domingo, 19 de julho de 2026

“A Odisseia”: um exuberante filme de Nolan sobre a e culpa e a megalomania

Na história do cinema, alguns diretores já tentaram adaptar “A Odisseia”. A mais recente, inclusive, nem tem tanto tempo assim. Falo de “O Retorno” (2024), de Uberto Pasolini, com Ralph Fiennes e Juliette Binoche, que adapta os últimos cantos do texto de Homero, mostrando o retorno de Odisseu (ou Ulisses na versão romana) a Ítaca, o reencontro com Penélope e confronto com os pretendentes. Entretanto, mesmo não tendo visto todas as adaptações do poema de Homero, arrisco-me a dizer que ninguém filmou a Odisseia com tanta exuberância quanto Christopher Nolan.

Com um elenco estelar capitaneado por Matt Damon (Odisseu), Nolan usa o texto de Homero como um guia para dar a sua visão sobre a Guerra de Tróia, a jornada de retorno de Odisseu a Ítaca e a ética entre os homens, transformando seu filme numa jornada de culpa infestada pela megalomania dos deuses e homens.

Na sua visão, Odisseu é um herói atormentado pela estratégia que usou para vencer a Guerra de Tróia. Uma estratégia que fere a chamada Lei de Zeus, que diz que deve-se receber um forasteiro com um prato de comida e bom tratamento, afinal, ele pode ser um deus disfarçado.

Ao entrar na cidade de Tróia escondido dentro do cavalo de madeira, supostamente uma oferenda para a deusa Atena (Zendaya), para posteriormente matar seus ocupantes, Odisseu sente que fez o que devia fazer para vencer a guerra, mas a custo de um rompimento das leis que mantém uma certa moralidade naquela sociedade da Grécia antiga. As consequências da sua decisão deram-lhe uma vitória sangrenta e devastadora, que não poupou nem mulheres e crianças, como Nolan faz questão de mostrar na sequência final da batalha em Tróia.

Tomado pela culpa, Odisseu sente que desafiou os deuses e mudou por completo o curso da história. Para Nolan, aquela vitória foi o início do fim da Idade do Bronze, como ele faz questão de mostrar em uma das falas de Odisseu.

Após a vitória em Tróia, Odisseu leva dez anos para voltar para casa, passando por enormes desafios ao longo de sua jornada. E é nesta jornada de dor e punição que Nolan mostra o melhor e o pior do seu cinema.

O melhor está na forma incrível como o diretor filma a sua história. Em cada cena, nota-se a paixão de Nolan pelo cinema. Os cenários na praia mostrando o cavalo de Tróia, o isolamento de Ulisses na ilha de Calypso (Charlize Theron), as imagens da corrida pela sobrevivência na ilha dos gigantes, as cenas quase sufocantes no Hades e o seu desfecho contrastando o preto da terra e das sombras das almas dos guerreiros com o céu azul escuro e com Odisseu contemplando as almas dos que se perderam numa guerra que Nolan filma como sem sentido… Tudo é muito bonito, rico, digno daquele meme do Martin Scorsese que diz “absolute cinema”.

Entremeado por estes cenários incríveis, acompanhamos uma jornada de culpa que vai crescendo conforme Odisseu vai recuperando a memória de sua jornada ao fim dos sete anos que passou ao lado de Calypso. Tróia aqui é vista como uma guerra sem sentido causada por um estopim menor e que gerou um massacre dos dois lados do conflito. Milhares de vidas perdidas por causa de uma disputa por Helena (Lupita Nyong´o), esposa de Menelau (Jon Bernthal) que também é devorada por uma enorme culpa pelas almas perdidas em seu nome. Tanta culpa que a sua tão falada beleza foi maculada por cicatrizes no rosto. Cicatrizes estas que nunca ficam claras de como surgiram, uma vez que isso não está no texto original de Homero.

Como “A Odisseia” é um poema enorme, Nolan teve que fazer algumas escolhas em sua adaptação. Uma das que me pareceram mais acertadas estava em centrar a narrativa na ilha de Calypso, com Odisseu tentando lembrar o que havia acontecido nos dez anos antes. São nestes momentos que Damon mostra as nuances e detalhes em sua interpretação que vão transformando-o de um herói confuso sobre o que havia acontecido com ele e com a sua tripulação e incomodado pelos vazios da sua mente até o momento em que a verdade se descortina na sua mente e ele precisa seguir em frente mesmo com a alma em conflito, pois ele tem uma missão determinada pelos deuses que precisa ser cumprida. Não sem antes se entregar aos deuses como jamais fizera. Afinal, ele teve uma vida desafiando estes mesmos deuses.

Outro acerto interessante de Nolan foi reduzir ao máximo a presença do sobrenatural no filme. Os deuses estão ali, são falados, Atena é a guardiã de Odisseu, mas não vemos Zeus ou Poseidon fisicamente presentes. São o mar e os ventos que agem com fúria ou serenidade e equilíbrio, é o trovão que explode no céu. Atena à parte, os deuses são mais sugeridos do que presentes. Embora, eles sejam muito responsáveis pelo que aconteceu com os homens antes, durante e depois da guerra.

Mas é claro que “A Odisseia” não é perfeita. Com o perdão da citação a um clichê, o calcanhar de Aquiles do filme está na forma como ele falha em apresentar uma certa ambiguidade e as falhas morais de Odisseu. O herói leva dez anos para voltar para Ítaca porque, acima de tudo, foi arrogante. Para entender isso, é muito importante a passagem pela ilha do Ciclope Polifemo, filho de Poseidon. Para escapar junto com seus soldados da caverna do gigante, Odisseu oferece-lhe vinho e, quando perguntado por Polifemo quem o estava a oferecer vinho, Odisseu responde “Ninguém”. À noite, Odisseu e seus soldados o cegam com uma vara espetada no seu olho e, no dia seguinte, conseguem fugir. Polifemo pede ajuda aos demais ciclopes gritando que “Ninguém o havia cegado”, sendo, assim, ignorado. No fim, por vaidade, Odisseu grita que foi ele que o cegou, dizendo o seu nome. Polifemo então pede vingança a Poseidon, que passará a atormentar o resto da jornada de Odisseu e seus homens.

Estes detalhes não são mostrados no filme e Nolan e a passagem pela ilha de Polifemo perde um pouco o seu sentido moral de mostrar uma fraqueza de Odisseu. E mesmo o momento em que o herói se impõe a ouvir o canto das sereias apenas para ser o primeiro a sobreviver a ele, não soa como alguém que está ali a desafiar a ordem dos deuses. Parece no máximo um curioso que se impõe um desafio. Nolan podia ter enriquecido mais o seu Odisseu mostrando os momentos-chave em que a sua culpa não estava apenas na estratégia da guerra, mas a culpa pela morte de cada um dos seus soldados naqueles navios que o acompanham na jornada de volta estava também nele e no seu ceticismo ao confrontar os deuses.

Ao não refletir sobre a causa e consequência dos seus atos e decisões, a jornada de Odisseu parece mais como uma sucessão de acontecimentos fantásticos que não diferem muito de um videogame muito bem feito. Continua sendo uma jornada incrível, mas que lições são tiradas de cada uma das passagens vividas por Odisseu e sua tripulação? Que lições são tiradas das passagens das ilhas dos gigantes, do saque que é feito antes da chegada na ilha de Polifemo, da passagem pela ilha de Circe (Samantha Morton, que está incrível no papel da bruxa). Aprendizado e consequência só vemos mesmo na incrível sequência do Hades, quando Odisseu tem que se confrontar com as mentiras que contou para Sinon (Elliot Page) e com as consequências das palavras de Tirésias (James Remar).

Mas na hora final do filme (que tem cerca de 3h), “A Odisseia” cresce muito. Até ali já vimos as dificuldades do jovem Telêmaco (Tom Holland) e sua mãe, Penélope (Anne Hathaway) em manter uma Ítaca unida por 20 anos sem um rei e diante da pressão de mais de 100 pretendentes ao trono. Entre eles, o ambicioso Antínoo (Robert Pattinson mostrando todo o seu talento para construir personagens mesquinhos e ardilosos). Ítaca está fragilizada diante de uma rainha sem rei, um jovem menor de idade e uma corte que só tem ao seu lado o cego Eumeu (John Leguizamo, outro que está muito bem no papel). As dificuldades ali são enormes, mas depois de cumprir parte de sua jornada de culpa, Odisseu consegue chegar a Ítaca disfarçado de mendigo para cumprir a sua missão final.

Aqui é outro momento em que Damon brilha no papel principal. O Odisseu aqui já um homem que carrega uma culpa, indeciso se deve manter o seu status, visto que sabe que não foi um homem honrado, mas desejoso de vingança contra os homens que tentaram matar o seu filho e tentam ocupar o trono e o poder através do casamento com a sua mulher.

Tal como na história original de Homero, Odisseu cumpre o seu destino a partir do famoso desafio do arco e flecha, quando sua identidade é revelada e sua vingança é saciada. No fim, Nolan opta por mandar Odisseu para o exílio, não sem antes ver Ítaca uma última vez. Afinal, depois da culpa é preciso da redenção e Odisseu precisa rumar para o oeste para fazer sacrifícios que honrem os mortos da guerra. Telémaco assume o trono de Ítaca e o ciclo da jornada do herói de Odisseu se fecha.

Problemas à parte, “A Odisseia” é magistral e pode ser inserido entre os pontos altos da carreira de Nolan como cineasta. É curioso, que um filme que trata da megalomania também é de certa forma fruto de uma megalomania do diretor. Seu cinema é grandioso, mas sempre vem junto da sua ambição pelos equipamentos que usa para filmar e o tipo de cinema Imax extremamente específico para se ver o filme da forma como ele deseja. Afinal, só existem 43 cinemas no mundo equipados para oferecer a suposta experiência perfeita que Nolan considera para o seu filme. Fato é que na verdade nada disso é necessário. “A Odisseia” é bom pelo que o filme é, pela sua história, e não por qualquer experiência que uma sala supostamente diferenciada pode lhe proporcionar.

Nota 8,5/10.

sábado, 27 de junho de 2026

“Supergirl”: um coming of age focado no carisma de Milly Alcock

Desde que passou a ser capitaneado pelo diretor James Gunn, muita expectativa se criou sobre a nova DC Studios. No entanto, após a chegada dos dois primeiros filmes ao cinema, “Superman” (2025) e “Supergirl”, agora em cartaz, a sensação é de uma leve frustração.

Não que os dois filmes sejam ruins. Longe disso. Eles são aventuras leves, divertidas, com um propósito bem definido para seus protagonistas e desafios para os mesmos. O que parece estar faltando é um ponto que sempre foi o grande foco de Gunn para definir se um projeto sairá ou não do papel no estúdio: o tal do bom roteiro.

No caso de “Supergirl”, o roteiro batido e pouco envolvente se associa a um vilão anódino e genérico que torna a aventura em alguns momentos um tanto quanto opaca e esquecível. Esse é o maior calcanhar de aquiles de um filme que tinha tudo para ser bem mais interessante ao falar sobre o trauma e o luto da sua protagonista.

E quando eu digo que é em alguns momentos que o filme é opaco e esquecível, é porque “Supergirl” tem um outro lado muito bom e interessante que compensam consideravelmente os seus problemas. É o fato de um filme ser um coming of age intergaláctico muito focado no excelente trabalho e no carisma de Milly Alcock como a protagonista.

Alcock já havia roubado a cena ao fazer a jovem Rhaenyra em “House of the dragon”, da HBO. Agora como protagonista do segundo grande filme da nova fase da DC, ela é o grande brilho de um filme que é infelizmente cheio de altos e baixos.

“Supergirl” se passa num momento em que Kara está a completar 23 anos e sente-se perdida e solitária no universo. Entregue à bebedeira e fugindo o máximo possível dos problemas, Kara parece não ter lugar desde o desaparecimento de Krypton e da morte dos seus pais. Ao contrário do seu primo, Kara teve uma vida ainda em Krypton e em Argo, uma espécie de cidadela que o seu pai conseguiu salvar após a destruição completa do planeta. E essa experiência de ver a família e o seu povo morrer lentamente por causa de alguns eventos que o filme explica moldaram completamente e traçaram a diferença dela para Clark, o Superman.

Kara sofre de uma dor que Clark nunca teve, pois foi enviado ainda bebê para a Terra, onde foi criado e cresceu ao lado dos Kent. Por isso, os primos têm uma visão de vida e de mundo completamente diferentes um do outro. É o que Kara diz durante o filme: “Clark vê o lado bom das pessoas, eu vejo a verdade”. Uma verdade, no entanto, moldada pela sua dor e pelo seu trauma e não necessariamente A verdade. Mas é claro que Kara ainda não consegue enxergar isso, pois seu estado de depressão é visível.

Quando as circunstâncias da vida a colocam no caminho de Ruthye (Eve Ridley), uma jovem em busca de vingança pela morte da família, Kara se vê tendo que entrar no meio daquela história. Especialmente depois que o vilão Krem (Matthias Schoenaerts) injeta um veneno em Krypto. A partir daí, ela terá 72 horas para salvar o cachorro da morte.

Como se vê, a trama de “Supergirl” é bem simples. Kara precisa correr contra o tempo para salvar seu cachorro da morte enquanto acaba se metendo na história de Ruthye e de outro personagem famoso e querido dos fãs, o Lobo (Jason Momoa).

O lado simplório do roteiro escrito por Ana Nogueira faz o filme dirigido por Craig Gillespie ficar em muitos momentos desinteressante. O que nos mantém conectados à é o trabalho de Alcock. A atriz soube expressar bem a dor e a solidão de Kara, seus dramas e sua necessidade de sumir para tentar sentir as coisas que não sente. Ela soube transmitir o olhar para a Terra sem se sentir em casa e conectada. Kara é uma imigrante forçada a viver longe da sua terra natal, enquanto Clark é como o filho do imigrante que já cresceu na Terra. As visões de mundo são completamente diferentes.

Ao longo do filme, Alcock consegue mostrar de forma sútil como a sua Kara vai amadurecendo para tornar-se a heroína que seus pais desejavam que ela fosse. E estes momentos fazem o filme crescer, apesar dos seus problemas bem visíveis.

É uma pena que o vilão de “Supergirl” seja tão genérico e desinteressante. Krem é um mero mercador de escravos sem camadas. É uma tela chapada no filme. Ele não tem um background interessante e nem mostra nada além de ser mal e sádico. Talvez seja o ponto mais fraco do filme. Se Kara tivesse um vilão mais interessante, o filme ganharia mais cor. Mas Krem não consegue nem ser um antagonista de ideias para o amadurecimento de Kara.

Outro problema é a presença do Lobo de Jason Momoa. As suas cenas são incríveis e o Lobo é um dos personagens mais carismáticos da DC, mas a sua presença não conecta em nada com a história do filme. O Lobo é como um curta dentro do longa metragem da Supergirl. Ele tem a sua própria história, faz o que dele se espera e vai embora. Eu quero crer que isso foi apenas uma forma de apresentar um personagem para uma nova geração e que talvez o Lobo venha a ter um filme solo ou uma participação mais interessante ou conectada com um filme no futuro.

Entre altos e baixos, no entanto, “Supergirl” é um filme divertido e que tem um coração. Embora seja da dupla Nogueira-Gillespie, ele tem muito de James Gunn no uso de trilha sonora e de construção rica de mundo, especialmente personagens secundários ou meros figurantes na tela. Vê-se muito da influência da trilogia “Guardiões da Galáxia” (2014–2023) neste “Supergirl”.

Por outro lado, “Supergirl” carece de dois pontos para ser mesmo um grande filme. No aspecto psicológico, um aprofundamento maior nas questões que causam as dores de Kara. Os temas são todos jogados de forma relativamente leve em meio a aventura que estamos vendo.

E num aspecto mais da aventura em si, Kara precisava de um vilão melhor e mais bem construído e até mais poderoso para que o filme não se repetisse dentro de si mesmo tendo que encontrar formas de diminuir os seus poderes para que ela se equiparasse um pouco a quem está enfrentando. Ainda que a ideia do sol verde seja até boa.

O saldo que fica é que a DC Studios de Gunn ainda está devendo um grande filme. Um grande filme como o “Batman” (2022) de Matt Reeves. Mas é inegável que tanto “Superman” quanto “Supergirl” tenham pontos positivos que valem uma ida ao cinema.

Nota 7/10.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Spielberg oferece respostas fáceis e conciliação ao tema dos extraterrestres em “Dia D”

O tema da vida fora da Terra sempre fascinou Steven Spielberg, que, não por acaso, já dirigiu cinco filmes sobre o assunto: “Firelight” (1964), “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” (1977), “E.T. — O Extraterrestre” (1982), “Guerra dos Mundos” (2005) e o novo “Dia D” (“Disclosure Day”, no original). Não vi o “Firelight”, filmado por um Spielberg ainda com 17 anos, mas pelo menos em cada um destes quatro últimos, o diretor aborda um aspecto diferente a partir de uma premissa básica: O que faríamos se descobríssemos que não estamos sozinhos no universo?

O que Spielberg oferece como resposta em “Dia D” é uma visão até certo ponto romântica e conciliadora sobre o tema. E com respostas fáceis a uma questão que parece longe de ter uma resposta fácil. Ainda, que, por outro lado, o filme tenha algumas qualidades que o tornam muito interessante.

“Dia D” começa com a tentativa de Daniel Kellner (Josh O´Connor) de recuperar a namorada Jane (Eve Hewson), que fora sequestrada pelos capangas do dono de uma empresa chamado Noah Scanlon (Colin Firth). Não sabemos nada sobre a vida destes personagens. Apenas que Kellner roubou algo de Scanlon e agora precisa enfrentar o dilema de devolver o que roubou em troca da namorada feita de refém.

Em outra parte da cidade, Margaret (Emily Blunt) vive uma crise existencial porque deseja mais do que ser a moça do tempo no telejornal local. Mais do que insatisfeita ela está inquieta e pensando em mudanças, o que deixa Jackson (Wyatt Russell), o seu namorado, preocupado, pois ele não deseja mudar de cidade mais uma vez. A visita de um pequeno pássaro vermelho, porém, muda ainda mais a dinâmica do casal, uma vez que subitamente após olhar para o pássaro, Margaret começa a falar em russo com Jackson.

Somente nestes 15 minutos iniciais, vemos aquela que é uma das grandes qualidades de “Dia D”. Spielberg não está disposto a contar tudo imediatamente na velocidade de um tik tok como vemos em muitas produções do cinema atual. Nenhuma pergunta a qualquer “esquisitice” ou “estranheza” que o filme apresenta fica sem resposta, mas precisamos pensar e ter paciência para ver a construção da resposta na tela.

É assim com o comportamento de Margaret, que, além de falar todas as línguas, começa a saber tudo sobre a vida de quem faz contato visual. É assim com Kellner, que tem uma incrível capacidade de compreender matematicamente a linguagem que lhe aparece quando Margaret é vista aparentemente grunhindo na TV. É assim com o biólogo Hugo Wakefield (Colman Domingo), que sempre aparece num cenário sendo construído, o que nos faz pensar o que ele estaria fazendo num estúdio de TV. Só descobrimos isso na parte final do filme.

O mesmo acontece com os objetivos estranhos, os truques mentais realizados com o auxílio de tecnologia e tudo o mais que gera uma pergunta na nossa cabeça. O ritmo do filme de 2h25min é o da paciência. Com paciência todas as respostas vão surgir. Podem não ser as que queremos, mas perguntas não ficam sem respostas.

Se é louvável que Spielberg faça um filme com ritmo de um cinema de poucas décadas atrás num mundo audiovisual com velocidade de videoclipe, penso que em alguns aspectos da forma e das ideias que o filme apresenta é um trabalho abaixo do que o diretor já nos ofereceu.

Num mundo cheio de conflitos e segredos, governos que não se importam com a verdade, corporações com poderes de Estado, bilionários comandando gigantes com influência em governos e redes sociais derretendo o cérebro do ser humano comum, é difícil imaginar a fluidez com que o filme atravessa os seus conflitos em seu tema central: revelar ao mundo a existência de vida extraterrestre e revelar ao mundo que o governo dos Estados Unidos guardava este segredo há décadas.

Scanlon é um personagem que resiste para manter os segredos guardados por sua empresa até simplesmente desistir e apenas aceitar o que virá pela frente como um espectador privilegiado de um telejornal. E mesmo Casper Boyd (Henry Lloyd-Hughes), o seu capanga principal, que dava sinais de que poderia se rebelar do chefe para “evitar o pior”, simplesmente nunca atinge por fim o que parecia ser o seu destino. Boyd é a metáfora do indivíduo que prefere permanecer na ignorância a saber a verdade. No entanto, Spielberg estabelece um limite que ele não pode avançar. A verdade prevalecerá.

Essa ausência de um conflito maior é o que perpassa o tema da fé que o filme tenta mostrar. Um dos pontos mais comuns quando se questiona sobre a possibilidade de haver vida fora da Terra é a relação destes seres com as nossas divindades. Afinal, se somos todos filhos de Deus, se somos a imagem e semelhança do Criador, quem são estes seres que não são semelhantes a nós? No entanto, a ex-noviça Jane vai do questionamento sobre a fé e a dúvida sobre a existência de Deus que poderia ser causada com a divulgação da informação confidencial para uma sensação de paz resolvida em duas linhas da Bíblia citada pela Irmã Maura (Elizabeth Marvel). Ou seja, um conflito facilmente resolvido.

É louvável o esforço de Spielberg em apostar na conciliação e acreditar que respostas fáceis sobre temas complexos satisfariam a humanidade, que pararia passivamente para assistir ao furo do século em sua rede de TV favorita. De certa forma, é um pouco o Spielberg lúdico de “E.T” numa nova roupagem em “Dia D”.

No entanto, paremos e pensemos um pouco sobre o mundo em que nós seres humanos vivemos atualmente. Estamos nos tornando cada vez mais individualistas e egoístas. De tempos em tempos, elegemos pessoas desprezíveis para comandar nossos governos, como o que vemos nos Estados Unidos de hoje. Acreditamos em mentiras espalhadas feito vírus por redes que são muito mais antissociais do que sociais. Nos tornamos dependentes destas mesmas redes sociais e suas diárias injeções de dopamina. Há grupos que acreditam que a Terra é plana e grupos que não confiam em vacinas. Não aceitamos conviver com as diferenças e perseguimos imigrantes, homossexuais, negros ou qualquer outro grupo que vemos como “potencial ameaça” ao nosso status. Há cada vez mais guerras pelo mundo, que geram perdas de vidas, crise econômica, desemprego e inflação. Rapidamente passamos a depender de Inteligência Artificial como quem depende de água. Água esta que está sendo consumida pelos data centers que mantém a IA ativa. Vivemos crises contínuas de saúde mental e uso de drogas (legais e ilegais). A humanidade vive uma crise em que só historiadores podem encontrar paralelos na história humana. Eu não tenho essa capacidade.

Diante deste breve cenário, acreditar que a revelação da existência de alienígenas ocorreria de forma pacífica ou com pouca resistência como vemos em “Dia D” é de uma inocência admirável. Tal revelação seria um ponto de virada na história humana, com consequências que eu não consigo imaginar.

Apesar desta breve reflexão sobre a substância do filme, penso que, apesar e um certo grau de opacidade, “Dia D” tem qualidades. É uma aventura que se mantém tensa do início ao fim a partir dos seus três vértices principais: Kellner, Margaret e Hugo. Vamos de um a outro personagem nesta corrida contra o tempo para revelar a verdade enquanto Scanlon tenta impedir a grande revelação. E há uma certa ansiedade para que o trio se encontre e nos dê as respostas que queremos ter. No fim, embora não seja um filme que esteja entre seus melhores trabalhos, “Dia D” ainda é um bom entretenimento que Spielberg nos oferece.

Nota 7,5/10

quinta-feira, 4 de junho de 2026

He-Man é a "Barbie" dos meninos, mas com menos musculatura intelectual

Toda vez que o cinema acerta uma fórmula de sucesso, a tendência que vemos nos anos subsequentes é o surgimento de cópias que quase sempre não são tão boas quanto as ideias originais. Foi assim depois de “Matrix” (1999) e sua tecnologia revolucionária para a época. Foi assim com a construção do Universo Marvel a partir de “Homem de Ferro” (2008). “Mestres do Universo” (Masters of the Universe, no original) é o mais novo exemplo que é uma mistura disso tudo. Pega o início de uma nova onda, a das adaptações para o cinema de brinquedos, games e desenhos animados, e surfa muito no sucesso estabelecido por “Barbie” (2023).

Pode-se, inclusive, dizer, que “Mestres do Universo”, ou “He-Man” como o desenho animado ficou conhecido no Brasil, é uma espécie de “Barbie” dos meninos. Uma “Barbie” sem a mesma, digamos, musculatura intelectual, mas igualmente divertido e muito mais galhofeiro.

E acho que o grande trunfo do filme dirigido por Travis Knight foi mesmo não se levar a sério, abraçar a galhofa e saber brincar até com algumas coisas do desenho e do universo do He-Man que sempre pareceram meio ridículas, mas nunca incomodaram nenhum fã da animação. Como o momento em que o Adam (Nicholas Galitzine) se transforma no guerreiro de Eternia, quando, aparentemente, ele fica pelado diante de quem estiver vendo a sua transformação.

A história desta nova versão de “Mestres do Universo” não tenta inventar a roda. É praticamente como um episódio do desenho animado, mas ao mesmo tempo tenda dar uma nova origem ao personagem, sem ferir grandes suscetibilidades. Quando Adam ainda era uma criança, o Esqueleto (Jared Leto) invade o reino do Rei Randor (James Purefoy), em busca da Espada do Poder para dominar o mundo, ser invencível e aquele blábláblá de sempre.

Pegos de surpresa pelo exército que não tinha apenas magia, mas também muita tecnologia, os soldados do rei liderados por Mentor (Idris Elba) são derrotados. Num esforço para não ver Eternia ser totalmente derrotada, a Feiticeira (Morena Baccarin) manda o jovem Adam junto com a Espada do Poder para a Terra. Adam, no entanto, perde a espada na viagem galáctica e é obrigado a viver os 15 anos seguintes no nosso mundo.

Aqui é onde o filme segue a mesma fórmula de “Barbie” quando a personagem vivida por Margor Robbie também faz uma viagem para o “mundo real”. Assim como no filme de Greta Gerwig vimos Barbie e Ken enfrentando situações completamente diferentes e que eles não conheciam em seu mundo, em “Mestres do Universo” vemos um Adam enfrentando seus próprios dilemas, totalmente deslocado, obcecado por um mundo que ele garante que é real, mas ninguém acredita, e por encontrar a sua espada, o que causa uma série de constrangimentos no departamento de Recursos Humanos de uma empresa em que ele trabalha.

O período na Terra é relativamente rápido e funciona em alguns aspectos para mostrar este deslocamento de Adam e a necessidade de voltar para o seu outro mundo. Afinal, Adam é filho de uma humana com um rei de Eternia. Por outro lado, é onde ele igualmente marca as diferenças entre o trabalho de Gerwig e o de Knight. Em “Barbie” o choque de mundos é o palco ideal para um filme que reflete sobre desigualdade de gênero, consumismo, a cultura corporativa, masculinidade tóxica e o papel dos homens na sociedade, entre outras questões. Em “Mestres do Universo”, o período na Terra é mais usado para fazer piadas corporativas (ainda que a melhor de todas tenha acontecido com o uso do termo team building em Eternia) e piscadelas para a cultura nerd. Tanto que o filme nem perde muito tempo com o Adam lá. Logo que ele encontra a espada, Teela (Camila Mendes) vai buscá-lo para o levar de volta a Eternia onde Adam se torna a grande esperança de salvar o mundo das garras do Esqueleto.

É em Eternia que o filme cresce. Num mundo que têm uma lógica toda própria e em que ciência e fé caminham abraçadas, num mundo que tem espadas e raios lasers, naves e tigres gigantes, tudo é possível. E é aqui que o filme de Knight brilha, pois neste planeta tão sui generis, o melhor mesmo é abraçar a galhofa. E aqui a farofa voa tão bem que para ficar melhor só se tivesse alguns momentos uma trilha sonora com Poison ou Mötley Crue.

“Mestres do Universo” também funciona bem como uma aventura leve. Enquanto Adam tenta descobrir o seu propósito e o tamanho dos seus poderes, ele consegue transformar-se na cola que une os guerreiros outrora derrotados na missão de recuperar Eternia das mãos do Esqueleto, que se mostra ser o vilão caricato que sempre vemos na animação. A partir daí, seguimos com piadas e boas cenas de ação que vão divertir os fãs de He-Man.

Isto faz com que o filme seja divertido, ainda que ele tenha alguns problemas. Entre eles estão o roteiro, que é basicamente um fiapo de história e o papel da Maligna (Alisson Brie), que parece muito subserviente na sua relação tóxica com o Esqueleto. Além de eu ter achado que foi mal aproveitada no filme. Vemos mais destaque a nomes como o Fisto (Jóhannes Haukur Jóhannesson) e o Ariete (Jon Xue Zhang) do que para ela. Gosto mais da recente versão da Maligna que vemos nas animações da Netflix. Afinal, entre o bem do He-Man e o mal do Esqueleto, a Maligna é o elemento mais cinzento daquele mundo.

Por outro lado, o filme deixa claro que não vai parar por aí. Em especial depois das três cenas extras durante os créditos. Em uma delas, vemos uma personagem importante que me pegou de surpresa e mostrou que a história do He-Man ainda vai se expandir bastante.

Nota 7/10.

domingo, 31 de maio de 2026

Os filmes e as séries de maio

Os filmes e as séries mais interessantes de maio:

O diabo veste Prada 2 (The Devil Wears Prada 2 — EUA) — Parabéns a todos os envolvidos. Primeiro porque a continuação é tão boa ou melhor do que o filme original. Segundo porque eu adorei que o filme deixou de ser sobre a indústria da moda para ser uma reflexão sobre a triste morte agonizante do jornalismo. E foi fascinante ver como a Miranda de Meryl Streep tenta sobreviver enquanto observa o seu poder diminuir de forma galopante.

Star Wars: O Mandaloriano e Grogu (Star Wars: The Mandalorian and Grogu — EUA) — Não sei se precisava ser um filme no cinema, mas que aventura gostosinha de assistir. É como um longo episódio da série que eu paguei um extra para ver. E claro que vai vender boneco.

Nino de Sexta a Segunda (Nino — FRA) — Este filme de Pauline Loquès conta a história de um jovem diagnosticado com um câncer que tenta se reconectar consigo mesmo e com o próprio corpo nos dias que antecedem ao início do tratamento. Acho muito interessante como uma cidade fotogênica como Paris desaparece enquanto o protagonista vai de um lado para o outro em busca das respostas que precisa para a sua alma. A participação de Mathieu Amalric é a cereja no bolo.

Uma infância alemã (Amrum — ALE) — Passado no fim da Segunda Guerra, o filme de Fatih Akin mostra os ecos do conflito numa ilha isolada do Mar do Norte enquanto um menino tenta ajudar a mãe, que apesar de todas as dificuldades permanece cega pelo nazismo. Parece até uma galera que eu conheço nos dias de hoje.

O Mago do Kremlin (Le mage du Kremlin — FRA, EUA) — Olivier Assayas dirige grande elenco estadunidense (Paul Dano, Alicia Vikander, Jeffrey Wright, Jude Law) em uma história inspirada em Vladislav Surkov, assessor político de Vladimir Putin. No filme, o fictício Vadim Baranov é um diretor de teatro e TV que cresce em influência no Kremlin construindo as narrativas de desinformação e contra-informação para ajudar o governo Putin. Por vezes é um filme moroso, mas eu curti.

A cronologia da água (The chronology of water — EUA, FRA, LET) — Acho que a diretora e roteirista Kristen Stewart tem mais potencial do que a atriz Kristen Stewart. Embora esta sua estreia não tenha me enchido os olhos, penso que o filme tem uma visceralidade e uma dose de experimentalismo interessantes. O trabalho de Imogen Potts é incrível.

Hacks (Hacks — EUA — HBO) — Há séries que acabam mal (não vamos citar nomes). Há séries que terminam satisfatoriamente. O difícil é uma série acabar muito bem. E pode-se dizer que “Hacks” conseguiu isso. Eu já tinha gostado de toda a temporada, mas o último episódio foi um presente para os fãs que acompanharam toda a jornada da comediante Deborah Vance (Jean Smart) e sua roteirista e amiga Ava Daniels (Hannah Eibinder). Que série maneira e que acaba lá no alto.

Rooster (Rooster — EUA — HBO) — A série conta a história de um escritor vivido por Steve Carrell que vai dar aulas numa universidade. Lá ele redescobre o prazer de estar associado a uma comunidade ao mesmo tempo em que tenta fazer o certo (errando muito) na sua intrincara relação com a filha. É uma comédia agridoce bem legal.

Invencível (Invincible — EUA — Prime Video) — Depois de uma terceira temporada esquisita e meia boca, “Invencível” definitivamente recuperou o fôlego com uma quarta temporada muito boa, que terminou com um dilema moral para o protagonista em seu problema com os viltrumitas.

Mulheres Imperfeitas (Imperfect Women — EUA — Apple TV) — No início da série eu estava pensando: como a Nicole Kidman deixou essa história passar por ela? Logo ela, especialista em séries ruins com mulheres ricas como protagonistas? Mas aí a série foi melhorando e teve um final satisfatório. O nome faz jus ao que ela é. Que amizade complicada a deste trio.

Star Wars: Maul — Lorde das Sombras (Star Wars: Maul — Shadow Lord — EUA -, Disney Plus) — Eis uma boa surpresa. Fui ver a animação por causa do Wagner Moura (cujo personagem é excelente), e sai satisfeito demais com a história e as lutinhas de espada. A série apelou no final, mas aceito demais essa apelação. Pode encomendar a segunda temporada.

sábado, 2 de maio de 2026

Book Review: “O pássaro de peito vermelho”, Jo Nesbø

“- O que é que a tua intuição diz acerca do homicídio?

- Não sei. Fala com a Kripos.

- Falarei, mas o que é que a tua intuição te diz acerca do homicídio?

- Que foi um profissional. Não foi um crime passional. E apesar de eu ter dito que a morte foi limpa e meticulosa, não me parece que tenha sido cuidadosamente planeada.”

“O pássaro de peito vermelho” é a terceira história do detetive Harry Hole e a minha favorita até aqui. Tenho aos poucos lido o trabalho de Joe Nesbø, um escritor norueguês de histórias policiais e, por mais que gostasse de ler as suas histórias, até então não conseguia compreender o enorme sucesso que Nesbø adquiriu ao longo das últimas décadas.

Este livro, porém, começa o que acredito ser um turning point da minha opinião sobre Nesbø. O livro é de fato intrigante e com mais camadas que as anteriores histórias de Nesbø.

Aqui, o detetive Hole tem como missão vigiar um neonazista que acabou de deixar a prisão por uma tecnicalidade judicial, mas a sua investigação acaba se aprofundando ainda mais e faz Hole mergulhar nas histórias de noruegueses que lutaram pelo nazismo na Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, o detetive luta contra o tempo para evitar que aconteça um homicídio.

“O pássaro de peito vermelho” é um bom exemplo da literatura chamada de Nordic noir que gosto tanto de ver em séries de TV. Sua narrativa fragmentada ajuda a criar um clima de suspense que vai crescendo ao longo do livro enquanto se tenta desvendar o quebra-cabeças no qual Hole está metido.

Ao ligar o crime que acontece na Noruega do presente com fatos ocorridos na Segunda Guerra Mundial, “O pássaro de peito vermelho” constrói uma linha de ação e consequência que nos mostra como eventos ocorridos no passado podem criar eco décadas depois.

Este livro ainda explora como as ideias radicais de extremismo podem sobreviver ao longo do tempo. Algo que estamos vivenciando muito fortemente nos dias de hoje, mas sobre o qual Nesbø já falava em 2000, ano da primeira publicação deste livro.

Em resumo, “O pássaro de peito vermelho” é um passo adiante no estilo literário de Nesbø. Tem uma estrutura mais ambiciosa que “O Morcego” (1997) e “Baratas” (1998), um thriller mais eficaz com mistérios bem construídos e acho que aqui conseguimos mergulhar um pouco melhor na alma de Hole, vendo-o com mais complexidade para além de um mero policial competente com problemas de bebida.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

“O Diabo Veste Prada 2” e a morte agonizante do jornalismo

Dá uma certa melancolia assistir a “O Diabo Veste Prada 2”. Exatamente vinte anos depois do primeiro filme, a sequência, também dirigida por David Frankel, tem uma realista e dura visão sobre o mundo do jornalismo a partir das transformações sofridas ao longo das últimas duas décadas. Se o primeiro filme era sobre a indústria da moda, mas também sobre o mercado de trabalho a partir dos desmandos de uma chefe abusiva, o segundo parte da mesma premissa da indústria da moda, mas nos pega de surpresa ao ser mais sobre a morte agonizante do jornalismo.

Ao longo do filme, acompanhamos as transformações pelas quais passaram a jornalista Andy Sachs (Anne Hathaway), a outrora primeira assistente de Miranda, Emily (Emily Blunt) e a própria Miranda Priestley (Meryl Streep).

Desde que deixou de trabalhar para Miranda, Andy construiu uma carreira de sucesso no jornalismo, que era o seu grande desejo há 20 anos, quando começou a trabalhar como assistente de Miranda. O problema é que o mundo e o mercado de trabalho vêm mudando constantemente, passando por transformações, e o jornalismo sofre com isso. Foi assim que Andy e toda a equipe de reportagem da qual ela faz parte acaba por ser demitida por e-mail pelo jornal para o qual ela trabalha justamente na noite em que ela está a receber mais um prêmio importante por uma de suas reportagens.

Desde o início, portanto, Frankel dá o tom sobre o que será o filme. Será sobre crise, desemprego, necessidade de adaptação ao mundo moderno e as transformações que não impactaram somente as redações, mas também o mundo da moda.

Do outro lado, Miranda também não vive os seus momentos mais gloriosos. Agora controlada pelo RH e por sua primeira assistente, Amari (Simone Ashley), Miranda não pode mais ter o comportamento venal que costumava ter no passado, nem tecer comentários terríveis sobre a aparência ou que mostrem que ela está a praticar assédio moral com seus funcionários. Ainda assim, Miranda permanece com a língua afiada e os olhares matadores que só a Meryl Streep sabe fazer.

Uma reportagem aparentemente mal apurada coloca a “Runway” em maus lençóis e acaba forçando Miranda a se juntar novamente a Andy, agora contratada para chefiar o departamento de reportagem da revista.

A partir daqui o filme vai traçando as diferenças sobre a “Runway” do passado e a atual e do próprio mercado de trabalho. Miranda se vê forçada a ceder e a engolir sapos, pois os anunciantes têm cada vez mais poder de decisão. É o caso da Dior, onde agora Emily está trabalhando. Ela também se vê sendo forçada a lidar com orçamentos mais apertados, mudanças nos padrões de qualidade e na forma como a revista se colocar diante de um mundo tecnológico e em constante transformação. Andy, por sua vez, tem que lidar com o jeito Miranda de ser e ainda tentar manter o seu trabalho.

Eu acho curioso como neste segundo filme, Andy é como a personificação da resistência do jornalismo neste mundo hiperconectado em que todos vivemos marcados por uma pluralidade de vozes, mas pouca qualidade no discurso. Ela é a jovem que ainda tem garra para brigar, mas que está em negação diante da realidade de uma decadência galopante, corte de custos, novas lideranças que não entendem nem querem entender o negócio e só pensam em números, demissões em massa… Uma realidade que afeta até uma revista poderosa como a “Runway”.

Parte de Miranda, porém, a grande e amarga visão do futuro. Miranda resiste porque é um bastião daquilo que de melhor (e também pior) existiu no mundo do jornalismo. Ela resiste, mas sabe que o fim está próximo. Afinal, uma de suas qualidades é estar cinco passos a frente de todos ao seu redor. O olhar dela para a famosa Galleria Vittorio Emmanuelle II, em Milão, é de prazer e despedida, pois sabe que o grande desfile que a revista acabou de organizar, com direito a um concerto de Lady Gaga, possivelmente será um dos últimos não dá carreira dela, mas da história da revista, pois o jornalismo não comporta mais orçamentos desta magnitude.

Parte de Miranda, aliás, a frase mais triste e premonitória do jornalismo, quando ela se vira para Andy e diz que a “Runway” é como uma tora boiando durante o afundamento do Titanic. Ou seja, elas ainda estão sobrevivendo naquele mundo. Mas até quando?

“O Diabo veste Prada 2”, tem essa tristeza, mas também provoca uma feliz nostalgia. Rever o primeiro filme antes do segundo pode ser interessante para enriquecer a experiência. Logo em uma das primeiras cenas, vê-se os dois cintos que no primeiro filme causaram tanta controvérsia na chegada de Andy a “Runway” sendo vendidos num camelô nas ruas de Nova York. Ela dá um sorriso, segue em frente e o espectador que tem o primeiro filme fresco na memória sorri junto. Ali, vemos uma referência, mas só depois percebemos que o filme estava também plantando a sua temática sobre as transformações sofridas pelo mercado nestas décadas que se passaram. O filme também é cercado de referências e piscadelas ao trabalho original que farão o fã sorrir ou se lembrar de situações e compará-las com o que está vendo na versão de 2026.

Muito sobre o filme de Frankel é sobre a mudança dos tempos. Em alguns aspectos elas foram para melhor, como a necessidade de controlar o comportamento abusivo de Miranda. Outras permanecem iguais, como o regime ainda terrível de suas assistentes. E quando se trata do mundo do jornalismo, bem, qualquer um que tenha passado por uma redação nos últimos 20 anos, reconheceu todos os movimentos que o filme mostra. O que prova que o trabalho da roteirista Aline Brosh McKenna foi impecável.

Já Stanley Tucci, continua sendo um coadjuvante de luxo. O seu Nigel, fiel escudeiro de Miranda, é um dos pontos altos do filme. Especialmente em suas interações com Andy, que, são cercadas de nostalgia do primeiro filme. E aos poucos ele tem o destaque que merece por ser um braço direito não muito reconhecido de Miranda.

A luz do filme, no entanto, é, e sempre foi Meryl Streep. A atriz sabe muito bem dizer muito com poucas falas. Sua postura, seu olhar… Streep está em um dos seus grandes trabalhos neste segundo filme. E ainda ganhou um companheiro de luxo na pele do novo marido vivido por Kenneth Branagh.

Se eu tivesse que fazer uma crítica ao filme está mais na forma como a Emily foi tratada nesta sequência. Ela tinha uma perspectiva interessante sobre o trabalho no mundo da moda ao trocar uma revista por uma marca de luxo. Na sequência, porém, há uma tentativa de transformá-la numa espécie de vilã do filme a partir de uma virada de roteiro, mas que o próprio filme não sustenta muito. Parece que Emily está um pouco perdida ao longo da história e que não era exatamente um desejo do roteiro de fazê-la ser uma antagonista surpresa de Miranda. A personagem de Emily Blunt ficou um pouco prejudicada neste segundo filme. Até porque no fim, o que “O Diabo Veste Prada 2” nos mostra é que o grande vilão da história é mesmo o capitalismo.

Nota 8/10

Os filmes e as séries de abril

Os filmes e as séries mais interessantes de abril:

O Drama (The Drama — EUA) — Aquele filme que nos traz duas lições. A primeira é que não se deve misturar vinho com conversas francas. A segunda é que é preciso escolher bem a sua madrinha de casamento. Aqui temos Zendaya e Robert Pattinson vivendo uma tensão desnecessária às vésperas do casamento. Tudo porque resolveram tirar uns esqueletos do armário.

Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra (Good Luck, Have Fun, Don´t Die — ALE, EUA) — Sam Rockwell vivendo um doidão do futuro que tenta salvar a humanidade do apocalipse que será causado pela Inteligência Artificial. Meu maior medo é que o filme do Gore Verbinsky ainda vai deixar de ser uma maravilhosa diversão para passar a ser visto como uma premonição.

Socorro! (Send Help — EUA, CAN, ING, AUS, TAI) — Rachel McAdams fazendo o que todo trabalhador gostaria de fazer com o chefe abusador. O filme de Sam Raimi é sobre como o burn out acaba com a cabeça do operário do capitalismo. E ainda há quem defenda a escala 6 x 1.

53 Domingos (53 Domingos — ESP) — Uma comédia deliciosa de Cesc Gay baseada na peça do próprio diretor. Aqui, Javier Cámara, Carmen Machi e Javier Gutierrez vivem três irmãos que não se dão muito bem e precisam se reunir para decidir o que fazer com o pai octogenário, que já está dando sinais de que não pode mais viver sozinho. No meio disso, muita roupa suja lavada e alfinetadas entre eles.

Mektoub, My Love: Canto Due (Mektoub, My Love: Canto Due — FRA) — Abdellatif Kechiche mostrando que o verão e a juventude são incríveis, mas se você não tomar cuidado a festa pode acabar em BO.

Caminhos do Crime (Crime 101 — ING, EUA) — Estou chocado de como eu achei este filme legal. O elenco era estelar. Tinha Chris Hemsworth, Mark Ruffalo vivendo mais um detetive cansado, Barry Keoghan, Halle Berry, Jennifer Jason Leigh, Nick Nolte… mas ele tinha uma carinha de enlatado estadunidense daqueles que eu vi muito nas Sessões da Tarde. Bem, é um pouco, mas é também uma história divertida sobre um ladrão de joias que se mete em algumas enrascadas e traições.

The Pitt (The Pitt — EUA — HBO) — Eu nunca acreditei que a segunda temporada de “The Pitt” seria tão incrível quanto a primeira. Eu estava fragorosamente errado. A série foi mais uma vez impecável na forma e atual no conteúdo. A subtrama do ICE, a polícia política do governo de Gilead, ops, dos Estados Unidos, mostrou que os roteiristas vão botar o dedo na ferida sim. E ainda tivemos outras histórias importantes envolvendo a falta de um SUS naquele país, o descaso com vítimas de violência sexual, e o looping infinito do doutor Robby abraçado ao burnoutinho Robinavitch, não conseguindo sair do hospital, e questionando o que está fazendo da vida por ser um solteirão de mais de 40 anos ferrado da cabeça. Eu só tenho um desejo e uma preocupação com “The Pitt”.

Desejo — Precisamos de um spin off mostrando os NIGHT CRAWLERS do night shift porque tem muito personagem interessante ali.

Preocupação — Será que “The Pitt” e a minha amada HBO vão continuar afiados, sexys e com o pé fundo na política agora que a Warner foi comprada pela Paramount e seus donos conservadores e alinhados com o que há de pior na história estadunidense? A ver.

DTF St. Louis (DTF St. Louis — EUA — HBO) — É muito difícil a HBO errar quando junta crime, tragédia e uma meia dúzia de personagens extremamente interessantes. Nesta série criada por Steve Conrad, David Harbour vive o maior people pleaser da história da TV em uma trama rocambolesca sobre amizades complexas, fetiches e apps de relacionamento.

Falando a Real (Shrinking — EUA — Apple TV) — “Falando a Real” tem um dos melhores textos da TV atualmente. É uma série agridoce que trata de temas difíceis como luto, solidão e doenças, mas com uma dose de humor. Foi muito legal ver o Michael J. Fox contracenando com o Harrison Ford nos episódios mais focados na questão do Parkinson. Ford, aliás, vive um dos melhores momentos na carreira nesta série. A terceira temporada teve cara de fim de um ciclo para todos os personagens. Como a quarta já foi confirmada pela Apple TV, estou curioso para ver para onde a série caminhará.

Talamasca: A ordem secreta (Talamasca: The Secret Order — EUA — AMC) — Todo mundo quer um universo expandido para chamar de seu. O da AMC é o da escritora Anne Rice. Depois do que assumo ter sido um sucesso da série “Entrevista com o vampiro”, que vai para a terceira temporada com o nome de “O vampiro Lestat”, e de “As bruxas Mayfair” surgiu este outro spin-off baseado no mesmo universo sobre a ordem secreta Talamasca. E surpreendentemente até que ela é bem legal. É basicamente uma série de espionagem com vampiros, bruxas e zumbis.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

“Michael” emociona em números musicais, mas falha como cinebiografia

Desde o início sabia-se que a cinebiografia de Michael Jackson seria chapa branca. O controle da família e daqueles que o cercaram, retratados na lista de produtores do filme, que pode ser encontrada em qualquer site especializado de cinema, eram mostra suficiente de que temas delicados seriam evitados ou suavizados. Eu só não imaginava que “Michael” fosse um filme tão sem alma e sem personalidade e que foi incapaz de retratar a complexidade de um artista como Michael Jackson.

Na verdade, estou sendo ligeiramente injusto. “Michael” tem alma em alguns momentos. Mais especificamente eu seus números musicais. Eles são o ponto alto do filme dirigido por Antoine Fuqua, tanto quando vemos o Michsel criança interpretado com magnetismo por Juliano Valdi, quanto quando vemos o sobrinho de Michael, Jaafar Jackson mimetizando os passos, os trejeitos e a forma de cantar do tio. São nestes momentos que o filme ganha vida, emociona e faz o espectador cantar junto. Mas é só. Quando entramos nos intervalos dos “clipes musicais” e é preciso contar a história, “Michael” é superficial, por vezes incorreto, por vezes injusto e não investiga a alma por trás do artista biografado.

“Michael” tem um vilão óbvio: Joseph Jackson (Colman Domingo), o pai controlador, violento e manipulador. O homem que praticava abuso físico e psicológico com os filhos, em especial o mais jovem e talentoso deles. Mas o que se vê na tela é apenas o necessário para pintar um vilão sem que se possa aprofundar a relação complexa de Michael com o pai e a família como um todo.

Tudo é muito passageiro e pouco aprofundado na cinebiografia. O filme compreende o início dos jovens Jackson 5 e vai até o fim definitivo do grupo, quando Michael já fazia muito sucesso em carreira solo após ter lançado os álbuns “Off The Wall” (1979) e “Thriller” (1982). Mesmo compreendendo um período de tempo que vai até metade da vida de Michael, Fuqua não consegue dar um norte preciso ao filme.

A infância de Michael passa rapidamente e se resume a números musicais e opressão paterna. E quando Fuqua tenta investigar os problemas psicológicos do artista, ele apenas mostra sinais muito sutis, como a criança que vê no produtor da Motown uma figura paterna que não tem em casa. Aliás, no filme Michael nunca chama Joseph de pai. É sempre Joseph. Outro sutileza que não é mais explorada. Ficam apenas os sinais de que havia algo errado ali.

Quando passamos para a adolescência e início da vida adulta, vemos um homem solitário e sem amigos, que se apega a bichos exóticos. Mas mais uma vez a solidão de Michael é apenas citada ao largo enquanto passamos para mais um número musical arrebatador. E eles são arrebatadores, pois a música de Michael Jackson é fenomenal e implacável.

Também não conseguimos de fato mergulhar na alma atormentada de Michael quando ele se vê dividido entre o amor a família e a necessidade de seguir em carreira solo. Jaafar Jackson tenta explorar isso, mas Fuqua não consegue dar voz a esse esforço, deixando sempre o filme num tom superficial, que infelizmente é a maior marca de “Michael”.

Faltam alma e ideias claras ao filme de Fuqua. Filme este que comete dois erros graves. O primeiro é a ausência de Janet Jackson. Talvez o segundo membro mais famoso da família, Janet não existe no filme. E ela já era uma adolescente quando Michael lançou “Thriller”. Se houver mesmo um segundo filme, como “Michael” deixa claro em suas cenas finais, quero ver o que irão fazer, uma vez que Michael gravou uma música de sucesso com a irmã (“Scream”, que está na coletânea “History”)

O segundo e mais importante é a desimportância dada ao produtor Quincy Jones. Essa foi de uma desonestidade intelectual brutal. A parceria entre Michael e Jones é uma das mais importantes da história da música. Jones era um midas da indústria. A genialidade de Michael só aflorou ao lado do produtor que, no filme, é retratado apenas como mais um na vida do cantor. Na verdade, o guarda-costas Bill (Keilyn Durrell Jones) e o advogado John Branca (Miles Teller) têm mais importância no filme do que Jones. Não que eles não fossem personagens relevantes, mas o apagamento do produtor foi dos erros mais graves de “Michael”.

Em resumo, “Michael” é fascinante em seus números musicais. Principalmente para seus fãs, que vão se ver sentindo saudade do ídolo morto em 2009. Por outro lado, é vazio e superficial ao focar somente no artista no palco e não nos trazer um retrato ou ideias sobre o homem e um artista complexos fora dele.

Nota 6,5/10

sábado, 11 de abril de 2026

“O Drama”: descobrindo os esqueletos no armário às vésperas do casamento

Esse casamento será tenso
Qual foi a pior coisa que você já fez na vida? Uma brincadeira inocente entre amigos em uma noite de vinhos às vésperas do casamento de um dos casais da mesa torna-se o estopim para todo um… drama antes da cerimônia que unirá em definitivo (ou não) Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson).

A chocante revelação de Emma sobre algo que ela nunca fez, mas planejou fazer, jogou uma nuvem de dúvidas e rancores em um casamento que já tinha naturalmente a sua dose de drama, sofrimento e ansiedade. E nos faz refletir a partir de dois conceitos até bastante clichês:

1) Até onde conhecemos de fato nossos parceiros?

2) Será de fato a ignorância uma bênção?

Se eu tivesse que responder a estas duas questões sob um ponto de vista meramente pessoal, diria primeiro que nunca conhecemos de fato não apenas nossos parceiros, mas todos ao nosso redor. Até mesmo nossos pais. De certa forma, todos temos algum esqueleto no armário. Não necessariamente tão pesados e que causem um evidente desconforto como o que acontece com Charlie e seus amigos, mas o suficiente para não querermos exibi-lo nem para nossos melhores amigos.

Em segundo lugar, penso que é sempre melhor ter conhecimento do que viver na ilusão da ignorância. Por mais dolorosa que possa ser, a verdade é sempre melhor. E ela foi bem dolorosa para Charlie quando ouviu o que Emma havia revelado.

(Atenção que a partir de agora tratarei de spoilers do filme)

Quando Emma revela que na adolescência planejou um ataque a sua escola que só não foi a frente por circunstâncias da vida, Charlie fica não apenas chocado, mas obcecado por descobrir se a sua futura mulher é, digamos, normal ou uma psicopata.

Toda a revelação pega não apenas Charlie, mas Rachel (Alana Haim), a melhor amiga e dama de honra do casamento, e Mike (Mamoudou Athie), amigo de Charlie, de surpresa. Curiosamente, Mike é o único que age com naturalidade e tentando evitar que a conversa escale enquanto a sua mulher simplesmente não perdoa Emma. Por trás da dor de Rachel está o fato de sua irmã ser vítima de um school shooting que hoje vive numa cadeira de rodas.

A partir daí, uma série de situações vão acontecendo em “O Drama” que fazem jus ao nome do filme. Por vezes, toda a celeuma causada por aquela brincadeira supostamente inocente em um jantar parece todo um dramalhão desnecessário. Afinal, Emma não cometeu de fato nenhum crime. Apenas pensou e planejou fazê-lo. Já Rachel, por exemplo, fez coisa pior em seu passado, na medida em que cometeu de fato um ato de violência contra um colega.

O diretor Kristoffer Borgli, do bom filme “O Homem dos Sonhos” (2023), consegue equilibrar de um jeito muito especial drama e comédia neste filme que tem um texto muito divertido e que trabalha um pouco com quebras de expectativas.

Borgli é norueguês e eu consigo ver um pouco do estilo do cinema norueguês de abordar relacionamentos retratado no filme. É o caso do fato de eles estarem sempre conversando abertamente sobre os temas necessários e uma certa objetividade que pode facilmente ser confundida com um tom de frieza. Embora esta frieza acabe por ser quebrada pelos momentos de comédia (ou de quando rimos de nervoso) do filme. Deve-se isso a um leve toque de melodrama no filme. Especialmente pela forma como a história de Emma se instala na cabeça de Charlie de tal maneira que o faz ser consumido de forma obsessiva.

Se tem duas pessoas que entenderam bem o tom implantado por Borgli foram as atrizes femininas de “O Drama”. Não apenas Zendaya, que está naturalmente muito bem, mas Alana Haim e Hailey Gates (Misha), estão muito bem nos seus papéis. Haim consegue muito bem ser aquela mulher fria e julgadora sem se importar com contextos, só para impor a sua verdade. Gates tem uma pequena participação, mas é como a explosão da última granada que pode significar a implosão definitiva daquele casamento que ainda sequer foi celebrado. E toda a cena do casamento no final é puro ouro.

“O Drama” me surpreendeu positivamente. É um filme que tem um texto muito divertido e um casal de atores carismático que soube aproveitar bem o que texto lhes oferecia.

Nota 8/10.