sábado, 8 de dezembro de 2018

Pais e filhos

Chalamet e Carell,dois destaques do filme
Talvez por vir de uma carreira mais sólida em filmes de comédia e até por preconceito com o gênero, poucas vezes percebemos o quão bom ator é Steve Carell. Suas escolhas recentes, porém, só servem para reforçar o talento do “Virgem de 40 anos” (2005) também como ator dramático. “Foxcatcher: uma história que chocou o mundo” (2014) e principalmente “A grande aposta” (2015) já exibiam a sua versatilidade. E quando ele mergulhou em dramas como “A melhor escolha” (2017) e o mais recente “Querido menino” (2018), Carell justificou ainda mais as escolhas feitas por diferentes diretores pelo seu trabalho.

Há algumas semelhanças entre estes dois filmes mais recentes. “A melhor escolha” é a história de um pai que perde o filho na guerra do Iraque e só quer enterrá-lo enquanto vive o seu luto ao lado dos amigos companheiros da guerra do Vietnã. “Querido menino” é a história de um pai, uma família, mas muito centrada neste pai, que lida com o vício de drogas do seu filho mais velho. Em ambos o trabalho Carell é preciso, tocante e com a segurança de veteranos experientes atores dramáticos. 

O seu David Sheff é um dos pontos fortes de “Querido menino”. O outro é o trabalho do seu colega de cena Timotheé Chalamet. Com apenas 23 anos, o ator vem se consolidando como um forte nome no cinema com atuações cada vez melhores. Chalamet já havia chamado a atenção no drama “Me chame pelo seu nome” (2017), quando fazia o jovem Elio, que se apaixonava por um escritor americano, seu primeiro amor. Em “Querido menino”, ele traz a carga dramática necessária à história de Nic e não cai no exagero dos devaneios de loucura pelo uso de drogas tão frequentes em filmes que reportam esse tipo de problema. 

A dor de Nic é absurdamente palpável. O seu desespero por sair dela também. A depressão entremeada por momentos de falsa alegria, pois sabia-se o quanto Nic sofria por dentro, estão vivas nos olhos de Chalamet. 

“Querido menino” é um filme duro de ver. Uma história real sobre uma família que tinha tudo para ser perfeita e é dragada pelo problema das drogas. Em especial o uso de metanfetamina. Mas ao mesmo tempo é de uma beleza ímpar, ou talvez difícil de descrever por mostrar essa força da relação entre pai e filho. Uma força quase inquebrantável até mesmo quando David vê a necessidade de sair de cena para se recompor. E quão belo é o trabalho de Carell ao carregar todas essas nuances consigo. 

E neste ponto é preciso falar de outra questão fundamental na construção desta história: a edição do filme de Felix van Groeningen, o mesmo diretor de “Alabama Monroe” (2012). A ideia de construir uma história fragmentária com pedaços do passado e do presente misturando-se era arriscada, poderia causar confusão, mas ficou muito bem feita. Nela, íamos entendendo aos poucos aquela relação de amor entre pai e filho, a forma como Nic mergulhou nas drogas, se afastou do pai, os erros de cada um, as suas idas e vindas, o fundo do poço... Uma estrutura não linear que trouxe ao filme momentos de pura poesia. 

“Querido menino” fala de um tema muito sério, a dependência química, mas sem cair em falsos moralismos. Por outro lado, é também um filme sobre a força do amor. O amor de um pai pelo filho, de uma família toda por esse filho e sobre não desistir jamais. Mesmo quando tudo parece perdido. E ainda tem uma excelente trilha sonora. 


Cotação da Corneta: nota 8,5. 



sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Balé do capeta

Quem dança os males atrai
É inevitável enredar-se nos caminhos da comparação quando se vê o remake de um filme do passado. O diretor italiano Luca Guadagnino se impôs um desafio ao mergulhar nas trevas de “Suspiria”, mas sem fazer uma cópia frame a frame do trabalho de 1977 do também italiano Dario Argento. Guadagnino preferiu reformular a história original e recriar a trajetória da bailarina Susie Bannion (Dakota Johnson hoje e Jessica Harper no filme original) a partir de outras premissas e com um desfecho diferente para a sua protagonista. O que era um final clássico, normal, na década de 70, transformou-se numa reviravolta nas mãos de Guadagnino.

Porém, o resultado do trabalho como um todo deixou a desejar. Se a obra original crescia em camadas sob um terror psicológico até o seu desfecho culminado por uma revelação, no remake do diretor italiano, a premissa do horror se estabelece desde o início, mas são jogadas tantas cartas na mesa, com direito até a reflexões sobre a política e a Alemanha dos anos 70, que o filme se perde num emaranhando de conceitos sem se aprofundar em nada.

O “Suspiria” de Guadagnino também resolveu abrir mão do benefício da dúvida inicial ao revelar logo de cara que havia algo em torno de atos de bruxaria e a presença de uma Helena Marko, a tal bruxa original cuja história é contada no primeiro filme e neste nunca se incorre em suas origens. Ao contrário, novos elementos surgem, como a presença de uma espécie de cinco madres superioras em torno de Marko, com direito a Madame Blanc, vivida por Tilda Swinton, que nutre uma rivalidade com a bruxa original sobre os rumos macabros ou não da escola de dança. 

Marko é a bruxa que exige sacrifícios, Blanc é a que entende a magia como extensão da arte. Não que ambas não naveguem pelas águas do horror, mas a arte da dança ensinada na academia ainda parece falar mais alto para Blanc, que nutre uma simpatia, até uma empatia pela voracidade, selvageria impactante e entrega ao qual Suzy se impõe quando dança. 

E nisso o filme se perde. Mesmo a ambientação da história não parece ter qualquer conexão. O que a Berlim dividida pelo muro no ano de 1977 tem com relação aos eventos das bruxas? Que paralelos é possível traçar com a política vivida e os atentados do Baader-Menhoff? Será a Alemanha daquele tempo um momento em que o horror se via em cada esquina enquanto as bruxas se alimentavam do medo de quem elas capturavam? Não me pareceu fazer algum sentido a troca da Freiburg original por essa Berlim escura e gélida. 

E ainda há a questão das mensagens. A mãe insubstituível, a palavra de liberdade no muro em frente à escola de dança. Tudo parece ter alguma conexão, mas as ligações são frágeis. Assim como parece quase inútil o papel do psicólogo Josef Klemperer (também vivido por Tilda Swinton). 

Diante dos buracos e da palidez do filme, “Suspiria” se segura apenas em três cenas realmente muito boas. A primeira delas é a dança de Suzy que reflete no horror vivido por Olga (Elena Fokina) na sala dos espelhos. É brutal, é aterrorizante e o desfecho é digno dos melhores filmes de exorcismo/bruxaria. A segunda é a cena da apresentação do musical “Volks”, uma coreografia quase perfeita, mas ao mesmo tempo tão tensa, de tirar o fôlego e de profundo terror que talvez seja o melhor momento do filme. A terceira é a virada final do filme, seu ritual macabro e desfecho.

É louvável que Guadagnino tenha se arriscado num gênero completamente diferente imediatamente depois do estrondoso sucesso de “Me chame pelo seu nome” (2017), filme que ganhou um Oscar de roteiro adaptado. Mas o resultado ficou aquém. “Suspiria” entrega as armas logo no início, não cumpre com perfeição a função de impor o horror, se perde na história e mostra-se muito pálido para um filme que tinha muito potencial levando-se em conta o que a tecnologia de 2018 podia fazer em comparação com a de 1977. 

No fim, o que fica de mais belo é a trilha sonora composta por Thom Yorke, do Radiohead. Um trabalho que merecia um filme melhor. 

Cotação da Corneta: nota 5,5.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

A iminente guerra em "Animais fantásticos"

Dumbledore e seu primeiro pupilo à moda Potter
Se há algo interessante de observar no que está sendo construído com a saga de “Animais Fantásticos” é a genealogia da história de Harry Potter e tudo o que envolve os eventos que vimos em sete livros e oito filmes cujos sucessos deram a J.K.Rowling o poder de fazer o que quiser. Entre eles, escrever o roteiro de filmes baseados no que teria acontecido antes de Potter chegar a Hogwarts. 

Segundo filme da nova franquia, “Os crimes de Grindelwald” começa a engolir a história de Potter e aproximar ainda mais a linha do tempo que separa os eventos do futuro já relatados com os do passado ainda por serem conhecidos. 

E David Yates soube conduzir um pouco melhor está história do que no primeiro filme. Veterano colaborador do mundo de Rowling - ele dirigiu metade dos filmes Potter - Yates deu ao segundo filme tons de dúvidas e de incertezas, e deixou os temores e as inseguranças dos personagens falarem mais alto na história. O que talvez tenha relação uma Europa num período entre guerras. O filme passa-se em 1927, quando o continente ainda está se reconstruindo ao mesmo tempo que havia o temor de uma nova guerra que de fato se iniciaria 12 anos depois. 

Transpondo para o mundo mágico de Rowling, a divisão é ainda mais gritante, pois Grindelwald escapa da prisão e começa a reunir uma série de bruxos insatisfeitos com a vida que levam, escondidos dos humanos, vivendo nas sombras, não podendo usar seus poderes ou até se casar com quem não é bruxo. Muitos querem ser a espécie dominante do planeta. A evolução natural. E o discurso de Grindelwald, vivido por um Johnny Depp num tom um pouco mais acertado, sem exageros e excentricidades de seus últimos trabalhos, é altamente sedutor e gregário para os que se sentem excluídos e oprimidos pelo ministério da Magia e seus aurores. A cena de Depp no cemitério de Père Lachaise ê uma das melhores do filme. 

Depp conteve as suas esquisitices
O ponto da história é um só. É o lema de J.K.Rowling neste momento: “É preciso escolher um lado”. Ê o que Theseus (Callum Turner), diz para o irmão Newt Scamander (Eddie Redmayne) no início. Ao longo do filme, cada um vai escolhendo o seu lado e arregimentando seus exércitos na guerra que parece iminente. Scamander, que, em tese, não tem interesse em escolher lados, mas quer apenas cuidar das suas criaturas, dá a sua resposta apenas no fim, embora sempre soubéssemos qual seria. Ele é o herói e vem se provando muito mais do que um especialista em animais exóticos, mas um bruxo poderoso e sagaz. Ao mesmo tempo em que tem uma timidez e a dificuldade de se relacionar com os humanos em geral. Talvez por isso, a pessoa com quem ele se sinta mais à vontade seja outro ser estranho no mundo mágico, o humano Jacob (Dan Fogler), cuja participação no filme, porém, beira a nulidade.

Outro ponto interessante deste segundo trabalho está em conhecer um pouco mais do passado de um dos personagens mais queridos dos fãs de Harry Potter. Alvo Dumbledore, que ficou muito bem nas mãos de Jude Law. Melhor do que Michael Gambon jamais foi. Aliás, de uma forma geral, uma vantagem desta ainda iniciante franquia de “Animais fantásticos” sobre a de “Harry Potter” é a qualidade dos seus atores. Muitos deles são muito bons e ocupam posições de protagonismo. E este era um problema na franquia anterior, pois alguns atores, em especial, o protagonista, eram sofríveis. 

Mas de volta a Dumbledore, em “Os crimes de Grindelwald” sabemos da aliança outrora sólida do professor com seu antigo amigo. Algo bem documentado nos livros da saga Potter, vemos como era o professor Dumbledore, sempre querido na escola de magia, e conhecemos um pouco mais desse personagem honrado, o braço eternamente pacifista da relação entre os bruxos e da defesa de uma convivência pacífica entre bruxos e humanos. Dumbledore é o viés da educação no mundo de Rowling. É a saída pela educação e pelo conhecimento que traz prosperidade, tolerância e empatia. Pelo menos é o que Dumbledore acredita. E ele vê em Scamander o mesmo espírito desapegado de poder, ao mesmo tempo curioso em participar dos acontecimentos e em buscar justiça, que veria em Harry Potter. Espíritos de certa forma puros que não almejam o poder despertam em Dumbledore uma figura paterna e a necessidade de acolher estas almas que ele prenuncia como vetores de mudança na história dos humanos e dos magos.

Por isso, não devemos nos enganar. O que J.K. Rowling está tentando fazer xom "Animais Fantásticos" é reproduzir a mesma narrativa de "Harry Potter". Scamander, como já vimos, é a contraparte do bruxo protagonista da história anterior. Grindelwald, é o Voldemort da vez. Jacob é o amigo meio idiota fazendo as vezes de Ron Weasley, enquanto Tina é Hermione da vez. Dumbledore é ele mesmo mais jovem, enquanto Queenie é um pouco como Gina Weasley. 

Em comparação ao primeiro filme, que me pareceu longo demais e com pouco conteúdo relevante, a história avança consideravelmente em “Os crimes de Grindelwald”. O que é um ponto positivo. Também há alguns elementos de sombra e desnecessários na trajetória e furos já comuns no trabalho de Rowling. Mas entendo que ainda predomina o interesse em acompanhar o desenrolar da narrativa principal.

E o que resta é o mistério sobre Creedance (Ezra Miller). Qual é o seu real passado? De onde ele realmente vem? O filme joga algumas cartas no ar, mas não dá para confiar em nenhuma delas. Ao menos por enquanto Grindelwald estava certo? Ou há mais sobre Creedance que precisamos saber? O que fica, porém, é o conhecimento de que ele é um dos bruxos mais poderosos a surgirem. E que a guerra, seja entre humanos, seja entre bruxos, é iminente. 

Cotação da Corneta: nota 6,5.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

As viúvas de McQueen

Viola mostra que faz o que deve ser feito
Steve McQueen ainda tem poucos filmes na carreira, mas está entre os diretores que fazem alguns dos trabalhos mais interessantes destes tempos. Seus dois filmes anteriores, “12 anos de escravidão” (2013) e “Shame” (2011) são dois ótimos trabalhos. O primeiro conta a história de um homem livre que morava em Nova York, mas é sequestrado, levado para o sul, onde torna-se escravo e leva 12 anos para ser libertado. O segundo conta a história de um homem que não cultiva qualquer tipo de relacionamento e apenas alimenta seu vício desvairado por sexo, o que o faz mergulhar nas profundezas em busca de cada vez mais prazer.

Em “Viúvas”, o diretor troca o protagonismo masculino pelo feminino. O filme, porém, não é o melhor que McQueen, vencedor de um Oscar em 2014 por “12 anos de escravidão”, já produziu. Mas ainda assim é um McQueen que tenta inverter o tradicional protagonismo masculino dos “filmes de assalto” para as mulheres. E transforma o que seria um golpe numa tragédia que marca todos os envolvidos. Em especial sua protagonista, Verônica, vivida por Viola Davis, talvez a figura mais marcante do filme.

Na trama de McQueen, as mulheres são fortes, lidam com as dores da perda dos seus maridos assaltantes enquanto se equilibram para cuidar do que restou, dos filhos ou refazerem as suas vidas da melhor forma possível. Os homens, por outro lado, são o retrato da decadência do patriarcado masculino.

Harry Rawlings (Liam Neeson) não passa de um covarde que falha no seu suposto plano perfeito e sofre as consequências dos seus atos. Tom Mulligan (Robert Duvall) é o retrato do decadente homem racista senhor de engenho ex-dono de fazendas de escravos americano, cuja família tradicional tem um naco de poder há três gerações em um lado decadente de Chicago e deseja manter o poder como sempre foi, ou seja, passando de pai para filho. Duvall aparece em poucas cenas, mas suas entradas são brilhantes e vivazes em expor até mesmo na natural decadência física do ator de 87 anos o quanto seu personagem representa o passado decrépito que precisa ser superado. 

É onde entra o seu filho, a nova geração que tenta impedir que o comando do 18º distrito passe pela primeira vez para um afro-americano. Jack Mullingan (Colin Farrell), é o velho pensamento apenas envernizado para as novas gerações. Ele pode achar o comportamento do pai odioso, mas embrenha-se nas teias de corrupção da política como qualquer homem branco que se envolve nos podres daquela região. É pragmático em analisar cenários e joga para ganhar, custe o que custar. 

Ele concorre ao cargo político com Jamal Manning (Bryan Tyrree Henry), um notório bandido e traficante da região que tenta se esgueirar na política cujo irmão, Jatemme Manning, brilhantemente interpretado por Daniel Kaluuya, é um psicopata que toca os negócios da família com uma mão de ferro e crueldade própria dos assassinos feios. 

Em meio a eles há o trio formado por Veronica, Alice (Elizabeth Debicki) e Linda (Michelle Rodriguez). Elas são as três viúvas do título e protagonistas dessa história que precisam dar o golpe final traçado por Harry para conseguir US$ 5 milhões que garantiriam a Veronica o pagamento de US$ 2 milhões que o marido devia a Jamal e ainda uma boa grana para elas recomeçarem as suas vidas.

Traçando o perfil dos personagens e combinando com o cenário decadente, escuro e o clima pesado armado por McQueen, “Viúvas” tinha tudo para ser um grande filme. E de fato tem seus bons momentos. Mas a história tem alguns buracos que complicam a sua compreensão. Não fica clara a questão do dinheiro roubado no início e para que ele serviria aos propósitos que são revelados no decorrer do filme. Também não está bem esclarecido o que levou Harry a tomar algumas atitudes no decorrer da história. 

Além disso, a cena do cachorro que sente o cheiro é tão, mas tão clichê, que nem parece um filme do cinema que McQueen tem por hábito realizar. São mais a sua cara e o estilo dele as boas cenas iniciais que contrastavam o assalto, o último assalto realizado pelo grupo de Harry com as vidas caseiras, problemáticas, terríveis ou não, que eles tinham com suas esposas. 

O saldo final, porém, é o de um filme que não supera “12 anos de escravidão” e “Shame”, mas ainda assim é uma história interessante para quem curte o cinema do diretor.


Cotação da Corneta: nota 7.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

A volta de Lisbeth Salander

Que fria em que você se meteu, Lisbeth
Três atrizes já interpretaram Lisbeth Salander em cinco filmes da saga Millenium. Quem mais apareceu é Noomi Rapace, que esteve nos três primeiros filmes. Depois vieram Rooney Mara e agora Claire Foy. Cada uma trouxe um viés para a hacker mercenária que sai pela Suécia fazendo trabalho pouco republicanos e salvando mulheres do jugo de violência e horror masculino. 

Claire Foy trouxe uma combinação do seu carregado sotaque britânico com um lado sombrio que combinou demais com o clima soturno e o frio sueco exibidos em “A garota na teia de aranha”, nova trama de Lisbeth Salander vertida para o cinema.

Esta história, porém, não é do autor sueco Stieg Larsson, criador da série e que morreu em 2004 de uma parada cardíaca após apenas três livros lançados. A história da teia de aranha é de David Lagercrantz, autor e jornalista sueco que foi contratado pela editora Norstedts para continuar a saga deixada por Larsson, que tinha planos de lançar dez livros.

A diferença, porém, na narrativa fica muito clara já na abordagem em comparação com o filme anterior, “Os homens que não amavam as mulheres” (2011). Se aquele era uma história de suspense e mistério que ia aos poucos desenvolvendo a curiosidade do espectador até o desfecho da história, neste há uma clássica história de acerto de contas com o passado e drama familiar, associada a uma roupagem que envolve política, corrupção, mercenários e uma organização criminosa. Tudo com uma postura como se Lisbeth Salander fosse uma versão dark de um James Bond ou Jason Bourne. E isso não necessariamente precisa ser visto sobre um aspecto 100% positivo ou 100% negativo.

Claire Foy é um caso à parte. Bo filme, ela despe-se definitivamente de toda a imponência e liturgia imposta pela s duas temporadas vivendo a rainha Elizabeth em “The Crown” para interpretar essa Lisbeth sem barreiras físicas, do corpo e da alma. É curioso ver essa transformação de quem ficou sendo a cara da rainha até 2017 e agora emenda dois trabalhos no cinema tão diferentes e interessantes. O papel de Janet Armstrong em “O primeiro homem” (2018) e agora de Lisbeth. 

“A garota na teia de aranha” é um bom filme. Nada marcante, um tanto previsível mas um filme bom de se acompanhar. Ainda que esta avaliação esteja prejudicada pela falta de base para analisar comparativamente à obra literária. É impossível para mim analisar se é fiel à obra. Mas apenas como cinema é interessante desse acompanhar. 

Talvez o grande problema deste filme seja a presença um tanto apagada do jornalista Mikael Blomqvist (Sverrir Gudnason). O Blomqvist de Gudnason não tem a mesma força que o de Daniel Craig no filme anterior. E nem o mesmo protagonismo. Em “A garota na teia de aranha”, Blomqvist segue em crise, mas é apenas mais uma peça movida no xadrez pessoal de Lisbeth. Que ela usa quando necessário. Ainda que fique claro que os dois compartilham um passado de questões mal resolvidas. 

Parte dos méritos do filme cabem ao diretor uruguaio Fede Alvarez. Ele soube captar muito bem o clima da saga. Um estilo dark nórdico, muitos tons escuros, faces gélidas - e a vilã Camila, vivida por Sylvia Hoeks, é um expoente disso - e a economia dos movimentos contrastando com cenas de luta claustrofóbicas. Os olhares também dizem muito do que se quer passar. 

São qualidades que mantiveram o fôlego da série. Talvez “A garota na teia de aranha” não seja melhor que “Os homens que não amavam as mulheres”, mas gostaria de ver Claire Foy interpretando mais uma vez a personagem. Lisbeth merece essa grande atriz. 

Cotação da Corneta: nota 6,5.


sábado, 3 de novembro de 2018

Bohemian Rhapsody é decepcionante do início ao fim

Malek no papel de Freddie Mercury
“Bohemian Rhapsody” tinha tudo para ser uma grande cinebiografia. A história do cantor Freddie Mercury é rica e diferente de muitos que viveram no show business e no tempo do surgimento das mega bandas de estádio no século XX. Por si só é exótico um cara que nasceu no Zanzibar, na África, passou a infância na Índia e depois foi forçado a imigrar para a Inglaterra por causa de uma revolução no seu país, começou a estudar design e de repente se junta com um quase dentista, um quase físico e um quase engenheiro mecânico para montar uma banda que seria uma usina de hits nos anos 70 e 80. 

Mas “Bohemian Rhapsody” é um filme preguiçoso que não entrega sequer o básico, que seria uma cinebiografia careta, linear e pautada por momentos históricos da banda e do seu vocalista. É um trabalho superficial, errático, que não acrescenta nada de novo ou relevante à biografia do Queen ou do próprio Freddie, uma das grandes vozes da história do rock.

O filme, por exemplo, tangencia questões importantes que mereciam ser mais aprofundadas. Listo algumas: por que a relação de Freddie com a família é tão fria e cheia lacunas? Como foi a sua infância em Zanzibar e na Índia, onde, aliás, ele começou a aprender piano? Que tipo de influência ele pode ter sofrido dessa vida nestes dois lugares? No que a família, a imigração o influenciaram ou não para ser o que ele se tornou? Por que negar o nome e as origens? São questões que poderiam ter sido feitas e não foram respondidas. No filme, sua família é quase uma ponta na história. 

A própria relação de Freddie com sua homossexualidade, bem como seus conflitos internos, carência e solidão não são devidamente tratados/aproveitados para tentar compreender quem era Freddie. Em resumo, é um filme que entrega muito pouco.

É claro que a produção sofreu diversos problemas. Inicialmente, Freddie seria interpretado por Sacha Baron Cohen, mas divergências com o guitarrista Brian May e o baterista Roger Taylor, acabaram dinamitando a sua participação. O lugar acabou sendo ocupado por Rami Malek, conhecido por sua participação na série de TV “Mr Robot”, mas que entrega um Freddie apenas aceitável e nada marcante.

Depois disso, o próprio Bryan Singer foi demitido da produção faltando duas semanas para o fim das filmagens. Direção esta que caiu no colo de Dexter Fletcher. Mas o filme acabou tendo mesma cara dos últimos trabalhos de Singer, com pouca profundidade na abordagem dos personagens e trabalhos aquém do esperado. “X-Men: Apocalipse” (2016) é um exemplo.

De fato, “Bohemian Rhapsody” apenas se escora nas boas canções do Queen, especialmente as que representaram turning points na carreira da banda - “Bohemian Rhapsody”, “Love of my life”, “We Will Rock you”, “I want to break free”, “We are the Champions”, “Another one bites the dust”- para trazerem um conforto no coração do espectador. Teria sido mais proveitoso e barato, porém, ouvir um greatest hits do Queen no Spotify.

O roteiro de Anthony McCarten e Peter Morgan, este responsável por filmes muito bons como “O último rei da Escócia” (2005), “A Rainha” (2006), “Frost/Nixon” (2008) e “Rush” (2013) também peca ao não fornecer informações básicas, colocar o Rock in Rio num tempo e espaço aleatórios entre 1975 e 1985 e criar diálogos ruins. Nem parece que tinha ali uma banda criando grandes hits. E mesmo estes momentos de criação dos músicos soam fake e sem alma.

Se Malek está longe de ser marcante, mas também não compromete uma engrenagem que é falha do início ao fim, os atores que fazem os demais integrantes da banda – sempre vistos pela narrativa com extrema generosidade – são fracos. Gwilym Lee (Brian May), Ben Hardy (Roger Taylor), Joseph Mazzello (John Deacon) está ali para não comprometer e serem as peças sóbrias da egotrip de Freddie Mercury. Já o empresário Paul Prenter (Allen Leech) é pintado como o vilão do filme, o responsável pelos atritos entre Freddie e o resto da banda e até pela separação temporária dela.

Assim, “Bohemian Rhapsody” atravessa suas 2h15min devendo muito. Seus momentos mais marcantes acabam por ser a cena de Malek na chuva, quando Freddie resolve sair do fundo do poço para retomar a carreira com o Queen e a apresentação histórica no Live Aid de 1985, um ponto fundamental para a banda e Freddie, e colocado num contexto em que o cantor tinha acabado de saber que estava com Aids, doença que acabaria contribuindo para a sua morte seis anos depois. Mas infelizmente toda a linha do tempo do Queen no filme não bate sequer 70% do que aconteceu realmente. Assim como o espectador sai do cinema sem saber sequer o nome de um disco da banda.

Singer, aliás, optou por colocar um pocket show fake do Queen dentro do filme para retratar a performance no Live Aid. Não sei se foi a melhor opção. Pareceu-me sim uma opção preguiçosa. Pois não era um filme e nem um verdadeiro show do Queen, trazendo ruídos para todos os lados. 

Assim “Bohemian Rhapsody” termina com a falsa sensação de sair por cima, quando na verdade deixou mais buracos e um pouco de entretenimento num filme absolutamente dispensável. 

Cotação da Corneta: nota 3,5.


domingo, 28 de outubro de 2018

Desafiando regimes

Os jovens que enfrentaram o regime antes do muro
“A revolução silenciosa” é uma história real. E aconteceu cinco anos antes da construção do Muro de Berlim. Conta a jornada de uma turma de uma escola na antiga Alemanha Oriental que resolveu desafiar o rígido sistema socialista da União Soviética fazendo dois minutos de silêncio pelas vítimas de uma revolta contra os soviéticos que começava na Hungria. 

O problema que o gesto simbólico e inocente diante de um regime acostumado a controlar cada passo dos seus cidadãos custou caro. Foi visto como uma contrarrevolução, um ato de violência contra a RDA e levou ao inquérito com diversas torturas psicológicas dos jovens. 

Liderados por  Kurt (Tom Gramenz) e Theo (Leonardo Scheicher), dois amigos que iniciaram o movimento, os jovens só queriam liberdade e que os russos deixassem a Alemanha. Mais do que nunca, porém, eram jovens que estavam experienciando o debate político, Os próprios soldados russos queriam voltar para casa. Mas manter o poder e os territórios em plena guerra fria era fundamental para os soviéticos. 

No meio da disputa e da inacreditável pressão feita pelo ministério da educação da Alemanha Oriental, os jovens resistem, discutem, insistem, e, no fundo, repetem a história dos pais. Especialmente Theo e Erik. O primeiro era filho de um metalúrgico que participou de uma revolta ocorrida em 1953 e perdeu a chance de continuar seus estudos. O segundo era filho de um dito colaboracionista, considerado homem fraco por ter traído a RDA. 

No meio deles, quem destoa ê Kurt, o oposto do pai, que exerce um cargo alto no governo alemão. Kurt revela-se, quer mais do que a vida certinha e tolhida criada pela família. 

Eram jovens que ainda estavam criando suas próprias referências políticas e morais e que tiveram que lutar contra um regime perverso e alienante. No fim, precisaram abrir mão de muita coisa para seguirem sonhando com liberdade nos pensamentos. 


Cotação da Corneta: nota 7,5


quinta-feira, 25 de outubro de 2018

A insana viagem para a Lua

Não é fácil ser astronauta
Muitos filmes já foram feitos sobre a conquista do espaço. Mas acho que poucos souberem retratar com tamanha acuidade esse desafio insano rumo ao desconhecido quanto Damien Chazelle em “O primeiro homem”. 

Mais novo trabalho do diretor que ficou mais conhecido pelo sensacional “Whiplash” (2014) e que venceu o Oscar de melhor diretor por “La La Land” (2016), “O primeiro homem” é uma cinebiografia. Supostamente deveria contar a história de Neil Armstrong (vivido por um Ryan Gosling contido, quase encurralado pelo desafio de ir até a Lua), mas isso é o pano de fundo de uma história ainda maior que é a o desafio de chegar aonde nenhum homem jamais estivera até então. 

Chazelle trouxe um realismo impressionante â experiência da corrida espacial. Levou para a tela o incomodo que é pilotar um foguete. A incerteza daquelas máquinas em plenos anos 60, pouco mais de seis décadas depois que o homem aprendeu a voar. Levou o medo, fez questão de esfregar nas nossas caras o quão insano e desafiador era até então ser um astronauta. E talvez seja até hoje. 

E ele expõe isso nas cenas nauseantes das máquinas balançando horrores. No isolamento e na solidão de se estar em órbita. Na tensão e na incerteza da volta. Na dificuldade de acertar cálculos tão difíceis para um humano normal compreender. Um erro é nada menos do que fatal. Tudo para chegar naquele momento em que se dá um “pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a humanidade”. 

No seu filme, a Lua está sempre à espreita. Ali, do alto, sendo observada, estudada, admirada, contemplada. E desafiando aqueles aventureiros modernos. A cada fracasso ela parece mais distante. A cada pequeno triunfo, ela surge mais perto. Alguns enquadramentos também ressaltam a dupla face do satélite natural da Terra. O lado escuro e claro na face de um Neil Armstrong preocupado com o futuro, no rosto do seu filho quando pergunta se ele pode não voltar. A Lua talvez tenha sido (e talvez continue sendo) um desafio tão grande quanto o das caravelas rumo ao desconhecido nos séculos XV e XVI. 

Para enfatizar tudo isso, Chazelle reduz a trilha sonora ao mínimo possível. Se “Whiplash” era um filme todo pontuado pela trilha, e “La La Land” era um musical de canções marcantes, “O primeiro homem” exalta o silêncio solitário da viagem para além da Terra pontuado apenas por canções épicas compostas por Justin Hurwitz – o mesmo de “Whiplash” e “La La Land” - para dramatizar os momentos mais marcantes. Em especial a partida da Apolo 11 de Houston e o pouso na Lua. 

“O primeiro homem” é um filme belo. Não é muito verborrágico e por vezes tem diálogos erráticos. Algo bem diferente dos trabalhos anteriores do roteirista Josh Singer, vencedor do Oscar por “Spotligh” (2015) e que também escreveu “The Post” (2017). A cena final de Neil Armstrong reencontrando a mulher (a ótima Claire Foy, a rainha Elizabeth nas duas primeiras temporadas de “The Crown”) é de uma beleza singular. Nada é dito naqueles minutos finais. É como se o silêncio do espaço e as incertezas permanecessem até a volta à Terra. Mas ao mesmo tempo muita coisa é dita naquela troca de olhares e pequenos gestos através do vidro. Cenas como essa valem demais o filme. 

Cotação da Corneta: nota 8,5

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Aquele conto de fadas bonitinho e cafona

Solta a voz, Lady Gaga
“Nasce uma estrela” é um conto de fadas. Um conto de fadas um pouco mais moderno e com um final bem mais interessante que os tradicionais, mas uma história que não difere muito das Cinderelas da vida. 

Como todo conto de fadas, é cafona. É brega. E remete ao choro fácil e às lágrimas programadas para saírem em determinados pontos do filme para trazer ao espectador a sensação de emoção, encantamento e aperto no coração. 

Tudo tem seu valor, mas se você não cai no conto de fadas, não tem muito o que tirar do filme a não ser considerá-lo bonitinho. Afinal, é bonitinho ver uma história de superação e amor entre dois jovens bonitos e talentosos, mas cada um com seus problemas e frustrações não resolvidos na terapia. 

De um lado temos Jackson Maine vivido com talento por um Bradley Cooper emulando Jeff Bridges em “Coração Louco” (2009). Maine é um cantor famoso que tem sérios problemas com bebida, herança do pai alcoólatra que morreu quando ele tinha 13 anos. 

Do outro temos Ally vivida por uma Lady Gaga que tem um desempenho satisfatório como atriz. Ally é uma aspirante a cantora com um talento raro, mas sempre rejeitada pela indústria por sua aparência assimétrica.

Quando estas duas almas se cruzam num bar de drag queens, um encontro improvável não fosse o vício de Maine pelo álcool, há um estalo, um riscar de fósforo que aproximará dois talentos ímpares que vão se complementar e se reerguer cada um à sua maneira. 

Maine traz luz à carreira de Ally, a lança para a multidão, enquanto ele mesmo mergulha profundamente nas trevas do álcool num processo que parece irreversível. A trajetória dos dois é de opostos, ascendente e descendente, que se cruzam no momento mais feliz do casal, mas criam atritos quando ambos seguem caminhos opostos. Ally, cada vez mais uma estrela pop, Maine cada vez mais um cantor decadente, depressivo e com problemas de audição. 

Mas é um conto de fadas. O amor entre eles é muito forte. Principalmente de Ally, que nunca sente a carreira prejudicada mesmo nos momentos mais embaraçoso dela causados por ele. Tudo o que Ally deseja é fazer por Jack o mesmo que ele fez por ela enquanto ela era uma mera funcionária de restaurante que fazia bicos de cantora em bares de esquina. Assim é o amor. Ainda que nem sempre as coisas possam sair como o sonhado. 

“Nasce uma estrela” é a terceira refilmagem da versão originalmente lançada em 1937 e estrelada por Janet Gaynor e Fredric March. A diferença para o filme original é o cenário. Lá, era a indústria do cinema, aqui, a da música. Mas o enredo é o mesmo. 

O filme atual tem boas canções e, no mínimo, deve receber indicações ao Oscar para as categorias musicais. A presença de Lady Gaga cantando na tela dá um peso ainda maior, uma vez que não é uma atriz se esforçando para cantar, mas alguém cujo talento nessa arte é mais do que reconhecido. São as cenas em que, naturalmente, ela mais está à vontade. Ainda que aquele olhar inocente de quem não está entendendo o que se passa na vida, mas está se esforçando para atuar tenha funcionado muito bem para o papel dela. No cômputo geral, Gaga vai bem. 

Como tem vários elementos que o Oscar adora como história de superação, drama, amor e tragédia, não me surpreenderia se “Nasce uma estrela” também ganhar algumas indicações ao Oscar em outras categorias. Contudo, é um filme que não vai além do bonitinho bem feito. 

Cotação da Corneta: nota 7

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Falta um certo aracnídeo

Ele é mau, mas agora nem tanto
Não existem muitas razões diferentes da mercadológica para fazer um filme sobre o Venom. Tudo bem que a simbiose entre o alienígena e o jornalista Eddie Brock (vivido naquele esquema com um pé nas costas por Tom Hardy) é um dos vilōes mais populares do universo do Homem-Aranha. E aí é que está a questão. Como um vilão pode ser protagonista se ele nasceu para ser antagonista? 

A solução encontrada foi a pior possível. Sem a presença do Homem-Aranha, devidamente recolocado no chapéu do universo cinematográfico da Marvel, “Venom”, o filme, fica com um buraco difícil de tapar. E a solução para isso  foi transformar ele num quase herói, um loser tentando se encontrar no mundo, uma junção de dois corpos formados pelo bem (Eddie Brock) e o mau (Venom), transformando o personagem num anti-herói, ou uma versão pós-moderna do “médico e o monstro”. 

Dá certo? Só em parte. É difícil imaginar que um personagem que nasceu do ódio de ambos (organismo simbiótico e Eddie) por Peter Parker e o Homem-Aranha possam sair por aí agora salvando o universo. 

A verdadeira origem do Venom foi toda jogada fora em prol da criação de um filme feito para a Sony tentar explorar ao máximo o universo do Homem-Aranha sem usar o grande protagonista do mesmo. 

Venom, porém, não vai além de um filme meramente ok baseado nos quadrinhos da Marvel. Tem efeitos especiais que fazem a diferença para o Venom. E a evolução tecnológica só fez bem em relação à aparição do personagem em “Homem-Aranha 3” (2007). Mas sua história é esquizofrênica quase como que tentando ver o lado bom de Eddie Brock e vendo o jornalista como uma vítima do parasita alienígena. 

Venom certamente ganhará uma continuação. A presença do Carnificina (Woody Harrelson) nas cenas extras garantem essa possibilidade. Mas parece que sempre faltará algo em filmes como este. E esse algo é a presença do herói ou de um antagonista para o vilão sem que ele deixe de ser um vilão. Mas talvez o futuro filme do Coringa desminta a minha tese. 

Cotação da Corneta: nota 6

domingo, 7 de outubro de 2018

O ódio será sua herança?

Sócrates e Aristóteles
Sempre fui contra o voto obrigatório. Não porque eu fosse revoltado. Bom, eu sou revoltado. Mas não era por isso. Só não gosto de nada que seja obrigatório. Do voto ao alistamento militar. Ao mesmo tempo nunca deixei de votar. Era quase uma tradição eu sair caminhando pelas ruas de Niterói até o colégio Abel para depositar minha singela contribuição para o país ao som do meu heavy metalzinho. No início, eu fazia isso com um walkman onde colocava uma fita para tocar. Nas últimas eleições eu adotei os apps tradicionais no IPhone. Um upgrade e tanto.

O Brasil, por outro lado, parece estar sofrendo um downgrade. E dessa vez eu só posso observar de longe. Uma enorme rasteira da vida me impediu de viajar para votar. O plano era esse. E quando ele foi traçado eu nem desconfiava que hoje muitos estariam com o coração na boca e temendo pelo pior. Tá um climão tão esquisito que eu até ouvi a seguinte frase de dois colegas portugueses.

- Até eu quero votar nestas eleições.

Eu queria muito. Nunca faltei uma eleição, mas é a vida. Só espero que as pessoas reflitam sobre o seu próprio comportamento desde a Copa do Mundo. Nos últimos meses eu li muito discurso de ódio de todos os lados. A educação das pessoas foi mais vezes rebaixado que Fluminense e Vasco juntos. Juntando isso com a enxurrada de fake news o clima ficou nas raias do insuportável. É preciso mesmo despejar tanta bile para defender pontos de vista? O objetivo de todos não deveria ser o bem comum?

Aristóteles dizia que a política busca a virtude dos seus cidadãos para o bem comum e que seu objetivo “é criar a amizade entre membros da cidade”. Sendo assim, “a política não deveria ser a arte de dominar, mas sim a arte de fazer justiça”.

Uma frase atribuída a Sócrates diz que “as mentes brilhantes discutem ideias fortes; as mentes médias discutem eventos; as mentes fracas discutem com outras pessoas”. O filósofo também dizia que “a forma mais nobre e mais fácil de andar não é esmagando os outros, mas melhorando a si mesmo”.

É preciso, portanto, menos tribalismo e mais noção de humanidade.

Quem chegou até aqui talvez esteja me chamando de inocente e bobo. Não me importo. Decidi que o importante é espalhar o amor.

Votem com consciência e reflitam bem antes de apertar os botões das maquininhas. A maioria aqui deve ter visto “Guerra Infinita”. Vocês viram o que acontece quando alguém como o Thanos assume o poder absoluto do universo. E não é em todo lugar que a gente encontra um Adam Warlock para salvar a pátria (foi mal pelo spoiler de 2019).