sexta-feira, 31 de julho de 2026

Os filmes e as séries de julho

Os filmes que mais curti no mês
A Odisseia (The Odyssey — ING, EUA) — Christopher Nolan é tipo a mistura do Brasil com o Egito. Ele é como o “Norvana”, pois une todas as tribos diante do seu rolão de 70mm no iMax que só existe em 43 salas no mundo. “A Odisseia” é mais um exemplo do seu cinema arte-pop. O filme tem tanta coisa boa que não cabe num parágrafo. Também tem uns defeitos que eu poderia mencionar e que não cabem num parágrafo, mas eu desenvolvi um pouco mais no texto que está aqui linkado. Mas no fim, acho a sua versão sobre culpa e megalomania para o texto de Homero bastante satisfatória.

O Convite (The Invite — EUA) — Eis um raro filme baseado em outro filme não falado em inglês que o estadunidense não fez besteira. Dirigido por Olivia Wilde e baseado no espanhol em “Sentimental”, de Cesc Gay, “O Convite”’ é divertido e tem ótimas atuações do seu quarteto. Destaque para Penélope Cruz.

Obsessão (Obsession — EUA) — O que eu poderia dizer sobre o filme de Curry Barker sem estragar a experiência de nnguém? Cuidado com o que você deseja. E adorei o trabalho da atriz Inde Navarretti no filme.

Backrooms: Um Não-lugar (Backrooms: EUA, CAN) — Uma sessão de terapia num mundo invertido amarelo gema de ovo? Gostei de como o filme de Kane Parsons é uma história que se passa num não-lugar de lembranças que vão ficando distorcidas com a passagem do tempo. É o encontro do tudo e do nada numa perspectiva sombria. Um lado meu queria mais respostas. Outro gostou do jeito que está mesmo.

A morte de Robin Hood (The Death of Robin Hood — EUA)— Hugh Jackman vivendo um Robin Hood velho, amargurado e arrependido dos seus atos no crepúsculo de sua vida. Foi mais interessante do que eu esperava.

“Inapropriados para o trabalho” (Not Suitable for work — EUA — Hulu) — Cinco jovens vivendo em dois apartamentos frente a frente um do outro compartilhando as dores e as delícias de jovens iniciando a sua vida adulta em Nova York. Te lembra alguma coisa não é? Pode falar. Começa com “F”. Isso mesmo a Gen Z ganhou um “Friends” para chamar de seu. E até que a série é legalzinha.

sábado, 25 de julho de 2026

Book Review: “A sociedade do cansaço”, de Byung-Chul Han

“A depressão provocada por esgotamento não tem como origem o imperativo de estar entregue apenas a si mesmo, mas, sim, a pressão por um maior rendimento” (pág. 21)

“O homem deprimido é o inválido desta guerra interiorizado. A depressão é a doença de uma sociedade que sofre de excesso de positividade e reflete uma humanidade em guerra consigo própria” (pags. 22 é 23)

Byung-Chul Han é considerado uma das vozes filosóficas mais importantes deste século. Em “A sociedade do cansaço”, o filósofo sul-coreano, que vive na Alemanha, onde dá aulas na Universidade das Artes de Berlim, defende a tese de que vivemos uma era de patologias sobretudo neuronais. Na sua visão, depois de superar as patologias bacterianas e virais em séculos anteriores com a evolução da medicina, o desafio do século XXI está em lidar com as perturbações da alma causadas por crises como depressão, hiperatividade, transtornos de personalidade diversos e burn out.

Han resume num livro curto (muito curto, diria eu) muito do que eu penso sobre a sociedade em que vivemos. O excesso de positividade, o desgaste causado pela busca por mais rendimento, o horror do multitasking… num dado momento, entre muitas frases importantes do seu livro temos uma que resume tudo: “O aumento excessivo de produção leva ao enfarte da alma”.

Só faltou mesmo o filósofo inserir o quanto as redes sociais são nocivas nessa lógica perversa de corrosão da alma. Ainda que seja possível identificar as redes sociais dentro da lógica de produção excessiva, positividade em massa, destruição da alma e transtornos psíquicos.

No entanto, o livro foi lançado em 2010. Muita coisa mudou para pior desde então e gostaria de saber o que o filósofo pensa sobre estas transformações.

Gostaria também de vê-lo aprofundando e dissecando um pouco mais as suas ideias neste ensaio que, no fundo, é uma crítica à sociedade do trabalho e à tecnologia e uma reflexão sobre as angústias da vida moderna. Mas talvez o fato de seus livros serem curtos sejam uma própria estratégia do filósofo de difundir as suas ideias num mundo doente, com um terrível déficit de atenção e dificuldade de concentração, que fazem as pessoas se afastarem de grandes (em tamanho) obras. O que me fez também refletir um pouco sobre o que Han fala nos livros acerca da pressão por rendimento e produção. Vivemos num mundo onde há metas até para o lazer. E eu consigo imaginar o quanto isso, em certos aspectos, é doentio. 

Tergiverso porque ainda estou a digerir o livro e suas ideias. Foi meu primeiro contato com Han. Outros livros me darão mais substância para entender o filósofo e suas ideias. 

“A sociedade do cansaço” é curto, direto e acessível. Até mesmo nos momentos do livro em que Han dialoga com Heidegger, que para mim sempre foi incompreensível. Não é por acaso que Han se tornou um dos filósofos mais lidos da atualidade.

domingo, 19 de julho de 2026

“A Odisseia”: um exuberante filme de Nolan sobre a e culpa e a megalomania

Na história do cinema, alguns diretores já tentaram adaptar “A Odisseia”. A mais recente, inclusive, nem tem tanto tempo assim. Falo de “O Retorno” (2024), de Uberto Pasolini, com Ralph Fiennes e Juliette Binoche, que adapta os últimos cantos do texto de Homero, mostrando o retorno de Odisseu (ou Ulisses na versão romana) a Ítaca, o reencontro com Penélope e confronto com os pretendentes. Entretanto, mesmo não tendo visto todas as adaptações do poema de Homero, arrisco-me a dizer que ninguém filmou a Odisseia com tanta exuberância quanto Christopher Nolan.

Com um elenco estelar capitaneado por Matt Damon (Odisseu), Nolan usa o texto de Homero como um guia para dar a sua visão sobre a Guerra de Tróia, a jornada de retorno de Odisseu a Ítaca e a ética entre os homens, transformando seu filme numa jornada de culpa infestada pela megalomania dos deuses e homens.

Na sua visão, Odisseu é um herói atormentado pela estratégia que usou para vencer a Guerra de Tróia. Uma estratégia que fere a chamada Lei de Zeus, que diz que deve-se receber um forasteiro com um prato de comida e bom tratamento, afinal, ele pode ser um deus disfarçado.

Ao entrar na cidade de Tróia escondido dentro do cavalo de madeira, supostamente uma oferenda para a deusa Atena (Zendaya), para posteriormente matar seus ocupantes, Odisseu sente que fez o que devia fazer para vencer a guerra, mas a custo de um rompimento das leis que mantém uma certa moralidade naquela sociedade da Grécia antiga. As consequências da sua decisão deram-lhe uma vitória sangrenta e devastadora, que não poupou nem mulheres e crianças, como Nolan faz questão de mostrar na sequência final da batalha em Tróia.

Tomado pela culpa, Odisseu sente que desafiou os deuses e mudou por completo o curso da história. Para Nolan, aquela vitória foi o início do fim da Idade do Bronze, como ele faz questão de mostrar em uma das falas de Odisseu.

Após a vitória em Tróia, Odisseu leva dez anos para voltar para casa, passando por enormes desafios ao longo de sua jornada. E é nesta jornada de dor e punição que Nolan mostra o melhor e o pior do seu cinema.

O melhor está na forma incrível como o diretor filma a sua história. Em cada cena, nota-se a paixão de Nolan pelo cinema. Os cenários na praia mostrando o cavalo de Tróia, o isolamento de Ulisses na ilha de Calypso (Charlize Theron), as imagens da corrida pela sobrevivência na ilha dos gigantes, as cenas quase sufocantes no Hades e o seu desfecho contrastando o preto da terra e das sombras das almas dos guerreiros com o céu azul escuro e com Odisseu contemplando as almas dos que se perderam numa guerra que Nolan filma como sem sentido… Tudo é muito bonito, rico, digno daquele meme do Martin Scorsese que diz “absolute cinema”.

Entremeado por estes cenários incríveis, acompanhamos uma jornada de culpa que vai crescendo conforme Odisseu vai recuperando a memória de sua jornada ao fim dos sete anos que passou ao lado de Calypso. Tróia aqui é vista como uma guerra sem sentido causada por um estopim menor e que gerou um massacre dos dois lados do conflito. Milhares de vidas perdidas por causa de uma disputa por Helena (Lupita Nyong´o), esposa de Menelau (Jon Bernthal) que também é devorada por uma enorme culpa pelas almas perdidas em seu nome. Tanta culpa que a sua tão falada beleza foi maculada por cicatrizes no rosto. Cicatrizes estas que nunca ficam claras de como surgiram, uma vez que isso não está no texto original de Homero.

Como “A Odisseia” é um poema enorme, Nolan teve que fazer algumas escolhas em sua adaptação. Uma das que me pareceram mais acertadas estava em centrar a narrativa na ilha de Calypso, com Odisseu tentando lembrar o que havia acontecido nos dez anos antes. São nestes momentos que Damon mostra as nuances e detalhes em sua interpretação que vão transformando-o de um herói confuso sobre o que havia acontecido com ele e com a sua tripulação e incomodado pelos vazios da sua mente até o momento em que a verdade se descortina na sua mente e ele precisa seguir em frente mesmo com a alma em conflito, pois ele tem uma missão determinada pelos deuses que precisa ser cumprida. Não sem antes se entregar aos deuses como jamais fizera. Afinal, ele teve uma vida desafiando estes mesmos deuses.

Outro acerto interessante de Nolan foi reduzir ao máximo a presença do sobrenatural no filme. Os deuses estão ali, são falados, Atena é a guardiã de Odisseu, mas não vemos Zeus ou Poseidon fisicamente presentes. São o mar e os ventos que agem com fúria ou serenidade e equilíbrio, é o trovão que explode no céu. Atena à parte, os deuses são mais sugeridos do que presentes. Embora, eles sejam muito responsáveis pelo que aconteceu com os homens antes, durante e depois da guerra.

Mas é claro que “A Odisseia” não é perfeita. Com o perdão da citação a um clichê, o calcanhar de Aquiles do filme está na forma como ele falha em apresentar uma certa ambiguidade e as falhas morais de Odisseu. O herói leva dez anos para voltar para Ítaca porque, acima de tudo, foi arrogante. Para entender isso, é muito importante a passagem pela ilha do Ciclope Polifemo, filho de Poseidon. Para escapar junto com seus soldados da caverna do gigante, Odisseu oferece-lhe vinho e, quando perguntado por Polifemo quem o estava a oferecer vinho, Odisseu responde “Ninguém”. À noite, Odisseu e seus soldados o cegam com uma vara espetada no seu olho e, no dia seguinte, conseguem fugir. Polifemo pede ajuda aos demais ciclopes gritando que “Ninguém o havia cegado”, sendo, assim, ignorado. No fim, por vaidade, Odisseu grita que foi ele que o cegou, dizendo o seu nome. Polifemo então pede vingança a Poseidon, que passará a atormentar o resto da jornada de Odisseu e seus homens.

Estes detalhes não são mostrados no filme e Nolan e a passagem pela ilha de Polifemo perde um pouco o seu sentido moral de mostrar uma fraqueza de Odisseu. E mesmo o momento em que o herói se impõe a ouvir o canto das sereias apenas para ser o primeiro a sobreviver a ele, não soa como alguém que está ali a desafiar a ordem dos deuses. Parece no máximo um curioso que se impõe um desafio. Nolan podia ter enriquecido mais o seu Odisseu mostrando os momentos-chave em que a sua culpa não estava apenas na estratégia da guerra, mas a culpa pela morte de cada um dos seus soldados naqueles navios que o acompanham na jornada de volta estava também nele e no seu ceticismo ao confrontar os deuses.

Ao não refletir sobre a causa e consequência dos seus atos e decisões, a jornada de Odisseu parece mais como uma sucessão de acontecimentos fantásticos que não diferem muito de um videogame muito bem feito. Continua sendo uma jornada incrível, mas que lições são tiradas de cada uma das passagens vividas por Odisseu e sua tripulação? Que lições são tiradas das passagens das ilhas dos gigantes, do saque que é feito antes da chegada na ilha de Polifemo, da passagem pela ilha de Circe (Samantha Morton, que está incrível no papel da bruxa). Aprendizado e consequência só vemos mesmo na incrível sequência do Hades, quando Odisseu tem que se confrontar com as mentiras que contou para Sinon (Elliot Page) e com as consequências das palavras de Tirésias (James Remar).

Mas na hora final do filme (que tem cerca de 3h), “A Odisseia” cresce muito. Até ali já vimos as dificuldades do jovem Telêmaco (Tom Holland) e sua mãe, Penélope (Anne Hathaway) em manter uma Ítaca unida por 20 anos sem um rei e diante da pressão de mais de 100 pretendentes ao trono. Entre eles, o ambicioso Antínoo (Robert Pattinson mostrando todo o seu talento para construir personagens mesquinhos e ardilosos). Ítaca está fragilizada diante de uma rainha sem rei, um jovem menor de idade e uma corte que só tem ao seu lado o cego Eumeu (John Leguizamo, outro que está muito bem no papel). As dificuldades ali são enormes, mas depois de cumprir parte de sua jornada de culpa, Odisseu consegue chegar a Ítaca disfarçado de mendigo para cumprir a sua missão final.

Aqui é outro momento em que Damon brilha no papel principal. O Odisseu aqui já um homem que carrega uma culpa, indeciso se deve manter o seu status, visto que sabe que não foi um homem honrado, mas desejoso de vingança contra os homens que tentaram matar o seu filho e tentam ocupar o trono e o poder através do casamento com a sua mulher.

Tal como na história original de Homero, Odisseu cumpre o seu destino a partir do famoso desafio do arco e flecha, quando sua identidade é revelada e sua vingança é saciada. No fim, Nolan opta por mandar Odisseu para o exílio, não sem antes ver Ítaca uma última vez. Afinal, depois da culpa é preciso da redenção e Odisseu precisa rumar para o oeste para fazer sacrifícios que honrem os mortos da guerra. Telémaco assume o trono de Ítaca e o ciclo da jornada do herói de Odisseu se fecha.

Problemas à parte, “A Odisseia” é magistral e pode ser inserido entre os pontos altos da carreira de Nolan como cineasta. É curioso, que um filme que trata da megalomania também é de certa forma fruto de uma megalomania do diretor. Seu cinema é grandioso, mas sempre vem junto da sua ambição pelos equipamentos que usa para filmar e o tipo de cinema Imax extremamente específico para se ver o filme da forma como ele deseja. Afinal, só existem 43 cinemas no mundo equipados para oferecer a suposta experiência perfeita que Nolan considera para o seu filme. Fato é que na verdade nada disso é necessário. “A Odisseia” é bom pelo que o filme é, pela sua história, e não por qualquer experiência que uma sala supostamente diferenciada pode lhe proporcionar.

Nota 8,5/10.