sábado, 3 de junho de 2017

Que maravilha

Belo crepúsculo, Diana
Quem acompanha a Corneta (alguém ainda acompanha isso? Ainda tenho 17 leitores?) sabe que frequentemente eu comparo a rivalidade Marvel x DC como um grande Alemanha x Brasil e aquele épico, fantástico e inesquecível 7 a 1. A DC merece a comparação porque andou nos entregando bombas terríveis de digerir como os recentes "Batman vs Superman" e "Esquadrão Suicida". Pérolas da ruindade dignas do Framboesa de Ouro e dos prêmios de piores do ano do Corneta Awards. Mas em "Batman vs Superman" havia uma mulher que quase roubou o filme, que deu um fiapo de dignidade para aquela coisa que tiveram a coragem de chamar de cinema. Tratava-se da Mulher Maravilha (toca a música-tema: tãrãrãrãaaannn tum tum tu du tum tum tãrãrãrãnnnn...)
Como a DC não pode ficar atrás da Marvel na expansão do seu universo de heróis clássicos, eles trataram de dar à personagem um filme para chamar de seu. Uma decisão acertada. Afinal, é uma personagem sensacional (na minha preferência só perde para o Batman no mundinho da DC) e era uma chance de a DC fazer algo na frente da Marvel: um filme solo minimamente decente com uma super-heroína. Deu mole, Stan Lee. E há anos pedimos um solo da Viúva Negra. Fica o meu protesto.
"Mulher Maravilha" é aquele típico filme de origem. Aquele em que conhecemos como aquele personagem querido tornou-se quem é. Você está de saco cheio disso? Principalmente quando eles são excessivamente longos e cheio de gordura para cortar? Parece que o resto do mundo ainda não.
O filme começa com um enorme desperdício de verba de Bruce Wayne. Ao invés de enviar por Fedex de Gotham até Paris a foto de Diana (Gal Gadot) com seus amigos na Primeira Guerra Mundial, ele a manda em uma pasta fechada dentro de um carro-forte com seguranças. Típico exibicionismo de gente rica. Se eu não soubesse que Bruce só tem olhos para a Mulher-Gato, eu diria que ele estava querendo pegar a Diana. O que eu questiono é: por que o senhor Wayne não digitalizou e mandou a imagem para o e-mail dela por pdf? Por que não mandar um zap? Só quis aparecer, né.
Enfim, aquela foto maravilhosa acaba despertando os instintos mais primitivos na moça. Uma reminiscência de cem anos atrás, quando ela lutou na guerra com o primeiro homem que viu na vida, o Steve Capitão Kirk (Chris Pine), o chefe apache (Eugene Brave Rock), o galanteador poliglota Sameer (Said Tagmahaoui) e o escocês bêbado Charlie Trainspotting Spud (Ewen Bremner). Não era a Liga da Justiça ideal, mas era Liga da Justiça possível naqueles tempos. Lembrem que em 1918, Bruce Wayne e Barry The Flash Allen ainda não tinham nascido, o Aquaman provavelmente estava curtindo a vida e bebendo todas em Atlântida, o Superman estava na sua Krypton distante e o Lanterna Verde devia estar em outra galáxia.
E onde Diana estava? Na sua ilha grega paradisíaca habitada apenas por amazonas guerreiras prontas para enfrentar Ares, o deus da guerra, assim que ele desse pinta de novo. Lá ela não era nenhuma maravilha. Afinal, num lugar em que todas são especiais, você é só mais uma. Pelo menos é o que mamãe Hipólita (Connie Nielsen) tenta fazê-la acreditar. Mas se você vive no mesmo espaço com Carrie Underwood, quer dizer, Antiope (Robin Wright), sabe que mesmo sendo rainha não vai apitar nada. Titia tinha outros planos para Diana. Ela sabia que a moça era especial. Afinal, ela nasceu de um momento "Ghost, do outro lado da vida", entre Hipólita e Zeus. Ali, naquele barro esculpido, tocando "Unchained Melody" ao fundo, Diana viria ao mundo como alguém diferenciada entre as diferenciadas.
Mas que não sabe nada da vida. Afinal, ela vivia numa bolha grega. Numa timeline de Facebook cuidadosamente higienizada por mamãe para que ela veja só a beleza do mundo. O que não é difícil quando se está na Grécia.
Mas um dia essa bolha precisa romper para ela cair na vida. E ela rompe com a queda do avião de Steve. Diana fica curiosa quando vê o primeiro homem da sua vida. E não fica muito espantada diante dos, digamos, países baixos do rapaz. Steve é um espião. Caiu ali por acaso através de uma falha no escudo protetor da ilha de Lost de Themyscira. Mas tem uma missão. Salvar o mundo e tentar acabar com a guerra. Diana sente que essa é sua missão também. Ela precisa sair pelo mundo e defender os fracos e oprimidos. Precisa destruir Ares, esse deus inconveniente. Então ela pega o escudo, a espada, o laço dourado e os braceletes maneiros e vai para a luta. Parênteses para dizer que as cenas com o laço são realmente MUITO legais.
Durante todo o filme haverá esse choque da moça tentando entender aquele mundo louco em que homens se matam e escravizam sem qualquer razão ao mesmo tempo em que ela precisa protegê-los e correr atrás de Ares, a quem julga ser o grande responsável por essa tragédia. Quem a ouve pensa que ela é maluca. Afinal, os alemães são os reais inimigos. Mas como ela vale por um exército a deixam delirar. Tolinhos.
E aqui entramos na importância de Gal Gadot para o filme. Porque essa atriz israelense é magnética e tem todo o carisma necessário para ser a Mulher Maravilha. Ela já ofuscava o Ben Affleck (o que não é difícil até para uma porta) e o Henry Cavill em "Batman vs Superman". E se você assistir ao trailer da "Liga da Justiça", cuja estreia está prevista para novembro, ela rouba a cena toda vez que aparece. Algo me diz que Gal estará futuramente para a Mulher Maravilha como Christian Bale, Hugh Jackman e Robert Downey Jr. estão para o Batman, Wolverine e Homem de Ferro, respectivamente.
O que Gal Gadot não precisava era do ventilador da Beyoncé na cara dela toda vez que parte para uma cena "grandiosa" e que supostamente deve ser um divisor de águas na sua biografia e no seu amadurecimento. É assim nas trincheiras da guerra, é assim e com muito abuso no seu duelo final. Por que gente? É necessário mesmo tantos cabelos esvoaçantes? Cabelo esvoaçante com mulher lutando é a pochete do cinema.
Ela também não precisava do discurso brega/auto-ajuda do roteiro de que o amor vence tudo e purifica as almas impuras. Pior do que isso, só se ela cantasse Maiara e Maraísa.
Realmente, o roteiro dá umas escorregadas que aliada à tendência natural da DC ao kitsch em suas cenas de ação fazem a gente dar umas reviradas no estômago e bufar de tédio. Por exemplo, a cena final é longa demais, exagerada demais, é uma explosão de cores demais, é tudo muito too much. Por isso, que as minhas batalhas preferidas acabaram sendo as do vilarejo e a das trincheiras.
Em geral, os principais heróis da DC são poderosos demais. Muito mais do que os da Marvel, que são mais humanos. Pois eles são semideuses que fazem coisas incríveis ou humanos que ganharam poderes grandiosos. As exceções são o Batman e o Arqueiro Verde. Mas ambos são bilionários. O que não deixa de ser um superpoder e tanto. E na hora de ir para o cinema está sendo difícil lidar com isso.
Mas a DC parece estar aprendendo. E assim ‪"Mulher Maravilha" está aprovado, mas com ressalvas. Ganhará da Corneta uma nota 7.

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