quinta-feira, 9 de março de 2023

Comentários e o ranking do Oscar – 2023


A inflação da guerra está galopante, anda sendo mais fácil ganhar na Euromilhões do que encontrar uma casa para morar, MAS o que não pode faltar todo ano é a análise final, definitiva e implacável do Oscar. A cerimônia é no próximo domingo, em Los Angeles. Enquanto não chega o meu pijama de gala encomendado na Versace para acompanhar a festa madrugada adentro, vamos ao que interessa: a análise MINUCIOSA de cada categoria.

Não há nada de novo no front (tum dum tsss) da Academia neste ano. Tem o filme de guerra, tem o filme autobiográfico, tem a homenagem ao cinema, tem o blockbuster para fazer o otário ver a cerimônia mesmo sabendo que o filme não vai ganhar nada, tem os filmes-sacrifício (olha como ele imita bem o Elvis, olha a quantidade de prótese que ele usou para fazer um obeso!), tem a cota índie, tem a crítica social foda, tem um monte de daddy e mommy issues. Talvez a coisa mais nova seja um filme sobre o multiverso, mas que não é da Marvel (por que choras?).

Quando os indicados saíram, houve quem dissesse que era a pior safra dos últimos anos. É coisa de quem não lembra que “Titanic”, “Crash” e “Spotlight” já ganharam um Oscar de melhor filme. É coisa de quem não lembra que AQUELE “Esquadrão Suicida” tem um Oscar e que “Bohemian Rhapsody”, o filme mais mal montado do universo tem um Oscar de MONTAGEM. Todavia, podemos comprovar por dados estatísticos como a safra é semelhante a outros anos. De acordo com o instituto CornetaStats, a nota média dos indicados a melhor filme deste ano é de 7,75. Isso é 0,35 acima da safra 2022, mas, claro, ainda longe dos 8,12 de média da safra 2021. Portanto, o índice “Spotlight” de potencial tragédia mantem-se preocupante, mas estável por mais um ano.

Contudo, deixemos de conversinhas. Vamos aos meus queridinhos e os meus odiados da lista deste ano (Alô Academia, computa os meus votos! Eu vejo mais filmes que muita gente que têm cédula para votar).

FILME – O apoio incontestável da Corneta neste ano é quase um momento de reconciliação. Há muito tempo eu não via um filme tão espetacular e tão bonito de Steven Spielberg quanto “Os Fabelmans”. Ele ainda teve a covardia de me colocar o David Lynch para uma participação especial. Aí é crueldade. Portanto, a sua ficção com tintas autobiográficas é o meu queridinho deste ano.

Claro que não seria nada mal se ganhasse “Os Banshees de Inisherin”, “Nada de novo no front” ou “Tár”. Eu também ia adorar uma certa dose de ousadia, por diferentes motivos, caso o vencedor fosse “Tudo em todo lugar ao mesmo tempo”, “Top Gun: Maverick”, “Triângulo da Tristeza” ou “Entre mulheres”. Agora, o que não pode acontecer é o careca dourado parar nas mãos azuis de “Avatar: o caminho da água” ou nos quadris rebolantes de “Elvis”, os candidatos a “Crash” deste ano. Ou seja, o Oscar tem 20% de chance de dar errado.

ATOR – Eu sei que Brendan Fraser (“A Baleia”) é barbada. Para completar, ele tem dois indicadores do bingo do sacrifício que o Oscar adora: seu filme é uma espécie de comeback da sua carreira e ele usou próteses pesadas para mudar a aparência. Fraser merece, mas se eu votasse eu daria o meu careca dourado para Paul Mescal, cujo “Aftersun” merecia estar concorrendo, inclusive, na categoria principal. Colin Farrell (“Os Banshees de Inisherin”) levaria a minha medalha de bronze.

ATRIZ – Minha grande pergunta nesta categoria é: o que faz Ana de Armas aqui? Nada contra ela, mas tudo contra “Blonde” e um trabalho que não é exatamente top. Com exceção dela, todas as outras quatro estão ótimas e é muito difícil escolher. Diz a lenda que Michelle Yeoh (“Tudo em todo lugar ao mesmo tempo”) é favorita e até seria merecido o seu Oscar, mas a minha preferida ainda é Cate Blanchett porque seu trabalho em “Tár” é fenomenal. Minha medalha de bronze aqui vai para Michelle Williams (“Os Fabelmans”).

DIRETOR – Steven Spielberg (“Os Fabelmans”) é disparado o meu favorito, mas ficaria satisfeito se Todd Field (“Tár”) ou Martin McDonagh (“Os Banshees de Inisherin”) levassem o Oscar.

ATRIZ COADJUVANTE – Nesta categoria, pouco se fala de Kerry Condon, mas ela é a minha favorita de todas. A sua personagem é uma das mais interessantes e uma espécie de voz da consciência e que deseja fugir de uma vida em que não se encaixa em nada “Os Banshees de Inisherin”.

ATOR COADJUVANTE – A participação de Judd Hirsch em “Os Fabelmans” é pequena, mas muito boa e marcante. Porém, aqui eu fico com o Brendan Gleeson por “Os Banshees de Inisherin”.

ROTEIRO ADAPTADO – A lista deste ano me pareceu um pouco preguiçosa. “Nada de novo no front”, “Glass Onion”, “Living” e “Top Gun: Maverick” (minha maior estranheza entre os cinco) são basicamente adaptados ou baseados em filmes anteriores. E não trazem exatamente nada de novo ou imperdível. Portanto, para valorizar a literatura o meu voto vai para “Entre mulheres”.

ROTEIRO ORIGINAL – Gosto muito de todos os cinco indicados, mas como não posso ficar em cima do muro vou votar em “Tár” pela forma como ele me enganou me fazendo acreditar que aquilo era uma cinebiografia real. “Os Banshees de Inisherin” e “Os Fabelmans” completaria o meu pódio imaginário.

FILME INTERNACIONAL – Adoro quatro dos cinco indicados: “Nada de novo no front”, “Argentina, 1985”, “Close” e “The Quiet Girl”. Não entendo o hype de “Eo”. Como eu tenho que escolher um, ficaria com o belga “Close”.

ANIMAÇÃO – Nunca vou entender o que se viu tanto no “Pinóquio” do Del Toro, mas parece que é um dos favoritos. Uma pena, porque a melhor animação disparada é “Marcel the Shell with Shoes On”. Logo abaixo, com a minha medalha de prata, fica “Red: Crescer é uma fera”. O resto é esquecível.

DOCUMENTÁRIO – Eu queria que “Navalny” ganhasse porque foi o que mais me surpreendeu entre os cinco indicados. Meu segundo favorito é “All the Beauty and the Bloodshed”, seguido da bela e trágica história de “Vulcões: A tragédia de Katia e Maurice Krafft”.

Agora vamos dar uma de gato-mestre nas categorias técnicas.

FOTOGRAFIA – “Império da Luz”, com “Nada de novo no front” e “Tár” logo atrás na minha lista de preferências.

MONTAGEM – “Tár” é disparada a minha montagem favorita. Foi das coisas que mais me chamou a atenção no filme.

TRILHA SONORA – Entre os cinco indicados, a minha favorita é a de “Nada de novo no front”.

FIGURINO – “Babilônia”, com “Pantera negra: Wakanda para sempre” ali na medalha de prata.

DIREÇÃO DE ARTE – “Nada de novo no front” é o meu favorito aqui, seguido de “Babilônia”.

CANÇÃO ORIGINAL – A minha favorita inicialmente era “Lift me up”, da Rihanna, do filme “Pantera Negra: Wakanda para sempre”. Aí eu fui ouvir de novo as cinco canções. Quando eu cheguei em “Hold my Hand”, da Lady Gaga, eu senti um imediato desejo de pegar óculos escuros Rayban e jaqueta de couro preta, sair de moto por aí sem capacete e com o pôr-do-sol ao fundo e me alistar na marinha americana para pilotar caças. Não é possível ficar contra “Top Gun: Maverick”.

EFEITOS VISUAIS – É provável que “Avatar” ganhe um Oscar aqui, mas eu não vou votar em filme meia-boca. Meu voto aqui é para “Nada de novo no front”, mas ficaria feliz se “Top Gun: Maverick” ganhasse aqui.

MAQUIAGEM E CABELO – “Elvis” e “A Baleia” podem chamar mais atenção, mas eu daria facilmente o meu voto para “Pantera Negra: Wakanda para sempre” nesta categoria.

SOM – “Top Gun: Maverick” e “Nada de novo no front” são os meus favoritos e ficaria satisfeito se um dos dois ganhasse.

Dito isso, assim ficaram distribuídos os carecas dourados da Corneta:

3 carecas – “Tár” e “Nada de novo no front”.

2 carecas – “Os Fabelmans”, “Os Banshees de Inisherin” e “Top Gun: Maverick”.

1 careca – “Aftersun”, “Entre mulheres”, “Close”, “Marcel The Shell with Shoes on”, “Navalny”, “Império da luz”, “Babilônia” e “Pantera Negra: Wakanda para sempre”.

Para finalizar, vamos ao RANKING do Oscar:

1- “Aftersun”

2- “Os Fabelmans”

3- “Tár”

4- “Os Banshees de Inisherin”

(Os filmes acima estão classificados para a Copa Libertadores)

5- “Close”

6- “The Quiet Girl”

7- “Triângulo da Tristeza”

8- “The Batman”

9- “Top Gun: Maverick”

10- “Nada de novo no front”

11- “Navalny”

12- “Entre mulheres”

(Os filmes acima estão classificados para a Copa Sul-Americana)

13- “To Leslie”

14- “Babilônia”

15- “Bardo: falsa crônica de algumas verdades”

16- “Tudo em todo lugar ao mesmo tempo”

17- “Argentina, 1985”

18- “A Baleia”

19- “Império da Luz”

20- “Viver”

21- “Marcel The Shell with Shoes On”

22- “All the Beauty and the Bloodshed”

23- “Red: Crescer é uma fera”

24- “Vulcões: a tragédia de Katia e Maurice Krafft”

25- “RRR: Revolta Rebelião Revolução”

26- “Pantera Negra: Wakanda para sempre”

27- “Sra. Harris vai a Paris”

28- “A house made of splinters”

29- “Glass Onion: um mistério Knives Out”

30- “Avatar: o caminho da água”

31- “Passagem”

32- “Elvis”

33- “Tell it like a Woman”

34- “A fera do mar”

35- “EO”

(Os filmes abaixo foram rebaixados para a segunda divisão)

36- “Pinóquio de Guillermo del Toro”

37- “Gato de Botas 2: o último pedido”

38- “Tudo o que respira”

39- “Blonde”

segunda-feira, 6 de março de 2023

“A Baleia”: o brilho de Fraser num filme de Aronofsky que não sai do lugar comum

A fé tem sido uma reflexão constante na recente filmografia de Darren Aronofsky. Desde o fraco “Noé” (2014), passando por “Mãe!” (2017) e chegando até ao seu mais recente trabalho, “A Baleia”, Aronofsky vem se dedicando a questionar os fundamentos do divino, as contradições da religião e a ideia de redenção até certo ponto também tocada em “A Fonte da Vida” (2006). Se seus dois trabalhos anteriores eram mais diretos em retratar passagens bíblicas, especialmente a forma mordaz e provocadora de “Mãe!”, que tanta controvérsia causou quando do seu lançamento, “A Baleia” busca menos o choque pelo que se vê e mais em desenterrar as contradições do discurso religioso.

Calcado na magistral interpretação de Brendan Fraser, “A Baleia” porém, não vai muito fundo em algumas de suas propostas. Se Fraser merece todos os elogios e prêmios pelo seu trabalho de fato acima da média dentro da sua carreira de altos e baixos, Aronofsky fez um dos filmes menos interessantes de sua rica filmografia formada por ótimos trabalhos como “Pi” (1998), “Réquiem para um sonho” (2000), o já citado “Fonte da vida” (2006), “O Lutador” (2008) e “Cisne Negro” (2010).

Passado quase que integralmente num único cenário, “A Baleia” conta a história de um professor de inglês recluso que vive com obesidade mórbida e, no que parece ser a reta final de sua vida, tenta se reconectar com a sua filha. A ideia de busca de uma redenção quase bíblica está em toda a história de seu protagonista, que deseja que ao menos uma coisa em sua vida, vista por ele como sacrificante, tenha dado certo antes de ele partir.

Charlie (Brendan Fraser) é orbitado por Liz (Hong Chau), a enfermeira que cuida dele e insiste que ele vá para um hospital, pelo jovem religioso Thomas (Ty Simpkins) e pela sua filha, Ellie (Sadie Sink). É curioso aqui traçar um certo paralelo com a tríade católica do pai, filho e espírito santo. Liz faz o papel da cuidadora, que busca o bem de Charlie e acha que a presença de Thomas e Ellie não é boa para ele. Thomas, por sua vez, quer cuidar da redenção espiritual do professor – e mais à frente vamos descobrir também da sua necessidade de redenção particular -, enquanto Ellie vive entre a raiva do pai ausente e o desejo profundo, mas só estabelecido nas nuances da interpretação de Sink, de viver e recuperar os momentos com o pai perdidos na poeira do tempo.

Tudo o que os conecta é um texto diversas vezes repetido ao longo do filme. Uma redação sobre “Moby Dick”, livro publicado por Herman Melville em 1851. Essa redação que tanto acalma Charlie em seus momentos de dor é como um placebo . É a sua Ave Maria, o seu Pai Nosso literário que o mantém vivo e esperançoso naquela que se encaminha para ser a sua última semana de vida.

Aos poucos vamos entendendo a importância daquele texto para Charlie e Ellie e da própria busca por uma luz redentora numa análise que não tem nada de sagrada, mas é rica em autenticidade. E talvez está seja a crítica mais severa e interessante de Aronofsky no filme. Enquanto a fé repete jargões como as falas robóticas de Thomas, a pureza real e o poder, digamos, divino está na autenticidade das palavras ricas em sinceridade.

Apesar dos severos problemas de saúde e a vida sofrida pela perda do namorado, Charlie ainda encontra no fundo da alma espaço para encontrar a bondade nas pequenas coisas da vida. Um otimismo que tanto irrita a sua ex-mulher, mas que faz falta na vida dela, tão focada nos dramas e tristezas da realidade.

O tema de “A Baleia” gira em torno de redenção. E é curioso como para chegar a esta redenção, seu protagonista precisa passar por toda uma via-crucis de dor e angústia. E também trilhar o caminho da abnegação, uma vez que o sacrifício é quase uma fetichização dentro do catolicismo. Não por acaso, em quase todo o filme chove torrencialmente. É curioso como a chuva, especialmente o barulho da chuva, é a trilha sonora para a confusão, caos e tristeza do seu protagonista. E quando surgem a luz e o sol é onde Charlie encontra a paz de espírito, uma pureza divina e única.

O filme, porém, se perde um pouco nos diálogos e nos conflitos entre fé e ceticismo que não saem do lugar comum. Thomas é o católico fervoroso que acredita ter um propósito divino e deseja salvar a alma de Charlie. Todavia, a salvação para Thomas passa pela negação do que Charlie tinha de mais puro: o amor por Alan, o namorado falecido. Liz, Ellie e o próprio Charlie são os contrapontos do discurso de Thomas em diferentes momentos do filme. Não sei se a peça de Samuel D. Hunter, também roteirista do filme, aprofunda mais este tema, mas o roteiro do filme parece navegar em águas por demais rasas em boa parte do seu tempo. O que contrasta com o peso dramático que Fraser impõe ao filme. Peso este muito bem acompanhado pela jovem Sink, que já havia aparecido muito bem na recente temporada de “Stranger Things” e aqui também apresenta um trabalho muito consistente como uma jovem raivosa que foi abandonada pelo pai e convive com uma mãe alcoólatra.

Falta em “A Baleia” um aprofundamento de suas ideias, uma sacada de roteiro que o tirasse da zona de conforto do drama convencional.

É claro que Fraser está excelente e segura todo o interesse que o filme traz. Ele teve toda a inspiração que de alguma forma faltou em Aronofsky ao lapidar a peça de Hunter. Perto de seus outros trabalhos e de sua rica filmografia, “A Baleia” encalhou no meio do caminho. Ainda que mesmo assim seja um filme acima da média.

Nota 7,5.



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

“Tár” e a crônica de um gênio indomável

(Atenção que esta crítica contém spoilers)

Lydia Tár (Cate Blanchett) é considerada uma das maiores compositoras-regentes vivas. Diretora da ultra prestigiada filarmônica de Berlim, Tár é especialista em Mahler, foi apadrinhada por Leonard Bernstein no início da carreira, passou por prestigiosas orquestras como Chicago e Nova York e é considerada inovadora por saber dialogar o clássico com o contemporâneo com um toque pessoal. É uma das raras pessoas do mundo dona de um EGOT, como é chamado o conjunto de premiações mais populares da indústria — Emmy, Grammy, Oscar e Tony. Tem um casamento sólido, embora não livre de problemas com a primeiro-violinista Sharon (Nina Hoss). É dona de opiniões fortes, embora não seja uma arista livre de controvérsias nos tempos atuais em que cada palavra nos coloca em escrutínio público por redes sociais. Redes estas que muitas vezes têm discursos manipulados. Para Tár, a arte e a excelência da mesma estão acima de quaisquer comportamentos condenáveis vividos por quem a criou.

Tudo em Lydia Tár parece tão fascinante e autêntico. Uma personagem que merecia uma cinebiografia. O fascinante nisto tudo, porém, é que Tár não existe.

Ao fim de “Tár”, o filme escrito e dirigido por Todd Field, eu senti a necessidade de preencher uns buracos de sua história na minha cabeça. Nada prejudicado pelo filme, mas eu sentia esta necessidade. Por onde ela anda? Ela acabou do jeito que o filme mostra? O que tem feito nos dias de hoje? Não precisava de nada excessivamente aprofundado. Um perfil na Wikipédia com o básico me seria suficiente para saciar a dúvida.

Qual não foi a minha surpresa quando descobri que a compositora não só não tinha um perfil no site como era uma mera obra de ficção de Field. Uma breve busca no Google mostra que eu não estive sozinho. Não faltam reportagens em diferentes línguas respondendo à pergunta: “Lydia Tár realmente existe?”

Um dos grandes méritos de Field em “Tár” está em nos enganar. Pelo menos em enganar a pessoa que foi assistir ao filme sem nada saber. Ao longo de seus 158 minutos, Tár compõe uma personagem fascinante e complexa, que está no auge e vive a decadência vertiginosa após seu envolvimento numa polêmica que gera um processo contra ela após a morte de uma jovem regente. A Lydia Tár magnificamente interpretada por Blanchett é uma mulher com contas a ajustar com o passado recente, se escondendo do seu passado distante e que quer esquecer suas raízes. Uma mulher que toma decisões duras, difíceis e nem sempre as mais aceitáveis para quem está gerindo uma orquestra onde estão os melhores entre os melhores e, consequentemente, um ambiente de egos mais do que infladas. A começar pela própria Tár, uma perfeccionista que entende profundamente do seu ofício, mas falha na gestão humana. Algo que é bastante comum em figuras geniais da arte.

Mas o que torna Tár tão real e verdadeira? Alguns fatores podem ter ajudado na fascinante ilusão de ótica do filme. O primeiro é o seu ambiente. Todo o filme é centrado no mundo da música clássica, que é cercado de pessoas populares no seu meio, mas completamente desconhecidos do grande público.

Outra questão fundamental é a sua ambientação, Tár se passa muito próximo do nosso tempo histórico e sua história é pontuada por polêmicas em redes sociais e ações cometidas pela personagem durante a pandemia de Covid-19, como os concertos gratuitos que ela deu durante a pandemia. São duas situações comumente vividas por artistas nos últimos anos, que nos aproximam da realidade de Tár.

Mas outras questões são méritos do roteiro de Field. Os assuntos que o filme discute a partir da vivência de Tár, a exibição ainda que rápida de sua página no Wikipédia, as polêmicas que a maestrina se envolve… tudo é muito real porque são histórias sobre as quais vemos os artistas se depararem. E vemos isso acontecendo muito perto de nós. Lýdia Tár e seus problemas e controvérsias não são uma realidade distante de um Beethoveen ou de um Bach, mas do nosso tempo.

Por fim, temos a ótima atuação de Blanchett. A atriz recebeu de presente uma personagem magnífica, mas um dos seus méritos está em desaparecer completamente no papel. Diante da tela não vemos Blanchett, mas Lydia Tár em seus dramas, anseios e virtudes.

Obviamente que “Tár” não é perfeito. Entre as críticas que se podem ser feitas só filme está no fato de ele ser muito frio. “Tár” é um filme quase desprovido de emoções e gélido como, por vezes, se comporta a sua personagem principal. Tanto que surpreende aquele que é praticamente o único momento de explosão de sua protagonista tão calculista nos atos e nas palavras.

Isto, porém, não deixa de ser contraditório perto de tudo pelo qual sua protagonista passa, mas também justifica a sua falta de popularidade no circuito comercial.

Embora não seja hermético, “Tár” tem uma pose, uma arrogância e e quase pedantismo que parece muito próximo do elitista mundo da música clássica. No fim, porém, Field só comprova que todos são demasiado humanos. E de carne e osso como qualquer mortal.

Nota: 8.



segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

“Babilônia” e a decadência do cinema mudo

Tratar de transição do cinema mudo para o falado não é exatamente uma novidade no cinema recente. “O Artista” já falava sobre isso em 2011. Ao contrário do filme de Michel Hazanavicius, no entanto, o diretor Damien Chazelle, tirou o olhar de um único protagonista para pintar o cenário de decadência, depressão e transformação que aconteceu no cinema no final dos anos 20 do século passado.

“Babilônia” (“Babylon, no original) tem a intensidade asfixiante de “Whiplash” (2014) e o carinho e devoção ao cinema de “La La Land” (2016) dois dos trabalhos que fizeram a fama de Chazelle.

No centro de “Babilônia” está o caos dos anos 20 em meio a um cenário de decadência da velha Hollywood que para o espectador do cinema era muda, mas que lá dentro da indústria era esporrenta, exagerada, incendiária, um vulcão em constante ebulição.

Já em seus primeiros 30 minutos, Chazelle pinta o cenário daquele momento a partir de uma enorme festa regada a free jazz, elefante, drogas, sexo, nudez e toda a forma possível de libertinagem. Neste cenário de hedonismo radical conhecemos os personagens que iremos acompanhar na jornada lisérgica e, por vezes, cansativa, de mais de 3h de filme: Jack Conrad (Brad Pitt), uma das maiores estrelas do cinema até então; Nellie LaRoy (Margot Robbie), desconhecida candidata à estrela do cinema mudo e penetra da festa; Elinor St. John (Jean Smart), colunista de fofocas de Hollywood; Manny Torres (Diego Calva), jovem mexicano faz-tudo cujo sonho é trabalhar com cinema; e Sidney Palmer (Jovan Adepo), músico negro que começa a ganhar espaço nos filmes.

Chazelle trabalha seu filme a partir da evolução e entrecruzamento de olhares destes cinco personagens. Usando suas vidas a partir da metáfora de uma roda-gigante, os quatro se alternam entre faixas de bonança e miséria em suas carreiras. Todos sabem que uma transformação está por vir. E a era do som vai sacudir uma indústria que se esvai em uma série de escândalos.

“Babilônia” não tem a mesma força narrativa de “Whiplash” e, por vezes, confunde o espectador no equilíbrio entre expor as feridas daquele tempo e fazer uma grande homenagem ao cinema, mas algumas cenas do filme podem ser enquadradaa em algumas das melhores que o Chazelle fez.

Ressalto três delas. A primeira e a segunda são a dobradinha que Chazelle usa para pontuar passado e futuro e suas gritantes diferenças. Uma cena é a produção em escala industrial do cinema mudo. O diretor passa a sua câmera por uma série de filmes completamente diferentes sendo produzidos ao mesmo tempo e num espaço de menos de um metro de diferença culminando com uma grande e insana produção de guerra em que tudo acontece ao mesmo tempo, pessoas invadem o set no meio da gravação, câmeras são destruídas e tudo precisa ser construído numa velocidade absurda e em níveis de decibéis irreais para aproveitar a única coisa que importa: a luz natural. Sem luz natural, não há filme para ser feito.

Quando sai a explosão do cinema falado, todos aqueles profissionais acostumados a extravasar as emoções enlouquecidamente precisam se adaptar ao silêncio absoluto, marcações por causa do posicionamento de microfones, cenários isolados e construídos milimetricamente para fazer uma única cena. É o que vemos minutos depois no filme. Aqui Chazelle enfatiza a longa repetição e a necessidade de sair tudo perfeitamente para que o filme fique bem gravado. Um mínimo erro, uma quebra no silêncio, faz com que seja necessário gravar tudo de novo.

Nesta dobradinha, Chazelle aproveita para pontuar a crueldade do tempo passando para uma estrela como Nellie LaRoy. Excelente atriz de filmes mudos por sua facilidade de trazer expressões corporais e comunicar muito bem as emoções com o seu rosto, além de muito carismática, LaRoy agora precisa se adaptar à falta de liberdade para se mover no set, ao calor de um estúdio sem ar condicionado, pois este faz muito barulho, e â necessidade de decorar um texto e falar.

Se antes as recomendações da diretora eram genéricas para que o ator busque uma inspiração e desenvolva a partir disso, agora tudo é marcado, tudo é ensaiado.

E como é difícil para uma atriz de cinema mudo falar. Sem impostação de voz, sem nem necessariamente ser preciso ter uma voz bonita, agora os atores precisam se confrontar com os seus timbres nem sempre agradáveis e seu modo de atuar excessivamente expressivos que são ridicularizados pelo espectador do filme falado.

“Babilônia” é uma jornada de decadência de estrelas como Jack Conrad, que coprotagoniza a outra grande cena do filme em que a jornalista Elinor dá um duro discurso sobre o fim de Conrad como uma estrela do cinema. Os tempos estão mudando e Conrad não serve mais para os novos tempos. Ele está morto, e, por extensão, todos as estrelas do cinema mudo também estão mortas. Paradoxalmente, Elinor garante que Conrad está eternizado não história. No futuro, ele será reverenciado. No presente, ele não é nada além de um peso morto cujos tempos de glória já passaram.

Curiosamente, depois de espetar e girar a faca sob toda uma era do cinema, Chazelle usa o terço final do filme para uma grande homenagem a era muda e ao cinema ao longo das eras. É bastante tocante ver o Manny entrando no cinema ao mesmo tempo em que vão passando trechos de filmes antigos e na sequência ver a câmera viajando pelas décadas até chegar a “Matrix” (1999) e “Avatar” (2009). Tudo para, no fim, a câmera voltar para o espectador, a razão de ser do filme, e, por fim, para Manny, o elo condutor de toda aquela jornada, agora com mais de 50 anos e longe daquela indústria instável, desorganizado, louca e fascinante.

“Babilônia” pode parecer brega para muitos, histriônico para outros, mas eu vejo uma certa beleza no filme do Chazelle. Ele não revoluciona e nem inventa nada, mas me dá uma certa diversão ao longo de sua jornada.

Nota 7,5.



sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Os melhores e os piores filmes de 2022

Chegamos ao grande momento, o momento mais aguardado do ano: o momento de divulgar o Corneta Ballon D´Or Awards 2022. Muitos diretores e filmes entraram na disputa dada pelo prestigioso conglomerado Corneta Inc. Em busca de um lugar ao sol estiveram de mestres consagrados a novatos querendo um espacinho na lista final do júri formado por mim mesmo.

E não foi nada fácil chegar ao top-30. Contudo, após um grande esforço de reportagem mais uma vez conseguimos aí uma mescla de filmes pequenos com blockbusters, diretores de renome e outros que só o teu amiguinho cinéfilo Pernalonga de batom vai conhecer. E conseguimos ainda alguma diversidade mínima de temas e países, mostrando que só a Corneta tem a mescla ideal de Cannes, Berlim e Hollywood.

Nunca é demais reproduzir os critérios desta lista para quem está chegando agora e quer se tornar um 18º leitor da Corneta. Estiveram elegíveis para o prêmio todos os filmes que estrearam nos circuitos de cinema do Rio de Janeiro e de Lisboa entre o primeiro dia do ano e o dia 27 de dezembro. Além, é claro, dos filmes que estrearam nos cinco principais serviços de streaming no mesmo período. Serviços estes cujos nomes eu não direi, pois ninguém depositou nenhum cheque na minha conta para eu fazer merchan.

Esclarecidas as regras, vamos ao ranking dos filmes que brilharam e sobreviveram de alguma forma ao crivo implacável da Corneta:

1- “Drive my car” (“Doraibu mai kâ” — JAP). Diretor: Ryusuke Hamaguchi.

2- “Aftersun” (“Aftersun” — ING, EUA). Diretora: Charlotte Wells.

3- “A pior pessoa do mundo” (“Verdens verste menneske “— NOR, FRA, SUE, DIN). Diretor: Joachim Trier

4- “Os Fabelmans” (“The Fabelmans “— EUA). Diretor: Steven Spielberg.

5- “O perdão” (“Ghasideyeh gave sefid” — IRA, FRA). Diretores: Maryam Moghadam e Behtash Sanaeeha.

6- “Um herói” (“Ghahreman” — IRA, FRA). Diretor: Asghar Farhadi.

7- “Triângulo da Tristeza” (“Triangle of Sadness “— SUE, FRA, ING, ALE, TUR, GRE). Diretor: Ruben Östlund.

8- “A filha perdida” (“The Lost Daughter” — GRE, ING, ISR, EUA). Diretora: Maggie Gyllenhaal.

9- “Licorice Pizza” (“Licorice Pizza” — EUA). Diretor: Paul Thomas Anderson.

10- “The Batman” (“The Batman” — EUA). Diretor: Matt Reeves.

11- “Top Gun: Maverick” (“Top Gun: Maverick” — EUA). Diretor: Joseph Kosinski.

12- “Crimes do futuro” (“Crimes of the Future” — CAN, GRE, ING). Diretor: David Cronenberg.

13- “O Menu” (“The Menu” — EUA). Diretor: Mark Mylod.

14- “Nada de novo no front” (“Im Westen nichts Neues” — ALE, EUA, ING). Diretor: Edward Berger.

15- “Bardo: falsa crônica de algumas verdades” (“Bardo, falsa crónica de unas cuantas verdades” — MEX). Diretor: Alejandro Gonzalez Iñarritu.

16- “A tragédia de MacBeth” (“The tragedy of Macbeth” — EUA). Diretor: Joel Coen.

17- “Argentina, 1985” (“Argentina, 1985” — ARG, EUA, ING). Diretor: Santiago Mitre.

18- “Tudo em todo lugar ao mesmo tempo” (“Everything everywhere all at once” — EUA). Diretores: Daniel Kwan e Daniel Scheinert.

19- “Armaggedon Time” (“Armaggedon Time” — EUA, BRA). Diretor: James Gray.

20- “Golias” (“Goliath” — FRA, BEL). Diretor: Frédéric Tellier.

21- “Era uma vez um gênio” (“Three Thousand Years of Longing” — AUS, EUA). Diretor: George Miller.

22- “A acusação” (“Les choses humaines” — FRA). Diretor: Yvan Attal.

23- “O peso insuportável de um enorme talento” (“The Unbearable Weight of Massive Talent” — EUA). Diretor: Tom Gormican.

24- “Athena” (“Athena” — FRA). Diretor: Romain Gavras.

25- “O predador: A caçada” (“Prey” — EUA). Diretor: Dan Trachtenberg.

26- “O milagre” (“The Wonder” — IRL, ING, EUA). Diretor: Sebastian Lello.

27- “Trem-Bala” (“Bullet Train” — JAP, EUA). Diretor: David Leitch.

28- “Raymond & Rey” (“Raymond & Ray” — EUA). Diretor: Rodrigo Garcia.

29- “A mulher rei” (“The Woman King” — EUA). Diretora: Gina Prince-Bythewood.

30- “O homem do Norte” (“The North Man” — EUA). Diretor: Robert Eggers.

E agora vamos nos despedir do ano com o prêmio Titanic de piores filmes de 2022:

1- “Blonde” (“Blonde” — EUA). Diretor: Andrew Dominik.

2- “Animais fantásticos: o segredo de Dumbledore” (“Fantastic Beasts: The secrets of Dumbledore” — ING, EUA). Diretor: David Yates.

3- “Morbius” (“Morbius” — EUA). Diretor: Daniel Espinoza.

4- “Pânico” (“Scream” — EUA). Diretores: Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett.

5- “Samaritano” (“Samaritan” — EUA). Diretor: Julius Avery.

6- “Jurrasic World: Domínio” (“Jurrasic World Dominion” — EUA, CHI, Malta). Diretor: Colin Trevorrow.

7- “Adão Negro” (“Black Adam” — EUA, CAN, NZL, HUN — 2022). Diretor: Jaume Collet-Serra.

8- “Emancipation: uma história de liberdade” (“Emancipation” — EUA). Diretor: Antoine Fuqua.

9- “Amsterdam” (“Amsterdam” — JAP, EUA). Diretor: David O. Russell.

10- “Morte no Nilo” (“Death on the Nile” — EUA, ING). Diretor: Kenneth Branagh.

E assim despeço-me deste ano. Feliz ano novo e que venha a maravilhosa temporada do Oscar.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

As melhores séries e minisséries de 2022

O ano de 2022 está quase acabando, o governo do horror daquele que não deve ser nomeado está por um fio, mas o ano não vira sem a divulgação da terceira edição do prêmio Golden Cornetemmy Globe de melhores séries de 2022.

Este ano a disputa foi acirradíssima, voto a voto, com séries mudando de posição a cada mês, mas o júri do grupo Corneta Inc. nunca fica em cima do muro. E aqui está o top-15 do ano.

1- “Better Call Saul” (EUA — AMC/Netflix) — Se eu tivesse que resumir a sexta e última temporada da jornada de Saul Goodman em uma palavra seria IMPECÁVEL. “Better Call Saul” encerra as suas atividades alçado ao posto de terceira melhor série de todos os tempos, segundo o ranking da Corneta Inc., e merecidamente conquista o troféu máximo de melhor série de 2022.

2- “Ruptura” (Severance — EUA — 2022 — Apple TV) — Foi uma das coisas mais sensacionais que eu vi neste ano. É a série que tem a combinação da Crítica Social Foda em relação ao famigerado mercado de trabalho/capitalismo selvagem com o refrão de “A cera”, da banda Surto: “Um rosto lindo e um sorriso encantador/E um jeitinho de falar que me pirou, que me pirou o cabeção”.

3- “Pachinko” — (EUA, COR, CAN — Apple TV) — A relação predatória do Japão sobre a Coreia, o drama de imigrantes ao longo de quatro gerações, a busca por sobrevivência, prosperidade e o resgate de alguma identidade, “Pachinko” é brilhante e mereceu a disputadíssima medalha de bronze em um duelo que envolveu quatro candidatos.

4- “Euphoria” (EUA — HBO) — Ao invés de um texto, eu queria aqui colar aquele meme do Martin Scorsese com a frase “This is cinema” porque a segunda temporada é, como diria o atacante Bruno Henrique, “de oto patamar”. “Euphoria” só está aqui em quarto lugar porque o nível foi ali muito alto e o grupo Corneta Inc. precisava fazer um ranking.

5- “Casa do Dragão” (“House of the Dragon” — EUA — HBO) — Como foi maravilhoso voltar a Westeros, como foi covardia a HBO usar a mesma música tema de “Game of Thrones”. “Casa do Dragão” teve vários episódios icônicos já em sua primeira temporada e, em alguns aspectos, até superou momentos do livro “Fogo e Sangue”, no qual ela é baseada. Missão cumprida. Pode vir mais séries e temporadas que eu aceito.

6- “Andor” (EUA — Disney Plus) — Parafraseando “O Poderoso Chefão 3”, justamente quando pensávamos que Star Wars estava morto, a Disney nos dá uma série Star Wars quase perfeita. Depois das tristezas de Boba Fett e Obi-Wan, “Andor” foi o remédio para trazer de volta a esperança para a galáxia com uma trama política e atuações maravilhosas de Diego Luna e Stellan Skarsgard.

7- “O Urso” (“The Bear” — EUA — FX/Hulu) — Essa entrou na lista aos 45 do segundo tempo. Além de um monte de comida bonita, ela conquistou o seu lugar com o seu misto de pessoas caóticas, muito drama, desespero, dor e gente fodida tendo que lidar com o luto pela perda de uma pessoa muito importante enquanto administra um restaurante que vai de mal a pior. Ou seja, a série é a RECEITA (tum dum tsss) perfeita para dar certo na boca da intelectualidade.

8- “A cidade é nossa” (“We own this city” — EUA — HBO) — Aqui temos David Simon de volta à ribalta com mais uma minissérie sobre Baltimore, a corrupção da polícia e o Jon Bernthal perturbado como só ele sabe ser.

9- “Pacificador” (“Peacemaker” — EUA — HBO) — Se tivesse um prêmio para melhor abertura de série, “Pacificador” ganharia fácil. Mas ela não é só isso. A série do James Gunn é uma das melhores séries de super-heróis. Gunn fez com um único tiro o que a Marvel não alcançou em 756 lançamentos no ano. E não por acaso, a Marvel ficou de fora da lista final neste ano. “Pacificador” é anárquico, divertido, desbocado e com um protagonista carismático de quem o James Gunn conseguiu até tirar um fiapo de interpretação. A DC vive muito!

10- “Top Boy” (ING — Netflix) — A série inglesa sobre dois traficantes lucrando com o comércio de drogas em um conjunto habitacional de Londres ganhou o dinheiro da Netflix na quarta temporada, manteve a sua qualidade e ainda me deu um final de partir o coração.

11- “Sandman” — (ING, EUA — Netflix) — “Sandman”, “Wandinha”, “The Batman”… em 2022 ser gótico voltou a ser moda. Ainda bem que parou por aí e não saiu nenhum álbum do My Chemical Romance. Há limites. É uma vergonha que a Netflix tenha demorado tanto tempo para renovar esta série maravilhosa baseada nos quadrinhos de Neil Gaiman. A série é cara, mas três filmes do Adam Sandler bancariam facilmente a segunda temporada. Queremos muito mais Sandman nos próximos anos.

12- “Ozark” (EUA — Netflix) — Esta foi mais uma série que fechou com chave de ouro. Foram quatro temporadas em que eu nunca entendia de onde vinha e para onde ia todo o dinheiro porque afinal eu sou de Humanas. Contudo, a família Byrde fará falta. Uma das melhores séries da Netflix.

13- “Servant” (EUA — Apple TV) — Esta é uma série que só tem subido no meu conceito e esta terceira temporada foi o auge dela. E nada mais pode ser dito. Só que aparentemente e apesar de todo o seu esforço em provar o contrário, ainda há esperança para o Shyamalan.

14- “O senhor dos anéis: os anéis do poder” (“The Lord of the Rings: the rings of power” — EUA — Amazon) — Foi empolgante voltar para a Terra Média? Foi. Pode não ter sido perfeito, mas só o fato de a série ser bonita, da Galadriel ser muito maneira e ter um personagem tão foda quanto o Adar foi o suficiente para eu dar um voto de confiança por amor ao Tolkien na lista de 2022.

15- “The White Lotus” (EUA — HBO) — “These gays, they are trying to murder me” (ler com a voz da Tanya). Confesso que quando saiu a primeira temporada, eu assisti com certo desdenho e curti com moderação. Nesta segunda, fiquei completamente fã e já estou “whitelotuzado”. Ganhou o lugar final na minha lista de 2022.

Menções honrosas de 2022: “Entrevista com o vampiro” (AMC), “Tokyo Vice” (HBO), “The Offer” (Paramount), “The English” (BBC/Amazon) e “Mulher-Hulk” (Disney Plus).

E agora vamos ao prêmio “La Casa de Papel” de piores séries de 2022:

1- “La casa de papel: Coreia” (Money Heist: Korea — Joint Economic Area” — COR — Netflix) — Sim, amigos, é possível cometer o mesmo erro duas vezes. Eu sou a prova disso. Pior do que o original, só mesmo a cópia.

2- “The Umbrella Academy” (EUA, CAN — Netflix) — Meus olhos sangraram em cada minuto da terceira temporada, que atingiu escalas de ruindade poucas vezes vista na história da dramaturgia.

3- “Sem limites” (Sín limites — ESP — Amazon) — Isso tinha tudo para ser legal. Era para contar a história de como Fernão de Magalhães encontrou um caminho que liga os oceanos Atlântico e Pacífico, mas ela é permeada de uma visão colonizadora e todo um heroísmo duro de engolir. Menos né.

4- “Céu Noturno” (“Night Sky” — EUA — Amazon) — Taí uma série que eu só senti o vazio, a insignificância e a sensação de estar perdendo um tempo precioso da minha vida em torno do nada.

5- “Cobra Kai” (EUA — Netflix) — Espremeram tanto e até oo bagaço o suco de “Cobra Kai” que ela saiu de duas primeiras temporadas muito boas e dignas para uma quinta temporada que vai se arrastando pelas raias da irrelevância. É uma pena, mas ultrapassaram os limites. Esperamos que a próxima recupere um pouco o fôlego e tenha um final minimamente digno.

Por hoje é só. Amanhã voltamos com os melhores filmes de 2022.

sábado, 8 de outubro de 2022

"Não se preocupe, querida": Algumas boas ideias e altos e baixos

Pugh faz a sua parte e Styles não acompanha
Atriz presente em uma série de projetos populares, Olivia Wilde vem, desde 2019, se arriscando no trabalho de diretora. “Fora de série” (“Booksmart”, no original), seu primeiro filme lançado há três anos, era uma típica comédia adolescente sobre uma passagem importante na vida de duas jovens: o período entre a formatura da escola e o início na universidade. No filme, as duas protagonistas tentam viver todas as emoções que não viveram até então enquanto refletem sobre os desafios daquela fase da vida.

Embora não seja exatamente um grande filme, “Fora de série” é despretensioso e divertido. E mostra um pouco das pretensões de Wilde como diretora. Contar histórias femininas, refletir sobre o que as mulheres pensam, mostrar um protagonismo feminino numa seara quase exclusivamente masculina neste gênero específico de filme.

“Não se preocupe, querida” (Don’t worry darling, no original), seu mais recente trabalho é um passo além nas suas ideias. A intenção permanece a mesma, mas aqui Wilde vai além nas suas reflexões no sentido de mostrar alguns perigos da vida adulta vividos pelas mulheres.

Para isso, Wilde traça uma alegoria. Uma sociedade distópica com ecos em “Matrix” (1999) onde tudo é estranhamente perfeito, simétrico e rotineiro. Wilde faz questão de pontuar muito fortemente a rotina a ponto de até entediar e/ou causar incômodo no espectador. Rotina esta que sofre pequenas rupturas. Algumas com mais estranhamento, como os ovos quebrados sem gema, outras que parecem mais comuns: uma carne queimada, um salto temporal, sonhos e ilusões.

A primeira hora de “Não se preocupe, querida” é tomada pelo incômodo e a ambientação plastificada e perfeita do tal projeto Vitória comandado por Frank (Chris Pine).Ali acompanhamos Jack (Harry Styles) e Alice (Florence Pugh), um casal completamente feliz, parecendo em eterna lua de mel, e sua vida burguesa e cercada de casais de amigos numa comunidade criada no deserto.

Tudo parece muito falso. Alice é a esposa perfeita de uma comunidade solar e parada nos anos 50 do século passado. Lava, passa e cozinha, devotada ao marido, cuida dele. Jack é um bem-sucedido engenheiro que trabalha num projeto secreto, sobre o qual não pode falar nem para a própria esposa.

Desde o início, naquela rotina de dona de casa eterna e repetitiva, tudo parece estranho. E Wilde vai bem em esconder o jogo ao mesmo tempo em que revela pequenas fraturas naquela sociedade perfeita. A mais grave, e que desperta o interesse de Alice, é o surto de Margaret (Kiki Layne).

A partir daí vamos descobrindo a verdade por trás desta comunidade utópica. Por outro lado, é exatamente no momento desta virada que o filme, ao mesmo tempo em que exibe algumas ideias interessantes para a história e para refletir sobre a violência e opressão masculina sobre a mulher, mostra-se apressado e despejando muitas coisas para processar a história. Era como se ele tivesse um ritmo e depois precisasse acelerar demais para acabar e concluir todas as pontas para não deixar nada solto.

É uma pena, pois a ideia por trás do filme era boa. Ainda que q sua realização tenha sido problemática, como as fofocas e disse me disse de bastidores do set. Não entrarei neste mérito. Mas se isso interferiu ou não no trabalho dos atores, o que vemos é apenas uma Florence Pugh que entrega algo minimamente aceitável. Ela e a própria Olivia Wilde no papel da melhor amiga de Alice, Bunny, são o que o filme tem de melhor.

Styles, por sua vez, é constrangedor como ator. Zero emoções, zero expressões para além do básico e sem conseguir acompanhar a versatilidade de Pugh, atriz competente que consegue tomar para si os holofotes nos filmes em que tem participado. Enquanto Pine parece um vilão barato de James Bond.

O mais interessante mesmo de “Não se preocupe, querida” é ver a evolução de Wilde como diretora. Ainda que seja possível questionar algumas de suas escolhas na tela, ainda penso que este filme é um avanço de alguém que está construindo a própria voz cinematográfica e amadurecendo a sua linguagem.

Nota 6.