“A revolução silenciosa” é uma
história real. E aconteceu cinco anos antes da construção do Muro de Berlim.
Conta a jornada de uma turma de uma escola na antiga Alemanha Oriental que
resolveu desafiar o rígido sistema socialista da União Soviética fazendo dois
minutos de silêncio pelas vítimas de uma revolta contra os soviéticos que
começava na Hungria.
O problema que o gesto simbólico e
inocente diante de um regime acostumado a controlar cada passo dos seus
cidadãos custou caro. Foi visto como uma contrarrevolução, um ato de violência
contra a RDA e levou ao inquérito com diversas torturas psicológicas dos
jovens.
Liderados por Kurt (Tom
Gramenz) e Theo (Leonardo Scheicher), dois amigos que iniciaram o movimento, os
jovens só queriam liberdade e que os russos deixassem a Alemanha. Mais do que
nunca, porém, eram jovens que estavam experienciando o debate político, Os
próprios soldados russos queriam voltar para casa. Mas manter o poder e os
territórios em plena guerra fria era fundamental para os soviéticos.
No meio da disputa e da inacreditável
pressão feita pelo ministério da educação da Alemanha Oriental, os jovens
resistem, discutem, insistem, e, no fundo, repetem a história dos pais.
Especialmente Theo e Erik. O primeiro era filho de um metalúrgico que
participou de uma revolta ocorrida em 1953 e perdeu a chance de continuar seus
estudos. O segundo era filho de um dito colaboracionista, considerado homem
fraco por ter traído a RDA.
No meio deles, quem destoa ê Kurt, o
oposto do pai, que exerce um cargo alto no governo alemão. Kurt revela-se, quer
mais do que a vida certinha e tolhida criada pela família.
Eram jovens que ainda estavam criando
suas próprias referências políticas e morais e que tiveram que lutar contra um
regime perverso e alienante. No fim, precisaram abrir mão de muita coisa para
seguirem sonhando com liberdade nos pensamentos.
Muitos filmes já foram feitos sobre a
conquista do espaço. Mas acho que poucos souberem retratar com tamanha acuidade
esse desafio insano rumo ao desconhecido quanto Damien Chazelle em “O primeiro
homem”.
Mais novo trabalho do diretor que
ficou mais conhecido pelo sensacional “Whiplash” (2014) e que venceu o Oscar de
melhor diretor por “La La Land” (2016), “O primeiro homem” é uma cinebiografia.
Supostamente deveria contar a história de Neil Armstrong (vivido por um Ryan
Gosling contido, quase encurralado pelo desafio de ir até a Lua), mas isso é o
pano de fundo de uma história ainda maior que é a o desafio de chegar aonde
nenhum homem jamais estivera até então.
Chazelle trouxe um realismo
impressionante â experiência da corrida espacial. Levou para a tela o incomodo
que é pilotar um foguete. A incerteza daquelas máquinas em plenos anos 60,
pouco mais de seis décadas depois que o homem aprendeu a voar. Levou o medo,
fez questão de esfregar nas nossas caras o quão insano e desafiador era até
então ser um astronauta. E talvez seja até hoje.
E ele expõe isso nas cenas nauseantes
das máquinas balançando horrores. No isolamento e na solidão de se estar em
órbita. Na tensão e na incerteza da volta. Na dificuldade de acertar cálculos
tão difíceis para um humano normal compreender. Um erro é nada menos do que
fatal. Tudo para chegar naquele momento em que se dá um “pequeno passo para um
homem, mas um grande salto para a humanidade”.
No seu filme, a Lua está sempre à
espreita. Ali, do alto, sendo observada, estudada, admirada, contemplada. E
desafiando aqueles aventureiros modernos. A cada fracasso ela parece mais
distante. A cada pequeno triunfo, ela surge mais perto. Alguns enquadramentos
também ressaltam a dupla face do satélite natural da Terra. O lado escuro e
claro na face de um Neil Armstrong preocupado com o futuro, no rosto do seu
filho quando pergunta se ele pode não voltar. A Lua talvez tenha sido (e talvez
continue sendo) um desafio tão grande quanto o das caravelas rumo ao
desconhecido nos séculos XV e XVI.
Para enfatizar tudo isso, Chazelle
reduz a trilha sonora ao mínimo possível. Se “Whiplash” era um filme todo
pontuado pela trilha, e “La La Land” era um musical de canções marcantes, “O
primeiro homem” exalta o silêncio solitário da viagem para além da Terra
pontuado apenas por canções épicas compostas por Justin Hurwitz – o mesmo de “Whiplash”
e “La La Land” - para dramatizar os momentos mais marcantes. Em especial a
partida da Apolo 11 de Houston e o pouso na Lua.
“O primeiro homem” é um filme belo. Não
é muito verborrágico e por vezes tem diálogos erráticos. Algo bem diferente dos
trabalhos anteriores do roteirista Josh Singer, vencedor do Oscar por “Spotligh”
(2015) e que também escreveu “The Post” (2017). A cena final de Neil Armstrong
reencontrando a mulher (a ótima Claire Foy, a rainha Elizabeth nas duas
primeiras temporadas de “The Crown”) é de uma beleza singular. Nada é dito
naqueles minutos finais. É como se o silêncio do espaço e as incertezas permanecessem
até a volta à Terra. Mas ao mesmo tempo muita coisa é dita naquela troca de
olhares e pequenos gestos através do vidro. Cenas como essa valem demais o
filme.
“Nasce uma estrela” é um conto de fadas. Um conto
de fadas um pouco mais moderno e com um final bem mais interessante que os
tradicionais, mas uma história que não difere muito das Cinderelas da
vida.
Como todo conto de fadas, é cafona. É brega. E
remete ao choro fácil e às lágrimas programadas para saírem em determinados
pontos do filme para trazer ao espectador a sensação de emoção, encantamento e aperto no coração.
Tudo tem seu valor, mas se você não cai no conto de
fadas, não tem muito o que tirar do filme a não ser considerá-lo bonitinho.
Afinal, é bonitinho ver uma história de superação e amor entre dois jovens
bonitos e talentosos, mas cada um com seus problemas e frustrações não
resolvidos na terapia.
De um lado temos Jackson Maine vivido com talento
por um Bradley Cooper emulando Jeff Bridges em “Coração Louco” (2009). Maine é
um cantor famoso que tem sérios problemas com bebida, herança do pai alcoólatra
que morreu quando ele tinha 13 anos.
Do outro temos Ally vivida por uma Lady Gaga que
tem um desempenho satisfatório como atriz. Ally é uma aspirante a cantora com
um talento raro, mas sempre rejeitada pela indústria por sua aparência
assimétrica.
Quando estas duas almas se cruzam num bar de drag
queens, um encontro improvável não fosse o vício de Maine pelo álcool, há um
estalo, um riscar de fósforo que aproximará dois talentos ímpares que vão se
complementar e se reerguer cada um à sua maneira.
Maine traz luz à carreira de Ally, a lança para a
multidão, enquanto ele mesmo mergulha profundamente nas trevas do álcool num
processo que parece irreversível. A trajetória dos dois é de opostos,
ascendente e descendente, que se cruzam no momento mais feliz do casal, mas
criam atritos quando ambos seguem caminhos opostos. Ally, cada vez mais uma
estrela pop, Maine cada vez mais um cantor decadente, depressivo e com
problemas de audição.
Mas é um conto de fadas. O amor entre eles é muito
forte. Principalmente de Ally, que nunca sente a carreira prejudicada mesmo nos
momentos mais embaraçoso dela causados por ele. Tudo o que Ally deseja é fazer
por Jack o mesmo que ele fez por ela enquanto ela era uma mera funcionária de
restaurante que fazia bicos de cantora em bares de esquina. Assim é o amor.
Ainda que nem sempre as coisas possam sair como o sonhado.
“Nasce uma estrela” é a terceira refilmagem da
versão originalmente lançada em 1937 e estrelada por Janet Gaynor e Fredric
March. A diferença para o filme original é o cenário. Lá, era a indústria do
cinema, aqui, a da música. Mas o enredo é o mesmo.
O filme atual tem boas canções e, no mínimo, deve
receber indicações ao Oscar para as categorias musicais. A presença de Lady
Gaga cantando na tela dá um peso ainda maior, uma vez que não é uma atriz se
esforçando para cantar, mas alguém cujo talento nessa arte é mais do que
reconhecido. São as cenas em que, naturalmente, ela mais está à vontade. Ainda
que aquele olhar inocente de quem não está entendendo o que se passa na vida,
mas está se esforçando para atuar tenha funcionado muito bem para o papel dela. No
cômputo geral, Gaga vai bem.
Como tem vários elementos que o Oscar adora como
história de superação, drama, amor e tragédia, não me surpreenderia se “Nasce
uma estrela” também ganhar algumas indicações ao Oscar em outras categorias.
Contudo, é um filme que não vai além do bonitinho bem feito.
Não existem muitas razões diferentes da
mercadológica para fazer um filme sobre o Venom. Tudo bem que a simbiose entre
o alienígena e o jornalista Eddie Brock (vivido naquele esquema com um pé nas
costas por Tom Hardy) é um dos vilōes mais populares do universo do
Homem-Aranha. E aí é que está a questão. Como um vilão pode ser protagonista se
ele nasceu para ser antagonista?
A solução encontrada foi a pior possível. Sem a
presença do Homem-Aranha, devidamente recolocado no chapéu do universo
cinematográfico da Marvel, “Venom”, o filme, fica com um buraco difícil de
tapar. E a solução para isso foi transformar ele num quase
herói, um loser tentando se encontrar no mundo, uma junção de dois corpos
formados pelo bem (Eddie Brock) e o mau (Venom), transformando o personagem num
anti-herói, ou uma versão pós-moderna do “médico e o monstro”.
Dá certo? Só em parte. É difícil imaginar que um
personagem que nasceu do ódio de ambos (organismo simbiótico e Eddie) por Peter
Parker e o Homem-Aranha possam sair por aí agora salvando o universo.
A verdadeira origem do Venom foi toda jogada fora
em prol da criação de um filme feito para a Sony tentar explorar ao máximo o
universo do Homem-Aranha sem usar o grande protagonista do mesmo.
Venom, porém, não vai além de um filme meramente ok
baseado nos quadrinhos da Marvel. Tem efeitos especiais que fazem a diferença
para o Venom. E a evolução tecnológica só fez bem em relação à aparição do
personagem em “Homem-Aranha 3” (2007). Mas sua história é esquizofrênica quase
como que tentando ver o lado bom de Eddie Brock e vendo o jornalista como uma
vítima do parasita alienígena.
Venom certamente ganhará uma continuação. A
presença do Carnificina (Woody Harrelson) nas cenas extras garantem essa
possibilidade. Mas parece que sempre faltará algo em filmes como este. E esse
algo é a presença do herói ou de um antagonista para o vilão sem que ele deixe
de ser um vilão. Mas talvez o futuro filme do Coringa desminta a minha
tese.
Sempre fui contra o voto
obrigatório. Não porque eu fosse revoltado. Bom, eu sou revoltado. Mas não era
por isso. Só não gosto de nada que seja obrigatório. Do voto ao alistamento
militar. Ao mesmo tempo nunca deixei de votar. Era quase uma tradição eu sair
caminhando pelas ruas de Niterói até o colégio Abel para depositar minha
singela contribuição para o país ao som do meu heavy metalzinho. No início, eu
fazia isso com um walkman onde colocava uma fita para tocar. Nas últimas
eleições eu adotei os apps tradicionais no IPhone. Um upgrade e tanto.
O Brasil, por outro lado,
parece estar sofrendo um downgrade. E dessa vez eu só posso observar de longe.
Uma enorme rasteira da vida me impediu de viajar para votar. O plano era esse.
E quando ele foi traçado eu nem desconfiava que hoje muitos estariam com o
coração na boca e temendo pelo pior. Tá um climão tão esquisito que eu até ouvi
a seguinte frase de dois colegas portugueses.
- Até eu quero votar
nestas eleições.
Eu queria muito. Nunca
faltei uma eleição, mas é a vida. Só espero que as pessoas reflitam sobre o seu
próprio comportamento desde a Copa do Mundo. Nos últimos meses eu li muito
discurso de ódio de todos os lados. A educação das pessoas foi mais vezes rebaixado
que Fluminense e Vasco juntos. Juntando isso com a enxurrada de fake news o
clima ficou nas raias do insuportável. É preciso mesmo despejar tanta bile para
defender pontos de vista? O objetivo de todos não deveria ser o bem comum?
Aristóteles dizia que a
política busca a virtude dos seus cidadãos para o bem comum e que seu objetivo
“é criar a amizade entre membros da cidade”. Sendo assim, “a política não
deveria ser a arte de dominar, mas sim a arte de fazer justiça”.
Uma frase atribuída a
Sócrates diz que “as mentes brilhantes discutem ideias fortes; as mentes médias
discutem eventos; as mentes fracas discutem com outras pessoas”. O filósofo
também dizia que “a forma mais nobre e mais fácil de andar não é esmagando os
outros, mas melhorando a si mesmo”.
É preciso, portanto,
menos tribalismo e mais noção de humanidade.
Quem chegou até aqui
talvez esteja me chamando de inocente e bobo. Não me importo. Decidi que o
importante é espalhar o amor.
Votem com consciência e
reflitam bem antes de apertar os botões das maquininhas. A maioria aqui deve
ter visto “Guerra Infinita”. Vocês viram o que acontece quando alguém como o
Thanos assume o poder absoluto do universo. E não é em todo lugar que a gente
encontra um Adam Warlock para salvar a pátria (foi mal pelo spoiler de 2019).
Quando foi lançado, o primeiro filme do “Homem-Formiga” tinha uma mistura de ação com
elementos lúdicos que o tornavam um filme divertido como outros tantos do universo Marvel. Algumas cenas eram
realmente muito engraçadas como a batalha final no trenzinho de brinquedo. Era
natural, portanto, que crescesse a expectativa por um segundo filme que
trouxesse também a Vespa com um certo protagonismo.
Mas “Homem-Formiga
e Vespa” é um tanto decepcionante. Basicamente é um filme que só serviu para
responder à pergunta que estava na cabeça de todo mundo que acompanha os filmes
do universo Marvel: “Onde diabos estava o Homem-Formiga quando Thanos invadiu o planeta e estalou os seus dedos”? Agora sabemos a resposta. E podemos dizer que
ele se meteu numa roubada e tanto.
Embora lançado
depois, o filme se passa antes - ou melhor dizendo, paralelamente - aos
acontecimentos de “Guerra Infinita”. Scott Lang (Paul Rudd) está finalizando
os seus dois anos de prisão domiciliar enquanto o doutor Hank Pym (Michael
Douglas) descobre uma maneira de trazer de volta do, digamos, universo
quântico, sua mulher Janet (Michelle Pfeiffer), perdida lá há 30 anos. Para
isso, ele ainda contará com a ajuda da sua filha Hope (Evangeline Lilly), agora a nova
Vespa.
E aqui começam os
problemas do filme. Enquanto trabalham em lições de física pesadas cuja
capacidade eu não tenho para entender, surge no caminho deles um traficante
caricato, a polícia sempre no encalço de Scott e esperando ele fazer alguma
besteira e Ava (Hanna John-Kamen), também conhecida como Fantasma e pálida caricatura de antagonista. Ava é uma mulher que sofreu um acidente quântico na infância e
vive com suas moléculas morrendo e renascendo o tempo inteiro.
Nenhum deles
estabelece de fato o antagonismo necessário para dar relevo ao filme. Apenas
cada grupo segue solitário em busca dos seus interesses. Sejam eles nobres ou
não. E aí o filme cansa um pouco porque fica a sensação de que se cada
um (em especial Ava, que é quem tem superpoderes) se sentasse para conversar
tudo se resolve em dois minutos. Menos com os bandidos, é claro. Mas eles não
têm estofo para enfrentar os heróis. São bandidos comuns com armas comuns que
ali estão para oferecerem situações que nos farão rir. Do cara que desmaia
porque bateu no saleiro gigante ao que tomba da moto por causa de um pacote de
bala infantil.
Mesmo a busca por
Janet é enfadonha. Tudo porque não é dada a dimensão do quão desafiador é
atingir o nível molecular e trazer de volta uma pessoa que lá está presa há 30
anos. Tudo acontece sem muito desafio, tudo como se fosse uma viagem de fim de semana para rever os amigos.
De resto, o filme
oferece um par de boas cenas. A perseguição de carros é divertida com seus
truques aumentando e diminuindo o veículo e a participação da Vespa deu um
frescor à franquia em um filme que ficará apenas como uma doce aventura de
comédia para a família. E nada mais.
Ethan Hawke gosta
de falar, questionar e que seus personagens façam reflexões. Estão aí seus filmes feitos em parceria com Richard Linklater que não nos deixam mentir. Mas em “No coração
da escuridão”, eu não sei onde ele quis chegar. De fato, eu não compreendi onde
o diretor e roteirista Paul Schrader quis chegar com a história do reverendo Ernst
Toller.
“No coração da escuridão”
passa por uma série de situações. Temos um padre em conflito com um passado
doloroso, temos um foco na questão ambiental e no aquecimento global, chegamos
ao extremismo/terrorismo das ações e não encontramos respostas para nada.
Talvez até não fosse o caso mesmo de encontrá-las, mas nem mesmo questões que provoquem uma reflexão profunda ao surgimento dos créditos no final do filme são levantadas.
O planeta está se
deteriorando pela ação humana que não cuida do ambiente? Ok, é verdade. Há
empresários sem escrúpulos poluindo ainda mais o ambiente? Sim, é verdade. A política
obriga a igreja até a fazer acordos com os demônios do mercado? É assim há mais
de dois mil anos. O caminho do protesto é pela violência, pelo autoflagelo ou
pelo amor? É isso que se quer fazer?
É difícil compreender
onde Schrader quer chegar. Ele tenta incutir uma “crítica social foda” ao
contar a história do padre de uma congregação que precisa organizar o
festejo dos 250 anos de uma igreja histórica nos Estados Unidos. No meio do
caminho, ele precisa aconselhar um homem a não fazer besteira em sua luta em
defesa do meio ambiente ao mesmo tempo em que a mulher deste homem, Mary
(Amanda Seyfried) surge para buscar ajuda, mas também traz o conforto para a
vida desse religioso ex-militar amargurado pela morte do filho na guerra do
Iraque.
Longas conversas
sobre o papel da Igreja e da Bíblia surgem. A saúde do reverendo se deteriora na
medida em que um provável câncer no estômago se manifesta cada vez mais
forte.
E para onde o
padre de Hawke vai? Que caminhos o filme quer tomar? Parece que “No coração da escuridão” é uma salada de situações que não provoca de fato uma reflexão
profunda. Da mesma forma que não traz muito entretenimento ao espectador. E
ainda tem um final bizarro que pareceu jogar o filme num limbo em que nada faz
sentido.
Talvez a única
coisa coesa e relevante do filme seja a segura atuação de Hawke. Ainda mais
reforçada pela palidez do restante do elenco.
“No coração da escuridão”
abraçou muitos temas, mas não se aprofundou de fato em nada. Com isso, o filme
ficou devendo.
Toda franquia tem
seus altos e baixos. Uns filmes muito bons, outros ruins, outros mais ou menos.
Mas Tom Cruise tem nos brindado com uma sequência de missões impossíveis cada
vez melhor que a outra.
De fato, não
existe mistério para criar os filmes da série. É uma receita de bolo matadora que
mistura cenas absurdas, reviravoltas no roteiro, traições, uma história
simples explicada logo de cara (quase sempre o mocinho tem que impedir o vilão
em sua tentativa de dominar ou destruir o mundo), algumas surpresas e Tom
Cruise desafiando a morte.
E a cada filme seu
Ethan Hunt parece passar do limite. É assim que queremos. É assim que
gostamos.
O grande mistério
mesmo de “Missão Impossível” é como o ator de 56 anos têm fôlego e disposição
para fazer tanto exercício! Em “Efeito Fallout”, Tom Cruise corre
DESEMBESTADAMENTE por Londres com direito a saltos entre telhados, protagoniza uma impressionante cena de perseguição nas ruas de Paris, pilota um
helicóptero e sofre um acidente que mataria qualquer um na Caxemira. E ainda
briga com o Superman! Tudo isso tendo que escalar uma montanha no final para
salvar um terço do planeta. China, Índia e Paquistão agradecem a
dedicação.
Não é à toa que o
Luther (Ving Rhames) diz: “esse é o meu cara!”. Se tivesse conhecido Ethan
antes do Lula seria para ele que Obama diria: “Você é o cara”.
“Efeito Fallout” é
aquela história de espião clássica Hunt style. Tem um traíra na agência, tem
que achar um terrorista, tem que impedir que bombas de plutônio dizimem a
humanidade. No meio disso tudo, tem o Sindicato, um grupo de terroristas que
anda desmobilizado desde a prisão de Solomon Lane (Sean Harris).
A situação em
Washington também não está muito boa. O IMF é questionado depois que Ethan
deixa escapar as ogivas de plutônio para salvar seus amigos Luther e Benji
(Simon Pegg). Por conta disso, a CIA resolve botar o pau na mesa e dizer que
“agora é do meu jeito”. Assim, eles recrutam o agente bigodudo August Walker
(Henry Cavill) para ser a sombra de Hunt e agir de uma forma mais assertiva na
missão.
A partir daí a
trama se desenvolve naquele clima de todo mundo desconfia de todo mundo. Ainda
mais depois que a Ilsa Faust (Rebecca Ferguson) surge cheia de mistérios
dizendo que não pode contar nada, não pode dizer nada. “Mas confia em mim.”
Ilsa, esse é um mundo de espiões. Não se confia nem na sombra.
“Missão
Impossível: efeito Fallout” é diversão garantida e mantém bem viva a franquia
de Ethan Hunt. Resta saber até quando Tom Cruise vai aguentar se arriscar em
cenas cada vez mais surreais. Ainda mais porque a cada filme parece ser preciso
estabelecer novos limites. Ou manter os anteriores.
Mas enquanto o
sétimo filme não vem (é não tenho dúvidas de que ele virá), aguardarei o que
Tom Cruise pretende aprovar para o retorno de “Top Gun”, projeto com previsão
de lançamento em 2019, 33 anos depois do filme que o ajudou a se tornar uma
estrela.
A Corneta sai do exílio do mestrado apenas para falar verdades. E cá
estou, tal qual o TRIBUNAL VIVO (entendedores entenderão), para o julgamento
final de “Vingadores: Guerra Infinita”. E o veredito, amigos, é que o filme é
excelente! Com uma história bem diferente da dos quadrinhos, porém, totalmente
excelente.
Parabéns a todos os
envolvidos neste processo tortuoso de fazer uma verdadeira orgia de
super-heróis dar certo. Os diretores, os roteiristas, os produtores, todos
conseguiram misturar doce de leite, chocolate, cocada, leite condensado e
brownie e deixar maravilhoso. E pensar que ainda faltou gente no filme!
Eu sempre vou achar
muito difícil juntar um monte de personagens de realidades e planetas
completamente diferentes e colocar junto e misturado numa história com um nível
mínimo de coerência. E nisso o filme é brilhante ao fazer tudo girar em torno
de Thanos (e Josh Brolin está ótimo no papel do titã), o grande protagonista de
“Guerra Infinita” (como sempre foi). Thanos conduz uma história simples que dá
para explicar num tweet dos velhos tempos enquanto todos têm espaço para os
seus truques e piruetas sem ficar over.
E a partir de
agora, embora não seja bem spoiler uma história que foi publicado há 30 anos,
cuidado! Seguem uma penca de SUPOSTOS SPOILERS.
Eu tenho uma
professora de cinema que tem um vício de linguagem. Para casa coisa difícil que
eu nunca ouvi falar ela usa a expressão: “Como toda a gente sabe”. Vou imitar
ela é dizer: Como toda a gente sabe, “Vingadores: Guerra Infinita” é baseada nas
trilogias “Desafio Infinito” e “Guerra Infinita”. Este primeiro filme, por
sinal, é LEVEMENTE baseado no prelúdio da história publicado para contar os
acontecimentos antes da primeira trilogia e no próprio “Desafio Infinito”.
Levemente porque
tirando a linha mestra da história, todo o resto foi alterado. Ou seja,
permaneceu apenas que Thanos está reunindo as seis joias do infinito para
tornar-se onipotente, onipresente, onisciente e dono de tudo o que respira e
dizimar metade do universo para reestabelecer através de um super genocídio o
que ele chama de equilíbrio.
E as alterações não
foram necessariamente ruins. Por que? Vamos a alguns motivos e outros
comentários gerais:
1- As motivações de
Thanos são muito mais interessantes. Nos quadrinhos ele faz tudo por amor a
Senhora Morte, que o despreza até o fim. E os diálogos são bem bregas. Esse
lado amorzinho ia ser meio patético no cinema, ainda mais com ele só levando
toco e ficando maluco com isso. No filme, Thanos age por ele próprio por
acreditar que só o extermínio de metade da vida do universo trará prosperidade
e fartura para os sobreviventes. Thanos é um déspota que não teme tomar todas
as medidas necessárias para fazer o seu plano acontecer. Para ele, os fins
justificam os meios. O que me assusta é que muita gente na rua concordaria com
ele.
2- Os heróis
obviamente têm muito mais protagonismo no filme. Nos quadrinhos eles são meros
joguetes e buchas de canhão para distrair Thanos enquanto entidades celestiais
travam a batalha nos bastidores para derrotá-lo. Os únicos heróis que têm algum
protagonismo são o Doutor Estranho (no filme, Benedict Cumberbatch) e o
Surfista Prateado, grande ausência do filme e figura que, na história original
cai na casa de Estranho para avisar da chegada de Thanos. No filme, o Hulk
(Mark Ruffalo) fica com esse papel. E não é a mesma coisa. Infelizmente.
3- Mas seria mesmo
complicado tirar da batalha toda essa galera de salário baixo e que vem ralando
aí desde “Homem de Ferro” (2008). Afinal, o duelo com Thanos era o grande filé
que aguardávamos há dez anos.
4- Portanto, parece
improvável que os editores e colunistas do universo, Eternidade, Amor, Ódio,
Lorde Caos, Ordem e o Tribunal Vivo dêem as caras. Além de Galactus, o
devorador de mundos. Ou seja, o confronto com Thanos será menos metafísico e
mais físico. O máximo que pode acontecer é o Vigia surgir para testemunhar a
batalha, afinal, o Vigia é uma Suíça. Não se mete em nada. Só testemunha a
história.
5- Outra mudança
importante é que Thanos consegue as joias de pessoas comuns espalhadas pelo
universo. E não dos chamados anciões, seres cósmicos e etc...
6- Por falar no
nosso vilão protagonista, deram uma baixada de bola. No filme, os heróis até
conseguem fazer cosquinha em Thanos. E que cena maravilhosa a do Capitão
América (Chris Evans) usando todas as suas forças para segurar a mão do titã. É
um retrato do homem comum que faz de tudo para superar as barreiras do
impossível e desafiar aquilo que ele não tem a menor possibilidade de vencer.
Aquilo é a humanidade falando: “Não desista!”. Praticamente uma cena de
auto-ajuda.
7- O Homem de Ferro
(Robert Downey Jr.) também tem seus belos momentos contra Thanos na batalha em
Titã. Assim como é reservado ao Thor (Chris Hemsworth) algumas das melhores
cenas. A chegada dele na batalha de Wakanda é de levantar da cadeira do cinema
e gritar “Yes!”.
8- Diante disso, e
das inúmeras mortes que aconteceram no passaralho celestial, fica bem claro
quem são os protagonistas da parada: o arco destes dez anos foi desenhado para
o retorno aos Vingadores originais, aqueles que aparecem no primeiro filme, de
2012: Thor, Capitão América, Homem de Ferro e Hulk. E talvez a Viúva Negra
entre na parada. Depois que a relação ficou meio azeda com a briga de gangues
em “Guerra Civil” (2016) e a saída de cena de Thor para cuidar de seus
problemas particulares em Asgard, pensei até que os Vingadores iam mudar a
formação. O que é algo absolutamente comum nos quadrinhos. Porém, ainda não.
Esse quinteto ainda tem uma missão importante a cumprir.
9- Além do Surfista
Prateado, senti falta de pelo menos da presença dos X-Men e do Quarteto
Fantástico em “Guerra Infinita”. Queiram ou não, esta é uma guerra de todos que
não devia ser medida por contratos de Hollywood.
10- Também não
contava com a morte do Doutor Estranho. Afinal, ele é uma das peças importantes
da história. Como antes de desaparecer no estalar de dedos de Thanos ele
vislumbrou 14,6 milhões de possibilidades de futuro e sabia o que estava
fazendo ao entregar a joia do Tempo, presumo que ele já sabe o que irá
acontecer e outro cara com super-poderes vai vir para cuidar da situação.
11- Donde vem a
grande pergunta de “Guerra Infinita”. Onde está Adam Warlock? Ele não dá as
caras um segundo sequer no filme. E só ele pode acabar com a guerra. Só ele,
esse Churchill intergaláctico, pode inspirar corações e mentes em busca da
vitória. Só ele e...
12- ...uma mulher
foda podem salvar o universo. Vem, Capitã Marvel. Vem Brie Larson. Vem tirar
Thanos de seu trono celestial.
13- Como Warlock
não aparece no filme, minha expectativa é que ele surja em algum momento no
filme solo da Capitã Marvel previsto apenas para o março de 2019. Ou de repente
nas cenas extras de “Homem Formiga e Vespa”, o próximo lançamento da Marvel. Se
não, bom, em algum momento ele tem que aparecer. Afinal, não existe “Guerra
Infinita” sem Adam Warlock.
E agora vamos aos
comentários absolutamente aleatórios:
1- Eu vou para o
inferno, mas eu ri vendo o Peter Dinklage fazendo um anão gigante.
2- Incrível com a
ditadora da barba atingiu até o Capitão América. Logo ele que rivalizava com o
Superman como herói de propaganda da Gillette.
3- Achei meio
patético o filme anunciar em dois momentos que Thanos acabará com o universo
num estalar de dedos usando duas cenas no meio da história de personagens estalando
dedos e anunciando que ele literalmente fará isso.
4- Mas realmente a
cena que vale mesmo é de arrepiar. E você vendo todo mundo desaparecendo feito
pó é um final DAQUELES.
5- Wakanda é
sensacional. Eu quero morar em Wakanda.
6- Menos piada é
mais história. Continue neste bom ritmo, Marvel. Chega de gracinhas.
7- Aliás, quando
pensamos em criticar a Marvel ele nos entrega dois filmes do nível de “Pantera
Negra” e “Guerra Infinita” num intervalo de três meses. A Marvel joga o sarrafo
lá em cima e deixa a DC comendo poeira, mesmo quando a DC esboça uma
microreação.
8- Tem uma cena do
trailer que mostra o Hulk lutando em Wakanda. Só que o Hulk não dá as caras
desde a briga com Thanos no início do filme. Não sei quem errou nisso. Ou se a
Marvel soltou um trecho da parte dois do filme. Bom, como nos quadrinhos há uma
volta ao passado (vocês não achavam que iam matar todo mundo assim, não é?)
pode ser que ainda role.
9- A Feiticeira
Escarlate (Elizabeth Olsen) está sensacional no filme. O Visão (Paul Bettany)
está um bundão. O Doutor Estranho também está maravilhoso. Cumberbatch é um
ótimo Stephen Strange. Não podia ter morrido. Se bem que como ele é um mestre
das artes místicas talvez consiga reverter a própria morte.
10- Capitão América,
Homem de Ferro, Pantera Negra (Chadwick Boseman) e Thor também foram destaques
da partida. Homem-Aranha (Tom Holland) teve uma atuação irregular, mas fez bem
o seu papel como um volante de contenção. O Hulk brilha no início, depois cai
de produção até à escala da irrelevância.
11- A Viúva Negra
está apagadíssima e merecia mais espaço, mas só porque amamos Scarlett
Johansson, pois na história ela é mera figurante e nem viaja para enfrentar
Thanos. E queremos a Viúva ruiva como sempre foi!
12- Por outro lado,
Okoye (Danai Gurira) tem que seguir nesta guerra aí. Adoro a líder do exército
de Wakanda.
13- Que pena que o
os guardiões da galáxia morreram. Especialmente a Gamora (Zoe Saldana). Mas
infelizmente precisava abrir espaço para novos heróis entrarem sem estourar o
orçamento.
14- Os demais
heróis (Falcão, Soldado Invernal, etc...) cumpriram o seu papel de fazer volume
nas mortes para impressionar quem nunca tinha lido os quadrinhos.
15- E o Gavião
Arqueiro, hein? E o Homem-Formiga, hein? Não deram nem um oi em “Guerra
Infinita”. Quando mais se precisa dos amigos...
16- Olho na
Nebulosa (Karen Gillan), pois nos quadrinhos ela tem um protagonismo. É
possível que venha a ter na sequência do filme.
Steven Spielberg quase conseguiu. Não fosse pelas
lições de moral, por um vilão ruim, uma cena no final meio nada a ver e o
clichê do nerd genial e solitário, “Jogador nº 1” seria um filme top da
filmografia do diretor americano. Mas alguns pequenos percalços fizeram o seu
novo trabalho perder alguns pontos. No entanto, podemos dizer que “Jogador nº
1” é o seu melhor filmes desde “Lincoln” (2012). E podemos dizer também que é
uma excelente diversão para todas as idades.
“Jogador nº 1” é uma viagem nostálgica pela cultura
pop do século XX. São incontáveis os “Easter eggs” que Spielberg espalha por
todo o filme baseado no livro de Ernest Cline. Tem King Kong, Godzilla, heróis
dos quadrinhos - incluindo uma rápida aparição do carro do Batman da série de
tv dos anos 60 - citações a “De volta para o futuro” (1985-90), “O Iluminado” (1980), “Brinquedo
Assassino” (1988), “Nos embalos de sábado à noite” (1975), filmes do diretor John Hughes e aos seriados japoneses como
“Jaspion” e “Changeman” (aquela batalha no final do robô com o monstro gigantes
é de escorrer uma lágrima de emoção de quem foi criança entre os anos 80 e 90)
e, claro, aparições dos mais diferentes videogames possíveis. De “Mortal
Kombat” aos clássicos jogos de Atari. Para não falar na trilha sonora com
clássicos de Van Halen, Depeche Mode, Twisted Sister e tantos outros.
Tudo isso e muito mais faz com que “Jogador nº 1”
seja um dos filmes mais pops que você vai ver nos últimos tempos. É um
olhar diferente de Spielberg para o passado. Para um diretor que acostumou-se a
falar sobre um passado duro - e podemos citar só como exemplos “Munique”
(2005), “O resgate do soldado Ryan” (1998), “Amistad” (1997) e “A lista de
Schindler” (1993) - seu novo filme é como olhar para o passado com o sorriso terno de
quem revê “E.T. - O Extraterrestre” (1982) acompanhado de uma aventura moderna,
mas que na essência é nos moldes das clássicas aventuras de Indiana Jones com
uma linguagem pop de “Prenda-me se for capaz”. (2002). Ou seja, é um Spielberg
em boa forma. O que é ótimo depois da decepção de “The Post” (2017).
“Jogador nº 1” é de certa forma um um Indiana Jones
moderno com toque vintage. No futuro sombrio e pós-apocalíptico de sempre
(ninguém imagina um futuro legal. Ninguém na arte acredita mesmo na
humanidade), Tye Sheridan vive Wade Watts, um garoto que tem uma vida na Columbia pobre,
feia e devastada, mas, como todos os seres humanos, tem uma vida paralela no
mundo virtual e paradisíaco do OASIS, onde você pode ser o que e quem você quiser e viver as mais incríveis aventuras.
Parsifal e Art3mis em seus trajes de gala
Nesse lugar teoricamente paradisíaco, ele vive sob
um avatar de nome Parsifal. E não é por acaso que ele têm esse
nome. Personagem de um antigo poema alemão, Parsifal é o protagonista da ópera de Richard Wagner de mesmo nome. O significado
do seu nome é “inocente casto”. Parsifal é o que atravessa o jardim mágico de
Klingsor, destrói o castelo, cura as feridas do rei Amfortas e assume a
condição de rei do Graal. A jornada do nosso Parsifal do filme de Spielberg é
extremamente semelhante ao da ópera wagneriana.
Ao seu lado, Parsifal tem a companhia de Art3mis
(Samantha, no mundo real), personagem vivida por Olívia Cook. Também não é por
acaso que ela tem o nome da deusa da caça, da lua e da magia e que na mitologia
grega é descrita como a melhor caçadora entre os deuses e homens. É exatamente
isso que Art3mis é no OASIS. E por essa característica ela é admirada por
Parsifal.
Os dois têm a companhia de Aech (Lena Waithe),
Dalto (Win Morizaki) e Sho (Philip Zhao na jornada que tem aquele jeitão de
RPG. Após a morte de Halliday (Mark Rylance), o criador do OASIS, um desafio é
lançado. Quem conseguir encontrar as três chaves que Halliday deixou espalhadas
no mundo virtual consegue ter o controle do OASIS.
É claro que isso desperta a ambição da empresa de
Sorrento (Ben Mendelsohn), que deseja obter o controle do jogo para controlar o
mundo. E aqui temos o calcanhar de Aquiles do filme. Sorrento é um vilão
extremamente caricato e idiota. É um filhinho de papai que quer de qualquer
maneira obter o brinquedo mais legal do momento.
Uma pena, pois um vilão ruim que não se pode odiar
ou ao menos admirar por suas vilanias até a forma como ele cai pode estragar um filme. Parsifal merecia um
antagonista melhor.
Da mesma forma que os espectadores mereciam um
final mais interessante. Era de se esperar que “Jogador nº 1” tivesse um
desfecho feliz bem ao gênero dos filmes tradicionais. Porém, a cena do Sorrento
conseguindo abrir caminho no meio de mais de cem pessoas só porque tem uma
pistola não dá. Que rebelião é essa que não resiste a um revólver?
E quando ele finalmente chega até Wade/Parsifal não
dá um tiro porque fica maravilhado com a vitória dele e com o ovo dourado nas
mãos do rival. Por favor, né. É o tipo de lição de moral que Spielberg deveria
evitar. Ok, o bem precisa vencer o mal. Mas não vem dar recado por meio de
indiretas. Ou diretas, como a mensagem no fim de que é preciso viver mais no
mundo real.
Ainda assim, “Jogador nº 1” é uma agradável
diversão. As cenas dentro do OASIS são incríveis e muito bem feitas. Parece um
videogame em que você está jogando ali. E mal ou bem, a história te prende
ainda que o roteiro tenha a estrutura clássica dos três desafios do herói em
sua jornada. As etapas sendo vencidas aos poucos etc... É o de sempre, mas
quando bem feito não é ruim.
Adaptações de videogames para o cinema são quase
sempre ruins, pois é quase sempre complicado transpor um jogo que é
absolutamente linear e sem uma grande quantidade de camadas para a dramaturgia,
justamente uma arte que necessita de um pouco mais de particularidades para
fazer acontecer o mais raso dos filmes. Ainda mais quando estamos falando de
jogos antigos e que não possuem o nível de complexidade e enredo dos criados
neste século XXI.
Em sua primeira versão com Angelina Jolie, Lara
Croft ganhou dois filmes que nada mais eram que um videogame filmado com uma
história capenga e vilões esquecíveis. O importante era criar situações para os
fãs da aventureira saltar, lutar e resolver enigmas complexos com
suas habilidades.
Os filmes de 2001 e 2003 são esquecíveis. Mas
Hollywood resolveu dar nova chance a Lara colocando a atriz Alicia Vikander no
modelito camiseta e calça (e não mais shortinho) de Lara.
O resultado do trabalho dó diretor Roar Uthaug é bem mais
interessante que a grande maioria de adaptações do cinema. “Tomb Raider - a
origem” está longe de ser um filme brilhante. Mas deu uma nova guinada para a
história de Lara Croft ao impor uma nova mitologia, construir um passado mais
sólido para a personagem a partir da relação dela com o pai, Richard
Croft (Dominic West), e abrir caminho, é claro, para a formação de uma nova
franquia que pode vir a ser lucrativa se for mais bem apurada a combinação de
aventura, enigmas, um certo misticismo e cenas de ação de tirar o fôlego.
Pois é disso que se trata a história de Lara Croft.
Mas não mais apenas disso. Além de uma caçadora de tesouros, quase uma Indiana
Jones em versão feminina, ela agora parece que primeiro precisa arrumar a casa
enquanto vive as suas aventuras. Seguir o legado do pai ao mesmo tempo em que
tem que limpar as empresas do mesmo de um provável envolvimento com roubos e
corrupção. Nos próximos filmes ainda saberemos mais sobre a Trinity e qual o
papel de Anna Miller (Kristin Scott Thomas) nisso tudo.
Enquanto isso, podemos nos deliciar com cenas de
ação maravilhosamente absurdas e engenhosas como só o videogame consegue fazer.
De fato, este parece ser o único vestígio do legado dos games nesta nova e
promissora série de filmes de Lara Croft.
Todo o resto é novo. E esse novo começo parece ser
minimamente interessante para seguir acompanhando um pouco mais esta
saga.