sábado, 31 de janeiro de 2026

Os filmes e as séries de janeiro

Extermínio: Templo dos Ossos (28 Years Later: The Bone Temple — ING, EUA) — Segundo filme da nova trilogia de “Extermínio”. Tem seus altos e baixos. Adoro toda a parte do doutor Kelson (Ralph Fiennes) e sua interação com o alfa em busca de uma cura. Detesto toda a parte dos Jimmy’s. Mas o final compensa tudo. Pode mandar vir o terceiro filme. (Escrevi um pouco mais sobre o filme neste link).

Pai Mãe Irmã Irmão (Father Mother Sister Brother — ING, EUA, ITA, FRA, IRL, ALE) — Gosto de pensar nas coincidências das três histórias (o uso do vermelho, o rolex, a pergunta sobre o brinde) como uma metáfora sobre mesmos em lugares e momentos de vida diferentes somos muito parecidos enquanto seres humanos. E na essência de tudo o que une as três histórias é a difícil conexão dos filhos com seus pais distantes, ainda que haja algum amor entre eles. Adorei o filme do Jim Jarmusch.

Alabama: Presos do Sistema (The Alabama Solution — EUA) — Documentário revoltante sobre a situação dos encarcerados no Alabama e como o Estado estabeleceu uma espécie de escravidão moderna com os presos.

Blue Moon (Blue Moon — EUA, IRL — 2025) — Adoro os diálogos do filme, acho a atuação do Ethan Hawke um dos seus trunfos, mas os truques que o Richard Linklater teve que adotar para compensar a diferença de altura entre Hawke e o real Lorenz Hart que ele interpreta são muito visíveis e prejudicaram um pouco o filme.

Marty Supreme (Marty Supreme — FIN, EUA — 2025) — Indicado a nove Oscars, este filme é só urgência, caos e confusão com um protagonista detestável. Vale pelo ótimo trabalho do Timothée Chalamet, mas junto com “A única saída” foi uma das minhas decepções do mês (Escrevi mais sobre o filme neste link).

A incrível Eleanor (Eleanor the Great — EUA) — Estreia de Scarlett Johansson como diretora, este é um bonito filme sobre a dura dificuldade de lidar com o luto.

Song Sung Blue — Um sonho a dois (Song Sung Blue — EUA) — Filme bem legal sobre uma banda tributo a Neil Diamond, que no fim é uma história de amor entre os dois protagonistas. Adoro a química que há entre Hugh Jackman e Kate Hudson, que mereceu demais a indicação ao Oscar. A parte do Pearl Jam me pegou de surpresa e achei maravilhosa.

Landman (Landman — EUA — Paramount) — A série de Taylor Sheridan voltou ainda melhor para a segunda temporada. Toda a história que reflete sobre a indústria do petróleo como um misto de mafiosos com donos de cassinos de Las Vegas é tão interessante que supera as várias tiradas hétero top do roteiro.

Mil Golpes (A thousand blows — ING, EUA — Hulu) — Achei a segunda temporada um pouco inferior à primeira e fiquei com a impressão de que a história não andou. Porém, o final deu um ânimo sobre o futuro de Hezekiah Moscow e seus comparsas.

Stranger Things (Stranger Things — EUA — Netflix) — Bagulhos Estranhos teve duas temporadas muito boas, e duas seguintes absolutamente dispensáveis, mas até que o final foi digno. O tempo mostrou que Millie Bobby Brown não evoluiu muito como atriz, o final foi fruto de muita megalomania dos Duffer, contudo gostei de ver o ciclo se fechando com os jovens seguindo a sua vida e se renovando com as crianças jogando RPG. O pós-Vecna foi mais interessante do que a sonolenta batalha contra o vilão. No fim, o saldo foi ligeiramente positivo, Kate Bush aparentemente voltará ao ostracismo e não precisamos de spin-offs (mas eles certamente virão).

Maid (Maid — EUA, ING — Netflix) — Demorei quatro anos para ver esta série, mas antes tarde do que nunca. Absolutamente incrível. Margaret Qualley antes da fama já mostrava aqui que tinha muita substância (tum dum tssss) dramática. Se for para escolher uma empregada doméstica, mil vezes “Maid” do que aquele pavoroso filme “A empregada”.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Tarja Turunen e Marko Hietala: nostalgia e celebração em Lisboa

Ver Tarja Turunen e Marko Hietala cantando juntos novamente me fez viajar no tempo. Mais precisamente até ao saudoso Canecão, no Rio de Janeiro. Novembro de 2004, show superlotado do Nightwish, turnê do “Once” (2004), que tinha os sucessos “Nemo” e “Wish I had an angel”.

Meses depois daquele show, Tarja seria demitida da banda e engataria numa carreira solo cheia de bons álbuns. Hietala ainda ficaria no grupo de metal sinfônico finlandês até 2021.

O espetáculo “Living the Dream” é sobre nostalgia. Relembrar os bons tempos, afinal, como a própria Tarja diz, “estamos envelhecendo juntos”. Mais ou menos porque eu sou mais novo e estou mais acabado que ela.

Teve de tudo um pouco no charmoso Coliseu dos Recreios, em Lisboa, que tem um quê de Canecão. Depois de uma insossa banda de abertura que entrou no palco já meio derrotada (Rok Ali &The Addiction. Infelizmente não vi o Serpentyne, que abriu os trabalhos na noite), Marko Hietala recuperou a nossas almas com suas canções sobre mitos e dragões e seu visual de quem parece fazer parte da família Targaryen, de “Game of Thrones”.

Já na primeira música, “Frankenstein´s Wife”, Hietala tomou conta do espaço com desenvoltura, bom humor e uma banda bem azeitada. Foram dez músicas, com destaque ainda para “The Dragon Must Die” e “Impatient Zero”.

Quando Hietala chamou a Tarja para cantarem “Left on Mars”, single que lançaram juntos em 2024 e que meio que selou a reaproximação dos dois músicos, tivemos um breve aperitivo do que seria a noite.

O melhor, no entanto, veio depois, com Tarja comandando o espetáculo. Depois de uma sequência de sete músicas, num set que abriu com “Eye of the Storm” e contou com canções como “500 Letters” e “Crimson Deep”, que ela não cantava desde 2020 e 2012, respectivamente, Tarja veio ao palco com Hietala para um set acústico de quatro músicas.

Na sequência, ambos cantaram três canções em formato elétrico, incluindo duas do Nightwish, “Slaying the Dreamer” e “Wishmaster”, um dos pontos mais altos dos momentos “saudades do que vivi” da noite.

Novamente sozinha no palco, Tarja encerrou a primeira parte do show com a maravilhosa “Walk Alone”, do álbum “My Winter Storm” (2007).

O bis veio com “Dead Promises”, o retorno de Hietala ao palco para a sua última participação em “Wish I had an angel”, e a ótima “Until my last breath”, do álbum “What Lies Beneath” (2010), de Tarja.

Por mais que tivesse tido um clima de nostalgia, o concerto dos dois músicos finlandeses também passou um clima de artistas que estão em paz com o passado e satisfeitos com o presente. Para além de nostalgia, houve uma celebração das conquistas do passado e orgulhosa demonstração do que ambos estão fazendo no presente.

Book Review: “E não sobrou nenhum”, de Agatha Christie

“Nenhum de nós vai sair desta ilha. Esse é o plano. A senhorita sabe perfeitamente disso, é claro. O que talvez não posso compreender é o sentimento de alívio!” (Pág. 178)

Interessei-me por ler “E não sobrou nenhum” depois de ouvir um Nerdcast sobre Agatha Christie. Na ocasião um dos participantes do podcast falou tão apaixonadamente do livro e de sua história que a minha curiosidade estava devidamente atiçada e o livro entrou imediatamente no meu radar.

Pois foi uma excelente escolha me iniciar no mundo de Agatha Christie a partir deste livro lançado originalmente pela escritora inglesa em 1939.

“E não sobrou nenhum” é uma história policial que justifica demais a fama de Rainha do Crime de Christie, bem como a sua fama como autora. Tem mistério, suspense, uma constante tensão e constantes questionamentos sobre quem é o assassino em meio ao grupo de dez pessoas que vão parar na Ilha do Soldado a convite de um misterioso homem rico.

Cada morte é construída com requintes de crueldade a partir de um antigo poema infantil. A cada assassinato é possível sentir a tensão entre os personagens que restam. E é fascinante como Christie trabalha com o paradoxo de que a inocência plena só se conquista com o fim da vida. Inocência, claro, da acusação presente de ser o assassino, pois há todo um passado de cada um dos nossos “dez soldadinhos”.

E por fim temos o turning point da história. A descoberta do assassino me pegou de surpresa pela forma como aconteceu. Foi excelente e até certo ponto anticlimático, pois não houve algo como o “discurso do vilão” ou qualquer coisa do gênero. Apenas descobrimos depois de sermos seguidamente ludibriados e apontando sempre para o lado errado.

Talvez sejam posturas como esta que separam Christie de um autor comum dentro do gênero de romance policial. Penso em Jo Nesbo, cujas histórias me divertem, mas não me subvertem. São de um outro estilo, é claro. São de um outro tempo também. Mas nem em “Baratas” (1998), nem em “O Morcego” (1997), os dois livros que li dele, eu percebi a riqueza que se encontra neste livro de Christie. Por outro lado, Nesbo parece um pouquinho mais realista. O autor norueguês nos aproxima mais do cotidiano mundano. Christie, por sua vez é infinitamente mais criativa e sedutora em seus mistérios.

“E não sobrou nenhum” foi para mim uma excelente porta de entrada na obra de Christie. Estou curioso para ler mais livros da escritora inglesa. E não faltam opções. Afinal, a autora escreveu mais de 80 livros ao longo da sua vida.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

“Marty Supreme”: o caos sem propósito de um filme que vale por Chalamet

Chalamet é o que o filme tem de melhor
Com nove indicações ao Oscar deste ano, uma série de prêmios em festivais e uma elogiada atuação por parte da crítica de Timothée Chalamet como protagonista, “Marty Supreme” tinha todas as credenciais para despertar a minha atenção. Primeiro filme solo de Josh Safdie desde que ele e o irmão resolveram interromper a parceria que tinham, “Marty Supreme” tem alguma coisa em comum com “Joias Brutas” (2019), o último filme que os irmãos fizeram juntos. Para o bem e para o mal.

De fato, é possível traçar um paralelo entre os dois filmes, especialmente pelo que eu gostei menos no anterior que se repete aqui neste novo trabalho de Josh Safdie. O fato de seu protagonista ser um personagem caótico, com uma urgência caótica que o faz atirar para todos os lados sem conseguir resolver nada. O problema é que tal como o Howard Ratner de Adam Sandler naquele filme, o Marty Mauser de Chalamet é caos, confusão e gritaria sem muito propósito.

Mauser, na verdade, parece uma criança mimada que faz de tudo para conseguir o que quer sem se importar com ninguém que está ao seu redor. Família, amigos, namorada, conhecidos, estrelas de cinema, empresários, todos devem ser a escada para a sua ascensão gloriosa no tênis de mesa. Todos devem se orgulhar por serem pisados pelo grande Mauser, que faz promessas vazias, pois não pode cumpri-las. Simplesmente porque ele acha que quer, ele acha que merece. Simplesmente porque ele acha que é o melhor no que faz.

Neste aspecto, Mauser se afasta de Ratner. O protagonista de “Joias Brutas” não tinha essa autoconfiança irritante. Goste ou não do filme, era possível ter alguma empatia por Ratner. Por Mauser, o desejo é que ele se dê muito mal. Porque não tem uma única pessoa no caminho que ele não tenha decepcionado. Não tem uma única pessoa a quem ele tenha pedido desculpas sinceras. Mauser é um furacão que destrói tudo por onde passa.

E neste momento o questionamento que eu faço é: Qual o propósito deste filme? Não que o cinema necessite ter algum propósito, mas por que eu deveria me engajar nesta história de um desconhecido jogador de tênis de mesa que se acha maior do que realmente é?

Li que o filme foi levemente inspirado em Marty Reisman, jogador estadunidense que ganhou cinco medalhas de bronze em três campeonatos mundiais de tênis de mesa. Mas não é uma biografia fiel aos fatos, e sim mais uma inspiração.

Como história, o roteiro se resume a uma sequência de acontecimentos com o senso de urgência que Mauser impõe em toda a sua vida. Ele está sempre a 300 km por hora no filme. Quem quiser que o acompanhe. Ou ele atropela.

Enfim, ainda reflito sobre a que o filme se propõe, mas horas depois de sair do cinema não cheguei a uma conclusão satisfatória.

O melhor de “Marty Supreme” é a atuação de Chalamet. Se alguém ainda tinha dúvidas do trabalho dele ou implicância com a figura dele, este filme é a prova definitiva que o ator tem talento sim para mostrar e devia se dar valor a Chalamet. Não há trabalho na sua carreira em que ele tenha desaparecido mais em um papel quanto no seu Marty Mauser.

Curiosamente, o irmão de Josh, Benny Safdie conseguiu o mesmo feito com Dwayne Johnson em “Coração de Lutador” (2025). Sendo que o trabalho de Benny foi ainda mais complexo, pois The Rock nunca foi conhecido por ser um grande ator.

No entanto, assim como The Rock teve a melhor atuação da carreira em “Coração de Lutador”, pode-se dizer que Chalamet fez o seu melhor trabalho na carreira em “Marty Supreme”. Ainda que eu goste igualmente dele em “Me chame pelo seu nome” (2017) e “Querido Menino” (2018). Três momentos diferentes da sua carreira, mas atuações que junto com a sua versão do Bob Dylan “Um completo desconhecido” (2024) formam uma coleção de trabalhos que hater nenhum pode contestar.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Os altos e baixos de “Extermínio: O Templo dos Ossos”

Samson e Kelson, os pontos altos do filme
Desde que Danny Boyle revelou que pretendia fazer uma nova trilogia sobre “Extermínio” que continuaria 28 anos depois dos eventos que vemos no primeiro filme de 2002, eu fiquei minimamente curioso. “Extermínio” foi um marco dentro do cinema e estabeleceu um novo padrão para a representação dos zumbis, mostrando-os como rápidos e agressivos. Este padrão foi posteriormente copiado em produções como “Guerra Mundial Z” (2013) e a série “The Last of Us” (2023-). Essa mudança do padrão até então estabelecido e o estilo de filmagem de Boyle com cortes rápido, zoom e um certo jump scare tornaram o filme num clássico.

Em junho do ano passado, Boyle lançou o novo “Extermínio” retomando a parceria com Alex Garland. O filme contava a história de uma comunidade que vive isolada numa ilha, mas que por vezes vai ao continente para caçar num rito de passagem para os jovens. A coisa piora, no entanto, quando o jovem Spike (Alfie Williams) resolve buscar um médico para a mãe doente.

O novo “Extermínio”, chamado de “Evolução” mostrava uma Inglaterra voltando aos tempos de paus e pedras, sem tecnologia, sem armas. E uma evolução por parte dos zumbis, que agora têm diferentes espécies, incluindo os superfortes alfas, capazes de arrancar a cabeça de um ser humano com as próprias mãos.

Dirigido por Nia DaCosta, o segundo filme da trilogia agora chega aos cinemas para continuar praticamente de onde acabou o anterior. “Extermínio: O templo dos ossos”, explora três vertentes a partir dos acontecimentos que vimos no filme anterior:

1) A jornada de Spike após ter abandonado a ilha e o pai para explorar aquele mundo tomado por infectados.

2) A gangue dos malucos de cabelo louro, que matam zumbis como performance estética.

3) A vida do doutor Ian Kelson (Ralph Fiennes) em seu templo de ossos, que vimos muito pouco no filme anterior.

A partir destas três vertentes, Nia DaCosta pareceu ter a liberdade para explorar bastante o mundo pós-apocalíptico a partir de um novo roteiro escrito por Garland.

Este segundo filme tem altos e baixos. Na verdade, tem mesmo uma carinha de segundo filme de trilogia. Correndo o risco de este comentário envelhecer mal, é meio como o “As duas torres” (2002) da trilogia de “O senhor dos Anéis” (2001–03). É bom, mas inferior ao primeiro. E, assim esperamos, que ele seja inferior ao terceiro quando este vir a ser lançado novamente sob a direção de Boyle.

Em alguns momentos “Templo dos Ossos” parece um filme filler, ou seja, um filme com um conteúdo extra sobre o mundo de “Extermínio”, mas que não faz muito parte da história principal. Obviamente esta é uma impressão que não se sustentou muito especialmente a partir da sua segunda metade, quando ele cresce bastante até a um final de certa forma apoteótico.

Gosto que a Nia DaCosta não tentou copiar o estilo de Boyle para este filme. Filmou a sua maneira apostando que o fio condutor de “Extermínio” não é o meio, mas a mensagem. Enfim, a história. Infelizmente, ficou a seu cargo cuidar da pior parte desta trilogia. Os Jimmy’s são insuportáveis e têm tempo demais de tela. Quando surgiram no final de “Evolução”, eles prometiam algo interessante: um bando de lunáticos performando enquanto matam zumbis liderados por Sir Jimmy Crystal (Jack O´Connell), único sobrevivente de uma família toda infectada e morta no início de tudo, e que acolheram o Spike.

O segundo filme mostra que aquilo não passava de uma festa estranha com gente esquisita e tudo o que você deseja é que o Spike se livre rapidamente deles. Na verdade, os Jimmy´s estão ali para reforçar uma marca da franquia “Extermínio”: a lembrança de que o maior terror em qualquer mundo apocalíptico vem dos humanos e não do que supostamente causou a nossa destruição. Os Jimmy´s são uma seita satanista com uma interpretação bem equivocada de fé e religião (qualquer semelhança com o mundo real não é mera coincidência) e mostraram ser uma grande enrascada para Spike. Pior do que ter que fugir e matar zumbis.

O problema é que eles são quadrados e rasos demais na história, o que os fazem ser absolutamente desinteressantes. Felizmente fica bastante claro desde o início que eles eram estúpidos demais e não iam durar muito.

Se os Jimmy´s são o ponto baixo, ponto alto do filme está em toda a trama envolvendo o Dr. Kelson e Samson (Chi Lewis-Parry). Toda a dinâmica criada por Kelson no Templo dos Ossos com o zumbi alfa que, milagrosamente, ele consegue ganhar confiança é muito interessante. Kelson fica maravilhado com a possibilidade de poder de alguma forma dialogar com um infectado ao mesmo tempo em que está estudando uma potencial cura para o vírus. No fim, ele faz uma grande descoberta que o filme nos deixa na expectativa se ela poderá ser aproveitada ou não. Tudo isso, é importante ressaltar, com uma trilha sonora de primeira.

Além dos momentos envolvendo Kelson, eu também gostei do filme pelo seu final performático, quando os mundos de Kelson e dos Jimmy´s se chocam. Ver o médico ridicularizando o grupo com um espetáculo performático ao som de Iron Maiden me pegou muito.

E a cereja no bolo ficou para os minutos finais do filme, quando vemos o retorno de um personagem importante para a franquia e que me pegou de surpresa. Uma surpresa que manteve a minha motivação lá no alto para o terceiro filme.

Nota 7/10.

Book review: “Pachinko”, de Min Jin Lee

“Não há nada que possas fazer, entendes? Este país não vai mudar. Coreanos como eu não podem ir-se embora. Para onde iríamos? Só que os coreanos no nosso país também não estão a mudar. Em Seul, pessoas como eu são apelidadas de bastardos japoneses, ao passo que no Japão sou mais um coreano imundo, por muito dinheiro que ganhe, ou quão simpático seja. Mas e então, foda-se? Todas aquelas pessoas que regressaram ao Norte estão a morrer à fome ou então vivem aterrorizadas” (pág. 371)

Sensibilidade, dor, melancolia. São três palavras que me vieram frequentemente a mente lendo “Pachinko”. A saga de quatro gerações de famílias coreanas ao longo do século XX é arrebatadora pela escrita sensível, muito honesta e sincera de Min Jin Lee. Uma escrita que tem um peso não apenas da experiência pessoal, mas também em quase 30 anos de pesquisa da autora.

Essa combinação de emoção e densidade dramática com uma clara riqueza histórica que se percebe lendo o texto é o que talvez faça com que “Pachinko” seja tão irresistível.

Percebe-se pela jornada destas quatro gerações como a vida dos coreanos que tiveram que fazer a vida no Japão por causa de diferentes guerras e ocupações foi e continua sendo extremamente dura. Fica mesmo uma marca indelével na alma deste grupo de pessoas, muitas delas nascidas no Japão, mas que nunca deixaram de ser coreanos aos olhos dos japoneses. E esta marca é passada de geração a geração.

Penso em memória e de como o trauma perpassa gerações junto com o racismo e a xenofobia dentro de cada civilização. Penso em como o mundo é cruel e não há uma mínima razão para que esta crueldade gratuita, o ódio pelo ódio, esteja na ordem do dia. Seja na história de “Pachinko”, seja no mundo em que vivemos em pleno século XXI, que infelizmente guarda tantos paralelos com esta história.

Estes coreanos que são vistos como imundos no Japão e traidores na Coreia são quase como apátridas. Podem ter um passaporte, mas são odiados por onde passam dentro das culturas em que vivem. O que os faz ter pouca escolha na busca por uma ascensão social. Não por acaso o pachinko, espécie de jogo de azar coreano que é mal visto no Japão, acaba sendo uma das poucas saídas para os indivíduos do livro.

“Pachinko” tem muita dor, tem muita luta na busca por um lugar ao sol. Seus personagens guardam uma melancolia que parece tatuada na alma. Uma melancolia que aprisiona seus personagens junto com o senso de responsabilidade para com a família e uma busca por uma nobreza nos atos em alguns momentos até ingênua aos meus olhos ocidentais. A vida dos seus personagens parece um fardo enorme para carregar.

“Pachinko” é brilhante. Uma história extraordinária sobre os sacrifícios que os imigrantes fazem para ter um lugar no mundo. O livro de Min Jin Lee é uma leitura obrigatória que dialoga demais com o nosso tempo, especialmente quando vemos discursos que vilanizam o imigrante e a imigração ganhando tanto eco no mundo. Um paradoxo do nosso tempo. Quanto mais conectados estamos, mais apelamos para uma ridícula voz tribal e protecionista. Voz esta que é comandada pelos piores nomes da extrema-direita que voltaram a circular pelo planeta. E não tem nem 100 anos que acabou a Segunda Guerra Mundial, o auge deste horror e um dos pontos iniciais do horror dos personagens de “Pachinko”.

O que é difícil de compreender para muitos é que quando você imigra você deixa de ser uma única coisa. Não se reconhece no passado, não se enxerga no presente. Estar entre dois (ou mais) mundos é um dos fardos do imigrante que “Pachinko” mostra com tamanha… sensibilidade, dor e melancolia.

Mais uma vez volto a estas três palavras. Três conceitos que junto com o vazio do não pertencimento resumem um pouco do que penso sobre esta obra magnífica de Min Jin Lee. Um verdadeiro clássico moderno.