sexta-feira, 1 de maio de 2026

Os filmes e as séries de abril

Os filmes e as séries mais interessantes de abril:

O Drama (The Drama — EUA) — Aquele filme que nos traz duas lições. A primeira é que não se deve misturar vinho com conversas francas. A segunda é que é preciso escolher bem a sua madrinha de casamento. Aqui temos Zendaya e Robert Pattinson vivendo uma tensão desnecessária às vésperas do casamento. Tudo porque resolveram tirar uns esqueletos do armário.

Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra (Good Luck, Have Fun, Don´t Die — ALE, EUA) — Sam Rockwell vivendo um doidão do futuro que tenta salvar a humanidade do apocalipse que será causado pela Inteligência Artificial. Meu maior medo é que o filme do Gore Verbinsky ainda vai deixar de ser uma maravilhosa diversão para passar a ser visto como uma premonição.

Socorro! (Send Help — EUA, CAN, ING, AUS, TAI) — Rachel McAdams fazendo o que todo trabalhador gostaria de fazer com o chefe abusador. O filme de Sam Raimi é sobre como o burn out acaba com a cabeça do operário do capitalismo. E ainda há quem defenda a escala 6 x 1.

53 Domingos (53 Domingos — ESP) — Uma comédia deliciosa de Cesc Gay baseada na peça do próprio diretor. Aqui, Javier Cámara, Carmen Machi e Javier Gutierrez vivem três irmãos que não se dão muito bem e precisam se reunir para decidir o que fazer com o pai octogenário, que já está dando sinais de que não pode mais viver sozinho. No meio disso, muita roupa suja lavada e alfinetadas entre eles.

Mektoub, My Love: Canto Due (Mektoub, My Love: Canto Due — FRA) — Abdellatif Kechiche mostrando que o verão e a juventude são incríveis, mas se você não tomar cuidado a festa pode acabar em BO.

Caminhos do Crime (Crime 101 — ING, EUA) — Estou chocado de como eu achei este filme legal. O elenco era estelar. Tinha Chris Hemsworth, Mark Ruffalo vivendo mais um detetive cansado, Barry Keoghan, Halle Berry, Jennifer Jason Leigh, Nick Nolte… mas ele tinha uma carinha de enlatado estadunidense daqueles que eu vi muito nas Sessões da Tarde. Bem, é um pouco, mas é também uma história divertida sobre um ladrão de joias que se mete em algumas enrascadas e traições.

The Pitt (The Pitt — EUA — HBO) — Eu nunca acreditei que a segunda temporada de “The Pitt” seria tão incrível quanto a primeira. Eu estava fragorosamente errado. A série foi mais uma vez impecável na forma e atual no conteúdo. A subtrama do ICE, a polícia política do governo de Gilead, ops, dos Estados Unidos, mostrou que os roteiristas vão botar o dedo na ferida sim. E ainda tivemos outras histórias importantes envolvendo a falta de um SUS naquele país, o descaso com vítimas de violência sexual, e o looping infinito do doutor Robby abraçado ao burnoutinho Robinavitch, não conseguindo sair do hospital, e questionando o que está fazendo da vida por ser um solteirão de mais de 40 anos ferrado da cabeça. Eu só tenho um desejo e uma preocupação com “The Pitt”.

Desejo — Precisamos de um spin off mostrando os NIGHT CRAWLERS do night shift porque tem muito personagem interessante ali.

Preocupação — Será que “The Pitt” e a minha amada HBO vão continuar afiados, sexys e com o pé fundo na política agora que a Warner foi comprada pela Paramount e seus donos conservadores e alinhados com o que há de pior na história estadunidense? A ver.

DTF St. Louis (DTF St. Louis — EUA — HBO) — É muito difícil a HBO errar quando junta crime, tragédia e uma meia dúzia de personagens extremamente interessantes. Nesta série criada por Steve Conrad, David Harbour vive o maior people pleaser da história da TV em uma trama rocambolesca sobre amizades complexas, fetiches e apps de relacionamento.

Falando a Real (Shrinking — EUA — Apple TV) — “Falando a Real” tem um dos melhores textos da TV atualmente. É uma série agridoce que trata de temas difíceis como luto, solidão e doenças, mas com uma dose de humor. Foi muito legal ver o Michael J. Fox contracenando com o Harrison Ford nos episódios mais focados na questão do Parkinson. Ford, aliás, vive um dos melhores momentos na carreira nesta série. A terceira temporada teve cara de fim de um ciclo para todos os personagens. Como a quarta já foi confirmada pela Apple TV, estou curioso para ver para onde a série caminhará.

Talamasca: A ordem secreta (Talamasca: The Secret Order — EUA — AMC) — Todo mundo quer um universo expandido para chamar de seu. O da AMC é o da escritora Anne Rice. Depois do que assumo ter sido um sucesso da série “Entrevista com o vampiro”, que vai para a terceira temporada com o nome de “O vampiro Lestat”, e de “As bruxas Mayfair” surgiu este outro spin-off baseado no mesmo universo sobre a ordem secreta Talamasca. E surpreendentemente até que ela é bem legal. É basicamente uma série de espionagem com vampiros, bruxas e zumbis.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

“Michael” emociona em números musicais, mas falha como cinebiografia

Desde o início sabia-se que a cinebiografia de Michael Jackson seria chapa branca. O controle da família e daqueles que o cercaram, retratados na lista de produtores do filme, que pode ser encontrada em qualquer site especializado de cinema, eram mostra suficiente de que temas delicados seriam evitados ou suavizados. Eu só não imaginava que “Michael” fosse um filme tão sem alma e sem personalidade e que foi incapaz de retratar a complexidade de um artista como Michael Jackson.

Na verdade, estou sendo ligeiramente injusto. “Michael” tem alma em alguns momentos. Mais especificamente eu seus números musicais. Eles são o ponto alto do filme dirigido por Antoine Fuqua, tanto quando vemos o Michsel criança interpretado com magnetismo por Juliano Valdi, quanto quando vemos o sobrinho de Michael, Jaafar Jackson mimetizando os passos, os trejeitos e a forma de cantar do tio. São nestes momentos que o filme ganha vida, emociona e faz o espectador cantar junto. Mas é só. Quando entramos nos intervalos dos “clipes musicais” e é preciso contar a história, “Michael” é superficial, por vezes incorreto, por vezes injusto e não investiga a alma por trás do artista biografado.

“Michael” tem um vilão óbvio: Joseph Jackson (Colman Domingo), o pai controlador, violento e manipulador. O homem que praticava abuso físico e psicológico com os filhos, em especial o mais jovem e talentoso deles. Mas o que se vê na tela é apenas o necessário para pintar um vilão sem que se possa aprofundar a relação complexa de Michael com o pai e a família como um todo.

Tudo é muito passageiro e pouco aprofundado na cinebiografia. O filme compreende o início dos jovens Jackson 5 e vai até o fim definitivo do grupo, quando Michael já fazia muito sucesso em carreira solo após ter lançado os álbuns “Off The Wall” (1979) e “Thriller” (1982). Mesmo compreendendo um período de tempo que vai até metade da vida de Michael, Fuqua não consegue dar um norte preciso ao filme.

A infância de Michael passa rapidamente e se resume a números musicais e opressão paterna. E quando Fuqua tenta investigar os problemas psicológicos do artista, ele apenas mostra sinais muito sutis, como a criança que vê no produtor da Motown uma figura paterna que não tem em casa. Aliás, no filme Michael nunca chama Joseph de pai. É sempre Joseph. Outro sutileza que não é mais explorada. Ficam apenas os sinais de que havia algo errado ali.

Quando passamos para a adolescência e início da vida adulta, vemos um homem solitário e sem amigos, que se apega a bichos exóticos. Mas mais uma vez a solidão de Michael é apenas citada ao largo enquanto passamos para mais um número musical arrebatador. E eles são arrebatadores, pois a música de Michael Jackson é fenomenal e implacável.

Também não conseguimos de fato mergulhar na alma atormentada de Michael quando ele se vê dividido entre o amor a família e a necessidade de seguir em carreira solo. Jaafar Jackson tenta explorar isso, mas Fuqua não consegue dar voz a esse esforço, deixando sempre o filme num tom superficial, que infelizmente é a maior marca de “Michael”.

Faltam alma e ideias claras ao filme de Fuqua. Filme este que comete dois erros graves. O primeiro é a ausência de Janet Jackson. Talvez o segundo membro mais famoso da família, Janet não existe no filme. E ela já era uma adolescente quando Michael lançou “Thriller”. Se houver mesmo um segundo filme, como “Michael” deixa claro em suas cenas finais, quero ver o que irão fazer, uma vez que Michael gravou uma música de sucesso com a irmã (“Scream”, que está na coletânea “History”)

O segundo e mais importante é a desimportância dada ao produtor Quincy Jones. Essa foi de uma desonestidade intelectual brutal. A parceria entre Michael e Jones é uma das mais importantes da história da música. Jones era um midas da indústria. A genialidade de Michael só aflorou ao lado do produtor que, no filme, é retratado apenas como mais um na vida do cantor. Na verdade, o guarda-costas Bill (Keilyn Durrell Jones) e o advogado John Branca (Miles Teller) têm mais importância no filme do que Jones. Não que eles não fossem personagens relevantes, mas o apagamento do produtor foi dos erros mais graves de “Michael”.

Em resumo, “Michael” é fascinante em seus números musicais. Principalmente para seus fãs, que vão se ver sentindo saudade do ídolo morto em 2009. Por outro lado, é vazio e superficial ao focar somente no artista no palco e não nos trazer um retrato ou ideias sobre o homem e um artista complexos fora dele.

Nota 6,5/10

sábado, 11 de abril de 2026

“O Drama”: descobrindo os esqueletos no armário às vésperas do casamento

Esse casamento será tenso
Qual foi a pior coisa que você já fez na vida? Uma brincadeira inocente entre amigos em uma noite de vinhos às vésperas do casamento de um dos casais da mesa torna-se o estopim para todo um… drama antes da cerimônia que unirá em definitivo (ou não) Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson).

A chocante revelação de Emma sobre algo que ela nunca fez, mas planejou fazer, jogou uma nuvem de dúvidas e rancores em um casamento que já tinha naturalmente a sua dose de drama, sofrimento e ansiedade. E nos faz refletir a partir de dois conceitos até bastante clichês:

1) Até onde conhecemos de fato nossos parceiros?

2) Será de fato a ignorância uma bênção?

Se eu tivesse que responder a estas duas questões sob um ponto de vista meramente pessoal, diria primeiro que nunca conhecemos de fato não apenas nossos parceiros, mas todos ao nosso redor. Até mesmo nossos pais. De certa forma, todos temos algum esqueleto no armário. Não necessariamente tão pesados e que causem um evidente desconforto como o que acontece com Charlie e seus amigos, mas o suficiente para não querermos exibi-lo nem para nossos melhores amigos.

Em segundo lugar, penso que é sempre melhor ter conhecimento do que viver na ilusão da ignorância. Por mais dolorosa que possa ser, a verdade é sempre melhor. E ela foi bem dolorosa para Charlie quando ouviu o que Emma havia revelado.

(Atenção que a partir de agora tratarei de spoilers do filme)

Quando Emma revela que na adolescência planejou um ataque a sua escola que só não foi a frente por circunstâncias da vida, Charlie fica não apenas chocado, mas obcecado por descobrir se a sua futura mulher é, digamos, normal ou uma psicopata.

Toda a revelação pega não apenas Charlie, mas Rachel (Alana Haim), a melhor amiga e dama de honra do casamento, e Mike (Mamoudou Athie), amigo de Charlie, de surpresa. Curiosamente, Mike é o único que age com naturalidade e tentando evitar que a conversa escale enquanto a sua mulher simplesmente não perdoa Emma. Por trás da dor de Rachel está o fato de sua irmã ser vítima de um school shooting que hoje vive numa cadeira de rodas.

A partir daí, uma série de situações vão acontecendo em “O Drama” que fazem jus ao nome do filme. Por vezes, toda a celeuma causada por aquela brincadeira supostamente inocente em um jantar parece todo um dramalhão desnecessário. Afinal, Emma não cometeu de fato nenhum crime. Apenas pensou e planejou fazê-lo. Já Rachel, por exemplo, fez coisa pior em seu passado, na medida em que cometeu de fato um ato de violência contra um colega.

O diretor Kristoffer Borgli, do bom filme “O Homem dos Sonhos” (2023), consegue equilibrar de um jeito muito especial drama e comédia neste filme que tem um texto muito divertido e que trabalha um pouco com quebras de expectativas.

Borgli é norueguês e eu consigo ver um pouco do estilo do cinema norueguês de abordar relacionamentos retratado no filme. É o caso do fato de eles estarem sempre conversando abertamente sobre os temas necessários e uma certa objetividade que pode facilmente ser confundida com um tom de frieza. Embora esta frieza acabe por ser quebrada pelos momentos de comédia (ou de quando rimos de nervoso) do filme. Deve-se isso a um leve toque de melodrama no filme. Especialmente pela forma como a história de Emma se instala na cabeça de Charlie de tal maneira que o faz ser consumido de forma obsessiva.

Se tem duas pessoas que entenderam bem o tom implantado por Borgli foram as atrizes femininas de “O Drama”. Não apenas Zendaya, que está naturalmente muito bem, mas Alana Haim e Hailey Gates (Misha), estão muito bem nos seus papéis. Haim consegue muito bem ser aquela mulher fria e julgadora sem se importar com contextos, só para impor a sua verdade. Gates tem uma pequena participação, mas é como a explosão da última granada que pode significar a implosão definitiva daquele casamento que ainda sequer foi celebrado. E toda a cena do casamento no final é puro ouro.

“O Drama” me surpreendeu positivamente. É um filme que tem um texto muito divertido e um casal de atores carismático que soube aproveitar bem o que texto lhes oferecia.

Nota 8/10.

sábado, 4 de abril de 2026

Os filmes e as séries de março

Os filmes e as séries mais interessantes (ou nem tanto) que eu vi em março:

O caso dos estrangeiros (I was a stranger — JOR, PAL, EUA) — Um filme sobre como a guerra é uma tragédia humanitária que causa crises econômicas, políticas, de imigração. Um drama sobre a crise dos refugiados, a busca por sobrevivência e o peso do exílio. Infelizmente muito atual.

O Estrangeiro (L´étranger — FRA) — Adaptação de François Ozon para o clássico livro de Albert Camus. Com o auxílio do ator Benjamin Voisin, Ozon conseguiu transpor para a tela a filosofia do absurdo a partir da indiferença e uma certa apatia de Meursault. O diálogo final com o padre é maravilhoso. E filme em preto e branco é sempre bonito.

Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary — EUA) — Que filme fofo e good vibes. Um pouco inocente, porém muito legal. E Ryan Gosling puro carisma.

Yunan (Yunan — ALE, CAN, ITA, PAL, QAT, JOR) — Filme muito interessante sobre um escritor sírio exilado que tenta encontrar um sentido para a vida ao viajar para uma ilha remota no Mar do Norte.

Riefenstahl: Cinema e Poder (Riefenstahl — ALE) — Documentário que é um pouco sobre como uma genialidade é colocada à serviço do mal. O filme expõe as claras ligações da cineasta Leni Riefenstahl com o regime nazista ao mesmo tempo em que exibe a luta constante dela para negar o que as evidências mais do que comprovam.

Paul McCartney: Homem em Fuga (Paul McCartney: Man on the Run — ING, EUA) — Documentário bem legal sobre os anos de Paul McCartney pós o fim dos Beatles. Mostra a busca dele por um novo propósito com os Wings e a retomada da amizade com John Lennon.

Peaky Blinders: O Homem Imortal (Peaky Blinders: The Immortal Man — ING, FRA, EUA) — Este filme é tipo o final de “Game of Thrones”. Adoro o destino dos personagens. Não sei é se a jornada foi a melhor. É uma pena que a Netflix não vai deixar o corpo ser enterrado de vez e vai espremer mais um pouco o mundo de Peaky Blinders. Mas se eles trouxerem a Rebecca Ferguson de volta eu aceito.

A Graça (La Grazia — ITA) — A parceria de Paolo Sorrentino com o ator Toni Servillo sempre gera filmes interessantes. Aqui, Servillo vive um presidente em fim de mandato que tem que lidar com dilemas morais no governo enquanto é atormentado por um segredo do passado sobre a traição da sua falecida esposa.

Paradise (Paradise — EUA — Hulu) — Eu já havia gostado bastante da primeira temporada, mas esta segunda temporada mais do que dobrou a aposta. Entregou episódio impecável atrás de episódio impecável, surpresas atrás de surpresas. Foi tudo tão bom que fez o episódio final parecer menor. Fico feliz que a terceira temporada já foi confirmada, porque eu não estou pronto para me despedir deste mundo pós-apocalíptico.

Sequestro (Hijack — ING, EUA — Apple TV) — Quando eu vi que haveria uma segunda temporada de “Sequestro” perguntei: Por que? A primeira temporada foi legal, mas ninguém participa de dois sequestros. Ou você é muito azarado. A fórmula é a mesma da primeira temporada, trocando o avião por um metrô em Berlim. O Idris Elba se vira ns 30 e no fim tudo dá certo. Foi divertido, mas ok, já deu. Se bem que ainda dá para fazer uma terceira temporada num ônibus no Rio de Janeiro. 

Refúgio do medo (Cold Haven — POR, ISL — RTP/Glassriver/SPI) — Série luso-islandesa com todos os elementos que gostamos. Um assassinato misterioso, detetive voltando para a cidade natal sem ter resolvido seus BOs, um monte de gente com cara de culpado, traficantes e um final de perder a fé na humanidade. Quem disse que a Islândia só tinha vulcão e a Bjork?

Terra de Pecadores (Synden — SUE — Netflix) — Os nórdicos gostam de um crime e o gênero nordic noir é toda uma cena. Esta série sueca até começa bem, mas o capítulo final é xexelento.

quarta-feira, 11 de março de 2026

E o meu Oscar 2026 vai para...

"Pecadores" e "O Agente Secreto"
Todo ano eu me imponho uma missão: assistir a todos os longas-metragens que concorrem a alguma categoria do Oscar. A ideia é brincar de votante da Academia e também montar um ranking que vá do melhor ao pior entre todos os indicados a todas as categorias. Nem sempre eu consigo cumprir a missão por motivos alheios a minha vontade, mas neste ano obtive 100% de aproveitamento. Foram 35 filmes indicados e 35 filmes vistos.

A primeira coisa que me chama a atenção é que o Oscar deste ano tem um ótimo nível de qualidade entre os seus indicados. Todas as categorias têm excelentes opções, salvo raras exceções. Uma medida que eu gosto de dar para fazer essa comparação é a nota média dos indicados a melhor filme. A desse ano ficou em 8,4, chegando bem perto dos 8,55 de 2024, a nota mais alta da série histórica desde quando eu comecei a fazer essa brincadeira.

Naquele ano de 2024, havia excelentes filmes como “Anatomia de uma queda”, “Oppenheimer”, “Zona de Interesse”, “Vidas Passadas”, “Assassinos da Lua das Flores” e “Barbie”. E a safra 2026 não fica atrás desse grupo, com filmes incríveis como “Pecadores”, “O Agente Secreto”, “Valor Sentimental”, “Uma batalha após a outra” e “Hamnet: a vida antes de Hamlet”. Cada um a sua maneira, estes cinco filmes têm um nível de excelência muito alto. E ainda temos nomes como “Bugonia” e “Sonhos de Trem”, que ficam um pouco atrás, mas não muito.

Dos dez indicados a melhor filme, também gosto de “F1”, embora ache que ele está sobrando um pouco nessa lista, e de “Frankenstein”. O que menos gostei é “Marty Supreme”, embora reconheça o ótimo trabalho de Timothée Chalamet como o protagonista.

Mas estou me antecipando. Vamos a alguns comentários categoria por categoria e os meus “votos” antes da cerimônia que acontece no próximo domingo, em Los Angeles.

FILME — Como já adiantei acima, tenho cinco favoritos nesta categoria. O que tornaria o meu voto uma verdadeira escolha muito difícil. No calor do final de 2025, eu acho que teria votado em “Valor Sentimental”, tanto que ele foi o meu filme favorito do ano passado por uma diferença de um fio de cabelo em comparação com “Pecadores” e “O Agente Secreto”. Quando vi “Hamnet” o coloquei imediatamente na pré-lista de melhores de 2026. E ainda tem “Uma batalha após a outra”, um filme importante para o momento atual dos Estados Unidos. Porém, hoje, se eu tivesse que votar acho que penderia mais entre “Pecadores” e “O Agente Secreto”. Acho que são dois filmes que tem um grau de originalidade maior do que os outros, que falam de temas políticos e sociais importantes e penso que seria uma escolha que refletiria um recado importante do Oscar para estes Estados Unidos de Donald Trump. Um recado mais forte até do que seria o de “Uma batalha após a outra”. No entanto, ficaria feliz com a vitória de qualquer um destes cinco filmes. Sobre os outros cinco, acho que estão um pouco atrás em qualidade e relevância.

ATOR — Assim como na categoria anterior, aqui também fico entre o Michael B. Jordan de “Pecadores” e Wagner Moura de “O Agente Secreto”, Dois trabalhos incríveis, desafiadores a sua maneira e cheio de camadas. No entanto, meu favorito acaba por ser o ator brasileiro. Ele aqui tem um nível de excelência acima da média. Minha medalha de bronze iria para o Leonardo di Caprio (“Uma batalha após a outra”) em uma categoria que está muito forte.

ATRIZ — Aqui eu tenho uma favoritaça. Jessie Buckley é a dona de “Hamnet”. Um trabalho fenomenal de uma atriz fenomenal que venho acompanhando há algum tempo. Para mim, o Oscar devia ir para ela. Mas se não for, ficaria bem feliz em ver Renate Reinsve premiada por seu trabalho em “Valor Sentimental”.

DIRETOR — Eu lamento que Kléber Mendonça Filho não esteja entre os indicados. Ele poderia facilmente ocupar o lugar de Josh Safdie, de “Marty Supreme”. Sua ausência não torna a minha escolha mais fácil. Até porque gosto do cinema mais contemplativo de Chloé Zhao (“Hamnet”), sou fã de longa data de Paul Thmas Anderson (“Uma bataha após a outra”) e adoro Joachim Trier (“Valor Sentimental”). Mas se tivesse que votar em um seria Ryan Coogler. O que ele alcançou em “Pecadores” dentro da tela e fora dela com seus acordos para fazer o filme e pelos direitos do filme mereciam ser premiados.

ATRIZ COADJUVANTE — Muito provavelmente ela não ganhará, mas a minha favorita aqui é Inga Ibsdotter Lilleaas. Ela é a atriz menos conhecida de “Valor Sentimental”, mas não fica nada atrás dos nomes mais badalados do filme. Sua participação não é grande em tempo, mas é enorme no aspecto emocional.

ATOR COADJUVANTE — O meu favorito aqui também vem de “Valor Sentimental”. Stellan Skarsgaard é um ator gigante que teve aqui uma das melhores atuações de sua carreira. Seria um pecado ele não ficar com esse Oscar, ainda que os trabalhos de Benicio del Toro e Sean Penn (“Uma batalha após a outra”) e Delroy Lindo (“Pecadores”) também sejam muito bons.

ROTEIRO ADAPTADO — Do original aqui, eu conheço “Hamlet” e “Frankenstein”, mas eu gosto tanto do roteiro de “Uma batalha após a outra” que votaria cegamente nele, mesmo sem termo de comparação com a obra de Thomas Pynchon, que, pelo que li, foi bem livremente adaptada por Paul Thomas Anderson.

ROTEIRO ORIGINAL — Existe roteiro mais original que o de “Pecadores”? É o meu favorito aqui, mas ficaria bem feliz se “Foi apenas um acidente” vencesse.

FILME INTERNACIONAL — A lista deste ano está excelente. Não tenho grandes objeções por qualquer um deles, mas como acho improvável que “O Agente Secreto” vença o prêmio principal, gostaria que vencesse pelo menos nesta categoria.

ANIMAÇÃO — Aparentemente, o favorito para vencer nesta categoria é “Guerreiras do K-Pop”, que foi um fenômeno em 2025, mas o meu favorito é “A pequena Amélie”. Também acharia bem legal se “Zootopia 2” vencesse.

DOCUMENTÁRIO — Os cinco documentários são importantes em diferentes níveis. Meu favorito é “Mr. Nobody Against Putin”, que conta a história de um professor de uma escola de uma cidade remota da Rússia que resolveu desafiar o autoritarismo do governo Putin e hoje vive escondido em algum país da Europa. Em segundo lugar, eu fico com assustador “The Alabama Solution”, que mostra a face da escravidão moderna em pleno Estados Unidos e a minha medalha simbólica de bronze iria para “Rompendo Rochas”, que mostra a luta de uma mulher iraniana por melhoria das condições de vida das pessoas, especialmente das mulheres, do seu vilarejo.

FOTOGRAFIA — Meu trabalho favorito aqui também é o que mais vem sendo falado, a fotografia de Adolpho Veloso por “Sonhos de Trem”.

MONTAGEM — Embora não goste muito do filme, incrivelmente gosto do trabalho de montagem de “Marty Supreme”. Acho que no cenário caótico do protagonista e sua história ela consegue dar um fio condutor bem interessante.

TRILHA SONORA — Adoro a trilha sonora de “Hamnet”, mas ela é mais discreta, E acho impossível não ficar ao lado da trilha maravilhosa de “Pecadores”.

FIGURINO — Ainda tento entender a indicação de “Avatar” aqui, afinal é tudo CGI. Gosto do figurino dos demais, mas acho que fico com “Pecadores” aqui também.

SELEÇÃO DE ELENCO — Esta é a nova categoria do Oscar, que premia a pessoa responsável por montar o elenco do filme. Meus favoritos aqui são “Pecadores” e “O Agente Secreto”, mas acho que o filme brasileiro fica na frente.

DIREÇÃO DE ARTE — Temos aqui cinco bons candidatos, mas se tiver que dar um voto apenas é para “Pecadores”.

CANÇÃO ORIGINAL — Acho que “Golden” (“Guerreiras do K-Pop”) ganhará por ser a canção mais pop, mas a minha favorita aqui é “I Lied to you”, de “Pecadores”.

EFEITOS VISUAIS — Não me surpreenderia se “Avatar” ganhasse aqui e acho que é o meu favorito por exclusão.

MAQUIAGEM E CABELO — O meu trabalho favorito aqui é o do filme japonês “Kokuho”.

SOM — Um blockbuster como “F1” sempre chama mais atenção nestas categorias. E o trabalho de som realmente é bom ali, mas meu favorito é também o de “Pecadores”.

Se todos os meus sonhos se realizassem, meu Oscar terminaria assim:

8 estatuetas — “Pecadores”

3 estatuetas — “Agente Secreto”

2 estatuetas — “Valor Sentimental”

1 estatueta — “Sonhos de Trem”, “Hamnet”, “Uma batalha após a outra”, “Marty Supreme”, “A pequena Amélie”, “Avatar: Fogo e Cinzas”, “Mr. Nobdy Against Putin” e “Kokuho”

Agora vamos ao meu ranking dos filmes do Oscar. Por uma questão de coerência, vou manter os filmes vistos em 2025 na ordem que eu mantive ao fim do ano passado, embora meus ”votos” para o Oscar reflitam menos esta realidade. De qualquer maneira, é muito difícil para mim colocar uma ordem nos cinco primeiros Acho todos ótimos.

1 -”Valor Sentimental”

2 — ”Pecadores”

3 — “O Agente Secreto”

4 — “Uma Batalha após a outra”

5- “Hamnet: A vida antes de Hamlet”

6 -”Bugonia”

7- “Foi apenas um acidente”

8 -”Sirât”

9 -”Sonhos de Trem”

10 — “Mr Nobody Against Putin”

11 — “Alabama: Presos do Sistema”

12 — “Kokuho — o preço da perfeição”

13- “Rompendo Rochas”

14 — “A voz de Hind Rajab”

15 — “ F1: O Filme”

16 — “A hora do mal”

17 — “A vizinha perfeita”

18 — “A pequena Amélie”

19 — “Zootopia 2”

20 — “Se eu tivesse pernas, eu te chutaria”

21 — “O ônibus perdido”

22 — “Frankenstein”

23 — “Embaixo da luz de Neon”

24 — “Guerreiras do K-Pop”

25 — “Blue Moon”

26 — “Marty Supreme”

27 — “Song Sung Blue — um sonho a dois”

28 — “Jurrasic World: “Recomeço”

29 — “Viva Verdi!”

30 — “Coração de Lutador: The Smashing Machine”

31 — “Diane Warren: Relentless”

32– “Avatar: Fogo e Cinzas”

33 — “Arco”

34- “Elio”

35 — “A meia-irmã feia”

domingo, 1 de março de 2026

Book Review: “A Cor do Hibisco”, Chimamanda Ngozi Adichie

“- Ifeoma, chamaste um padre? — perguntou o Pai.

- É só isso que tens para dizer, Eugene? Não tens mais nada para dizer, gbo? O nosso pai morreu! Tens a cabeça virada do avesso? Não me ajudas a enterrar o nosso pai?
 — Não posso participar num funeral pagão, mas podemos conversar com o padre da paróquia e organizar um funeral católico.

A Tia Ifeoma levantou-se e desatou aos gritos, numa voz instável.

- Mais depressa eu vendia a sepultura do meu marido morto do que organizava um funeral católico para o nosso pai, Eugene! Ouviste? Eu disse que mais depressa vendia a sepultura do Ifediora! O nosso pai era católico? Estou a perguntar-te, Eugene, ele era católico?” (Págs 231 e 232)

A cor do hibisco” é o livro de estreia da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie e o primeiro livro que leio desta autora. É difícil pensar sobre o quão rico e que leitura deliciosa eu tive em um livro que trata de temas tão pesados como violência doméstica e abuso físico e psicológico.

Não sabia nada do livro quando o comprei. Fui apenas atraído por uma breve sinopse, a fama da autora nos últimos dez anos, elogios de alguns amigos a ela e por sua belíssima capa toda roxa da editora Don Quixote. E que sábia escolha foi entrar na literatura de Adichie a partir desta história.

Passado em uma Nigéria pós-colonial, em meio a um período de instabilidade política e golpes militares e narrado em primeira pessoa pela perspectiva da adolescente Kambili, “A cor do hibisco” conta a história de duas famílias tão diametralmente opostas ligadas pelo grau de parentesco de Eugene, o pai de Kambili, e Ifeoma, a tia da protagonista.

Eugene é um fervoroso católico. Respeitado publicamente, mas que no íntimo cria a sua família com um controle abusivo, muito autoritarismo e expectativas irreais para a mulher os os filhos. Na sua família, Kambili e o irmão Jaja tem uma vida de privilégios que só a riqueza trás, mas de muita opressão e tensão. Sua mãe sofre com a violência por parte do pai, que controla os filhos a ponto de não os deixar passar sequer um tempo com o avô, abominado por Eugene por manter a sua tradição religiosa.

Quando os acontecimentos políticas levam Kambili e Jaja a passarem um tempo com a tia Ifeoma, irmã de Eugene, os jovens sentem os primeirs os ecos de liberdade. Apesar das dificuldades financeiras, Ifeoma é uma professora universitária que cria os filhos com amor e valores. E os prepara para o mundo. Assim ela trata também os sobrinhos, que descobrem toda uma realidade desconhecida ao mesmo tempo em que se veem com dificuldades básicas no dia a dia.

A casa de Ifeoma tem energia, uma família que se ajuda, tem cheiro, cor, textura e contrasta drasticamente com o clima sombrio que Eugene cria os filhos. Jaja se adapta facilmente. Kambili ainda parece tão fortemente presa aos desmandos do pai que quase sente uma culpa cristã por estar vivendo e experienciando algo próximo de uma sensação de felicidade. É nas relações de diferentes tensões com a prima Amaka e o padre Amadi que Kambili vai amadurecer e descobrir um mundo além do fanatismo religioso do pai.

“A cor do hibisco” é fascinante porque enquanto nos coloca dentro da Nigéria com suas cores, suas roupas, seus costumes, sua culinária e sua cultura, nos faz refletir sobre o colonialismo, que impõe a tradição europeia e católica em detrimento das religiões africanas e das tradições locais. O livro mostra como o pensamento colonial pode destruir a tão rica identidade cultural de um povo. Além de mostrar o impacto da violência e do autoritarismo num núcleo familiar como o da família de Kambili.

Protagonista da história. Kambili começa o livro como uma jovem tímida e reprimida, mas que passa por um processo de descoberta e autoconhecimento a partir do momento em que começa a se abrir para as diferentes realidades que a cercam e que estavam para além do muro repressor da sua casa, digamos, de perfil de colonizador.

O livro é uma jornada de amadurecimento simbolizada pelo hibisco roxo que, posteriormente, li que é um símbolo de liberdade, mudança e possibilidade de transformação. E o livro é todo sobre transformação. Do país, da vida de Kambili e daqueles que o cercam. 

“A cor do hibisco” é um livro lindamente escrito e foi uma belíssima porta de entrada na literatura de Adichie. Lamento apenas que a edição traduzida que li não tenha me dado mais contexto sobre alguns termos e expressões usados ao longo ds diálogos. Nem sempre conseguia compreender o que era colocado e, eventualmente, a importância deles. No entanto, não é nada que abale o entendimento esta história tão cheia de riqueza e camadas. Definitivamente pretendo explorar um pouco mais a obra da autora.

Os filmes e as séries de fevereiro

Os filmes e as séries mais interessantes de fevereiro:

Anêmona (Anemone — ING, EUA) — Daniel Day-Lewis de volta da aposentadoria para dar aquela força para o filhão em seu primeiro longa. Acho que o filme, que é um daqueles dramas familiares que dá o que falar no jantar de Natal, tem uma direção um pouco pesada e obsessão pelo zoom, mas ver os diálogos entre Day-Lewis e Sean Bean compensam. Escrevi mais sobre filme neste link.

Orwell: 2+2=5 (Orwell: 2+2=5 — EUA, FRA) — Documentário-ensaio maravilhoso de Raoul Peck. Aqui ele aproveita os diários de George Orwell e o livro “1984” para refletir sobre o avanço do extremismo no mundo, traçando paralelos entre o momento atual e a história humana. É de perder a fé e desejar correr para as montanhas.

Kokuho — O preço da perfeição (Kokuhô — JAP) — Drama de época focado no mundo do teatro Kabuki, o filme de Song-il Lee é daqueles épicos que não se vê muito hoje em dia. A jornada do protagonista me fez lembrar de “Cisne Negro” (2010) e acho que teria aproveitado mais o filme se tivesse um background sobre o kabuki.

A voz de Hind Rajab (Sawt Hind Rajab — TUN, FRA, EUA, ING, ITA, SAU, CYP ) — Um filme desesperador e um retrato terrível da brutalidade do exército israelense em Gaza.

Embaixo da luz de neon (Come See me in the good light — EUA) — Documentário bem comovente sobre a luta da poeta Andrea Gibson contra o câncer.

Diane Warren: Relentless (Diane Warren: Relentless — EUA) — Documentário bem legal sobre a vida e a vasta obra essa hitmaker e sua obsessão em ganhar um Oscar. Agora ela está apelando com esse filme, mas acho que a música dela infelizmente vai perder de novo.

Zootopia 2 (Zootopia 2 — EUA) — Especulação imobiliária, a ganância do capitalismo, a busca pela verdade. Tudo embalado numa história de crime, conspiração e amizade. Se eu soubesse que “Zootopia” era tão legal tinha visto antes. Essa eu devo ao Oscar.

O cavaleiro dos sete reinos (A knight of the seven kingdoms — EUA — HBO) — Que série legal este spin-off de “Game of Thrones”. Baseada no livro de mesmo nome de George R.R. Martin, a primeira temporada adaptou a primeira das três histórias do livro. É uma adaptação tão legal que parecia que eu estava lendo o livro. O tom é de aventura e bem diferente dos dramas de Westeros. Que venha a season 2.

O Gerente da Noite (The Night Manager — ING, EUA — Prime Video, BBC) — A primeira temporada desta série baseada no livro de John Le Carré já tinha sido uma das melhores de 2016. A segunda foi ainda melhor, com direito a um final de tirar o fôlego. Para quem gosta de tramas de espionagem, “O Gerente da noite” é excelente.

Os sete relógios de Agatha Christie (Agatha Christie´s Seven Dials — ING — Netflix) — Eu sou o mais novo fã de Agatha Christie. Vi esta série enquanto estava a ler um livro com uma outra história da autora e fiquei mergulhado nos mistérios dos dois lados. A série pode não ser uma obra-prima, mas é bem legal.

O Ensaio (The Rehearsal — EUA — HBO) — Esta é uma série que ressalta a vergonha alheia de alguns estadunidenses. A primeira temporada tem uma fanática religiosa que diz que Halloween é coisa do demônio e o Google não mostra isso porque está tomado de satanistas. A segunda temporada levanta uma tese sobre a falta de diálogo entre pilotos de avião ser a principal causadora de acidentes aéreos que, na verdade, não se sustenta. O Nathan Fielder parece mais querer validar o seu método um tanto quanto complicado do que encontrar respostas. A cereja do bolo foi o piloto dizendo que foi banido de todas as apps de relacionamento.

Fallout (Fallout — EUA — Prime Video) — Acho que a série mantém um nível de qualidade bem legal na segunda temporada. Gostei especialmente do episódio final. Mas é isso. Não morro de amores por “Fallout”.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

“Anêmona”: Daniel Day-Lewis retorna em drama familiar dirigido pelo filho

Sean Bean e Day-Lewis em "Anêmona"
Quando decidiu se afastar do mundo do cinema em 2017, Daniel Day-Lewis sempre deixou claro que o problema nunca foi a atuação, mas todo o resto que envolve o mundo do show business. Vencedor de três Oscars e aclamada como um dos gigantes da sua geração, Day-Lewis nunca foi muito afeito ao ciclo de promoções de um filme e a necessidade de estar presente o tempo todo em todo lugar que o show business exige e que só piorou com as redes sociais.

Parecia, portanto, que “Trama Fantasma” (2017), filme pelo qual ganhou uma indicação ao Oscar de ator e que levou um dos seis prêmios aos quais foi indicado no Oscar de 2018 (figurino) teria sido a sua última dança. No entanto, com o passar dos anos, Day-Lewis começou a trabalhar em um roteiro com o seu filho, Ronan Day-Lewis, e logo se chegou a conclusão de que era a hora de voltar.

O desejo de trabalhar com o filho e o desejo do filho de ver o pai protagonizar o seu filme eram legítimos, mas é claro que a presença e, mais do que isso, o fato de ser o filme do retorno de Day-Lewis chamam naturalmente mais atenção para “Anêmona” (“Anemone”, no original).

Calcado num drama familiar envolvendo os irmãos Ray (Day-Lewis) e Jem (Sean Bean), o filho de Ray, Brian (Samuel Bottomley), e sua ex-mulher e atual esposa de Jem, Nessa (Samantha Morton), “Anêmona” explora a complexidade dos relacionamentos, fala sobre culpa, quebra de confiança e evoca um sentimento de comiseração pelos seus personagens envolvidos.

Tudo começa com Brian tendo agredido fortemente alguém e sentindo-se amaldiçoado por ser filho de um pai que não conhece, mas que, pelas histórias que ouve, acredita ser um assassino. A agressão é a gota d´água para Nessa e Jem. Jem decide ir atrás do irmão, que vive isolado numa floresta, para tentar convencê-lo a voltar e conversar com o filho que ele nunca viu e livrar Brian dos estigmas que carrega. Mas os próprios irmãos têm questões a resolver em meio a um passado militar um tanto quanto obscuro.

A interação entre Day-Lewis e Sean Bean são a grande riqueza de “Anêmona”. Ver Day-Lewis trabalhar é um grande prazer, pois é um ator grandioso e que consegue sumir em cada um dos papéis que representou na carreira. Seu carrancudo Ray carrega uma culpa enorme e parece ter se imposto uma pena de prisão naquela vida simples, despojada de qualquer grande bem material na floresta. Ao longo do filme sabemos quais foram as motivações dele e o que o levou a se isolar da sociedade, abandonando a família e a mulher grávida.

Por outro lado, o filme perde força na direção um tanto quanto pesada de Ronan. “Anêmona” é seu primeiro longa e naturalmente tem alguns, digamos, vícios, que nos tiram um pouco da história. Um dos que mais me incomodou foi um constante uso do zoom com a câmera. Ronan abusou do recurso em contextos que nem sempre ajudavam a contar a história. Sua câmera esteve constantemente se aproximando dos atores ou de cenários que me fizeram refletir sobre os seus motivos com alguma frequência.

Mesmo seu movimento de câmera nem sempre é sutil ganhando uma presença que grita um pouco dentro do filme ao mesmo tempo em que não configura necessariamente uma assinatura.

Estas parecem questões que são muito de primeiro filme e de um diretor que está ainda construindo a sua linguagem, a sua voz como diretor enquanto experimenta a sua técnica. Antes de “Anêmona”, Ronan só havia dirigido dois curtas.

Questões técnicas à parte, “Anêmona” é um interessante filme de estreia de Ronan e um prazeroso retorno de Day-Lewis. Está longe de ser o seu melhor filme, mas ver o ator em cena é como estar diante de uma importante e inigualável pintura da história humana.

Nota 6/10.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

“O morro dos ventos uivantes”: fetiche, desejo e humilhação

Muito tesão e pouca substância
Após três longas, pode-se dizer Emerald Fennell está construindo um padrão em sua carreira como diretora. Ela gosta de fazer filmes em que seus personagens são humilhados até a mais completa destruição. Os três protagonistas dos seus três longas até aqui escolhem um alvo e o torcem e espremem até não lhes sobrar nada. É assim em “Bela Vingança” (2020). É assim em “Saltburn” (2023). É assim na nova versão de “O morro dos ventos uivantes”.

Muito livremente adaptado a partir da obra de Emily Brönte, “O morro dos ventos uivantes” (Wuthering Heights, no original) aposta em um humilhado Heathcliff (Jacob Elordi) como protagonista. A sua jornada é a de um homem obsessivamente apaixonado e que fará de tudo para ficar com Cathy (Margot Robbie). Cathy, que por sua vez, não nega o desejo que tem pelo jovem com quem cresceu junto, mas que, condicionada ou não por fofocas e/ou condições econômicas desfavoráveis, opta por buscar um casamento que lhe garantirá algum conforto futuro.

Como infelizmente eu não li o livro, não tenho termo de comparação, mas a visão de Fennell para a relação entre Cathy e Heathcliff parece ser é a de toxicodependentes cercada de fetiche e tesão. Primeiro, ainda crianças, eles traçam o padrão. Heathcliff é nomeado por Cathy, que a trata como algo entre um pet e um brinquedo. Ali a relação de dominação se estabelece e vai durar até a fase adulta.

É quando são adultos que o desejo toma conta dos dois, mas Cathy inicialmente o renega em nome de um casamento que a salvará de uma vida miserável e de um pai alcoólatra miserável e viciado em jogo.

Humilhado, Heathcliff vai embora. Apenas para voltar cinco anos depois rico, de barba feita e brinco na orelha. A partir daí, a relação de dominação se alterna. Ambos procuram o desejo, exploram as mais diferentes formas de trepar, mas uma hora o limite precisa ser imposto.

Heathcliff não aceita. Casa com a irmã do marido de Cathy apenas para atazanar a sua vida. O desfecho que vemos parece inevitável até para quem não leu o livro.

“O morro dos ventos uivantes” de Fennell não quer ser fiel ao livro. A diretora usa o livro de Brönte apenas para exercitar a sua tese baseada em como o desejo tem um poder destruidor. Fennell filma a humilhação do amor doentio e suas consequências dramáticas. Tudo com alguns cenários lindamente enevoados, outros takes que parecem verdadeiros quadros, mas uma escolha de figurino pesada e gritante que parece mais atrapalhar a história do que ajudar a comunicá-la.

Gosto da tese que Fennell levanta. Acho que o filme tem um início promissor ao erotizar a morte a partir da cena do enforcamento. Ali ela já dava as bases do que veríamos na relação tóxica entre Cathy e Heathcliff. Mas o que vemos nas duas horas seguintes é um filme que beira o insuportável.

Por vezes, penso que Fennell está repetindo um pouco a história de “Saltburn”, que eu adoro. O problema é que “Saltburn” tinha a sua dose de originalidade. Curiosamente, naquele filme, Jacob Elordi era a vítima do personagem de Barry Keoghan. Aqui, ele é vítima e algoz de um amor doentio e sufocante. Acho que isso me vem a mente pela ideia da destruição de um personagem até as últimas consequências. Algo que ela fez melhor em “Saltburn” e, definitivamente, fez de forma mais divertida em “Bela Vingança”.

O problema de “O morro dos ventos uivantes” não está apenas nas ideias de Fennell nem nas questões polêmicas envolvendo sua adaptação (o whitewhasing de Heathcliff, por exemplo). Pelo trailer já se perceberia que a ideia não seria ser fiel ao livro, mas usar a obra para desenvolver uma tese. Uma tese que na minha visão é baseada em três eixos: fetiche, desejo e a ideia de posse.

O problema é que a execução teve pouco cuidado em criar um bom enredo que interligasse bem a história e justificasse melhor as ideias da diretora, bem como as eventuais mudanças em comparação com o livro. Por vezes, “O morro dos ventos uivantes” parece esquecer alguns personagens (e eles nem são muitos) e não dar continuidade ao (pequeno) drama deles. O maior exemplo é a irmã de Edgar (Shazad Larif), Isabelle (Alisson Oliver). Ela tem a profundidade de uma piscina infantil entre as suas transições de jovem devotada e parceira de Cathy a rival por um amor que ela sabe que nunca terá. Sem falar na transição abrupta e artificial da relação entre ambas.

O mesmo problema identifica-se em Nelly (Hong Chau). Nunca compreendemos 100% o que a motiva a tomar suas decisões. Podemos especular e chegar a uma conclusão nossa, mas não sabemos se é inveja, prazer pelo sofrimento de Cathy, autopreservação, desejo de ascender socialmente e sair do buraco de Heights… Nelly faz tudo o que faz pensando em si ou em Cathy? E o seu desfecho só é inglório e sem sentido. Talvez se eu tivesse lido o livro compreenderia melhor esta personagem. Pelo filme de Fennell, ela só é incompreensível, embora eu tenha as minhas suspeitas.

Robbie e Elordi também estão longe de seus melhores trabalhos. Gosto mais do Heathcliff de Elordi do que da Cathy de Robbie, mas nenhum dos dois me dão qualquer sinal dos seus melhores trabalhos. Por outro lado, acho que o texto que tiveram para trabalhar era fraco. Pareciam migalhas do original.

No fim, infelizmente resta muito pouco a se aproveitar desta nova versão de “O morro dos ventos uivantes”. As ideias até estavam lá, mas sua execução deixou muito a desejar.

Nota 2/10.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O magnífico cinema contemplativo de Chloé Zhao em "Hamnet"

Mescal como William Shakespeare
Desde “Nomadland” (2020) que o trabalho de Chloé Zhao me chama a atenção. O filme vencedor de três estatuetas do Oscar já mostrava uma diretora que parecia unir o melhor da tradição do cinema chinês com o estilo mais contemplativo de diretores como Terrence Malick. Mesmo em “Eternos” (2021), um filme de estúdio (a Marvel) e que foi excessivamente criticado, pois estava longe de ser ruim, Zhao mostrava dentro do que podia a sua veia autoral.

Não sei se por causa disso, mas após as críticas ao filme de super-heróis Zhao submergiu durante alguns anos. Apenas, contudo, para voltar ainda melhor com “Hamnet: a vida antes de Hamlet”. Merecidamente indicado a oito Oscars (e merecia até mais), “Hamnet” confirma para mim que Zhao é uma herdeira do cinema contemplativo de nomes como Malick a Abbas Kiarostami, ao mesmo tempo em que impõe um toque pessoal em sua narrativa junto de uma herança de alguns dos melhores diretores chineses, como Jia Zhangke.

Baseado no livro “Hamnet”, de Maggie O´Farrell, o filme, tal como o livro, reflete sobre o possível impacto do luto em William Shakespeare pela morte do filho Hamnet, aos 11 anos, em 1596, possivelmente devido à peste.

Embora ambos tenham uma base histórica real — Shakespeare realmente teve um filho chamado Hamnet que morreu aos 11 anos de idade, “Hamlet”, a peça foi escrita entre 1599 e 1601 e encenada pela primeira vez no Globe Theater por volta desta data — todo o resto é fruto de imaginação e especulação. É neste recheio, é costurando as pontas soltas desta história trágica que Zhao brilha ao filmar o amor e o luto do casal William Shakespeare (Paul Mescal) e Agnes (Jessie Buckley).

Assim como “Nomadland”, seu filme é incrivelmente bonito. Se na história da mulher que perde tudo e embarca numa viagem pelos Estados Unidos vivendo como nômade, Zhao abusava da amplitude do deserto e dos momentos de golden hour, aqui a natureza é mais do que cenário, mas um personagem que ajuda a compor o estado de espirito dos personagens.

A floresta é liberdade, proteção e acolhimento. A floresta fechada reflete a intimidade do casal e o abraço que Agnes constantemente recebe. A natureza a acolhe e dela ela tira tudo o que precisa para viver. Os espaços amplos, a conexão com a terra, mostram uma família em harmonia. Uma harmonia que nem a distância atrapalha quando Shakespeare vai trabalhar em Londres, deixando a família em Stratford.

A relação íntima com a paisagem não se dá apenas com a natureza, mas também com os espaços internos da casa. O vazio que comunica a solidão, a escuridão, a penumbra que dialoga com o luto. Zhao filma constantemente espaços amplos, mas com uma fotografia suave e trilha sonora minimalista para que possamos contemplar a história e absorver não apenas através das palavras, mas das pausas e dos silêncios o estado de espírito dos personagens.

O ritmo contemplativo de Zhao é o que a faz mais se aproximar de Mallick. A diretora, entretanto, se afasta do diretor estadunidense ao não adotar um tom mais metafísico, tão comum em Mallick, mas apostar na observação do cotidiano dos seus personagens. O dia a dia de Shakespeare e Agnes é o de pessoas comuns que estão deslocados ou em transformação social. O drama deles nasce da vida ordinária como a de qualquer mortal. A infelicidade de Shakespeare que quer mais do que viver numa casa no campo e deseja viver das suas peças, a ascensão social da família, a mudança de patamar social primeiro de Agnes ao se casar com o dramaturgo e depois de Shakespeare, a dor pela trágica morte do filho, o processo de luto de cada um. Agnes entre o isolamento e a culpa, Shakespeare, sofrendo por não estar presente, usando a arte, a maior ferramenta que tinha em mãos para tentar entender o que sente, tentar processar a sua dor. O artista sempre usa a arte como ferramenta de cura. Também indicado ao Oscar de melhor filme, “Valor Sentimental” trata do mesmo tema com seu personagem principal.

O que temos aqui é uma tese que nasceu no livro de O´Farrell. E Zhao amarra essa tese com sutileza e poesia na tela. O jovem Hamnet sonha em ser ator na companhia do pai e ganha vida como o maior personagem da maior peça da sua vida. O menino que metaforicamente dá a vida para salvar a irmã da doença, vê o pai fazer o mesmo na peça Hamlet, quando Shakespeare assume o papel do espírito do pai de Hamlet. E a licença poética que o filme faz. Na última vez que Shakespeare vê o filho com vida, se despede dele três vezes. Na peça, Shakespeare usa seu personagem para se despedir três vezes de Hamlet, três vezes dizendo “Adieu” antes de beijar o rosto do filho. Tudo o que ele não pôde fazer.

O momento final da encenação de “Hamlet” em Londres é o ponto alto de um filme magnífico de Zhao. Não apenas pelo trabalho da diretora, mas pelas atuações magistrais de Buckley e Mescal nos papéis principais. A atriz mereceu demais a sua indicação ao Oscar e lamento que Mescal tenha ficado de fora da lista, pois ele também merecia uma indicação. 

É neste momento final que Zhao mostra mais uma vez a sua grandeza, fugindo do melodrama fácil e fazendo a emoção surgir com sobriedade. Sem qualquer sinal de manipulação, Zhao nos faz atingir a catarse apenas com alguns gestos e olhares de Buckley e Mescal. Ali bem no fim, com lágrimas nos olhos, estamos prontos para aceitar o destino e começar a seguir em frente.

Nota 10/10