terça-feira, 20 de novembro de 2018

As viúvas de McQueen

Viola mostra que faz o que deve ser feito
Steve McQueen ainda tem poucos filmes na carreira, mas está entre os diretores que fazem alguns dos trabalhos mais interessantes destes tempos. Seus dois filmes anteriores, “12 anos de escravidão” (2013) e “Shame” (2011) são dois ótimos trabalhos. O primeiro conta a história de um homem livre que morava em Nova York, mas é sequestrado, levado para o sul, onde torna-se escravo e leva 12 anos para ser libertado. O segundo conta a história de um homem que não cultiva qualquer tipo de relacionamento e apenas alimenta seu vício desvairado por sexo, o que o faz mergulhar nas profundezas em busca de cada vez mais prazer.

Em “Viúvas”, o diretor troca o protagonismo masculino pelo feminino. O filme, porém, não é o melhor que McQueen, vencedor de um Oscar em 2014 por “12 anos de escravidão”, já produziu. Mas ainda assim é um McQueen que tenta inverter o tradicional protagonismo masculino dos “filmes de assalto” para as mulheres. E transforma o que seria um golpe numa tragédia que marca todos os envolvidos. Em especial sua protagonista, Verônica, vivida por Viola Davis, talvez a figura mais marcante do filme.

Na trama de McQueen, as mulheres são fortes, lidam com as dores da perda dos seus maridos assaltantes enquanto se equilibram para cuidar do que restou, dos filhos ou refazerem as suas vidas da melhor forma possível. Os homens, por outro lado, são o retrato da decadência do patriarcado masculino.

Harry Rawlings (Liam Neeson) não passa de um covarde que falha no seu suposto plano perfeito e sofre as consequências dos seus atos. Tom Mulligan (Robert Duvall) é o retrato do decadente homem racista senhor de engenho ex-dono de fazendas de escravos americano, cuja família tradicional tem um naco de poder há três gerações em um lado decadente de Chicago e deseja manter o poder como sempre foi, ou seja, passando de pai para filho. Duvall aparece em poucas cenas, mas suas entradas são brilhantes e vivazes em expor até mesmo na natural decadência física do ator de 87 anos o quanto seu personagem representa o passado decrépito que precisa ser superado. 

É onde entra o seu filho, a nova geração que tenta impedir que o comando do 18º distrito passe pela primeira vez para um afro-americano. Jack Mullingan (Colin Farrell), é o velho pensamento apenas envernizado para as novas gerações. Ele pode achar o comportamento do pai odioso, mas embrenha-se nas teias de corrupção da política como qualquer homem branco que se envolve nos podres daquela região. É pragmático em analisar cenários e joga para ganhar, custe o que custar. 

Ele concorre ao cargo político com Jamal Manning (Bryan Tyrree Henry), um notório bandido e traficante da região que tenta se esgueirar na política cujo irmão, Jatemme Manning, brilhantemente interpretado por Daniel Kaluuya, é um psicopata que toca os negócios da família com uma mão de ferro e crueldade própria dos assassinos feios. 

Em meio a eles há o trio formado por Veronica, Alice (Elizabeth Debicki) e Linda (Michelle Rodriguez). Elas são as três viúvas do título e protagonistas dessa história que precisam dar o golpe final traçado por Harry para conseguir US$ 5 milhões que garantiriam a Veronica o pagamento de US$ 2 milhões que o marido devia a Jamal e ainda uma boa grana para elas recomeçarem as suas vidas.

Traçando o perfil dos personagens e combinando com o cenário decadente, escuro e o clima pesado armado por McQueen, “Viúvas” tinha tudo para ser um grande filme. E de fato tem seus bons momentos. Mas a história tem alguns buracos que complicam a sua compreensão. Não fica clara a questão do dinheiro roubado no início e para que ele serviria aos propósitos que são revelados no decorrer do filme. Também não está bem esclarecido o que levou Harry a tomar algumas atitudes no decorrer da história. 

Além disso, a cena do cachorro que sente o cheiro é tão, mas tão clichê, que nem parece um filme do cinema que McQueen tem por hábito realizar. São mais a sua cara e o estilo dele as boas cenas iniciais que contrastavam o assalto, o último assalto realizado pelo grupo de Harry com as vidas caseiras, problemáticas, terríveis ou não, que eles tinham com suas esposas. 

O saldo final, porém, é o de um filme que não supera “12 anos de escravidão” e “Shame”, mas ainda assim é uma história interessante para quem curte o cinema do diretor.


Cotação da Corneta: nota 7.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

A volta de Lisbeth Salander

Que fria em que você se meteu, Lisbeth
Três atrizes já interpretaram Lisbeth Salander em cinco filmes da saga Millenium. Quem mais apareceu é Noomi Rapace, que esteve nos três primeiros filmes. Depois vieram Rooney Mara e agora Claire Foy. Cada uma trouxe um viés para a hacker mercenária que sai pela Suécia fazendo trabalho pouco republicanos e salvando mulheres do jugo de violência e horror masculino. 

Claire Foy trouxe uma combinação do seu carregado sotaque britânico com um lado sombrio que combinou demais com o clima soturno e o frio sueco exibidos em “A garota na teia de aranha”, nova trama de Lisbeth Salander vertida para o cinema.

Esta história, porém, não é do autor sueco Stieg Larsson, criador da série e que morreu em 2004 de uma parada cardíaca após apenas três livros lançados. A história da teia de aranha é de David Lagercrantz, autor e jornalista sueco que foi contratado pela editora Norstedts para continuar a saga deixada por Larsson, que tinha planos de lançar dez livros.

A diferença, porém, na narrativa fica muito clara já na abordagem em comparação com o filme anterior, “Os homens que não amavam as mulheres” (2011). Se aquele era uma história de suspense e mistério que ia aos poucos desenvolvendo a curiosidade do espectador até o desfecho da história, neste há uma clássica história de acerto de contas com o passado e drama familiar, associada a uma roupagem que envolve política, corrupção, mercenários e uma organização criminosa. Tudo com uma postura como se Lisbeth Salander fosse uma versão dark de um James Bond ou Jason Bourne. E isso não necessariamente precisa ser visto sobre um aspecto 100% positivo ou 100% negativo.

Claire Foy é um caso à parte. Bo filme, ela despe-se definitivamente de toda a imponência e liturgia imposta pela s duas temporadas vivendo a rainha Elizabeth em “The Crown” para interpretar essa Lisbeth sem barreiras físicas, do corpo e da alma. É curioso ver essa transformação de quem ficou sendo a cara da rainha até 2017 e agora emenda dois trabalhos no cinema tão diferentes e interessantes. O papel de Janet Armstrong em “O primeiro homem” (2018) e agora de Lisbeth. 

“A garota na teia de aranha” é um bom filme. Nada marcante, um tanto previsível mas um filme bom de se acompanhar. Ainda que esta avaliação esteja prejudicada pela falta de base para analisar comparativamente à obra literária. É impossível para mim analisar se é fiel à obra. Mas apenas como cinema é interessante desse acompanhar. 

Talvez o grande problema deste filme seja a presença um tanto apagada do jornalista Mikael Blomqvist (Sverrir Gudnason). O Blomqvist de Gudnason não tem a mesma força que o de Daniel Craig no filme anterior. E nem o mesmo protagonismo. Em “A garota na teia de aranha”, Blomqvist segue em crise, mas é apenas mais uma peça movida no xadrez pessoal de Lisbeth. Que ela usa quando necessário. Ainda que fique claro que os dois compartilham um passado de questões mal resolvidas. 

Parte dos méritos do filme cabem ao diretor uruguaio Fede Alvarez. Ele soube captar muito bem o clima da saga. Um estilo dark nórdico, muitos tons escuros, faces gélidas - e a vilã Camila, vivida por Sylvia Hoeks, é um expoente disso - e a economia dos movimentos contrastando com cenas de luta claustrofóbicas. Os olhares também dizem muito do que se quer passar. 

São qualidades que mantiveram o fôlego da série. Talvez “A garota na teia de aranha” não seja melhor que “Os homens que não amavam as mulheres”, mas gostaria de ver Claire Foy interpretando mais uma vez a personagem. Lisbeth merece essa grande atriz. 

Cotação da Corneta: nota 6,5.


sábado, 3 de novembro de 2018

Bohemian Rhapsody é decepcionante do início ao fim

Malek no papel de Freddie Mercury
“Bohemian Rhapsody” tinha tudo para ser uma grande cinebiografia. A história do cantor Freddie Mercury é rica e diferente de muitos que viveram no show business e no tempo do surgimento das mega bandas de estádio no século XX. Por si só é exótico um cara que nasceu no Zanzibar, na África, passou a infância na Índia e depois foi forçado a imigrar para a Inglaterra por causa de uma revolução no seu país, começou a estudar design e de repente se junta com um quase dentista, um quase físico e um quase engenheiro mecânico para montar uma banda que seria uma usina de hits nos anos 70 e 80. 

Mas “Bohemian Rhapsody” é um filme preguiçoso que não entrega sequer o básico, que seria uma cinebiografia careta, linear e pautada por momentos históricos da banda e do seu vocalista. É um trabalho superficial, errático, que não acrescenta nada de novo ou relevante à biografia do Queen ou do próprio Freddie, uma das grandes vozes da história do rock.

O filme, por exemplo, tangencia questões importantes que mereciam ser mais aprofundadas. Listo algumas: por que a relação de Freddie com a família é tão fria e cheia lacunas? Como foi a sua infância em Zanzibar e na Índia, onde, aliás, ele começou a aprender piano? Que tipo de influência ele pode ter sofrido dessa vida nestes dois lugares? No que a família, a imigração o influenciaram ou não para ser o que ele se tornou? Por que negar o nome e as origens? São questões que poderiam ter sido feitas e não foram respondidas. No filme, sua família é quase uma ponta na história. 

A própria relação de Freddie com sua homossexualidade, bem como seus conflitos internos, carência e solidão não são devidamente tratados/aproveitados para tentar compreender quem era Freddie. Em resumo, é um filme que entrega muito pouco.

É claro que a produção sofreu diversos problemas. Inicialmente, Freddie seria interpretado por Sacha Baron Cohen, mas divergências com o guitarrista Brian May e o baterista Roger Taylor, acabaram dinamitando a sua participação. O lugar acabou sendo ocupado por Rami Malek, conhecido por sua participação na série de TV “Mr Robot”, mas que entrega um Freddie apenas aceitável e nada marcante.

Depois disso, o próprio Bryan Singer foi demitido da produção faltando duas semanas para o fim das filmagens. Direção esta que caiu no colo de Dexter Fletcher. Mas o filme acabou tendo mesma cara dos últimos trabalhos de Singer, com pouca profundidade na abordagem dos personagens e trabalhos aquém do esperado. “X-Men: Apocalipse” (2016) é um exemplo.

De fato, “Bohemian Rhapsody” apenas se escora nas boas canções do Queen, especialmente as que representaram turning points na carreira da banda - “Bohemian Rhapsody”, “Love of my life”, “We Will Rock you”, “I want to break free”, “We are the Champions”, “Another one bites the dust”- para trazerem um conforto no coração do espectador. Teria sido mais proveitoso e barato, porém, ouvir um greatest hits do Queen no Spotify.

O roteiro de Anthony McCarten e Peter Morgan, este responsável por filmes muito bons como “O último rei da Escócia” (2005), “A Rainha” (2006), “Frost/Nixon” (2008) e “Rush” (2013) também peca ao não fornecer informações básicas, colocar o Rock in Rio num tempo e espaço aleatórios entre 1975 e 1985 e criar diálogos ruins. Nem parece que tinha ali uma banda criando grandes hits. E mesmo estes momentos de criação dos músicos soam fake e sem alma.

Se Malek está longe de ser marcante, mas também não compromete uma engrenagem que é falha do início ao fim, os atores que fazem os demais integrantes da banda – sempre vistos pela narrativa com extrema generosidade – são fracos. Gwilym Lee (Brian May), Ben Hardy (Roger Taylor), Joseph Mazzello (John Deacon) está ali para não comprometer e serem as peças sóbrias da egotrip de Freddie Mercury. Já o empresário Paul Prenter (Allen Leech) é pintado como o vilão do filme, o responsável pelos atritos entre Freddie e o resto da banda e até pela separação temporária dela.

Assim, “Bohemian Rhapsody” atravessa suas 2h15min devendo muito. Seus momentos mais marcantes acabam por ser a cena de Malek na chuva, quando Freddie resolve sair do fundo do poço para retomar a carreira com o Queen e a apresentação histórica no Live Aid de 1985, um ponto fundamental para a banda e Freddie, e colocado num contexto em que o cantor tinha acabado de saber que estava com Aids, doença que acabaria contribuindo para a sua morte seis anos depois. Mas infelizmente toda a linha do tempo do Queen no filme não bate sequer 70% do que aconteceu realmente. Assim como o espectador sai do cinema sem saber sequer o nome de um disco da banda.

Singer, aliás, optou por colocar um pocket show fake do Queen dentro do filme para retratar a performance no Live Aid. Não sei se foi a melhor opção. Pareceu-me sim uma opção preguiçosa. Pois não era um filme e nem um verdadeiro show do Queen, trazendo ruídos para todos os lados. 

Assim “Bohemian Rhapsody” termina com a falsa sensação de sair por cima, quando na verdade deixou mais buracos e um pouco de entretenimento num filme absolutamente dispensável. 

Cotação da Corneta: nota 3,5.


domingo, 28 de outubro de 2018

Desafiando regimes

Os jovens que enfrentaram o regime antes do muro
“A revolução silenciosa” é uma história real. E aconteceu cinco anos antes da construção do Muro de Berlim. Conta a jornada de uma turma de uma escola na antiga Alemanha Oriental que resolveu desafiar o rígido sistema socialista da União Soviética fazendo dois minutos de silêncio pelas vítimas de uma revolta contra os soviéticos que começava na Hungria. 

O problema que o gesto simbólico e inocente diante de um regime acostumado a controlar cada passo dos seus cidadãos custou caro. Foi visto como uma contrarrevolução, um ato de violência contra a RDA e levou ao inquérito com diversas torturas psicológicas dos jovens. 

Liderados por  Kurt (Tom Gramenz) e Theo (Leonardo Scheicher), dois amigos que iniciaram o movimento, os jovens só queriam liberdade e que os russos deixassem a Alemanha. Mais do que nunca, porém, eram jovens que estavam experienciando o debate político, Os próprios soldados russos queriam voltar para casa. Mas manter o poder e os territórios em plena guerra fria era fundamental para os soviéticos. 

No meio da disputa e da inacreditável pressão feita pelo ministério da educação da Alemanha Oriental, os jovens resistem, discutem, insistem, e, no fundo, repetem a história dos pais. Especialmente Theo e Erik. O primeiro era filho de um metalúrgico que participou de uma revolta ocorrida em 1953 e perdeu a chance de continuar seus estudos. O segundo era filho de um dito colaboracionista, considerado homem fraco por ter traído a RDA. 

No meio deles, quem destoa ê Kurt, o oposto do pai, que exerce um cargo alto no governo alemão. Kurt revela-se, quer mais do que a vida certinha e tolhida criada pela família. 

Eram jovens que ainda estavam criando suas próprias referências políticas e morais e que tiveram que lutar contra um regime perverso e alienante. No fim, precisaram abrir mão de muita coisa para seguirem sonhando com liberdade nos pensamentos. 


Cotação da Corneta: nota 7,5


quinta-feira, 25 de outubro de 2018

A insana viagem para a Lua

Não é fácil ser astronauta
Muitos filmes já foram feitos sobre a conquista do espaço. Mas acho que poucos souberem retratar com tamanha acuidade esse desafio insano rumo ao desconhecido quanto Damien Chazelle em “O primeiro homem”. 

Mais novo trabalho do diretor que ficou mais conhecido pelo sensacional “Whiplash” (2014) e que venceu o Oscar de melhor diretor por “La La Land” (2016), “O primeiro homem” é uma cinebiografia. Supostamente deveria contar a história de Neil Armstrong (vivido por um Ryan Gosling contido, quase encurralado pelo desafio de ir até a Lua), mas isso é o pano de fundo de uma história ainda maior que é a o desafio de chegar aonde nenhum homem jamais estivera até então. 

Chazelle trouxe um realismo impressionante â experiência da corrida espacial. Levou para a tela o incomodo que é pilotar um foguete. A incerteza daquelas máquinas em plenos anos 60, pouco mais de seis décadas depois que o homem aprendeu a voar. Levou o medo, fez questão de esfregar nas nossas caras o quão insano e desafiador era até então ser um astronauta. E talvez seja até hoje. 

E ele expõe isso nas cenas nauseantes das máquinas balançando horrores. No isolamento e na solidão de se estar em órbita. Na tensão e na incerteza da volta. Na dificuldade de acertar cálculos tão difíceis para um humano normal compreender. Um erro é nada menos do que fatal. Tudo para chegar naquele momento em que se dá um “pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a humanidade”. 

No seu filme, a Lua está sempre à espreita. Ali, do alto, sendo observada, estudada, admirada, contemplada. E desafiando aqueles aventureiros modernos. A cada fracasso ela parece mais distante. A cada pequeno triunfo, ela surge mais perto. Alguns enquadramentos também ressaltam a dupla face do satélite natural da Terra. O lado escuro e claro na face de um Neil Armstrong preocupado com o futuro, no rosto do seu filho quando pergunta se ele pode não voltar. A Lua talvez tenha sido (e talvez continue sendo) um desafio tão grande quanto o das caravelas rumo ao desconhecido nos séculos XV e XVI. 

Para enfatizar tudo isso, Chazelle reduz a trilha sonora ao mínimo possível. Se “Whiplash” era um filme todo pontuado pela trilha, e “La La Land” era um musical de canções marcantes, “O primeiro homem” exalta o silêncio solitário da viagem para além da Terra pontuado apenas por canções épicas compostas por Justin Hurwitz – o mesmo de “Whiplash” e “La La Land” - para dramatizar os momentos mais marcantes. Em especial a partida da Apolo 11 de Houston e o pouso na Lua. 

“O primeiro homem” é um filme belo. Não é muito verborrágico e por vezes tem diálogos erráticos. Algo bem diferente dos trabalhos anteriores do roteirista Josh Singer, vencedor do Oscar por “Spotligh” (2015) e que também escreveu “The Post” (2017). A cena final de Neil Armstrong reencontrando a mulher (a ótima Claire Foy, a rainha Elizabeth nas duas primeiras temporadas de “The Crown”) é de uma beleza singular. Nada é dito naqueles minutos finais. É como se o silêncio do espaço e as incertezas permanecessem até a volta à Terra. Mas ao mesmo tempo muita coisa é dita naquela troca de olhares e pequenos gestos através do vidro. Cenas como essa valem demais o filme. 

Cotação da Corneta: nota 8,5

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Aquele conto de fadas bonitinho e cafona

Solta a voz, Lady Gaga
“Nasce uma estrela” é um conto de fadas. Um conto de fadas um pouco mais moderno e com um final bem mais interessante que os tradicionais, mas uma história que não difere muito das Cinderelas da vida. 

Como todo conto de fadas, é cafona. É brega. E remete ao choro fácil e às lágrimas programadas para saírem em determinados pontos do filme para trazer ao espectador a sensação de emoção, encantamento e aperto no coração. 

Tudo tem seu valor, mas se você não cai no conto de fadas, não tem muito o que tirar do filme a não ser considerá-lo bonitinho. Afinal, é bonitinho ver uma história de superação e amor entre dois jovens bonitos e talentosos, mas cada um com seus problemas e frustrações não resolvidos na terapia. 

De um lado temos Jackson Maine vivido com talento por um Bradley Cooper emulando Jeff Bridges em “Coração Louco” (2009). Maine é um cantor famoso que tem sérios problemas com bebida, herança do pai alcoólatra que morreu quando ele tinha 13 anos. 

Do outro temos Ally vivida por uma Lady Gaga que tem um desempenho satisfatório como atriz. Ally é uma aspirante a cantora com um talento raro, mas sempre rejeitada pela indústria por sua aparência assimétrica.

Quando estas duas almas se cruzam num bar de drag queens, um encontro improvável não fosse o vício de Maine pelo álcool, há um estalo, um riscar de fósforo que aproximará dois talentos ímpares que vão se complementar e se reerguer cada um à sua maneira. 

Maine traz luz à carreira de Ally, a lança para a multidão, enquanto ele mesmo mergulha profundamente nas trevas do álcool num processo que parece irreversível. A trajetória dos dois é de opostos, ascendente e descendente, que se cruzam no momento mais feliz do casal, mas criam atritos quando ambos seguem caminhos opostos. Ally, cada vez mais uma estrela pop, Maine cada vez mais um cantor decadente, depressivo e com problemas de audição. 

Mas é um conto de fadas. O amor entre eles é muito forte. Principalmente de Ally, que nunca sente a carreira prejudicada mesmo nos momentos mais embaraçoso dela causados por ele. Tudo o que Ally deseja é fazer por Jack o mesmo que ele fez por ela enquanto ela era uma mera funcionária de restaurante que fazia bicos de cantora em bares de esquina. Assim é o amor. Ainda que nem sempre as coisas possam sair como o sonhado. 

“Nasce uma estrela” é a terceira refilmagem da versão originalmente lançada em 1937 e estrelada por Janet Gaynor e Fredric March. A diferença para o filme original é o cenário. Lá, era a indústria do cinema, aqui, a da música. Mas o enredo é o mesmo. 

O filme atual tem boas canções e, no mínimo, deve receber indicações ao Oscar para as categorias musicais. A presença de Lady Gaga cantando na tela dá um peso ainda maior, uma vez que não é uma atriz se esforçando para cantar, mas alguém cujo talento nessa arte é mais do que reconhecido. São as cenas em que, naturalmente, ela mais está à vontade. Ainda que aquele olhar inocente de quem não está entendendo o que se passa na vida, mas está se esforçando para atuar tenha funcionado muito bem para o papel dela. No cômputo geral, Gaga vai bem. 

Como tem vários elementos que o Oscar adora como história de superação, drama, amor e tragédia, não me surpreenderia se “Nasce uma estrela” também ganhar algumas indicações ao Oscar em outras categorias. Contudo, é um filme que não vai além do bonitinho bem feito. 

Cotação da Corneta: nota 7

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Falta um certo aracnídeo

Ele é mau, mas agora nem tanto
Não existem muitas razões diferentes da mercadológica para fazer um filme sobre o Venom. Tudo bem que a simbiose entre o alienígena e o jornalista Eddie Brock (vivido naquele esquema com um pé nas costas por Tom Hardy) é um dos vilōes mais populares do universo do Homem-Aranha. E aí é que está a questão. Como um vilão pode ser protagonista se ele nasceu para ser antagonista? 

A solução encontrada foi a pior possível. Sem a presença do Homem-Aranha, devidamente recolocado no chapéu do universo cinematográfico da Marvel, “Venom”, o filme, fica com um buraco difícil de tapar. E a solução para isso  foi transformar ele num quase herói, um loser tentando se encontrar no mundo, uma junção de dois corpos formados pelo bem (Eddie Brock) e o mau (Venom), transformando o personagem num anti-herói, ou uma versão pós-moderna do “médico e o monstro”. 

Dá certo? Só em parte. É difícil imaginar que um personagem que nasceu do ódio de ambos (organismo simbiótico e Eddie) por Peter Parker e o Homem-Aranha possam sair por aí agora salvando o universo. 

A verdadeira origem do Venom foi toda jogada fora em prol da criação de um filme feito para a Sony tentar explorar ao máximo o universo do Homem-Aranha sem usar o grande protagonista do mesmo. 

Venom, porém, não vai além de um filme meramente ok baseado nos quadrinhos da Marvel. Tem efeitos especiais que fazem a diferença para o Venom. E a evolução tecnológica só fez bem em relação à aparição do personagem em “Homem-Aranha 3” (2007). Mas sua história é esquizofrênica quase como que tentando ver o lado bom de Eddie Brock e vendo o jornalista como uma vítima do parasita alienígena. 

Venom certamente ganhará uma continuação. A presença do Carnificina (Woody Harrelson) nas cenas extras garantem essa possibilidade. Mas parece que sempre faltará algo em filmes como este. E esse algo é a presença do herói ou de um antagonista para o vilão sem que ele deixe de ser um vilão. Mas talvez o futuro filme do Coringa desminta a minha tese. 

Cotação da Corneta: nota 6

domingo, 7 de outubro de 2018

O ódio será sua herança?

Sócrates e Aristóteles
Sempre fui contra o voto obrigatório. Não porque eu fosse revoltado. Bom, eu sou revoltado. Mas não era por isso. Só não gosto de nada que seja obrigatório. Do voto ao alistamento militar. Ao mesmo tempo nunca deixei de votar. Era quase uma tradição eu sair caminhando pelas ruas de Niterói até o colégio Abel para depositar minha singela contribuição para o país ao som do meu heavy metalzinho. No início, eu fazia isso com um walkman onde colocava uma fita para tocar. Nas últimas eleições eu adotei os apps tradicionais no IPhone. Um upgrade e tanto.

O Brasil, por outro lado, parece estar sofrendo um downgrade. E dessa vez eu só posso observar de longe. Uma enorme rasteira da vida me impediu de viajar para votar. O plano era esse. E quando ele foi traçado eu nem desconfiava que hoje muitos estariam com o coração na boca e temendo pelo pior. Tá um climão tão esquisito que eu até ouvi a seguinte frase de dois colegas portugueses.

- Até eu quero votar nestas eleições.

Eu queria muito. Nunca faltei uma eleição, mas é a vida. Só espero que as pessoas reflitam sobre o seu próprio comportamento desde a Copa do Mundo. Nos últimos meses eu li muito discurso de ódio de todos os lados. A educação das pessoas foi mais vezes rebaixado que Fluminense e Vasco juntos. Juntando isso com a enxurrada de fake news o clima ficou nas raias do insuportável. É preciso mesmo despejar tanta bile para defender pontos de vista? O objetivo de todos não deveria ser o bem comum?

Aristóteles dizia que a política busca a virtude dos seus cidadãos para o bem comum e que seu objetivo “é criar a amizade entre membros da cidade”. Sendo assim, “a política não deveria ser a arte de dominar, mas sim a arte de fazer justiça”.

Uma frase atribuída a Sócrates diz que “as mentes brilhantes discutem ideias fortes; as mentes médias discutem eventos; as mentes fracas discutem com outras pessoas”. O filósofo também dizia que “a forma mais nobre e mais fácil de andar não é esmagando os outros, mas melhorando a si mesmo”.

É preciso, portanto, menos tribalismo e mais noção de humanidade.

Quem chegou até aqui talvez esteja me chamando de inocente e bobo. Não me importo. Decidi que o importante é espalhar o amor.

Votem com consciência e reflitam bem antes de apertar os botões das maquininhas. A maioria aqui deve ter visto “Guerra Infinita”. Vocês viram o que acontece quando alguém como o Thanos assume o poder absoluto do universo. E não é em todo lugar que a gente encontra um Adam Warlock para salvar a pátria (foi mal pelo spoiler de 2019).

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Um filme dispensável

Dupla dinâmica
Quando foi lançado, o primeiro filme do “Homem-Formiga” tinha uma mistura de ação com elementos lúdicos que o tornavam um filme divertido como outros tantos do universo Marvel. Algumas cenas eram realmente muito engraçadas como a batalha final no trenzinho de brinquedo. Era natural, portanto, que crescesse a expectativa por um segundo filme que trouxesse também a Vespa com um certo protagonismo. 

Mas “Homem-Formiga e Vespa” é um tanto decepcionante. Basicamente é um filme que só serviu para responder à pergunta que estava na cabeça de todo mundo que acompanha os filmes do universo Marvel: “Onde diabos estava o Homem-Formiga quando Thanos invadiu o planeta e estalou os seus dedos”? Agora sabemos a resposta. E podemos dizer que ele se meteu numa roubada e tanto. 

Embora lançado depois, o filme se passa antes - ou melhor dizendo, paralelamente - aos acontecimentos de “Guerra Infinita”. Scott Lang (Paul Rudd) está finalizando os seus dois anos de prisão domiciliar enquanto o doutor Hank Pym (Michael Douglas) descobre uma maneira de trazer de volta do, digamos, universo quântico, sua mulher Janet (Michelle Pfeiffer), perdida lá há 30 anos. Para isso, ele ainda contará com a ajuda da sua filha Hope (Evangeline Lilly), agora a nova Vespa. 

E aqui começam os problemas do filme. Enquanto trabalham em lições de física pesadas cuja capacidade eu não tenho para entender, surge no caminho deles um traficante caricato, a polícia sempre no encalço de Scott e esperando ele fazer alguma besteira e Ava (Hanna John-Kamen), também conhecida como Fantasma e pálida caricatura de antagonista. Ava é uma mulher que sofreu um acidente quântico na infância e vive com suas moléculas morrendo e renascendo o tempo inteiro. 

Nenhum deles estabelece de fato o antagonismo necessário para dar relevo ao filme. Apenas cada grupo segue solitário em busca dos seus interesses. Sejam eles nobres ou não. E aí o filme cansa um pouco porque fica a sensação de que se cada um (em especial Ava, que é quem tem superpoderes) se sentasse para conversar tudo se resolve em dois minutos. Menos com os bandidos, é claro. Mas eles não têm estofo para enfrentar os heróis. São bandidos comuns com armas comuns que ali estão para oferecerem situações que nos farão rir. Do cara que desmaia porque bateu no saleiro gigante ao que tomba da moto por causa de um pacote de bala infantil. 

Mesmo a busca por Janet é enfadonha. Tudo porque não é dada a dimensão do quão desafiador é atingir o nível molecular e trazer de volta uma pessoa que lá está presa há 30 anos. Tudo acontece sem muito desafio, tudo como se fosse uma viagem de fim de semana para rever os amigos. 

De resto, o filme oferece um par de boas cenas. A perseguição de carros é divertida com seus truques aumentando e diminuindo o veículo e a participação da Vespa deu um frescor à franquia em um filme que ficará apenas como uma doce aventura de comédia para a família. E nada mais. 

Cotação da Corneta: nota 5,5

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Salada mista

Tenha fé que você chega lá
Ethan Hawke gosta de falar, questionar e que seus personagens façam reflexões. Estão aí seus filmes feitos em parceria com Richard Linklater que não nos deixam mentir. Mas em “No coração da escuridão”, eu não sei onde ele quis chegar. De fato, eu não compreendi onde o diretor e roteirista Paul Schrader quis chegar com a história do reverendo Ernst Toller.

“No coração da escuridão” passa por uma série de situações. Temos um padre em conflito com um passado doloroso, temos um foco na questão ambiental e no aquecimento global, chegamos ao extremismo/terrorismo das ações e não encontramos respostas para nada. Talvez até não fosse o caso mesmo de encontrá-las, mas nem mesmo questões que provoquem uma reflexão profunda ao surgimento dos créditos no final do filme são levantadas. 

O planeta está se deteriorando pela ação humana que não cuida do ambiente? Ok, é verdade. Há empresários sem escrúpulos poluindo ainda mais o ambiente? Sim, é verdade. A política obriga a igreja até a fazer acordos com os demônios do mercado? É assim há mais de dois mil anos. O caminho do protesto é pela violência, pelo autoflagelo ou pelo amor? É isso que se quer fazer? 

É difícil compreender onde Schrader quer chegar. Ele tenta incutir uma “crítica social foda” ao contar a história do padre de uma congregação que precisa organizar o festejo dos 250 anos de uma igreja histórica nos Estados Unidos. No meio do caminho, ele precisa aconselhar um homem a não fazer besteira em sua luta em defesa do meio ambiente ao mesmo tempo em que a mulher deste homem, Mary (Amanda Seyfried) surge para buscar ajuda, mas também traz o conforto para a vida desse religioso ex-militar amargurado pela morte do filho na guerra do Iraque. 

Longas conversas sobre o papel da Igreja e da Bíblia surgem. A saúde do reverendo se deteriora na medida em que um provável câncer no estômago se manifesta cada vez mais forte. 

E para onde o padre de Hawke vai? Que caminhos o filme quer tomar? Parece que “No coração da escuridão” é uma salada de situações que não provoca de fato uma reflexão profunda. Da mesma forma que não traz muito entretenimento ao espectador. E ainda tem um final bizarro que pareceu jogar o filme num limbo em que nada faz sentido. 

Talvez a única coisa coesa e relevante do filme seja a segura atuação de Hawke. Ainda mais reforçada pela palidez do restante do elenco. 

“No coração da escuridão” abraçou muitos temas, mas não se aprofundou de fato em nada. Com isso, o filme ficou devendo. 

Cotação da Corneta: nota 4.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Ethan Hunt cada vez melhor

Quem precisa de cordas para escalar?
Toda franquia tem seus altos e baixos. Uns filmes muito bons, outros ruins, outros mais ou menos. Mas Tom Cruise tem nos brindado com uma sequência de missões impossíveis cada vez melhor que a outra. 

De fato, não existe mistério para criar os filmes da série. É uma receita de bolo matadora que mistura cenas absurdas, reviravoltas   no roteiro, traições, uma história simples explicada logo de cara (quase sempre o mocinho tem que impedir o vilão em sua tentativa de dominar ou destruir o mundo), algumas surpresas e Tom Cruise desafiando a morte.

E a cada filme seu Ethan Hunt parece passar do limite. É assim que queremos. É assim que gostamos. 

O grande mistério mesmo de “Missão Impossível” é como o ator de 56 anos têm fôlego e disposição para fazer tanto exercício! Em “Efeito Fallout”, Tom Cruise corre DESEMBESTADAMENTE por Londres com direito a saltos entre telhados, protagoniza uma impressionante cena de perseguição nas ruas de Paris, pilota um helicóptero e sofre um acidente que mataria qualquer um na Caxemira. E ainda briga com o Superman! Tudo isso tendo que escalar uma montanha no final para salvar um terço do planeta. China, Índia e Paquistão agradecem a dedicação. 

Não é à toa que o Luther (Ving Rhames) diz: “esse é o meu cara!”. Se tivesse conhecido Ethan antes do Lula seria para ele que Obama diria: “Você é o cara”. 

“Efeito Fallout” é aquela história de espião clássica Hunt style. Tem um traíra na agência, tem que achar um terrorista, tem que impedir que bombas de plutônio dizimem a humanidade. No meio disso tudo, tem o Sindicato, um grupo de terroristas que anda desmobilizado desde a prisão de Solomon Lane (Sean Harris). 

A situação em Washington também não está muito boa. O IMF é questionado depois que Ethan deixa escapar as ogivas de plutônio para salvar seus amigos Luther e Benji (Simon Pegg). Por conta disso, a CIA resolve botar o pau na mesa e dizer que “agora é do meu jeito”. Assim, eles recrutam o agente bigodudo August Walker (Henry Cavill) para ser a sombra de Hunt e agir de uma forma mais assertiva na missão. 

A partir daí a trama se desenvolve naquele clima de todo mundo desconfia de todo mundo. Ainda mais depois que a Ilsa Faust (Rebecca Ferguson) surge cheia de mistérios dizendo que não pode contar nada, não pode dizer nada. “Mas confia em mim.” Ilsa, esse é um mundo de espiões. Não se confia nem na sombra. 

“Missão Impossível: efeito Fallout” é diversão garantida e mantém bem viva a franquia de Ethan Hunt. Resta saber até quando Tom Cruise vai aguentar se arriscar em cenas cada vez mais surreais. Ainda mais porque a cada filme parece ser preciso estabelecer novos limites. Ou manter os anteriores. 

Mas enquanto o sétimo filme não vem (é não tenho dúvidas de que ele virá), aguardarei o que Tom Cruise pretende aprovar para o retorno de “Top Gun”, projeto com previsão de lançamento em 2019, 33 anos depois do filme que o ajudou a se tornar uma estrela.

Cotação da Corneta: nota 8,5