sexta-feira, 10 de abril de 2015

Cotação da corneta: 'Velozes & Furiosos 7'

Que situação, hein
A corneta tinha planejado abordar um outro filme hoje, mas um sinal, digamos, divino a fez mudar de ideia. Ao pegar um ônibus que corria ensandecidamente pelas ruas do Rio de Janeiro a caminho do cinema, não tive dúvida. Isso era uma mensagem. Nesta semana, eu tinha que ver "Velozes e Furiosos 7".

Ao saltar são e salvo do ônibus dublê de montanha russa, comprei o meu ingresso e não me arrependi. Que filme maravilhoso! "Velozes e furiosos 7" é o filme mais deliciosamente mentiroso do ano. Se não for da década. Ou mesmo deste século. Tudo de mais absurdo acontece no filme e os personagens saem, no máximo, com algumas escoriações. Para não falar em carros turbinados que voam, atravessam prédios e atingem 200 km por hora num piscar de olhos.

Definitivamente é um filme que Bruce Willis (John McClane ficou com inveja) ou Sylvester Stallone assinariam embaixo. Mas Stallone diria que ele derrubou um helicóptero com mais classe e arrojo que o Dwayne Johnson, como você pode comprovar no vídeo abaixo.

"Velozes e Furiosos 7" é um clássico filme para meninos. Não que algumas meninas não possam gostar. Mas é um típico filme com todos os clichês que o homem médio considera fundamental para se divertir na vida. Se liga no bingo. O filme tem:

1) Carros sensacionais que correm muito em pista livre e sem engarrafamento

2) Cenas de briga com altas doses de testosterona

3) Cenas de ação impossíveis de serem realizadas no mundo real

4) Viagens pelos quatro cantos do mundo e sempre em lugares de tirar o fôlego

5) Efeitos especiais CALEIDOSCÓPICOS

6) Cervejas roots e primes

7) Mulheres gostosas

8) Closes em bundas de mulheres gostosas

9) Mulheres gostosas de biquíni e molhadas

10) Mulheres gostosas banhadas em ouro

11) Michelle Rodriguez, que, vocês sabem, é uma mulher... Deixa pra lá. Vocês já entenderam

Diante dessa receita que poderia ser definida como INFALÍVEL, como um homem não se divertiria? Mesmo os mais ávidos leitores de Milan Kundera, Jean-Paul Sartre e Immanuel Kant abririam um sorriso no canto esquerdo da boca diante dessa “obra-prima”. E não venham torcer o nariz e ser preconceituosos, pois se até uma dama inglesa como Helen Mirren, que interpretou ninguém menos do que a rainha da Inglaterra e ganhou um Oscar por isso, é fã e sonha em fazer um papel na franquia, quem é você para falar mal da série?

“Velozes e Furiosos 7” é uma história de vingança. No passado distante, leia-se o filme 6, Dominic Toretto (Vin Diesel) e seus amigos que adoram fazer um pega, deixaram Owen Shaw (Luke Evans) no hospital. Agora o irmãozinho mau dele vem com tudo para pegar geral e mandar todo mundo para a vala. E o irmão é ninguém menos que o Jason Statham. Ou seja, é carne de pescoço.

Será um problema para o grupo, mas nada que eles não possam resolver. Se não pudessem, o filme não seria feito. No meio do caminho, Toretto ganha um aliado. O governo americano através de um grupo secreto liderado pelo Kurt Russell. O Senhor Ninguém é um agente do governo honesto (eu falei que o filme era mentiroso), que joga limpo com os caras velozes e furiosos (eu não disse que o filme era mentiroso?). Ele vira para Toretto e diz: Se você conseguir achar a hacker Ramsey (Nathalie Emmanuel, fazendo um bico enquanto “Game of Thrones” não volta) e o equipamento Olho de Deus, poderá usar o Olho de Deus para pegar o bad guy e lhe dar uma surra.

Toretto e Ninguém ainda debatem sobre qual seria a melhor cerveja. A belga que o agente do governo importa ou a Corona, uma coisa mais roots que Toretto aprecia.

Só que o vilão também tem um aliado. O terrorista Jakande, vivido por Djimon Hounsou. E o que o terrorista quer? Claro que é o Olho de Deus. Então, “Velozes e Furiosos” também é uma gincana para saber quem fica com o pen drive do Olho de Deus.

E por que todo mundo quer isso? Não é apenas porque é preciso algum motivo para toda a ação se desenvolver. O Olho de Deus é um programa sinistro que consegue mapear qualquer habitante do planeta do Alasca até a Papua Nova Guiné. Ele sabe exatamente o que você está fazendo agora enquanto lê este post.

Assim, o filme segue sem surpresas. Pois é, galera, o roteiro é pobre e as atuações são sofríveis. Frequentemente, Vin Diesel virá para a gente com aquela expressão de "eu sou muito bom" e diz as piores frases possíveis. Coisas parecidas com "Vou chutar o seu traseiro gordo", "Mandarei você para o quinto dos infernos”, “Vou te fazer beijar os pés da morte”. O baú de frases feitas foi reviradaço para o trabalho de James Wan. Ok, ninguém é perfeito.

No meio disso tudo, temos muitos carros destruídos, explosões, cenas de briga bem de macho alfa, e as tais cenas espetaculares. Carros voando e saltando de paraquedas. Carro atravessando três prédios. Eu disse TRÊS PRÉDIOS! Ah, e a lutadora de MMA Ronda Ronsey fazendo um bico de segurança de um bilionário árabe e saindo no tapa com a Michelle Rodriguez cada uma usando vestidos de gala. Claro que eu torci pela Michelle.

Como nem tudo é testosterona, o filme termina com uma bonita homenagem ao Paul Walker, estrela da franquia que morreu em dezembro de 2013 em um acidente de carro, enquanto “Velozes 7” era filmado. (E aqui você descobre como elessolucionaram essa questão sem tirar Walker do filme).

Vin Diesel disse que “Velozes e furiosos 7" merece ganhar o Oscar de melhor filme. E ele não estava bêbado por excesso de cerveja. Eu não chegaria a tanto, mas diria que o filme é diversão garantida. Não é à toa que teve a nona maior estreia da história do cinema. Por isso, vai ganhar da corneta uma nota 6,5.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Cotação da corneta: 'Cinderela'

Arrasou no vestido, amiga
Casamento é uma coisa que pode te fazer perder a cabeça. Que o diga Richard Madden, que perdeu literalmente a sua no Casamento Vermelho de "Game of Thrones". Mas Madden não desistiu do sagrado matrimônio. Desde que ele seja feito em uma realidade menos sangrenta e mais lúdica. Por isso, aceitou o convite para viver o príncipe de "Cinderela". Afinal, sempre se pode dar uma segunda chance a esta instituição cuja falência já foi decretada por muitos, mas aparentemente segue firme e forte.

E Madden é o príncipe mais tradicional possível dos contos de fada. Jovem, bonito, bondoso, gentil, cavalheiro, justo e apaixonado por uma jovem pela qual não deveria se apaixonar, pois ela é de baixa renda. E todos querem afastá-la dele por causa disso. Sempre o velho conflito financeiro. O amor é cego, amigos. E os opostos se atraem.

E a Corneta conseguiu enfiar dois clichês no mesmo parágrafo porque no fundo quer dizer que Cinderela é apenas um filme lindamente tradicional. Começa até com um "Era uma vez..." É praticamente como se o desenho da Disney fosse agora filmado com atores e um orçamento generoso. Coisa de US$ 95 milhões. Se é bom, é outra história. Deixarei para você, caro leitor, decidir por si mesmo, embora a minha nota esteja no fim deste post.

É curioso pensar que em meio a releituras pop de contos de fada como os pavorosos "Branca de neve e o caçador" (2012), "João e Maria: caçadores de bruxas" (2013) e um mix best of de vários "fairy tales" como "Caminhos da floresta" (2014), a Disney tenha decidido usar Cinderela para voltar ao roots.

Pois em Cinderela não tem pontos fora da curva. A garota faz o que deve fazer, o príncipe faz o que deve fazer, estão lá todos os ícones do conto de fadas e os valores de bondade, amor e esperança que norteiam o mundo encantado da Disney. O máximo que vemos é uma Cinderela com personalidade diante da madrasta e que sabe o que quer e busca o seu objetivo com firmeza. O príncipe é dela e ninguém tasca. Afinal, uma mulher totalmente passiva não ia dar para engolir em 2015.

O filme também gera uma pequena reflexão. Num mundo de heroínas fortes como Frozen e fora dos padrões de beleza como a Fiona de Shrek, a Cinderela pura, que leva os valores de coragem e bondade da mãe como bastiões de sua vida, quase uma santa, ainda cabe? Ainda interessa às crianças uma jovem de um tempo que não é mais o nosso? A julgar pela quantidade de cópias dubladas nos cinemas a resposta é sim. Deixemos como reflexão para cada um. Corneta também é filosofia.

Para pilotar essa nave encantada a escolha de Kenneth Branagah parece ter caído como uma luva. Branagah é conhecido por levar para as telas do cinema as adaptações de William Shakespeare "Henrique V" (1989), "Muito barulho por nada" (1993), "Hamlet" (1996) e "As you like it" (2006), além de ter atuado como Iago em "Otelo" (1995). Como não lembrar daquele Iago, um precursor de Frank Underwood falando conosco durante o filme? Ou seja, podemos dizer que Kenneth Branagh só não entende mais de Shakespeare do que a Barbara Heliodora. E se você entende de Shakespeare, entende de realeza, reis, príncipes e donzelas.


Além disso, é preciso respeitar quem faz o solilóquio de Hamlet.


Branagah conduz um filme com o metrônomo ligado. Tudo é inegavelmente perfeitinho em um trabalho cujo roteiro não exige grandes desafios e os atores não precisam fazer grande esforço.

A história é aquela de sempre. A jovem Cinderela vive num mundo maravilhoso e próspero com os pais e é tratada como uma princesa. Tem poucos amigos humanos, mas tem uma ligação direta com os animais. É amiga de todos, inclusive dos ratos. E se comunica com eles. Impressionante como a Disney adora camundongos.

Mas os seus pais morrem e as dificuldades financeiras surgem. Pior, Cinderela é tratada como uma empregadinha de quinta categoria pela madrasta e pelas irmãs postiças barangas. Tudo sem direitos trabalhistas!

Mas o dia da virada há de chegar, amigos. Não há mal que sempre dure. Basta ter fé e acreditar na magia. O príncipe dará um grande baile em que escolherá a noiva para governar o reino ao seu lado. Ninguém ajuda Cinderela. A madrasta esculacha o seu vestido, o povo de nariz em pé do palácio quer empurrar o príncipe para uma espanhola de Zaragoza com jeito de dançarina de flamenco é um pega-rapaz.

Cinderela, no entanto, não vai se abater. Com a ajuda da fada marinha (Helena Bonham Carter), surgirá no castelo linda, loura, com um vestido azul celeste e sapatinhos de cristal que no mundo real custam os olhos da cara. Fala-se em mais de R$ 14 mil. Mas dizem que eles são muito confortáveis.

Cinderela manda um beijinho no ombro para as rivais, toma o príncipe para ela e dança, dança, dança como se não houvesse amanhã. Flerta com o príncipe e vai para o jardim secreto dele. Em volta do casal, as invejosas morrem de raiva.

Só que 0h Cinderela precisa vazar. O encanto é como um iogurte: tem prazo de validade curto. E a carruagem vai virar abóbora. Cinderela corre desembestada para casa antes que o príncipe a veja vestida sem as roupas de grife e a maquiagem bem feita.

Todavia, vocês sabem como são os homens. Diante de uma mulher que se faz de difícil é que o príncipe corre atrás mesmo. E a partir daí começa a busca incessante dele. Quem calçar o sapatinho de cristal leva o príncipe e o reino numa promoção imperdível. Bom, ai todos sabemos que é questão de tempo para Cinderela e seus ratinhos mudarem de patamar na sociedade e irem para o castelo do rei, deixando de vez a princesa espanhola no vácuo. E a madrasta. E as irmãs postiças.

Cinderela não chega a ser um filme espetacular, mas também não é uma bomba completa. Tem lá o seu valor e talvez agrade aos fãs de contos de fadas. Da parte da corneta o filme de Kenneth Branagah vai ganhar uma nota 5,5.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Cotação da corneta: 'Insurgente'

Quebrando tudo sem perdão
Foi-se o tempo em que o cinema era palco de jovens garotos que vão para a Califórnia em busca de aventuras, sexo e diversão. Não necessariamente nesta ordem. Aquela era mágica compreendida entre os filmes do "Cinema em Casa", do SBT, até pérolas do DESVIRGINAMENTO, como "American Pie" (1999).

Os jovens ficaram mais complexos. Eles agora vivem em mundos distópicos que pretendem libertar das amarras de regimes opressores. Governos estes liderados por atores de peso que dão credibilidade e servem de escada para uma nova safra oriunda das divisões de base virar protagonista.

Sim, amigos, a corneta passou por um intensivão e viu no mesmo dia "Divergente" e "Insurgente" para falar com (pouca) propriedade e (muita) malemolência sobre o novo filme de baseado nos livros de Veronica Roth.

A série "Divergente" é evidentemente um lado B de "Jogos Vorazes". É como se "Jogos Vorazes" fosse "Brown Sugar" e "Divergente" fosse "Play with fire", sacou? Não é necessariamente ruim, é um hit mas também não é O hit. Afinal, todos sabemos que Jennifer Lawrence >>>>>>>>>>>>>> Shailene Woodley.

No novo filme, Beatrice Prior (Shailene Woodley), Tris para os íntimos, e seus amigos continuam praticando o péssimo hábito de pular em trens em movimento. Essa galera da Audácia se acha. Por isso que eu sempre preferi Franqueza e Amizade, ainda que Abnegação também tenha o seu valor. Já Erudição tem muita gente metida e de nariz em pé.

Agora, Tris tem duas missões importantes: salvar o mundo e conhecer a sogrinha. Que momento difícil da vida de uma jovem.

A história começa pouco tempo depois do fim de "Divergente", quando Tris enfiou a faca na mão de Kate Winslet, que vive Jeanine, e estragou os planos da vilã erudita. Nossa heroína agora está com um novo corte de cabelo, mais alinhado com os novos tempos e a modernidade, e novas ambições.

Mas... Jeanine também tem novos planos. E eles não são nada estéticos. Ela encontrou uma caixa secreta na casa dos pais de Tris que contém uma mensagem que para ela vai mudar o mundo até onde conhecemos. Só que ela precisa de um divergente nível alfa, com características de todos os povos para abrir a tal caixa de pandora pós-moderna. E vocês sabem que esse divergente só pode ser Tris. É o destino, Tris. A culpa é das estrelas. Opa, desculpa, esse é o seu outro filme. É que você vive contracenando com Ansel Elgort que eu confundi.

Sabemos que no fundo, lá no fundo, tudo o que Tris queria era continuar o seu romance água com açúcar com Quatro (Theo James) e viver feliz para sempre na Amizade (a comunidade, é claro). Mas ao mesmo tempo ela tem um desejo de vingança e sangue contra Jeanine que é mais forte e precisa ser saciado.

Antes de tudo, porém, uma missão mais complicada. Tris precisa conhecer a sogra. E que sogra! Afinal, estamos falando de Naomi Watts. Naomi, ou melhor, Evelyn, é também a líder dos sem-facção, uma comunidade de desajustados que quer dominar essa Chicago do futuro, derrubando os eruditos. Os eruditos são um problema para a sociedade, como vocês estão vendo. Para isso, ela terá a ajuda de Tris e Quatro, na missão. Além de Peter (Miles Teller), que largou a bateria de "Whiplash" para ficar transitando entre o apoio aos rebeldes e ao governo. Bem em cima do muro. Parece até partidos políticos.

Então está traçado o cenário de “Insurgente”. No corner esquerdo, divergentes e sem-facção. No canto direito, eruditos e audaciosos. Em cima do muro, amigos, francos e abnegados. E vamos para a guerra.

“Insurgente” é um típico filme para jovens fãs dos livros de Verônica Roth. Não tem muita profundidade e segue a fórmula menina deslocada e diferente dos demais embarca numa jornada de autoconhecimento e ao mesmo tempo bagunça a sociedade e tenta mudar o mundo.

Insira no meio disso um romance fofo com um cara bonitão e forte pronto para protegê-la, alguns gritos, uma pitada de efeitos especiais e bata no liquidificador (juro que não é merchan do blog). Temos um filme.

Claro que o filme vai faturar muito. Só nos Estados Unidos já fez US$ 54 milhões. Como “Divergente” faturou. Foram US$ 288,7 milhões. Mas Shailene não tem o mesmo carisma de Jennifer. E a própria história de “Jogos Vorazes” é mais interessante.

As duas franquias tem ainda um erro em comum: o fato de dividirem o último livro em dois filmes criando a famigerada trilogia de quatro trabalhos. Mas enquanto “Convergente - parte 1” não vem ao mundo (só em março do ano que vem), “Insurgente” vai ganhar uma nota 5.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Slash rocks

Slash no comando da festa/Marcelo Alves
Então vamos aos comentários malemolentes sobre o Slash in Rio. 
1) Definitivamente Slash se deu melhor procurando um cantor para suas músicas do que Axl procurando guitarristas para as suas músicas. Myles Kennedy é muito rock and roll, enquanto DJ Ashba e Ron Bumblefoot são apenas bons imitadores dos solos clássicos de Slash. 
2) Slash também é >>>>>>>>>>> que Axl porque começa o show RIGOROSAMENTE na hora. Isso é compromisso com os fãs. Ganhou estrelinha. 
3) Slash troca de guitarra umas sete vezes (uma mais foda que a outra) em 2h20min de show, incluindo aí uma sinistra de dois braços que o de cima é violão e o de baixo guitarra. Preciso de uma dessas.
4) Ele também ajeitou a calça três vezes (sabe aquela puxadinha por trás para levantar?), fez duck walk pelo menos seis vezes e requisitou um ventilador, mas ele devia estar fraco porque não fez aquele efeito Beyoncé de cabelos esvoaçantes.
5) Slash ainda arrebentou a corda de uma guitarra após um longo e FODERÁSTICO solo de pelo menos dez minutos.
6) Sete músicas do Guns N'Roses. Incluindo o hino do Hell de Janeiro ("Welcome to the Jungle"), além de "Nightrain" e "Paradise City", que, claro, fecha o espetáculo. Mais duas do Velvet Revolver. Um cover de Led Zeppelin ("Communication Breakdown"). Foi lindo.
7) Por que é tão difícil tocar "Sweet Child O'Mine" se Slash faz isso com cabelo na cara, óculos escuros e olhando para cima?
8) Slash, vocês sabem, é o maior homem da história que usa cartola. Em segundo lugar no ranking vem Abraham Lincoln.
9) O resto da banda é boa, mas ninguém repara que existem outras pessoas além do guitarrista e do vocalista. Pelo menos o baixista tem seus 15 minutos de fama cantando duas músicas. Entre elas, "Welcome to the Jungle".
10) Cariocas cantam "Ixxxxléshê", "Ixxxxléshê". Ou então a indefectível "olê, olê, olê, olê, "Ixxxxléshê", "Ixxxxléshê". Pelo menos não cantaram que são brasileiros com muito orgulho e muito amor. Myles também ganhou homenagens.
11) Tem várias músicas interessantes da carreira solo dele, algumas muito boas, mas ninguém conhece, ninguém canta. No máximo batem palminha e balançam a cabeça.
12) Eu não sei o que dá mais trabalho para os funcionários da banda. Recolher as camisas e outros objetos jogados no palco ou desembolar os fios a cada vez que o Slash se movimenta.
13) Conclusão da corneta. Show acima das expectativas. Foi bom demais. Nota 8 e volte sempre Slash. De preferência para me dar aula.

O taxista nostálgico

O taxista nostálgico estava impossível naquela noite. Ainda não engolira o passageiro que pegara uma hora antes e tentara humilhá-lo. Era um típico playboy da South Zone do Hell de Janeiro querendo impressionar a gatinha da vez que ele estava pegando. Mas voltemos um pouco no tempo. O tempo em que um operário das palavras encontrou o taxista nostálgico.
No rádio, Rita Lee exibe todo o seu talento. O taxista aumenta o rádio e começa a cantar. "E nem só de cama vive a mulher/Por isso não provoque/É cor de rosa choque".
Exibindo uma boca com sorriso largo que revelava a ausência de laterais no sistema defensivo, o taxista para a cantoria e comenta:
- Isso é que é música! Rita Lee, parceiro! Não se encontram mais cantoras como a Rita Lee. Quem é que seria capaz de fazer uma poesia como essa hoje? Um funkeiro? Nada. Espera sentado. Vocês vivem na pior - disse o taxista no alto dos seus 50 e muitos anos para o operário da escrita.
- No meu tempo de jovem, na sexta-feira eu escolhia o que eu ia ver no Circo Voador. Era Rita Lee, Cazuza, Raul Seixas... Eu conheci todos eles. Para não falar no Legião Urbana. E o que eu deixei de herança para vocês? Anitta! Hahahaha - gargalhou diabolicamente o taxista.
- Alto lá! Anitta não é do meu tempo não! É para os mais jovens - argumentou o operário das palavras.
- Agora há pouco peguei um rapaz todo metidinho. Acho que ele queria impressionar a mulherzinha que ele tava comendo e começou a esculachar as músicas que eu estava ouvindo no rádio, falando que era coisa de velho - disse ele, frequentemente tirando as duas mãos do volante para dar emoção à viagem. - Foi quando eu comecei a acabar com ele em todas as áreas da vida.
A partir daí, o taxista nostálgico exibiu todo o museu de grandes novidades de sua existência. E o tempo, como o taxímetro, não para.
- Eu desfilei em escola de samba, sabe. Ai falei para ele. Cara, eu desfilava na avenida com a Pinah. O que você tem hoje? Claudia Leitte! - vangloriou-se ele, dando novas gargalhadas de lobo mau que comeu os três porquinhos e gesticulando muito enquanto olhava para o operário da escrita. Afinal, o trânsito está sempre livre e os sinais estão sempre abertos para o táxi.
- Acabei com ele em todas as áreas. Música? Rita Lee, Legião, Cazuza. E você tem o que? Mr. Ca-tra? A-nit-ta? Fala sério - completou ele falando daquele jeitinho debochado e fazendo questão de separar as sílabas dos artistas que desprezava.
O taxista nostálgico é o típico carioca de almanaque. O léxico é rico em gírias e palavrões intercalados pela construção dos pensamentos. Ele tem ainda aquela fala malemolente, espécie de cruzamento de Evandro Mesquita com Fernanda Abreu. E, claro, adora futebol, uma especialidade do brasileiro médio. Flamenguista, o taxista faz uma revelação.
- Eu era da torcida do Flamengo. Naquele tempo só tinha craque. E a gente conhecia todo mundo de frequentar a casa. Zico, Júnior, Leandro. Quando tinha aniversário eles sempre chamavam a gente. E ai deles se não chamassem - disse o taxista, revelando as práticas "carinhosas" das torcidas organizadas desde tempos imemoriais.
Vejam bem, o taxista nostálgico desfilou com a Pinah, foi de torcida organizada, conhecia craques do futebol. Eu não sei como ainda não lançou uma biografia. Mas ele queria mesmo era contar como achincalhou o playboy.
- Acabei como ele. Naquela época todo time tinha craque. Zico, Roberto, o Fluminense tinha um jogador. Como era mesmo o nome?
- Romerito?
- Isso! Jogava demais o Romerito. O Vasco tinha um timaço também. Nunca ganhava do Flamengo, mas era um timaço. Enquanto isso, o rapazinho aqui tem que aguentar Lu-cas Mug-ni. Porra, vai tomar no cu. Acabei com ele.
A viagem está chegando ao fim. Não sem antes o taxista nostálgico simular lances do Zico tirando as mãos do volante e os pé da embreagem e do acelerador. E revelar velhas praticas da torcida rubro-negra.
- A torcida do Flamengo era foda. Botava 60 mil pessoas no Maracanã contra o Bonsucesso. Jogava junto. Mas também cobrava. Quando tinha jogador na noite, a gente ia em cima deles. Qual é? Está fazendo o que aqui? Tem jogo amanhã, parceiro. Por isso que o Zico tem toda a moral que tem. Nunca foi para a noite. Foi aquela mulher, a Sandra, que deu um jeito na vida dele.
Já o Marcelinho Carioca não gozou do mesmo prestígio.
- Isso era um filho da puta. Perdeu um pênalti contra o Vasco. Uma vez teve uma festa na casa do Júnior Capacete e nós da torcida fomos. Lá na festa juntamos ele. Se o Júnior não impedisse, a gente ia encher ele de porrada. Saiu daqui correndo.
- Para brilhar no Corinthians - provocou o operário das palavras.
Um breve silêncio tomou conta do taxista nostálgico. Mas ele logo voltou a falar dos seus dias gloriosos de manda-chuva informal da Gávea. Eram bons tempos aqueles, mas hoje ele garante estar sossegado. Ajeita os óculos de aro grosso e traça as linhas presentes de sua biografia.
- É uma vida dura a de taxista. Trabalha sábado, domingo, feriado... Mas eu não reclamo não. Eu vivi - disse ele, dando aquela ênfase de quem sentiu a vida empiricamente.
Chegamos ao destino.
- É R$ 30, parceiro.
- Taí.
- Obrigado. E vai com Deus. Até a próxima.


O taxista nostálgico aumenta o som do rádio e segue revigorado pelas ruas do Hell de Janeiro. De certa forma, naqueles minutos, ele viajou no tempo para aquele Circo Voador e aquele Maracanã que não voltam mais.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Cotação da corneta: 'O sétimo filho'

Esse cara não sente calor?
Vejam como é a vida. Num dia, você está por cima da carne seca, faz um filme sobre um tema sério e ganha um Oscar por ele. No outro, você faz um blockbuster pop medieval em que interpreta um dragão de cabelos vermelhos esvoaçantes como aqueles de propaganda de shampoo. Foi isso que aconteceu com Julianne Moore, que no mês passado ganhou uma estatueta pelo seu trabalho como uma mulher que sofre do Mal de Alzheimer em "Para sempre Alice", que a corneta recomenda fortemente, e agora chega aos cinemas ao mesmo tempo, e talvez para pegar uma rebarba de "Para sempre Alice" com este "O sétimo filho".

Bom, tanto Julianne Moore quanto Jeff Bridges, que faz o herói do filme, devem ter se divertido fazendo isso. Bridges então, aproveitou sobras de interpretação de "Coração Louco" (2009), que lhe deu um Oscar de ator, e “Bravura Indômita” (2010), aquele ótimo faroeste, para compor um cara divertido. E é preciso ser honesto. Os dois deram alguma dignidade ao trabalho do russo Sergey Bodrov. E “alguma dignidade” é o único elogio que eu posso fazer.

“O sétimo filho” é um filme B para quem anda com saudades de “Game of Thrones” (volta dia 12 de abril!). Afinal, ele tem cavaleiros, heróis, se passa numa era medieval e tem... dragões! Mas a comparação para nesta superficialidade, afinal, ninguém no filme chega perto da saga dos Stark contra os Lannister.

O filme conta a história do tatatatatatatatatatata (acrescente mais 200 tatas) tataravô do doutor Peter Venkman, personagem de Bill Murray em "Os Caça-fantasmas" (1984). Jeff Bridges faz o mestre Gregory, um cavaleiro caçador de bruxas, antigos espíritos do mal de forma decadente e Mumm-Ras em geral. Sua missão é simples e direta como um álbum do Metallica: "Kill’Em All".

Gregory é o último remanescente de uma ordem de cavaleiros lendários fãs do Iron Maiden. Você só podia entrar no clubinho se fosse o sétimo filho do sétimo filho. Vocês podem imaginar como era difícil encontrar jovens para se alistarem nesse exército para combater as forças do além. Certamente foi no período dessa galera que houve uma explosão demográfica na Idade Média.


O que o filme não diz, mas podemos tomar como verdade é que essa ordem de caçadores de bruxa foi extinta porque naturalmente quase ninguém mais tem sete filhos. Custa muito caro. Pois bruxas continuam existindo. Perguntem só o que muitas pessoas acham de suas sogras (perdendo leitoras que são sogras em 5...4..3..2...)

Bom, há muito tempo, Gregory prendeu uma bruxa sinistra num calabouço distante e pensou tê-la deixado apodrecendo. Mas os anos se passaram e veio a grande lua cheia de sangue, que, segundo as lendas antigas, libera todos os demônios internos e fortalece os dragões. Pronto, Mãe Malkin (Julianne Moore) se libertou dos grilhões, saiu da sarjeta, levantou, sacudiu a poeira e deu a volta por cima, voltando com sede de vingança.

Malkin é poderosa, sedutora, lê mentes e redecora a sua casa num balançar de mãos. Sabendo de tudo isso, Gregory evita o contato direto com os seus olhos, pois Malkin pode te deixar paralisado como se você estivesse diante da Medusa. Mas a brincadeira está só começando.

A bruxa-dragão fica a cada dia mais forte, mas ela só ficará invencível quando a lua de sangue chegar ao estágio lua cheia. Ai é que Malkin ficará com um super borogodó invencível e poderá, adivinhem, dominar todos os reinos do mundo conhecido. Gregory sabe disso e não perde tempo: vai atrás de um seventh son of a seventh son (leiam como se cantassem com o Bruce Dickinson) para ser seu aprendiz e ajudar a matar a bruxa má.

É aqui que o filme desanda e ganha a sua porção "Crepúsculo". Estava tudo indo tão bem com o bom e velho "bem" contra o “mal”, mas o jovem Tom (Ben Barnes) tem que encontrar uma jovem bruxinha, Alice (Alicia Vikander), e os dois têm que se apaixonar. Aff, tem horas que o romance só atrapalha. (Perdendo leitores e leitoras românticas em 5...4...3..2..)

Ai é aquilo que já sabemos. O garoto faz juras de amor para ela, juntos na cama diz que a ama e quer construir uma vida de casal de classe média americano com casinha e filhos, canta “Evidências”, de Chitãozinho e Xororó... Ela responde soltando aqueles olhares do tipo “te quiero” e suspirando de paixão. Por fim, os dois prometem viver felizes para sempre, embora saibam que não podem se misturar. São como Montecchios e Capuletos numa tragédia shakespeariana. Enfim, podíamos ter cortado uns 15 minutos de filme aqui, pois sabemos que ele tem um destino a cumprir. Está no roteiro.

Resolvido parcialmente o problema, Gregory e Tom vão para a batalha. Do outro lado, Malkin está reunindo o seu exército de bruxos e fantasmas sinistros. Tem o guerreiro que se transforma em dragão Radu (Djimon Hounson, que desde que foi indicado ao Oscar de coadjuvante por “Diamante de Sangue” faz mais personagens secundários que cabeça de área dá passe para o lado), Urag (Jason Scott Lee), que vira urso, Sarikin (Kandyse McClure), que vira uma onça, Virahadra (Zahf Paroo), um cara de quatro braços que tem o nome parecido com o de um personagem da mitologia hindu (não me peçam para explicar), e Strix (Luc Roderique), uma entidade maligna com língua de serpente.

Tal qual um videogame que você vai avançando de fase, nossos heróis vão passando por todos eles. Até que... Bem, uma hora Gregory e Malkin estariam novamente frente a frente para um acerto de contas né? Para saber o que acontece, só vendo o filme. Não vou ficar aqui dando spoiler.

Confesso que "O sétimo filho" podia ser pior. Mas está longe de ser a última bola de chocolate da sorveteria. As participações de Julianne Moore e Jeff Bridges dão alguma graça ao filme, mas os dois jovens têm tanta expressão quanto uma porta bege. Mas "O sétimo filho" pode agradar quem curte filmes do gênero, mesmo que óbvios. Entre bruxinhas boas e más, guerreiros e dragões, a corneta dará ao filme uma nota 5.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Cotação da corneta: 'Kingsman: Serviço Secreto'

Colin Firth é puro estilo
Há filmes que nos ensinam algumas lições. Em "Kingsman: serviço secreto" uma delas é: Não incomode um homem que esteja bebendo uma cerveja. Principalmente se for uma famosa marca irlandesa em um pub inglês. Você pode se arrepender. Afinal, é preciso uma certa fleuma até entre adversários.

"Kingsman" é daqueles tipos de filme que você sabe tudo o que vai acontecer a partir do momento em que viu o trailer. Mas como não se divertir com as melhores cenas de luta do cinema ocidental desde, sei lá, "Matrix" (1999)? Pois, convenhamos, é muito difícil bater os chineses especialistas em kung fu no quesito cenas de luta.

Eu não sei qual foi o orçamento gasto com o coreógrafo dos combates e todos os que trabalharam nestas cenas (o filme todo custou US$ 81 milhões), mas eles mereceram cada centavo. Parabéns a todos os envolvidos. Difícil é escolher qual é o melhor momento. Se é a cena do bar da lição de moral citada no início deste texto, a da igreja ou o bom e velho um contra um entre herói é o capanga do vilão ao fim que costuma marcar o clímax de filmes deste gênero. E tudo com um clima, digamos, “tarantinesco”.

Este é um dos motivos de o filme ser o mais divertido do ano até aqui. Veja bem, não é o melhor, não é o roteiro mais incrível ou com atuações dignas de prêmio de nome complexo em festival francês. O quesito aqui é o Oscar da diversão/zuera. E o filme de Matthew Vaughn sai na frente.

"Kingsman" é o típico filme de herói veterano que prepara o terreno para passar o bastão para o novato assumir o protagonismo. Nesse meio tempo, eles tentam salvar o mundo de um tirano maluco.

Tudo é uma paródia dos filmes de espionagem. As citações são muitas, 90% delas envolvendo James Bond (Uma hilária versão de como o Martini deve ser preparado e a cena com o herói e uma bela mulher, por exemplo). Mas também há a um pouquinho de Jason Bourne e até Jack Bauer, que nem agente secreto é. É ir pescando é rir das situações.

A história? Basicamente é o seguinte: o vilão Valentine, vivido de forma propositalmente caricata e com língua presa por Samuel L Jackson, tem um plano de dominação mundial que precisará ser executado, pois todo grande vilão deste tipo de filme tem Síndrome de Cérebro e acorda pensando num plano de como vai conquistar o mundo. Caberá aos alfaiates superpoderosos impedi-lo de realizar o feito. Você sabe que isso vai acontecer né? Não existe spoiler neste tipo de filme. 

Enquanto isso, o Kingsman precisa encontrar um novo agente secreto para substituir o antigo que morreu no Iraque em uma missão no início do filme ao som de Dire Straits. Pelo menos ele se foi com uma bela canção.


O bambambã do grupo é Galahad, vivido em corpo, alma, terno e sotaque britânico por Colin Firth (descrição feita de propósito só para fazer as mulheres suspirarem). Numa dessas coincidências da vida (é mesmo? – “sinal de ironia”), ele escolhe o filho de um agente morto no passado para indicar para o grupo secreto. O problema é que Eggsy (Taron Egerton) não tem nenhuma classe. É um fora da lei do subúrbio de Londres cheio de problemas, mas que pelo menos sabe parkour. Em meio a vários almofadinhas, ele terá que aprender não apenas a lutar, como a ter algum estilo, requisito fundamental para o trabalho.

E Galahad estará sempre pronto para ajudá-lo. Afinal, se tem alguém que tem classe nesse mundo é Colin Firth. Não importa se você está por cima da carne seca, é um rei gago (“O discurso do Rei”, de 2010) ou um soldado torturado por japoneses durante a II Guerra Mundial (“Uma longa viagem”, de 2013). Colin daria um James Bond infinitamente melhor que Daniel Craig. 

Então Egssy terá que aprender a ser “phyno”. Assim mesmo. Com ph e y. Não como em "Uma linda mulher" (1990), porque ele não tinha Sessão da Tarde na TV de casa para conhecer o filme. É sim como em "Minha bela dama”. Ao indicar que gosta de Audrey Hepburn, o rapaz mostra ao menos algum requinte.


Desnecessário comentar o que vem na sequência. Você já pode imaginar. Mas o divertido é ver como a história chega até o final ao som de Bryan Ferry. “Kingsman” realmente gosta de um som dos anos 80.


A corneta curtiu "Kingsman", deu boas risadas e conseguiu chegar até o fim deste texto sem contar a única surpresa que configuraria um spoiler neste filme. Vitória! Sobre a nota final, “Kingsman” ganhará um 7.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Cotação da corneta: '50 tons de cinza'

Agora sem ver
A corneta não leu o livro “Cinquenta tons de cinza”, que agora chega aos cinemas do mundo todo cercado de ti-ti-ti e com mulheres cometendo loucuras nas salas, como a mexicana que foi presa por se masturbar. Mas Madonna leu o texto de E. L. James. E quando se trata de sexo, Madonna entende mais do que eu, você e mais da metade do planeta, dado o que a cantora que lançou o álbum “Erotica” (1992), o livro “Sex” (1992) e o filme “Na cama com Madonna” (1991) “aprontou” nessa vida. E ela classificou “Cinquenta tons de cinza” como “ficção barata”. Disse que o livro “não é muito sexy, a menos que você seja virgem” e ficou esperando alguma coisa realmente "excitante e louca acontecer naquele quarto vermelho".

Madonna ficou decepcionada com o livro. A corneta ficou decepcionada com o filme de Sam Taylor-Johnson. "Cinquenta tons de cinza" é tãoooooo bobinho que realmente eu tenho que concordar que só serve mesmo para donzelas recatadas. Para alguma Rapunzel pós-moderna. Sem tranças para fugir da torre. Citando Madonna, eu diria que ele é muito mais "True Blue" do que "Erótica". E não é por falta de esforço de Dakota Johnson, sempre pronta para fazer um jeitinho sexy. Até em entrevista.


Se a corneta tivesse que resumir "Cinquenta tons de cinza" em uma frase seria da seguinte maneira: "Duas horas de um cara tentando convencer uma mulher que um tapinha não dói". O filme também foi muito bem definido por algum gênio da internet como um "Sabrina com raio gourmetizador". Gostaria de saber o dono dessa pérola para homenageá-lo publicamente.

Para quem não sabe, os "clássicos" de "Sabrina" são livros que vendem (ou ao menos vendiam) em banca de jornal com aquela literatura rasteira e adocicada com histórias de amor e finais felizes. "Cinquenta tons de cinza" embarca numa ondinha parecida. Uma das diferenças é que o texto de E.L.James insere o já conhecido elemento sadomasoquista.

“Cinquenta tons de cinza” não chega a ser uma fábula infantil, mas está longe de ser o novo "Instinto Selvagem" (1992). Aliás, o filme tem sido alvo de muita zoeira por sua falta de libido. Até mesmo involuntária. A maior de todas foi ele ter ganhado classificação indicativa de 12 anos na França. Isso mesmo: 12 ANOS. É o mesmo que recebe uns episódios "mais pesados" dos Simpsons aqui no Brasil, que deu classificação indicativa de 16 anos para o filme de Taylor-Johnson. Para não falar no artista que transpôs as princesas da Disney para o universo "Cinquenta Tons". É muita desmoralização de um filme em que se esperava quase um escândalo.

“Cinquenta tons de cinza” começa quando Anastasia Steele (Dakota Johnson) ainda era uma jovem estudante de literatura inglesa vivendo uma vida "like a virgin". Com a amiga estudante de jornalismo doente, ela vai fazer o favor de ir até Christian Grey (Jamie Dornan) para uma entrevista do jornal da escola. Humm, difícil acreditar que um milionário tenha tempo para isso, mas sejamos polianas. Logo no primeiro encontro, Grey já lança para ela o seu melhor olhar Joey Tribianni, a intimida e deixa escrito em neón na testa: “Te quiero”. Anastasia faz ui, morde os lábios rosados e vai se refrescar na chuva.

Grey tem características de um homem quase perfeito e que, obviamente, só existe na imaginação de E.L. James. Ele se veste bem, tem personalidade, é seguro, consegue tudo o que quer, não falha, tem dinheiro, compra presentes incríveis para Anastasia, livra-a de roubadas e segura o cabelo dela quando ela vomita. Aparentemente, Grey também tem superpoderes, pois surge do nada em diferentes situações, sempre impecável e pronto para causar. A mãe de Anastasia quase tem um orgasmo quando o vê. Já a menina parece vinda de uma mulher de família do interior do país no século XIX. Mocinha em busca do príncipe encantado que não sabe nada da vida, cheia de sonhos e deslumbrada com toda aquela atenção. Embora não aparente ser uma “material girl” encantada com Grey, tudo o que ela quer é um homem para chamar de seu. Francamente, E.L. James.

E ai, sabemos que no amor os opostos se atraem. O cara fica de quatro por ela e faz de tudo para conquistá-la e levá-la para o seu quartinho vermelho onde tem um monte de brinquedinhos que ele garante que ela vai gostar. Sei, no dos outros é refresco né.

O problema é que Grey quer sexo selvagem três vezes por semana (e tudo assinado em contrato!), mas não quer assumir as outras responsabilidades da relação. Levar para jantar, acompanhar no cinema, pegar na mão, segurar as compras do shopping e mudar o status de relacionamento no Facebook nem pensar. “Eu não sou esse tipo de homem” e blábláblá, ele diz. Aliás, o seu distanciamento da moça, se revela no fato de só chamá-la pelo nome inteiro: Anastasia, comprovando que ele não está a fim de qualquer intimidade. Não pretende chamá-la de Ana, como ela pede, muito menos por apelidos fofos e constrangedores que casais adoram adotar. Grey só quer brincar no quartinho.

Ai fica difícil para Anastasia, que, embora demonstre alguns traços de “bad girl”, como na cena do contrato, ainda está aprendendo as coisas da vida. Enquanto o filme fica naquele jogo de empurra entre os dois, você já viu algumas cenas de soft porn estilizadas com direito a vinho, gelo, gravatas, cordas e música de Beyoncé. Nada que vá lhe dar realmente novas ideias.



"Cinquenta tons de cinza", é, portanto, uma perda de tempo. Mas pelo menos é educativo, uma vez que Grey usa camisinha o tempo todo. Afinal, você pode ser sadomasoquista, mas tem que ser consciente.

Como são três livros, é óbvio que vem ai uma trilogia de quatro filmes, a nova onda de Hollywood. Do primeiro, a corneta pode dizer que saiu do cinema com a libido inalterada. "Cinquenta tons de cinza" vai ganhar uma nota 3,5.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Cotação da corneta: 'Caminhos da Floresta'

Quero uma casa na árvore
Nos últimos 35 anos, Meryl Streep frequentou 18 vezes a festa do Oscar. O que significa que ela está presente disputando alguma coisa uma vez a cada quase duas cerimônias (1,94 para ser mais preciso). Sem contar as vezes que ela deu pinta sem concorrer a nada, só para entregar prêmios ou apresentar alguma coisa. No dia 22, ela estará mais uma vez em Hollywood com o seu vestido de grife (será um Prada?), para disputar com Patricia Arquette (“Boyhood”), Keira Knightley (“O jogo da imitação”), Emma Stone (“Birdman”) e Laura Dern (“Livre”) o careca dourado de melhor atriz coadjuvante.

Meryl não é a minha favorita (prefiro Patricia), mas ela estará lá. E não duvide que ela esteja no mesmo lugar em 2016, em 2017 ou enquanto ainda estiver viva. Afinal, Meryl é uma boa atriz e faz trabalhos quase sempre bons. E os velhinhos da Academia parecem gostar dela. (Faça suas apostas para o Oscar)

Vencedora como coadjuvante por "Kramer vs Kramer" (1980), e como atriz principal em "A escolha de Sofia" (1983) e "A dama de ferro" (2012), a atriz americana de 65 anos é recordista de indicações na história do Oscar entre homens e mulheres (a deste ano é a 19ª). E se vencer pela quarta vez se igualará ao mito Katharine Hepburn (pausa solene por Katharine), vencedora em 1934 por "Manhã de glória", em 1968 por "Adivinhe quem vem para jantar", em 1969 por "O leão no inverno" e em 1982 por "Num lago dourado". Todas como atriz principal.

Como se vê, Meryl tem credenciais e está bem acompanhada na história da Academia. Ao lado dela no ranking com três carecas dourados estão Ingrid Bergman, Walter Brennan, Daniel Day-Lewis e Jack Nicholson. E todo este longo preâmbulo é para dizer que somente ela justifica a presença de "Caminhos da Floresta" no Oscar deste ano.

Poucas vezes na vida a corneta viu um filme tão ruim quanto esta produção da Disney. Sabemos que musicais feitos dos anos 80 do século passado para cá quase sempre são ruins, mas o filme de Rob Marshall atingiu 7,5 pontos na escala "Titanic" de bomba cinematográfica. A título de curiosidade, a escala vai até 10.

Tudo o que Marshall fez de bom em "Chicago", ele não conseguiu em "Caminhos da Floresta". “Chicago” era um daqueles raros bons musicais feitos nas últimas décadas e que venceu seis Oscar em 2003, entre eles o de melhor filme. Ainda que não fosse o melhor filme em um ano que tinha “Gangues de Nova York”, “As Horas”, “O senhor dos anéis: as duas torres” e “O pianista” concorrendo. Mas venceu, pois era um musical com boas canções em que Marshall fez até o Richard Gere cantar de uma forma minimamente aceitável e tinha Catherine Zeta-Jones. Enfim, vocês me entendem quando eu digo que o filme tinha Catherine Zeta-Jones.

Já “Caminhos da Floresta” nunca chegou nem perto do outro musical de Marshall. É um grande horror kitsch que fez uma criança chorar durante a sessão de cinema em que eu estava. Ok, eu não sei por que ela começou a chorar depois de 1h10m de filme, até porque não era nenhum bebê, mas estava chorando. Só podia ser por causa do filme.

Vejam bem, fazer um filme todo cantado já soa um tanto quanto ridículo. Você acorda de manhã, está sofrendo, apanhando da vida, vai dar plantão no carnaval e está lá cantando “láriláaaaa lálalaaaa, Into the Woods”. Conhece o príncipe encantado da sua vida e manda “láriláaaaa lálalaaaa, Into the Woods”. Não tem o menor sentido se você não entrar no clima. E há musicais interessantes, como "Moulin Rouge" (2001). Só que "Caminhos da Floresta" atravessa todas as raias do mau gosto. É quase inacreditável que tenha indicações ao Oscar. Um milagre operado por Meryl Streep que, junto como Emily Blunt, se salva nessa hecatombe nuclear.

A cena-símbolo do que o filme representa é a dos príncipes de Cinderela e de Rapunzel cantando as dores do amor e disputando quem sofre mais em uma, acreditem, pequena CACHOEIRA. É algo que Chris Pine e Billy Magnussen ainda vão se arrepender de ter feito. Principalmente Pine. Cara, você é o Capitão Kirk do século XXI. Não pode se sujeitar a essas coisas.

A cena em questão tem ainda os dois abrindo ferozmente a camisa como se estivessem num clube de striptease para mulheres. Diante disse, acreditem, o cinema cai em gargalhadas. Mas são aquelas gargalhadas de constrangimento. Para a sorte de vocês (ou azar) eu encontrei este grande momento no YouTube que pode ser conferido abaixo.

Em “Caminhos da Floresta”, Meryl vive s bruxa má. A ideia do filme é juntar vários contos de fada em um só e dar um tom satírico. Então estão lá a Rapunzel, a Cinderela, João e seu pé de feijão e Chapeuzinho Vermelho e um constrangedor Lobo Mau vivido por Johnny Depp.

Parênteses para um comentário: Depp é alguém que anda precisando rever conceitos na carreira. Especializou-se no nicho figurões esquisitos e faz apenas a mesma coisa com maquiagens diferentes. Muitas vezes em filmes de gosto duvidoso, como “O cavaleiro solitário” (2013). A imprensa já até questiona se sua carreira está ficando decadente.

Mas como eu ia dizendo, nessa salada mista, um casal de padeiros (James Corden e Emily Blunt) precisa reunir elementos destes contos de fada para entregar para a bruxa e ela desfazer o feitiço que impede este casal de ter um filho.

A premissa podia ser interessante, apesar de toda a cantoria, mas a execução fica bem aquém do esperado. Primeiro porque a maioria das músicas não são boas. E quando as canções de um musical não são boas é porque a coisa está feia. Segundo porque ao juntar as histórias, elas tiveram que ser amarradas de uma tal maneira para unir todos os personagens, os protagonistas dos contos de fada num único desfecho ao fim do filme, o que deixou aquela sensação de estranheza e tornou o final confuso, esquisito e sem pé nem cabeça.

“Caminhos da floresta” realmente não convenceu a corneta. Diante deste show de horror cantado em verso e prosa, só me resta dar uma nota 2,5 para a nova aventura musical de Rob Marshall.


Indicações ao Oscar: atriz coadjuvante (Meryl Streep), figurino e design de produção.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Cotação da corneta: 'Birdman'

Eu acho que eu vi um passarinho
Sete razões pelas quais "Birdman" é um filme tão bom, mas tão bom que é digno de soltar aquele palavrão enaltecedor de uma obra ao fim de uma sessão de cinema. Vocês sabem de qual expressão estou falando. Não se façam de santos.

1) É o melhor trabalho de Michael Keaton desde... desde... desde... bem desde o tempo em que vocês só viam “Pica-Pau” e “Tom & Jerry” na TV.

2) Tem um subtítulo que parece tirado de escritos de Aristóteles ou Kierkegaard: "A inesperada virtude da ignorância". E todos sabem que não existem filmes ruins com títulos ou subtítulos filosóficos. Vide "A insustentável leveza do ser" (1988), “O sétimo selo” (1957) ou “Ponto de mutação” (1990).

3) Tem uma trilha sonora ARREBATADORA com solos e levadas de bateria que não te fariam ir ao banheiro se fosse num show de rock. E essa música é fundamental no desenvolvimento da história, pontuando as passagens, distribuindo o jogo.

4) É feito com uma mágica estilo David Copperfield. O diretor Alejandro Gonzalez Iñarrritu faz o filme todo em planos-sequências unidos por truques de edição totalmente excelentes que fazem parecer um só e deixam o a película naquele ritmo frenético. Não, eu não vou citar “Festim Diabólico” (1948), de Alfred Hitchcock. Todo mundo já falou disso.

5) Por falar no diretor mexicano, assim como "Amores Brutos" (2000), "21 Gramas" (2003) e "Babel" (2006), este filme também tem aquele truquezinho de histórias que se cruzam. A diferença é que nos filmes anteriores, elas seguiam paralelas até se encontrarem num ponto futuro no que eu chamaria de “Cinema à moda Claudio Coutinho”, pois ponto futuro era com o ex-técnico da seleção. Aqui, os personagens vão tecendo teias entre si o tempo todo e se cruzando, mas cada um com seu drama particular, seus problemas, suas questões, suas paranoias. Ninguém é mosca morta no filme.

6) Tem ótimas atuações. Tanto que três das nove indicações ao Oscar são para atores: Michael Keaton (excelente), Edward Norton (igualmente excelente) e Emma Stone (nem tão excelente assim).

7) É um filme de super-herói cabeça, afinal estamos falando do Birdman. Tipo "Watchmen" (2009). Ao mesmo tempo que é irônico e crítico aos filmes de super-heróis e à indústria do cinema de Hollywood com seus milhares de filmes de heróis de quadrinhos. Ok, nós nerds amamos filmes de super-heróis, mas entendemos a crítica ao exagero e a produção em excesso em detrimento de outros tipos de filme.

"Birdman" é tudo isso e muito mais. Completa com "Boyhood" e "Whiplash" a trinca de filmes realmente diferentes e, por isso, interessantes, entre os que estão em disputa pelos mais diversos carecas dourados deste ano. Ainda me faltam nove filmes para completar toda a lista do Oscar, entre eles dois candidatos a melhor filme, "Sniper Americano" e "Selma", mas pelo que andei lendo dificilmente estes trabalhos têm algum tipo de FRESCOR ou uma pegada DIFERENCIADA, como os três citados acima.

"Whiplash" é visceral, intenso, um filme sobre obsessões no jazz em ritmo de heavy metal. "Boyhood" uma OURIVESARIA de 12 anos para gerar um filme único que é uma história da vida. "Birdman" é vigoroso, taquicárdico, sofisticado. Ao mesmo tempo em que dialoga com toda essa cultura atual e questiona os valores que a indústria e cada um têm neste mundo de blockbusters explosivos e redes sociais expondo as tripas de cada um.

É tudo começa com um super-herói em crise...

Era uma vez um ator que ficou famoso fazendo um filme de super-herói. Mas ele se recusou a fazer mais uma sequência e foi em busca de novos desafios. Só que ele caiu no ostracismo e agora tenta dar a volta por cima ensaiando uma peça na Broadway feita a partir do texto do poeta Raymond Carver. Não, gente, Iñarritu garante que o filme não é baseado em fatos reais da vida de Michael Keaton, que depois de levar aquela lambida fatal de Michelle Pfeiffer em "Batman - O Retorno" (1992), não quis viver o Homem-Morcego em um terceiro filme, abrindo brecha para a chegada de Val Kilmer.

É a história fictícia de Riggan Thomson, o cara que foi o grande Birdman no passado, uma celebridade a moda antiga na era pré-Twitter e Facebook, e agora está desesperado em obter o reconhecimento e mostrar alguma relevância enquanto artista. Riggan quer mostrar algo mais do que um herói que se vestia de passarinho e piava. 

Volta e meia o filme é sarcástico com a frenética produção de filmes sobre quadrinhos. Ironiza grandes atores que viraram super-heróis ("Meu Deus, até nele colocaram uma capa", diz Riggan ao falar de Jeremy Renner, o Gavião Arqueiro dos “Vingadores”), e trata Hollywood como um celeiro de produções em série de trabalhos sem muito conteúdo.

Riggan quer mudar a percepção que o mundo tem dele. Mas uma voz estilo diabinho do Birdman volta e meia surge na sua cabeça para seduzi-lo a voltar para os arrasa-quarteirões. Enquanto isso, é preciso lidar com o novato “ator de verdade” Mike Shiner (Edward Norton), que despreza o cinemão de Hollywood, despreza Riggan e tenta fazer da peça um momento seu, e com Sam, a filha que se sente rejeitada ao mesmo tempo em que o pai se penitência por não ser tão presente.

Riggan também buscará a aceitação da crítica implacável Tabitha Dickinson (Lindsey Duncan), que já o acha ruim antes de vê-lo em ação, exibindo todos os seus preconceitos. Ok, eu captei a mensagem, Iñarritu, mas s corneta não vestirá a carapuça porque sempre foi adepta do "veja primeiro de coração aberto e pureza no olhar e critique depois". 

Por não ser um filme comum, “Birdman” dividiu as pessoas e os críticos. Tenho amigos que gostaram e que detestaram. Há críticos que o acham um lixo (veja aqui), que o elogiam (clique aqui), que ponderam que é bom, mas é boring (veja aqui) e que aplaudem (clique aqui). Isso é ótimo, pois mostra que ninguém é indiferente ao filme. Da parte da corneta, diria que “Birdman” me conquistou com toda a sua ousadia e alegria. Dizem que é um dos favoritos ao Oscar. Por aqui vai ganhar uma nota 9.

Indicações ao Oscar: Filme, diretor (Alejandro Gonzalez Iñarritu), ator (Michael Keaton), ator coadjuvante (Edward Norton), atriz coadjuvante (Emma Stone), roteiro original, fotografia, edição de som e mixagem de som.