Desde que passou a ser capitaneado pelo diretor James Gunn, muita expectativa se criou sobre a nova DC Studios. No entanto, após a chegada dos dois primeiros filmes ao cinema, “Superman” (2025) e “Supergirl”, agora em cartaz, a sensação é de uma leve frustração.
Não que os dois filmes sejam ruins. Longe disso. Eles são aventuras leves, divertidas, com um propósito bem definido para seus protagonistas e desafios para os mesmos. O que parece estar faltando é um ponto que sempre foi o grande foco de Gunn para definir se um projeto sairá ou não do papel no estúdio: o tal do bom roteiro.
No caso de “Supergirl”, o roteiro batido e pouco envolvente se associa a um vilão anódino e genérico que torna a aventura em alguns momentos um tanto quanto opaca e esquecível. Esse é o maior calcanhar de aquiles de um filme que tinha tudo para ser bem mais interessante ao falar sobre o trauma e o luto da sua protagonista.
E quando eu digo que é em alguns momentos que o filme é opaco e esquecível, é porque “Supergirl” tem um outro lado muito bom e interessante que compensam consideravelmente os seus problemas. É o fato de um filme ser um coming of age intergaláctico muito focado no excelente trabalho e no carisma de Milly Alcock como a protagonista.
Alcock já havia roubado a cena ao fazer a jovem Rhaenyra em “House of the dragon”, da HBO. Agora como protagonista do segundo grande filme da nova fase da DC, ela é o grande brilho de um filme que é infelizmente cheio de altos e baixos.
“Supergirl” se passa num momento em que Kara está a completar 23 anos e sente-se perdida e solitária no universo. Entregue à bebedeira e fugindo o máximo possível dos problemas, Kara parece não ter lugar desde o desaparecimento de Krypton e da morte dos seus pais. Ao contrário do seu primo, Kara teve uma vida ainda em Krypton e em Argo, uma espécie de cidadela que o seu pai conseguiu salvar após a destruição completa do planeta. E essa experiência de ver a família e o seu povo morrer lentamente por causa de alguns eventos que o filme explica moldaram completamente e traçaram a diferença dela para Clark, o Superman.
Kara sofre de uma dor que Clark nunca teve, pois foi enviado ainda bebê para a Terra, onde foi criado e cresceu ao lado dos Kent. Por isso, os primos têm uma visão de vida e de mundo completamente diferentes um do outro. É o que Kara diz durante o filme: “Clark vê o lado bom das pessoas, eu vejo a verdade”. Uma verdade, no entanto, moldada pela sua dor e pelo seu trauma e não necessariamente A verdade. Mas é claro que Kara ainda não consegue enxergar isso, pois seu estado de depressão é visível.
Quando as circunstâncias da vida a colocam no caminho de Ruthye (Eve Ridley), uma jovem em busca de vingança pela morte da família, Kara se vê tendo que entrar no meio daquela história. Especialmente depois que o vilão Krem (Matthias Schoenaerts) injeta um veneno em Krypto. A partir daí, ela terá 72 horas para salvar o cachorro da morte.
Como se vê, a trama de “Supergirl” é bem simples. Kara precisa correr contra o tempo para salvar seu cachorro da morte enquanto acaba se metendo na história de Ruthye e de outro personagem famoso e querido dos fãs, o Lobo (Jason Momoa).
O lado simplório do roteiro escrito por Ana Nogueira faz o filme dirigido por Craig Gillespie ficar em muitos momentos desinteressante. O que nos mantém conectados à é o trabalho de Alcock. A atriz soube expressar bem a dor e a solidão de Kara, seus dramas e sua necessidade de sumir para tentar sentir as coisas que não sente. Ela soube transmitir o olhar para a Terra sem se sentir em casa e conectada. Kara é uma imigrante forçada a viver longe da sua terra natal, enquanto Clark é como o filho do imigrante que já cresceu na Terra. As visões de mundo são completamente diferentes.
Ao longo do filme, Alcock consegue mostrar de forma sútil como a sua Kara vai amadurecendo para tornar-se a heroína que seus pais desejavam que ela fosse. E estes momentos fazem o filme crescer, apesar dos seus problemas bem visíveis.
É uma pena que o vilão de “Supergirl” seja tão genérico e desinteressante. Krem é um mero mercador de escravos sem camadas. É uma tela chapada no filme. Ele não tem um background interessante e nem mostra nada além de ser mal e sádico. Talvez seja o ponto mais fraco do filme. Se Kara tivesse um vilão mais interessante, o filme ganharia mais cor. Mas Krem não consegue nem ser um antagonista de ideias para o amadurecimento de Kara.
Outro problema é a presença do Lobo de Jason Momoa. As suas cenas são incríveis e o Lobo é um dos personagens mais carismáticos da DC, mas a sua presença não conecta em nada com a história do filme. O Lobo é como um curta dentro do longa metragem da Supergirl. Ele tem a sua própria história, faz o que dele se espera e vai embora. Eu quero crer que isso foi apenas uma forma de apresentar um personagem para uma nova geração e que talvez o Lobo venha a ter um filme solo ou uma participação mais interessante ou conectada com um filme no futuro.
Entre altos e baixos, no entanto, “Supergirl” é um filme divertido e que tem um coração. Embora seja da dupla Nogueira-Gillespie, ele tem muito de James Gunn no uso de trilha sonora e de construção rica de mundo, especialmente personagens secundários ou meros figurantes na tela. Vê-se muito da influência da trilogia “Guardiões da Galáxia” (2014–2023) neste “Supergirl”.
Por outro lado, “Supergirl” carece de dois pontos para ser mesmo um grande filme. No aspecto psicológico, um aprofundamento maior nas questões que causam as dores de Kara. Os temas são todos jogados de forma relativamente leve em meio a aventura que estamos vendo.
E num aspecto mais da aventura em si, Kara precisava de um vilão melhor e mais bem construído e até mais poderoso para que o filme não se repetisse dentro de si mesmo tendo que encontrar formas de diminuir os seus poderes para que ela se equiparasse um pouco a quem está enfrentando. Ainda que a ideia do sol verde seja até boa.
O saldo que fica é que a DC Studios de Gunn ainda está devendo um grande filme. Um grande filme como o “Batman” (2022) de Matt Reeves. Mas é inegável que tanto “Superman” quanto “Supergirl” tenham pontos positivos que valem uma ida ao cinema.
Nota 7/10.




