garotas, mas está sempre com um sorriso no rosto e contando uma piada. Enfim, Parker é um espelho de todos nós losers, mas nos dá uma esperança de dias melhores quando o vemos balançando pelos arranha-céus de Nova York. Deve ser por isso que ele é tão amado.

Lá se vão cinco filmes desde a primeira vez que Tobey Maguire vestiu o collant azul e vermelho do Aranha. Após dois trabalhos com Andrew Garfield já podemos fazer algumas comparações e considerações. Vamos a elas:

1) Não sou fã de reboots e era viúva de Maguire mesmo que o terceiro filme tivesse sido muito ruim. Mas é preciso reconhecer que "O espetacular homem-aranha 2: a ameaça de Electro" é tão bom quanto "Homem-Aranha", o primeiro filme lá de 2002.

2) Ok, eu me rendo. Andrew Garfield ganhou a minha simpatia com esse filme. Já o vejo perfeitamente na pele do herói. Ele ganhou pontos com sua atuação e parece mais à vontade no papel em um filme que é infinitamente melhor que o primeiro. Talvez por superar aquela fase de contar a origem. Ninguém aguenta mais filme de origem.

3) Se Garfield (o ator e não o gato preguiçoso dos quadrinhos) está quase do mesmo nível de Maguire, os filmes de Marc Webb tem uma vantagem em relação aos do Sam Raimi: o humor. Aquele humor do Homem-Aranha dos quadrinhos, o herói que faz uma piada em qualquer situação e debocha dos vilões é muito presente nesta nova fase e proporciona momentos únicos. É muito agradável o equilíbrio entre drama, comédia e aventura. Nesse ponto, o trabalho de Webb se aproxima de "Os Vingadores", de Joss Whedon.

4) Webb e seus amigos nerds responsáveis pelos efeitos especiais levaram a sério a frase do Tio Ben que acompanha Parker em todas a sua vida: "Grandes poderes trazem grandes responsabilidades". Isso significa que eu vou dizer uma coisa inédita. Finalmente temos um filme que vale a pena ver em 3D. Até então o 3D era uma picaretagem para tirar mais dinheiro do espectador honesto e trabalhador, mas "O espetacular Homem-Aranha 2" acaba com isso. O 3D é realmente uma atração a parte nas cenas de ação e nas diversas vezes que o herói transita pelos prédios de Nova York. São imagens realmente incríveis. Ultrapassa os melhores momentos do aracnídeo se balançando por aí.

E a história? Dessa vez o Aranha tem que enfrentar três vilões. Seu arqui-inimigo Duende Verde (Dane Dehaan), cidadão que tem uma obsessão patológica pelo herói, o Electro (Jamie Foxx) e sua carência irritante, e o malucão do Rino (Paul Giamatti). Fato que os três precisam de um psicanalista. Ao mesmo tempo tem que administrar um namoro vai não vai com Gwen Stacy (a fofinha da Emma Stone, maior celebridade com língua presa desde Cazuza e Romário, e namorada de Garfield na vida real). Os jovens vão se identificar com os momentos meigos dos dois.

É claro que vai dar merda. Afinal, estamos falando de Peter Parker. Algo sempre dá errado. E quem leu os quadrinhos sabe que neste filme estaremos diante de um momento importante na vida do herói. Não posso falar mais sob pena de revelar spoilers. E estou fazendo análise para tratar desse problema de língua solta cinematográfica. Só posso dizer uma coisa: que coragem de Marc Webb, meus amigos. Que coragem. Ainda me faz tudo com requintes de crueldade, quase tudo igual aos quadrinhos e logo no segundo filme!

"O espetacular Homem-Aranha 2: a ameaça de Electro" é divertido, bem feito, engraçado, tem atores de calibre em papéis importantes (Sally Field é perfeita como Tia May), um protagonista carismático e um herói no melhor da sua forma. A corneta se rende completamente, sai do cinema de alma lavada e desejando um terceiro filme o quanto antes. E quem prestou atenção em alguns detalhes, sabe que o Doutor Octopus, a Gata Negra e Mary Jane vêm aí.

Diante desse Homem-Aranha ousadia e alegria de Marc Webb, a corneta se dá por satisfeita. A nota não pode ser nada diferente de
9,5. E fiquemos com os Ramones para alegrar o nosso dia. “Homem-Aranha/Homem-Aranha/Nunca bate/Só apanha”.

Ficha técnica: O espetacular Homem-Aranha 2: a ameaça de Electro (The Amazing Spider-Man 2 – 2014) – Andrew Garfield (Peter Parker/Homem-Aranha), Emma Stone (Gwen Stacy), Jamie Foxx (Electro/Max Dillon), Dane Dehaan (Harry Osborne/Duende Verde), Colm Feore (Donald Menken), Felicity Jones (Felicia), Paul Giamatti (Aleksei Sytsevich/Rino), Sally Field (Tia May), Marton Csokas (Doutor Kafka), Chris Cooper (Norman Osborne). Escrito por Alex Kurtzman, Roberto Oci e Jeff Pinkner. Dirigido por Mar Webb.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Kung Fu

Ip Man mostra que é bom na chuva
Certa vez eu fiz uma daquelas enquetes do buzzfeed (sim, eu sou desses) que era sobre de qual período histórico você é ou deveria fazer parte. Era uma espécie de terapia de vidas passadas pela internet. Para a minha surpresa na ocasião deu uma dinastia chinesa. A corneta realmente tem um pezinho em tradições milenares e admira coisas antigas. A corneta é mais do que velha. É matusalênica! E assim ela foi empolgada ver o novo filme de Wong Kar Wai.

Se você é um diretor chinês, é praticamente uma obrigação fazer na sua vida um filme de espadachim e/ou um filme de Kung Fu. É tipo brasileiro fazendo comédia. Kar Wai, conhecido por trabalhos bonitos como “Amor à flor da pele” (2000), “2046 – os segredos do amor” (2004) e “Um beijo roubado” (2007) - ah, a torta de blueberry -, já tinha feito um filme de espadachim há 20 anos, com “Cinzas do passado”. Faltava o filme de Kung Fu.

"O grande mestre" tem tudo o que nos faz feliz com um filme do gênero. Tem lutas maneiras, um vilão com cara de mau, uma mocinha que também vai pro pau e uma série de ensinamentos de biscoito da sorte com parábolas do tipo "um tigre nunca sai da montanha" e “Não se deve lutar com monges budistas, mestres taoistas, mulheres e crianças”. As parábolas chinesas são muito mais legais que as cristãs.

Tudo em "O grande mestre" se passa do início até meados do século XX durante a guerra sino-japonesa. Enquanto o Japão invade a China numa batalha sangrenta, norte e sul do país tentam se entender sobre quem luta melhor e com dancinhas mais bem coreografadas. E tome de salto do macaco caolho de um lado, árvore frondosa que sufoca a garganta do outro, e coisas do gênero. Tudo nas artes marciais chinesas têm um nome poético.

Basicamente temos três escolas se digladiando para ver quem tem o estilo mais totalmente excelente. Os Gong são os mestres do momento, cujo patriarca rei da cocada preta reuniu dois estilos milenares e domina a temida técnica dos 64 movimentos do Baguá. Não ria, o negócio é sinistro e cheio de golpes invisíveis que fariam o Mister M cortar um dobrado para desvendar.

Mas temos também Ip Man, o nosso anti-herói vivido por Tony Leung, um outsider sem estilo que consegue assimilar por osmose as técnicas de todas as escolas. Ip Man é um cruzamento de Mística, dos X-Men, com Ayrton Senna, pois ninguém luta melhor que ele na chuva. Ele também consegue quebrar biscoitos só com a força da mente. Bom, esse poder não tem muita utilidade, mas as crianças podem curtir. Tudo isso sem amassar o seu chapéu Panamá. Ip Man é um pequeno gafanhoto de James Bond.

O problema é que ele só viu uma vez a tal das 64 formas e não conseguiu memorizar. Por isso joga um charme para a filha Gong, rola um clima, mas a vida prega peças nas pessoas. Vocês sabem disso. E o que Deus ameaça unir, a guerra trata de afastar antes.

Ip Man protagoniza grandes lutas, mas o grande momento do filme é mesmo a pancadaria entre a filha Gong e o bastardo traidor. Um duelo entre "irmãos de armas". Essa vale muito o ingresso. De fazer o Bolshoi aplaudir de pé. O desfecho? Vejam o filme. Não vou ficar aqui dando spoiler.

A corneta se amarra em filmes de Kung Fu e saiu do cinema mais sábia com os  ensinamentos de Kar Wai. Mas sabe que o leão que fita a adaga precisa buscar o caminho da montanha por fendas na cachoeira dentro da floresta (provérbio chino-marcelista). Isso é para dizer que a perfeição não está no fim, mas na iluminação conseguida pelo caminho. Assim, a corneta vai dar uma nota 8 para "O grande mestre". E não se esqueçam de uma coisa: #somostodoscorneta.


Ficha técnica: O Grande mestre (Yi dai zong shi – 2013 – China) – Tony Leung (Ip Man), Cung Lee (Iron Shoes), Qingxiang Wang (Mestre Gong Yutian), Elvis Tsui (Mr. Hung), Chia Yung Liu (mestre Yong), Ziyi Zhang (Gong Er), Chen Chang (Canivete), Jin Zhang (Ma San). Escrito por Wong Kar Wai, Jingzhi Zou e Haofeng Xu. Dirigido por Wong Kar Wai.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

O herói da América de volta

Fury, Rodgers e Viúva Negra posam para foto
Antes de entrar na sala de cinema, a corneta pensou em fazer uma enquete para saber qual é o super-herói mais coxinha dos quadrinhos: Capitão América ou Superman? Depois do filme, bem depois do filme... sorry, Superman, você levou essa.

Um dos méritos de "Capitão América - o soldado invernal" é dar um polimento, uma lapidada na "coxinhice" do Capitão América. Sim, o Sentinela da Liberdade continua lá com seus valores morais, com seu discurso e toda a sua perfeição. Ou quase. O filme dá a entender, deixa uma pequena ponta solta, de que o escoteiro da América já deu suas derrapadas. Tudo bem que foi há 70 anos, mas já é alguma coisa. Enfim, num pais conhecido por seus desvios éticos em ações militares, o Capitão América do cinema não poderia passar incólume como o dos quadrinhos.

Antes de continuar, eu vou dizer uma coisa logo. "Capitão América - o soldado invernal" é muito bom. Está entre os filmes tops sobre quadrinhos já feitos desde que isso virou gênero nas últimas duas décadas. Pensando em tudo que já foi feito na história (e confiando na minha memória, o que não é uma boa medida), podemos fazer um ranking assim (gosto de rankings, eles sempre são polêmicos e alimentam discussões de bar):

1- “Watchmen” (2009)
2- “Batman - o cavaleiro das trevas” (2008)
3- Os Vingadores (2012)
4- “Homem de Ferro 2” (2008)
5- “X-Men” (2000)
6- “Capitão América 2 – soldado invernal” (2014)
7-”“O Homem-Aranha” (2002)
8- “300” (2007) – Eu gosto, tá!
9- “Batman” (1989)
10- “Sin City” (2005)
11-“Superman” (1978)

E o que faz este filme ser muito melhor do que o primeiro, que é verdadeiramente uma palhaçada, uma patriotada, uma pachequice norte-americana?

Vamos a alguns elementos:

1 - Chris Evans finalmente se encontrou no personagem. Nem no ótimo filme dos Vingadores ele está tão bem. Lá, ele era sistematicamente engolido por Robert Downey Jr. e Chris Hemsworth. Aqui, eles teriam pelo menos tido embates de igual para igual.

2- A história é muito boa. Claramente superior ao primeiro filme, que é do gênero "veja como eu nasci". Envolve um tema ainda atual, a militarização, a cultura do medo, do atire primeiro e pergunte depois pós-11 de setembro, aliada a um esquema de espionagem e contraespionagem dentro da própria Shield, com a Hidra absolutamente envolvida. Vocês não achavam que a Hidra iria sumir assim né? É organização terrorista de primeira linha.

3- As cenas de ação estão muito bem feitas. Isso parece óbvio num filme de ação, mas tem muita tosqueira por aí. As brigas de Rodgers, as perseguições. Não tem nada mirabolante que nunca tenha sido feito. Não é o Kama Sutra da porrada, mas é o simples bem feito. Os fãs de quadrinhos curtem. A primeira entrada do Capitão América em ação é espetacular.

4- Bons coadjuvantes com histórias interessantes. A entrada do Falcão é uma boa, O Soldado Invernal (que eu descobri quem é na primeira cena, fazendo perder um pouco da graça de um pedaço do roteiro) trará consequências no futuro, e a Viúva Negra ganhou mais espaço deixando os fãs dela (eu entre eles) felizes.

5- E o filme ainda tem o luxo de ter Robert Redford, um senhor que dispensa apresentações. Não posso falar muito para não estragar a história.

Enfim, a receita de sucesso dos diretores Anthony e Joe Russo foi simples. Foi o que uma vez eu ouvi numa longínqua aula de marketing no passado: menos é mais. Principalmente se você tem US$ 170 milhões para gastar. Fez o simples, foi direto, objetivo e correu para o abraço após marcar um golaço ao som de Marvin Gaye.

Vi o filme em 3-D, o que não faz a menor diferença para o filme em si, mas proporciona algo único. Nunca na minha vida eu estive tão perto de Scarlett Johansson (vocês não acharam que eu tinha esquecido dela né?). Sim, eu sei, Scarlett é uma obsessão e eu preciso parar, mas, vejam bem, o filme não tem só a Scarlett Johansson. Ele tem a Scarlett Johansson RUIVA. Isso eleva o desejo a outro patamar. Bom, já vi Scarlett em 2D, 3D... estou avançando. Espero em breve chegar ao 6D.

Depois deste preâmbulo totalmente desnecessário de um parágrafo, vamos ao que realmente interessa: a nota da corneta. O escoteiro foi muito bem dessa vez e vai voltar para casa feliz. "Capitão América - o soldado invernal" vai ganhar uma
nota 9.


Ficha técnica: Capitão América 2: o soldado invernal (Captain America – The Winter Soldier – 2014 – Estados Unidos) - Chris Evans (Steve Rodgers/Capitão América), Scarlett Johansson (Natasha Romanova/Viúva Negra), Samuel L. Jackson (Nick Fury), Robert Redford (Alexander Pierce), Sebastian Stan (Winter Soldier/Bucky Barnes), Anthony Mackie (Sam Wilson/Falcão), Cobie Smulders (Maria Hill), Emily VanCamp (Kate/Agente 13), Toby Jones (Arnin Zola). Escrito por Christopher Markus e Stephen McFeely. Dirigido por Anthony e Joe Russo.


segunda-feira, 7 de abril de 2014

'Noé'

Noé corre para não se molhar muito
Quem diria? Hollywood redescobriu a Bíblia. Duas semanas antes de Jesus adentrar as salas de cinema com todo seu cabelo liso e olhos claros comprovando que os historiadores estão errados e o filho de Deus na verdade era norueguês, a corneta foi conferir a mais nova produção divina do cinema. Não tenho nada contra as religiões, mas lançarei, como sempre, um olhar iconoclasta para conferir se esse novo filme é ou "Noé" grande coisa.

Como vocês estão cansados de saber, "Noé" conta a história daquela vez em que Deus resolveu dar um reboot e reinstalar o Windows do mundo. O problema é que ele deixou cair um copo d'água no seu computador celestial (com wi-fi divinamente rápido) e deu no que deu.

É claro que isso resultaria na maior chacina já vista. Quase todo mundo morre no final. Desculpem pelo spoiler.

Só que esse papo de seguir a Bíblia ao pé da letra não iria atrair a geração do Face para a frente do cinema, né. Foi aí que Darren Aronofsky teve algumas sacadas. Injetou testosterona no Noé e convidou o Russell Crowe para interpretá-lo.

Crowe transformou o personagem no macho alfa que Aronofsky queria. Bom de briga, descendente direto de Adão, segundo o velho testamento, protetor da família e com uma missão divina: construir uma arca para proteger um casal de cada espécie animal do grande dilúvio que vai acontecer daqui a pouco no mundo.

Esqueçam os discursos empolados na segunda pessoa do singular ou do plural. Com Aronofsky a mensagem é direta e a missão clara. Seu "Noé" é um Mad Max Bíblico sem a Tina Turner. We don't need another hero. We already have Noé.

Neste mundo antes de Cristo, do Google e do McDonald's, o apocalipse se aproxima porque a humanidade não soube cuidar direito do planeta. E agora a natureza vai se vingar com o ajuda do cara lá de cima. O Greenpeace deve ter curtido essa versão.

Mas o que fazer para salvar os bons e os justos? Noé entra em sintonia com o Criador que lhe dá uma letra, mas ele não compreende direito. É obrigado a visitar o seu avó em busca de alguma luz.

Entra em cena Matusalém, que não poderia ser interpretado por mais ninguém além de Anthony Hopkins. O mercado de velhos, sábios anciões e pais de heróis é monopolizado por ele. Estão aí "Thor" (2011 e 2013), onde ele faz Odin, “Alexandre” (2004), onde ele é Ptolomeu, e “A lenda de Beowulf” (2007), onde ele faz o rei Hrothgar, que não me deixam mentir.

Matusalém dá um chazinho de ayahuasca para Noé, que viaja na maionese como um hippie dos anos 70. É quando Noé vê a arca e parte obsessivamente para construí-la.

Enquanto isso, a humanidade se prepara para ocupar o espaço como faz melhor. Destruindo e degradando o ambiente. Realmente a visão de Aronofsky sobre a nossa espécie não é muito romântica. Ponto para ele.

É, Aronofsky, eu gosto de você (como não gostar de alguém que fez "Réquiem para um sonho"?), mas convenhamos, "Noé" um filmaaaaaço não. Tem uns efeitos especiais maneiros, atuações apenas ok e imagens bonitas.

Mas apreciei a licença poética de fazer o mal embarcar na arca. Representado pela figura do vilão Tubal-Cain (Ray Winstone), ele é a encarnação dos sentimentos ruins do ser humano. Incluindo aí os ecologicamente incorretos. Um recado do diretor de que algumas coisas não mudaram. Ou uma previsão de que um novo dilúvio se avizinha? Afinal, a humanidade não aprendeu muito nos últimos séculos a gerir os seus recursos naturais.

Antes que um novo dilúvio venha nos consumir, vou dar logo a cotação da corneta. Entre altos e baixos, "Noé" passou raspando. Vai ficar com uma nota 6.

Ficha técnica: Noé (Noah – 2014 – Estados Unidos) – Russell Crowe (Noé), Jennifer Connelly (Naameh), Ray Winstone (Tubal-Cain), Anthony Hopkins (Matusalém), Emma Watson (Ila), Logan Lerman (Ham), Douglas Booth (Shem), Nick Nolte (Samyaza). Escrito por Darren Aronofsky e Ari Handel. Dirigido por Darren Aronofesky.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

'Tudo por Justiça'

Bale brinca de tiro ao alvo
Todo filme que tenha uma canção de Eddie Vedder já nasce bem avaliado. Mas não pensem que só por ouvir um Pearl Jam, a corneta se rende e sai distribuindo 10 igual a apuração de escola de samba. Aqui o critério é duro. Mais duro que a "Gazzetta dello Sport" em dia de mau humor.

Quando "Tudo por Justiça" começa, já temos uma ideia do que o diretor Scott Cooper pretende. Aqui ninguém vai se dar bem, amigo. Esse povo vive num lugar bizarro, com fumaça saindo das chaminés das indústrias, decrépito, enfim, feio pra cacete. Parece que é ali na Pensilvânia. É o tipo de lugar que político só vai em campanha.


E nesse local tem algo pior. Uma área lá pelas montanhas que é uma terra de Malboro. Sem lei, mundo cão, todos obedecendo às ordens de Harlan DeGroat.


Nosso vilão é vivido pelo Woody Harrelson, em mais um papel de porra louca, doidão, suicida, polêmico ou tudo isso junto na carreira. É o que o velho Woody faz de melhor. Lembre de “Onde os francos não tem vez” (2007), “Assassinos por natureza” (1994), “O povo contra Larry Flynt” (1996), por exemplo. Ele adora um tipo diferenciado.


O problema é que com Christian Bale o buraco é mais embaixo. Afinal, vocês sabem, ele é o Batman.


Bale é o nosso herói. Jovem trabalhador de uma usina que vai fechar a qualquer momento porque sai mais barato importar aço da China (é a economia, estúpido), Russell Baze tem as marcas de uma vida dura no rosto. Mas mesmo com uma existência mais ferrada do que todos nós e dando vários plantões na fábrica para pagar as contas da casa, ele sempre encontra uma razão para viver no sorriso e no jeitinho meigo de Lena (Zoe Saldana), sua jovem namorada.


Mas um dia, enquanto pagava pela enésima vez uma dívida do irmão-problema Rodney (Casey Affkeck) para o agiota John Petty (Willem Defoe), sua vida vira de cabeça para baixo e ele vai parar na cadeia. Todo o mundo aconchegante vai por água abaixo. É preciso reconstruir a vida. Mas havia o irmão problema.


"Tudo por justiça" é um filme, acredite, sobre amor. Mas também sobre vingança. Talvez até mais sobre vingança. Citando Rousseau, sem querer parecer pedante, um filme que reflete sobre como o homem é produto do meio em que vive. E das situações pelas quais passa. E a misericórdia surge quando menos se imagina. Assim como a sede de sangue.


A letra de "Release", do Pearl Jam, que está na trilha sonora, é pessimista. Fala de um homem que clama aos céus por uma solução final que o liberte da dor. É como o irmão de Russell, soldado do exército americano na guerra do Iraque que não consegue esquecer os horrores que presenciou. Ou o próprio DeGroat, um sobrevivente do seu meio que “tem problema com todo mundo”.


E na sua interpretação, que eu vou chamar de brilhante sem medo de me arrepender, Bale nos oferece um drama em todas as camadas. Vou dizer para vocês que é extremamente prazeroso ver um grande ator atuando. Bale transforma um roteiro econômico numa arma para dizer muito com gestos, atitudes, olhares. A serenidade dele na cena final diante de um ato tão cruel é coisa de poucos. Curti.

A corneta é fã de Bale e Harrelson. E gosta de ver dois atores trabalhando bem num filme pequeno como este. "Tudo por Justiça" passou no teste e vai receber uma nota 8,5.


Ficha técnica: Tudo por justiça (Out of the furnace – 2013 – Estados Unidos) – Christian Bale (Russell Baze), Woody Harrelson (Harlan DeGroat), Cassey Affleck (Rodney Blaze), Zoe Saldana (Lena Taylor), Sam Shepard (tio dos Blaze), Willem Defoe (John Petty), Forest Whitaker (policial Wesley Barnes). Escrito por Brad Ingelsby e Scott Cooper. Dirigido por Scott Cooper.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Axl Rose de novo

Axl se esforça para agradar
Quando Adriana Calcanhotto cantou que cariocas não gostam de dia nublado, nem sinal fechado, devia ter rimado isso tudo com cariocas adoram chegar atrasado. Sim, pois pontualidade não é uma qualidade do carioca. Pelo contrário, eles acham isso charmoso. Não sei para quem. Certamente não é para quem espera.

Axl Rose também deve achar charmoso chegar atrasado aos seus compromissos. Tenho quatro shows do Guns N'Roses nas costas. Todos em sua versão banda cover (fazer o que? Infelizmente nasci na época e lugar errados). Se eu juntasse todas as horas que eu esperei para ver a diva do Axl Rose subir ao palco e convertesse em horas de voo daria para chegar a Berlim.


Axl é o mais carioca dos habitantes de Indiana. Não apenas porque chega atrasado, mas também porque adora vir ao Hell de Janeiro. Esta é a sétima vez por aqui. Esqueçamos os motivos financeiros.


O cantor cuja voz e a cintura já não são as mesmas por causa do peso de 52 anos de vida intensa, devia ao Rio um show minimamente decente depois daquela pavorosa sessão de horror do Rock in Hell 2011.


Por enquanto o placar shows ruins x shows bons estava 2 a 1 para o time dos detratores e ele precisava tentar empatar a partida. Só posso falar do que eu vi. Então outros shows antes de 2001, quando os vi pela primeira vez, não entram.


Começou mal novamente ao atrasar a entrada ao palco em 1h50min. Continuou derrapando ao abrir com uma música do "Chinese Democracy", o disco que levou 14 anos para ser feito e, apesar de um tempo que sugere uma ourivesaria na construção de um álbum, não deu em um resultado satisfatório não. É um disco para dias nublados.


Mas aí veio o riff de "Welcome to the jungle", a canção-homenagem ao Hell de Janeiro. "You know where you are!!!", se esgoela Axl. "You in the jungle, baby", continua o cantor. É nos sabemos.


"Welcome to the jungle" é a deixa para a galera se empolgar e para Axl executar pela primeira vez a sua dancinha da enguia. O resultado é caricato, mas a gente se diverte mesmo assim.


A partir daí vem uma pedrada atrás da outra com o que tem de melhor nos três discos espetaculares do Guns N'Roses: "Appetite for destruction" (1987) e Use your Ilusion I e II (1991). Tempos em que o Guns era dono do mundo com sua formação clássica com Slash e Gilby Clark nas guitarras e Duff McKagan no baixo.


Os três brigaram com o dono da marca e foram para novos desafios. Vieram o baixista Tommy Stinson e os guitarristas Richard Fortus, DJ Ashba e Ron Bumblefoot. Além do baterista Frank Ferrer. Mas a bateria nunca foi o forte do Guns. Qualquer um podia sentar ali. Até o Ringo Starr. Todos estão há mais tempo na banda que os originais. Sinal que a idade deixou Axl mais tolerante ou são todos masoquistas.


Os três guitarristas do Guns são bons. E Axl tenta mostrar isso para a galera dando a eles generosos espaços no show. Tempo bom também para ele descansar a combalida garganta. É um esforço grande para que a galera esqueça o Slash. Mas acho que não vai rolar.


Ashba usa chapéu e é responsável por alguns riffs clássicos, como o de "Sweet Child O'Mine". Por vezes toca com a guitarra erguida e, enfim, já deu para perceber que ele faz o cover do Slash.


Fortus também tem seu espaço, mas o responsável pela maioria dos solos mais conhecidos do Guns é Bumblefoot. Com seu apelido esquisito e sua barbicha de sábio chinês de filme de espadachim, ele é o verdadeiro cara na banda. O cidadão que executa com perfeição os solos da belíssima "Estranged", por exemplo. E que toca com perfeição o hino nacional na guitarra.  Desnecessário esse toque de brasilidade, mas o povo curtiu.


E assim o Guns foi passando pela HSBC Arena, o menor lugar que eu os vi tocar. Clássicos aqui ("November Rain", a foda "Nightrain", "Patience"), músicas do "Chinese Democracy" ali, numa pausa para os fãs irem ao banheiro ou comprarem cerveja... para tudo se acabar na apoteose de papel picado de "Paradise City".


Axl não é mais o mesmo. Nunca mais será. Sua voz nunca mais fará aquelas estripulias. Para isso, você terá que se contentar com os discos e shows antigos. Mas pelo menos dessa vez entregou um show digno. Não errou nada, a banda esteve bem e ele estava até bem-humorado. Podemos dizer que a partida ficou empatada em 2 a 2.


A corneta musical agora faz as contas. Um ponto perdido por hora de atraso, problemas aqui, coisas positivas ali, e a nota para Axl Rose e sua banda é 6. Agradável, sem empolgar.

quarta-feira, 12 de março de 2014

'Walt nos bastidores de Mary Poppins'

Disney joga aquela lábia em Travers
Walt Disney é o Lair Ribeiro da criançada da minha geração. Guru da autoajuda, moldou baixinhos por décadas com suas produções com mensagens positivas de harmonia, fraternidade, tolerância (quem não tinha simpatia pelo Bambi?) e amor. Tá, esqueçam o Tio Patinhas e seu modelo selvagem de concentração de renda.

Na nossa tenra infância não tínhamos tempo nem conhecimento para questionar por que o Pateta falava e o Pluto não. Ou por que o Mickey Mouse, o Didi Mocó dos cartoons, usava short e o Pato Donald não. Muito menos por que Huguinho, Zezinho e Luizinho viviam mais tempo com o tio do que com o pai. Disney dominou os corações e mentes infantis até a invasão japonesa. Nunca mais fomos os mesmos quando o Jaspion chegou. Mas isso é papo para outro post.

Mas Disney (Tom Hanks) também era um cara chato, insistente (além de fumante e alcoólatra), que fazia qualquer coisa para conseguir o que deseja. Mesmo coisas que não fossem muito éticas. Foi assim que ele conseguiu dobrar a escritora P.L. Travers (Emma Thompson) depois de 20 anos e transpor o livro "Mary Poppins" para o cinema.

"Mary Poppins", o filme estrelado por Julie Andrews e lançado em 1964, é fofo, bonito e tem belas canções. É um filme com o selo Disney de qualidade, que mostra que a vida é lúdica e no fim tudo acaba bem. E "Walt nos bastidores de Mary Poppins", o filme que conta a história de como o filme foi feito? É fofo, bonito e, bem... as canções são as mesmas.

Baseado nas próprias gravações que Travers fez para fazer as correções no roteiro de "Mary Poppins", que considerava pífio e uma grande bobagem capitalista do bobo alegre Disney, o filme não é um grande desafio artístico, mas tem duas qualidades interessantes. Vamos a elas:

1) Para quem viu "Mary Poppins", e aconselho a ver a película antes de assistir a este trabalho, é interessante identificar trechos da história no filme e na vida de Travers. Descobrimos inclusive quem é a real Mary Poppins (se é que o filme é verídico nesta parte).

2) A atuação de Emma Thompson é emocionante. Você consegue gostar dela mesmo ela sendo uma mala sem alça.

Ah, mas o filme não mostra o quanto o Disney era isso e aquilo... blábláblá.... Ora, esse não era o foco do trabalho de John Lee Hancock, que claramente estava mais preocupado em mostrar aquela passagem da vida de Travers num filme em que Disney não passa de um coadjuvante.

Além disso, algumas de suas bizarrices estão lá mostradas de forma sutil, bem sutil, quase esfíngica. Até quando ele não quer saber mais de Travers depois que finalmente consegue os direitos da história. E também não seja tolinho. Você acha que um filme do estúdio vai mostrar seu fundador caindo de bêbado na esquina ou não sendo lá muito ético? Seria o mesmo que... Bem, não vamos falar das relações promíscuas em outras áreas.

Se "Mary Poppins" é a história da salvação da alma de um pai negligente com seus filhos, "Walt nos bastidores de Mary Poppins" celebra o reaquecimento do coração e a redenção - e os filmes Disney adoram isso - da própria Travers.

A escritora começa a ver o mundo com outros olhos a partir de Ralph (Paul Giamatti, o cara que consegue fazer qualquer personagem ser interessante), o motorista que a guia para baixo e para cima em Los Angeles e tolera suas grosserias sempre com um sorriso no rosto. No fundo, talvez ele identifique nela uma alma bondosa.

Mas o papel mesmo de Mary Poppins, aquele que vai livrar Travers dos fantasmas do passado, vocês sabem de quem é né? É claro que fica com Walt Disney. (Pausa para dizer umas verdades: nunca houve o passeio dos dois pela Disneylândia)

Assim, Disney vira o homem que salva o dia. Ok, mas não pensem que Travers ficou 100% satisfeita com o resultado final de “Mary Poppins”. A necessidade de pagar as contas da casa a obrigou a fazer concessões. E Disney também deu umas passadas de perna nela que nunca são mostradas no filme.

Quando voltou a viver no azul, Travers autorizou que Mary Poppins virasse um musical no teatro. Mas deixou claro em contrato de que não queria qualquer participação dos irmãos Richard e Robert Sherman, responsáveis pelas canções do filme. Sinal de que ela tinha algumas coisas a dizer sobre a produção da Disney. E não era supercalifragilisticexpialidocious.

E a corneta tem uma nota para dar. "Walt nos bastidores de Mary Poppins" ficará com um cute e padrão Disney 6,5.

Ficha técnica: Walt nos bastidores de Mary Poppins (Saving Mr. Banks – 2013 – Estados Unidos, Inglaterra e Austrália) – Tom Hanks (Walt Disney), Emma Thompson (P. L. Travers), Annie Rose Buckley (Ginty), Colin Farrell (Travis Goff), Ruth Wilson (Margareth Goff), Paul Giamatti (Ralph), Bradley Whitford (Don DeGradi), B. J. Novak (Robert Sherman), Jason Schwartzman (Richard Sherman), Rachel Grifitths (Tia Ellie). Escrito por Kelly Marcel e Sue Smith. Dirigido por John Lee Hancock.

domingo, 9 de março de 2014

Cotação da corneta: '300: a ascensão do império'

Eva Green botando pra quebrar
Tenho calafrios toda vez que Hollywood se mete a fazer algum filme sobre algo que tenha ocorrido antes de Cristo. Afinal, o potencial para dar errado é grande. Relembremos alguns casos:
                  
1) Em "Alexandre" (2004), o personagem principal foi reduzido por Oliver Stone a um maluco ensandecido mais preocupado com os namorados do que em conquistar territórios e ainda tinha uma mãe manipuladora e quase da idade dele.

2) “Tróia" (2004) tinha tudo para dar certo com um elenco de primeira, Brad Pitt como o herói Aquiles e tal, mas só rendeu algumas cenas boas de batalha.

3) “Fúria de Titãs” (2010), que conta a trajetória de Perseu, é bem meia boca.

4) Assim como “Imortais” (2011), que pelo menos tem um vilão bom feito pelo Mickey Rourke. Aqui, o lance é contar a lenda de Teseu.

E olha que ainda não consegui ver "Hércules" ou "Pompeia", mas eles foram jogados de forma tão constrangedora no cinema, nas sombras dos filmes do Oscar e com trailers pouco empolgantes que desconfio que sejam duas bombas.

Por outro lado, há exceções louváveis. Cito "Gladiador" (2000), "Ben-Hur" (1959), "Spartacus" (1960) e “Cleópatra” (1963). Mas sempre acho que são exceções. Como também é "300" (2006), embora seja um filme que dividiu opiniões. 

Por ter gostado do primeiro, "300: a ascensão do império" tinha tudo para entrar nesse time ai de exceções. Além disso, eu gosto de tudo o que envolva os mitos, as lendas e as verdades da Grécia antiga. Portanto, a corneta já chegou no cinema amaciada e de bom humor, ainda que soubesse que o diretor do novo filme não era Zack Snyder, e sim o desconhecido Noam Murro, e Frank Miller não tivesse participado a gosto da sequência do filme baseado em sua graphic novel.

Mas a corneta não é otária. O novo 300 é:

1) inferior ao primeiro
2) menos inspirado que o primeiro
3) uma trama de vingança atrás de vingança sobre vingança. Povo cheio de ressentimento esse aí.

O filme se passa antes, durante e depois dos eventos no desfiladeiro de Termópilas (vocês vão entender vendo o filme), quando o rei espartano Leônidas fought for glory (essas coisas heroicas soam melhor em inglês) e pereceu diante das tropas persas do deus-rei Rodrigo Santoro, quer dizer Xerxes.

Nesse momento as cidades-estados gregas estão unidas - menos Esparta, que faz beicinho por causa da rivalidade padrão Gre-Nal com Atenas - e se preparam para uma batalha naval daquelas contra as tropas de Artemísia (Eva Green e seus hipnotizantes olhos verdes).

Do outro lado está Temístocles, o grande herói trágico do momento (a Grécia gosta dessas coisas). Excelente estrategista de batalha, great warrior e um líder nato. Ele comanda um grande contingente de guerreiros de barriga negativa para lutarem pela liberdade e democracia contra o império dos tiranos e reis. Aliás, o roteiro tem sempre que ter algum momento que mostra o quanto a Grécia é a paladina da democracia. Nada contra. Quem teve Sócrates, Platão e Aristóteles tem direito a pensar assim. Mas ficou meio forçado.

Temístocles só tem um problema no filme. Uma oratória de picolé de chuchu (não vamos citar políticos famosos para evitar processos). Quando ele fala, não empolga ninguém. Saudades de Leônidas. Quando ele discursava, eu tinha vontade de levantar da cadeira, pegar a minha espada e cravá-la em uns 15 persas. Como não lembrar máximas como: "Ready your breakfast and eat heaty, For tonight, we dine in Hell!". Temístocles só me fez coçar a minha barriga com alto índice de positividade.

Mas é o herói que nós temos. Para quem não sabe Temístocles realmente existiu. E foi um grande herói grego das batalhas de Maratona, de Artemisium e Salamis. Os dois primeiros eventos são mostrados no filme. Xerxes e Artemísia também existiram. Artemisia não era tão bonita quanto Eva Green. Longe disso. Mas era realmente a carne de pescoço que o filme mostra. Ela foi a única mulher a comandar uma frota de navios naqueles tempos.

Então é isso. "300: a ascensão do Império" é uma batalha entre nosso herói grego e a vilã grega de coração persa pelo domínio da Grécia. No meio dos dois, Xerxes é coadjuvante. Temos um uso abusado de sangue cenográfico voando para todos os lados e excesso de câmera lenta. Tudo é hiperbólico e kitsch no longa de Murro.

Temos um roteiro pouco inspirado e atuações apenas ok. Eva Green engole todo mundo. Assim como Lena Headey, a rainha espartana viúva de Leônidas. As mulheres são as exceções e estão acima de todos. As batalhas no mar Egeu, no entanto, são o ponto alto da festa em um filme que é para poucos. Talvez apenas para os fãs tarados e mais condescendentes de Frank Miller e/ou da Grécia Antiga.

A corneta saiu viva desta batalha. Ouviu o oráculo de Delfos e decidiu dar uma nota 6 para "300: a ascensão do império".

Deixo por fim uma pergunta retórica: colocar "War Pigs", do Black Sabbath, na trilha sonora foi uma ironia?

Ficha técnica: 300: a ascensão do império (300: rise of na Empire – 2014 – Estados Unidos) – Sullivan Stepleton (Temístocles), Eva Green (Artemisia), Lena Headey (rainha Gorgo), Hans Matheson (Aesiklos), Callan Mulvey (Scilias), David Wenham (Dilios), Rodrigo Santoro (Xerxes). Escrito por Zack Snyder e Kurt Johnstad a partir da graphic novel de Frank Miller. Dirigido por Noam Murro.