segunda-feira, 6 de março de 2023

“A Baleia”: o brilho de Fraser num filme de Aronofsky que não sai do lugar comum

A fé tem sido uma reflexão constante na recente filmografia de Darren Aronofsky. Desde o fraco “Noé” (2014), passando por “Mãe!” (2017) e chegando até ao seu mais recente trabalho, “A Baleia”, Aronofsky vem se dedicando a questionar os fundamentos do divino, as contradições da religião e a ideia de redenção até certo ponto também tocada em “A Fonte da Vida” (2006). Se seus dois trabalhos anteriores eram mais diretos em retratar passagens bíblicas, especialmente a forma mordaz e provocadora de “Mãe!”, que tanta controvérsia causou quando do seu lançamento, “A Baleia” busca menos o choque pelo que se vê e mais em desenterrar as contradições do discurso religioso.

Calcado na magistral interpretação de Brendan Fraser, “A Baleia” porém, não vai muito fundo em algumas de suas propostas. Se Fraser merece todos os elogios e prêmios pelo seu trabalho de fato acima da média dentro da sua carreira de altos e baixos, Aronofsky fez um dos filmes menos interessantes de sua rica filmografia formada por ótimos trabalhos como “Pi” (1998), “Réquiem para um sonho” (2000), o já citado “Fonte da vida” (2006), “O Lutador” (2008) e “Cisne Negro” (2010).

Passado quase que integralmente num único cenário, “A Baleia” conta a história de um professor de inglês recluso que vive com obesidade mórbida e, no que parece ser a reta final de sua vida, tenta se reconectar com a sua filha. A ideia de busca de uma redenção quase bíblica está em toda a história de seu protagonista, que deseja que ao menos uma coisa em sua vida, vista por ele como sacrificante, tenha dado certo antes de ele partir.

Charlie (Brendan Fraser) é orbitado por Liz (Hong Chau), a enfermeira que cuida dele e insiste que ele vá para um hospital, pelo jovem religioso Thomas (Ty Simpkins) e pela sua filha, Ellie (Sadie Sink). É curioso aqui traçar um certo paralelo com a tríade católica do pai, filho e espírito santo. Liz faz o papel da cuidadora, que busca o bem de Charlie e acha que a presença de Thomas e Ellie não é boa para ele. Thomas, por sua vez, quer cuidar da redenção espiritual do professor – e mais à frente vamos descobrir também da sua necessidade de redenção particular -, enquanto Ellie vive entre a raiva do pai ausente e o desejo profundo, mas só estabelecido nas nuances da interpretação de Sink, de viver e recuperar os momentos com o pai perdidos na poeira do tempo.

Tudo o que os conecta é um texto diversas vezes repetido ao longo do filme. Uma redação sobre “Moby Dick”, livro publicado por Herman Melville em 1851. Essa redação que tanto acalma Charlie em seus momentos de dor é como um placebo . É a sua Ave Maria, o seu Pai Nosso literário que o mantém vivo e esperançoso naquela que se encaminha para ser a sua última semana de vida.

Aos poucos vamos entendendo a importância daquele texto para Charlie e Ellie e da própria busca por uma luz redentora numa análise que não tem nada de sagrada, mas é rica em autenticidade. E talvez está seja a crítica mais severa e interessante de Aronofsky no filme. Enquanto a fé repete jargões como as falas robóticas de Thomas, a pureza real e o poder, digamos, divino está na autenticidade das palavras ricas em sinceridade.

Apesar dos severos problemas de saúde e a vida sofrida pela perda do namorado, Charlie ainda encontra no fundo da alma espaço para encontrar a bondade nas pequenas coisas da vida. Um otimismo que tanto irrita a sua ex-mulher, mas que faz falta na vida dela, tão focada nos dramas e tristezas da realidade.

O tema de “A Baleia” gira em torno de redenção. E é curioso como para chegar a esta redenção, seu protagonista precisa passar por toda uma via-crucis de dor e angústia. E também trilhar o caminho da abnegação, uma vez que o sacrifício é quase uma fetichização dentro do catolicismo. Não por acaso, em quase todo o filme chove torrencialmente. É curioso como a chuva, especialmente o barulho da chuva, é a trilha sonora para a confusão, caos e tristeza do seu protagonista. E quando surgem a luz e o sol é onde Charlie encontra a paz de espírito, uma pureza divina e única.

O filme, porém, se perde um pouco nos diálogos e nos conflitos entre fé e ceticismo que não saem do lugar comum. Thomas é o católico fervoroso que acredita ter um propósito divino e deseja salvar a alma de Charlie. Todavia, a salvação para Thomas passa pela negação do que Charlie tinha de mais puro: o amor por Alan, o namorado falecido. Liz, Ellie e o próprio Charlie são os contrapontos do discurso de Thomas em diferentes momentos do filme. Não sei se a peça de Samuel D. Hunter, também roteirista do filme, aprofunda mais este tema, mas o roteiro do filme parece navegar em águas por demais rasas em boa parte do seu tempo. O que contrasta com o peso dramático que Fraser impõe ao filme. Peso este muito bem acompanhado pela jovem Sink, que já havia aparecido muito bem na recente temporada de “Stranger Things” e aqui também apresenta um trabalho muito consistente como uma jovem raivosa que foi abandonada pelo pai e convive com uma mãe alcoólatra.

Falta em “A Baleia” um aprofundamento de suas ideias, uma sacada de roteiro que o tirasse da zona de conforto do drama convencional.

É claro que Fraser está excelente e segura todo o interesse que o filme traz. Ele teve toda a inspiração que de alguma forma faltou em Aronofsky ao lapidar a peça de Hunter. Perto de seus outros trabalhos e de sua rica filmografia, “A Baleia” encalhou no meio do caminho. Ainda que mesmo assim seja um filme acima da média.

Nota 7,5.



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

“Tár” e a crônica de um gênio indomável

(Atenção que esta crítica contém spoilers)

Lydia Tár (Cate Blanchett) é considerada uma das maiores compositoras-regentes vivas. Diretora da ultra prestigiada filarmônica de Berlim, Tár é especialista em Mahler, foi apadrinhada por Leonard Bernstein no início da carreira, passou por prestigiosas orquestras como Chicago e Nova York e é considerada inovadora por saber dialogar o clássico com o contemporâneo com um toque pessoal. É uma das raras pessoas do mundo dona de um EGOT, como é chamado o conjunto de premiações mais populares da indústria — Emmy, Grammy, Oscar e Tony. Tem um casamento sólido, embora não livre de problemas com a primeiro-violinista Sharon (Nina Hoss). É dona de opiniões fortes, embora não seja uma arista livre de controvérsias nos tempos atuais em que cada palavra nos coloca em escrutínio público por redes sociais. Redes estas que muitas vezes têm discursos manipulados. Para Tár, a arte e a excelência da mesma estão acima de quaisquer comportamentos condenáveis vividos por quem a criou.

Tudo em Lydia Tár parece tão fascinante e autêntico. Uma personagem que merecia uma cinebiografia. O fascinante nisto tudo, porém, é que Tár não existe.

Ao fim de “Tár”, o filme escrito e dirigido por Todd Field, eu senti a necessidade de preencher uns buracos de sua história na minha cabeça. Nada prejudicado pelo filme, mas eu sentia esta necessidade. Por onde ela anda? Ela acabou do jeito que o filme mostra? O que tem feito nos dias de hoje? Não precisava de nada excessivamente aprofundado. Um perfil na Wikipédia com o básico me seria suficiente para saciar a dúvida.

Qual não foi a minha surpresa quando descobri que a compositora não só não tinha um perfil no site como era uma mera obra de ficção de Field. Uma breve busca no Google mostra que eu não estive sozinho. Não faltam reportagens em diferentes línguas respondendo à pergunta: “Lydia Tár realmente existe?”

Um dos grandes méritos de Field em “Tár” está em nos enganar. Pelo menos em enganar a pessoa que foi assistir ao filme sem nada saber. Ao longo de seus 158 minutos, Tár compõe uma personagem fascinante e complexa, que está no auge e vive a decadência vertiginosa após seu envolvimento numa polêmica que gera um processo contra ela após a morte de uma jovem regente. A Lydia Tár magnificamente interpretada por Blanchett é uma mulher com contas a ajustar com o passado recente, se escondendo do seu passado distante e que quer esquecer suas raízes. Uma mulher que toma decisões duras, difíceis e nem sempre as mais aceitáveis para quem está gerindo uma orquestra onde estão os melhores entre os melhores e, consequentemente, um ambiente de egos mais do que infladas. A começar pela própria Tár, uma perfeccionista que entende profundamente do seu ofício, mas falha na gestão humana. Algo que é bastante comum em figuras geniais da arte.

Mas o que torna Tár tão real e verdadeira? Alguns fatores podem ter ajudado na fascinante ilusão de ótica do filme. O primeiro é o seu ambiente. Todo o filme é centrado no mundo da música clássica, que é cercado de pessoas populares no seu meio, mas completamente desconhecidos do grande público.

Outra questão fundamental é a sua ambientação, Tár se passa muito próximo do nosso tempo histórico e sua história é pontuada por polêmicas em redes sociais e ações cometidas pela personagem durante a pandemia de Covid-19, como os concertos gratuitos que ela deu durante a pandemia. São duas situações comumente vividas por artistas nos últimos anos, que nos aproximam da realidade de Tár.

Mas outras questões são méritos do roteiro de Field. Os assuntos que o filme discute a partir da vivência de Tár, a exibição ainda que rápida de sua página no Wikipédia, as polêmicas que a maestrina se envolve… tudo é muito real porque são histórias sobre as quais vemos os artistas se depararem. E vemos isso acontecendo muito perto de nós. Lýdia Tár e seus problemas e controvérsias não são uma realidade distante de um Beethoveen ou de um Bach, mas do nosso tempo.

Por fim, temos a ótima atuação de Blanchett. A atriz recebeu de presente uma personagem magnífica, mas um dos seus méritos está em desaparecer completamente no papel. Diante da tela não vemos Blanchett, mas Lydia Tár em seus dramas, anseios e virtudes.

Obviamente que “Tár” não é perfeito. Entre as críticas que se podem ser feitas só filme está no fato de ele ser muito frio. “Tár” é um filme quase desprovido de emoções e gélido como, por vezes, se comporta a sua personagem principal. Tanto que surpreende aquele que é praticamente o único momento de explosão de sua protagonista tão calculista nos atos e nas palavras.

Isto, porém, não deixa de ser contraditório perto de tudo pelo qual sua protagonista passa, mas também justifica a sua falta de popularidade no circuito comercial.

Embora não seja hermético, “Tár” tem uma pose, uma arrogância e e quase pedantismo que parece muito próximo do elitista mundo da música clássica. No fim, porém, Field só comprova que todos são demasiado humanos. E de carne e osso como qualquer mortal.

Nota: 8.



segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

“Babilônia” e a decadência do cinema mudo

Tratar de transição do cinema mudo para o falado não é exatamente uma novidade no cinema recente. “O Artista” já falava sobre isso em 2011. Ao contrário do filme de Michel Hazanavicius, no entanto, o diretor Damien Chazelle, tirou o olhar de um único protagonista para pintar o cenário de decadência, depressão e transformação que aconteceu no cinema no final dos anos 20 do século passado.

“Babilônia” (“Babylon, no original) tem a intensidade asfixiante de “Whiplash” (2014) e o carinho e devoção ao cinema de “La La Land” (2016) dois dos trabalhos que fizeram a fama de Chazelle.

No centro de “Babilônia” está o caos dos anos 20 em meio a um cenário de decadência da velha Hollywood que para o espectador do cinema era muda, mas que lá dentro da indústria era esporrenta, exagerada, incendiária, um vulcão em constante ebulição.

Já em seus primeiros 30 minutos, Chazelle pinta o cenário daquele momento a partir de uma enorme festa regada a free jazz, elefante, drogas, sexo, nudez e toda a forma possível de libertinagem. Neste cenário de hedonismo radical conhecemos os personagens que iremos acompanhar na jornada lisérgica e, por vezes, cansativa, de mais de 3h de filme: Jack Conrad (Brad Pitt), uma das maiores estrelas do cinema até então; Nellie LaRoy (Margot Robbie), desconhecida candidata à estrela do cinema mudo e penetra da festa; Elinor St. John (Jean Smart), colunista de fofocas de Hollywood; Manny Torres (Diego Calva), jovem mexicano faz-tudo cujo sonho é trabalhar com cinema; e Sidney Palmer (Jovan Adepo), músico negro que começa a ganhar espaço nos filmes.

Chazelle trabalha seu filme a partir da evolução e entrecruzamento de olhares destes cinco personagens. Usando suas vidas a partir da metáfora de uma roda-gigante, os quatro se alternam entre faixas de bonança e miséria em suas carreiras. Todos sabem que uma transformação está por vir. E a era do som vai sacudir uma indústria que se esvai em uma série de escândalos.

“Babilônia” não tem a mesma força narrativa de “Whiplash” e, por vezes, confunde o espectador no equilíbrio entre expor as feridas daquele tempo e fazer uma grande homenagem ao cinema, mas algumas cenas do filme podem ser enquadradaa em algumas das melhores que o Chazelle fez.

Ressalto três delas. A primeira e a segunda são a dobradinha que Chazelle usa para pontuar passado e futuro e suas gritantes diferenças. Uma cena é a produção em escala industrial do cinema mudo. O diretor passa a sua câmera por uma série de filmes completamente diferentes sendo produzidos ao mesmo tempo e num espaço de menos de um metro de diferença culminando com uma grande e insana produção de guerra em que tudo acontece ao mesmo tempo, pessoas invadem o set no meio da gravação, câmeras são destruídas e tudo precisa ser construído numa velocidade absurda e em níveis de decibéis irreais para aproveitar a única coisa que importa: a luz natural. Sem luz natural, não há filme para ser feito.

Quando sai a explosão do cinema falado, todos aqueles profissionais acostumados a extravasar as emoções enlouquecidamente precisam se adaptar ao silêncio absoluto, marcações por causa do posicionamento de microfones, cenários isolados e construídos milimetricamente para fazer uma única cena. É o que vemos minutos depois no filme. Aqui Chazelle enfatiza a longa repetição e a necessidade de sair tudo perfeitamente para que o filme fique bem gravado. Um mínimo erro, uma quebra no silêncio, faz com que seja necessário gravar tudo de novo.

Nesta dobradinha, Chazelle aproveita para pontuar a crueldade do tempo passando para uma estrela como Nellie LaRoy. Excelente atriz de filmes mudos por sua facilidade de trazer expressões corporais e comunicar muito bem as emoções com o seu rosto, além de muito carismática, LaRoy agora precisa se adaptar à falta de liberdade para se mover no set, ao calor de um estúdio sem ar condicionado, pois este faz muito barulho, e â necessidade de decorar um texto e falar.

Se antes as recomendações da diretora eram genéricas para que o ator busque uma inspiração e desenvolva a partir disso, agora tudo é marcado, tudo é ensaiado.

E como é difícil para uma atriz de cinema mudo falar. Sem impostação de voz, sem nem necessariamente ser preciso ter uma voz bonita, agora os atores precisam se confrontar com os seus timbres nem sempre agradáveis e seu modo de atuar excessivamente expressivos que são ridicularizados pelo espectador do filme falado.

“Babilônia” é uma jornada de decadência de estrelas como Jack Conrad, que coprotagoniza a outra grande cena do filme em que a jornalista Elinor dá um duro discurso sobre o fim de Conrad como uma estrela do cinema. Os tempos estão mudando e Conrad não serve mais para os novos tempos. Ele está morto, e, por extensão, todos as estrelas do cinema mudo também estão mortas. Paradoxalmente, Elinor garante que Conrad está eternizado não história. No futuro, ele será reverenciado. No presente, ele não é nada além de um peso morto cujos tempos de glória já passaram.

Curiosamente, depois de espetar e girar a faca sob toda uma era do cinema, Chazelle usa o terço final do filme para uma grande homenagem a era muda e ao cinema ao longo das eras. É bastante tocante ver o Manny entrando no cinema ao mesmo tempo em que vão passando trechos de filmes antigos e na sequência ver a câmera viajando pelas décadas até chegar a “Matrix” (1999) e “Avatar” (2009). Tudo para, no fim, a câmera voltar para o espectador, a razão de ser do filme, e, por fim, para Manny, o elo condutor de toda aquela jornada, agora com mais de 50 anos e longe daquela indústria instável, desorganizado, louca e fascinante.

“Babilônia” pode parecer brega para muitos, histriônico para outros, mas eu vejo uma certa beleza no filme do Chazelle. Ele não revoluciona e nem inventa nada, mas me dá uma certa diversão ao longo de sua jornada.

Nota 7,5.



sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Os melhores e os piores filmes de 2022

Chegamos ao grande momento, o momento mais aguardado do ano: o momento de divulgar o Corneta Ballon D´Or Awards 2022. Muitos diretores e filmes entraram na disputa dada pelo prestigioso conglomerado Corneta Inc. Em busca de um lugar ao sol estiveram de mestres consagrados a novatos querendo um espacinho na lista final do júri formado por mim mesmo.

E não foi nada fácil chegar ao top-30. Contudo, após um grande esforço de reportagem mais uma vez conseguimos aí uma mescla de filmes pequenos com blockbusters, diretores de renome e outros que só o teu amiguinho cinéfilo Pernalonga de batom vai conhecer. E conseguimos ainda alguma diversidade mínima de temas e países, mostrando que só a Corneta tem a mescla ideal de Cannes, Berlim e Hollywood.

Nunca é demais reproduzir os critérios desta lista para quem está chegando agora e quer se tornar um 18º leitor da Corneta. Estiveram elegíveis para o prêmio todos os filmes que estrearam nos circuitos de cinema do Rio de Janeiro e de Lisboa entre o primeiro dia do ano e o dia 27 de dezembro. Além, é claro, dos filmes que estrearam nos cinco principais serviços de streaming no mesmo período. Serviços estes cujos nomes eu não direi, pois ninguém depositou nenhum cheque na minha conta para eu fazer merchan.

Esclarecidas as regras, vamos ao ranking dos filmes que brilharam e sobreviveram de alguma forma ao crivo implacável da Corneta:

1- “Drive my car” (“Doraibu mai kâ” — JAP). Diretor: Ryusuke Hamaguchi.

2- “Aftersun” (“Aftersun” — ING, EUA). Diretora: Charlotte Wells.

3- “A pior pessoa do mundo” (“Verdens verste menneske “— NOR, FRA, SUE, DIN). Diretor: Joachim Trier

4- “Os Fabelmans” (“The Fabelmans “— EUA). Diretor: Steven Spielberg.

5- “O perdão” (“Ghasideyeh gave sefid” — IRA, FRA). Diretores: Maryam Moghadam e Behtash Sanaeeha.

6- “Um herói” (“Ghahreman” — IRA, FRA). Diretor: Asghar Farhadi.

7- “Triângulo da Tristeza” (“Triangle of Sadness “— SUE, FRA, ING, ALE, TUR, GRE). Diretor: Ruben Östlund.

8- “A filha perdida” (“The Lost Daughter” — GRE, ING, ISR, EUA). Diretora: Maggie Gyllenhaal.

9- “Licorice Pizza” (“Licorice Pizza” — EUA). Diretor: Paul Thomas Anderson.

10- “The Batman” (“The Batman” — EUA). Diretor: Matt Reeves.

11- “Top Gun: Maverick” (“Top Gun: Maverick” — EUA). Diretor: Joseph Kosinski.

12- “Crimes do futuro” (“Crimes of the Future” — CAN, GRE, ING). Diretor: David Cronenberg.

13- “O Menu” (“The Menu” — EUA). Diretor: Mark Mylod.

14- “Nada de novo no front” (“Im Westen nichts Neues” — ALE, EUA, ING). Diretor: Edward Berger.

15- “Bardo: falsa crônica de algumas verdades” (“Bardo, falsa crónica de unas cuantas verdades” — MEX). Diretor: Alejandro Gonzalez Iñarritu.

16- “A tragédia de MacBeth” (“The tragedy of Macbeth” — EUA). Diretor: Joel Coen.

17- “Argentina, 1985” (“Argentina, 1985” — ARG, EUA, ING). Diretor: Santiago Mitre.

18- “Tudo em todo lugar ao mesmo tempo” (“Everything everywhere all at once” — EUA). Diretores: Daniel Kwan e Daniel Scheinert.

19- “Armaggedon Time” (“Armaggedon Time” — EUA, BRA). Diretor: James Gray.

20- “Golias” (“Goliath” — FRA, BEL). Diretor: Frédéric Tellier.

21- “Era uma vez um gênio” (“Three Thousand Years of Longing” — AUS, EUA). Diretor: George Miller.

22- “A acusação” (“Les choses humaines” — FRA). Diretor: Yvan Attal.

23- “O peso insuportável de um enorme talento” (“The Unbearable Weight of Massive Talent” — EUA). Diretor: Tom Gormican.

24- “Athena” (“Athena” — FRA). Diretor: Romain Gavras.

25- “O predador: A caçada” (“Prey” — EUA). Diretor: Dan Trachtenberg.

26- “O milagre” (“The Wonder” — IRL, ING, EUA). Diretor: Sebastian Lello.

27- “Trem-Bala” (“Bullet Train” — JAP, EUA). Diretor: David Leitch.

28- “Raymond & Rey” (“Raymond & Ray” — EUA). Diretor: Rodrigo Garcia.

29- “A mulher rei” (“The Woman King” — EUA). Diretora: Gina Prince-Bythewood.

30- “O homem do Norte” (“The North Man” — EUA). Diretor: Robert Eggers.

E agora vamos nos despedir do ano com o prêmio Titanic de piores filmes de 2022:

1- “Blonde” (“Blonde” — EUA). Diretor: Andrew Dominik.

2- “Animais fantásticos: o segredo de Dumbledore” (“Fantastic Beasts: The secrets of Dumbledore” — ING, EUA). Diretor: David Yates.

3- “Morbius” (“Morbius” — EUA). Diretor: Daniel Espinoza.

4- “Pânico” (“Scream” — EUA). Diretores: Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett.

5- “Samaritano” (“Samaritan” — EUA). Diretor: Julius Avery.

6- “Jurrasic World: Domínio” (“Jurrasic World Dominion” — EUA, CHI, Malta). Diretor: Colin Trevorrow.

7- “Adão Negro” (“Black Adam” — EUA, CAN, NZL, HUN — 2022). Diretor: Jaume Collet-Serra.

8- “Emancipation: uma história de liberdade” (“Emancipation” — EUA). Diretor: Antoine Fuqua.

9- “Amsterdam” (“Amsterdam” — JAP, EUA). Diretor: David O. Russell.

10- “Morte no Nilo” (“Death on the Nile” — EUA, ING). Diretor: Kenneth Branagh.

E assim despeço-me deste ano. Feliz ano novo e que venha a maravilhosa temporada do Oscar.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

As melhores séries e minisséries de 2022

O ano de 2022 está quase acabando, o governo do horror daquele que não deve ser nomeado está por um fio, mas o ano não vira sem a divulgação da terceira edição do prêmio Golden Cornetemmy Globe de melhores séries de 2022.

Este ano a disputa foi acirradíssima, voto a voto, com séries mudando de posição a cada mês, mas o júri do grupo Corneta Inc. nunca fica em cima do muro. E aqui está o top-15 do ano.

1- “Better Call Saul” (EUA — AMC/Netflix) — Se eu tivesse que resumir a sexta e última temporada da jornada de Saul Goodman em uma palavra seria IMPECÁVEL. “Better Call Saul” encerra as suas atividades alçado ao posto de terceira melhor série de todos os tempos, segundo o ranking da Corneta Inc., e merecidamente conquista o troféu máximo de melhor série de 2022.

2- “Ruptura” (Severance — EUA — 2022 — Apple TV) — Foi uma das coisas mais sensacionais que eu vi neste ano. É a série que tem a combinação da Crítica Social Foda em relação ao famigerado mercado de trabalho/capitalismo selvagem com o refrão de “A cera”, da banda Surto: “Um rosto lindo e um sorriso encantador/E um jeitinho de falar que me pirou, que me pirou o cabeção”.

3- “Pachinko” — (EUA, COR, CAN — Apple TV) — A relação predatória do Japão sobre a Coreia, o drama de imigrantes ao longo de quatro gerações, a busca por sobrevivência, prosperidade e o resgate de alguma identidade, “Pachinko” é brilhante e mereceu a disputadíssima medalha de bronze em um duelo que envolveu quatro candidatos.

4- “Euphoria” (EUA — HBO) — Ao invés de um texto, eu queria aqui colar aquele meme do Martin Scorsese com a frase “This is cinema” porque a segunda temporada é, como diria o atacante Bruno Henrique, “de oto patamar”. “Euphoria” só está aqui em quarto lugar porque o nível foi ali muito alto e o grupo Corneta Inc. precisava fazer um ranking.

5- “Casa do Dragão” (“House of the Dragon” — EUA — HBO) — Como foi maravilhoso voltar a Westeros, como foi covardia a HBO usar a mesma música tema de “Game of Thrones”. “Casa do Dragão” teve vários episódios icônicos já em sua primeira temporada e, em alguns aspectos, até superou momentos do livro “Fogo e Sangue”, no qual ela é baseada. Missão cumprida. Pode vir mais séries e temporadas que eu aceito.

6- “Andor” (EUA — Disney Plus) — Parafraseando “O Poderoso Chefão 3”, justamente quando pensávamos que Star Wars estava morto, a Disney nos dá uma série Star Wars quase perfeita. Depois das tristezas de Boba Fett e Obi-Wan, “Andor” foi o remédio para trazer de volta a esperança para a galáxia com uma trama política e atuações maravilhosas de Diego Luna e Stellan Skarsgard.

7- “O Urso” (“The Bear” — EUA — FX/Hulu) — Essa entrou na lista aos 45 do segundo tempo. Além de um monte de comida bonita, ela conquistou o seu lugar com o seu misto de pessoas caóticas, muito drama, desespero, dor e gente fodida tendo que lidar com o luto pela perda de uma pessoa muito importante enquanto administra um restaurante que vai de mal a pior. Ou seja, a série é a RECEITA (tum dum tsss) perfeita para dar certo na boca da intelectualidade.

8- “A cidade é nossa” (“We own this city” — EUA — HBO) — Aqui temos David Simon de volta à ribalta com mais uma minissérie sobre Baltimore, a corrupção da polícia e o Jon Bernthal perturbado como só ele sabe ser.

9- “Pacificador” (“Peacemaker” — EUA — HBO) — Se tivesse um prêmio para melhor abertura de série, “Pacificador” ganharia fácil. Mas ela não é só isso. A série do James Gunn é uma das melhores séries de super-heróis. Gunn fez com um único tiro o que a Marvel não alcançou em 756 lançamentos no ano. E não por acaso, a Marvel ficou de fora da lista final neste ano. “Pacificador” é anárquico, divertido, desbocado e com um protagonista carismático de quem o James Gunn conseguiu até tirar um fiapo de interpretação. A DC vive muito!

10- “Top Boy” (ING — Netflix) — A série inglesa sobre dois traficantes lucrando com o comércio de drogas em um conjunto habitacional de Londres ganhou o dinheiro da Netflix na quarta temporada, manteve a sua qualidade e ainda me deu um final de partir o coração.

11- “Sandman” — (ING, EUA — Netflix) — “Sandman”, “Wandinha”, “The Batman”… em 2022 ser gótico voltou a ser moda. Ainda bem que parou por aí e não saiu nenhum álbum do My Chemical Romance. Há limites. É uma vergonha que a Netflix tenha demorado tanto tempo para renovar esta série maravilhosa baseada nos quadrinhos de Neil Gaiman. A série é cara, mas três filmes do Adam Sandler bancariam facilmente a segunda temporada. Queremos muito mais Sandman nos próximos anos.

12- “Ozark” (EUA — Netflix) — Esta foi mais uma série que fechou com chave de ouro. Foram quatro temporadas em que eu nunca entendia de onde vinha e para onde ia todo o dinheiro porque afinal eu sou de Humanas. Contudo, a família Byrde fará falta. Uma das melhores séries da Netflix.

13- “Servant” (EUA — Apple TV) — Esta é uma série que só tem subido no meu conceito e esta terceira temporada foi o auge dela. E nada mais pode ser dito. Só que aparentemente e apesar de todo o seu esforço em provar o contrário, ainda há esperança para o Shyamalan.

14- “O senhor dos anéis: os anéis do poder” (“The Lord of the Rings: the rings of power” — EUA — Amazon) — Foi empolgante voltar para a Terra Média? Foi. Pode não ter sido perfeito, mas só o fato de a série ser bonita, da Galadriel ser muito maneira e ter um personagem tão foda quanto o Adar foi o suficiente para eu dar um voto de confiança por amor ao Tolkien na lista de 2022.

15- “The White Lotus” (EUA — HBO) — “These gays, they are trying to murder me” (ler com a voz da Tanya). Confesso que quando saiu a primeira temporada, eu assisti com certo desdenho e curti com moderação. Nesta segunda, fiquei completamente fã e já estou “whitelotuzado”. Ganhou o lugar final na minha lista de 2022.

Menções honrosas de 2022: “Entrevista com o vampiro” (AMC), “Tokyo Vice” (HBO), “The Offer” (Paramount), “The English” (BBC/Amazon) e “Mulher-Hulk” (Disney Plus).

E agora vamos ao prêmio “La Casa de Papel” de piores séries de 2022:

1- “La casa de papel: Coreia” (Money Heist: Korea — Joint Economic Area” — COR — Netflix) — Sim, amigos, é possível cometer o mesmo erro duas vezes. Eu sou a prova disso. Pior do que o original, só mesmo a cópia.

2- “The Umbrella Academy” (EUA, CAN — Netflix) — Meus olhos sangraram em cada minuto da terceira temporada, que atingiu escalas de ruindade poucas vezes vista na história da dramaturgia.

3- “Sem limites” (Sín limites — ESP — Amazon) — Isso tinha tudo para ser legal. Era para contar a história de como Fernão de Magalhães encontrou um caminho que liga os oceanos Atlântico e Pacífico, mas ela é permeada de uma visão colonizadora e todo um heroísmo duro de engolir. Menos né.

4- “Céu Noturno” (“Night Sky” — EUA — Amazon) — Taí uma série que eu só senti o vazio, a insignificância e a sensação de estar perdendo um tempo precioso da minha vida em torno do nada.

5- “Cobra Kai” (EUA — Netflix) — Espremeram tanto e até oo bagaço o suco de “Cobra Kai” que ela saiu de duas primeiras temporadas muito boas e dignas para uma quinta temporada que vai se arrastando pelas raias da irrelevância. É uma pena, mas ultrapassaram os limites. Esperamos que a próxima recupere um pouco o fôlego e tenha um final minimamente digno.

Por hoje é só. Amanhã voltamos com os melhores filmes de 2022.

sábado, 8 de outubro de 2022

"Não se preocupe, querida": Algumas boas ideias e altos e baixos

Pugh faz a sua parte e Styles não acompanha
Atriz presente em uma série de projetos populares, Olivia Wilde vem, desde 2019, se arriscando no trabalho de diretora. “Fora de série” (“Booksmart”, no original), seu primeiro filme lançado há três anos, era uma típica comédia adolescente sobre uma passagem importante na vida de duas jovens: o período entre a formatura da escola e o início na universidade. No filme, as duas protagonistas tentam viver todas as emoções que não viveram até então enquanto refletem sobre os desafios daquela fase da vida.

Embora não seja exatamente um grande filme, “Fora de série” é despretensioso e divertido. E mostra um pouco das pretensões de Wilde como diretora. Contar histórias femininas, refletir sobre o que as mulheres pensam, mostrar um protagonismo feminino numa seara quase exclusivamente masculina neste gênero específico de filme.

“Não se preocupe, querida” (Don’t worry darling, no original), seu mais recente trabalho é um passo além nas suas ideias. A intenção permanece a mesma, mas aqui Wilde vai além nas suas reflexões no sentido de mostrar alguns perigos da vida adulta vividos pelas mulheres.

Para isso, Wilde traça uma alegoria. Uma sociedade distópica com ecos em “Matrix” (1999) onde tudo é estranhamente perfeito, simétrico e rotineiro. Wilde faz questão de pontuar muito fortemente a rotina a ponto de até entediar e/ou causar incômodo no espectador. Rotina esta que sofre pequenas rupturas. Algumas com mais estranhamento, como os ovos quebrados sem gema, outras que parecem mais comuns: uma carne queimada, um salto temporal, sonhos e ilusões.

A primeira hora de “Não se preocupe, querida” é tomada pelo incômodo e a ambientação plastificada e perfeita do tal projeto Vitória comandado por Frank (Chris Pine).Ali acompanhamos Jack (Harry Styles) e Alice (Florence Pugh), um casal completamente feliz, parecendo em eterna lua de mel, e sua vida burguesa e cercada de casais de amigos numa comunidade criada no deserto.

Tudo parece muito falso. Alice é a esposa perfeita de uma comunidade solar e parada nos anos 50 do século passado. Lava, passa e cozinha, devotada ao marido, cuida dele. Jack é um bem-sucedido engenheiro que trabalha num projeto secreto, sobre o qual não pode falar nem para a própria esposa.

Desde o início, naquela rotina de dona de casa eterna e repetitiva, tudo parece estranho. E Wilde vai bem em esconder o jogo ao mesmo tempo em que revela pequenas fraturas naquela sociedade perfeita. A mais grave, e que desperta o interesse de Alice, é o surto de Margaret (Kiki Layne).

A partir daí vamos descobrindo a verdade por trás desta comunidade utópica. Por outro lado, é exatamente no momento desta virada que o filme, ao mesmo tempo em que exibe algumas ideias interessantes para a história e para refletir sobre a violência e opressão masculina sobre a mulher, mostra-se apressado e despejando muitas coisas para processar a história. Era como se ele tivesse um ritmo e depois precisasse acelerar demais para acabar e concluir todas as pontas para não deixar nada solto.

É uma pena, pois a ideia por trás do filme era boa. Ainda que q sua realização tenha sido problemática, como as fofocas e disse me disse de bastidores do set. Não entrarei neste mérito. Mas se isso interferiu ou não no trabalho dos atores, o que vemos é apenas uma Florence Pugh que entrega algo minimamente aceitável. Ela e a própria Olivia Wilde no papel da melhor amiga de Alice, Bunny, são o que o filme tem de melhor.

Styles, por sua vez, é constrangedor como ator. Zero emoções, zero expressões para além do básico e sem conseguir acompanhar a versatilidade de Pugh, atriz competente que consegue tomar para si os holofotes nos filmes em que tem participado. Enquanto Pine parece um vilão barato de James Bond.

O mais interessante mesmo de “Não se preocupe, querida” é ver a evolução de Wilde como diretora. Ainda que seja possível questionar algumas de suas escolhas na tela, ainda penso que este filme é um avanço de alguém que está construindo a própria voz cinematográfica e amadurecendo a sua linguagem.

Nota 6.



segunda-feira, 29 de agosto de 2022

"Nope", o olhar e a espetacularização do horror

OJ e Emerald em busca da fama
Podemos gostar ou não de Jordan Peele, mas não tem um filme da sua ainda curta cinebiografia como diretor que não nos faça pensar e não nos tire da nossa zona de conforto particular. Em meio a um cinema comercial que é quase sempre pasteurizado, Peele é uma grife que usa o horror para refletir sobre a história e a sociedade. É assim com “Corra!” (“Get Out”, no original, de 2017) e sua parábola sobre o racismo, e também com “Nós” (“Us”, no original, de 2019), que também tem o racismo e a invisibilidade de povos como pano de fundo.

“Não! Não olhe!”, o péssimo título brasileiro para “Nope”, seu terceiro filme, também não deixa de falar sobre a história negra, mas seus temas também parecem ser outros. Aqui, Peele parece querer fazer uma reflexão sobre o próprio momento vivido pelo cinema comercial, o palco do blockbuster espetáculo, e também da sociedade e do jornalismo, onde a espetacularização do horror está na ordem do dia.

Em entrevistas, Peele disse que “Nope” surgiu de uma preocupação sua com relação ao futuro do cinema. Ele, portanto, queria criar um espetáculo, algo que as pessoas quisessem ir ver. E nada melhor do que criar uma tradicional história americana sobre alienígenas. Peele cita ainda que as influências de “Nope” estão em filmes como “King Kong” (1933), “O Mágico de Oz” (1939), “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” (1977), “Jurassic Park” (1993) e “Sinais” (2002). De fato, dá para dizer que há elementos de muitos destes filmes na história desenrolada pelo diretor.

Olhando de forma mais simplória, “Nope” poderia ainda se inserir num grupo de filmes como “Tubarão” (1975) ou “Alien” (1979), que consiste num grupo de pessoas tentando aniquilar um monstro assustador.

Contudo, diante deste olhar, “Nope” perde força. Porque ele não é um entretenimento tão interessante quanto todos os filmes citados acima. Sob esta perspectiva — pois já falaremos de outra — percebe-se pouco sobre as motivações dos personagens e não se faz qualquer relação da história principal com a trama paralela do show “Gordy”, que acaba em tragédia.

É quando vamos em busca das camadas que Peele gosta de introduzir em seus filmes que “Nope” ganha fôlego e se torna minimamente interessante. E aqui cabe uma reflexão sobre o olhar.

Cinema é muitas coisas, mas primordialmente é ver. Cinema envolve a questão do olhar porque, tal qual a pintura, surgiu como uma arte para deleite, num primeiro momento, dos olhos humanos. E sua magia inigualável vem do fato de, a cada filme, observarmos de forma quase voyeurística e escondido numa sala escura, a vida de dezenas de desconhecidos que passam em movimento na nossa frente através de uma tela. Algo muito mais rico para o espectador do que o estatismo da pintura.

Em “Nope”, Peele nos confronta com o fetiche do olhar. Olhar significa morrer. Porque é o olhar que atrai a criatura que nos devora. Por isso não devemos olhar para onde a criatura estranha do filme está. Todavia, a curiosidade é a necessidade de olhar são muito fortes e o diretor brinca com todo este sentimento. Por mais perigoso que seja, é muito forte o desejo de ver.

De certa forma, OJ Haywood (Daniel Kaluuya) e sua irmã Emerald (Keke Palmer) são nossos representantes na tela. Aqueles que olham para o alto, mesmo sabendo que não devem, pois isso pode significar a sua morte. E a força e a agonia com que OJ e Emerald se esforçam no terceiro ato do filme para não olharem é muito humano e real, pois vivemos numa sociedade eminentemente voyeur.

É onde chegamos a um segundo ponto da reflexão que “Nope” nos traz. Se por um lado vivemos já há algumas décadas num mundo de um voyeurismo amplificado pelas redes sociais, afinal não nos interessa mais observar a intimidade dos famosos, mas também queremos invadir a intimidade dos comuns, por outro não nos satisfazemos mais com o comum. O ordinário, o comum, passam ao largo da ordem do dia. O que chama a atenção é o que se destaca. E o que mais se destaca é quando se vai ao extremo. É aqui que se chega na espetacularização do horror.

Tudo o que envolve as duas histórias paralelas do filme é esta ideia da espetacularização do horror. A motivação de OJ e Emerald com a criatura que paira sob a fazenda deles é registrar aquele fenômeno único para aparecerem no programa da famosa apresentadora Oprah Winfrey. É para isso que eles arriscam a vida, quando simplesmente poderiam ter ido embora daquele lugar decadente. Especialmente após a morte do pai deles de uma forma até então muito estranha no início do filme. Forma esta tratada como um acidente raro, mas não no âmbito do sobrenatural.

O monstro alienígena vira uma janela de oportunidade para OJ e Emerald resolverem seus problemas e, quem sabe, ganharem um novo fôlego no negócio da família e manterem a fazenda herdada do pai. Mal ou bem, eles querem traçar o caminho de Ricky (Steven Yeun), que ficou famoso na infância por participar de uma série de TV que acabou tragicamente com um chimpanzé matando dois atores em cena.

Na história do filme, aquele momento foi fartamente explorado pela mídia — tanto que Ricky cita que virou esquete no Saturday Night Live, famoso programa de humor americano — e pelo próprio Ricky, que, apesar do claro trauma que viveu com consequências até a sua vida adulta, o explorou para ganhar dinheiro e criar o seu próprio negócio, um parque de diversões com uma temática Western.

Ricky também sabe da existência da criatura alienígena na região e a usa a seu favor criando esquetes e merchandising em torno disso, bem como a promessa do espectador de experienciar aquele momento de terror com alguma segurança em sua arena em que oferece cavalos como alimento da criatura. No entanto, algo sempre pode dar errado quando testamos o limite de criaturas que não conhecemos. É algo que Ricky deveria ter aprendido com Gordy, mas prefere novamente esticar a corda diante do desconhecido.

Ricky, OJ e Emerald querem se apoderar do horror e faturar com ele. Assim como o diretor de cinema Antlers Holst (Michael Wincott), para quem vale tudo para conseguir filmar na Golden hour, e o jornalista do TMZ, que mesmo gravemente ferido, precisa tirar uma foto para publicar no seu site. Estes recados deixados por Peele na parte final do filme são muito interessantes ao mostrarem como alguns estão dispostos a ir além do limite por algo supostamente único em meio a um oceano de coisas mundanas.

“Nope”, porém, carece de uma conclusão para estes caminhos traçados por Peele. Há ali reflexões interessantes, mas ele não vai muito além do que estas ideias levantadas por Peele. Ou talvez nem houvesse grandes ideias. Talvez o diretor só quisesse construir mesmo um filme-espetáculo sobre um invasor alienígena e os humanos tentando sobreviver. Fica a sensação de que havia um potencial filme melhor em “Nope” do que o que chegou até nós. Neste ponto, os dois trabalhos anteriores de Peele são mais redondos.

Nota 6.



domingo, 5 de junho de 2022

“Top Gun: Maverick” é para os fãs, mas não se apega exclusivamente à nostalgia

Tom Cruise pilotou jatos para fazer o filme


Desde que o projeto de uma continuação de Top Gun começou a ser divulgado, parecia inegável que o objetivo era voltar para aquele universo dos chamados “melhores pilotos do mundo” como um exercício de nostalgia dentro da cada vez mais crescente indústria do cinema nostálgico. “Top Gun: Maverick” não nega tais expectativas. Mas o que faz o filme ser tão bom e talvez até superior ao original é que ele vai além disso.

Dentro da capa de obviedades e previsibilidades que o roteiro nos exibe e as inevitáveis belas e emocionantes imagens que o diretor Joseph Kosinski nos oferece, há uma história que é de fato interessante em torno de culpa, reconciliações, redenção e a tentativa de aprender com os erros do passado.

“Maverick” segue desde o início a trajetória do Capitão Pete “Maverick” Mitchell (Tom Cruise). Já há anos fora do chamado esquadrão Top Gun, de onde foi expulso uma vez que o personagem sempre teve problemas em lidar com autoridades e cumprir ordens, Maverick está trabalhando num projeto do governo em que faz o que sabe fazer melhor: esticar a corda do limite para conseguir resultados excelentes em tempo recorde.

Mas a pedido do velho rival/parceiro, o agora almirante Iceman (Val Kilmer, que com a saúde debilitada faz uma participação especial e recebe uma bonita homenagem no filme), Maverick é convocado para voltar aos Top Gun. O objetivo é fazer o capitão cujas insubordinações e desrespeitos nunca o fizeram ir além na hierarquia da Marinha, ensinar novos pilotos a enfrentarem uma missão suicida num país estrangeiro cujo nome nunca é revelado.

Esta é a história básica do filme. A partir daí, “Maverick” vai aproveitando os cenários para trazer reconfortantes momentos do passado e colocar o seu protagonista em conflito com os traumas de quando era um jovem piloto. O conflito a partir daí se dá com a presença de Rooster (Miles Teller), filho do seu velho parceiro Goose, e que não perdoa Maverick por ter atrasado a sua carreira na Marinha. A relação paternal, a tentativa de proteger Rooster e a busca por reavaliar os erros cometidos no passado e buscar finalmente um caminho para a sua vida que parece ter parado no tempo nas últimas décadas estão no entorno da trajetória de Maverick.

Ao mesmo tempo, cabe ao capitão mostrar que, embora os pilotos de caça sejam uma espécie em extinção numa era de guerra de drones, o ser humano ainda é relevante e, mesmo com sua impetuosidade e desrespeito por hierarquias, ele ainda tem um lugar a ocupar e pode ser útil naquele momento.

“Maverick”, portanto, parece até ter mais camadas interessantes do que um mero filme de ação. Contudo, é claro que o que mais pega no fã do “Top Gun” original são as referências e o conforto nostálgico do que o filme traz da década de 80. “Maverick” teve o cuidado de trazer vários elementos do passado, como a trilha sonora original representada pelo “Top Gun Anthem”, música instrumental de piano e guitarra composta por Harold Faltermeyer e Steve Stevens, e por “Danger Zone”, de Kenny Loggins, que abre o filme para pegar o fã antigo logo de jeito. Só não está presente a balada de sucesso “Take my breath away”, visto que aquele era o tema do par romântico vivido por Cruise e Kelly McGills, que não volta para o filme atual. Novo interesse romântico de Cruise, Penny (Jennifer Connelly) — chamada no primeiro filme de “a filha do almirante” com quem Maverick teve um caso no passado — tem seu romance embalado pela canção original de Lady Gaga, “Hold my hand”.

O filme também procura traçar seus paralelos com o passado. Por isso Rooster é tão parecido com o pai, ao ponto de também tocar no piano do bar como Goose após uma manjada cena de pilotos num papo daqueles de quem está medindo quem tem o pau maior. Um clássico de filmes do gênero.

Além da cena do bar, há uma repetição de elementos do filme original. Entre eles, Tom Cruise andando de moto com o avião levantando voo ao seu lado, usando a jaqueta e o óculos escuro tradicional, a famosa cena na praia com corpos suados apenas substituindo o vôlei por futebol americano, e as belas imagens de jatos e cenários na golden hour, um clássico do filme original de Tony Scott. Todos estes elementos nostálgicos reconfortam o coração do fã antigo, claramente pego pela emoção, ainda que o filme traga também outros elementos.

Entre a história e a nostalgia, “Maverick” ainda traz insanas sequências de ação, que são ainda mais impressionantes quando se tem noção que Tom Cruise e os demais atores realmente se filmaram voando em jatos da Marinha americana. É claro que a edição e a trilha sonora tornam tudo ainda mais perigoso, mas não deixa de ser impressionante o nível de risco a que Cruise se impõe para dar um grau a mais de veracidade ao filme. Realmente desde o treinamento e até a missão real do final são cenas de tirar o fôlego e que valem ser vistas numa tela grande como a do cinema.

Assim, “Maverick” cumpre a sua função de entreter o espectador e reconfortar o coração do fã que talvez nem soubesse que desejava voltar para aquele universo. Pode não ser um filme perfeito, mas é um filme de ação blockbuster como raramente temos visto nos últimos anos, uma vez que o cinema tem estado inundado de filmes de super-heróis e franquias em geral.

Nota 8.