quarta-feira, 22 de abril de 2026

“Michael” emociona em números musicais, mas falha como cinebiografia

Desde o início sabia-se que a cinebiografia de Michael Jackson seria chapa branca. O controle da família e daqueles que o cercaram, retratados na lista de produtores do filme, que pode ser encontrada em qualquer site especializado de cinema, eram mostra suficiente de que temas delicados seriam evitados ou suavizados. Eu só não imaginava que “Michael” fosse um filme tão sem alma e sem personalidade e que foi incapaz de retratar a complexidade de um artista como Michael Jackson.

Na verdade, estou sendo ligeiramente injusto. “Michael” tem alma em alguns momentos. Mais especificamente eu seus números musicais. Eles são o ponto alto do filme dirigido por Antoine Fuqua, tanto quando vemos o Michsel criança interpretado com magnetismo por Juliano Valdi, quanto quando vemos o sobrinho de Michael, Jaafar Jackson mimetizando os passos, os trejeitos e a forma de cantar do tio. São nestes momentos que o filme ganha vida, emociona e faz o espectador cantar junto. Mas é só. Quando entramos nos intervalos dos “clipes musicais” e é preciso contar a história, “Michael” é superficial, por vezes incorreto, por vezes injusto e não investiga a alma por trás do artista biografado.

“Michael” tem um vilão óbvio: Joseph Jackson (Colman Domingo), o pai controlador, violento e manipulador. O homem que praticava abuso físico e psicológico com os filhos, em especial o mais jovem e talentoso deles. Mas o que se vê na tela é apenas o necessário para pintar um vilão sem que se possa aprofundar a relação complexa de Michael com o pai e a família como um todo.

Tudo é muito passageiro e pouco aprofundado na cinebiografia. O filme compreende o início dos jovens Jackson 5 e vai até o fim definitivo do grupo, quando Michael já fazia muito sucesso em carreira solo após ter lançado os álbuns “Off The Wall” (1979) e “Thriller” (1982). Mesmo compreendendo um período de tempo que vai até metade da vida de Michael, Fuqua não consegue dar um norte preciso ao filme.

A infância de Michael passa rapidamente e se resume a números musicais e opressão paterna. E quando Fuqua tenta investigar os problemas psicológicos do artista, ele apenas mostra sinais muito sutis, como a criança que vê no produtor da Motown uma figura paterna que não tem em casa. Aliás, no filme Michael nunca chama Joseph de pai. É sempre Joseph. Outro sutileza que não é mais explorada. Ficam apenas os sinais de que havia algo errado ali.

Quando passamos para a adolescência e início da vida adulta, vemos um homem solitário e sem amigos, que se apega a bichos exóticos. Mas mais uma vez a solidão de Michael é apenas citada ao largo enquanto passamos para mais um número musical arrebatador. E eles são arrebatadores, pois a música de Michael Jackson é fenomenal e implacável.

Também não conseguimos de fato mergulhar na alma atormentada de Michael quando ele se vê dividido entre o amor a família e a necessidade de seguir em carreira solo. Jaafar Jackson tenta explorar isso, mas Fuqua não consegue dar voz a esse esforço, deixando sempre o filme num tom superficial, que infelizmente é a maior marca de “Michael”.

Faltam alma e ideias claras ao filme de Fuqua. Filme este que comete dois erros graves. O primeiro é a ausência de Janet Jackson. Talvez o segundo membro mais famoso da família, Janet não existe no filme. E ela já era uma adolescente quando Michael lançou “Thriller”. Se houver mesmo um segundo filme, como “Michael” deixa claro em suas cenas finais, quero ver o que irão fazer, uma vez que Michael gravou uma música de sucesso com a irmã (“Scream”, que está na coletânea “History”)

O segundo e mais importante é a desimportância dada ao produtor Quincy Jones. Essa foi de uma desonestidade intelectual brutal. A parceria entre Michael e Jones é uma das mais importantes da história da música. Jones era um midas da indústria. A genialidade de Michael só aflorou ao lado do produtor que, no filme, é retratado apenas como mais um na vida do cantor. Na verdade, o guarda-costas Bill (Keilyn Durrell Jones) e o advogado John Branca (Miles Teller) têm mais importância no filme do que Jones. Não que eles não fossem personagens relevantes, mas o apagamento do produtor foi dos erros mais graves de “Michael”.

Em resumo, “Michael” é fascinante em seus números musicais. Principalmente para seus fãs, que vão se ver sentindo saudade do ídolo morto em 2009. Por outro lado, é vazio e superficial ao focar somente no artista no palco e não nos trazer um retrato ou ideias sobre o homem e um artista complexos fora dele.

Nota 6,5/10

sábado, 11 de abril de 2026

“O Drama”: descobrindo os esqueletos no armário às vésperas do casamento

Esse casamento será tenso
Qual foi a pior coisa que você já fez na vida? Uma brincadeira inocente entre amigos em uma noite de vinhos às vésperas do casamento de um dos casais da mesa torna-se o estopim para todo um… drama antes da cerimônia que unirá em definitivo (ou não) Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson).

A chocante revelação de Emma sobre algo que ela nunca fez, mas planejou fazer, jogou uma nuvem de dúvidas e rancores em um casamento que já tinha naturalmente a sua dose de drama, sofrimento e ansiedade. E nos faz refletir a partir de dois conceitos até bastante clichês:

1) Até onde conhecemos de fato nossos parceiros?

2) Será de fato a ignorância uma bênção?

Se eu tivesse que responder a estas duas questões sob um ponto de vista meramente pessoal, diria primeiro que nunca conhecemos de fato não apenas nossos parceiros, mas todos ao nosso redor. Até mesmo nossos pais. De certa forma, todos temos algum esqueleto no armário. Não necessariamente tão pesados e que causem um evidente desconforto como o que acontece com Charlie e seus amigos, mas o suficiente para não querermos exibi-lo nem para nossos melhores amigos.

Em segundo lugar, penso que é sempre melhor ter conhecimento do que viver na ilusão da ignorância. Por mais dolorosa que possa ser, a verdade é sempre melhor. E ela foi bem dolorosa para Charlie quando ouviu o que Emma havia revelado.

(Atenção que a partir de agora tratarei de spoilers do filme)

Quando Emma revela que na adolescência planejou um ataque a sua escola que só não foi a frente por circunstâncias da vida, Charlie fica não apenas chocado, mas obcecado por descobrir se a sua futura mulher é, digamos, normal ou uma psicopata.

Toda a revelação pega não apenas Charlie, mas Rachel (Alana Haim), a melhor amiga e dama de honra do casamento, e Mike (Mamoudou Athie), amigo de Charlie, de surpresa. Curiosamente, Mike é o único que age com naturalidade e tentando evitar que a conversa escale enquanto a sua mulher simplesmente não perdoa Emma. Por trás da dor de Rachel está o fato de sua irmã ser vítima de um school shooting que hoje vive numa cadeira de rodas.

A partir daí, uma série de situações vão acontecendo em “O Drama” que fazem jus ao nome do filme. Por vezes, toda a celeuma causada por aquela brincadeira supostamente inocente em um jantar parece todo um dramalhão desnecessário. Afinal, Emma não cometeu de fato nenhum crime. Apenas pensou e planejou fazê-lo. Já Rachel, por exemplo, fez coisa pior em seu passado, na medida em que cometeu de fato um ato de violência contra um colega.

O diretor Kristoffer Borgli, do bom filme “O Homem dos Sonhos” (2023), consegue equilibrar de um jeito muito especial drama e comédia neste filme que tem um texto muito divertido e que trabalha um pouco com quebras de expectativas.

Borgli é norueguês e eu consigo ver um pouco do estilo do cinema norueguês de abordar relacionamentos retratado no filme. É o caso do fato de eles estarem sempre conversando abertamente sobre os temas necessários e uma certa objetividade que pode facilmente ser confundida com um tom de frieza. Embora esta frieza acabe por ser quebrada pelos momentos de comédia (ou de quando rimos de nervoso) do filme. Deve-se isso a um leve toque de melodrama no filme. Especialmente pela forma como a história de Emma se instala na cabeça de Charlie de tal maneira que o faz ser consumido de forma obsessiva.

Se tem duas pessoas que entenderam bem o tom implantado por Borgli foram as atrizes femininas de “O Drama”. Não apenas Zendaya, que está naturalmente muito bem, mas Alana Haim e Hailey Gates (Misha), estão muito bem nos seus papéis. Haim consegue muito bem ser aquela mulher fria e julgadora sem se importar com contextos, só para impor a sua verdade. Gates tem uma pequena participação, mas é como a explosão da última granada que pode significar a implosão definitiva daquele casamento que ainda sequer foi celebrado. E toda a cena do casamento no final é puro ouro.

“O Drama” me surpreendeu positivamente. É um filme que tem um texto muito divertido e um casal de atores carismático que soube aproveitar bem o que texto lhes oferecia.

Nota 8/10.

sábado, 4 de abril de 2026

Os filmes e as séries de março

Os filmes e as séries mais interessantes (ou nem tanto) que eu vi em março:

O caso dos estrangeiros (I was a stranger — JOR, PAL, EUA) — Um filme sobre como a guerra é uma tragédia humanitária que causa crises econômicas, políticas, de imigração. Um drama sobre a crise dos refugiados, a busca por sobrevivência e o peso do exílio. Infelizmente muito atual.

O Estrangeiro (L´étranger — FRA) — Adaptação de François Ozon para o clássico livro de Albert Camus. Com o auxílio do ator Benjamin Voisin, Ozon conseguiu transpor para a tela a filosofia do absurdo a partir da indiferença e uma certa apatia de Meursault. O diálogo final com o padre é maravilhoso. E filme em preto e branco é sempre bonito.

Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary — EUA) — Que filme fofo e good vibes. Um pouco inocente, porém muito legal. E Ryan Gosling puro carisma.

Yunan (Yunan — ALE, CAN, ITA, PAL, QAT, JOR) — Filme muito interessante sobre um escritor sírio exilado que tenta encontrar um sentido para a vida ao viajar para uma ilha remota no Mar do Norte.

Riefenstahl: Cinema e Poder (Riefenstahl — ALE) — Documentário que é um pouco sobre como uma genialidade é colocada à serviço do mal. O filme expõe as claras ligações da cineasta Leni Riefenstahl com o regime nazista ao mesmo tempo em que exibe a luta constante dela para negar o que as evidências mais do que comprovam.

Paul McCartney: Homem em Fuga (Paul McCartney: Man on the Run — ING, EUA) — Documentário bem legal sobre os anos de Paul McCartney pós o fim dos Beatles. Mostra a busca dele por um novo propósito com os Wings e a retomada da amizade com John Lennon.

Peaky Blinders: O Homem Imortal (Peaky Blinders: The Immortal Man — ING, FRA, EUA) — Este filme é tipo o final de “Game of Thrones”. Adoro o destino dos personagens. Não sei é se a jornada foi a melhor. É uma pena que a Netflix não vai deixar o corpo ser enterrado de vez e vai espremer mais um pouco o mundo de Peaky Blinders. Mas se eles trouxerem a Rebecca Ferguson de volta eu aceito.

A Graça (La Grazia — ITA) — A parceria de Paolo Sorrentino com o ator Toni Servillo sempre gera filmes interessantes. Aqui, Servillo vive um presidente em fim de mandato que tem que lidar com dilemas morais no governo enquanto é atormentado por um segredo do passado sobre a traição da sua falecida esposa.

Paradise (Paradise — EUA — Hulu) — Eu já havia gostado bastante da primeira temporada, mas esta segunda temporada mais do que dobrou a aposta. Entregou episódio impecável atrás de episódio impecável, surpresas atrás de surpresas. Foi tudo tão bom que fez o episódio final parecer menor. Fico feliz que a terceira temporada já foi confirmada, porque eu não estou pronto para me despedir deste mundo pós-apocalíptico.

Sequestro (Hijack — ING, EUA — Apple TV) — Quando eu vi que haveria uma segunda temporada de “Sequestro” perguntei: Por que? A primeira temporada foi legal, mas ninguém participa de dois sequestros. Ou você é muito azarado. A fórmula é a mesma da primeira temporada, trocando o avião por um metrô em Berlim. O Idris Elba se vira ns 30 e no fim tudo dá certo. Foi divertido, mas ok, já deu. Se bem que ainda dá para fazer uma terceira temporada num ônibus no Rio de Janeiro. 

Refúgio do medo (Cold Haven — POR, ISL — RTP/Glassriver/SPI) — Série luso-islandesa com todos os elementos que gostamos. Um assassinato misterioso, detetive voltando para a cidade natal sem ter resolvido seus BOs, um monte de gente com cara de culpado, traficantes e um final de perder a fé na humanidade. Quem disse que a Islândia só tinha vulcão e a Bjork?

Terra de Pecadores (Synden — SUE — Netflix) — Os nórdicos gostam de um crime e o gênero nordic noir é toda uma cena. Esta série sueca até começa bem, mas o capítulo final é xexelento.