sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Cotação da corneta: 'O ´Sétimo'

Darín ligando para você
Deve ter umas cinco pessoas no mundo que eu gostaria de ser. Eddie Vedder é uma delas. Outro é Ricardo Darín. Que homem não gostaria de ser Ricardo Darín? Sete em cada dez mulheres morrem de amores por ele (segundo estudo de pesquisadores britânicos). E o argentino não é apenas um rostinho bonito na telinha do cinema, mas também um ótimo ator que só faz filmes bons.

Quer dizer. Mais ou menos. Darín atingiu um status de celebridade tão grande que até os seus filmes ruins estreiam no Brasil. Sabe aqueles em que ele faz uma pequena participação, quase um favor para o diretor, mas se vende por aqui como um filme dele na maior picaretagem? Vocês sabem do que eu estou falando. Eu cai no conto nada chinês de “Amorosa Soledad”, um filme ruim de doer em que o ator faz uma participação tão insignificante que se você tirar um cochilo durante o filme acaba perdendo a participação dele.

Mas este não é o caso de seus dois filmes em cartaz no momento. "Relatos Selvagens" é simplesmente espetacular e um dos melhores de 2014 (aguardem o top 10 da corneta). E "O Sétimo" é também muito bom. Eu gostaria muito de dizer com qual filme totalmente excelente a trama de “O Sétimo” se parece, mas não posso para não estragar a história para vocês.

O curioso é que “O Sétimo” não tem nada de original para quem já viu dezenas de filmes sobre tema semelhante. É um trabalho do gênero "Quem matou Odete Roitman?". Só que ao invés do assassino temos que descobrir quem sequestrou duas crianças em um prédio de Buenos Aires.

Tudo começa quando Sebastián (Ricardo Darín), pai de Luna (Charo Dolz Doval) e Luca (Abel Dolz Doval), faz o que deve ser feito para que um filme desses dê certo. Desobedece uma ordem. No caso a da mãe das crianças, Délia (Belén Rueda), de não deixá-las correr pelas escadas do prédio. Pronto, Sebastián obviamente deixa os meninos fazerem o que quiserem e quando chega no térreo as crianças desapareceram.

Sebastián fica desesperado e começa a procurar pelo prédio inteiro. Nessa busca somos apresentados a uma gama de suspeitos. O policial supostamente corrupto, o cara estranho com jeito de pedófilo, o porteiro manco, o cara que odeia crianças, a mulher obsessiva pelos filhos alheios, todos, todos suspeitos e não há um Sherlock Holmes para cuidar do caso. Benedict Cumberbatch resolveria rapidamente este caso.

Até a polícia é suspeita, pois Sebastián é um advogado sem escrúpulos e lida frequentemente com policiais corruptos para obter vantagens. Deve ser difícil viver numa cidade com tanta corrupção como Buenos Aires.

Para piorar, o crime acontece no dia em que este pai desesperado tem um caso milionário e importante para resolver no tribunal. Realmente Sebastián vive um inferno astral.

Então passamos o filme inteiro pensando primeiro o que aconteceu com os chicos, depois sobre quem teria sequestrado eles. E o desfecho, ah o desfecho! Eu confesso que jamais imaginaria que aconteceria o que aconteceu. É só o que posso dizer.

“O Sétimo” é mais um bom filme estrelado por Darín a chegar por aqui. E para comprovar que o ator de “Nove Rainhas” (2000) só tem acertado, aqui vai a minha lista-dica só com filmes recentes dele para vocês se divertirem nas festas de fim de ano.

- “Relatos Selvagens” (2014)

- “Tese sobre um homicídio” (2013)

- “O que os homens falam” (2012)

- “Elefante Branco” (2012)

- “Um conto chinês” (2011)

- “A dançarina e o ladrão” (2009)

- “O segredo dos seus olhos” (2009)

Sobre “O Sétimo”, diria que é um filme que mantém Ricardo Darín em alta conta com a corneta, que sai do cinema satisfeita. Darei um 7,5 para combinar um pouco com o andar onde a família da história mora.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Cotação da corneta: 'Jogos Vorazes: a esperança - parte 1'

Katniss sobre salvar o mundo: Tudo eu
Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence), “the girl on fire”, terminou "Jogos vorazes: Em chamas" (2013) botando para quebrar, quebrando a banca e mostrando que o Tordo é sinistro e o Distrito 12 é o que há. Se você não lembra o que ela fez, corre lá para rever o filme. Um ano depois, o que todos os seus fãs que não leram os livros de Suzanne Collins esperavam que ela fizesse? Ora, que reunisse um exército e fizesse um barulho na Capital. Revolution, baby, como já cantou o The Cult. Mas... Katniss se transformou numa garota lamuriosa, uma garota "ai, meu Deus, onde está o meu amado", the boring girl, a garota que chora demais! É too much para a corneta.

"Jogos vorazes - a esperança parte 1" (bom, a minha esperança é que melhore no segundo), pode ser dividido basicamente em dois temas.

1) É uma grande campanha política de fazer inveja aos marqueteiros dos dois partidos que andaram se digladiando até há pouco tempo no Brasil. Realmente o Ministério Público de Panem devia investigar de onde veio tanto dinheiro para patrocinar isso. Na Capital, com certeza rola caixa 2 e enriquecimento ilícito dos seus principais dirigentes. Não dá para confiar naquela cara de sonso do Donald Sutherland, vulgo presidente Snow. Cá entre nós, o único Snow que eu confio é o Jon de “Game of Thrones”. Mas se ali na Capital rola uma grande lavanderia, no distrito 13 também não me parece que seus governantes sejam tomados pela pureza da alma. A questão é que nunca antes na história de Panem se fez uma campanha política tão forte como a que vimos na primeira parte do terceiro filme.

2) É uma INSUPORTÁVEL história de amor adolescente com Katniss se equilibrando entre o jovem Gale (Liam Hemsworth), que a ama louca e incondicionalmente (que bonitinho né), e o fracote e peso morto do Peeta Mellark (Josh Hutcherson). Francamente, Katniss, ao invés de ficar sofrendo, talvez seja melhor você tentar alguém de outro dosha, como Vata ou Kapha. Dá uma estudada no Ayurveda. Os indianos eram sábios.

Dito isso, vamos começar a DESCONSTRUIR este novo “Jogos Vorazes”, onde a esperança não venceu o medo.

O filme se passa algum tempo depois daquela flechada que Katniss deu que abalou as estruturas do governo e aparentemente causou o fim do seu Big Brother sanguinolento. Quando todos imaginavam que a coisa ia ficar feia para a Capital e seria o início da reação dos rebeldes, a presidente Alma Coin (Julianne Moore), espécie de Bernie Ecclstone do distrito 13, e Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman, a quem o filme é dedicado) resolvem fazer... MARKETING, campanha política, botar o bloco na rua.

A ideia seria conclamar os rebeldes em todos os distritos a lutarem pelo Tordo. Ou seja, Katniss seria transformada num cruzamento de Che Guevara com Martin Luther King. Se possível com um charme estilo Jacqueline Kennedy. A marca do Tordo seria espalhada pelo planeta a ponto de virarem produtos de merchandising (se rolassem uns brinquedos seria ótimo). Ai, bem, vocês sabem como isso funciona. Ficou lá o governo da Capital acusando a candidata de oposição de ser manipulada, mudar de posição ao sabor do vento, de ter posições radicais, campanha negativa, essas coisas. Enquanto isso, a oposição fazia campanhas criativas, dramáticas e que tentassem tocar o coração da população. Sem falar na repaginada no visual, nas promessas de campanha e visitas a lugares pobres como hospitais precários do distrito 8.

Os rebeldes têm até jingle. Não é tão bom quanto o do Eymael, é claro, mas Jennifer Lawrence se saiu tão bem no “The Voice” de Panem que a música que ela cantou, “The hanging tree”, chegou ao topo das paradas. Essa menina merece. É talentosa e já mostrava qualidade desde “Inverno da Alma” (2010).

Mas o problema é que apesar do trabalho dos marqueteiros, o mundo não vive uma democracia. Isso é um conceito arcaico que o distrito 13 aparentemente quer retomar numa política vintage. Ou seja, fica difícil engolir o marketing (e, convenhamos, a ideia não funciona direito) quando só pela força e derrubando a Capital é que as coisas podem ter alguma solução. Quero crer que algo maligno ou verdadeiramente interessante acontecerá no capítulo final dessa saga. Não ler o livro tem lá suas vantagens (mas não façam isso sempre. Ler é sempre melhor).

Aí chegamos na parte melodramática de “Jogos Vorazes”. Katniss não é uma candidata muito disciplinada. Ela tem (ou tinha) fogo no olhar. Mas o amor transforma as pessoas em malas. Ao menos para quem não está no meio de um. Então Katniss se transforma na chorona que fica gritando Peeeeetaaaa! Peeeetaaaa! o TEMPO INTEIRO. Se eu soubesse que seria assim, teria contado para dar um número preciso aos nobres leitores, mas me arriscaria a dizer que foram pelo menos 15 vezes gritando Peeeeetaaaa! Quem aguenta isso? Não foi para isso que você fazia Shakespeare quando era mais jovem, Jennifer.

No início da série, nossa heroína era apaixonada pelo Gale, mas é forçada a fingir um romance com Peeta dentro da lógica do show business para atrair audiência. O tempo passou, ela começou a lançar um olhar menos enviesado para aquele jovem frágil e agora quem está sobrando na pista é o coitado do Gale. Realmente não é fácil ser o irmão menos popular do Thor. O Loki que o diga. Ah, você não sabia que Liam era irmão de Chris Hemsworth? Liga não. O Woody Harrelson gravou quatro filmes com ele e também não sabia. 

Gale ainda demonstra espírito esportivo e altruísmo em meio a dor de cotovelo e até arrisca a própria vida por Katniss. Enquanto isso, ela fica ali no meio do fogo cruzado sentimental. E o que acontece quando uma heroína vive essa situação? Toma decisões erradas. É um tal de sugerir concessões bizarras para o presidente Snow, seguir direções equivocadas, todo o possível para comprometer a missão. Katniss parece a Carrie, de “Homeland”. Cega pelo seu Brody e só fazendo besteira. É preciso dar umas dicas para ela, mas como confiar em alguém se o seu guarda-costas é um lobista sem escrúpulos na Washington de “House of Cards”?

Assim, a franquia “Jogos Vorazes” nos coloca num impasse. Encerrará com chave de ouro e passará de ano ou será apenas mais uma história adolescente sem graça estilo “Crepúsculo”? Por enquanto estamos assim:

1) “Jogos Vorazes” (2012) – Razoável para bom. Um filme nota 6,5.

2) “Jogos Vorazes: Em Chamas” (2013) – Um filme bem bom. Talvez para um 8.

3) “Jogos Vorazes: A esperança – parte 1” – Decepcionante diante da expectativa.

Vamos ver o que o último capítulo nos reservará.

Ok, hora da média final. A história política não cola e é uma chatice o triângulo amoroso Katniss-Peeta-Gale. Mas o fim do filme dá uma compensada e deixa uma expectativa para dias melhores em novembro de 2015, quando estreia a segunda parte. E por mais que a corneta esteja aqui solapando o trabalho de Francis Lawrence, é preciso levar em conta que os fãs não saíram do cinema fazendo muxoxo. Ainda que eu também não tenha visto expressões do tipo: “Cara, tipo muuuito f...”. Deixemos, portanto, o novo Jogos Vorazes com uma nota 5. Mas, por favor, nada mais de Peeeetaaaa!!! no último filme, Jennifer.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Cotação da corneta: 'Trinta'

Matheus brilhando como Joãosinho Trinta
Se a corneta tivesse poderes celestiais, fosse uma espécie de Chico Xavier da galhofa, tentaria entrar em contato com Tim Maia, Cazuza e Renato Russo só para fazer uma pergunta. E ai? Viram o filme do seu colega Joãosinho Trinta? Queriam um igual né? Diante da provocação, Tim Maia provavelmente soltaria uma série de impropérios contra a corneta, que encerraria a comunicação antes que eles me matassem na Matrix do plano superior.

Tudo isso é porque "Trinta", a cinebiografia sobre o famoso carnavalesco Joãosinho Trinta (Matheus Nachtergale), nove vezes campeão do carnaval carioca, é beeeem superior ao filme dos seus coleguinhas artistas. Acho que ver este filme pode dar aquela vontade nos fãs dos músicos citados acima de torcerem por um novo trabalho, uma segunda chance para os três no cinema.

"Trinta" mostra como todo carnavalesco é um pouco MacGyver. Se o velho herói do seriado “Profissão Perigo” transformava um chiclete, um arame enferrujado e um isqueiro em bomba atômica, o carnavalesco consegue dar sentido a um enredo que começa nas lendas do Maranhão (e não estamos falando sobre uma famosa família local) e passa pela corte francesa. Bom, quem curte carnaval acha que tudo tem uma lógica e quem sou eu para contestar? O importante é fazer com que na quarta-feira de cinzas todos ouçam DEZ, NOTA DEZ!

Ao contrário dos filmes dos seus colegas famosos, o diretor Paulo Machline, acertou em um ponto que faz “Trinta” ser melhor: não tentou abraçar o mundo. Ele partiu de uma premissa do próprio carnavalesco, que no filme diz que “menos é mais”. Se na cena em questão, isso vira uma desculpa para uma personagem exibir, digamos, todo o seu esplendor, em “Trinta” é uma bola dentro que dá foco à história e a deixa mais coesa e amarrada.

O ponto fundamental aqui é o momento em que Joãosinho inicia a sua carreira solo substituindo Fernando Pamplona no Salgueiro. Ali, enquanto prepara o desfile “O rei de França na ilha da assombração”, em 1974, ele tem que lidar com a desconfiança da comunidade de que seria capaz de tocar um carnaval inteiro numa escola grande. Seu enciumado antagonista é o chefe do barracão Tião (o sempre ótimo Milhem Cortaz), que queria o emprego para ele e, diante da negativa de Germano (Ernani Moraes), o poderoso chefão da escola, faz de tudo para derrubar Joãosinho.

O carnavalesco, no entanto, consegue dobrar Tião e seu parceiro de barracão, Calça Larga (Fabricio Boliveira), outrora conhecido como João de Santo Cristo naquele filme “Faroeste Caboclo” (2013), baseado na música da Legião Urbana e que preferimos esquecer.

Enquanto isso, vamos acompanhando pílulas da vida de Joãosinho. De como o bailarino João Jorge veio do Maranhão para dançar no Theatro Municipal e acabou se transformando naquele que viria a ser um dos personagens mais importantes do carnaval carioca. Tudo com muito luxo e riqueza, afinal, quem gosta de miséria é intelectual. Ainda bem que a corneta é do povo.

Poderia dizer que dentre as cinebiografias recentes sobre personagens brasileiros, “Trinta” mostra ser a mais competente. Mas isso é papo de intelectual. Na linguagem da corneta, diria que Machline sambou na cara da sociedade. E por isso, o seu filme vai ganhar uma nota 7.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Cotação da corneta: 'Interestelar'

A dura vida dos astronautas
A corneta pensou em substituir o texto de hoje por uma bibliografia. Ao invés de parágrafos galhofentos, sugestões de textos e livros de nomes como Alexander Friedmann, Willem de Sitter, John Archibald Wheeler, Hermann Weyl e Kip Thorne. Ah, você não conhece estes cinco cavalheiros? Eu também não conhecia até a semana passada, quando Christopher Nolan bagunçou a minha cabeça com suas ideias absolutamente insanas. Os cinco são alguns dos nomes importantes de campos como matemática, física, astrofísica, cosmologia, entre outras coisas que vão se desdobrando a partir daí. Sim, amigos, é com isso que estamos lidando.

Além dos cinco cavalheiros acima (e poderia citar tantos outros), eu reforçaria os estudos de Isaac Newton e sugeriria um mergulho profundo nas teorias de Albert Einsten. Eu disse mergulho profundo. Não é sair por aí falando que E = mc2.

Terminado esse intensivão, você começará a entender "Interestelar". Sim, galera, Christopher Nolan abusou, forçou, arrombou a porta do espaço-tempo e chegou até a quinta dimensão porque para ele a complexidade de "A origem" (2010) era pouca. E fazer um filme de trás para frente como “Amnésia” (2000) era fichinha. Aliás, "Interestelar" faz "A origem" parecer quase uma comédia romântica. Pelo menos no quesito “entendimento da história”. Como filme, “A origem” é melhor.

Nolan é aquele cara com quem a gente combina as férias e você sugere: "Vamos para Paris? Berlim? Londres?". Aí Nolan para, pensa que isso é muito basicão, e diz: "Por que não vamos para Madagascar?". Simplicidade e obviedade não é com ele. Além de tudo o que vimos em “Amnésia” e “A origem”, o próprio "Batman - O Cavaleiro das Trevas" (2008) é muito mais um filme sobre terrorismo do que sobre quadrinhos tradicional com efeitos especiais e umas cenas maneiras para vender bonecos. Não é a toa que é um dos melhores do gênero. E agora que ele é uma grife, só fica mais fácil soltar, escancarar a criatividade.

Mas não tema "Interestelar". Mergulhe onde nenhum homem jamais esteve. Se jogue em quase três horas no desconhecido. Tire o pé do chão para flutuar na gravidade zero. Pois “Interestelar” é deveras interessante. E que vai te deixar meio atordoado ao sair do cinema, pensando naquela trama intrincada e naquelas teorias malucas que você não tomou conhecimento nem quando estava estudando para o vestibular. Buraco negro? Buraco de verme? Garganta? Tudo isso parece física, ops, acho que é física!

“Interestelar” pode ser visto de duas formas que se complementam, linhas paralelas que se encontram no infinito. Vamos a elas.

1) É basicamente uma história de amor e sobrevivência. Um pai que tenta salvar a vida dos filhos e consequentemente a vida da humanidade. Nada que você nunca tenha visto num filme de Bruce Willis ou Arnold Schwarzenegger.

2) É uma tentativa de Nolan de ganhar mais do que um Oscar, mas um Prêmio Nobel de Física. Então temos uma trama complexa que invade a cosmologia, manipula o tempo e faz você ver determinadas coisas sobre diferentes perspectivas. Enfim, aquele papo de quinta dimensão.

Vamos a história. Estamos num futuro apocalíptico pré-“Mad Max” (1979). A humanidade não ouviu os conselhos dos ambientalistas e agora a comida está ficando escassa. Água é luxo. E não se pode ver nem um jogo de beisebol dos Yankees comendo o tradicional cachorro-quente. Só resta pipoca, pois a única coisa que se pode cultivar na terra é milho. Mas isso também vai acabar. O planeta vive nas trevas e até a chegada do homem a lua foi desacreditada. A humanidade caminha a passos largos para acreditar no criacionismo.

É quando entra em cena Cooper (Matthew McCounaghey e seu sotaque de caipira do interior americano). No passado ele foi piloto da Nasa, era o cara, antes da agência ser desativada. Hoje ele é um fazendeiro, a profissão mais valorizada do momento. Mas, bem, a Nasa continuou funcionando na clandestinidade e Cooper chegou até ela por diversas razões sobre as quais não vou me estender.

Como a Terra está na U.T.I, caberá a McCounaghey e seus comparsas, a cientista Brand (Anne Hathaway) entre eles, encontrar um novo mundo habitável para a humanidade voltar a se reproduzir e viver feliz para sempre. E assim, em meio a todas as teorias cosmológicas, todas as equações complexas, todas as teorias explicadas no meio do nada e numa galáxia distante entre os cientistas como nas aulas de física do colégio (Ah, a cena do lápis perfurando a folha de papel...) temos a básica jornada do herói, que remete a Grécia antiga. Tudo acaba em Sófocles, Ésquilo ou Eurípedes.

No início, cheguei a pensar que “Interestelar” seria um cruzamento de “Sinais” (2002) com “Fonte da Vida” (2006) e “Gravidade” (2013) e mais uma pitada de "2001 - uma odisseia no espaço" (1968). Bom, em alguns exemplos isso não é necessariamente um elogio. O filme tem um lance de fantasma ou eles/os outros no estilo “Lost” no meio do milharal como no trabalho do M. Night Shyamalan, parece meio esquisito e hermético como o trabalho de Darren Aronofsky, e tem umas cenas bonitas e uma atriz que permanece com o cabelo impecável mesmo nos confins do Universo, como a Sandra Bullock no filme de Alfonso Cuarón. Sem contar que tem dois robôs inteligentes demais tal qual o Hal 9000 de Stanley Kubrick. Mas eu aprendi uma lição: Nunca se deve duvidar de Christopher Nolan.

Em toda a sua busca por uma nova fonte de vida para que a humanidade pudesse prosperar, Cooper terá que passar por diversas provações e fazer escolhas sobre qual dos três planetas previamente escolhidos tem condição de ser habitável. No meio disso, eles terão que lidar com forças da natureza que vão de uma onda gigante que faria o surfista Carlos Burle tremer nas bases a um frio polar daqueles que só a Islândia tem.

Tudo estava indo bem com Nolan usando os seus truques para nos entreter, mas ai o diretor dá aquela escorregada inaceitável ao fazer aquele discurso de que o amor vence tudo nessa vida. Foi o momento em que Nolan garoteou como um adolescente que acabou de encontrar a mulher da vida dele desta semana no baile da escola. Não me convenceu essa parte que mostra que por trás de todo o conhecimento e a ciência exibidos no filme, o coração é o essencial. Normalmente isso dá é em roubada.

Por falar em ciência, Kip Thorne, aliás, é o grande responsável pela viagem atual de Nolan. O físico americano é o cara cujas pesquisas se concentram em buracos negros, buracos de verme (ou de minhoca), deformações no tempo e ondas gravitacionais que tanto vemos no filme. Tudo desenvolvido a partir da teoria geral da relatividade. Pois é. Einstein é o outro culpado.

“Interestelar” é ambicioso. Alguns podem achar pedante ou pretensioso. Mas a corneta não vai se aliar a esse grupo. Prefere caminhar com os que acham a nova viagem de Nolan fascinante. Até porque, por trás de tantas teorias e cálculos complexos, há uma boa história. Por isso, Nolan vai ganhar uma nota 8.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Cotação da corneta: 'Boyhood'

As dores do crescimento
Richard Linklater adora uma DR. Se vocês lembram bem, ele fez Ethan Hawke e Julie Delpy discutirem a relação em três filmes separados num espaço de 18 anos: "Antes do Amanhecer” (1995), “Antes do Pôr-do-Sol” (2004) e “Antes da Meia-Noite” (2013). Tudo bem que em Viena, Paris e na Grécia eu discutiria fácil qualquer relação, mas isso não vem ao caso. Eu até desconfio que Linklater não fez mais filmes do gênero porque o dia só tem basicamente três estágios (manhã, tarde e noite) e faltaram ideias para novos títulos.

O tempo passou e dessa vez Linklater resolveu ser mais ambicioso. Colocou toda uma família para discutir a relação por 12 anos! E entre mortos e feridos... bem, veja o filme para saber se salvaram-se todos.

Vocês certamente já leram sobre a história de “Boyhood”. O filme passou no festival do Rio, está bem cotado e é figura fácil aí nas paradas de sucesso e nas redes sociais. Todo mundo está falando de "Boyhood" e a corneta não ia ficar de fora desse debate. A ideia de Linklater era contar a história de uma família por 12 anos, mas dispensando a maquiagem. O envelhecimento seria mostrado em tempo real.

Assim, anualmente o diretor se reunia com seus atores por uma semana ou mais para fazer uns takes descompromissados. Quase um hobby que cada um tinha entre um projeto e outro (e foram muitos como vocês podem ver aqui). “Boyhood” foi neste tempo para Linklater e seus atores como aquele projeto paralelo interessante que os integrantes de bandas de sucesso têm. Uma espécie de Gorillaz do Damon Albarn ou o The Raconteurs do Jack White.

É assim que começamos a acompanhar a história de Mason (Ellar Coltrane), um menino monossilábico de seis anos que pelos próximos 12 passará por tudo o que um jovem passa nessa fase de tanta intensidade, desconfiança e incertezas da vida. Inclusive será o adolescente mala que todos nós já fomos um dia. Mas se você leitor for adolescente, saiba que és uma exceção. Você é incrível.

No início, a vida de Mason era muito difícil. Só para vocês terem uma ideia, Steve Jobs ainda não tinha inventado algumas das maiores invenções da humanidade no século XXI, Mark Zuckerberg ainda não tinha lançado o Facebook, a melhor rede social que existe para falarmos de como está calor lá fora e postarmos fotos de bichinhos fofos, e o COLDPLAY era a banda do momento.

Eles tinham lançado dois anos antes o “Parachutes” (2000) e vocês não têm noção do pesadelo que era ligar a rádio e ouvir "Yellow". Ir ao dentista e na sala de espera ouvir “Yellow”. Abrir a janela, vislumbrar aquele sol bonito e amarelo e lembrar de... “Yellow”! Nem a Gwyneth Paltrow aguentou muito tempo com o Chris Martin. O casamento se encerrou em dez anos, menos tempo do que Linklater levou para filmar “Boyhood”. Como era possível viver nesse mundo com tão poucas possibilidades de entretenimento?


Eram tempos difíceis, mas Mason tinha mais pedras no meio do caminho. Entre elas, uma família para lá de problemática. Através do jovem observamos o seu pai, também chamado Mason (Ethan Hawke, um especialista em DR), tentando crescer. Ele teve dois filhos muito jovem, e ainda é um irresponsável que sonha em ser músico ao invés de ir garantir o leite das crianças num emprego sério. Vemos ainda a sua mãe (Não, não é Julie Delpy e sim Patricia Arquette), uma mulher especializada em maridos com alto teor alcóolico, mas que se dedica com afinco e amor à criação dos seus filhos. É aquela mãe especial que todos amamos. E observamos Linklater praticando nepotismo ao escalar a própria filha, Lorelei, para o papel de Samantha, irmã de Mason. Que mau exemplo, tsc, tsc...

E assim a vida vai passando. Acompanhamos Mason e Samantha crescendo e mudando completamente nesse tempo, passando por conflitos típicos de adolescente (quem nunca?) e a trilha sonora melhorando sensivelmente. Neste ponto é sempre bom ter um pai que gosta de Beatles e que te prepara um Black Álbum só com o best of jamais feito das carreiras-solo de John, Paul, George e Ringo. “Band on The Run”, “Sweet Lord” e outros clássicos são fundamentais para a formação do ser humano.


Com o tempo passando, Mason vai descobrindo um talento para a fotografia, se questionando sobre que lugar tem ou deseja ter no mundo, reflete sobre as idiossincrasias do Facebook e pinta as unhas de roxo, lançando tendências. E, claro, como se não bastasse todos os problemas pelos quais passa, tem o pior aniversário da vida (quem nunca?), quando recebe, aos 16 anos, uma Bíblia, um terno e uma espingarda de presentes. Típico kit do conservador básico do Texas. Por sorte, o pai está por perto e sempre existirão os Beatles.


Já se passaram duas das quase três horas de “Boyhood” e a corneta se questiona: Como pode um filme sobre a vida como ela é ser tão bom? “Boyhood” não tem efeitos especiais, atuações daquelas de Oscar, truques e viradas de roteiro mirabolantes. Poderia ser um documentário sobre a vida de uma família americana se não fosse um roteiro escrito, lapidado por mais de uma década.

“Boyhood” é a vida comum, o dia a dia lavando pratos, limpando a casa, lidando com os problemas, procurando emprego, fazendo escolhas, tomando decisões certas e erradas... situações pelas quais todo mundo passa. E talvez por isso seja tão interessante a participação de Patrícia e das duas crianças.

Vou fazer a minha filosofia de botequim agora. Talvez tudo seja tão naturalmente real porque os jovens provavelmente passaram por problemas e questões semelhantes aos exibidos no filme em todo o período de filmagem. E Patricia sabe como é criar duas crianças. Ela vive isso em casa. Os demais atores "interpretam" mais. E é fantástico perceber a passagem de tempo neles sem qualquer recurso que não seja a própria passagem da vida. Essa foi realmente uma ótima ideia.

O projeto de Linklater era ambicioso porque o tornava refém do tempo. Muita coisa podia acontecer em 12 anos. Mas o diretor confiou na velha canção de Jerry Ragovoy, regravada pelos Stones, que diz que o tempo está ao seu lado e seguiu em frente. E o resultado foi fascinante. “Boyhood” tocou o coração da corneta (ela não é tão má assim, vai). Um filme simples, mas paradoxalmente complicado de realizar que Linklater transformou numa pequena obra-prima. Quem deu Jesse e Celine ao mundo já tinha o total agradecimento da corneta, mas o diretor conseguiu se superar. A nota de “Boyhood” é 8,5.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Cotação da corneta: 'Drácula: a história nunca contada'

Que Drácula decepcionante
A corneta não tem poderes místicos, mas farejou o cheiro de bomba assim que viu o trailer de "Drácula - a história nunca contada". O próprio subtítulo um tanto quanto pretensioso, "a história nunca contada", sugeria uma dose de PICARETAGEM. Mas uma das qualidades desta entidade galhofeira da crítica cinematográfica (e musical, e esportiva, e do que mais surgir) é sempre ver os filmes de coração aberto. Mesmo que sejam filmes do Adam Sandler ou do Ben Affleck (Não esqueçam que "Garota Exemplar" é uma das exceções dele).

E assim lá estava eu comprando o meu ingresso para ver uma nova versão do meu vampiro favorito. O número 1, o homem (ou morto-vivo?), o mito que ganhou fama com um romance de Bram Stoker lançado lá no selvagem século XIX.

A intenção do filme do diretor estreante Gary Shore com essa "história nunca contada" me pareceu ser, humm, contar a história do verdadeiro Drácula (no filme vivido por Luke Evans). Mas pelo visto alguém deve ter achado que não tinha um apelo pop necessário numa era cheia de vampiros-coxinha de “Crepúsculo” e resolveu dar um toque: “Chefia, mas ele não vai morder ninguém? Ele não bebe sangue? Ele sai de dia numa boa sem queimar a pele? Que Drácula é esse?” Foi quando Shore resolveu dar à "história real" uma pitada do chupa-cabra style que existia no romance de Bram Stoker.

Parêntese histórico: Drácula realmente existiu, mas não era um vampiro e sim Vlad Dracul, ou Vlad, o Empalador, príncipe que governou a Valáquia por três vezes no século XV, estava sempre em guerra com os turcos e era conhecido por usar métodos cruéis de tortura contra os seus inimigos. Seu favorito era empalar as pessoas. Eram tempos inóspitos na Romênia e adjacências.

Reza a lenda que ele também bebia o sangue dos inimigos. Parece que era nutritivo. E lembrem que naquela época não tinha suco verde, detox, essas coisas. Era complicado ficar em forma.

Enfim, as lendas contam que Vlad voltava dos mortos e bebia sangue. Bram Stoker pegou tudo isso, usou da máxima “eu aumento, mas não invento” e criou o vampiro que conhecemos. Para aumentar o mistério e confundir as linhas que delimitam ficção e realidade, quando o seu túmulo foi escavado por arqueólogos no início do século XX só foram encontrados ossos de... animais. Que medo! Será que ele pode aparecer aqui enquanto escrevo estas linhas? Mais sobre o Drácula aqui (em inglês), aqui (em português) e aqui (em romeno para você se sentir no clima da Valáquia).

De volta ao filme, o problema dessa nova versão é que os roteiristas Matt Sazama e Burk Sharpless e o diretor filmaram 1h30m de película sem definir que Drácula eles queriam mostrar. Então parecia um Vlad insano: de um lado o sujeito mau feito pica-pau que empalava os inimigos. Do outro o pai de família que se sacrifica para salvar a vida do filho e o povo da Transilvânia. Conta outra. Um cara que fez a sua vida com sangue e guerras, que era conhecido pelo sadismo e considerado por muitos como louco não tinha condições de ser um pai amoroso que se doa pela família. Um cara que arrancava os seios das mulheres e ordenava que os maridos os comessem, não podia ser nem 1% bonzinho.

Era respeitado como líder militar, mas não era alguém para você sair e tomar uma cerveja romena. Ou seja, “a história nunca contada” não se define. Drácula joga em todas as posições do campo e parece aqueles partidos políticos que estão sempre orbitando o poder. Não importa quem vença a eleição.

Drácula também parece um filme de origem de super-herói (como se já não tivéssemos muitos e vêm mais 30 por aí). E vocês sabem que quase sempre os filmes de origem não são bons. Se liga na história resumida. Vlad era um rei amado pelo seu povo, apesar do passado monstruoso de Vlad, o empalador. Um dia a situação com os turcos ficou feia, mas ele não tinha exércitos para enfrentar os inimigos. O sujeito vai até a caverna do Dente Quebrado para encontrar Tywin Lannister, ops, para encontrar o vampiro original (Charles Dance), o monstro que todos temem, o capeta que vai lhe dar os poderes necessários para agir. Sim, amigos, Drácula mais parece o Spawn da Idade Média.

Após tomar o suco de sangue do capeta, Vlad ganha uma espécie de sentido de aranha do Homem-Aranha, a visão além do alcance do Superman, a superforça do Hulk, a capacidade de controlar o tempo da Tempestade, e a capacidade de controlar todos os morcegos do planeta que nem o Batman tem. E o próprio se transforma em centenas de morcegos, o que me fez lembrar dos Supergêmeos. Ah, ele também mexe as mãos para invocar os poderes igual ao Magneto. Concluindo, ele ficou por cima da carne seca. O problema é que Drácula nunca mais poderá ir a praia. E nada de usar moedas para comprar pão. Prata não é com ele. Só nota. Também é bom evitar crucifixos.

Como grandes poderes trazem grandes responsabilidades, Vlad vai pagar um preço caro por suas escolhas. Na guerra não há santos e às vezes monstros são necessários, diz ele próprio.

O novo Drácula pode não ser um coxinha sem sal como a turminha do barulho de “Crepúsculo”, mas também está longe, muito longe, dos melhores momentos de Gary Oldman e sua peruca branca em “Drácula de Bram Stoker” (1992). É um Drácula que ao invés de mostrar os caninos ao mundo, só exibe dentes de leite. Mas é um personagem fascinante que sempre vai voltar. Há dezenas de filme sobre ele. E este não será o último.


Mas a corneta não tem medo de criaturas da noite. E confiando que morcegos são mamíferos fofos e não me atacarão pela janela, será obrigada a ser cruel com este novo Drácula. Não tanto quanto Vlad, mas necessariamente cruel. E a avaliação só não será pior, porque os efeitos especiais são maneiros. “Drácula – a história nunca contada” vai ganhar uma nota 4.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Cotação da corneta: 'O Juiz'

Que dupla
Receita de bolo de histórias de redenção de Hollywood. Junte uma família. Coloque alguns dos seus membros em conflito. Acrescente uma pitada de relação entre mundos diferentes. Cidade grande x cidade do interior, pessoa honesta x pessoa desonesta, etc... Adicione rusgas do passado. E que precisam de um ajuste de contas. Uma dose de ética. Duas de moral. Americanos adoram o conceito de moral. Chore junto com aquela música no piano ao fundo e voilà! Cá estamos diante do enredo de "O Juiz".

Você já viu o "Juiz" incontáveis vezes. Só que ele tinha outros nomes. "O juiz" já ganhou o Oscar, já passou na “Sessão da Tarde”, já passou no seu canal a cabo favorito e provavelmente você já baixou naquela locadora mágica da internet (sim, essa sueca mesmo. Não se faça de desentendido). Pois o filme de David Dobkin não é muito diferente de diversos filmes que já vimos por aí.

O enredo. Advogado canalha e bem sucedido tem uma vida supimpa e rica, apesar de o casamento com uma mocinha mais jovem com corpo de modelo estar indo para o espaço. Um dia ele recebe uma bomba: sua mãe morreu. E agora? Ele vai ter que voltar para a odiosa cidade do interior da qual saiu há 20 anos para não mais retornar para o enterro de sua querida mãe e um.. bem... ajuste de contas com o seu pai, com quem não fala desde que picou a mula.

O advogado em questão se chama Hank Palmer e é vivido por Robert Downey Tony Stark Iron Man Jr. Ele vivia na possante Carlinville, Indiana, ali no meio do nada (o que tem em Indiana além dos Pacers da NBA, dos Colts da NFL, de uma tradicional prova do automobilismo e plantações de milho? Nada) quando resolveu largar a namorada e a família para cair no mundo.

Para isso ele usou um álibi muito mais perfeito do que "vou ali comprar cigarros e já volto". Hank disse "vou ali no show do Metallica e já volto".

Downey Jr, vocês sabem, é fã do bom e velho rock and roll. É por isso que a corneta é fã dele. Nos filmes do Homem de Ferro ele veste a camisa e escuta AC/DC e Black Sabbath. Aqui, ele escuta Metallica.

E é por causa do Metallica que ele deixa a sua bela namorada na pista. Isso não se faz! Cara, se liga no que ele fez. Ele largou a Vera Farmiga (que faz Samantha Powell no filme) para ver um show do Metallica durante a turnê “Shit Hits The Sheds”, que foi uma espécie de fim de feira da turnê do “Black Album” lançado em 1991. E lá estava ele no dia 2 de julho de 1994 em Noblesville, Indiana, para ver James Hetfield e cia. Depois daquela sequência final de shows, o Metallica se enfurnaria no estúdio para cortar os cabelos e gravar o “Load”, que vocês sabem a repercussão péssima que teve. Mas Hank nunca deixaria de ser fã do Metallica e guardaria a sua camisa velha e surrada por duas décadas.


Mas o tempo passou, o enterro da mãe está aí e é hora de Downey Jr pagar os pecados. Primeiro ele tem que lidar com o pai, o juiz Joseph Palmer (Robert Duvall) que manda prender e manda soltar em Carlinville. O primeiro contato dos dois é de uma frieza de fazer urso polar pedir um casaco para vestir. Mas estamos falando de um filme do gênero redenção plus acerto de contas. Logo o gelo será quebrado, as arestas serão aparadas, quem os roteiristas Nick Schenk e Bill Dubuque pensam que enganam? O artifício usado para isso é o bom e velho golpe da netinha que amolece o coração de qualquer avô. Quando chegar a nossa hora entenderemos essa relação mágica.

É como diz Renato Russo: “Você culpa seus pais por tudo/ Isso é absurdo/São crianças como você”. E assim Hank vai perceber que é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã e aceitá-las do jeito que elas são. Mas ele aprenderá isso da forma mais tensa possível. Terá que defender o pai no tribunal de uma acusação de assassinato de um velho inimigo da família. O elemento "fantasmas do passado" sempre surge em filmes assim. Seu adversário de tribunal será Billy Bob Thornton (o advogado Dwight Dickham), um cara que também tem um ajuste de contas com Hank. Será um confronto de peso no tribunal.

Enquanto isso, Samantha estará lá, linda e pronta para reatar um relacionamento de 20 anos atrás. Realmente esse tal de Downey Jr é bom. Que mulher esperaria 20 anos por um homem? (Respostas na caixa de comentários, por favor).

Downey Jr é um cara carismático, Vera Farmiga é belíssima e candidata a musa da corneta 2014 e filmes de tribunal são quase sempre divertidos, mas "O Juiz" derrapa na obviedade, nos clichês, enfim, é mais do mesmo e sem muito tempero. Fazendo o balanço final, o filme ganhará uma nota 6.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Cotação da corneta: 'O homem mais procurado'

Seymour Hoffman, perfeito no papel
Certos filmes nos oferecem algumas reflexões. Momentos em que devemos pensar sobre que atitude tomar diante de determinadas situações. A reflexão que “O homem mais procurado” nos oferece é: devemos confiar nos americanos?

Ok, os americanos já salvaram o mundo incontáveis vezes. Seja com exércitos de um homem só como Rambo ou John McClaine, seja com grupos de heróis como os Vingadores. Ou até o presidente dos Estados Unidos! (Ah, “Independence Day”..). Eu só tenho pena do prefeito de Nova York, que gasta toneladas de dinheiro do orçamento para reconstruir a cidade a cada ameaça que surge.

Mas a pergunta que fica é: devemos confiar nos americanos? Principalmente se eles são chefiados por Claire Underwood (Robin Wright)? Quem vê “House of Cards” sabe que por trás daqueles olhos azuis existe uma mulher que vai te devorar vivo. E não será legal. Claire, você está com os cabelos escuros e exibindo o nome de Martha Sullivan no crachá da CIA, mas você não me engana. É com essa questão que o protagonista do filme terá que lidar.

"O homem mais procurado" é a nona adaptação para o cinema de um livro de John Lee Carré. Os livros do escritor inglês quase sempre dão bons filmes. O ultimo deles foi "O espião que sabia demais" (2011), um filmaço com Gary Oldman e Colin Firth.

Lee Carré é um adepto da espionagem roots. Gosta de uma história em que a ação está nos diálogos, no trabalho de formiguinha de agentes secretos que não fazem barulho e atuam nas sombras. Ele traz a espionagem para a vida real. Esqueça os filmes de James Bond, onde o agente secreto é um super-herói que salva o mundo sem amassar o terno. E ainda fica com todas as mulheres. Aqui os personagens são imperfeitos e a ação acontece quase sempre na moita, enquanto você vai na padaria. O jogo sujo é feito por baixo dos panos.

Transposto para as telas, as obras do escritor resultam em filmes intrincados, tensos e com personagens soturnos. Enfim, a vida de espião não é glamorosa e está cheio de gente querendo te dar bola nas costas.

"O homem mais procurado" é uma história de pescador. Gunther Bachmann (Philip Seymour Hoffman em um dos seus últimos trabalhos. Que triste perder um ator espetacular como ele), quer pescar um tubarão do terrorismo internacional. Ele é um empreendedor da espionagem. Faz concessões com peixes menores e limpa as arestas, para focar no que realmente interessa: pegar os grandes financiadores do terrorismo do planeta e tornar o mundo um lugar melhor (risos, por favor).

Com sua voz rouca e olhar desiludido da vida, Bachmann vai gastar três ou quatro bebidas e dúzias de cigarros arquitetando o seu plano de pescar o peixe grande com suas histórias. Mas, enfim, o mundo da espionagem não é uma equação matemática simples. Eu tenho a sensação que Bachmann poderia pensar: "Às vezes eu gostaria de ser James Bond". Não está fácil para ninguém, amigo.

Dirigido por Anton Corbijin (do muito bom “O homem misterioso”, um dos trabalhos em que George Clooney é menos George Clooney), "O homem mais procurado" é mais um prazeroso filme da safra Lee Carré. A corneta deixou o cinema desiludida do mundo e refletindo sobre a pergunta do início do texto. Devemos confiar nos americanos? Veja o filme e tire as suas próprias conclusões. Mas ela também saiu satisfeita com o que viu na tela. Por isso que “O homem mais procurado” vai ganhar uma nota 8.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Cotação da corneta: 'Garota exemplar'

Ben Affleck faz um discurso
David Fincher é um cara difícil de cornetar. Eu diria que ele é uma espécie de arqui-inimigo da corneta, a kriptonita dos meus comentários moleques, porque simplesmente ele só faz filme bom. Ok, “Benjamin Button” (2008) é um trabalho um tanto 6,5, mas, convenhamos, 6,5 é aquela nota baixa em física que o aluno espetacular da sua sala de aula tira de vez em quando.

Fincher é daqueles cineastas que já me fez levantar da cadeira no cinema. Falo de "Clube da luta" (1999) e a jornada errática do seu anti-herói vivido por Edward Norton. Quem viu sabe o que é estar diante daquele momento em que você solta um palavrão de felicidade pelo que aconteceu ali na sua frente.

Depois daquele que é um dos meus filmes favoritos para sempre, Fincher fez uma série de bons trabalhos. "O quarto do pânico" (2002), “Zodíaco” (2007), “A rede social” (2010), “Millenium: os homens que não amavam as mulheres” (2011)... Enfim, é uma filmografia de respeito.

Mas o que o diretor fez dessa vez é para superar TODAS as expectativas. “Garota Exemplar” é cinema de altíssima qualidade. É David Fincher subindo o himalaia para encontrar a corneta com um sorriso sarcástico e dizendo: “Me julgue agora, idiota”. Maldita kriptonita.

Entre tantos méritos, um dos mais marcantes de “Garota Exemplar” é fazer o Ben Affleck ter uma atuação em que podemos elogiar. Ok, eu já tinha gostado dele em “Amor Pleno” (este filme é magnífico, me julguem), mas o trabalho de Terrence Malick é, bem, um filme do Malick. Com todas aquelas insanidades que conhecemos.

Aqui, Affleck está... eu vou dizer.... (respira).... perfeito. Um trabalho tão bom que eu prometo para vocês que eu vou observar com o coração aberto o “Batman vs Superman” daqui a dois anos, quando ele assumirá o papel do homem morcego no lugar do eterno Christian Bale.

Na história, Affleck é Nick Dunne, uma espécie de Chico Bento do Missouri que um dia, numa festa despretensiosa em Nova York, a cidade onde tudo acontece, conhece Amy (Rosamund Pike, em uma atuação que eu classificaria como soberba). Amy é aquela mulher cosmopolita, antenada, patricinha, mas cheia de problemas psicológicos causados pelos pais. Freud explica. Ela é também a tal garota exemplar do título, a menina real que inspirou um personagem que é fenômeno literário juvenil. Tipo Harry Potter.

Mas Nick usa todo o seu charme, vira para ela com o seu meio sorriso e “queixo de vilão” e diz: “How you doin?”. E a gente sabe desde Friends que todas as mulheres caem neste papo. Em pouco tempo os dois estavam tomando banho de açúcar numa cena imprópria para diabéticos. Em menos tempo ainda, era cama, mão naquilo e aquilo na mão.

O relacionamento cresce e vira um conto de fadas. Tudo é perfeito. Comemoram bodas de papel (um ano), algodão (dois), couro (três) e flores (quatro), mas aí o casamento chega aos cinco anos, as bodas de madeira. Enfim, não há casal de margarina que passe incólume à crise dos cinco anos. Amy desaparece. E Fincher começa a nos enlouquecer e nos surpreender a partir da investigação em que até o marido surge como suspeito de um possível assassinato.

A corneta para por aqui. Não é possível seguir em frente sem revelar detalhes importantes da história. O que é possível dizer é que "Garota exemplar" é daqueles filmes para se ter na prateleira de casa e rever com freqüência. É um filme que reverbera na mente, e o faz pensar sobre ele mesmo horas depois de você ter assistido.

Pense nos detalhes. Fincher constrói a história, molda os cenários com minuciosos detalhes que dão textura, cor e alma a história. Sujeito sacana. Nada em cada cena é por acaso. Do corte de cabelo de Amy, passando pela roupa que os personagens vestem e chegando até o papel dos figurantes na cena. Tudo tem propósito. E o diretor ainda da simplesmente dois cavalos de pau na história, a revirando do avesso ao seu bel prazer. E a verdade é manipulada ao sabor da imprensa.

Ok, Fincher, você venceu. Não vou temer em chamá-lo de gênio por esse filme e considerar "Garota exemplar" uma obra-prima. Diante desta perfeição, a corneta só pode se render e dizer: Parabéns, este é um filme nota 10.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Cotação da corneta: 'Sin City: a dama fatal'

Meu Deus, Eva Green!
Muitos atores ficam conhecidos por repetir um mesmo tipo de personagem. Mas Bruce Willis é um dos poucos, senão o único, que pode bater no peito e dizer que trabalhou em dois filmes nos quais fez o papel de um fantasma sofrido que perdeu a mulher amada.

Infelizmente para ele, em "Sin City - a dama fatal", não tem nenhum garotinho dizendo que vê pessoas mortas para distraí-lo. Aqui, Bruce só fala sozinho, olhando a Jessica Alba rebolar no palco de uma birosca para ganhar a vida. Pois não é fácil a vida em Sin City, o lugar no futuro onde Christopher Lloyd foi parar.

- Mas ele não estava morto? – perguntou um espectador ao colega na cadeira ao lado.

Claro que não, amigo. Está feliz e trabalhando bastante aos 76 anos. Só andava meio sumido do mainstream. Morto mesmo está Hartigan, o personagem de Bruce.

"Sin City" se passa quatro anos depois dos eventos do primeiro filme, quando o detetive Hartigan faz uma plástica no filho do poderoso senador Roark (Powers Boothe) e em seguida tira a própria vida.

Agora novos personagens surgem e velhos conhecidos reaparecem. Mas a trama de ódio e vingança numa cidade fétida tomada pelo pecado, a promiscuidade e a criminalidade é a mesma (calma, Sin City não é inspirado em conhecidas cidades brasileiras). Além daquela clima meio poser de personagens narrando suas histórias com jeitão de Cid Moreira recitando "A sangue frio". É maneiro.

Entre os velhos conhecidos está Marv, o vilão-herói vivido brilhantemente por Mickey Rourke. Sempre pronto para uma boa briga, Marv agora é o bonzinho da parada. E em Sin City isso significa que ele é o menos pior e só está ajudando Nancy, a mocinha vivida por Jessica Alba, a conseguir alguma ação para mexer as velhas juntas e o traseiro gordo. E o que Nancy deseja? Matar Roark, o senador que não pode descer para o play porque não sabe brincar no pôquer.

Esta é a história principal do filme conduzido por Frank Miller, o rapaz responsável pelos quadrinhos que geraram a película, e Robert Rodriguez, o texano doidão que fez aquele projeto “Grindhouse” (2007) com o Tarantino. E "Sin City 2", inclusive, tem muito de “Planeta Terror”, mas sempre naquela estética noir-hipster do primeiro filme.

Mas não esqueçamos que o subtítulo é “a dama fatal". Isso pressupõe que exista essa personagem que enlouqueça a todos dentro e fora da tela, a ponto de você desejar que ela se inspire em “A rosa púrpura do Cairo” (1985) e saia da tela para se declarar para você. Esta mulher tem nome, sobrenome e provavelmente até codinome: Eva Green.

Tudo o que eu posso dizer sobre a participação de Eva Green no filme é: MEU DEUS DO CÉU. Esta Brigitte Bardot do século XXI surge em todo o seu, digamos, esplendor no papel de Ava. Você sabe desde o início que Ava vale menos do que uma nota de R$ 3, mas é impossível resistir a ela. É como Marv diz para Dwight (Josh Brolin): “Por uma mulher dessas, se mata”. Mas é claro que eu estou falando dos hipnotizantes olhos verdes dela.

Ava é uma viúva negra. Semeia a tragédia e suga a alma dos homens que toca. Todos são apenas escadas para a sua chegada ao poder. Só que você está em Sin City e, bem, vocês sabem como essas coisas podem acabar.

É uma pena que com tantos personagens interessantes, “A dama fatal” não seja nem de longe tão legal quanto o primeiro filme. Pode parecer estranho sabendo que quem pilotou o filme foi Frank Miller, mas os diálogos são tão pouco inspirados que nem parecem dele — e com isso a história não decola.

É tudo muito bonito, mas falta um pouco de conteúdo. Parece aqueles filmes de sequência do Jerry Bruckheimer ou do Michael Bay. O primeiro deu certo? Aplique doses cavalares da mesma fórmula no segundo. Aí o bolo ficou todo solado.


Sabendo que não dará uma volta com as mulheres assassinas da cidade velha de Sin City, a corneta será implacável na nota. Pesando os prós e os contras, o fator diversão de uma sexta-feira à noite e apesar da presença marcante de Eva Green, “Sin City: a dama fatal” ganhará uma nota 5,5.