domingo, 22 de fevereiro de 2026

“Anêmona”: Daniel Day-Lewis retorna em drama familiar dirigido pelo filho

Sean Bean e Day-Lewis em "Anêmona"
Quando decidiu se afastar do mundo do cinema em 2017, Daniel Day-Lewis sempre deixou claro que o problema nunca foi a atuação, mas todo o resto que envolve o mundo do show business. Vencedor de três Oscars e aclamada como um dos gigantes da sua geração, Day-Lewis nunca foi muito afeito ao ciclo de promoções de um filme e a necessidade de estar presente o tempo todo em todo lugar que o show business exige e que só piorou com as redes sociais.

Parecia, portanto, que “Trama Fantasma” (2017), filme pelo qual ganhou uma indicação ao Oscar de ator e que levou um dos seis prêmios aos quais foi indicado no Oscar de 2018 (figurino) teria sido a sua última dança. No entanto, com o passar dos anos, Day-Lewis começou a trabalhar em um roteiro com o seu filho, Ronan Day-Lewis, e logo se chegou a conclusão de que era a hora de voltar.

O desejo de trabalhar com o filho e o desejo do filho de ver o pai protagonizar o seu filme eram legítimos, mas é claro que a presença e, mais do que isso, o fato de ser o filme do retorno de Day-Lewis chamam naturalmente mais atenção para “Anêmona” (“Anemone”, no original).

Calcado num drama familiar envolvendo os irmãos Ray (Day-Lewis) e Jem (Sean Bean), o filho de Ray, Brian (Samuel Bottomley), e sua ex-mulher e atual esposa de Jem, Nessa (Samantha Morton), “Anêmona” explora a complexidade dos relacionamentos, fala sobre culpa, quebra de confiança e evoca um sentimento de comiseração pelos seus personagens envolvidos.

Tudo começa com Brian tendo agredido fortemente alguém e sentindo-se amaldiçoado por ser filho de um pai que não conhece, mas que, pelas histórias que ouve, acredita ser um assassino. A agressão é a gota d´água para Nessa e Jem. Jem decide ir atrás do irmão, que vive isolado numa floresta, para tentar convencê-lo a voltar e conversar com o filho que ele nunca viu e livrar Brian dos estigmas que carrega. Mas os próprios irmãos têm questões a resolver em meio a um passado militar um tanto quanto obscuro.

A interação entre Day-Lewis e Sean Bean são a grande riqueza de “Anêmona”. Ver Day-Lewis trabalhar é um grande prazer, pois é um ator grandioso e que consegue sumir em cada um dos papéis que representou na carreira. Seu carrancudo Ray carrega uma culpa enorme e parece ter se imposto uma pena de prisão naquela vida simples, despojada de qualquer grande bem material na floresta. Ao longo do filme sabemos quais foram as motivações dele e o que o levou a se isolar da sociedade, abandonando a família e a mulher grávida.

Por outro lado, o filme perde força na direção um tanto quanto pesada de Ronan. “Anêmona” é seu primeiro longa e naturalmente tem alguns, digamos, vícios, que nos tiram um pouco da história. Um dos que mais me incomodou foi um constante uso do zoom com a câmera. Ronan abusou do recurso em contextos que nem sempre ajudavam a contar a história. Sua câmera esteve constantemente se aproximando dos atores ou de cenários que me fizeram refletir sobre os seus motivos com alguma frequência.

Mesmo seu movimento de câmera nem sempre é sutil ganhando uma presença que grita um pouco dentro do filme ao mesmo tempo em que não configura necessariamente uma assinatura.

Estas parecem questões que são muito de primeiro filme e de um diretor que está ainda construindo a sua linguagem, a sua voz como diretor enquanto experimenta a sua técnica. Antes de “Anêmona”, Ronan só havia dirigido dois curtas.

Questões técnicas à parte, “Anêmona” é um interessante filme de estreia de Ronan e um prazeroso retorno de Day-Lewis. Está longe de ser o seu melhor filme, mas ver o ator em cena é como estar diante de uma importante e inigualável pintura da história humana.

Nota 6/10.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

“O morro dos ventos uivantes”: fetiche, desejo e humilhação

Muito tesão e pouca substância
Após três longas, pode-se dizer Emerald Fennell está construindo um padrão em sua carreira como diretora. Ela gosta de fazer filmes em que seus personagens são humilhados até a mais completa destruição. Os três protagonistas dos seus três longas até aqui escolhem um alvo e o torcem e espremem até não lhes sobrar nada. É assim em “Bela Vingança” (2020). É assim em “Saltburn” (2023). É assim na nova versão de “O morro dos ventos uivantes”.

Muito livremente adaptado a partir da obra de Emily Brönte, “O morro dos ventos uivantes” (Wuthering Heights, no original) aposta em um humilhado Heathcliff (Jacob Elordi) como protagonista. A sua jornada é a de um homem obsessivamente apaixonado e que fará de tudo para ficar com Cathy (Margot Robbie). Cathy, que por sua vez, não nega o desejo que tem pelo jovem com quem cresceu junto, mas que, condicionada ou não por fofocas e/ou condições econômicas desfavoráveis, opta por buscar um casamento que lhe garantirá algum conforto futuro.

Como infelizmente eu não li o livro, não tenho termo de comparação, mas a visão de Fennell para a relação entre Cathy e Heathcliff parece ser é a de toxicodependentes cercada de fetiche e tesão. Primeiro, ainda crianças, eles traçam o padrão. Heathcliff é nomeado por Cathy, que a trata como algo entre um pet e um brinquedo. Ali a relação de dominação se estabelece e vai durar até a fase adulta.

É quando são adultos que o desejo toma conta dos dois, mas Cathy inicialmente o renega em nome de um casamento que a salvará de uma vida miserável e de um pai alcoólatra miserável e viciado em jogo.

Humilhado, Heathcliff vai embora. Apenas para voltar cinco anos depois rico, de barba feita e brinco na orelha. A partir daí, a relação de dominação se alterna. Ambos procuram o desejo, exploram as mais diferentes formas de trepar, mas uma hora o limite precisa ser imposto.

Heathcliff não aceita. Casa com a irmã do marido de Cathy apenas para atazanar a sua vida. O desfecho que vemos parece inevitável até para quem não leu o livro.

“O morro dos ventos uivantes” de Fennell não quer ser fiel ao livro. A diretora usa o livro de Brönte apenas para exercitar a sua tese baseada em como o desejo tem um poder destruidor. Fennell filma a humilhação do amor doentio e suas consequências dramáticas. Tudo com alguns cenários lindamente enevoados, outros takes que parecem verdadeiros quadros, mas uma escolha de figurino pesada e gritante que parece mais atrapalhar a história do que ajudar a comunicá-la.

Gosto da tese que Fennell levanta. Acho que o filme tem um início promissor ao erotizar a morte a partir da cena do enforcamento. Ali ela já dava as bases do que veríamos na relação tóxica entre Cathy e Heathcliff. Mas o que vemos nas duas horas seguintes é um filme que beira o insuportável.

Por vezes, penso que Fennell está repetindo um pouco a história de “Saltburn”, que eu adoro. O problema é que “Saltburn” tinha a sua dose de originalidade. Curiosamente, naquele filme, Jacob Elordi era a vítima do personagem de Barry Keoghan. Aqui, ele é vítima e algoz de um amor doentio e sufocante. Acho que isso me vem a mente pela ideia da destruição de um personagem até as últimas consequências. Algo que ela fez melhor em “Saltburn” e, definitivamente, fez de forma mais divertida em “Bela Vingança”.

O problema de “O morro dos ventos uivantes” não está apenas nas ideias de Fennell nem nas questões polêmicas envolvendo sua adaptação (o whitewhasing de Heathcliff, por exemplo). Pelo trailer já se perceberia que a ideia não seria ser fiel ao livro, mas usar a obra para desenvolver uma tese. Uma tese que na minha visão é baseada em três eixos: fetiche, desejo e a ideia de posse.

O problema é que a execução teve pouco cuidado em criar um bom enredo que interligasse bem a história e justificasse melhor as ideias da diretora, bem como as eventuais mudanças em comparação com o livro. Por vezes, “O morro dos ventos uivantes” parece esquecer alguns personagens (e eles nem são muitos) e não dar continuidade ao (pequeno) drama deles. O maior exemplo é a irmã de Edgar (Shazad Larif), Isabelle (Alisson Oliver). Ela tem a profundidade de uma piscina infantil entre as suas transições de jovem devotada e parceira de Cathy a rival por um amor que ela sabe que nunca terá. Sem falar na transição abrupta e artificial da relação entre ambas.

O mesmo problema identifica-se em Nelly (Hong Chau). Nunca compreendemos 100% o que a motiva a tomar suas decisões. Podemos especular e chegar a uma conclusão nossa, mas não sabemos se é inveja, prazer pelo sofrimento de Cathy, autopreservação, desejo de ascender socialmente e sair do buraco de Heights… Nelly faz tudo o que faz pensando em si ou em Cathy? E o seu desfecho só é inglório e sem sentido. Talvez se eu tivesse lido o livro compreenderia melhor esta personagem. Pelo filme de Fennell, ela só é incompreensível, embora eu tenha as minhas suspeitas.

Robbie e Elordi também estão longe de seus melhores trabalhos. Gosto mais do Heathcliff de Elordi do que da Cathy de Robbie, mas nenhum dos dois me dão qualquer sinal dos seus melhores trabalhos. Por outro lado, acho que o texto que tiveram para trabalhar era fraco. Pareciam migalhas do original.

No fim, infelizmente resta muito pouco a se aproveitar desta nova versão de “O morro dos ventos uivantes”. As ideias até estavam lá, mas sua execução deixou muito a desejar.

Nota 2/10.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O magnífico cinema contemplativo de Chloé Zhao em "Hamnet"

Mescal como William Shakespeare
Desde “Nomadland” (2020) que o trabalho de Chloé Zhao me chama a atenção. O filme vencedor de três estatuetas do Oscar já mostrava uma diretora que parecia unir o melhor da tradição do cinema chinês com o estilo mais contemplativo de diretores como Terrence Malick. Mesmo em “Eternos” (2021), um filme de estúdio (a Marvel) e que foi excessivamente criticado, pois estava longe de ser ruim, Zhao mostrava dentro do que podia a sua veia autoral.

Não sei se por causa disso, mas após as críticas ao filme de super-heróis Zhao submergiu durante alguns anos. Apenas, contudo, para voltar ainda melhor com “Hamnet: a vida antes de Hamlet”. Merecidamente indicado a oito Oscars (e merecia até mais), “Hamnet” confirma para mim que Zhao é uma herdeira do cinema contemplativo de nomes como Malick a Abbas Kiarostami, ao mesmo tempo em que impõe um toque pessoal em sua narrativa junto de uma herança de alguns dos melhores diretores chineses, como Jia Zhangke.

Baseado no livro “Hamnet”, de Maggie O´Farrell, o filme, tal como o livro, reflete sobre o possível impacto do luto em William Shakespeare pela morte do filho Hamnet, aos 11 anos, em 1596, possivelmente devido à peste.

Embora ambos tenham uma base histórica real — Shakespeare realmente teve um filho chamado Hamnet que morreu aos 11 anos de idade, “Hamlet”, a peça foi escrita entre 1599 e 1601 e encenada pela primeira vez no Globe Theater por volta desta data — todo o resto é fruto de imaginação e especulação. É neste recheio, é costurando as pontas soltas desta história trágica que Zhao brilha ao filmar o amor e o luto do casal William Shakespeare (Paul Mescal) e Agnes (Jessie Buckley).

Assim como “Nomadland”, seu filme é incrivelmente bonito. Se na história da mulher que perde tudo e embarca numa viagem pelos Estados Unidos vivendo como nômade, Zhao abusava da amplitude do deserto e dos momentos de golden hour, aqui a natureza é mais do que cenário, mas um personagem que ajuda a compor o estado de espirito dos personagens.

A floresta é liberdade, proteção e acolhimento. A floresta fechada reflete a intimidade do casal e o abraço que Agnes constantemente recebe. A natureza a acolhe e dela ela tira tudo o que precisa para viver. Os espaços amplos, a conexão com a terra, mostram uma família em harmonia. Uma harmonia que nem a distância atrapalha quando Shakespeare vai trabalhar em Londres, deixando a família em Stratford.

A relação íntima com a paisagem não se dá apenas com a natureza, mas também com os espaços internos da casa. O vazio que comunica a solidão, a escuridão, a penumbra que dialoga com o luto. Zhao filma constantemente espaços amplos, mas com uma fotografia suave e trilha sonora minimalista para que possamos contemplar a história e absorver não apenas através das palavras, mas das pausas e dos silêncios o estado de espírito dos personagens.

O ritmo contemplativo de Zhao é o que a faz mais se aproximar de Mallick. A diretora, entretanto, se afasta do diretor estadunidense ao não adotar um tom mais metafísico, tão comum em Mallick, mas apostar na observação do cotidiano dos seus personagens. O dia a dia de Shakespeare e Agnes é o de pessoas comuns que estão deslocados ou em transformação social. O drama deles nasce da vida ordinária como a de qualquer mortal. A infelicidade de Shakespeare que quer mais do que viver numa casa no campo e deseja viver das suas peças, a ascensão social da família, a mudança de patamar social primeiro de Agnes ao se casar com o dramaturgo e depois de Shakespeare, a dor pela trágica morte do filho, o processo de luto de cada um. Agnes entre o isolamento e a culpa, Shakespeare, sofrendo por não estar presente, usando a arte, a maior ferramenta que tinha em mãos para tentar entender o que sente, tentar processar a sua dor. O artista sempre usa a arte como ferramenta de cura. Também indicado ao Oscar de melhor filme, “Valor Sentimental” trata do mesmo tema com seu personagem principal.

O que temos aqui é uma tese que nasceu no livro de O´Farrell. E Zhao amarra essa tese com sutileza e poesia na tela. O jovem Hamnet sonha em ser ator na companhia do pai e ganha vida como o maior personagem da maior peça da sua vida. O menino que metaforicamente dá a vida para salvar a irmã da doença, vê o pai fazer o mesmo na peça Hamlet, quando Shakespeare assume o papel do espírito do pai de Hamlet. E a licença poética que o filme faz. Na última vez que Shakespeare vê o filho com vida, se despede dele três vezes. Na peça, Shakespeare usa seu personagem para se despedir três vezes de Hamlet, três vezes dizendo “Adieu” antes de beijar o rosto do filho. Tudo o que ele não pôde fazer.

O momento final da encenação de “Hamlet” em Londres é o ponto alto de um filme magnífico de Zhao. Não apenas pelo trabalho da diretora, mas pelas atuações magistrais de Buckley e Mescal nos papéis principais. A atriz mereceu demais a sua indicação ao Oscar e lamento que Mescal tenha ficado de fora da lista, pois ele também merecia uma indicação. 

É neste momento final que Zhao mostra mais uma vez a sua grandeza, fugindo do melodrama fácil e fazendo a emoção surgir com sobriedade. Sem qualquer sinal de manipulação, Zhao nos faz atingir a catarse apenas com alguns gestos e olhares de Buckley e Mescal. Ali bem no fim, com lágrimas nos olhos, estamos prontos para aceitar o destino e começar a seguir em frente.

Nota 10/10

sábado, 31 de janeiro de 2026

Os filmes e as séries de janeiro

Extermínio: Templo dos Ossos (28 Years Later: The Bone Temple — ING, EUA) — Segundo filme da nova trilogia de “Extermínio”. Tem seus altos e baixos. Adoro toda a parte do doutor Kelson (Ralph Fiennes) e sua interação com o alfa em busca de uma cura. Detesto toda a parte dos Jimmy’s. Mas o final compensa tudo. Pode mandar vir o terceiro filme. (Escrevi um pouco mais sobre o filme neste link).

Pai Mãe Irmã Irmão (Father Mother Sister Brother — ING, EUA, ITA, FRA, IRL, ALE) — Gosto de pensar nas coincidências das três histórias (o uso do vermelho, o rolex, a pergunta sobre o brinde) como uma metáfora sobre mesmos em lugares e momentos de vida diferentes somos muito parecidos enquanto seres humanos. E na essência de tudo o que une as três histórias é a difícil conexão dos filhos com seus pais distantes, ainda que haja algum amor entre eles. Adorei o filme do Jim Jarmusch.

Alabama: Presos do Sistema (The Alabama Solution — EUA) — Documentário revoltante sobre a situação dos encarcerados no Alabama e como o Estado estabeleceu uma espécie de escravidão moderna com os presos.

Blue Moon (Blue Moon — EUA, IRL — 2025) — Adoro os diálogos do filme, acho a atuação do Ethan Hawke um dos seus trunfos, mas os truques que o Richard Linklater teve que adotar para compensar a diferença de altura entre Hawke e o real Lorenz Hart que ele interpreta são muito visíveis e prejudicaram um pouco o filme.

Marty Supreme (Marty Supreme — FIN, EUA — 2025) — Indicado a nove Oscars, este filme é só urgência, caos e confusão com um protagonista detestável. Vale pelo ótimo trabalho do Timothée Chalamet, mas junto com “A única saída” foi uma das minhas decepções do mês (Escrevi mais sobre o filme neste link).

A incrível Eleanor (Eleanor the Great — EUA) — Estreia de Scarlett Johansson como diretora, este é um bonito filme sobre a dura dificuldade de lidar com o luto.

Song Sung Blue — Um sonho a dois (Song Sung Blue — EUA) — Filme bem legal sobre uma banda tributo a Neil Diamond, que no fim é uma história de amor entre os dois protagonistas. Adoro a química que há entre Hugh Jackman e Kate Hudson, que mereceu demais a indicação ao Oscar. A parte do Pearl Jam me pegou de surpresa e achei maravilhosa.

Landman (Landman — EUA — Paramount) — A série de Taylor Sheridan voltou ainda melhor para a segunda temporada. Toda a história que reflete sobre a indústria do petróleo como um misto de mafiosos com donos de cassinos de Las Vegas é tão interessante que supera as várias tiradas hétero top do roteiro.

Mil Golpes (A thousand blows — ING, EUA — Hulu) — Achei a segunda temporada um pouco inferior à primeira e fiquei com a impressão de que a história não andou. Porém, o final deu um ânimo sobre o futuro de Hezekiah Moscow e seus comparsas.

Stranger Things (Stranger Things — EUA — Netflix) — Bagulhos Estranhos teve duas temporadas muito boas, e duas seguintes absolutamente dispensáveis, mas até que o final foi digno. O tempo mostrou que Millie Bobby Brown não evoluiu muito como atriz, o final foi fruto de muita megalomania dos Duffer, contudo gostei de ver o ciclo se fechando com os jovens seguindo a sua vida e se renovando com as crianças jogando RPG. O pós-Vecna foi mais interessante do que a sonolenta batalha contra o vilão. No fim, o saldo foi ligeiramente positivo, Kate Bush aparentemente voltará ao ostracismo e não precisamos de spin-offs (mas eles certamente virão).

Maid (Maid — EUA, ING — Netflix) — Demorei quatro anos para ver esta série, mas antes tarde do que nunca. Absolutamente incrível. Margaret Qualley antes da fama já mostrava aqui que tinha muita substância (tum dum tssss) dramática. Se for para escolher uma empregada doméstica, mil vezes “Maid” do que aquele pavoroso filme “A empregada”.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Tarja Turunen e Marko Hietala: nostalgia e celebração em Lisboa

Ver Tarja Turunen e Marko Hietala cantando juntos novamente me fez viajar no tempo. Mais precisamente até ao saudoso Canecão, no Rio de Janeiro. Novembro de 2004, show superlotado do Nightwish, turnê do “Once” (2004), que tinha os sucessos “Nemo” e “Wish I had an angel”.

Meses depois daquele show, Tarja seria demitida da banda e engataria numa carreira solo cheia de bons álbuns. Hietala ainda ficaria no grupo de metal sinfônico finlandês até 2021.

O espetáculo “Living the Dream” é sobre nostalgia. Relembrar os bons tempos, afinal, como a própria Tarja diz, “estamos envelhecendo juntos”. Mais ou menos porque eu sou mais novo e estou mais acabado que ela.

Teve de tudo um pouco no charmoso Coliseu dos Recreios, em Lisboa, que tem um quê de Canecão. Depois de uma insossa banda de abertura que entrou no palco já meio derrotada (Rok Ali &The Addiction. Infelizmente não vi o Serpentyne, que abriu os trabalhos na noite), Marko Hietala recuperou a nossas almas com suas canções sobre mitos e dragões e seu visual de quem parece fazer parte da família Targaryen, de “Game of Thrones”.

Já na primeira música, “Frankenstein´s Wife”, Hietala tomou conta do espaço com desenvoltura, bom humor e uma banda bem azeitada. Foram dez músicas, com destaque ainda para “The Dragon Must Die” e “Impatient Zero”.

Quando Hietala chamou a Tarja para cantarem “Left on Mars”, single que lançaram juntos em 2024 e que meio que selou a reaproximação dos dois músicos, tivemos um breve aperitivo do que seria a noite.

O melhor, no entanto, veio depois, com Tarja comandando o espetáculo. Depois de uma sequência de sete músicas, num set que abriu com “Eye of the Storm” e contou com canções como “500 Letters” e “Crimson Deep”, que ela não cantava desde 2020 e 2012, respectivamente, Tarja veio ao palco com Hietala para um set acústico de quatro músicas.

Na sequência, ambos cantaram três canções em formato elétrico, incluindo duas do Nightwish, “Slaying the Dreamer” e “Wishmaster”, um dos pontos mais altos dos momentos “saudades do que vivi” da noite.

Novamente sozinha no palco, Tarja encerrou a primeira parte do show com a maravilhosa “Walk Alone”, do álbum “My Winter Storm” (2007).

O bis veio com “Dead Promises”, o retorno de Hietala ao palco para a sua última participação em “Wish I had an angel”, e a ótima “Until my last breath”, do álbum “What Lies Beneath” (2010), de Tarja.

Por mais que tivesse tido um clima de nostalgia, o concerto dos dois músicos finlandeses também passou um clima de artistas que estão em paz com o passado e satisfeitos com o presente. Para além de nostalgia, houve uma celebração das conquistas do passado e orgulhosa demonstração do que ambos estão fazendo no presente.

Book Review: “E não sobrou nenhum”, de Agatha Christie

“Nenhum de nós vai sair desta ilha. Esse é o plano. A senhorita sabe perfeitamente disso, é claro. O que talvez não posso compreender é o sentimento de alívio!” (Pág. 178)

Interessei-me por ler “E não sobrou nenhum” depois de ouvir um Nerdcast sobre Agatha Christie. Na ocasião um dos participantes do podcast falou tão apaixonadamente do livro e de sua história que a minha curiosidade estava devidamente atiçada e o livro entrou imediatamente no meu radar.

Pois foi uma excelente escolha me iniciar no mundo de Agatha Christie a partir deste livro lançado originalmente pela escritora inglesa em 1939.

“E não sobrou nenhum” é uma história policial que justifica demais a fama de Rainha do Crime de Christie, bem como a sua fama como autora. Tem mistério, suspense, uma constante tensão e constantes questionamentos sobre quem é o assassino em meio ao grupo de dez pessoas que vão parar na Ilha do Soldado a convite de um misterioso homem rico.

Cada morte é construída com requintes de crueldade a partir de um antigo poema infantil. A cada assassinato é possível sentir a tensão entre os personagens que restam. E é fascinante como Christie trabalha com o paradoxo de que a inocência plena só se conquista com o fim da vida. Inocência, claro, da acusação presente de ser o assassino, pois há todo um passado de cada um dos nossos “dez soldadinhos”.

E por fim temos o turning point da história. A descoberta do assassino me pegou de surpresa pela forma como aconteceu. Foi excelente e até certo ponto anticlimático, pois não houve algo como o “discurso do vilão” ou qualquer coisa do gênero. Apenas descobrimos depois de sermos seguidamente ludibriados e apontando sempre para o lado errado.

Talvez sejam posturas como esta que separam Christie de um autor comum dentro do gênero de romance policial. Penso em Jo Nesbo, cujas histórias me divertem, mas não me subvertem. São de um outro estilo, é claro. São de um outro tempo também. Mas nem em “Baratas” (1998), nem em “O Morcego” (1997), os dois livros que li dele, eu percebi a riqueza que se encontra neste livro de Christie. Por outro lado, Nesbo parece um pouquinho mais realista. O autor norueguês nos aproxima mais do cotidiano mundano. Christie, por sua vez é infinitamente mais criativa e sedutora em seus mistérios.

“E não sobrou nenhum” foi para mim uma excelente porta de entrada na obra de Christie. Estou curioso para ler mais livros da escritora inglesa. E não faltam opções. Afinal, a autora escreveu mais de 80 livros ao longo da sua vida.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

“Marty Supreme”: o caos sem propósito de um filme que vale por Chalamet

Chalamet é o que o filme tem de melhor
Com nove indicações ao Oscar deste ano, uma série de prêmios em festivais e uma elogiada atuação por parte da crítica de Timothée Chalamet como protagonista, “Marty Supreme” tinha todas as credenciais para despertar a minha atenção. Primeiro filme solo de Josh Safdie desde que ele e o irmão resolveram interromper a parceria que tinham, “Marty Supreme” tem alguma coisa em comum com “Joias Brutas” (2019), o último filme que os irmãos fizeram juntos. Para o bem e para o mal.

De fato, é possível traçar um paralelo entre os dois filmes, especialmente pelo que eu gostei menos no anterior que se repete aqui neste novo trabalho de Josh Safdie. O fato de seu protagonista ser um personagem caótico, com uma urgência caótica que o faz atirar para todos os lados sem conseguir resolver nada. O problema é que tal como o Howard Ratner de Adam Sandler naquele filme, o Marty Mauser de Chalamet é caos, confusão e gritaria sem muito propósito.

Mauser, na verdade, parece uma criança mimada que faz de tudo para conseguir o que quer sem se importar com ninguém que está ao seu redor. Família, amigos, namorada, conhecidos, estrelas de cinema, empresários, todos devem ser a escada para a sua ascensão gloriosa no tênis de mesa. Todos devem se orgulhar por serem pisados pelo grande Mauser, que faz promessas vazias, pois não pode cumpri-las. Simplesmente porque ele acha que quer, ele acha que merece. Simplesmente porque ele acha que é o melhor no que faz.

Neste aspecto, Mauser se afasta de Ratner. O protagonista de “Joias Brutas” não tinha essa autoconfiança irritante. Goste ou não do filme, era possível ter alguma empatia por Ratner. Por Mauser, o desejo é que ele se dê muito mal. Porque não tem uma única pessoa no caminho que ele não tenha decepcionado. Não tem uma única pessoa a quem ele tenha pedido desculpas sinceras. Mauser é um furacão que destrói tudo por onde passa.

E neste momento o questionamento que eu faço é: Qual o propósito deste filme? Não que o cinema necessite ter algum propósito, mas por que eu deveria me engajar nesta história de um desconhecido jogador de tênis de mesa que se acha maior do que realmente é?

Li que o filme foi levemente inspirado em Marty Reisman, jogador estadunidense que ganhou cinco medalhas de bronze em três campeonatos mundiais de tênis de mesa. Mas não é uma biografia fiel aos fatos, e sim mais uma inspiração.

Como história, o roteiro se resume a uma sequência de acontecimentos com o senso de urgência que Mauser impõe em toda a sua vida. Ele está sempre a 300 km por hora no filme. Quem quiser que o acompanhe. Ou ele atropela.

Enfim, ainda reflito sobre a que o filme se propõe, mas horas depois de sair do cinema não cheguei a uma conclusão satisfatória.

O melhor de “Marty Supreme” é a atuação de Chalamet. Se alguém ainda tinha dúvidas do trabalho dele ou implicância com a figura dele, este filme é a prova definitiva que o ator tem talento sim para mostrar e devia se dar valor a Chalamet. Não há trabalho na sua carreira em que ele tenha desaparecido mais em um papel quanto no seu Marty Mauser.

Curiosamente, o irmão de Josh, Benny Safdie conseguiu o mesmo feito com Dwayne Johnson em “Coração de Lutador” (2025). Sendo que o trabalho de Benny foi ainda mais complexo, pois The Rock nunca foi conhecido por ser um grande ator.

No entanto, assim como The Rock teve a melhor atuação da carreira em “Coração de Lutador”, pode-se dizer que Chalamet fez o seu melhor trabalho na carreira em “Marty Supreme”. Ainda que eu goste igualmente dele em “Me chame pelo seu nome” (2017) e “Querido Menino” (2018). Três momentos diferentes da sua carreira, mas atuações que junto com a sua versão do Bob Dylan “Um completo desconhecido” (2024) formam uma coleção de trabalhos que hater nenhum pode contestar.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Os altos e baixos de “Extermínio: O Templo dos Ossos”

Samson e Kelson, os pontos altos do filme
Desde que Danny Boyle revelou que pretendia fazer uma nova trilogia sobre “Extermínio” que continuaria 28 anos depois dos eventos que vemos no primeiro filme de 2002, eu fiquei minimamente curioso. “Extermínio” foi um marco dentro do cinema e estabeleceu um novo padrão para a representação dos zumbis, mostrando-os como rápidos e agressivos. Este padrão foi posteriormente copiado em produções como “Guerra Mundial Z” (2013) e a série “The Last of Us” (2023-). Essa mudança do padrão até então estabelecido e o estilo de filmagem de Boyle com cortes rápido, zoom e um certo jump scare tornaram o filme num clássico.

Em junho do ano passado, Boyle lançou o novo “Extermínio” retomando a parceria com Alex Garland. O filme contava a história de uma comunidade que vive isolada numa ilha, mas que por vezes vai ao continente para caçar num rito de passagem para os jovens. A coisa piora, no entanto, quando o jovem Spike (Alfie Williams) resolve buscar um médico para a mãe doente.

O novo “Extermínio”, chamado de “Evolução” mostrava uma Inglaterra voltando aos tempos de paus e pedras, sem tecnologia, sem armas. E uma evolução por parte dos zumbis, que agora têm diferentes espécies, incluindo os superfortes alfas, capazes de arrancar a cabeça de um ser humano com as próprias mãos.

Dirigido por Nia DaCosta, o segundo filme da trilogia agora chega aos cinemas para continuar praticamente de onde acabou o anterior. “Extermínio: O templo dos ossos”, explora três vertentes a partir dos acontecimentos que vimos no filme anterior:

1) A jornada de Spike após ter abandonado a ilha e o pai para explorar aquele mundo tomado por infectados.

2) A gangue dos malucos de cabelo louro, que matam zumbis como performance estética.

3) A vida do doutor Ian Kelson (Ralph Fiennes) em seu templo de ossos, que vimos muito pouco no filme anterior.

A partir destas três vertentes, Nia DaCosta pareceu ter a liberdade para explorar bastante o mundo pós-apocalíptico a partir de um novo roteiro escrito por Garland.

Este segundo filme tem altos e baixos. Na verdade, tem mesmo uma carinha de segundo filme de trilogia. Correndo o risco de este comentário envelhecer mal, é meio como o “As duas torres” (2002) da trilogia de “O senhor dos Anéis” (2001–03). É bom, mas inferior ao primeiro. E, assim esperamos, que ele seja inferior ao terceiro quando este vir a ser lançado novamente sob a direção de Boyle.

Em alguns momentos “Templo dos Ossos” parece um filme filler, ou seja, um filme com um conteúdo extra sobre o mundo de “Extermínio”, mas que não faz muito parte da história principal. Obviamente esta é uma impressão que não se sustentou muito especialmente a partir da sua segunda metade, quando ele cresce bastante até a um final de certa forma apoteótico.

Gosto que a Nia DaCosta não tentou copiar o estilo de Boyle para este filme. Filmou a sua maneira apostando que o fio condutor de “Extermínio” não é o meio, mas a mensagem. Enfim, a história. Infelizmente, ficou a seu cargo cuidar da pior parte desta trilogia. Os Jimmy’s são insuportáveis e têm tempo demais de tela. Quando surgiram no final de “Evolução”, eles prometiam algo interessante: um bando de lunáticos performando enquanto matam zumbis liderados por Sir Jimmy Crystal (Jack O´Connell), único sobrevivente de uma família toda infectada e morta no início de tudo, e que acolheram o Spike.

O segundo filme mostra que aquilo não passava de uma festa estranha com gente esquisita e tudo o que você deseja é que o Spike se livre rapidamente deles. Na verdade, os Jimmy´s estão ali para reforçar uma marca da franquia “Extermínio”: a lembrança de que o maior terror em qualquer mundo apocalíptico vem dos humanos e não do que supostamente causou a nossa destruição. Os Jimmy´s são uma seita satanista com uma interpretação bem equivocada de fé e religião (qualquer semelhança com o mundo real não é mera coincidência) e mostraram ser uma grande enrascada para Spike. Pior do que ter que fugir e matar zumbis.

O problema é que eles são quadrados e rasos demais na história, o que os fazem ser absolutamente desinteressantes. Felizmente fica bastante claro desde o início que eles eram estúpidos demais e não iam durar muito.

Se os Jimmy´s são o ponto baixo, ponto alto do filme está em toda a trama envolvendo o Dr. Kelson e Samson (Chi Lewis-Parry). Toda a dinâmica criada por Kelson no Templo dos Ossos com o zumbi alfa que, milagrosamente, ele consegue ganhar confiança é muito interessante. Kelson fica maravilhado com a possibilidade de poder de alguma forma dialogar com um infectado ao mesmo tempo em que está estudando uma potencial cura para o vírus. No fim, ele faz uma grande descoberta que o filme nos deixa na expectativa se ela poderá ser aproveitada ou não. Tudo isso, é importante ressaltar, com uma trilha sonora de primeira.

Além dos momentos envolvendo Kelson, eu também gostei do filme pelo seu final performático, quando os mundos de Kelson e dos Jimmy´s se chocam. Ver o médico ridicularizando o grupo com um espetáculo performático ao som de Iron Maiden me pegou muito.

E a cereja no bolo ficou para os minutos finais do filme, quando vemos o retorno de um personagem importante para a franquia e que me pegou de surpresa. Uma surpresa que manteve a minha motivação lá no alto para o terceiro filme.

Nota 7/10.

Book review: “Pachinko”, de Min Jin Lee

“Não há nada que possas fazer, entendes? Este país não vai mudar. Coreanos como eu não podem ir-se embora. Para onde iríamos? Só que os coreanos no nosso país também não estão a mudar. Em Seul, pessoas como eu são apelidadas de bastardos japoneses, ao passo que no Japão sou mais um coreano imundo, por muito dinheiro que ganhe, ou quão simpático seja. Mas e então, foda-se? Todas aquelas pessoas que regressaram ao Norte estão a morrer à fome ou então vivem aterrorizadas” (pág. 371)

Sensibilidade, dor, melancolia. São três palavras que me vieram frequentemente a mente lendo “Pachinko”. A saga de quatro gerações de famílias coreanas ao longo do século XX é arrebatadora pela escrita sensível, muito honesta e sincera de Min Jin Lee. Uma escrita que tem um peso não apenas da experiência pessoal, mas também em quase 30 anos de pesquisa da autora.

Essa combinação de emoção e densidade dramática com uma clara riqueza histórica que se percebe lendo o texto é o que talvez faça com que “Pachinko” seja tão irresistível.

Percebe-se pela jornada destas quatro gerações como a vida dos coreanos que tiveram que fazer a vida no Japão por causa de diferentes guerras e ocupações foi e continua sendo extremamente dura. Fica mesmo uma marca indelével na alma deste grupo de pessoas, muitas delas nascidas no Japão, mas que nunca deixaram de ser coreanos aos olhos dos japoneses. E esta marca é passada de geração a geração.

Penso em memória e de como o trauma perpassa gerações junto com o racismo e a xenofobia dentro de cada civilização. Penso em como o mundo é cruel e não há uma mínima razão para que esta crueldade gratuita, o ódio pelo ódio, esteja na ordem do dia. Seja na história de “Pachinko”, seja no mundo em que vivemos em pleno século XXI, que infelizmente guarda tantos paralelos com esta história.

Estes coreanos que são vistos como imundos no Japão e traidores na Coreia são quase como apátridas. Podem ter um passaporte, mas são odiados por onde passam dentro das culturas em que vivem. O que os faz ter pouca escolha na busca por uma ascensão social. Não por acaso o pachinko, espécie de jogo de azar coreano que é mal visto no Japão, acaba sendo uma das poucas saídas para os indivíduos do livro.

“Pachinko” tem muita dor, tem muita luta na busca por um lugar ao sol. Seus personagens guardam uma melancolia que parece tatuada na alma. Uma melancolia que aprisiona seus personagens junto com o senso de responsabilidade para com a família e uma busca por uma nobreza nos atos em alguns momentos até ingênua aos meus olhos ocidentais. A vida dos seus personagens parece um fardo enorme para carregar.

“Pachinko” é brilhante. Uma história extraordinária sobre os sacrifícios que os imigrantes fazem para ter um lugar no mundo. O livro de Min Jin Lee é uma leitura obrigatória que dialoga demais com o nosso tempo, especialmente quando vemos discursos que vilanizam o imigrante e a imigração ganhando tanto eco no mundo. Um paradoxo do nosso tempo. Quanto mais conectados estamos, mais apelamos para uma ridícula voz tribal e protecionista. Voz esta que é comandada pelos piores nomes da extrema-direita que voltaram a circular pelo planeta. E não tem nem 100 anos que acabou a Segunda Guerra Mundial, o auge deste horror e um dos pontos iniciais do horror dos personagens de “Pachinko”.

O que é difícil de compreender para muitos é que quando você imigra você deixa de ser uma única coisa. Não se reconhece no passado, não se enxerga no presente. Estar entre dois (ou mais) mundos é um dos fardos do imigrante que “Pachinko” mostra com tamanha… sensibilidade, dor e melancolia.

Mais uma vez volto a estas três palavras. Três conceitos que junto com o vazio do não pertencimento resumem um pouco do que penso sobre esta obra magnífica de Min Jin Lee. Um verdadeiro clássico moderno.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Os melhores filmes de 2025

"Valor Sentimental", "Pecadores" e "O Agente Secreto"
Para encerrar o ano, vamos a lista com os meus filmes favoritos de 2025. Foi um sofrimento chegar a uma lista que fosse boa e diversa. 

Tive que deixar alguns diretores que gosto muito de fora, como Guillermo del Toro (“Frankenstein”), Wes Anderson (“O esquema fenício”) e Richard Linklater (“Nouvelle Vague”), em nome de uma variedade e também porque embora tenha gostado de seus filmes, acho que faltou algo para eles estarem no top-40 deste ano. 

Fico feliz, no entanto, pela quantidade de filmes brasileiros que entrou na lista. Foram cinco, mostrando que foi um belo ano para o cinema brasileiro. E mais poderiam até ter entrado. No fim, tudo é uma mistura de gosto pessoal, equilíbrio e análise crítica. Não existe lista perfeita. E a minha está longe de ser perfeita. 

Dito isto, vamos a lista:

1 — Valor Sentimental (Affeksjonsverdi — NOR, ALE, DIN. FRA, SUE, ING, TUR). Diretor: Joachim Trier.

2 — Pecadores (Sinners — EUA). Diretor: Ryan Coogler.

3 — O Agente Secreto (O Agente Secreto — BRA, FRA, NL, ALE). Diretor: Kléber Mendonça Filho.

4 — Uma Batalha após a outra (One Battle After Another — EUA). Diretor: Paul Thomas Anderson.

5 — Dreams (Drommer — NOR). Diretor: Dag Johan Haugerud.

6 — Sing Sing (Sing Sing — EUA) — Diretor: Greg Kwedar.

7 — Homem com H (Homem com H — BRA) — Diretor: Esmir Filho.

8 — Amável (Elskling — NOR) — Diretora: Lilja Ingolfsdottir.

9 — O filho de mil homens (O filho de mil homens — BRA) — Diretor: Daniel Rezende.

10 — Bugonia (Bugonia — IRL, ING, CAN, COR, EUA) — Diretor: Yorgos Lanthimos.

11- Foi apenas um acidente (Yek Tasadef sadeh — IRN, FRA, LUX, EUA) — Diretor: Jafar Panahi.

12- A vida de Chuck (The Life of Chuck — EUA) — Diretor: Mike Flanagan.

13- A semente do fruto sagrado (Dâne-ye anjir-e ma´âbed — FRA, ALE) — Diretor: Mohammad Rasoulof.

14 — O Brutalista (The Brutalist — EUA, ING, CAN) — Diretor: Brady Corbet.

15 — Oeste outra vez (Oeste outra vez — BRA ) — Diretor: Erico Rassi.

16 — O último azul (O último azul — BRA, MEX, NL, CHI) — Diretror: Gabriel Mascaro.

17 — On Falling (On Falling — ING, POR) — Diretora: Laura Carreira.

18 — O reformatório Nickel (Nickel Boys — EUA) — Diretor: RaMell Ross.

19- Um completo desconhecido (A complete unknow — EUA) — Diretor: James Mangold.

20 — Love (Kjaerlighet — NOR) — Diretor: Dag Johan Haugerud.

21 — Vitória (Vitória — BRA) — Diretor: Andrucha Waddington.

22 — Sorry, Baby (Sorry, Baby — EUA, ESP, FRA) — Diretora: Eva Victor.

23 — Sirât (Sirât — FRA, ESP ) — Diretor: Oliver Laxe.

24 — Sonhos de Trem (Train Dreams — EUA) — Diretor: Clint Bentley.

25 — Morra, amor (Die my love — ING, CAN, EUA ) — Diretora: Lynne Ramsay.

26 — Springsteen: Salve-me do Desconhecido (Springsteen: Deliver Me from Nowhere — EUA) — Diretor: Scott Cooper.

27 — F1: O Filme (F1: The Movie — EUA) — Diretor: Joseph Kosinski.

28 — A hora do mal (Weapons — EUA) — Diretor: Zach Cregger.

29 — Superman (Superman — EUA, CAN, AUS, NZL) — Diretor: James Gunn.

30 — A história de Souleymane (L´Histoire de Souleymane — FRA ) — Diretor: Boris Lojkine.

31 — Ladrões (Caught Stealing — EUA) — Diretor: Darren Aronofsky.

32 — O ônibus perdido (The Lost Bus — EUA) — Diretor: Paul Greengrass.

33 — Honey, não! (Honey, Don´t! — ING, EUA) — Diretor: Ethan Coen.

34 — Acompanhante Perfeita (Companion — EUA) — Diretor: Drew Hancock.

35 — Pequenas coisas como estas (Small Things Like These — IRL, BEL, EUA) — Diretor: Tim Mielants.

36 — Extermínio: A Evolução (28 Years Later — ING, EUA) — Diretor: Danny Boyle.

37 — Código Preto (Black Bag — EUA) — Diretor: Steven Soderbergh.

38 — Jovens Mães (Jeunes mères — BEL, FRA ) — Diretores: Jean-Pierre e Luc Dardenne.

39 — Três amigas (Trois Amies — FRA) — Diretor: Emmanuel Mouret.

40 — Primeiro encontro (Follemente — ITA) — Diretor: Paolo Genovese.

Como este também foi um ano em que vi mais documentários do que o normal e sempre achei que documentários são muito diferentes de filmes de ficção para serem colocados dentro da mesma categoria, resolvi fazer um top-5 documentários. 

Segue a minha lista:

1 — Ernest Cole: Achados e Perdidos (Ernest Cole: Lost and Found — FRA, EUA) — Diretor: Raoul Peck.

2- Ozzy Osbourne: No escape from now (Ozzy Osbourne: No escape from now — EUA, ING) — Diretora: Tania Alexander.

3 — Becoming Led Zeppelin (Becoming Led Zeppelin — ING, EUA) — Diretor: Bernard MacMahon.

4- Ritas (Ritas — BRA) — Diretores: Oswaldo Santana e Karen Harley.

5- Apocalipse nos Trópicos (Apocalypse in the Tropics — EUA, BRA, ING) — Diretora: Petra Costa.

É isso. Um feliz ano novo a todos. Em 2026, voltamos com mais análises de filmes e listas. 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

As melhores séries de 2025

"The Pitt", "Adolescência" e "Pluribus", o top-3
Antepenúltimo dia do ano. Chegou a hora de divulgar a lista com as melhores séries de 2025. Foi um ano de muita coisa boa. Lamento pelas que ficaram de fora, mas a regra é clara. Só vale 20.

Então segue abaixo o crème de la crème da televisão/streaming de 2025.

1- The Pitt (The Pitt — EUA — HBO) — Essa série foi uma porrada arrebatadora. Foi a mais surpreendente que eu vi em 2025. Principalmente porque eu não gosto e não ligo para séries médicas. Contudo, foi uma decisão muito sabia em dar uma chance para ela. “The Pitt” tem tudo o que uma boa série precisa ter. O roteiro é ótimo, os atores são muito bons, a série é bem dirigida, as histórias são muito boas, a tensão da urgência do hospital é permanente. Nunca soube que eu precisava de uma série médica que funciona ao estilo da antiga série “24 horas”. Sensacional.

2- Adolescência (Adolescence — ING — Netflix) — Além de ser uma série excelente sobre temas extremamente importantes e atuais, a série ainda se impôs o desafio de filmar todos os episódios em plano-sequência. Isso é praticamente uma música de rock progressivo do audiovisual. “Adolescência” foi outra surpresa extremamente agradável do ano.

3- Pluribus (Pluribus — EUA — Apple TV) — Vince Gilligan é um mago da TV. E tem a incrível capacidade de fazer séries de um jeito absolutamente refinado. Gilligan não trata o espectador como idiota e seus trabalhos tem o tempo de desenvolvimento que ele acha que deve ter, sem apelar para plot twists ou cliffhangers. “Pluribus” chegou bem no final do ano para discutir temas como positividade tóxica, entre outros, e nos colocou semanalmente para pensar sobre o que faríamos nas mais diferentes situações que seus episódios exibiam. Assim como “Breaking Bad” e “Better Call Saul”, “Pluribus” tem a marca do refinamento e o timing estabelecido por seu criador. Não vejo a hora de ver a segunda temporada.

4- O Estúdio (The Studio — EUA — Apple TV) — Uma série fenomenal sobre a indústria cinematográfica de Hollywood. Não sei como o Seth Rogen conseguiu convencer tanta gente a participar dela protagonizando muitas cenas que são críticas à própria indústria. Foram muitos episódios icônicos que fizeram com que a série figurasse no top-5 de 2025.

5- O lendário Martin Scorsese (Mr. Scorsese — EUA — Apple TV) — Série documental maravilhosa dirigida por Rebecca Miller. Uma verdadeira aula de cinema em cinco capítulos. Ela reafirma a genialidade do diretor, expõe seus demônios internos e externos e mostra o quanto Scorsese é um indivíduo muito único na indústria. De quebra, ainda reafirma a genialidade de nomes como o ator Robert De Niro e a montadora Thelma Schoonmaker, frequentes colaboradores de Scorsese, e a importância de Leonardo Di Caprio para o diretor a partir da virada para o século XXI.

6- Andor (Andor — EUA — Disney Plus) — “I have friends everywhere”. Essa frase ficou ecoando por dias na minha cabeça como um símbolo da resistência política neste que é um dos melhores trabalhos já feitos dentro do universo de Star Wars. Que série incrível.

7- Ruptura (Severance — EUA — Apple TV) — A segunda temporada de “Ruptura” continuou entregando episódios muito bons enquanto aprofundava a discussão sobre os internos e os externos. E o final foi excelente.

8- Alien: Earth (Alien: Earth — EUA, TAI — Fx/Hulu) — Além de Vince Gilligan, que eu falei aqui em cima, outro cara que sabe fazer TV de qualidade é Noah Hawley. Responsável por “Fargo” (2014–2024) e “Legion” (2018–2019), Hawley criou uma série do universo de Alien que é um misto de ficção científica, suspense e terror com design e elementos visuais que lembram muito o de “Blade Runner” (1982). Está é a primeira história do universo que se passa na Terra, onde vemos grandes corporações disputarem espécimes com incrível capacidade de adaptação e que se espalham facilmente como vírus destruidores.

9- Terra da Máfia (Mobland — ING, EUA — Paramount/MTV) — Série maravilhosa sobre a máfia de Londres com Tom Hardy e Helen Mirren inspiradíssimos e uma das melhores atuações da carreira de Pierce Brosnan.

10- Task (Task — EUA — HBO) — Brad Ingelsby praticamente repetiu a fórmula de “Mare of Easttown” (cidade insignificante dos EUA, policial longe da melhor forma física e mental e um crime para resolver) e criou mais uma série maravilhosa. É preciso estar sempre de olho no que Ingelsby está fazendo. Ele parece dominar um certo tipo de narrativa bem interessante. 

11- A Diplomata (The Diplomat — ING, EUA — Netflix) — A série está na sua terceira temporada e não perdeu o fôlego. Criada por Deborah Cahn, a série tem um humor refinado ao mesmo tempo em que fala de geopolítica e faz o trabalho de um embaixador parecer mais emocionante do que eu imagino que deva ser.

12- Slow Horses (Slow Horses — ING, EUA — Apple TV) — A quinta temporada foi uma das melhores da série protagonizada por Gary Oldman. É outra série que está longe de perder o fôlego.

13- O Urso (The Bear — EUA — FX) — Esta é uma série que vem aparecendo entre as melhores todo ano desde a sua estreia. Gostei muito da quarta temporada e a sua posição atual neste ranking não reflete uma queda de qualidade. Pelo contrário, sua força está em ter aparecido por quatro vezes na lista das melhores de um ano.

14- Paradise (Paradise — EUA — Hulu) — Esta foi uma das boas surpresas do ano. Um segurança do presidente estadunidense tenta resolver um crime dentro de um mega bunker da humanidade num mundo pós-apocalíptico. E mais eu não posso dizer.

15- Morrendo por sexo (Dying for Sex — EUA — FX/Hulu) — Imagina ter um tema super pesado para tratar como a morte iminente por câncer e juntar isso com a história de uma mulher que começa a explorar plenamente a sua sexualidade em busca de um orgasmo. Não parecia ser possível juntar as duas coisas, mas nada que um texto muito bom adaptado do podcast “Dying for sex” por Elizabeth Merriwether e Kim Rosenstock e uma interpretação maravilhosa de Michelle Williams não transformassem numa ótima, divertida, engraçada e agridoce série de TV.

16- Terra Indomável (American Primeval — EUA — Netflix) — Foi uma das primeiras séries que eu vi no ano e foi uma surpresa positiva. Fala de uma forma brutal sobre a exploração do Oeste americano. Longe do romantismo que vemos em filmes antigos, ela mostra a espiral de violência envolvendo nativos, governo, mórmons imigrantes. Tudo com muita sujeira e caos.

17- Diários de um robô assassino (Murderbot — EUA — Apple TV) — Uma grants surpresa. Não dava nada por está série, mas ela se revelou bem legal. Trata de um robô que faz segurança para humanos que hackeia o próprio sistema, se rebela e só quer ver séries de TV enquanto descobre os prazeres do mundo. Alexander Skarsgaard mostrou ter um bom timing cômico.

18- Fundação (Foundation — EUA — Apple TV) — Foi o ano da Apple TV definitivamente. “Fundação” é a sétima produção da Apple a entrar no top-20, mostrando que o streaming tem feito muita coisa de qualidade. A terceira temporada desta série foi uma das minhas favoritas e ainda teve um episódio final de tirar o fôlego. Para mim, “Fundação” só vem crescendo, ainda que pouco se fale sobre está série baseada na obra de Isaac Asimov. E definitivamente em 2026 eu preciso começar a ler Asimov. 

19- Hacks (Hacks — EUA — HBO) — A quarta temporada pode até não ter o mesmo fôlego que as anteriores, mas “Hacks” continua sendo uma série muito legal de acompanhar.

20- It: Bem-vindos a Derry (Welcome to Derry — EUA — HBO) — Esta série mostrou que há fôlego para a expansão do universo de “It”. A primeira temporada foi interessante o suficiente para figurar nesta lista e despertar a minha curiosidade para os trabalhos futuros.

Menções honrosas: “Black Rabbit” (Netflix), As quatro estações (Netflix), “Demolidor: Renascido” (Disney Plus), A idade dourada (HBO) e “O monstro em mim” (Netflix).

Amanhã voltamos com a lista dos melhores filmes do ano.