quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Grécia Facts

O Parthenon, em Atenas/Marcelo Alves
Finalizando a série de posts viajantes que começou com Istambul e passou por Bodrum, agora vamos ao Grécia Facts.

1) A Grécia, vocês sabem, é um monte de ruínas de civilizações milenares cercada de pequenas cidades por todos os lados.

2) O mundo devia adotar o Iasas como cumprimento universal. Nenhuma saudação te faz sorrir mais diante de alguém. Basta você testar em casa. Diga, Iasas, olá, Hello, Hallo, Bon Jour na frente do espelho e comprove que a saudação mais simpática, mais sorridente e que mais expõe a ARCADA DENTÁRIA é o cumprimento grego. 

3) Está para nascer povo mais simpático, alegre, gente boa e amável que o grego.

4) E poucos valorizam tanto a sua história. Não falo de Sócrates e Platão, mas a história de suas famílias. É um tal de quinta geração de produtores de azeite, sexta geração de vendedores de sorvete, quarta geração no comando do restaurante. 

4) Tsipras tem muita moral. E mesmo quem não gosta dele reconhece que ele é muito macho. (Não é no sentido sexual, gente. Controlem seus impulsos). 

5) 98,34% da população grega (estudo de pesquisadores britânicos) fala perfeitamente inglês, o esperanto que deu certo. E tudo eles aprendem na escola. Não tem CCAA lá não. Os únicos que não falam inglês são aqueles gregos antigos, que lutaram na guerra do Peloponeso. 

MILOS

As águas cristalinas de Milos/Marcelo Alves

1) Muitos gatos. Muitos deles pretos. Se você for supersticioso será um problema, pois muitos deles vão cruzar o seu caminho. 

2) Milos não tem sinal. As pessoas simplesmente se respeitam. Pedestres, motoristas de carro, motoristas de ônibus e turistas. E é muito raro ver alguém buzinando. 

3) Alegria, restaurantes cheios, turistas circulando e gastando, aqui não tem crise 

4) Milos tem 38 PRAIAS. Tudo isso numa área de 160,1 km quadrados, o que dá uma praia para cada 4,21 km quadrados. Como a população é de 4.977 habitantes, tem uma praia para cada 130,9 deles. E mesmo com os turistas, elas nunca ficam cheias, pois são 38 praias! 

5) Obviamente é impossível visitar todas elas numa breve estadia, mas Klefitkos, que só dá para chegar de barco, e Papafragas, onde é possível nadar por CAVERNAS, são muito especiais. 

6) Água azul cristalina daquelas que se vê o fundo. E o Mediterrâneo é menos salgado que o Egeu. Temperatura perfeita. Pelo visto água gelada só em Mikonos. 

7) Casinhas brancas com detalhes em azul. 

8) Um pôr do sol melhor que o outro.

9) À noite os pontos de ônibus são escuros, muito escuros, mas ninguém tem medo e não tem assalto. 

10) O grego fala como um russo com a cadência do italiano. 

11) Por falar em italianos, uma horda deles invadiu as ilhas gregas como nem o exército alemão do III Reich fez. E sempre falando alto e viajando naquele esquema formação de quadrilha: casal, de três a quatro filhos, sogra... E essa invasão não deve ser algo recente, pois muitos gregos falam italiano numa clara tentativa de melhor atender a clientela. Em Santorini, porém, os italianos tiveram a forte concorrência do exército chinês, que brotava da terra como ninjas de "O tigre e o dragão" a cada esquina. 

11) Havaianas é sucesso absoluto. Mais importante que o Neymar entre os produtos brasileiros. Não tente falar em português com alguém que usa havaianas. Possivelmente não é brasileiro. 

12) Por falar em futebol, toda e qualquer menção ao Brasil vem acompanhada de um nome: Ronaldinho. O gaúcho não joga em alto nível há séculos, mas seu sucesso no Barcelona ainda ecoa pelo mundo grego. 

13) Ntákos, tipo uma mega bruschetta. Um espetáculo. 

SANTORINI

O famoso pôr do sol de Oia/Marcelo Alves

14) Santorini são casas no topo da montanha e ruazinhas estreitas em cidades espaçadas. É tipo uma La Paz que deu certo. 

15) Hoje é tudo lindo, bonitinho e com uma arquitetura fantástica e pronta para os noivos realizarem os seus casamentos, mas o que você não sabia é que no passado distante ter as casas no alto das montanhas era algo MILITARMENTE estratégico para a velha Santorini. Quando o povo de ilha não morava em casinhas brancas, mas em CAVERNAS, eles ficavam lá do alto para evitar o ataque de PIRATAS, já que os CORSÁRIOS não dominavam técnicas para escalar montanhas. Além disso, do topo da montanha você pode ver toda a ilha e, consequentemente, a aproximação de navios. 

15) Não tem gordo em Santorini. É preciso ter preparo físico para subir e descer ladeiras e escadinhas. 

16) Se tem uma coisa que Santorini tem para dar e vender são escadas, plantações de uva (deve ser por isso que o vinho é uma instituição local) e piscinas. Aliás, qualquer birosca se diz uma pool view of the sunset. 

17) Há toda uma INDÚSTRIA do pôr do sol em Santorini. Cada bar e restaurante diz ter a melhor vista possível do espetáculo do CREPÚSCULO grego. Aliás, quando vai dando aquela hora todo mundo vai se posicionando para ver o pôr do sol. Sendo que as classes mais abastadas, é claro, ficam em suas piscinas. 

18) A estrada que vai do porto até Fira e na sequência se dirige para Oia CLAMA por uma corrida de Fórmula-1 em que o vencedor é simplesmente quem não despenca do penhasco. 

19) Santorini tem muita mídia. A Santorini press pelo mundo faz o maior merchandising, mas a ilha não é isso tudo não. A Grécia tem lugares muito melhores e com mais cara de Grécia do que essa ilha que tem muito de ostentação e pouco dos verdadeiros prazeres gregos. 

20) O único lugar em que lidei com gente grossa e mal educada. Santorini nem parece Grécia. Parece o Rio. Bom, o símbolo da ilha é um burro. Deve ser por isso que alguns tratam o turista como jumentos. 

21) Barulho intenso de motos e bugres. Parece ser a escolha preferencial na hora de alugar um veículo para se deslocar pelas ilhas.

22) Rola uma máfia dos ônibus no lugar. Acho que é por isso que os cobradores cagam para você. Muitos estão mal humorados e dando respostas ríspidas. Afinal, ou você pega o ônibus deles, ou ficará a pé na ilha. E isso significa gastar bastante de táxi ou andar por pelo menos 2h30min de um lugar para o outro. 

23) Na Ilha impera um intenso espírito romântico. Meia hora num restaurantezinho qualquer para comer um puta gyros, ops, quer dizer, pita gyros (o kebab grego) e você já está se amando. Então tudo gira em torno da suposta magia de Santorini. Piscinas, restaurantes, pôr do sol, aquela EXEGESE vendida para o mundo. Mas convenhamos, um lobo solitário como eu não cai nesse papinho. E, convenhamos parte II, quem está apaixonado se sente feliz até numa aldeia de esfomeados na República Democrática do Congo. Santorini é puro marketing, amigos.  Um marketing bonito, é claro, que impressiona pela beleza, é claro, mas marketing. Santorini é a Grécia gourmetizada, amigos. 

24) Muitas lojas! Vende-se de tudo de Santorini. 

25) Em compensação, em Santorini tivemos o melhor sorvete da viagem e um dos melhores do mundo. Fica numa gelateria e cafeteria que existe desde o século XIX servindo muito bem à sociedade com grandes sabores, incluindo Baklava e o MARAVILHOSO Vanilla Parfait. Definitivamente é uma gelateria top 5 da minha vida. 

25) Fira - Capital da ilha e centro nervoso com hotéis, restaurantes, lojas e mais lojas, e muitas piscinas e ostentação. 

Kamari - Cidadezinha pequena com uma praia de areia preta e grossa. Uma Arraial do Cabo com grife. 

Perivolos e Perissa - Duas regiões coladas uma na outra e dividindo dois dois quilômetros de areia preta e mar nota 8,5. Mais simpáticas que Kamari e mais jeitosinhas. Cabo Frio melhorada. 

Red Beach - Uma piada de mau gosto. Você passa por desafios, escala a montanha, anda por DESFILADEIROS, e quando chega na praia não vê o paraíso esperado pelo seu esforço, mas uma pequena faixa de areia loteada por bares. 

Oia - Nesta cidade que é um grande encontro vocálico, você vê uma noiva em cada esquina. Sempre ali de branco posando diante das casinhas brancas com o sol e o mar ao fundo. Parece ser a reserva moral grega de Santorini. É famosa pelo seu pôr do sol. Diariamente dezenas, talvez centenas de pessoas se reúnem desde cedo num ponto da cidade para contemplar o sol se pondo e a luminosidade amarelo-alaranjada batendo nas casinhas brancas. Fica a maior muvuca e, enfim, não é exatamente um prazer, mas é belo, muito belo. 

CRETA

As ruínas do Palácio de Knossos/Marcelo Alves

26) Creta já foi dos turcos, romanos, bizantinos, venezianos, mas tem também uma pitadinha de França com aqueles bares e restaurantes com suas cadeiras voltadas para a rua no modus parisiense.

27) Aqui, amigos, é um lugar sério. Foi nessa ilha que, segundo a mitologia grega, ou seja a verdadeira história humana, nasceu ninguém menos do que Zeus. Não é à toa que Heraklion vem de Heracles, ou Hércules, o semideus filho de Zeus. 

28) Mas hoje o que impera na cidade de Heráclio, capital da ilha, é o barulho das motos acelerando e da intensa NIGHT cretense. 

29) Creta tem brownie de Oreo. Vou repetir: BROWNIE DE OREO. E em porções generosas.

30) Não existe mulher feia na Grécia. Se você vir uma, aposto que é imigrante (o preconceito bateu na porta e mandou lembranças nesta frase). As gregas são filhas de Apolo com Atena. Estão entre as mais belas da Europa com a sua combinação de guerreira espartana com modelo da Givenchy. E têm um olhar eternamente misterioso e ENIGMÁTICO como o velho Tirésias proferindo alegorias.

31) No tempo em que se amarrava cachorro com linguiça (se é que tinha linguiça pois foi há muito tempo mesmo), Creta era o lar da civilização MNOICA. Estes pequenos grandes homens eram extremamente avançados para o seu tempo, tinham uma escrita própria e ainda não totalmente decifrada, mas viviam em casinhas simples de um cômodo, produziam vinho e faziam comida em PANELÕES inimagináveis. Como viveram numa era pré-deuses do Olimpo, cultuavam outras divindades. Entre eles a DEUSA DAS COBRAS. 

32) A deusa das cobras é a primeira (e talvez única) divindade que faz TOPLESS na história das religiões. Uma de suas duas  imagens encontrada por arqueólogos e exposta no fantástico Museu Arqueológico de Creta consiste em uma mulher com os peitos de fora e segurando uma cobra em cada uma das mãos (sem piadinhas de adolescentes de 12 anos, por favor). Óbvio que tive que comprar um souvenir desses para mim. 

33) Os Mnoicos também tinham um pequeno disco com 45 imagens pictóricas que arqueólogos ainda não conseguiram decifrar. Ele seria uma espécie de hino, ou, e talvez o mais importante, um texto mágico. Ou seja, isso pode ser o CÓDIGO DA VINCI dos mnoicos. E decifrá-lo pode trazer consequências imprevisíveis para a humanidade. 

34) Além de simpático, gente boa, educado e sorridente, o cretense é extremamente generoso. Fui comprar uma mala e ganhei de graça um cadeado como "cortesia da loja" no mercado de Creta. Fui almoçar num restaurante e ganhei de graça uma sobremesa com um doce típico da ilha e mais uvas e kiwi. Eu já estava para lá de satisfeito quando logo depois de comer, a mulher volta com OUTRA SOBREMESA: um petit gateau de chocolate e uma bola de sorvete de baunilha também DE GRAÇA. Como não amar Creta? Como não amar a Grécia?

35) Creta é muita história e tradição. Há comerciantes que comandam negócios tradicionais da família há gerações e gerações. E há uma loja de música especializada em artistas só de Creta. 

36) Por falar na música grega, ela é muito rica em melodia. Os instrumentos típicos usados nela são o bandolim, o bouzouki e um outro negócio que parece uma gaita de fole. 

37) Heraklion tem uma grande orla sem praia, ou quase isso. Ali, descendo do centro  nervoso da cidade até o porto vemos o mar lindo, lépido e fagueiro. A partir daí à esquerda temos um grande Aterro do Flamengo com áreas com diversas atividades, mas ninguém se arrisca no mar, que é limpo. No meio do caminho há museus, uma praia de pedra e outra de areia que, infelizmente, são sujas. Ainda que o mar seja limpo. 

38) Em Heraklion também encontrei o estádio mais bem localizado do mundo. Ele fica literalmente de frente para a praia. Trata-se do Pankritio, onde joga o Ergotelis, atualmente na segunda divisão grega. O estádio tem capacidade para 26 mil pessoas e é bem bonitinho, além de ficar grudado na praia e presenciar um belo pôr do sol. Em volta, porém, temos uma comunidade mais pobre da cidade, com direito a casas que criam galinhas e BODES!

39) As ilhas gregas são cigarras, muitas cigarras, incontáveis cigarras numa sinfonia de um único tom. O Palácio de Knossos é uma loucura. 

40) Heraklion - Simpática e calma. Não necessariamente bela, mas jeitosinha. 


Chania - Parece uma cidadezinha italiana encravada na Grécia. É onde a influência veneziana permanece bem forte. A Old Town tem uma orla bonita com um farol antigo para você tirar fotos e ganhar likes no Face.

Conclusão:

Voltaria para a Grécia? Com certeza!

Moraria na Grécia? Com certeza!

domingo, 20 de setembro de 2015

Corneta Rock in Rio - segundo dia

O Metallica fechou a segunda noite/Marcelo Alves
Segundo dia de Rock in Hell, a Corneta vestiu o pretinho básico para acompanhar o primeiro dia de metaaaaaaalll (ler com voz gutural). Vejam como foi numa visão malemolente:
Noturnall + Michael Kiske - Os metaleiros fazem pose de mau e adoradores do diabo, mas por trás dessa atitude bate o coração de um filho que ama a mamãe. Foi para provar isso que Thiago Bianchi, vocalista do Noturnall, levou para o palco a grande atração do Rock in Hell (para ele), dona MARIA ODETE. E juntos, mãe e filho CHOCARAM os headbangers cantando a fofa "Woman in Chains", dos Tears for Fears, também conhecidos como Tias Fofinhas.
Mas o show não teve só momentos meigos. Tivemos também mulheres-zumbis possuídas pelo capeta fazendo POLE DANCE, muito Power Metal e a participação mais do que especial de Michael Kiske. Agora careca (aparentemente por opção), o ex-cabeludo e ex-vocalista do Helloween emocionou a galera alcançando agudos dignos da MARIAH CAREY dos bons tempos. E tudo acabou com a maravilhosa "I want out/To liiiiiiiiive my life alone/I want out..."
Angra + Dee Snider + Doro Pesch - Metal melódico exige alcance vocal, enfim, exige muito do GOGÓ. Foi por isso que o Angra resolveu contratar um cantor lírico italiano para substituir Edu Falaschi, o Fabio Lione.
Foi um show bem mais ou menos, mas paradoxalmente, cheio de momentos emocionantes. Era um dos últimos de Kiko Loureiro com a guitarra permanente do grupo. Kiko foi contratado pelo heavy metal americano e vai tocar no Megadeth a partir da próxima temporada "representando o Brasil e a família Angra". Teve ainda a presença de Doro Pesch, a Wanderléa do hevy metal, e de Dee Fuck It Snider, que entrou no palco a 250km/h e fez a alegria de todos nós cantando as únicas duas músicas que existem do Twisted Sisters: "I wanna rock" e (cantem comigo!) "We're not gonna take it/No we ain't gonna take it/Wer're not goona take it/anymoooooooore..
Ministry + Burton C. Bell - Se fosse para definir o Ministry em quatro palavras seria: Uma massa sonora disforme. A banda veio soltando muitos grunhidos, vômitos sonoros e gritos que ninguém entendia nada proferidos por um vocalista que tinha um monte de pregos na cara. E ainda tinha uma letra pornô que desejava um colar de pérolas para todo mundo. Foram agressivos e não conquistaram muito a galera com o seu aaarghgrghgfrhfdhgdaAaa a cada música.
Gojira - Até ontem eu não sabia que existia heavy metal na França. Cachecol e biquinho não combinam muito com o som, não é verdade? Mas o Gojira é da França, ainda que seu nome seja Godzila em japonês. Os franceses cantam em inglês porque, como eu já disse aqui, heavy metal é para ser cantado em inglês ou dialetos nórdicos antigos. O vocalista Joe Duplantier também sabe falar "Muito obrigado" perfeitamente. Deve ter aprendido quando foi baixista do Cavalera Conspiracy. Não empolgou muito, pois todas as músicas pareciam iguais.
Korn - O Korn consiste em músicas muito parecidas sendo cantadas pelo vocalista quase sempre na mesma postura: meio curvado e balançando os cabelos loucamente. Ganhou o prêmio Sepultura de escalação equivocada no Sunset. Pela quantidade de gente que estava lá (e não estava no fim do Gojira) deveriam ter tocado no palco mundo. A galera curtiu muito. Eu nem tanto.
Royal Blood - Rompendo preconceitos no Rock in Hell - parte II. Antes do show: Não dá para respeitar uma banda sem guitarra. Durante o show: Como esse cara tira esse som FEROZ com um baixo?!?!
O Sangue Real já vai para a lista dos melhores shows desse festival. A banda inglesa tem apenas um disco e consiste apenas em um duo de baixo e bateria, mas o que Mike Kerr faz com o baixo envenenado dele não existe. Parece que ele pegou tudo o que um guitarrista faz, olhou para o seu baixo e disse: por que não fazer? Até o riff de "Iron Man" do Black Sabbath teve. Showzaço.
Mötley Crüe - A banda está em sua última turnê como a lápide no fundo do palco indicava: 1981-2015. Foram mais de 30 anos de sexo, drogas e rock n'roll em doses cavalares. O grupo é um EXPOENTE do rock-farofa. E na sua última turnê faz de tudo para não perder o título. Abusa das presepadas, incendeia o palco, solta fogo da guitarra e ainda traz uma dupla de backing vocals para sensualizar rebolando e requebrando a cabeleira. Elas são tipo a Scheilla Carvalho e a Scheilla Mello desse É o tchan do rock.
Todos os "clássicos" estavam lá. A começar por "Girls, girls, girls". No fim, Vince Neil voltou ao palco para um momento fofo cantando "Home, sweet home". R.I.P. Mötley Crüe. O farofismo nunca mais será o mesmo.
Metallica - Depois de três Rock in Hell seguidos, a gente já conhece até as piadas e os trejeitos de James Hetfield. Sabemos que lá pelo meio do show ele vai fazer graça dizendo que vai embora. E sabemos que vai ter a brincadeirinha de mostrar a paleta em "Nothing Else Matters".
O que teve de novo? Bom, um estagiário fã do Dave Mustaine (sempre se coloca a culpa neles) tentou derrubar a banda desligando a tomada do som. Assim, por uns 45 tensos segundos, o Metallica ficou fazendo mímica no palco. Até então o show estava EXPLOSIVO. E assim continuou depois com a banda RASGANDO os tímpanos da plateia com o som pra lá de estourado. Novidades no set list? "King Nothing", do "Load", "Turn the page" e "Whiskey in the jar", música que devia tocar em toda festa. De resto algumas mudanças na ordem das músicas de sempre e a conhecida competência da banda, que sabe fazer um show espetacular. Poucos nesse festival têm capacidade para igualar o nível do Metallica.
É como alguém definiu no Twitter. Metallica e Iron Maiden são bandas que você pode ver 97568457537985 vezes com o mesmo set list que nunca vai enjoar. Portanto, só nos resta esperar o Medina confirmar os dois no Rock in Hell 2017.

sábado, 19 de setembro de 2015

Corneta Rock in Rio - primeiro dia

Adam Lambert mandou bem/Marcelo Alves
Corneta é vida, corneta é música, corneta é arte. Muitos não se lembram, outros sequer sabiam, mas a prática da Corneta surgiu num Rock in Hell. Sendo assim, temos que manter a tradição de fazer análises MALEMOLENTES sobre essa Disneylândia da música.
O primeiro dia foi um show de covers. Mais parecia um KARAOKÊ do Bazar da Cantoria. E tudo com uma penca de fãs do Queen com camisetas, coroas e bigodinhos. Mas vamos ao que interessa. A análise de desempenho de cada um.
Ira! + Rappin Hood + Toni Tornado - Convenhamos, essa é uma mistura exótica como o ótimo palco Sunset exige. E não é que deu certo? Nazi abandonou as costeletas de Wolverine, mas canta com aquela voz de vilão de filme B desafinado. Edgar Scandurra exibia um bigodinho que só podia ser homenagem ao Freddie Mercury e tocava guitarra com a costumeira perfeição.
O Ira! tem canções muito legais como "Envelheço na cidade", mas também é capaz de versos veganos/ambientais do tipo "Como eu sou um girassol/você é o meu sol". Mas faz um show divertido. E as entradas de Rappin Hood e Toni Tornado trouxeram mais MALEMOLÊNCIA, diversidade e militância ao show.
Se você é da minha geração ou mais jovem, devo dizer: não gente, Toni Tornado não é só ator da Globo. Ele sempre teve uma carreira de cantor. Toni entrou com pinta de JAMES BROWN e pedindo ao povo "CLAP YOUR HANDS". Lembrou de como eram bons os anos 70 e estava visivelmente feliz em dividir o palco com aquela galera e o filho, Lincoln Tornado, vulgo Furacãozinho, responsável pelos passinhos meio Michael Jackson, meio James Brown em "BR-3". Toni chegou lá, exibiu seu soul cheio de onomatopeias e no fim, todos ficaram satisfeitos, banda e público. Como disse insistentemente o cantor, "Valeu, Dom".
Lenine + Projeto Carbono - Lenine tem uma música que se chama "Paciência". E é preciso exercê-la quando se vê um show dele. No outro Rock in Hell, Lenine tocou com o Gogol Bordello e ai ficou bom porque o Gogol tem pilhas Duracell acopladas no corpo. Dessa vez ele tocou com o Projeto Carbono, que consiste numa galera, mas numa galera, enfim tinha umas 75 pessoas no palco. Lenine pode até ser um artista de qualidade, mas eu bocejei, amigos. Eu bocejei, Brasil. Ganha até aqui o troféu João Gilberto de chatice.
Homenagem a Cássia Eller - Não fossem pelas ausências de Marcelo Fromer por motivos óbvios e extraterrenos, e do Charles Gavin, por motivos desconhecidos, o Rock in Hell teria reunido a formação original inteira dos Titãs. Se uma galera tocou no palco mundo, Nando Reis e Arnaldo Antunes foram homenagear a Cássia Eller. O primeiro cantou músicas dele, o segundo pareceu ter dificuldades em lidar com algo que não fosse poesia concreta. Mas irregularidades são normais neste tipo de show. Zélia Duncan foi muito bem. Não se pode dizer o mesmo de Mart'nália.
Rock in Rio 30 anos - Como não imaginar que essa autoadulação do Rock in Hell vai virar DVD? O show em que o Andreas Kisser tocou com quem aparecesse no palco, que tinha Ney Matogrosso dando seus PASSINHOS DE LAGARTIXA. Tivemos bons momentos como os Titãs cantando "Polícia" e "Bichos escrotos", Skank e Erasmo Carlos, Frejat tocando "Pro dia nascer feliz", o Paralamas do Sucesso mandando "Óculos".
Por outro lado, bem, eu imaginava que só havia uma chance de eu ver a Ivete Sangalo ao vivo: chantagem emocional de uma mulher por quem eu estivesse muito apaixonado. Até que o Medina resolveu fazer uma pegadinha do Mallandro comigo. É assim que você trata um cliente antigo né?
O combo Ivete + Jota Quest foi como um chute no saco. Mas podia piorar. Quando o Dinho começou a cantar "Ratamahatta", do Sepultura, eu só pensava em uma coisa: Isso não dá processo não?
The Script - Taí uma das bandas que estava fora do... script do festival. Dentro da cota de 10% de novidade do Medina, o grupo é irlandês. E assim descobrimos que a safra da Irlanda já foi melhor.
O vocalista Danny O'Donoghue estava sedento por interagir com a plateia. Foi na galera, filmou, beijou, abraçou, fotografou, twittou, postou no face... mas, gente, falta testosterona ao The Script. Parece uma boy band, parece um Matchbox 20, parece um GOO GOO DOLLS. Tanto é que a galera estava dispersa e a uns dois metros de mim um cara começou a fazer uns abdominais (é sério!). Quando alguém faz abdominais no seu show é porque tem algo errado.
Nem a música que diz que "a energia nunca morre", uma ironia com a Light e a Ampla, é claro, vingou. Para completar, os caras ainda vieram com os altamente condenáveis "elementos de brasilidade" como bandeira e camisas 7 a 1. A Corneta reprovou.
One Republic - Esta certamente não é uma banda PLATÔNICA, ainda que tenha a República no nome. Foi o show mais esquizofrênico da night. Teve momentos que a banda soava como o Coldplay, teve momentos que ela soava como o Maroon 5 e teve momentos que até parecia uma banda legal.
Ryan Tedder ganharia o prêmio de rei do falsete se não soubéssemos que o A-Ha vai tocar no Rock in Hell. Ele pareceu emocionado por estar no festival, mas a melhor parte do show foi o momento Paco de Lucía do guitarrista.
Queen + Adam Lambert - O Queen, vocês sabem, é uma espécie de Capital Inicial da Inglaterra. Cheio de hits, mas muitos não levam a sério. No resto do mundo, no entanto, os caras são idolatrados. O problema é que Freddie Mercury já morreu, Paul Rodgers não está mais ai, e Roger Taylor, vulgo Papai Noel, e Brian May, resolveram recrutar um garoto num reality show.
Pois bem, e não é que deu certo? Adam Lambert chegou cheio de glitter, lantejoulas, leque, sofazinho LILÁS, salto alto, microfone DOURADO e uma COROA para dar um tapa na cara da Corneta. Apesar do seu jeitão de George Michael jovem, o cara afastou toda a minha desconfiança.
Se Paul Rodgers tinha mais cancha e é melhor, Lambert é um bom vocalista, com personalidade, carisma e, digamos, o lado feminino super aflorado que o Queen sempre teve. E Lambert, que não é parente do Highlander Christopher Lambert, ainda ganhou o prêmio Beyoncé de troca de roupas da night.
O Queen tem hit a dar com o pau, e se garante tanto que o Brian May até burlou a segurança e levou o proibido pau de selfie para a City of Rock. Mas não precisava de insossos solos de bateria (sempre desnecessários) e de guitarra (neste caso só desnecessário). Rolou também momentos espíritas com Freddie Mercury surgindo em "Love of my life" (não gente, parem de se sentir em 85 e de chorar porque não tem nada a ver e está pegando mal) e no ÉPICO "Bohemian Rhapsody".
No geral, o resultado foi positivo e todos saíram felizes deste grande karaokê. O Queen, o Adam Lambert e a galera, a parte mais interessada da história.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Bodrum Facts

O pôr do sol em Bodrum/Marcelo Alves
Semana passada, a Corneta Travel falou sobre Istambul, aquela cidade maravilhosa (de verdade, não a propaganda enganosa que conhecemos). Hoje, dando prosseguimento à série de reportagens em tópicos malemolentes, pegaremos a estrada para falar de... Bodrum. 

E o que dizer sobre ela? Ahhh Bodrum, a Búzios turca, o balneário para onde os turcos antenados de Beyoglu vão no fim de semana. Bodrum é uma espécie de ARARUAMA. Muito melhorada, é claro. Fica a pouco mais de uma hora de voo de Istambul e, bem, deixemos que o "Bodrum Facts" fale por si. 

1) Bodrum não tem estátua de Brigitte Bardot, mas tem do HERÓDOTO, considerado o pai da história. A cidade se orgulha disso a ponto de colocar esta estátua dele ao lado de uma de Artemis. 

2) Por falar na deusa da caça, da lua, da virgindade e da vida selvagem (quantos cargos!), ela parece ser uma padroeira do lugar. Além de estátua, Artemis também é nome de uma avenida importante da cidade.

3) Bodrum é monocromática. Ou melhor, bicromática. Em praticamente todos os lugares visitados havia casinhas brancas com detalhes em azul. Isso acontece porque, ao contrário do que você imaginava, as casinhas brancas e azuis não são uma tradição somente grega, mas uma marca dos povos do Mar Egeu desde a antiguidade.

4) Aliás, a cidade tem um viés multicultural. Tanto que muitos estabelecimentos aceitam pagamento em liras turcas, euros e até dólar. 

5) No tempo em que se amarrava cachorro com linguiça, Bodrum se chamava HALICARNASSO. É lá que estão, portanto, os restos arqueológicos, do antigo Mausoléu de Halicarnasso, uma das sete maravilhas do mundo. É claro que eu fui e foi o lugar onde fiz mais selfies. 

6) Para desespero da história, de Heródoto, dos deuses todos, Halicarnasso hoje não passa de uma inspiração para o nome da boate Halikarnas, muito famosa na cidade e conhecida em boa parte da Turquia. É uma coisa kitsch que fica na orla e que segundo um cara que tentou me vender um ingresso era "o melhor lugar para conhecer garotas e trepar". Educadamente, eu declinei de passar pela experiência de visitar o lugar. 

7) Por falar em praia, as de Bodrum são LOTEADAS pelos bares e restaurantes. De dia, ficam cheias de cadeiras, à noite eles trocam por mesas para servirem jantares à luz de velas na beira do mar. Chique, phyno, romântico e belo. 

8) A cidade é um destino comum para os jovens. E qual é o resultado da equação jovens europeus + praia? A praga da música eletrônica, espécie de samba do primeiro mundo, que toca em vários lugares ininterruptamente.

9) Bodrum fica no Mar Egeu, cuja água tem a temperatura exata. Nem tão fria que congele os ossos, nem tão quente que te faça virar uma canja. 

10) Bodrum é como um jogo de videogame de aventura clássico, tipo um Pitfall, em que você tem que superar fases. Evitar os mosquitos, fugir dos cachorros que, dizem, têm raiva (um deles me atacou!), e evitar as anêmonas negras venenosas que ficam nas pedras de algumas praias (o único conselho que o guia que comprei me dá em caso de picada é: vá imediatamente para o hospital).

11) Superando tudo isso você é um herói e pode aproveitar as belezas desse balneário que é tão quente, mas tão maravilhosamente quente que os chocolates ficam nas geladeiras dos supermercados. 

A paradisíaca ilha Orak/Marcelo Alves
12) É obrigação pegar um barco e ir nadar em três ou quatro paraísos da região. Em especial a ilha Orak, que tem aquela água tão cristalina, mas tão cristalina que vemos o até a âncora no fundo e temos a impressão que o barco está flutuando.  Dá para ver tudo lá embaixo. Pedras, areia, e até peixinhos. Portanto, não tente mijar. Além de feio, deselegante e romper com o equilíbrio do meio ambiente, você será denunciado pela transparência da água.

13) Bodrum tem um kebab especial. É uma espécie KEBAB À ROLÊ. Aquela carne que vai girando no espeto é entrecortada por camadas de cenoura e batata. É bom, viu. 

14) A cidade também tem uma padaria com um doce que é um ESCÂNDALO. O problema é que nenhum marketeiro deu um nome para ele. Ou seja, é copo de chocolate com banana, copo de morangos. Depende do que você pedir. Todos são magníficos. Custa dez liras e vale cada centavo. 

15) O padrão turco de simpatia visto em Istambul se repete na cidade. Gente, alegre, feliz, prestativa, educada, de bem com a vida é que ajuda o próximo. Como não amar a Turquia?

16) Bodrum tem um time, o Bodrumspoor. Ele disputa a QUARTA DIVISÃO do país, tem as cores verde e branco e é uma espécie de Ameriquinha da cidade. Quando eu estava perdido procurando o estádio, um turco me deu a indicação para seguir por uma rua que eu logo veria o estádio, pois era grande. Quando eu cheguei lá, era um negocinho para no máximo dois mil lugares, grama sintética, arquibancadas metálicas e um lugar em que entrei, tirei fotos e sai sem ser visto. Muito roots. 

17) Por outro lado, como foi difícil encontrar uma camisa do time. Andei a cidade inteira (e quando se trata de Bodrum isso não é uma metáfora) atrás de uma e sai de lá frustrado. Um vendedor disse que era muito difícil encontrar porque "era um time muito pequeno". Mas se alguém viajar para lá, ficarei muito agradecido e pagarei por uma camisa tamanho XXL, por favor. 

18) A cidade tem um castelo muito maneiro que é de 1406. Sim, não havia nem Brasil naquela época. Dos mais legais que já visitei. E se você se posicionar no lado oposto ao do castelo, perto da boate Halikarnas, verá um belíssimo pôr do sol. 

19) Bodrum tem sorvetes melhores do que Istambul. Mas a praga do Dondurma também se fez presente e a touristada cai nas brincadeiras do vendedor de um sorvete que é o pior do mundo. 

20) Eu não sei qual é o índice de criminalidade da cidade, mas a julgar pelas mercadorias expostas nas calçadas enquanto os donos dos mercadinhos ficam lá dentro numa boa deve ser ridículo. Para não falar na casinha de bonecas que é o "presídio". 

Conclusão:

Voltaria para Bodrum? Com certeza. Apesar do estranhamento inicial e do clima uhuuu pegação, o lugar também pode ser um paraíso de tranquilidade, paz e amor. 

Moraria em Bodrum? Sim, mas somente por mais 35 anos. Depois disso, acho que não teria forças para correr de eventuais ataques de cachorros malucos. 

Semana que vem, voltamos com mais Corneta Travel.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Istambul Facts

Um casal observa o pôr do sol em Istambul/Marcelo Alves
Istambul, vocês sabem, é puro amor. Mas não é por isso que a cidade turca vai escapar da Corneta Travel, a versão turística da Corneta e mais um produto do grande projeto de dominação midiática do Marcelismo. Neste dia de feriado, nada melhor do que ler o Istambul Facts.
1) Para começo de conversa, a Turquia pratica um islamismo de boutique (oficialmente é um estado laico, mas é um laico meio Brasil e sua bancada evangélica, bancada católica, etc...). Não é aquela coisa roots com a mulherada coberta da cabeça aos pés. Dependendo da sua corrente filosófica, você deixa o rosto descoberto ou dá um foda-se para o mundo e sai LÉPIDA E FAGUEIRA com os cabelos esvoaçantes como numa propaganda de shampoo. Se você ver alguém toda coberta, dificilmente será turca. Provavelmente é turista de regiões mais inóspitas.
2) Mas não pense que eles não levam à sério esse papo de religião. Tanto é que eles rezam tantas vezes quanto comem por dia. E 5h (isso mesmo, CINCO HORAS) os minaretes tocam feito louco avisando ao povo que está na hora de acertar as contas com Alá. Aliás, quando os minaretes tocam em diferentes momentos do dia, todas as rádios são automaticamente desligadas. E aí, quando rola aquela musiquinha no alto-falante onde você se sente? Em "Homeland", é claro.
3) Mais uma vez o Índice McDonald's de dominação do capitalismo se fez presente. Sim, tem Mcdonald's em Istambul. Como tem Burger King, KFC e Starbucks. O mundo está perdido. Mas é claro que eu não entrei em nenhuma destas lojas do Império do Mal.
4) A Turquia é o país do Ç. Você não fica cinco minutos sem esbarrar num nome de rua, de pessoa ou expressão que tenha o Ç. Em turco, se eu entendi bem, ele apresenta um som de T + X. É uma coisa de doido. O trema também brilha muito. Para a minha alegria, que nunca me conformei com o seu fim na língua portuguesa.
5) As ruas de Istambul cheiram a: peixe, CECÊ de turco com desodorante vencido, baklavas e chá. E infelizmente o padrão de limpeza europeu ainda não chegou por lá. A sujeira deixa Istambul com a maior cara de Rio.
6) Por falar em chá (çay, em turco e fala-se tchái) você invariavelmente terá que tomá-lo. Do restaurante chique ao pé sujo mais vagabundo de kebab, ao fim da refeição há de vir um chazinho. É de graça e gostoso (pelo menos em Istambul). E você ainda pode mostrar que é fino colocando com delicadeza pedrinhas de açúcar que irão desmanchar suas moléculas em contato com o chá quente e adoçar sua bebida.
7) A parte velha de Istambul (Sultanahmet) é uma zona. Tem um trânsito caótico onde ninguém é de ninguém. Prevalece uma regra na área: a ousadia. Quem meter o pé, a roda ou o trilho primeiro tem preferência. Por incrível que pareça, não vi ninguém ser atropelado. Sultanahmet também é muito mal sinalizada e complicada de andar. Parece que o maneiro é as ruas não terem placa ou terem apenas uma placa. É tipo, se fode ai turista se você estiver do lado da rua que não tem placa. Ou se fode ai todo mundo. Mas graças a Alá, outras regiões visitadas não apresentam o mesmo padrão e é possível se virar tranquilamente com um mapa.
8) Muitos turistas americanos na área. Claro, Istambul é uma forma segura, até COXINHA, eu diria, de eles conhecerem o Islã, a galera que os teme e odeia (e que muitos deles temem e odeiam). Muitos turistas alemães. Eles devem estar tentando entender porque os turcos invadem a terra deles. Muitos turistas at all, afinal é verão e, obviamente, eu não fui o único que teve a magnífica ideia de ir para a Turquia.
9) Pau de selfie, a praga. Até quando?
10) Istambul tem três grandes times, mas a julgar pelas manifestações das ruas, o Galatasaray é disparado o mais popular da cidade. Você vê bandeiras por todos os lados e o clube ainda tem uma universidade e uma ILHA-BAR própria no meio do Bósforo. É muita tirada de onda. O Fenerbahçe é o que vem em segundo em manifestação do povo, mas bem tímido. É tipo o Fluminense de Istambul, até por ficar num bairro com uma cara meio decadente da Zona Sul. Já o Besiktas é o Botafogo, um grande sem torcida. Eu pensei em comparar o Galatasaray com o Flamengo, mas como eles têm uma universidade, achei que não faria sentido. (Calma, torcedores, tudo isso é uma piadinha inocente baseada em mero clichê. Não condiz com a realidade)
11) No Fenerbahçe tem uma honraria para poucos. Uma estátua do Alex, espécie de Deus na Turquia depois do Mustafa Kemal, vulgo Atatürk, fundador da República da Turquia, e antes de Alexandre, o Grande, que provavelmente não deixou saudades por lá.
Lustres sendo vendidos no Bazar/Marcelo Alves
12) Sejamos francos, falemos o português claro, Istambul é um grande BRECHÓ a céu aberto cercado de mesquitas por todos os lados.
13) Já o Grande Bazar é uma SAARA com grife e aclimatada para não deixar a multidão entorpecida de calor. Lá você encontra de tudo. De tudo mesmo que você pensar entre calça jeans e bijuteria, docinhos e lustres. E enquanto você anda por lá, é incrivelmente assediado a comprar como nem as prostitutas do Red Light District de Amsterdã fazem.
14) Os vendedores destes bazares são especialistas na arte da oratória de fazer o Lula parecer o Alckmin. Se você der mole, eles penhoram até as suas calças. Pechinchar é lei e ele vai ceder até o último instante para que você leve, por exemplo o açafrão iraniano dele. Bom, de 300 liras por 50g, eu fechei por 25 liras por cinco gramas. Mas eu não queria o açafrão. Então, de certa forma ele me venceu pelo cansaço.
15) Nas barcas que te levam de um ponto a outro do Bósforo encontramos um conhecido tipo dos ônibus cariocas: o vendedor dos aparelhos que fazem suco de frutas com facilidades e dos aparelhos que ralam e descascam frutas e verduras com extrema facilidade. A lógica é a mesma. O vendedor chama a atenção, faz uma demonstração ao vivo e vários ficam encantados com o abacaxi inteiro completamente descascado antes de comprar. Fez sucesso com os gringos do primeiro mundo.
Uma mesquita em Sultanahmet/Marcelo Alves
16) Visitei três mesquitas. Duas pop para a multidão de turistas e uma roots. Fiquei com a sensação de que são todas mais ou menos iguais. Nesse ponto, a Igreja Católica tem mais VARIEDADES. Islamismo 0 X 1 Catolicismo.
Por outro lado, o Alcorão é mais bonito, tem metáforas maneiras (deu para ler um trechinho em inglês), uma identidade visual show e é escrito numa língua que ninguém entende, mas com desenhinhos incríveis. Muito melhor que a Bíblia, que é um blocão de texto em fonte 6,5 e sem nenhuma foto. Diz a lenda que o Alcorão foi escrito por exímios caligrafistas e artistas ILUMINADOS. Já a Bíblia deve ter sido obra de estagiário. Catolicismo 1 X 1 Islamismo.
Além disso, aquela reza que toca nos alto-falantes (minaretes, para os entendidos), é sensacional e claramente dá onda. Muito melhor que aquelas missas em latim de outrora. Vinte minutos ouvindo aquele ouwwwwmhaaaaeiiiiijaaaammmhaaaaeee, te deixa em transe. Catolicismo 1 X 2 Islamismo.
Mas gente, que religião é essa que obriga as mulheres a nadarem nas praias todas vestidas? Catolicismo 2 X 2 Islamismo.
17) Por falar no livro sagrado do Islã, ele foi todo ditado pelo profeta Maomé. O que me fez refletir sobre o trabalho de CORNO que teve o infeliz que ficou escrevendo isso. Pior que no fim, ele deve ter agradecido por ser o primeiro a ouvir tantas palavras de sabedoria. Durou 23 anos para ficar pronto. O livro tem 30 diferentes partes, 114 capítulos (suras) e 6.666 versos (ayahs)
18) Estas informações estatísticas estão no museu da arte turca e islâmica, que vale a pena. Assim como o Ayasofia. Já o Museu Arqueológico vale MUITO a pena. Assim como o palácio de Topkapi, onde você pode ver a barba de Maomé, a túnica de Maomé, a espada de Maomé, um molde do pé de Maomé (tem o maior jeito de 43), enfim, tudo o que sobreviveu de Maomé até hoje. Se é que é tudo verdade. Mas entra na onda que é melhor. (É preciso deixar claro que tenho profundo respeito por todas as religiões. Estas são apenas piadinhas inocentes).
19) A maior desgraça de visitar a Turquia é ser confundido com um turco ou na pior (ou seria melhor?) das hipóteses, um árabe. É toda hora gente perguntando o que diz a inscrição X em árabe, como se lê a escrita Y em turco, perguntando se eu leio árabe, me dando cardápio em árabe. Que tristeza. Nasci para ser pobre. Quando o sétimo cidadão virou para mim com um SALAM ALAIKUM e perguntou se eu queria fumar um NARGUILÉ, eu pensei em usar os conhecimentos de "Homeland" para responder, mas achei melhor não. Vai que ele continua a conversa e me desmascara.
20) O Bósforo não existia há muitos séculos. A Turquia era um país unido, mas aí um mega terremoto foderástico abriu uma cratera fazendo o Mar de Mármara encontrar o Mar Negro e também fazendo a alegria dos carinhas que organizam passeios de barco por lá. Eles saem em escala industrial. Também fez a alegria das cegonhas brancas e das aves de rapina, que passaram a usar o estreito como atalho para chegar na África para passar o inverno e fazer o caminho contrário durante a primavera. Além de colocar a Turquia com um pé na Europa. Mas o país ainda não faz parte da União Européia.
21) Em Istambul eu tomei o pior sorvete da minha vida. Os vendedores ficam lá nas barraquinhas fazendo presepada, mas na hora de averiguar a qualidade do sorvete, quanta decepção. Aliás, foi difícil encontrar um sorvete bom. Eu tentei bastante em diferentes lugares. Digamos que o da rede "Mado" passou raspando no teste.
Uma mulher compra castanhas em Beyoglu/Marcelo Alves
22) Istambul é tomada por barraquinhas de milho (misir), simit, aquele pãozinho que na minha amada Alemanha se chama pretzel, e Kestane no vapor, chamada de castanha na língua de Saramago.
23) A Turquia ainda não atingiu o estágio máximo de evolução europeu. Não se pode beber água da bica. E é deveras chato ter que comprar água toda hora. E com o calor que faz no verão turco, vocês podem imaginar que as lixeiras são tomadas de garrafas de plástico. Esperamos que isso tudo vá para a reciclagem. O ambiente agradece.
24) Os turcos são muito simpáticos, alegres, sempre ajudam você, mesmo quando não falam inglês. São gente boa toda vida e adoram uma PERFORMANCE. É assim que a gente vê garçons tentando equilibrar copos de cerveja na cabeça ou matar moscas com um elástico, ou mulheres começando a dançar com a música na rua.
25) As regiões, os bairros, o que der na telha:
Sultanahmet - a parte velha da cidade (e quando eu digo velha, é velha mesmo. Papo de antes de Cristo). Tem as principais atrações, museus, mesquitas e pessoas estranhas. Do jeito que gostamos.
Ilhas Príncipe - Tiraram aquelas casas de madeira americanas de "12 anos de escravidão" e colocaram tudo lá. Mas não há plantações de algodão (que pena), nem escravos (ainda bem). Há charretes, muitas charretes, INCONTÁVEIS charretes, um mega estábulo para dar conta de tantos cavalos e um onipresente cheiro de bosta de... cavalo. Mas a ilha é maneira, eu juro.
Kadiköy - É sem graça. Parece Copacabana. Prédios xexelentos e velhos (mas um velho sem graça, não um velho milenar e roots), shopping, dezenas de táxis, gente vestida igual a gente. E ninguém viaja para não sair de casa, né. Pelo menos tem o estádio do Fenerbahçe.
Beyoglu - É Ipanema, Ramblas e Lapa batidas no liquidificador. É em Beyoglu que mora a Istambul viva, a Istambul jovem, a Istambul que FERVE e que frequenta o Sex Shop. É onde tem os cinemas pop e os cinemas de arte, as lojas de grife e pouco se vê o véu islâmico. É em Beyoglu que você encontra a Istambul PULSANTE, com a juventude em busca de aventuras, música ao vivo, hambúrguer e batata frita. Em Beyoglu não existe Constantinopla. Só há a new Istambul.
26) A Turquia é infestada de cachorros parrudos, grandes e ameaçadores. Isso na China alimentava muita gente.
27) Você come kebab no mundo inteiro e é gostoso. Imagina como deve ser na terra do kebab. Pois não é bem assim. Você encontra alguns realmente muito bons, acima da média. Mas se não tomar cuidado, vai acabar comendo uma bomba que causará consequências gástricas.
28) A Turquia é o país do pistache. Ele está onipresente nas ruas, nas casas, nos bares, embaixo da ponte, no Bósforo, nas mesquitas... E tem pistache combinado com quase tudo. Só não vi pistache com kebab, mas é questão de tempo.
29) Turcos fumam demais. Muitos são chaminés vivas. Já as turcas curtem aquela sombra e aquele delineador estilo Cleópatra de Elizabeth Taylor. Além de unhas multicoloridas e com desenhinhos.
30) Sabe como é fortaleza em turco? KALESI. Assim que a gente descobre de onde vem o dothraki, "Game of Thrones".
Conclusão:
Voltaria para Istambul e para a Turquia? Com certeza. O país é maravilhoso.
Moraria em Istambul? Hummm sim, mas eu teria que me acostumar a acordar cedo por causa dos cantos dos minaretes e com a falta de um sorvete de qualidade.
Semana que vem, voltaremos com mais um tópico da série "Marcelismo City Facts".

domingo, 6 de setembro de 2015

2742

Reprodução da internet
Antônio nunca gostou de matemática. Detestava lidar com números, fazer cálculos. Não tinha cabeça para equações. Quando a escola começou a misturar letras com números então, que tristeza. 

Um dia Bianca Tavares resolveu por conta própria dar aulas de reforço para aquele seu aluno que tinha tantas dificuldades. Duas vezes por semana, Bianca Tavares, a doce professora do segundo grau amada por oito entre dez alunos (talvez ela pudesse dizer que tinha 80% de aprovação se não fosse tão modesta) saia mais tarde da escola junto com Antônio depois de uma hora e meia, ou 90 minutos, de aula de reforço. 

Com muito esforço, Antônio conseguiu sair do nível de sofrível para passar de ano. Bianca Tavares ficou feliz. Até raiz cúbica e cálculos percentuais ele conseguia fazer. Mas matemática nunca seria o seu forte. 

Antônio não sabe porque se lembrou da antiga professora naquela manhã chuvosa em que se olhava no espelho enquanto fazia a barba. Talvez seja porque a vida humana seja regida pelos números e só agora ele tenha percebido isso. 

Todo dia acordava às 8h, tomava banho por 12 minutos. Dava quatro baforadas de desodorante nos sovacos. Duas no esquerdo, duas no direito. Era 50% para cada um. Engolia o café em 4,5 minutos. Escovava os dentes em 2,3 minutos. Sua dentista sempre reclamava da pressa em escovar os dentes. 

Com o salário que ganhava mensalmente e descontado o aluguel de R$ 1.500 que pagava, Antônio tinha o equivalente a R$ 183,33 por dia para viver e pagar as demais contas. Mas se o mês fosse de 31 dias, ele teria que apertar um pouco mais. 

Antônio subitamente passou a ver números em tudo. Parecia o Neo no fim de "Matrix". Pegava o ônibus às 9h08. Calculava que com um pouco de trânsito chegava no trabalho em 40 minutos. Mas cálculos não eram o seu forte. 

No trabalho, Antônio era o 2742. Duas dezenas aleatórias na sua vida. Profissional dedicado. Alguns chamariam de brilhante. Ele agradecia os elogios, mas não se achava um cara com tamanho índice de aprovação. Sentava ao lado do 3218, que o explicava o quanto os computadores que todos usavam eram fascinantes com seus códigos binários e equações que Antônio, ou melhor, 2742, jamais teria capacidade de resolver. 

Ambos tinham optado por carreiras que não envolvessem muito a matemática, mas 2742 ficava impressionado em como 3218 tinha facilidade com os números. Se Bianca Tavares conhecesse o colega de trabalho, ficaria encantada.

Antônio sabe desde cedo que os números podem ser bem estressantes. E opressores. No trabalho, tem prazos para entregar relatórios, lida com grandes volumes de papel, tem horários rígidos para cumprir tarefas. Tudo girava em torno dos malditos números.

Lidava com índices que pareciam equações de Einstein. E fazia tudo diante do ponteiro do relógio que teimava em andar numa velocidade acima do normal. Não poderia já ter passado 60 segundos. Não poderia já ter passado 60 minutos. Nunca pensou que tivesse que lidar com tantos cálculos quando fugiu da matemática no vestibular.

Os números fazem parte da vida humana. De cálculos simples a equações complexas. Não se dá um passo sem ser assombrado por eles. De conversas banais sobre o tempo ao papo sobre a conjuntura econômica, eles estão lá para tudo justificarem.

Naquela tarde, 2742 foi chamado para uma conversa. Foi apresentado a números que não compreendia, cálculos estranhos. Naquele momento sentiu falta de Bianca Tavares. Ou mesmo de 3218. Mas ao fim entendeu o recado. 

Não sem uma ponta de tristeza desligou o seu computador pela última vez. Pelos seus cálculos seria a 5674ª vez. Mas era bom não confiar nos seus números. O 2742 não existia mais. Mas ainda restava o Antônio. 

Antônio era um número. Virou estatística. Mas nunca gostou de matemática. Tudo o que não queria naquela tarde era procurar quando ou como se transformaria em outra equação. A vida humana podia ser gerida pela frieza dos números, mas o que ele faria naquele momento era tomar algumas garrafas de cerveja bem geladas com os amigos. Tudo sem cálculos que o limitassem. E sem pensar no amanhã.