É um novo dia para Peter Parker (Tom Holland). Mais um novo e longo dia para um jovem que, mesmo vivendo numa metrópole cheia de vida e que nunca dorme como Nova York, é solitário, sem amigos e carrega um peso grande nas costas. O peso de ser um exemplo para a cidade e defendê-la de todo o tipo de bandidos vestindo o uniforme do Homem-Aranha. Dos poderosos como O Escorpião (Michael Mando) e Lápide (Marvin Jones III), a criminosos comuns.
É um Peter solitário e deprimido que encontramos em “Homem-Aranha: Um novo dia” (“Spider-Man: Brand New Day”, no original). Um Peter que vê os amigos MJ (Zendaya) e Ned Leeds (Jacob Batalon) concluírem a faculdade sem que eles sequer saibam que ele existe. Um Peter que sente falta da tia May (Marisa Tomei), que o educou com sabedoria e gentileza até o dia da sua morte.
É também um Peter workaholic que vemos em cena. Que usando toda a tecnologia que criou, vai de um lado a outro da cidade prendendo bandidos. Se Peter é um fantasma em Nova York, o Homem-Aranha faz diferença, ajudando a reduzir drasticamente a taxa de criminalidade da cidade. Graças a isso, o Homem-Aranha conta com a simpatia de sua parceira improvável, a detetive Jean DeWolff (Liza Colón-Zayas). Na ausência de May, DeWolff é quem faz quase um papel de mãe para o herói ao revelar a sua preocupação com as atividades intensas dele.
E tudo isso é construído em pouco menos de uma hora de “Homem-Aranha: um novo dia”. Dirigido por Destin Daniel Cretton, da série “Magnum” (2026) e do filme “Shang-Chi e a lenda dos dez anéis” (2021), ambas produções da Marvel, o quarto filme estrelado por Tom Holland revelou-se um dos mais maduros do herói.
Toda a tônica do filme é uma jornada de crescimento, amadurecimento e aumento de responsabilidade. Depois de perder tudo, em “Homem-Aranha: Sem volta para casa” (2021), Peter Parker vê-se entrando na vida adulta e sendo forçado a amadurecer enquanto precisa lidar com novas ameaças e mudanças físicas no seu corpo.
O filme é também sobre aprendizado. Sobre como somos seres interdependentes e não podemos viver sozinhos. Por vezes, precisamos de ajuda. Algo que o Homem-Aranha já entende, mas que Peter Parker precisou entender ao longo de sua jornada.
Cretton e os roteiristas Chris McKenna e Erik Sommers conseguiram um feito raro no decadente cinema de super-herói dos últimos anos. Construir um filme que tem um sem número de participações, mas que é coeso e focado na figura mais importante para aquela história: o Homem-Aranha. O filme todo é sobre Peter Parker e o Homem-Aranha. É sobre as escolhas que ele faz, o seu crescimento como ser humano e como herói, a sua evolução e a sua passagem para um próximo estágio de sua vida.
Todos os personagens que aparecem ao seu redor como Yelena Belova (Florence Pugh), Dr. Bruce Banner (Mark Ruffalo), o Justiceiro (Jon Bernthal) e a personagem interpretada por Sadie Sink cujo nome não direi para não estragar um ponto importante do filme, são para ajudar Peter Parker em sua jornada de amadurecimento. Ao passo que eles também aprendem com o que Peter Parker tem a dizer. Debatem questões éticas, debatem sobre como devem agir… todos os personagens acabam por ajudar a enaltecer a força ética e moral que Peter Parker exibe publicamente através do alter ego, não importando os sacrifícios que ele precisa fazer. Força essa que Peter recebeu da educação que recebeu dos tios. Especialmente de May.
Sempre houve muita crítica sobre a questão do Universo Marvel não ter seus heróis se cruzando pelas ruas. Muitos heróis se concentram em Nova York ou nas proximidades e sempre surgiu a questão como eles nunca se esbarraram pelas ruas. “Homem-Aranha: Um novo dia” mostra como isso pode ser gerado de forma orgânica sem perder o foco na história principal. Suas participações são na medida certa e até quando se faz a introdução de uma nova personagem no universo, ela tem o que dizer, tem uma troca a fazer com Peter Parker no processo de amadurecimento de ambos, mas a história nunca deixa de ser sobre o dono do título do filme.
Ver este filme tornou um pouco pior os recentes filmes da DC, “Superman” (2025) e “Supergirl” (2026). Ambos continuam sendo divertidos e bem legais, mas os dois falharam em trazer personagens para os filmes e deixá-los de forma orgânica na história. No caso de “Supergirl”, a presença do Lobo (Jason Momoa) parece um curta dentro do filme. No caso de “Superman”, tem momentos que parece que o filme deixa de ser sobre o herói e sua batalha com Lex Luthor.
Isso não acontece neste novo filme do Homem-Aranha, onde cada ponto da história é sobre o seu crescimento. É sobre entender que grandes poderes trazem grandes responsabilidades, mas que não se deve inibir os seus poderes, mas saber usá-los com sabedoria. É sobre entender que o caminho mais fácil nem sempre é o melhor. É sobre confiar nas pessoas, mas não ser inocente e se deixar enganar. É sobre perceber que o caminho fica menos doloroso, quando se tem pessoas com quem caminhar ao seu lado.
É fascinante também como o filme quebra um pouco a dinâmica clássica dos filmes de super-herói. Não há um herói x vilão em “Um novo dia”, mas sim a tentativa de salvar a cidade a partir de uma série de decisões certas e erradas no dia a dia. E nesse ponto, que dinâmica interessante tem o Peter Parker com a personagem de Sadie Sink, que surge como sua antagonista. Ela não é uma vilã, mas alguém que aparece na vida dele e eles entram em choque porque ambos estão enganados sobre suas ideias preconcebidas. Ambos estão em luto e deprimidos. E os dois aprendem juntos a partir da dor da perda que os une que se pode construir algo maior do que vingança. E isso com Peter expondo suas fragilidades e se abrindo para resolver um problema que não se resolve pela força.
“Homem-Aranha: Um novo dia” é um filme saboroso do herói. Uma jornada de amadurecimento que nos levará para um outro passo em sua história. Se eu posso fazer alguma crítica ao filme, está em dois pontos:
1) O fato de não mostrar como o Peter Parker ganhou dinheiro para construir os seus gadgets todos que costuram o seu uniforme, os computadores e até uma Inteligência Artificial particular.
2) A mudança de tom do Justiceiro, do cão raivoso que vimos na série do Demolidor e no seu recente especial para o streaming do Disney Plus, para um cara duro, mas ao mesmo tempo mais justo e parceiro neste filme. Gosto mais do Justiceiro que vi neste filme. Espero que o personagem de Jon Bernthal siga nesse meio termo daqui para a frente. Um cara duro, mas sem perder um certo nível de, vá lá, doçura.
Mas não é nada que atrapalhe um filme que ainda tem um Tom Holland incrivelmente bem no papel principal. “Homem-Aranha: Um novo dia” entregou tudo o que podia para ser um filme excelente. Tem uma boa história, boas interpretações, um roteiro redondinho, ótimas cenas de ação, carisma e discussões relevantes. E este sempre foi o diferencial dos quadrinhos da Marvel. Pena que não vejamos muito disso no cinema ultimamente.
Nota 9,5/10.

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