sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

A DC ainda está nos devendo um filme bom da Arlequina

Arlequina e as Aves de Rapina
Sabemos que por mais que filmes baseados em quadrinhos sejam enquadrados no gênero “filme de super-herói”, cada uma destas histórias são contadas de uma forma diferente, se inserem em gêneros diferentes e são voltadas para públicos diferentes. Mas é inevitável que depois de um filme tão fora da curva da DC como o “Coringa”, que mal ou bem foi indicado a 11 Oscars e ganhou duas estatuetas, e, principalmente, depois do fracasso retumbante do “Esquadrão Suicida” que se esperasse um pouco mais sobre o filme-solo da Arlequina. 

E o primeiro problema de “Aves de Rapina (e a fantabulástica emancipação de Arlequina)" está justamente aí. O que supostamente se vendeu como um filme-solo da Arlequina, tem um título que evoca um grupo de heroínas, mas ao mesmo tempo o que se vê na tela é 80% de sua real protagonista e tudo é tão confuso, que não dá para entender para onde a diretora Cathy Yan e os roteiristas do filme querem ir. 

“Aves de Rapina” (e vamos reduzir o enorme título a isso a partir de agora) era para ser um quase reboot de personagem que era uma das poucas coisas, talvez a única, de positivo em “Esquadrão Suicida”. De fato, Margot Robbie soube captar um pouco da loucura e da alma da personagem, que viria a ser a namorada do Coringa e se destacar naquele filme absolutamente esquecível. 

O problema é que colocaram a Arlequina num roteiro bobo e com tiradas dignas das piores comédias. É claro que é preciso levar em conta que o filme claramente é voltado para um público adolescente. Ninguém estava esperando reflexões como as que envolvem “Coringa” (2019) ou “Batman - O cavaleiro das trevas” (2008), mas ainda assim as ideias do filme parecem difíceis de comprar, até porque muitas coisas são jogadas na tela e elas tem uma ligação muito frágil dentro do filme e até dentro do universo da DC, se é que "Aves de rapina" terá alguma conexão com o universo expandido da DC. 
  
A ideia do filme é mostrar uma aventura divertida que viesse com o descolamento da personagem principal do Coringa a partir de uma quebra de relacionamento. Arlequina sofre como todo adolescente sofreria ao perder um amor, mas faz das suas para superar. Isso envolve mortes e loucuras em geral. 

E onde entram as Aves de Rapina propriamente ditas? Durante o filme vamos sendo apresentados as personagens Renée Montoya (Rosie Perez), Caçadora (Mary Elizabeth Winstead) e a mais conhecida de todos os que acompanham quadrinhos, a Canário Negro (Jurnee Smollett_Bell). Enquanto acompanhamos a aventura de Arlequina, as três vão cruzando o caminho dela entre confrontos e alianças momentâneas para resolver problemas pontuais. Basicamente, temos aqui a visão da Arlequina para a formação do grupo de heroínas e até de certa forma como ela foi decisiva para isso. A ideia parece boa, mas a execução não ficou tão interessante como poderia ter sido. No fim, temos três personagens cujas biografias não são muito aprofundadas e as motivações precisavam ser mais bem trabalhadas. Mas é preciso dizer que o tempo de um filme seria curto para tudo isso. Talvez as Aves de Rapina merecessem uma série de TV. Seria mais interessante do que inseridas num filme que era para ter sido todo da Arlequina. 
  
Mas alguns dos piores momentos do filme ficam mesmo com Ewan McGregor, um bom ator que se reduziu a uma figura canastrona no papel Máscara Negra com algumas das cenas mais constrangedoras de "Aves de Rapina". É possível perceber a tentativa de fazer do Máscara Negra um homem abusivo e aterrorizante para as mulheres ao seu redor. E há um mérito em trazer para os filmes de super-herói uma temática importante, mas o desempenho do ator aqui é sofrível.

O que sobra, portanto, é muito pouco. Talvez o que Aves de Rapina traz de melhor são as cenas de combate, todas muito bem coreografadas e divertidas. A cena da Arlequina na delegacia de polícia é ótima, divertida e muito plástica e toda a cena final, inclusive a parte da Arlequina surgindo de patins na perseguição ao carro do Máscara Negra é ótima. Mas é tão pouco, que fica difícil salvar o filme só com isso.

Falta a “Aves de Rapina” uma história interessante - a trama do diamante e a história cruzada com a família italiana é confusa - um norte que apontasse sobre o que o filme queria tratar (Uma aventura da Arlequina? A formação das Aves de Rapina, que nada tem a ver com a Arlequina? - coesão no argumento, diálogos melhores do que piadas bobinhas à moda Marvel filmes e até atuações mais inspiradas, ainda que Margot Robbie seja uma presença carismática na tela. 

É uma pena, mas a DC continua devendo um filme bom que envolva uma personagem tão legal quanto a Arlequina. “Aves de Rapina” está muito longe de ser isso e ainda é um filme problemático sob um aspecto que vemos também no “Coringa” e no “Venom” (2018). Ao filme de vilão como protagonista, falta o antagonista. No arquétipo natural da construção destas histórias, não existe vilão sem herói. E a Arlequina sequer entra em confronto de fato com as Aves de Rapina, que deviam ser suas antagonistas. Elas se associam, tem pequenos entreveros, mas não há nada que represente de fato uma cisão dela com as heroínas, que, na verdade, deviam é caçar a Arlequina, uma vez que, não podemos esquecer, ela é uma assassina. 

Enfim, o filme é uma grande confusão. Esperemos que a Arlequina seja melhor aproveitada em futuros filmes da DC. “Aves de Rapina”, no entanto, é só mais um filme ruim do estúdio. 


Cotação da Corneta: nota 4,5.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Sam Mendes expõe os horrores da guerra numa história sem heróis

A batalha nas trincheiras da primeira guerra
É muito comum que filmes de guerra sejam construídos a partir de um olhar de seus heróis e seus feitos heroicos e sacrifícios. O diretor Sam Mendes resolveu caminhar por outros percursos. Baseado nas histórias contadas por seu avô, Alfred H. Mendes. Sam fez do seu “1917” um épico sem rosto apenas para falar sobre os horrores da Primeira Guerra Mundial. 

Ocorrida entre 1914 e 1919, a primeira guerra não costuma ser retratado com tanta frequência quanto a segunda no cinema, mas foi um conflito extremamente duro e que causou a morte de 16 milhões de pessoas entre soldados e civis. 

A história que Mendes retrata se passa no ano descrito no título do filme. Na ocasião, soldados britânicos preparavam um ataque que supostamente seria decisivo contra o exército alemão. Mas o que os britânicos não sabiam é que se tratava de uma emboscada que causaria a morte de pelo menos 1.600 soldados. 

É neste contexto que o general Erinmore (Colim Firth), envia os soldados Schofield (George MacKay) e Blake (Dean-Charles Chapman) para o meio do conflito na França com o objetivo de avisar a tropa do coronel Mackenzie (Benedict Cumberbatch) que havia uma emboscada e cancelar o ataque. 

Assim Schofield e Blake partem numa missão quase suicida. Acompanhando a jornada deles, Mendes vai nos expondo a crueza e implacabilidade do confronto mundial ocorrida há pouco mais de cem anos. Passamos pelas trincheiras enlameadas e cheias de armadilhas, por cidades completamente devastadas e por bombardeios e tiroteios que podem surgir a qualquer momento quando o silêncio parece imperar. 

Acima de tudo, Mendes exibe as marcas do conflito. Os corpos putrefatos a céu aberto, os ratos devorando tudo a frente, a sujeira inerente e os traumas psicológicos sofridos pelos soldados. 

Tudo isso vem acompanhado pelos olhos dos soldados Blake e Schofield, que estão longe de serem heróis nesta história. Blake é um soldado qualquer escolhido por sua habilidade em ler mapas e por ter um irmão na tropa que precisa ser informada da armadilha. Já Blake escolhe o amigo com quem estava para ir com ele simplesmente porque ambos descansavam ao pé de uma árvore quando ele foi chamado. 

Protagonistas da história, eles são rostos desconhecidos enquanto passamos por atores com mais história fazendo quase participações especiais no filme. Além de Firth e Cumberbatch, vemos Mark Strong e Richard Madden, que interpreta o irmão de Blake.

Não sei se esta sempre foi a ideia de Mendes, mas acabou caindo bem dentro de um conceito de despersonalizar, e tirar o heroísmo da guerra. Chapman e MacKay, por exemplo, são rostos comuns e ainda não estrelados em Hollywood. 

Combinando isso com o comportamento que as personagens têm no filme, que chegam até a negação do desejo de seguir em frente, temos anti-heróis aqui não fazendo nada além de cumprir ordens. Morrendo de medo de dar cada passo e com uma fragilidade e um instinto de sobrevivência pouco comum em filmes do gênero. A guerra de Sam Mendes não é a dos grandes feitos. É a de pequenas conquistas de cada trincheira por homens que queriam estar em qualquer lugar, menos naquele ao qual foram destacados para defender violentamente territórios que a política falhou em negociar. 

E tudo isso é realizado pelo diretor em dois planos-sequência que trazem todo um olhar especial e dão um tom realista à jornada. Com sua câmera, Mendes vai passeando pelos horrores dos cenários, revelando corpos mutilados, soldados apodrecendo, ratos comendo restos de corpos... esmiúça-se nos arames retorcidos das trincheiras, reforça a tensão por cada casa, porta ou fresta pelas quais os soldados precisam passar. No meio do filme, temos um corte para acelerar a passagem de tempo. O resto fica com truques de câmeras para que as 24 horas de ação se condensem em duas de filme. 

Acho sempre um trabalho fascinante o de fazer um plano-sequência, pois tudo precisa ser muito bem ensaiado para dar certo e os cortes precisam ser imperceptíveis. Foi uma tarefa ao qual Mendes conseguiu realizar com sucesso para entregar um filme que fica marcado por cenas impressionantes. Isso porque mesmo que em boa parte do filme não haja ação, o espectador é envolvido pela enorme tensão de que algo iminentemente irá acontecer e porque a câmera nunca revela a amplitude do cenário. A próxima trincheira, o próximo obstáculo pode sempre ser fatal. 

“1917” é um belo filme de guerra. E uma história impressionante que sobre a primeira guerra que estava escondida. Tem defeitos, como um roteiro que praticamente não tem história. Mas tem o mérito de trazer um pouco mais de realidade e menos heroísmo aos filmes do gênero, ainda que isto não seja necessariamente original. Também tem como mérito nos mostrar o quão terrível é a experiência de uma guerra mundial. Esperamos que conflitos deste tipo jamais voltem a ocorrer. 

Cotação da corneta: nota 8,5.

sábado, 25 de janeiro de 2020

Em seu filme mais palatável, Malick desvela um herói austríaco

Fani e Franz em seus momentos finais antes da prisão
Franz Jägerstätter é um personagem pouco conhecido, mas pode-se dizer que é uma espécie de herói da Segunda Guerra Mundial. Ou melhor, uma consciência que sublimou a “histeria coletiva” do inferno nazista para dizer não enquanto todo o mundo germânico dizia sim para Adolf Hitler e os nazistas. Considerado um mártir e beatificado pelo Papa Bento XVI em 2007, Jägerstätter já teve a sua história contada em livro e documentário e agora ganha uma nova versão no cinema pelas mãos do diretor Terrence Malick.

“Uma vida oculta” (“A hidden life”, no original em inglês) talvez seja o filme mais palatável do diretor americano conhecido por obras como “Além da linha vermelha” (1998), o extremamente simbólico “A árvore da vida” (2011), além de “Amor pleno” (2012) e “De canção em canção” (2017).

É claro que os enquadramentos típicos de Malick, o uso da trilha sonora e a assinatura do diretor continuam muito fortes, mas ao contrário de “Árvore da vida” e “Amor pleno”, por exemplo, Malick opta por contar uma história praticamente linear e enfatizada no estoicismo de Jägerstätter (vivido no filme por August Diehl).

Ajudou também ao cinema de Malick, o fato de o filme ser baseado no livro “Franz Jägerstätter: Letters and Writings from prison”. Boa parte das três horas de filme é preenchida pela troca de correspondências entre Franz e a mulher Fani (Valerie Pachner), o que se torna um prato cheio para o diretor exercitar um cinema baseado em imagens e impressões deixando apenas a música ou a narração das cartas ditando os acontecimentos ao fundo.

No resto do filme, Malick opta por refletir sobre como ser um arauto de resistência numa comunidade, um país, uma região tomada pelo nazismo. Jägerstätter teve a sua vida e a de sua família destruída simplesmente porque percebeu o mal que Hitler representava, porque viu o horror causado pela guerra e questionou se talvez os alemães é que não estivessem do lado errado.

Como um fazendeiro de Radegund, cidade do interior austríaco, no alto de suas montanhas, enxergou algo que nem os maiores intelectuais alemães conseguiram? É algo que Malick deixa para o espectador concluir, embora ele acabe por justificar a opção de Jägerstätter através da fé. O senso de razão e de moral e a certeza do uso do livre-arbítrio e do que aprendeu na Igreja é que levam o agricultor a negar obediência ao ditador nazista.

Enquanto isso, Jägerstätter vê todo o ambiente ao seu redor ser contaminado pela onda de ódio. A começar pelos camponeses da vila em que vive, que começam a adotar o discurso semelhante ao da liderança nazista. Dentro daquele microcosmo, Malick faz um exercício de como o nazismo se espalhou como uma doença e se entranhou na população a partir de uma série de frustrações daquele povo no período entre guerras. E no meio de tudo, estava Jägerstätter, a ovelha negra da comunidade que ousou ter a consciência e, mais do que isso, o dever de pensar com a própria cabeça e não seguir uma corrente que se mostrava absolutamente equivocada desde o início. De seguir a vida a partir de parâmetros éticos e morais e não empurrado pela massa e a máquina de propaganda nazista.

As convicções trouxeram miséria e dor para a família Jägerstätter, mas, como o pai de Fani diz num dado momento do filme: “É melhor sofrer injustiça do que cometê-la”. Jägerstätter morreu para ter uma consciência limpa. A história comprovou o quanto ele estava certo.

Cotação da Corneta: Nota 9.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Em Lisboa com Madonna e a turnê 'Madame X'

Madonna no terceiro ato/Reprodução Instagram
Madonna nunca foi daquelas artistas que se sentam na usina de hits e fazem um show repetitivo para os fãs. Pelo contrário, a cantora sempre se impôs desafios em quase 40 anos de uma carreira camaleônica tanto no visual quanto nas experiências em sua sonoridade. E é a artista que se impõe desafios que vemos na turnê do seu novo álbum, “Madame X” (2019).

Iniciando por Lisboa uma pequena turnê europeia que ainda passará por Londres e Paris, Madonna trouxe à cidade que foi por algum tempo a sua casa porque um de seus filhos joga na base do Benfica (“Nunca pensei que iria me tornar uma soccer mon”), um pouco das influências do que a capital portuguesa lhe ofereceu aliada à força do seu novo disco e alguns clássicos de sua carreira.

Para isso, ela apostou em algo que raramente se vê um artista pop que atinge uma certa grandeza fazer. Um show intimista num lugar pequeno (em Lisboa, o Coliseu) e com características muito particulares. A frente do palco, cadeiras para os fãs ficarem sentados, o que praticamente não aconteceu. Nos bolsos e bolsas, celulares lacrados com bolsinhas impossíveis de abrir e que só são retiradas pelos seguranças ao fim do espetáculo. O objetivo de Madonna é fazer o público viver a experiência sem perder tempo filmando e fotografando. Numa era de superexposição e popularidade medida por likes, a cantora prefere ver a satisfação nos olhos de quem a observa e não nos números das redes sociais. E não deixa de brincar com isso.

- Eu também olho para vocês e fico pensando: por que não estão tirando fotos minhas? Talvez eu também estivesse ficando viciada – disse ela ao explicar a importância deste contato olho no olho com os fãs.

De fato, a proximidade do palco e o espaço infinitamente menor do que os estádios que ela se apresentou em todas as suas últimas turnês, trouxe uma inédita sensação de intimidade rara com um artista do porte de Madonna. Isso a deixou bem à vontade também para interagir e provocar os fãs, contar histórias da vida lisboeta, fazer piadas e até bater um papo rápido com duas pessoas que tiveram a chance de terem ainda mais proximidade com ela.

Madonna circulou no meio da plateia, sentou em uma das cadeiras para descansar e reclamou constantemente da lesão muscular que lhe causa muitas dores nos membros inferiores e já a fez cancelar sete shows da turnê. Dois deles em Lisboa.

- Madame X está lesionada – disse a cantora, que nunca perdeu o bom-humor ao dizer que o melhor momento do show é quando ela senta.

Mas pode-se dizer que com um espetáculo tão diferente, os fãs ficaram satisfeitos? Depende do que cada um esperava. Se ele for ao concerto de “Madame X” para ver Madonna enfileirando seus sucessos, haverá um certo sentimento de frustração. Principalmente porque o set list é todo baseado no novo álbum (são 11 canções de um disco de 13 faixas) com algumas músicas pinçadas da carreira da cantora para colorirem um pouco mais e servirem ao que o espetáculo propõe. 

Se, por outro lado, o fã da cantora comprar a ideia de um show com muitos elementos teatrais dividido em quatro atos, um prólogo e um epílogo onde Madonna levanta suas conhecidas bandeiras e faz com que as músicas estejam a serviço da ideia de contar uma história encadeada, aí a experiência pode ser mais agradável. 

As ideias de Madame X

Madonna propõe duas ideias diferentes em “Madame X”. Uma delas é um grande manifesto político que passa por críticas ao governo Donald Trump, algo mais forte em “American life”, a quem ela também aproveita para provocar dizendo que o presidente americano têm um pênis pequeno, e pela defesa da liberdade de todos e da força das mulheres e dos gays na sociedade. E não é por acaso que ela vai embora estendendo uma grande bandeira do movimento LGBT+ em “I Rise”. Aqui é a Madonna que se propõe incomodar como está na poesia de James Baldwin citada antes do show: “Artists are here too disturb the peace”.

Durante o show, Madonna ainda revisita seus elementos e brinca com isso. “Vocês conhecem meus clichês”. O sagrado e o profano estão sempre ali presentes, seja com bailarinas vestidas de freiras ou outros rituais encenados no palco. As provocações ganham o seu ponto alto na interpretação de “Like a prayer”, quando o palco exibe cruzes, mas também as backing vocals se postam na escadaria que forma um X com Madonna cantando ao centro. 

A segunda ideia proposta pela cantora é uma viagem por sua experiência portuguesa. Especialmente no terceiro ato. Madonna deixa clara a importância que a música portuguesa e as experiências que viveu morando em Lisboa foram importantes para a construção do álbum “Madame X” e para trazerem um frescor à sua música. E também foram fundamentais para ela sair em turnê.

- Engordei tanto comendo bacalhau que tive que sair em turnê – disse.

Sentada por causa de lesão/Reprodução/Instagram
É neste ponto que o cenário vira uma casa com diversos elementos portugueses (azulejos, escadarias, janelas bem típicas) e ela chama Dino D’Santiago e o guitarrista Gaspar Varela para tocarem com ela. 

Uma particularidade acerca disso, porém, mantém-se misteriosa. O quanto funcionaria este show para outras plateias na parte mais portuguesa do espetáculo. Será que não haveria uma recepção mais fria quando a turnê passar por países menos afeitos ao fado e com culturas tão diferentes? É algo a se analisar. A menos que está parte do show ganhe outras cores e mais mobilidade num set list que em Portugal não teve variações. 

É neste ato que Madonna emenda dois fados intercalados entre suas músicas. “Fado pechincha”, de Isabel de Oliveira, e “Sodade”, de Cesária Évora. A cantora se esforça para interpretar bem em português e tem a simpatia do público, que não faz grandes exigências e entende tudo como uma homenagem. Mas a reação de outras plateias que não estão acostumadas com a música portuguesa pode ser bem mais fria e dispersar um show que exige atenção e tem muitas pausas em suas três horas e meia.
Show este que começa com Madonna fora do palco. O prólogo do espetáculo dura meia hora em que quatro músicos interpretam oito canções apenas de forma instrumental. Entre elas, sucessos com “Secret”, “Who´s that girl”, “Like a virgin” e “Don´t tell me”. O destaque desta parte é a trompetista Jessica Pina, que embala os sucessos da cantora sempre interagindo com os fãs. Fãs estes que se empolgaram muito com “Like a virgin”.

O ponto negativo aqui é a longa espera na transição para o primeiro ato, quando Madonna finalmente dá as caras cantando “God Control”, do álbum “Madame X”. Aqui ela desafia os poderes estabelecidos, a idade e as leis da física durante “Human Nature” e emenda com uma bonita versão à capela de “Express Yourself”.

Neste primeiro ato temos as primeiras expressões interessantes do palco que, embora pequeno, é muito funcional e cheio de entradas e saídas para trazer mobilidade aos bailarinos e à cantora. O palco também é dividido em camadas para que possa ter seu cenário modificado sem que o show sofra grandes interrupções. 

É ainda possível ver com destaque um telão que se amalgama por vezes com Madonna e os bailarinos criando um efeito bem bonito de profundidade e também de fusão que terá o seu ponto alto mais à frente quando a cantora vier a cantar “Frozen”. 

No segundo ato, o destaque é “Vogue”, um dos seus grandes sucessos e cantada numa performance em que no palco surgem várias bailarinas fantasiadas de Madonna. É aqui que também é cantada a já comentada “American Life”.

Daqui vamos para o terceiro ato, quando Madonna deixa o lado político um pouco de lado
para fazer sua homenagem à cultura dos países de língua portuguesa. Traz ao palco as mulheres do batuque para cantar “Batuka”, emenda fados, canta “Crazy”, que tem um refrão em português e dá uma pinçada em “La Isla bonita” que serve de transição para um momento mais latino do show que viria com “Medellin” e recolocaria o espetáculo na rota para o ato final. 

É aqui que percebemos que as canções novas funcionam melhor ao vivo do que no disco e servem bem a proposta do show que se encaminha para o fim com o quarto ato. Aqui
temos uma das interpretações de mais impacto do show. “Frozen”, do álbum “Ray of Light” (1998), uma das mais belas canções de Madonna e interpretada com a cantora se amalgamando com as imagens do telão num efeito muito bonito enquanto a tela mostra a sua filha, Lourdes Maria, se exercitando e fazendo yoga. É um efeito muito bonito e é o momento em que a voz de Madonna soa muito bonita. Aliás, um ponto fundamental deste show é que ao contrário de outras turnês, Madonna canta o tempo todo. Não há playback. 

O espetáculo termina com a já citada “Like a prayer” e o epílogo de “I Rise”, quando Madonna se despede andando no meio da plateia e punho em riste no seu protesto final.

“Madame X” não é um show de prazer fácil. É preciso comprar a sua ideia. E é um espetáculo que se fosse possível seria bom ver pelo menos duas vezes dada a quantidade de detalhes para se prestar atenção no palco. Mas é um show de muito vigor e de uma Madonna que gosta de enfrentar e se impor desafios. Uma Madonna que se recusa a cair na mesmice para oferecer ao seu público um novo olhar sobre a sua obra.


Cotação da corneta: nota 8,5.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Eastwood busca vingança e comete mesmo erro que vitimou Jewell

Olivia Wilde no papel de Kathy Scruggs
Tenho profundo respeito pelo cinema de Clint Eastwood. Acho-o um dos grandes diretores da história de quem poderíamos reunir pelo menos dez filmes incríveis e brilhantes. Mas o Clint que emerge em “O caso Richard Jewell” (“Richard Jewell”, no original) está muito longe de ser o gigante de “Os imperdoáveis” (1992), “Menina de Ouro” (2004) ou “Gran Torino” (2008). O Clint que filma o roteiro de Billy Ray é o que parece buscar uma vingança numa história que, na verdade, foi cheia de erros, com muitos culpados e alguns inocentes. 

Para falar de “O caso Richard Jewell” é preciso contar a história do seu protagonista, vivido de forma bastante convincente pelo ator Paul Walter Hauser. Jewell era um segurança com um passado problemático, mas extremamente dedicado e fiel aos preceitos da lei e profundamente respeitador das forças de segurança americanas. Empregado nos Jogos Olimpicos de Atlanta-96, ele virou um herói da noite para o dia ao descobrir uma bomba durante um show do evento. Sua ação salvou a vida de centenas de pessoas. 

Como o filme mostra, Jewell, porém, foi alvo de uma investigação que é praxe em qualquer atentado terrorista deste tipo. É aí que começa o pesadelo dele e de sua mãe, Bobi (Kathy Bates). E que começam os erros cometidos pela imprensa. 

É inegável que a vida de Jewell foi virada de cabeça para baixo por causa de uma reportagem irresponsável que carregava nas tintas e o acusava de ser um terrorista sem qualquer prova concreta e apenas baseada num passado interpretado de forma simplória pela imprensa é público em geral. Mas se a reportagem do jornal “Atlanta Connection” foi equivocada, Eastwood usa do mesmo artifício em seu filme para escolher a jornalista Kathy Scruggs (Olívia Wilde) como a vilã de tudo. Não há sequer margem para uma interpretação mais acurada dos fatos ou para a exibição de um outro lado. Scruggs é pintada como uma mulher agressiva que faz de tudo por suas histórias. Inclusive transar com uma fonte para conseguir uma boa história. 

Sem que a jornalista pudesse se defender, o filme a joga na parede da mesma forma que Jewell fora jogado há 24 anos. É quando o filme deixa de ser cinema para se colocar mais como uma peça de vingança. E isso não parece ser necessário nem mesmo sequer sob o ponto de vista de licença de dramaturgia. 

Não é difícil encontrar perfis sobre Scruggs na internet. Ainda mais depois que o filme veio à tona. Neles encontramos relatos de uma jornalista extremamente competitiva, difícil de lidar, mas competente pela sua busca por furos e com um enorme grupo de fontes dentro da polícia e de diversos órgãos de segurança. Algumas reportagens e ex-colegas a relatam como uma “groupie” de policiais, mas não num sentido negativo que este termo costuma carregar, e sim por ser uma seguidora de perto do trabalho da polícia. Se o seu perfil dividia opiniões, principalmente por sua personalidade forte que resvalava na arrogância, todos são unânimes em afirmar que Scruggs jamais transou com qualquer fonte para conseguir uma informação. Tinha sim relações com policiais como qualquer um poderia ter quando se convive com um determinado grupo, mas nunca para conseguir vantagens no trabalho. 

Eastwood, pegou estas informações e carregou nas tintas para dar a ela um perfil simplório de “jornalista que se deita com fonte”, quando na vida real ela era muito mais complexa. É claro que ela e o jornal erraram grosseiramente, mas a vida não é feita de heróis e vilões de forma maniqueísta como o filme pinta. 

Rockwell, Bates e Hauser: bom trabalho dos atores
Jewell, porém, teve a sua redenção. Scruggs, que faleceu em setembro de 2011 de overdose, não teve essa chance. Viveu os cinco anos seguintes à sua reportagem assombrada pelo que escrevera e com dificuldades financeiras pelos processos que enfrentou até que encontrou um fim miserável aos 42 anos. Seu destino, inclusive, sequer é mencionado no desfecho do filme. Ao contrário dos de Jewell e sua mãe. 

Isso afeta a experiência do filme? Depende do ponto de vista de cada um. O filme tem seus méritos e talvez seja o melhor desta recente fase de Eastwood de contar a vida do típico homem comum que se torna um herói americano. É superior a “Sully: o herói do Rio Hudson” (2016), e muito melhor do que o fraco “15h17: Trem para Paris” (2018). 

A interpretação de Hauser também não deixa de ser cativante pela sua entrega ao papel quase mimetizando o verdadeiro Jewell. Assim como Sam Rockwell também dá um brilho especial como o advogado do personagem principal. Kathy Bates e Olivia Wilde também estão bem nos seus papéis, o que faz com que o filme seja muito mais interessante pelo trabalho destes quatro atores do que pela história em si. 

Mas Eastwood podia ter feito um filme melhor e não mais um filme. “O caso Richard Jewell” tem suas falhas, tem imprecisões históricas e enfraquece seu roteiro pela própria postura do diretor. Por outro lado, é bom acompanhá-lo e refletir como uma obra ou reportagem pode destruir a vida de alguém e pensar na responsabilidade que se tem na mão quando se divulga algo com tamanhas imprecisões. Isso vale para o que Jewell sofreu, mas também para Scruggs. No fim, o filme mostra-se mais interessante pela lição que Eastwood não queria passar, mas seu erro é a mostra de como ainda é necessário evoluir. 

Indicações ao Oscar: Atriz coadjuvante (Kathy Bates).

Cotação da Corneta: nota 7.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Os melhores e os piores filmes de 2019

Cafarnaum, O Irlandês e Parasitas

Eis que chegamos ao grande momento do ano. A divulgação do prêmio Corneta Ballon D’Or Awards com os 30 melhores filmes de 2019*. 

Vamos ao ranking contendo aqueles trabalhos que de alguma forma foram aprovados pelo crivo SEVERO e IMPLACÁVEL da Corneta: 

1- Cafarnaum (Capharnaum, LIB, FRA, EUA, Chipre, QAT). Diretora: Nadine Labaki. 
2- O Irlandês (The Irishman, EUA). Diretor: Martin Scorsese. 
3- Parasitas (Gisaengchung, Coreia do Sul). Diretor: Bong Joon Ho. 
4- Bacurau (BRA). Diretor: Kléber Mendonça Filho. 
5- Ad Astra: Rumo às estrelas (Ad Astra, EUA, CHI). Diretor: James Gray. 
6- Nós (Us, EUA, CHI). Diretor: Jordan Peele. 
7- História de um casamento (Marriage Story, ING, EUA). Diretor: Noah Baumbach. 
8- Se a rua Beale falasse (If Beale Street could talk, EUA). Diretor: Barry Jenkins.
9- Vice (Vice, EUA). Diretor: Adam McKay. 
10- Nunca deixe de olhar (Werk ohne Autor, ALE, ITA). Diretor: Florian Henkel Von Donnersmarck. 
11- Vingadores: Ultimato (Avengers: Endgame, EUA). Diretores: Anthony e Joe Russo. 
12-  Você não estava aqui (Sorry we missed you, ING, FRA, BEL). Diretor: Ken Loach. 
13-Dor e Glória (Dolor y Gloria, ESP, FRA). Diretor: Pedro Almodóvar. 
14- Coringa (Joker, EUA, CAN). Diretor: Todd Phillips. 
15- Era uma vez... em Hollywood (Once upon a time... in Hollywood, EUA, ING, CHI). Diretor: Quentin Tarantino. 
16- Quem você pensa que sou (Celle que vous croyez, FRA, BEL). Diretor: Safy Nebbou. 
17- Green Book (Green Book, EUA). Diretor: Peter Farrelly. 
18- A favorita (The Favourite, IRL, ING, EUA). Diretor: Yorgos Lanthimos. 
19- A professora do jardim de infância (The Kindergarten teacher, EUA, ISR, ING, CAN). Diretora: Sara Colangelo. 
20- Ford vs Ferrari (Ford v Ferrari, EUA, FRA). Diretor: James Mangold. 
21- Homem-Aranha: longe de casa (Spider-Man: Far from home. EUA). Diretor: Jon Watts. 
22- Rocketman (Rocketman, ING, CAN, EUA). Diretor: Dexter Fletcher. 
23- Pavarotti (Pavarotti, ING, EUA). Diretor: Ron Howard. 
24- O velho e a arma (The old man & the gun, EUA). Diretor: David Lowery. 
25- Amor até as cinzas (Jiang hu er nü, CHI, FRA, JAP). Diretor: Jia Zhangke. 
26- Dois Papas (The two Popes, EUA, ITA, ARG, ING). Diretor: Fernando Meirelles. 
27- Midsommar: o mal não espera a noite (Midsommar, EUA, SUE, HUN). Diretor: Ari Aster. 
28- O corvo branco (The White crow, ING, FRA, SER). Diretor: Ralph Fiennes. 
29- Obsessão (Greta, IRL, EUA). Diretor: Neil Jordan. 
30- Graças a Deus (Gráce à Dieu, FRA, BEL). Diretor: François Ozon. 

Mas como nem tudo são flores no ano, eu não posso ir embora sem divulgar os vencedores do Prêmio Uva Passa de piores filmes do ano. Vamos agora às dez bombas largadas no universo em 2019. 

1- Cats (Cats, ING, EUA). Diretor: Tom Hooper. 
2- Rambo: Até o fim (Rambo: Last Blood, EUA, ESP, BUL). Diretor: Adrian Grunberg. 
3- Na Fronteira (Gräns, SUE, DIN). Diretor: Ali Abbasi. 
4- MIB - Homens de preto internacional (Men in black: international, CHI, EUA). Diretor: F. Gary Gray. 
5- Vox Lux: o preço da fama (Vox Lux, EUA). Diretor: Brady Corbet. 
6- Máquinas Mortais (Mortal Engines, EUA, NZL). Diretor: Christian Rivers. 
7- Velozes e Furiosos: Hobbs & Shaw (Fast & Furious Presents: Hobbs & Shaw, EUA). Diretor: David Leitch. 
8- Star Wars: A ascensão Skywalker (Star Wars: Episode IX - The Rise of Skywalker, EUA). Diretor: J. J. Abrams. 
9- Vidro (Glass, EUA, CHI). Diretor: M. Night Shyamalan. 
10- Hellboy (Hellboy, EUA, CHI, BUL, CAN). Diretor: Neil Marshall. 

É isso. Feliz ano novo aos amigos. E que venha a temporada do Oscar!

* Critério para a escolha: Eram elegíveis para entrar no ranking apenas os filmes que estrearam nos cinemas do Brasil e de Portugal entre o primeiro e o último dia do ano, bem como os lançamentos originais em plataformas de streaming. 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

J.J. Abrams tenta fazer fan service e joga trilogia de Star Wars no lixo

Se há algo de bom no filme são as batalhas
Desde que a saga Star Wars foi retomada em 1999, maiores foram os erros do que os acertos do universo. Com ambições de finalizar uma jornada que começou lá atrás com o primeiro filme da saga lançado em 1977 e então dirigido pelo criador da história George Lucas, “A ascensão Skywalker” (Star Wars: Episode IX – The Rise of Skywalker, no original) tem tantos erros básicos que a conclusão imaginada por J.J. Abrams para esta saga que atravessou quatro décadas e gerações de fãs beira o melancólico.

Em um ano em que vimos a conclusão da “Saga do Infinito” da Marvel com o lançamento de “Vingadores: Ultimato” fica ainda mais gritante a diferença quando comparamos dois dos universos mais populares do cinema. É claro que o da Marvel foi desde o princípio pensado para ser interconectado e ter uma coesão dentro do mundo em que se inserem aqueles persoagens. Já Star Wars inicialmente era uma trilogia entre 1977 e 1983, ganhou outra entre 1999 e 2005 e uma terceira e definitiva trilogia que começou com o bom “O despertar da força” (2015), continuou com o razoável “Os últimos Jedi” (2017) a concluiu tristemente com “a Ascensão Skywalker” neste ano. 

Mas mesmo quando analisados isoladamente, o maior problema da atual trilogia cujo primeiro e terceiro filme foram dirigidos por Abrams e o segundo por Rian Johnson é que os filmes não dialogam entre si. Parece que cada um toma suas próprias liberdades, faz os personagens viajarem de um lado para o outro sem qualquer fundamento básico e tem suas motivações seguidas ao bel prazer de pinceladas mal ajambradas de um roteiro ruim. Sim, porque o roteiro de “Ascensão Skywalker” é ruim, com diálogos sofríveis que variam entre o infantil e o meramente constrangedor. 

(E ATENÇÃO AGORA PARA POTENCIAIS SPOILERS)

O que Abrams pareceu tentar fazer neste filme foi um grande fan service. Mas esqueceu do básico que faz um filme ser... um filme. Ou seja, falta uma história com coesão, começo, meio e fim e um mínimo de profundidade. Ninguém aqui está pedindo para J.J. Abrams fazer NouvelleVague ou Neorrealismo italiano, mas um filme em que não pode se descuidar de duas coisas fundamentais mesmo para um blockbuster hipercomercial: uma boa história e o desenvolvimento dos personagens. E são duas coisas que agora, olhando em perspectiva, a nova trilogia de Star Wars não tem.

Se analisarmos o enredo desta trilogia, muita coisa não faz sentido. “O despertar da Força” tenta acompanhar a jornada de uma ainda desconhecida Rey (Daisy Ridley), enquanto remanescentesdo Império reorganizam-se como a Ordem Final e buscam meios de derrubar a República Galáctica. Em “Os últimos Jedi”, as principais peças do tabuleiro se separam, o Império ganha força e a resistência é praticamente dizimada. Até que chegamos ao atual filme, em que Palpatine surge do nada e com uma saída fraquíssima do roteiro para comandar o Império com dezenas de naves estrela da morte e quase nada do que o Rian Johnson havia apontado no segundo filme vem a tona no terceiro. Porque simplesmente as histórias não dialogam entre si.

Quando tentamos olhar para a jornada dos personagens, também sobram problemas. É possível imaginar a nova trilogia de Star Wars como um jogo de espelhos para com a trilogia original. Em maior ou menor escala e retirando os andróides deste recorte, os personagens que temos mais lembrança da trilogia original são Darth Vader (originalmente interpretado por David Prowse), Luke Skywalker (Mark Hamill), Leia (Carrie Fisher), Han Solo (Harrison Ford), mestre Yoda e Lando Calrissian (Billy Dee Williams). Seus espelhos na formação de uma nova mitologia Star Wars, mas não necessariamente com o mesmo tipo de história ou temperamento, são Keylo Ren (Adam Driver), Rey, Poe Dameron (Osar Isaac), Finn (John Boyega), Maz Kanata (Lupita Nyong´o) e Rose (Kelly Marie Tran).

Finn, Rey e Poe, ótimos personagens com histórias ruins
Como dissemos, é claro que nem todas as “cópias” são idênticas. Poe tem temperamento semelhante ao de Han Solo, Maz Kanata não é exatamente uma guerreira Jedi, enquanto Finn e Rose não encontram semelhantes na trilogia original. Mas a essência da ideia é essa. A de criar novos mitos com personagens mais afeitos aos tempos em que vivemos e principalmente e fundamentalmente mais representatividade. Daí termos um negro como co-protagonista (Finn), uma mulher como heroína principal (Rey) e outra mulher como uma exímia mecânica de naves (Rose).

Pois bem. E o que foi feito de toda essa gama de 12 personagens? J.J. Abrams tinha tudo para encerrar bem a geração de Luke, Leia e Han Solo e abrir um espaço enorme para a nova geração de Finn, Rey e Poe. Ele não fez nem uma coisa nem outra.

O que vimos foi um grande jogo de fantasmas que foram aparecendo ao longo do filme. Todos eles estiveram lá. Teve espaço até para o Yoda aparecer ao menos em voz. Mas qual a função que os velhos pilares tem de fato no filme? Pouca ou nenhuma. Mesmo a Leia não faz nenhum sentido no roteiro. E isso é facilmente entendido pelo fato de que as cenas em que Carrie Fisher aparece no filme foram gravadas anteriormente ao seu falecimento em 2016, mas não foram utilizadas nos filmes “O despertar da força” e “Os últimos Jedi”. É por isso que elas são pessimamente colocadas e não servem em nada à história.

E o que podemos dizer dos personagens novos? Tiveram um desenvolvimento errático com roteiros mais rasos que uma piscina para bebês.

Sim, porque tínhamos três ótimos e promissores personagens para serem os pilares de uma nova era e com uma química excelente. Finn, um stormtrooper que escapa das mãos do império. Poe, um candidato a novo Han Solo, exímio piloto e extremamente arrogante e convencido, e Rey, uma desconhecida que vivia num planeta distante, cuja origem desconhecíamos, mas que detinha um poder diferente da Força. Para onde eles foram depois de tudo isso? Que jornada tiveram? Que provações tiveram que enfrentar? O desenvolvimento deles foi errático e pouco convincente.

Toda a mitologia de Star Wars (e de muitos produtos do cinema) é baseada na jornada do herói. E nós temos três aqui para acompanhar nesta saga. Pelo que eles passaram? Que desafios pessoais enfrentaram para além de combater o Império? Finn foi um personagem esquecível no segundo filme e no terceiro já surge como membro proeminente da resistência sem muito se falar do que aconteceu com ele, das suas origens e da sua história. Poe erra um arrogante no primeiro filme, mas exímio piloto com uma família ligada à resistência, tentou aprender alguns passos com Leia, que o explicou a importância de mais do que ser alguém qualificado era preciso ser um líder, e no terceiro filme virou um mulherengo com um passado de contrabandista em uma história muito mal inserida no roteiro.

E ainda tivemos Maz Kanata, uma personagem promissora que foi subaproveitada na série, e Rose, que foi uma das protagonistas de “Os últimos Jedi” e neste filme foi reduzida a três ou quatro falas irrelevantes e muita correria.

E assim chegamos a Rey. A solução dada para ela foi péssima. Ser neta do Palpatine quando nunca soubemos sequer da existência de uma árvore genealógica básica do imperador parece uma tentativa de dar um plot twist que se revelou muito ruim. Seria a versão destra trilogia para o famoso “Luke, I am your father” de Darth Vader, porém simplesmente não faz sentido. Era melhor que a Rey não tivesse parentesco com ninguém e fosse realmente ninguém e meio que adotada pela família Skywalker. Afinal, a Força não é genética. Qualquer um pode vir a tê-la e desenvolvê-la. Inclusíve essa era uma ideia difundida em “Os últimos Jedi”.

Rey, porém, ainda tem um arco um pouco mais trabalhado. Confuso, é verdade, mas com um pouco maiks de profundidade. Afinal, entre os protagonistas ela é A protagonista da saga. Porém, sua vida se resume a divagações e provações que testem a sua fé enquanto ela passa três filmes em WhatsApp mental com Keylo Ren. Parece mais que ela está sendo treinada para fundar uma igreja do que para ser uma guerreira Jedi. E enquanto isso tem que resistir no deserto à tentação do lado negro da Força. E, convenhamos, Rey e Keylo formando um casal é o que de pior poderia acontecer.

Mais importante de tudo é que os três personagens não têm um desenvolvimento sólido que nos faça comprar as suas histórias.  

E o mesmo vale para Keylo Ren. O personagem de Adam Driver nunca foi o vilão que deveria ter sido nesta trilogia. Sua história é pueril, suas motivações não convencem e a sua participação no último filme se resume a ótimas cenas de batalha e uma indecisão ou mudanças de rumos tomadas a partir de pequenas coisas que o fazem ser um personagem fraco. 

Se tem algo que “A ascensão Skywalker” tem são suas boas cenas de luta. Os efeitos especiais são ótimos, as lutas são bem coreografadas, mas Abrams se esqueceu de que os efeitos especiais precisam ficar a serviço da história e não o contrário. Esta é diferença entre um bom filme e um filme medíocre quando analisamos um blockbuster. E Star Wars, infelizmente, é um filme medíocre. 

É uma pena que Abrams parece não ter compreendido a melhor forma para fechar esta mitologia de Star Wars. Neste ponto, e também olhando em perspectiva, Rian Johnson nos deu um caminho mais interessante a trilhar com o seu filme do meio. Ao menos ali tinha um mínimo de conceito. Com uma série de problemas, é claro. Mas havia uma história em que se podia agarrar e seguir em frente. Abrams não soube aproveitar o que “Os últimos Jedi” tinha de bom, não levou a saga para além de um confronto do bem contra o mal em batalhas de naves espaciais e raios disparados e concluiu a história da forma mais risível possível e com soluções fáceis. 

Johnson, aliás, comandará a nova trilogia de Star Wars que promete ser lançada nos próximos anos. Não sabemos, porém, se Finn, Poe e Rey voltarão, mas ainda é possível aproveitar eles e explorar melhor as suas histórias. Ainda mais em uma saga começando do zero e sem os fantasmas do passado. É preciso, também, haver um vilão bom, o que nunca houve nesta atual trilogia.

“A ascensão Skywalker”, portanto, é decepcionante. Não é por acaso que Abrams anda sendo chamado de Jar Jar Abrams, em referência ao odiado personagem Jar Jar Binks da segunda trilogia. O diretor, de fato, deixou a desejar. Mas é claro que esta saga ainda tem muita força. E fãs que sempre vão querer uma nova história. 

Cotação da Corneta: nota 3,5.