quinta-feira, 4 de junho de 2026

He-Man é a "Barbie" dos meninos, mas com menos musculatura intelectual

Toda vez que o cinema acerta uma fórmula de sucesso, a tendência que vemos nos anos subsequentes é o surgimento de cópias que quase sempre não são tão boas quanto as ideias originais. Foi assim depois de “Matrix” (1999) e sua tecnologia revolucionária para a época. Foi assim com a construção do Universo Marvel a partir de “Homem de Ferro” (2008). “Mestres do Universo” (Masters of the Universe, no original) é o mais novo exemplo que é uma mistura disso tudo. Pega o início de uma nova onda, a das adaptações para o cinema de brinquedos, games e desenhos animados, e surfa muito no sucesso estabelecido por “Barbie” (2023).

Pode-se, inclusive, dizer, que “Mestres do Universo”, ou “He-Man” como o desenho animado ficou conhecido no Brasil, é uma espécie de “Barbie” dos meninos. Uma “Barbie” sem a mesma, digamos, musculatura intelectual, mas igualmente divertido e muito mais galhofeiro.

E acho que o grande trunfo do filme dirigido por Travis Knight foi mesmo não se levar a sério, abraçar a galhofa e saber brincar até com algumas coisas do desenho e do universo do He-Man que sempre pareceram meio ridículas, mas nunca incomodaram nenhum fã da animação. Como o momento em que o Adam (Nicholas Galitzine) se transforma no guerreiro de Eternia, quando, aparentemente, ele fica pelado diante de quem estiver vendo a sua transformação.

A história desta nova versão de “Mestres do Universo” não tenta inventar a roda. É praticamente como um episódio do desenho animado, mas ao mesmo tempo tenda dar uma nova origem ao personagem, sem ferir grandes suscetibilidades. Quando Adam ainda era uma criança, o Esqueleto (Jared Leto) invade o reino do Rei Randor (James Purefoy), em busca da Espada do Poder para dominar o mundo, ser invencível e aquele blábláblá de sempre.

Pegos de surpresa pelo exército que não tinha apenas magia, mas também muita tecnologia, os soldados do rei liderados por Mentor (Idris Elba) são derrotados. Num esforço para não ver Eternia ser totalmente derrotada, a Feiticeira (Morena Baccarin) manda o jovem Adam junto com a Espada do Poder para a Terra. Adam, no entanto, perde a espada na viagem galáctica e é obrigado a viver os 15 anos seguintes no nosso mundo.

Aqui é onde o filme segue a mesma fórmula de “Barbie” quando a personagem vivida por Margor Robbie também faz uma viagem para o “mundo real”. Assim como no filme de Greta Gerwig vimos Barbie e Ken enfrentando situações completamente diferentes e que eles não conheciam em seu mundo, em “Mestres do Universo” vemos um Adam enfrentando seus próprios dilemas, totalmente deslocado, obcecado por um mundo que ele garante que é real, mas ninguém acredita, e por encontrar a sua espada, o que causa uma série de constrangimentos no departamento de Recursos Humanos de uma empresa em que ele trabalha.

O período na Terra é relativamente rápido e funciona em alguns aspectos para mostrar este deslocamento de Adam e a necessidade de voltar para o seu outro mundo. Afinal, Adam é filho de uma humana com um rei de Eternia. Por outro lado, é onde ele igualmente marca as diferenças entre o trabalho de Gerwig e o de Knight. Em “Barbie” o choque de mundos é o palco ideal para um filme que reflete sobre desigualdade de gênero, consumismo, a cultura corporativa, masculinidade tóxica e o papel dos homens na sociedade, entre outras questões. Em “Mestres do Universo”, o período na Terra é mais usado para fazer piadas corporativas (ainda que a melhor de todas tenha acontecido com o uso do termo team building em Eternia) e piscadelas para a cultura nerd. Tanto que o filme nem perde muito tempo com o Adam lá. Logo que ele encontra a espada, Teela (Camila Mendes) vai buscá-lo para o levar de volta a Eternia onde Adam se torna a grande esperança de salvar o mundo das garras do Esqueleto.

É em Eternia que o filme cresce. Num mundo que têm uma lógica toda própria e em que ciência e fé caminham abraçadas, num mundo que tem espadas e raios lasers, naves e tigres gigantes, tudo é possível. E é aqui que o filme de Knight brilha, pois neste planeta tão sui generis, o melhor mesmo é abraçar a galhofa. E aqui a farofa voa tão bem que para ficar melhor só se tivesse alguns momentos uma trilha sonora com Poison ou Mötley Crue.

“Mestres do Universo” também funciona bem como uma aventura leve. Enquanto Adam tenta descobrir o seu propósito e o tamanho dos seus poderes, ele consegue transformar-se na cola que une os guerreiros outrora derrotados na missão de recuperar Eternia das mãos do Esqueleto, que se mostra ser o vilão caricato que sempre vemos na animação. A partir daí, seguimos com piadas e boas cenas de ação que vão divertir os fãs de He-Man.

Isto faz com que o filme seja divertido, ainda que ele tenha alguns problemas. Entre eles estão o roteiro, que é basicamente um fiapo de história e o papel da Maligna (Alisson Brie), que parece muito subserviente na sua relação tóxica com o Esqueleto. Além de eu ter achado que foi mal aproveitada no filme. Vemos mais destaque a nomes como o Fisto (Jóhannes Haukur Jóhannesson) e o Ariete (Jon Xue Zhang) do que para ela. Gosto mais da recente versão da Maligna que vemos nas animações da Netflix. Afinal, entre o bem do He-Man e o mal do Esqueleto, a Maligna é o elemento mais cinzento daquele mundo.

Por outro lado, o filme deixa claro que não vai parar por aí. Em especial depois das três cenas extras durante os créditos. Em uma delas, vemos uma personagem importante que me pegou de surpresa e mostrou que a história do He-Man ainda vai se expandir bastante.

Nota 7/10.