quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Vale o ingresso?

Fui ver “O Turista” e sai do cinema aparentemente sem ter muito que dizer. Óbvio que comprei o ingresso para ver os lábios carnudos e outras coisas carnudas da Angelina Jolie e para ver o sempre excelente ator Johnny Depp, o que seria para mim uma espécie de reserva artisticamente moral do filme. Claro que valia a pena ainda por ser um filme de Florian Henckel von Donnersmarck. Não ligou o nome a pessoa? Eu explico. O alemão com nome de duque de Augsburg é o diretor de “A vida dos outros” (2006), o trabalho que lhe deu um Oscar de filme estrangeiro.

Com tantas credenciais, “O Turista” tinha tudo para ser na pior das hipóteses um filme-pipoca pelo menos divertido. Mas, sei lá, sai do cinema com aquela cara de bunda de quem comprou um produto mais pela grife do que por sua real funcionalidade.

Em primeiro lugar Depp não está inspirado. Faz o filme como se estivesse aproveitando férias em Veneza. Mas não chega a ser aquele estilo “estou me divertindo e ganhando um dinheiro honesto” de “Piratas no Caribe”, por exemplo. É quase preguiçoso. Definitivamente o professor de matemática Frank Tupelo que é confundido com Alexander Pierce, um homem que rouba 744 milhões de libras de um gângster inglês que só anda com capangas russos (sim, eu também não entendi nada), não tem nem de perto a graça de um Jack Sparrow.

Então Depp está ali tirando férias em Veneza, ganhando uma grana e ainda tem a sorte grande de dar um beijo na boca da Angelina Jolie. Isso, claro, já é ganhar na Mega-Sena da virada. Quantos (as) tiveram essa chance? Melhor que isso só se o cara fosse o Brad Pitt. Ou seja, casado com ela.

E assim chegamos ao segundo ponto do vértice. Angelina está ali fazendo o que dela se espera, que é viver o papel eterno de Angelina Jolie, mulher linda, maravilhosa, quase perfeita, sexy, provocadora e que gosta (muito) de sexo. Nada diferente do que ela fez em “Sr. e Sra. Smith” (2005), “O Procurado” (2008) e “Salt” (2010). Sendo que só o primeiro é realmente muito bom. Nos últimos tempos ela só fugiu um pouco desse papel em “O preço da coragem” (2007) e “A Troca” (2008). Bom resultado no primeiro, difícil de engolir no segundo. E vamos esquecer aquele filme constrangedor chamado “A lenda de Beowulf” (2007).

Em “O Turista”, Angeline é Elise Clifton-Ward, mulher de Pierce, que está em busca de um meio de reencontrar o seu grande amor, mas vai acabar tendo uma quedinha pelo personagem de Depp quando estiver a procura de alguém que seja parecido com Pierce para tentar enganar a Scotland Yard, mais precisamente os inspetores John Acheson (Paul Bettany) e Jones (Timothy Dalton), que estão no encalço de Pierce. Quando vocês verem o filme vão entender porque ela faz tudo isso.

Do trio, portanto, Angelina é a única que não decepciona porque faz o que dela se espera. É quando chegamos a Von Donnersmarck. Nada contra suas belas tomadas de Veneza e seu estilo de dirigir, mas o alemão assina também o roteiro junto com Christopher McQuarrie e Julian Fellowes e aí é que a casa cai quando o comparamos primeiro com o seu filme mais famoso (e eu nem devia estar fazendo isso. É uma afronta do tipo Claudia Leite no Rock in Rio) e em segundo lugar com outro filmes do gênero bandidos-fazendo-fugas-improváveis-e-quase-românticas.

Não vou muito longe. Perto do recente filme de Russel Crowe, “72 horas”, que é no mesmo estilo, as saídas do roteiro do trio de “O Turista” são bem fraquinhas. Tem um momento em que ele tenta surpreender, mas acaba confundindo e não dá uma conclusão satisfatória no que Angelina ou Depp representam verdadeiramente ou não. Fica aquela coisa amorfa, confusa e sem muita criatividade. E não vou nem citar “O Plano Perfeito” (2006), de Spike Lee, o melhor filme de bandidos que se dão bem dos últimos tempos.

Assim “O Turista” me deixou com uma sensação de quem comprou produto pirata na fronteira com o Paraguai. Pode ser divertido? Pode. O filme é leve e tem umas tiradas engraçadinhas. Mas diante da inflação do cinema (aumentou R$ 2 na virada para 2011!), talvez eu deva escolher melhor da próxima vez.
Claro que eu não farei isso se Angelina Jolie estiver nos créditos.

No final das contas, descobri que eu tinha muito a dizer sobre “O Turista”. E o filme só serviu também para fazer surgir um desejo de conhecer Veneza.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Um filme nada Biutiful

Tudo o que Woody Allen fez de positivo por Barcelona em “Vicky Cristina Barcelona” (2008), Alejandro González Iñarritu tratou de destruir em “Biutiful”. Se com o diretor americano, vemos uma cidade solar, palco de amores, casais apaixonados, uma vida hedonista e belíssimos cenários, com o mexicano acompanhamos uma espécie de lado B de Barcelona, algo nada bonito ou simpático.

É a miséria humana. Com Iñarritu, a bela praia de Barceloneta só serve de cova para despejar imigrantes chineses ilegais que morrem em um depósito num fundo de quintal da cidade. A Ramblas, famosa rua da cidade, é um antro de senegaleses vendendo produtos baratos e drogas, muitas drogas. Já a igreja da Sagrada Família é uma obra faraônica encravada no meio de uma quase favela de uma cidade que expõe a olho nu as duras desigualdades e preconceitos que a população que ali vive sofre. É o horror e a miséria. Uma Barcelona como você nunca viu quando foi lá como turista. “Biutiful” é sofrimento. Não existe felicidade num único fotograma das duas horas e meia de película.

Curiosamente, o protagonista da bela Barcelona de Woody Allen é o mesmo da terrível Barcelona de Iñarritu. Javier Bardem é Uxbal, um marginal qualquer, um cafetão sociológico que ganha dinheiro explorando imigrantes ilegais em Barcelona sob a pecha de que os está ajudando a conseguir emprego e a trabalhar na Europa, a terra das oportunidades que não são encontradas na China e na África.

Enquanto tenta ser um bom pai para os seus dois filhos pequenos, Uxbal tem que lidar com sua mulher, Marambra (Maricel Alvarez), que vive dando para o seu irmão, Tito (Eduardo Fernández), e sofre de transtorno bipolar, e descobre que tem apenas dois meses de vida por causa de um câncer de próstata em estágio muito avançado. Pode piorar? Pode. Uxbal também ganha um dinheiro extra fazendo bicos explorando os seus dons sensitivos. Ele consegue entrar em contato com os mortos para buscar uma palavra de conforto para os parentes que ainda estão sofrendo a dor da perda de entes queridos.

Iñarritu não economiza no sofrimento de todos. Ele quase tem prazer em mostrar o quanto a vida é, para ser bem direto, uma merda. Perto de “Biutiful”, “Amores Brutos” (2000), “21 Gramas” (2003) e “Babel” (2006) são filmes quase positivos. Isso porque aqui ele chega no limite da dor a ponto de uma mulher que sentava no meu lado no cinema exclamar: “Meu Deus, por que esse homem não morre logo!”.

“Biutiful” é o primeiro filme de Iñarritu sem o parceiro e roteirista Guillermo Arriaga. Depois da briga de egos entre os dois, o próprio Iñarritu resolveu assinar o roteiro junto com Armando Bo e Nicolás Giacobone. A diferença mais visível do seu trabalho atual em relação aos anteriores é o abandono da estrutura narrativa de três histórias que num determinado momento se encontram.

Agora tudo é centrado em Bardem. Ele é o elo de ligação que irá flutuar sobre os três momentos do filme: A sua história com a mulher problemática e bipolar, o drama dos senegaleses que vendem drogas na cidade, e a vida dos imigrantes chineses na fábrica de bolsas falsificadas, cujo dono vive um caso homossexual com o sócio, mas mantém as aparências com uma família supostamente feliz, apesar da desconfiança da esposa de que aquela Coca é Fanta.

Digamos que Iñarritu tenha invertido a lógica de suas narrativas para dar uma variada num momento em que muitos resolveram imitá-lo. Até o Clint Eastwood como você pode ler no post abaixo.

O resultado é satisfatório. “Biutiful” não é o melhor filme do diretor (continuo preferindo “21 Gramas”), mas é intenso, pesado e uma porrada na alma. Você sai do cinema meio grogue e se sentindo mal pelo estado de degradação humana a que Iñarritu te expõe. Definitivamente, esperança e felicidade não são palavras encontradas no dicionário do diretor. Só dá para ficar bem é com a ótima atuação de Bardem, o ator que viveu os prazeres, as dores e os desafios dos extremos destas Barcelonas de Woody Allen a Alejandro González Iñarritu.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Após a morte

Hoje com 80 anos, Clint Eastwood tem feito da morte uma reflexão e uma companheira constante em seus filmes nos últimos sete anos. Se em “Menina de Ouro” (2004), ela usa a história de uma jovem boxeadora vivida por Hilary Swank para debater a questão da eutanásia, em “Gran Torino” (2008), é o próprio Clint quem vive um ex-militar aposentado que tem que conviver com a tristeza da solidão após a viuvez e se reinventar numa cidade que agora lhe é hostil por estar tomada de imigrantes que ele combateu e matou em guerras que os americanos volta e meia se envolvem.

“Além da Vida” é mais uma vez um Clint Eastwood que se defronta com a morte, mas que tenta buscar um sentido que vá além do fim. O diretor quer algo maior do que o mero desfecho de um pedaço de carne jogado num pedaço de madeira e este dentro de uma cova a sete palmos.

Utilizando uma técnica de narrativa de histórias que se entrecruzam num determinado momento que ficou bastante manjada depois de uma seqüência de filmes de Alejandro Gonzalez Iñarritu, Eastwood monta um filme delicado sobre um tema igualmente sensível que lida com fé e no que você acredita ou não que possa acontecer quando a sua hora chega.

Um dos pontos desse vértice é Marie LeLay (Cécile de France, num excelente trabalho). Jornalista famosa e competente, ela está passando férias na Tailândia com o namorado Didier (Thierry Neuvic) no momento em que um tsunami atinge aquele paraíso devastando tudo e causando centenas de milhares de mortes. Ali, Marie terá uma experiência de quase morte que a marcará profundamente e mudará para sempre a sua existência.

Corta para São Francisco, onde um ótimo Matt Damon é George Lonegan, vidente que tem poderes de ter contato com os mortos e envia mensagens para aqueles que estão no mundo carnal. Lonegan, porém, não quer mais viver essa vida, pois “uma vida dedicada aos mortos nunca poderá ser uma vida”.

Suas tentativas de se afastar do seu destino, do dom que ganhou para ajudar aqueles que sofrem com a perda de entes queridos, serão sempre frustradas ao mesmo tempo em que Lonegan não extinguirá a solidão que o deixa num vazio a cada noite em que come sozinho na apertada cozinha do seu apertado apartamento.

Enquanto isso, em Londres, Marcus e Jason (os irmãos Frankie e George McLaren) vivem dois irmãos gêmeos muito unidos que são filhos de uma mãe drogada e alcoólica. O problema é que quando Jason, o mais falante e extrovertido e uma espécie de líder da dupla acaba falecendo ao ser atropelado por uma van, a vida de Marcus também fica sem rumo, só lhe restando a saudade e uma desesperadora necessidade de ouvir pelo menos uma última palavra do irmão, o que o levará a incontáveis charlatães. Pelo menos até ele cruzar com Lonegan.

É uma grande coincidência que em meio a tantos filmes espíritas de sucesso no Brasil, Clint Eastwood e o roteirista Peter Morgan – de “Frost/Nixon (2008), “A Rainha” (2006) e “O último rei da Escócia” (2006) – tenham realizado um trabalho com uma temática tão presente entre os seguidores dessa religião. Conduzindo a sua câmera com extrema delicadeza e quase que abrindo mão da trilha sonora, Eastwood parece tatear sobre o tema ao mesmo tempo em que busca respostas para o que há nesse além da vida.

É como se tentasse especular sobre o que vem depois da escuridão, se é que há uma escuridão, uma vez que tantas histórias de experiências de quase morte relatam luzes brilhantes e sentimentos de paz e tranqüilidade.

Ao mesmo tempo, “Além da vida” é um exercício de como lidar com a solidão e uma perda de rumo diante de algo inevitável que é a morte. E aí, o diretor não fala apenas da perda da vida em si, mas também do vazio profissional causado pelo fácil descarte e substituição no emprego, pela sensação de abandono e solidão quando você se vê sozinho num mundo que não conta mais com a proteção de quem estava ali próximo de você. Ou mesmo o vazio de alguém que busca a simplicidade de uma vida normal e não consegue ser compreendido nem por quem é da própria família e supostamente deveria querer o seu próprio bem. É um pouco se reinventar diante de uma suposta escuridão ou ausência de saídas.

“Além da vida” certamente não é o melhor filme de Clint Eastwood, mas é um dos mais interessantes e de um refinamento que é próprio do diretor que nas últimas décadas tem se dedicado a lapidar diamantes para expô-los nas salas de cinema para deleite geral. E nessa trajetória de 35 trabalhos atrás das câmeras até aqui, Eastwood já se mostra há algum tempo um diretor maduro que sempre tem o que dizer e que merece sempre ser ouvido.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Godard

Jean-Luc Godard é daqueles cineastas que ou você ama ou você odeia. Sua obra parece não caber o meio termo e a análise pontual. E enquanto os seus fãs o defendem com ardor, seus detratores usam a mesma paixão para expor suas ideias, embora nem sempre na ágora pública, pois lamentavelmente parece ser um pecado na sociedade não gostar de Godard. Mal comparando, falar mal de Godard – ou de Ingmar Bergman ou François Truffaut – é como cometer um pecado venal entre os fãs de cinema. É quase como falar mal de Chico Buarque no Brasil.

Como em “Memórias da Alcova” impera a democracia participativa e o debate livre de ideias, há espaço para falar o que quiser de quem bem entender e estamos entendidos. Todavia, eu faço parte dos que amam Godard.

No ano em que completou 80 anos, o cineasta francês rompeu um silêncio de quatro anos para fazer uma confirmação de suas ideias através de mais um filme sim de difícil compreensão e obviamente sem roteiro, o que parece ser uma marca de Godard. Nem sei como é que aparece nos créditos dos sites o nome dele como roteirista.

Constituído por três partes diferentes, “Film Socialisme” é um Godard em grande forma abusando do que a cinematografia tradicional considera “sujeira” (ruídos, sons, luz estourando, imagens desfocadas) para criar uma obra sim de difícil compreensão imediata, mas que por incrível que pareça tem uma conexão – tênue, mas existente. A conclusão fica para quem vê e para o debate. Godard nunca foi de expor o caminho para um desfecho, de ceder à facilidade de um “the end”, deixando que o espectador construa como bem entender essa estrada.

“Das Coisas como” abre o filme do cineasta francês mostrando um cruzeiro pelo Mar Mediterrâneo numa verdadeira babel de línguas e cores associada a colagens de conversas em que o cineasta usa os fragmentos de textos para refletir, a partir dessas múltiplas conversas em múltiplas linguagens, sobre a guerra e uma suposta decadência da sociedade europeia. “Nossa Europa” mostra um casal de irmãos convocando os pais a comparecerem a uma espécie de tribunal de sua infância em que são discutidos liberdade, igualdade e fraternidade, os velhos temas da Revolução Francesa.

Já “Nossas Humanidades” resgata lugares cruciais ou não para a construção e a formação da sociedade que conhecemos e através deles (Egito, Palestina, Odessa, Grécia, Nápoles e Barcelona) Godard reflete sobre a evolução da sociedade, história, conhecimento, liberdade e a expressão do nacionalismo de diferentes formas.

Uma linha tênue liga os três momentos com o cruzeiro pelo Mediterrâneo (onde vemos uma participação especial da cantora Patti Smith) servindo de base para Godard expor conceitos como “o dinheiro foi inventado para que os homens não precisem se olhar nos olhos” ou “Se a lei está errada, a justiça passará por cima dela”. Afinal, questões discutidas no segundo momento ou passagens do terceiro são igualmente temas recorrentes daquele primeiro momento.

No quebra-cabeças de Godard, este cruzeiro é o ponto-chave para compreender “Film Socialisme”. A partir dele, o cineasta expõe sua crítica ácida e nos conduz nessa jornada só possível pelas mãos do cineasta que só é daqueles gênios sem meios termos porque também não tem meias palavras.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Best of 2010 - Cinema

Finalizando os posts retrospectivos, chegou a hora de abordar os melhores do cinema em 2010, o momento mais esperado pelos meus cinco leitores. Como sempre, não foi fácil montar as listas em 20 diferentes categorias criadas por Memórias da Alcova. Das mais tradicionais às alternativas como melhores cenas de sexo e de briga. Algo que, na minha modesta opinião, o Oscar deveria adotar também. Daria o maior ibope.

Me debrucei em 58 dos 279 trabalhos lançados neste ano e foi a partir disso que montei minhas listas do bem e do mal. Se faltou algo, pode ser que eu não tenha visto ou simplesmente tenha esquecido. Então, é só complementar na caixa de comentários abaixo. Comecemos logo pelo momento mais esperado, o top 10 da Alcova.

Difícil chegar nestes dez mais de 2010. Comecei com uma lista de 17, mas um primeiro corte tirou da disputa os bons filmes “Um sonho possível”, “Tudo pode dar certo”, “Wall Street – o dinheiro nunca dorme”, “Film Socialisme”, “O mundo imaginário do Dr. Parnassus” e “À prova da morte”. Faltando um para cortar, fiquei na dúvida entre três filmes e acabei tirando “A rede social”, o que pode ser polêmico. Embora o filme de David Fincher seja muito bom, gostei mais de outros e além disso, acho que o diretor tem pelo menos outros dois trabalhos melhores: “Clube da Luta” e “Seven”. Assim sendo, vamos aos dez mais.

10º lugar – “Vício Frenético” – Um excelente trabalho de Werner Herzog sobre um policial viciado (Nicolas Cage, em sua melhor atuação em anos) que se envolve em uma série de problemas. Cage faz um grande anti-herói numa caótica Nova Orleans.

9º lugar – “Um homem misterioso” – Filmaço de Anton Corbijn que ficou pouco tempo em cartaz no Brasil. Versa sobre um assassino vivido por George Clooney que está cansando, quer se aposentar e busca um redenção que se provará improvável. Ótima atuação de Clooney.

8º lugar – “A fita branca” – A gênese do mal num vilarejo do interior da Alemanha descrita pelo austríaco Michael Haneke. Um ensaio sobre a origem do nazismo a partir de um microcosmo de pura maldade e sadismo.

7º lugar – “O escritor fantasma” – Se em 2010, Roman Polanski apareceu mais nos jornais por sua prisão ainda por causa daquele velho caso de estupro nos Estados Unidos, houve tempo para ele lançar um ótimo trabalho estrelado por Ewan McGreggor sobre um ghost writter que tem que escrever uma biografia de um senador vivido por Pierce Brosnan de passado suspeito e ligações profundas com órgãos do governo nada republicanos.

6º lugar – “Tetro” – A volta de Francis Ford Coppola numa saga de conflitos familiares envolvendo dois irmãos, um maestro famoso e surpreendentes revelações no seu desfecho.

5º lugar - “Ilha do medo” – Foi um ano em que grandes diretores reapareceram no meu top 10. Este trabalho é de Martin Scorsese e mostra uma dupla de investigadores vivida por Leonardo DiCaprio e Mark Ruffalo tentando descobrir o autor de um assassinato na tal ilha onde funciona um manicômio. Mas o resultado desse trabalho será mais surpreendente do que o espectador imagina.

4º lugar - “Tropa de Elite 2” – A continuação da saga do Bope comandada por José Padilha mostra um Capitão Nascimento mais experiente, ainda com os velhos ideais, mas se arrependendo de alguns “tiros” do passado. Agora o inimigo são as milícias e o trabalho do diretor mostra que o Rio ainda está muito longe da paz.

3º lugar – “Um homem sério” – O divertidíssimo filme dos irmãos Coen mostra o professor Lawrence “Larry” Gopnick (Michael Stuhlberg) não vivendo, digamos, um bom momento na vida. Roteiro bem-humorado e um excelente trabalho de direção.

2º lugar – “A origem” – Leonardo Di Caprio, que parece só fazer filme bom, está de volta aqui neste trabalho de Christopher Nolan num thriller de tintas freudianas sobre um grupo que invade os sonhos alheios para descobrir segredos ou plantar ideias, o grande desafio da equipe comandada por ele. É um Matrix elevado a quarta potência.

1º lugar – “O segredo dos seus olhos” – Desde que eu comecei com esta brincadeira, “O segredo dos seus olhos” é o primeiro filme que não é falado em inglês a figurar no primeiro lugar do meu top 10 (2006 – “Os Infiltrados”, 2007 – “Diamante de Sangue”, 2008 – “Sangue Negro” e 2009 – “Bastardos Inglórios”). Já seria merecido só pela passagem em que Juan José Campanella filma o estádio do Racing em um jogo, mas o segredo desse filme argentino está nas excelentes atuações, no ótimo roteiro e em um desfecho (e eu confesso ter predileção por esse tipo de filme) que é de te jogar da cadeira. Por isso que “O segredo dos seus olhos” ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro superando justamente o favorito “A fita branca” e foi eleito o melhor de 2010 por Memórias da Alcova.

Piores Filmes – Abaixo, a lista das cinco bombas de 2010.

5º lugar – “Preciosa – uma história de esperança” – Ganhou um Oscar, foi muito elogiado, mas a mim não me convenceu. Historiazinha chata, cheia de clichês e de um apelo sentimental quase histriônico. Não deu. Não engoli e não dá para ver Mariah Carey como atriz.

4º lugar – “Atração Perigosa” – Outro filme bastante elogiado pela crítica, mas que também não me convenceu. De bom, apenas as boas atuações de Rebecca Hall e Jeremy Renner. Mas Ben Affleck em dose tripla (na frente e atrás das câmeras e escrevendo o roteiro) não foi nada convincente. E ainda tem outra cantora aqui tentando dar uma de atriz. Desculpe Fergie, mas também foi difícil encontrar razões para vê-la no filme.

3º lugar – “Encontro Explosivo” - Falando em clichês, este filme estrelado por Tom Cruise e Cameron Diaz é uma coleção deles. Tudo bem que a ideia era exatamente brincar com isso, mas os dois estão muito canastrões e o filme não funciona.

2º lugar – “Salt” – Eu amo Angelina Jolie, mas ao contrário do que acha Roberto Carlos, o amor tem limites e o meu é “Salt”. Filme ruinzinho, com uma história sem pé nem cabeça, roteiros cheios de avenidas soltas (pontas é pouco). Tenta na próxima Angelina. Mas você continua sendo minha musa eterna.

1º lugar – “Fúria de Titãs” – Definitivamente o filme mais constrangedor do ano. O trabalho de Louis Leterrier é todo ruim. Do protagonista Perseus (Sam Worthington) ao momento para ser esquecido de Liam Neeson vivendo Zeus. Definitivamente, os americanos não sabem fazer filmes sobre mitologias e histórias gregas em geral, vide “Tróia”.

Decepções – “Atração Perigosa” e “Minhas mães e meu pai” – O primeiro pelos motivos já expostos acima na lista dos piores. No caso do segundo, faltou a história ser mais convicente. Se era para valorizar o casal de lésbicas vivido por Annette Benning e Julianne Moore deviam ter combinado com Mark Ruffalo, que roubou a cena e é o que o filme tem de melhor.

O herói do ano – Foi muito difícil escolher o herói do ano. Robin Hood (Russel Crowe) e o novo Sherlock Holmes (Robert Downey Jr.) eram boas escolhas, mas tinha ainda um Nelson Mandela (Morgan Freeman) em “Invictus” e toda a bela história dirigida por Clint Eastwood. Mas no final fiquei entre dois nomes. Um óbvio, o Capitão Nascimento (Wagner Moura) e outro nem tanto. Nascimento realmente amadureceu e virou um grande herói, mas eu gosto dos heróis militares americanos também e Liam Neeson dá um show no papel do coronel John Hanibal Smith em “Esquadrão Classe A”. Como Memórias da Alcova não fica em cima do muro, Hannibal Smith é o herói do ano.

O vilão do ano – Ivan Vanko (Mickey Rourke) atrapalhou bastante Tony Stark (Robert Downey Jr.) em “Homem de Ferro 2” e Mary (Mo’Nique) é o cão chupando manga em “Preciosa”, mas Stuntman Mike (Kurt Russel) também tem seu valor. Só que neste quesito ninguém superou o gênio da maldade Lorde Blackwood (Mark Strong), o vilão que Sherlock Holmes teve que se desdobrar para mandar para a vala de Londres. Sorry, pelo palavreado emprestado Capitão Nascimento.

A frase do ano – Convenhamos que Vera Farmiga virar para George Clooney e dizer “Me imagine como se fosse você com vagina” em “Amor sem escalas” tem impacto, mas não dá para fugir de “Tropa de Elite 2” para dizer que “você tem que me ajudar a te ajudar”, a frase do ano dita pelo Sargento Rocha (Sandro Rocha).

A musa do ano – Minha categoria favorita. Tivemos em 2010 Scarlett Johansson ruiva vivendo a Viúva Negra em “Homem de Ferro 2”, Rose McGowan fazendo a dança da cadeira para Kurt Russell em “À prova da morte” e Eva Mendes, a linda Eva Mendes, que quase fatura o bicampeonato só por aparecer em “Vício Frenético” como a namorada de Nicolas Cage. Tivemos ainda Soledad Villamil a musa de Ricardo Darín em “O segredo dos seus olhos”. Mas fiquei entre duas candidatas. A linda Anna Mouglalis vivendo a personagem título de “Coco Chanel e Igor Stravinsky” e Vera Farmiga, aquela mesma da frase da vagina acima. Decisão difícil, mas eu tenho um fraco por morenas, eu tenho um fraco por francesas. Não tinha como o prêmio não ficar como Anna Mouglalis, 32 anos, a musa de 2010.

A melhor cena de sexo – Anna, aliás, estrelou belas cenas de sexo com Mads Mikkelsen em “Coco Chanel e Igor Stravinsky”, mas se tem algum coisa que presta em “Um quarto em Roma” são exatamente as cenas calientes entre Elena Anaya (Alba) e Natasha Yarovenko (Natasha). Como o filme de Julio Medém é basicamente sexo entremeado por bate-papo, ficamos assim: Tudo o que acontece naquele quarto de Roma é o pacote da melhor cena de sexo de 2010.

A melhor cena de briga – Estava pronto para cravar o Sherlock Holmes brigando com um grandalhão numa engraçada parte de “Sherlock Holmes”. “Machete” também tem boas disputas, mas a briga de 2010 é a estrelada por Joseph Gordon-Levitt (Arthur) contra um segurança dentro de um sonho em “A Origem” com direito a desafios a gravidade.

O retorno do ano – Não é nenhum personagem, mas um diretor. Francis Ford Coppola com o seu “Tetro” foi um retorno em grande estilo aos cinemas.

O francês do ano – Outro que andava meio sumido é o responsável pelo meu filme francês do ano. Jean-Luc Godard reapareceu nos cinemas com “Film Socialisme” para mostrar que continua sendo um gigante.

O brasileiro do ano – Se entrou no meu top 10, não poderia deixar de figurar como o grande destaque do cinema nacional em 2010. “Tropa de Elite 2” é o filme brasileiro do ano.

Melhores roteiros – Dos filmes que ficaram de fora do meu top 10 inicial, vale ressaltar os trabalhos de Anthony Peckham em “Invictus”, Woody Allen em “Tudo pode dar certo”, Terry Gilliam e Charles McKeown em “O mundo imaginário do Dr. Parnassus” e Chris Greenhalgh em “Coco Chanel e Igor Stravinsky”. Michael Haneke (“A fita branca”), Robert Harris (“O escritor fantasma”), Rowan Joffe (“Um homem misterioso”) e Francis Ford Coppola (“Tetro”) também fizeram ótimos trabalhos.

Mas meu top 3 fica com Bráulio Mantovani por “Tropa de Elite 2”, Juan Jose Campanella por “O segredo dos seus olhos” e, o melhor de todos, Christopher Nolan por “A Origem”.

Os piores roteiros – O mais constrangedor de todos foi sem dúvida o de “Fúria de Titãs” escrito por Travis Beacham e Matt Manfredi. Mas teve muita coisa ruim em “Nine” (Michael Tolkin e Anthony Minghella), “Entre Irmãos” (David Benioff), “Encontro Explosivo” (Patrick O’Neill), “Lula, o filho do Brasil” (Fernando Bonassi, Denise Paraná e Daniel Tendler) e “Preciosa” (Geoffrey Fletcher).

Melhores diretores - Paul Greengrass fez um belo trabalho em “Zona Verde”, assim como Woody Allen em “Tudo pode dar certo”, Terry Gilliam em “O mundo imaginário do Dr. Parnassus”, Roman Polanski em “O escritor fantasma” e Quentin Tarantino em “À prova da morte”. Gosto muito do trabalho de José Padilha em “Tropa de Elite 2” e de Jan Kounen em “Coco Chanel e Igor Stravinsky”. Os irmãos Coen ficam com um honroso quarto lugar por “Um homem sério” enquanto o lugar mais baixo do pódio fica com Christopher Nolan por “A Origem”. Os dois melhores? Fico com Juan Jose Campanella por “O segredo dos seus olhos” e o campeão de todos, Francis Ford Coppola por “Tetro”.

Piores diretores – Vamos combinar que é o ano de “Fúria de Titãs”. Num filme em que tudo é ruim, o framboesa do horror na direção só podia ir para Louis Leterrier. Concorrendo com ele e fazendo força para ganhar estiveram James Mangold (“Encontro Explosivo”), Philip Noyce (“Salt”) e Jim Sheridan (“Entre Irmãos”).

Melhores atuações masculinas – Leonardo di Caprio entraria aqui duas vezes por “A Origem” e “Ilha do Medo”. Robert Downey Jr. também está muito bem em “Sherlock Holmes”, assim como Jesse Eisenberg (“A rede social”), Javier Bardem (“Comer, Rezar, Amar”) e George Clooney (“Um homem misterioso”). Wagner Moura (“Tropa de Elite 2”) fica com o meu quarto lugar enquanto Nicolas Cage entra no pódio por “Vício Frenético”. O segundo melhor trabalho de 2010 fica com o vencedor do Oscar Jeff Bridges por “Coração Louco” e o melhor só poderia ir para Ricardo Darín por “O segredo dos seus olhos”.

Piores atuações masculinas – Adivinha quem está no topo? Sam Worthington, o Perseus de “Fúria de Titãs”. Muito perto dele estiveram Ben Affleck por “Atração Perigosa” e Shia LaBeouf, a figura destoante de “Wall Street – o dinheiro nunca dorme”. Correndo por fora e desejando um lugar neste pódio, Mark Whalberg dois tons acima em “Um olhar do paraíso”, Tom Cruise e seu espião esquisito de “Encontro Explosivo” e Jake Gyllenhaal por “Entre Irmãos”.

Melhores atuações femininas – A única coisa que salva “Lula, o filho do Brasil” é Glória Pires no papel de Dona Lindu, a mãe do Lula. Ele é a razão do filme não ser um dos piores do ano. Vera Farmiga também está excelente em “Amor sem escalas” assim como a minha musa de 2010 Anna Mouglalis no papel de Coco Chanel em “Coco Chanel e Igor Stravinsky”. Vale destacar o bom trabalho de Kristin Scott-Thomas como a tia de John Lennon em “O garoto de Liverpool”, de Emily Blunt como a rainha Vitória em “A jovem rainha Vitória” e de Naomi Watts em “Você vai conhecer o homem dos seus sonhos”. Mas o ano – e eu nunca pensei que um dia eu diria isso – foi de Sandra Bullock e sua atuação em “Um sonho possível”. Seu trabalho no papel de Leigh Anne Tuohy foi o vencedor do Oscar de 2010 com merecimento.

Piores atuações femininas – A dupla Elena Anaya e Natasha Yarovenko encabeça fácil essa lista por “Um quarto em Roma”. Lista que tem ainda Cameron Diaz por “Encontro Explosivo” e Elizabeth Banks, que não me convenceu nem um pouco em “72 horas”.


E assim termina o Best Of 2010. Ano que vem é claro que eu continuarei cornetando tudo. Até a próxima e um feliz Ano Novo. Como diria uma antiga professora de inglês “See you later alligator, see in a while crocodile”.

Best of 2010 – Música

Antes de qualquer coisa, é preciso deixar claro que aqui em Memórias da Alcova não tem esse negócio de ficar exaltando shows para meia dúzia com artistas que ficam duas horas dedilhando o violão num “silêncio ensurdecedor”. Gostamos dos mares revoltos do rock’n’roll.

E antes de fazer a minha tradicional lista dos melhores e piores shows do ano, cabe apenas um comentário sobre um disco. Não sou de falar de discos porque raramente escuto lançamentos, pois raramente há bons lançamentos, mas o disco novo do Iron Maiden, “The Final Frontier”, é para guardar num canto especial da sua CDteca. Se você ainda compra CDs, evidentemente. Não posso dizer que é o álbum do ano porque não ouvi o tudo que deveria para isso, mas é coisa para ficar entre os dez mais.

Dito isto, vamos à minha lista de melhores shows do ano. Em ordem decrescente, lá vão as pedradas que sacudiram 2010.

5º lugar – Guns N’RosesAxl Rose e sua nova banda desembarcaram no Brasil em abril para a turnê do disco “Chinese Democracy”. O show na realidade estava marcado para o final de março, mas um dilúvio de proporções bíblicas no Rio de Janeiro fez cair um pedaço do palco e cancelar a apresentação. Com tudo seco, os fãs ainda tiveram que esperar duas horas para que Axl finalmente subisse ao palco já na madrugada de uma segunda-feira para tocar. A espera foi compensada com um excelente e surpreendente show para quem esperava que Axl estivesse morto. O cara mandou bem, tocou velhos clássicos e mostrou que está acompanhado de uma ótima banda. Mas dá próxima vez, Axl, vê se não atrasa tanto.

4º lugar – Stone Temple Pilots – Não fosse o convite de uma amiga eu não teria visto um dos melhores shows de 2010. Foi isto que me levou ao Circo Voador no último dia 11 para perceber que Scott Weiland continua sendo um bom frontman. Colocou a galera no bolso seja com os vários hits da banda ou com as músicas novas. E eu só tenho a agradecer por ter aceitado aquele convite.

3º lugar – Franz Ferdinand – Em 2006, o Franz Ferdinand já tinha entrado no meu top 3 com o show que fez na Fundição Progresso. Nesse ano, a banda escocesa voltou ao Brasil em março para novamente sacudir a mesma Fundição. Como descrevi na época, a banda está cada vez melhor e já merece um espaço maior para tocar quando voltar a Pindorama. Alex Kapranos e cia vieram para lançar o bom disco novo, “Tonight: Franz Ferdinand”, e se divertiram muito com a platéia. Teve até mosh do Kapranos.

2º lugar – Rush – Em outubro, os canadenses do Rush vieram a Apoteose para o show da turnê “Time Machine”. O resultado foi uma apresentação quase perfeita de Geddy Lee, Alex Lifeson e Neal Peart. O Rush fez um show 100% bom, o que é raro de encontrar hoje em dia, e não apenas musicalmente excelente como divertido e bem humorado. Só não foi o melhor do ano porque havia um Sir no meio do caminho.

O melhor do ano – Paul McCartney – Foi por muito pouco mesmo que o Rush não ganhou o prêmio Memórias da Alcova de show do ano. Mas aí eu resolvi pegar a estrada e ir para São Paulo para conferir uma das últimas chances de ver Paul McCartney ao vivo. O cara está com 68 anos e sabe-se lá quando vai voltar ao Brasil e se vai voltar. O resultado foi um show memorável de Sir Paul, daqueles para ficarem gravados décadas na cabeça de quem esteve presente no Morumbi. Teve Beatles, teve Wings, teve Paul carreira solo, tudo misturado em quase três horas em que Paul cantou, tocou baixo, guitarra, piano e o que mais aparecesse na sua frente e mostrou que era um showman de primeira. Ganhou (por pontos, mas ganhou) o meu voto para o espetáculo de 2010.

O pior show – Seria fácil puxar da minha listagem o Fresno, que abriu para o Bon Jovi no dia 8 de outubro e fez uma apresentação muito ruim. Mas o próprio Bon Jovi não disse a que veio e merecia figurar aqui pelo menos com uma medalha de prata entre os piores. Deixou muito a desejar na sua passagem na Apoteose pela turnê do “The Circle”. Não apenas pelo que vi, mas também pelo que me contaram os fãs que estiveram em São Paulo, onde o show, eles dizem, foi maior (três horas ao contrário das pouco mais de duas horas no Rio) e melhor (set list paulista foi mais interessante).

Mas a minha escolha vai para uma outra banda que esperava ainda mais. O Coldplay desembarcou na mesma Apoteose em fevereiro para a turnê do “Viva La Vida” cercado de bastante expectativa e fez o chamado voo de galinha. Começou muito bem, mas por volta de uma hora e pouco de espetáculo eu já estava olhando o relógio para ver quando ia acabar aquilo tudo. Faltou pegada, faltou repertório, faltou um set list melhor distribuído, faltou garra, faltou muita coisa ao Coldplay, o pior show de 2010. Quem sabe no Rock in Rio eles não voltam mais inspirados?

No próximo post, os melhores e os piores do ano no cinema

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Best of 2010 – Esportes

Já virou tradição aqui no blog. Para justificar a minha condição de jornalista exposta ali no canto direito, faço todo fim de ano as minhas listas de melhores, piores, micos, etc, que é sempre ironicamente chamada de Best Of, pois normalmente era com esse nome que as bandas costumavam lançar seus CDs de coletâneas no tempo em que se lançava CDs. Isso está ultrapassado. Comprar disco e coisa de velhos e românticos. Me incluo apenas (e por enquanto) na segunda categoria.

Então vamos começar a brincadeira para alimentar as discussões no bar neste resto de 2010.

Dez jogos marcantes de 2010 – Em ordem cronológica, dez partidas que entraram para os anais do esporte.

Jogo maluco na Copa Africana de Nações – O que você faria se o seu time estivesse aos 34 minutos do segundo tempo vencendo uma partida por 4 a 0? Claro que você estaria feliz da vida, comemorando e ainda dando uma sacaneada no rival. Era quase isso que os torcedores de Angola estavam fazendo na abertura da Copa Africana de Nações no dia 10 de janeiro. Quatro a zero, gols de Flavio (2), Manucho e Gilberto e vitória e bicho garantido, certo? Errado. Mali buscou uma reação que parecia impossível e com Keita aos 34, Kanouté aos 43, Yatabaré aos 47 e novamente Keita, pasmem, aos 49 do segundo tempo, chegou ao empate! No final ficou só a imagem de um jogador de Angola dando um soco na cobertura do banco de reservas. Que tristeza para os angolanos, mas que jogão.

A santa vitória de New Orleans – No dia 7 de fevereiro, os deuses do esporte aprontaram mais uma vez. De um lado, no Super Bowl disputado no Sun Life Stadium, em Miami, estava o favoritíssimo Indianápolis Colts de Payton Manning. Do outro, o surpreendente New Orleans Saints do quarterback Drew Brees, que por causa de uma lesão no ombro quase encerrou a carreira. Mas o mundo parecia torcer por New Orleans, que cinco anos depois ainda se reerguia da trágica passagem do furacão Katrina pela cidade. E quando Tracy Porter interceptou Manning e correu sozinho para marcar o touchdown que deu a vitória ao Saints por 31 a 17 uma das histórias mais bonitas do esporte americano foi escrita. Foi o primeiro título da história de New Orleans, cujo time foi fundado em 1967. E tem quem diga que futebol americano não é emocionante.


Um brilhareco de Ronaldinho – Dois mil e dez foi o ano em que eu torci muito pelo Ronaldinho, mas ele não me ajudou. Torci por sua convocação para a Copa (mas o Dunga não gosta de futebol), torci para que ele voltasse a ser o jogador genial do Barcelona, mas só quebrei a cara e vibrei com alguns brilharecos como no Milan 2 x 3 Manchester United pelas oitavas de final da Liga dos Campeões da Europa no dia 18 de fevereiro. Ronaldinho fez uma boa partida, marcou um gol, de um passe para um golaço de letra de Seedorf, mas deixou o campo derrotado após Wayne Rooney, então o melhor atacante do mundo, marcar dois gols. No final, o Milan acabaria sendo eliminado da Liga dos Campeões e eu desisti de Ronaldinho. Não tenho mais esperanças nele em 2011.

Futebol-arte no Emirates Stadium – Arsenal e Barcelona fizeram no dia 31 de março um dos duelos mais aguardados da Liga dos Campeões. No primeiro jogo em Londres, o Barcelona pressionou muito, deu um show de bola e abriu 2 a 0 com dois gols de Ibrahimovic. Mas o Arsenal não se entregou e Walcott e Fábregas empataram a partida. No jogo de volta, Messi deu um show e o Barcelona avançou, mas nesta partida os Gunners jogaram como gigantes.

A casa caiu no Engenhão – Parece mentira de 1º de abril, mas isso realmente aconteceu no Engenhão. Segunda fase da Copa do Brasil, o Botafogo jogava em casa e precisava apenas de um empate para se classificar. Só que o Santa Cruz, da Série D do Brasileiro, está vencendo por 2 a 1. O Botafogo reage e com Herrera empata a partida aos 40 minutos do segundo tempo. Festa da torcida alvinegra que já comemorara o pênalti defendido pelo goleiro Jefferson. Mas aos 45, o Santa Cruz faz o terceiro gol de uma incrível derrota do Botafogo. Um jogaço.

O brilho de Arjen Robben – Seis dias depois, outra torcida sai decepcionada de sua casa. Os torcedores do Manchester United lotam o Old Trafford para ver o seu time se classificar em casa para as semifinais da Liga dos Campeões. Só que eles não contavam com um golaço de Robben no segundo tempo que colocou o Bayern de Munique lá, mesmo com a derrota de 3 a 2.


Neymar e Ganso – No primeiro semestre, o Santos voltou a encantar o Brasil com uma nova versão dos Meninos da Vila comandada pelo atacante Neymar e pelo meia Paulo Henrique Ganso. No dia 2 de maio, eles disputaram uma emocionante decisão do Campeonato Paulista em que acabaram campeões mesmo com a derrota de 3 a 2 para o Santo André, pois haviam vencido a primeira partida pelo mesmo placar. Mas teve bola na trave do Santo André, gol perdido que não se pode perder. O Santo André não foi campeão por milagre e também pela personalidade daquele time personificada na decisão de Ganso de contrariar o técnico Dorival Júnior e se recusar a ser substituído. Deu certo e ele comandou o Santos na conquista como um verdadeiro veterano.

Três dias de tênis – No dia 24 de junho, durante a Copa do Mundo, o americano John Isner e o francês Nicolas Mahut chamaram a atenção do planeta ao estabelecerem um novo recorde: o de partida mais longa da história do tênis. Na realidade, dia 24 foi quando se encerrou um jogo iniciado no dia 22 e interrompido duas vezes por falta de luz natural! Após 11 horas e seis minutos e um último set com 138 games, o americano levou a melhor ao vencer por 3 sets a 2, parciais de 6/4, 3/6, 6/7, 7/6 e incríveis 70/68. Talvez por estar muito cansado pela batalha de Wimbledon, Isner acabaria sendo eliminado na rodada seguinte.


O jogo da Copa – A Copa do Mundo foi sem graça, com partidas fracas igual as últimas duas edições. Mas um jogo foi de deixar o coração sair pela boca. Foi o Uruguai 1 x 1 Gana, pelas quartas de final no dia 2 de julho. O ganeses abriram o placar com Muntari ainda no primeiro tempo, mas na etapa final Diego Forlán deixou tudo igual. A partida foi para a prorrogação e no final do segundo tempo Luís Suarez colocou a mão na bola dentro da área para evitar um gol de Gana. Pênalti e expulsão do atacante do Ajax que deixa o gramado chorando, mas volta sorrindo e vibrando muito depois que Asamoah Gyan desperdiça a cobrança. O jogo vai para os pênaltis e o Uruguai vence por 4 a 2 com a cobrança decisiva sendo de Loco Abreu com uma cavadinha! No dia seguinte, Abreu ainda tirou onda e disse: “Ainda bem que o Campeonato Carioca não passa em Gana”.


Manita catalã – Mais um ano se passa e mais uma vez o Barcelona aplica um chocolate no Real Madrid. Dessa vez, os madridistas estava na maior esperança de dar o troco no Camp Nou. Estavam agora (e finalmente) com um bom time, com um dos melhores técnicos do mundo (o português José Mourinho) e vinham jogando muito bem. Mas o Real foi engolido pelo time de Guardiola, pelo toque de bola de Xavi, Iniesta, Messi e cia e os 5 a 0 ficaram até baratos. Chocolate catalão é uma delícia.



O craque do ano – Diego Milito fez os gols dos três títulos da Inter de Milão da temporada (Liga dos Campeões, Copa da Itália e Campeonato Italiano). Xavi e Iniesta jogaram muito e levaram a Espanha até o título mundial. Sneijder também e ganhou os mesmos títulos de Milito e ainda foi artilheiro e vice-campeão da Copa com a Holanda. E o que dizer de Diego Forlán, que levou o Atlético de Madrid ao título da Liga Europa e o Uruguai ao quarto lugar da Copa, e Dario Conca, que conduziu incansavelmente o Fluminense ao título brasileiro? Mas às favas com os resultados. Lionel Messi ganhou apenas o Campeonato Espanhol neste ano, mas jogou muito, encantou o planeta e é isso que importa para Memórias da Alcova. Messi, pelo segundo ano consecutivo, o craque do ano. E também o autor do golaço do ano. Esse aqui contra o Zaragoza que você pode ver no vídeo abaixo.


O time do ano – Poderia ser a Inter de Milão pela tríplice coroa e pelo título mundial, mas, convenhamos, aqui é para exaltar o futebol-arte. Poderia ser a Espanha, mas não existe arte no 1 a 0 frequente. Então, só me resta votar na Espanha reforçada pelo Messi que atende pelo nome de Barcelona. O time mais fantástico do planeta. O resto, é resto.

O herói - Seu nome é Dario Leonardo Conca e ele veio ao mundo para liderar o exército tricolor rumo à gloria 26 anos depois. Seu comportamento de herói incansável, que jogou todas as 38 partidas do Campeonato Brasileiro foi digno dos grandes nomes da história. Conca foi praticamente o general Maximus tricolor. Com a vantagem que não morreu no final. Ainda bem para a torcida que esperava há quase três décadas para gritar tricampeão.

O vilão – Tenho pena de De Jong. Jogar na Holanda, pais onde mais importante do que ganhar é jogar bem (eu diria revolucionar), deve ser um peso para o rapaz. Mas o volante ficou muito mal na fita ao dar aquela voadora criminosa em Xabi Alonso na decisão da Copa do Mundo. O pior é que aquilo foi o emblema de um time holandês de Bert Van Marwijk que vestia o uniforme, falava a língua, tinha “van” nos nomes, mas não tinha cara de Holanda. Apesar da minha tristeza com a derrota, ter sido campeão teria sido quase um crime para as três gerações que fizeram a Holanda ser conhecida pelo toque refinado. Ficou para 2014. Mas sem De Jong, por favor.

O mico do ano – Mais do que do ano, foi da década, do século, da história do futebol. O Internacional campeão da Libertadores chegar no Mundial de Clubes e não disputar a final é um micaço daqueles estratosféricos. Perder de 2 a 0 para o TP Mazembe com direito ao goleiro Kidiaba fazendo aquela dancinha ridícula é muito mico, é King Kong de ouro.

O figuraça do ano – E exatamente por causa de sua comemoração “cachorro com verme” que Kidiaba ganha o título de figuraça de 2010. A dancinha do “vem quicando” era ridícula, mas fez sucesso.

O tabu quebrado do ano – Você pensou nos 26 anos que levou para o Fluminense ser campeão brasileiro? Isso é pouco perto dos 45 anos que a Inter de Milão levou para voltar a ser campeã européia. Por isso que José Mourinho virou deus em Milão. E você acharia o contrário se torcesse para o clube?

No próximo post, os melhores shows do ano.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Isolado entre milhões

Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg) tem 2,3 milhões de pessoas que o "curtem" no Facebook. A propaganda e o pôster de “A rede social” vende o filme com a frase “Você não tem 500 milhões de amigos sem ter alguns inimigos”. Uma referência ao número de usuários da rede social mais usada e famosa do mundo. O pequeno gênio de 26 anos que construiu um império de US$ 6,9 bilhões de dólares é, portanto, um homem de superlativos.

Foi sobre o jovem eleito personalidade do ano pela revista “Time” que o diretor David Fincher - de “Seven” (1995) “Clube da Luta” (1999) e “O curioso caso de Benjamin Button” (2008) - e o roteirista Aaron Sorkin – de “Jogos de Poder” (2007) – resolveram se debruçar para contar uma história controversa, de hipérboles judiciais, com inveja, acusações de roubo de ideias e traição. Não poderia certamente dar num filme ruim.

Ainda que Zuckerberg tenha se calado quando Bem Mezrich escreveu o livro “Os bilionários acidentais”, que deu origem ao filme, e que a única coisa que se sabe que o jovem tenha comentado sobre a película foi de que não concorda com a tese de que criou o Facebook como uma forma de combater a rejeição feminina que sofria, é possível retirar de “A rede social” algumas conclusões.

Mesmo que uma parte do livro/filme não seja verdadeira como Zuckerberg acredita, são bastante plausíveis as acusações de traição do brasileiro Eduardo Saverin (Andrew Garfield), jogado para escanteio quando o Facebook começou a crescer e Zuckerberg passou a dar mais ouvidos para Sean Parker (Justin Timberlake), outro geniozinho da computação que já tinha causado terremotos de proporções bíblicas e marcas indeléveis nas gravadoras ao criar o Napster.

A maneira como a pessoa que financiou o início do site foi descartado é coisa de profissional da política de Brasília. O brasileiro hoje é um homem também com os seus bilhões (US$ 2,3 para ser mais exato) e a reparação judicial feita ao ter na rede social o seu nome associado à expressão “co-fundador”, mas jamais falou sobre os problemas ou deu entrevistas para falar sobre o caso. Não se sabe se isso faz parte do acordo ou ele simplesmente ainda se sente um amigo de Zuckerberg. Embora traído.

Aliás, diante de um jovem com tantos números de seis dígitos, Saverin lembra numa das melhores passagens do filme de Fincher que ele “era o seu único amigo”. Pausa para reflexão até mesmo sobre a maneira como usamos o Facebook com nossos 400, 500, incontáveis amigos. Quantos não passam de figurinhas em álbuns sociais eternamente incompletos e sempre crescendo numa frenética acumulação sem sentido? Ou como outro dia disse a Pitty no Twitter: “Quem muito segue, nada lê”.

Saverin era o único amigo de um desajustado freak que se atropelava com as palavras por ter um raciocínio mais rápido do que a velocidade da própria língua e um cérebro multifacetado que tornava quase impossível acompanhá-lo. Que por ser tudo o que um nerd normalmente é, se esforçava para parecer babaca, nas palavras de sua então namorada Erica Albright (Rooney Mara), talvez para entrar nas famosas e inúteis comunidades de Harvard, com seus trotes que vão do ridículo ao absurdo. Nunca conseguiu isso, ao contrário de Saverin, o que provocou um declarado ciúme em Zuckerberg.

Enquanto acompanhamos uma ideia que vai se transformar numa empresa lucrativa, Fincher expõe os argumentos controversos nas duas ações judiciais movidas por Saverin e pelos irmãos Winklevoss, que acusaram Zuckerberg de ter-lhes roubado a ideia da rede social. Se quase com 100% de certeza pode-se concluir que Saverin foi traído pelo seu então amigo, os argumentos dos irmãos atletas de remo de Harvard, por outro lado, gerariam no mínimo um debate.

Sim, eles tinham um projeto de criar uma rede social interna para que estudantes pudessem fazer comentários etc, mas esse insight foi o estopim para algo muito maior pensado por Zuckerberg também a partir do seu infeliz projeto Facemash de comparar as alunas de Harvard num joguinho machista. Ele juntou A com B, mas incluiu todo um alfabeto jamais pensado pelos Winklevoss para criar o seu Facebook. Pelo menos esta é a minha opinião.

Fincher e Sorkin conseguiram fazer com que três histórias caminhassem paralelas ao mesmo tempo em que sempre se cruzam sem que o espectador se perca em nenhum momento, criando um filme que é o melhor do diretor desde “Clube da Luta”. Embora nos últimos 11 anos Fincher tenha feito boas obras como “O quarto do pânico” (2002) e “Zodíaco” (2007). Não é à toa que “A rede social” está cotado para o Oscar não apenas pela qualidade da película como pelas boas atuações de Eisenberg, Garfield e Timberlake. O filme também recebeu seis indicações ao Globo de Ouro de 2011, apenas uma a menos do que o recordista “O discurso do Rei”, que ainda não estreou no Brasil. O que prova que "A rede social" é não apenas um sucesso de público, mas de crítica também.

Com a poeira tendo baixado e depois das ações judiciais, é curioso perceber que mesmo com tantos problemas particulares com o criador do Facebook tanto Saverin quanto Erica têm perfis na rede social. Saverin tem 142 amigos. Erica, 39. Zuckerberg não está entre os amigos de ambos.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Woody Allen de novo

Os cinco leitores que acompanham este blog há algum tempo (será que tenho isso tudo?), sabem que entre os meus defeitos como cinéfilo - alguns diriam maníaco - era não gostar de Woody Allen e Pedro Almodóvar. Até que num desses carnavais que eu me isolo do mundo para não ter que aturar todo o samba, blocos e essa chatice anual, eu aluguei uns cinco filmes do Almodóvar, assisti com atenção e vi que o cara era bom mesmo.

Com Woody Allen, porém, o processo foi mais lento e sempre nas salas de cinema. Começou com “Match Point” (2005), que não me convenceu. Veio “Scoop” (2006) e posteriormente “O Sonho de Cassandra” (2007) e já comecei a gostar mais. Quando vi “Vicky Cristina Barcelona” (2008), aí me rendi de vez. E na época de “Tudo pode dar certo” (2009) já estava até começando a ver uns filmes antigos para conhecer mais da sua produtiva obra com média de um filme por ano.

Hoje eu me pergunto por que eu não gostava de Allen, um cineasta que faz filmes tão simples, mas que com esta simplicidade consegue dizer ou retratar por vezes coisas tão complexas. E sempre com uma verve cômica a dar bossa nos seus roteiros.

“Você vai conhecer o homem dos seus sonhos” é mais um desses filmes interessantes de Allen. Neste trabalho, um bando de desajustados tenta buscar a sonhada felicidade de diferentes formas, mas a única que consegue a paz de espírito na vida é a que vive de fazer consultas com uma cartomante que previamente sabemos ser uma charlatã. Ou será que ela não é tão charlatã assim?

Se Helena (Gemma Jones) vive a tranquilidade de quem confia que o futuro está escrito e a ela está sendo revelado através dos confortáveis conselhos de Cristal (Pauline Collins), o casal Sally (Naomi Watts) e Roy (Josh Brolin) anseia pelos sonhos que não são realizados ao mesmo tempo em que Alfie (Anthony Hopkins) é um frustrado que mesmo fazendo tudo para parecer um garoto a despeito de seus quase 70 anos não consegue a jovem mulher idealizada por ele. A menos que pague por ela, o que acaba acontecendo ao escolher a insípida e luxuriante Charmaine (Lucy Punch).

Sally é frustrada por não constituir família enquanto suas amigas começam a ter filhos e acha que seu futuro pode não ser com Roy, mas com o seu chefe Greg (Antonio Banderas). Roy, por sua vez, é um médico formado que deixa a vida hospitalar para se tornar um escritor de um único sucesso e incontáveis frustrações. Talvez Dia (Freida Pinto), a dama de vermelho do prédio em frente possa ser a inspiração, embora esta inspiração na realidade só venha com um golpe nada responsável e honesto.

E assim as vidas vão seguindo os seus ciclos, suas idas e vindas, seus muitos fracassos e algumas vitórias enquanto Helena, que acaba norteando a película passa de senhora frustrada pela separação com Alfie a uma mulher sempre com a esperança renovada pelas mensagens agridoces de Cristal.


É uma clara mensagem de que a ignorância acaba fazendo as pessoas mais felizes do que o conhecimento ou o reconhecimento da dura realidade da vida. Nesse ponto, “Você vai conhecer o homem dos seus sonhos”, cuja mensagem do título mesmo em inglês (“You will meet a tall dark stranger”) também tem um quê de mistério e uma certa ironia, parece um filme pessimista de Allen. Apesar do seu humor fino. E a sensação que se tem ao fim é que mesmo quando estes desajustados parecem se acertar, a impressão é de que o ciclo de som, dor e fúria vai começar novamente. Assim parece ser a humanidade.

domingo, 19 de dezembro de 2010

O jingle hell de Pitty

Horas antes de entrar no palco do Circo Voador no sábado, a cantora Pitty avisara pelo Twitter que o show daquela noite não seria para iniciantes. De olho numa espécie de reinvenção e buscando diferentes ângulos que justificassem um novo DVD, não teria sentido para ela – o que é correto, apesar da ânsia dos fãs – repetir o que já despejara na gravação de “(Des)concerto” (2007), seu primeiro disco e DVD ao vivo.

Assim, músicas como “Anacrônico”, “Memórias”, “Na Sua Estante”, “Equalize”, “Admirável Chip Novo”, “Teto de Vidro” e “Semana que vem”, freqüentes nos seus últimos shows na Lapa ficaram em casa para que a roqueira baiana pudesse explorar outras vertentes do seu repertório, ou “mexer no baú da véia”, como descreveu a cantora de apenas 33 anos de forma bem humorada.

Com isso, “O Lobo” (“Vocês lembram dessa? Fazia tempo que a gente não tocava e a gente ensaiou a beça para tocar”), do primeiro disco da cantora, “Admirável Chip Novo” (2003), e “Todos estão mudos”, do mais recente álbum, “Chiaroscuro” (2009), foram incluídas junto com covers de Roberto Carlos (“Se você pensa”) e canções como “Sob o sol” e “Senhor das moscas”, cantadas junto com Fábio Cascadura, “Água contida”, com participação especial de Híque Gómez, do grupo Tangos e Tragédias, tocando violino, e a nova “Comum de dois” para gravar um DVD que ficou quase como um lado B do de três anos atrás. Um lado B vip, claro, porque em nenhum momento o show perdeu em qualidade em comparação com suas outras apresentações.

As mudanças radicais foram bem aceitas apesar dos pedidos da galera no final do show por “Equalize” e “Admirável Chip Novo”. Depois de refazer três canções (coisas de quem está gravando um DVD), Pitty até aceitou “sair do roteiro” e mandou a segunda e mais “Máscara” para deixar os fãs que tão apaixonadamente transformaram o Circo Voador numa ode à cantora baiana ainda mais felizes.

Foi uma postura legal dela. O amor entre Pitty e seus fãs é recíproco e incondicional. Quando um engraçadinho tentou abusar e subir no palco para dar um mosh contrariando as regras de segurança para a gravação do show para proteger os equipamentos que estavam no meio do povo, Pitty deu um olhar de reprovação, balançou o dedinho negativamente e o cidadão, sem camisa e mostrando toda a sua obesidade, levantou os braços como que pedindo desculpas e caiu candidamente e cheio de dedos no meio da galera. Se fosse outra cantora ou banda, não estaria nem aí e louco para aparecer.

Quando outra fã ensandecida e também já sem camisa – aliás, como as fãs da Pitty gostam de tirar a camisa. Faltaram apenas os sutiãs para completar a festa de quem assistia – tentou o mesmo foi impedida imediatamente por outros que a puxaram pelo short.

Mas como eu dizia, fã é fã e o número de iniciantes no Circo Voador parecia bem inferior aos seguidores fiéis da cantora. O que fez o show ficar com aquela energia impressionante que todo artista gosta de ter na hora de fazer um registro ao vivo. Foi assim da primeira música, “8 ou 80”, a última, “Me Adora”, uma das que o público mais gosta dentro do repertório da cantora.

Com uma sintonia tão grande e cantora e público absolutamente possuídos, acho que Pitty, Martin (guitarra), Joe (baixo) e Duda (bateria) conseguiram atingir o objetivo de fazer a sua festa jingle hell no Circo Voador. A felicidade da cantora foi resumida em quatro twittes pós-show: “Velho, não sei nem o que dizer...”, “Aliás, sei sim: CATARSE COLETIVA. Brigada”. “Fiquei de cara com o público, que galera genial, man. Vocês representaram demais da conta, as surpresas, o coro, a quentura, a alma, foda” e “tô aqui acabada fisicamente e sem conseguir parar de pensar o quanto ontem foi surreal”.

Agora é esperar o DVD para os que estiveram lá relembrarem e os que não puderam ir conferirem o quanto o show foi, parafraseando a própria Pitty, foda.

Abaixo, o set list e alguns momentos do show no Circo colhidos no bom e velho YouTube.

8 ou 80
Fracasso
Desconstruindo Amélia
Água contida
Trapézio
Rato na roda
Só agora
Medo
Comum de dois
Pra onde ir
Sob o sol
Senhor das moscas
O lobo
Se você pensa
Todos estão mudos
Me adora
Admirável chip novo

Máscara

"8 ou 80"

"Fracasso"

"Desconstruindo Amélia"

"Água contida"

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Um sobrevivente

Scott Weiland é daqueles cantores de rock que foram até o fundo do poço e voltaram algumas vezes. É certamente um sobrevivente dada a quantidade de drogas que ingeriu nos seus 43 anos de vida. No início deste século, ele resolveu tentar dar um jeito na vida e largar as drogas, embora por vezes tivesse recaídas. Mas foi um Weiland aparentemente limpo que aportou no Citibank Hall há três anos para um show como vocalista do Velvet Revolver dos ex-Guns 'N’Roses Slash, Duff e Matt Sorum.

De 2007 para cá, porém, Weiland perdeu um irmão por overdose, se separou da mulher e ainda foi diagnosticado com transtorno bipolar. Com tanta crise praticamente junto, era natural que desabasse mais uma vez. Há três meses o Stone Temple Pilots anunciou que estava reagendando alguns shows nos Estados Unidos e que a banda faria uma breve pausa. Isso aconteceu poucos dias depois de Weiland declarar que tinha voltado a beber.

“Eu comecei a beber de novo. Meu irmão morreu, eu me divorciei da minha mulher e todo o meu mundo basicamente girava em torno disso. Então quer saber? Vou tomar conta de mim porque é o que eu preciso fazer. Ao invés de fazer uns poucos shows, eu quero fazer toda a turnê com todos os shows”, disse na época.

Sabendo disso, fica fácil entender porque após as quase duas horas de uma comedida performance do cantor (embora, por mais paradoxal que seja, a apresentação da banda como um todo foi incendiária), agora novamente de volta ao Stone Temple Pilots, no sábado, no Circo Voador, ele fez o sinal da cruz e apontou para cima como um ferrenho devoto de Cristo.

Não, Weiland não virou um cristão, mas aquilo foi quase um desabafo. Um “eu consegui!” para si mesmo numa batalha interna que o cara vem tendo há alguns anos e que já o fizeram colher algumas derrotas. Dizem que ele foi expulso do Velvet por ter voltado a usar drogas. Embora outros boatos digam que os outros integrantes é que voltaram a usar drogas.

Fofoca ou não, fato é que Weiland voltou a se reunir com os irmãos Robert DeLeo (baixo) e Dean DeLeo (guitarra) e o baterista Eric Kretz para relembrar os velhos tempos e, claro, lançar um disco novo. “Stone Temple Pilots”, o álbum, é o motivo que fez a banda aportar na América do Sul neste mês e pela primeira vez no Brasil para um show daqueles incríveis que o Rio sempre precisa.

Aparentando estar um pouco mais gordo do que em 2007 e certamente menos performático do que o usual, Weiland ainda assim é um frontman de respeito e que magnetiza a platéia. Quando ele pega o megafone para anunciar que o bonde do STP está no palco com “Crackerman”, a galera está junta dele e não sairá mais nas próximas duas horas em que a banda atacou de clássicos como “Interstate Love Song”, “Sex Type Thing”, “Dead & Bloated”, “Trippin’ on a hole in a paper heart”, e, acima de todas, “Plush” e mostrou canções do disco novo, caso das boas “Between the lines”, “Cinnamon” e “Huckleberry Crumb”.

Teve espaço até para um festejado cover do Led Zeppelin (“Dancing Days”), influência da banda que pode ser vista até, como bem observou uma amiga minha que também acompanhava o show, nos trejeitos de Dean, guitarrista que bebia direto na fonte de Jimmy Page.

No palco, Weiland e banda não fazem muita questão de falar português (foi apenas um único obrigado no show), mas fazem o jogo de cena de nove entre dez grupos ao estender uma bandeira do Brasil e conquistam a galera quando o baixista resolve, ao violão, antes do bis, tocar “Garota de Ipanema” para uma platéia que responde cantando a letra imediatamente. Uma atitude simpática, mas nesse momento todos já estavam no bolso do STP.

Ficou apenas a sensação de que o Circo Voador, embora um bom lugar para shows, era pequeno para a platéia ávida por ouvir o Stone Temple Pilots pela primeira vez. Com a mesma fé que Weiland demonstrou ao apontar para o céu quase duas da manhã, os fãs só rezam para que não demore tanto para eles retornarem ao Rio.

Abaixo o set list e alguns bons momentos do show de sábado.

Crackerman
Wicked Garden
Vasoline
Heaven and hot Rods
Between the lines
Hickory Dichotomy
Still Remains
Cinnamon
Big Empty
Dancing Days (cover do Led Zeppelin)
Silvergun Superman
Plush
Interstate Love Song
Hucleberry Crumble
Down
Sex Type Thing
Dead & Bloated

Trippin’ on a hole in a paper heart

Crackerman

Plush

Sex Type Thing

Interstate Love Song

Trippin' on a hole in a paper heart

Wicked Garden