domingo, 30 de julho de 2017

Paraty Facts - versão 2017

Uma das mesas da Feira Literária de Paraty/Marcelo Alves
Mais um ano de Flip. Mais um ano em que eu sobrevivi sem torcer fortemente os pés no piso acidentado da cidade histórica de Paraty. Não posso dizer o mesmo sobre pequenas torções. Muita coisa mudou. Outras tantas estão iguais. E aqui está o que só a Corneta viu na versão 2017 do Paraty Facts?

1- Ok, é charmoso, é bonitinho, faz parte da história da cidade, mas já está na hora de colocarem um asfalto decente nesse terreno do centro histórico de Paraty. As pedras irregulares de tons surrealistas não são inclusivas. Imagina o tormento para quem usa cadeira de rodas ou tem problema nas articulações de joelhos e tornozelos para andar nessa cidade.

2- Foi uma Flip com muito mais policiais nas ruas. A segurança piorou. Natural. Paraty não seria uma ilha de excelência num Rio de Janeiro que está abandonado, perdido e jogado na sarjeta.

3- Além de mais policiais e mais cachorros também tinha mais gente dando Bíblia e espalhando a palavra divina nas esquinas. Eles estavam competindo pau a pau em ocupação com os índios, que até onde eu sei, são locais.

4- A rodoviária ganhou um upgrade considerável. Deixou de ser aquela coisa empoeirada roots do interior e ganhou o ISO 9001 de rodoviária de cidade média.

5- Ainda não me decidi se a melhor sorveteria da cidade é o Finlandês ou o Pistache. De fato, tenho uma leve preferência pelo Finlandês, cujo sorvete é mais saboroso, mas experimentei e gostei do sorvete de chocolate com laranja do Pistache. Mas por que decidir isso agora? O importante é continuar experimentando eternamente.

6- Devia ter um código de bom senso antes de guardar lugares em cadeiras nas palestras na Flip. Uma pessoa, ok, a família inteira, cachorro e papagaio, não pode. Ou então paga um salário mínimo para a cidade pela reserva.

7- Teve "Fora, Temer!", teve "Volta, Dilma!", teve "Geraldo Alckmin!" e teve umas coisas sobre hábitos do Aécio que é melhor eu não reproduzir. Teve muito protesto também. De todos os tipos e gêneros. Até pelo fim das carruagens. Eu apoio. Coitado dos cavalos. Não dá para andar com equilíbrio no centro histórico.

A cidade histórica de Paraty/Marcelo Alves
8- Teve também uma galera exaltada. As pessoas estão uma pilha de nervos nesse país! Um cara passou berrando: "Não tem banheiro nessa porra!" (Taí uma verdade). Durante uma mesa, uma galera bateu boca num cantinho. Uma mulher esqueceu que fones com tradutores gabaritados falando no seu ouvidinho são oferecidos de graça e berrou: "Cadê a tradução desta MERDA!". E só porque um poeta mencionou que fez uma poesia inspirado nas manifestações de 2013 um cara atrás de mim levantou exaltado, mandando um "vai se fuder" e esbarrando nas mulheres ao seu lado que não tinham culpa de nada. De que adianta frequentar um festival literário e não ter elegância?

9- Para todos os exaltadinhos fica então a sugestão de rever a palestra de Lázaro Ramos e da jornalista portuguesa Joana Gorjão. Além de ter sido muito boa com duas pessoas inteligentes com bastante coisa a dizer, no fim de tudo Lázaro ainda pediu para as pessoas se amarem e distribuirem afeto (e beijo na boca). Mais amor, gente. É o que também prega o Marcelismo.

10- Foi desta palestra ainda que surgiu Diva, a senhora que iluminou a Flip com a sua história de vida, de resistência e amor à educação. Professora de Curitiba, ela falou verdades sobre a capital paranaense, coisas que não fariam o Sérgio Moro dar likes. E emocionou a todos. Foi uma das personagens da Flip.

11- Eu não sei quem teve a ideia de inventar o pastel doce. Nem deve ser uma invenção paratiense. Mas foi aqui que eu cai de boca sem perdão e sem pensar no dia de amanhã num pastel de prestígio de 30cm que estava supimpa.

12- Pilar del Rio, que personagem fascinante, inteligente, carismática e bem humorada. Foi encantador simplesmente ouvir as suas opiniões sobre tudo. Absolutamente compreensível o Saramago ter sentido a terra tremer quando a viu.

13- Quando eu crescer eu quero ser inteligente, equilibrado, altivo e ter a classe que o Angel Gurria-Quintana tem para mediar as palestras. Ele devia mediar todos os conflitos e debates da sociedade judaico-cristã ocidental.

14- A gente sabe que foi uma Flip com sérias restrições orçamentárias, mas ficou bem legal a festa na praça da Igreja da Matriz.

O belo cenário de Paraty, onde aconteceu a Flip/Marcelo Alves
15- Todo evento literário é um aprendizado para mim. Ouvir pessoas de opiniões diferentes, aprender com elas. Geralmente é gente muito mais sábia do que eu e com muito a me ensinar. E foi o que aconteceu muitas vezes. Porém, dessa vez não vi um único escritor que me arrebatasse de tal maneira que me fizesse cometer a sandice de levantar a bunda da cadeira e comprar os seus livros na livraria oficial da Flip (onde tudo é caro). Foi o que a Svetlana Alexievitch fez comigo no ano passado. Bom, de certa forma, minha conta bancária agradece.

16- Vi dez debates. Destes, 40% envolveram pensadores portugueses. Acho que eu estava meio obsessivo por um discurso sem gerúndios.

17- Sempre tive respeito por tradutores. Mas a conversa entre o português Frederico Lourenço (que traduziu SÓ a Iliada, a Odisseia e a Bíblia direto do grego) me fizeram enxergar o trabalho do tradutor como um processo criativo fascinante ao mesmo tempo em que é um trabalho dispendioso e de muita ourivesaria e paixão pelo texto original.

18- Frederico, aliás, ganhou o prêmio "ousadia e alegria" da Flip ao, dentro de uma igreja, questionar com argumentos sólidos e bastante aceitáveis a virgindade de Maria. Só faltou chamá-la de danadinha, o que uma senhora atrás de mim fez sem pudor.

19- Aliás, profundo respeito pelo Frederico, que começou a estudar grego sozinho e aos 10 anos, sempre acompanhado do seu pinguim de pelúcia chamado Platão.

20- A gente sabe que a Flip inflaciona Paraty tornando uma odisseia encontrar algum restaurante com um preço honesto. Mas por que é tão difícil encontrar um lugar para comer sem a praga da música ao vivo?

21- Duas descobertas na Flip para aprofundar no futuro: a poesia da grega Safo, que cantada pelo Guilherme Gontijo pareceu profundamente bela. E a existência de um movimento punk na Islândia. Preciso ouvir estas bandas cantando raivosamente como vikings chamando para a guerra.

22- Foi um pouco decepcionante a mesa "Por que escrevo". Não rendeu muito. Uma pena. Vai demorar mais uns 20 anos para outro surfista voltar a ocupar um lugar de destaque numa festa literária.

23- Sjón entoando cânticos antigos de lendas nórdicas me transportou para um tempo que não vivi numa floresta mágica com trovadores, elfos, fadas e vários personagens semelhantes tirados do "Senhor dos Anéis".

24- Marlon James e Paul Beatty eram claramente os headliners da festa. O primeiro pareceu totalmente à vontade e desfilou um monte de referências. Citou até o "Led Zeppelin IV". Beatty tem um jeitão de jogador de basquete e uma fala e gestos mais introspectivos. O debate fluiu bem e foi interessante. Só não foi aquela apresentação épica que esperamos de um headliner. Tipo um Bruce Springsteen quebrando tudo e roubando a sua alma direto do palco.

25- É isso. A Flip continua linda. Um dia eu volto. Não sei se nas mesmas condições ou não. Mas eu volto.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Game of Thrones, capítulo 2

Vamos falar de cargos e emendas parlamentares?
Eu passei tanto tempo esperando o inverno chegar (mas eu só quero o inverno da TV. Na vida pode fazer 32 graus), que eu só penso naquilo. Bom, eu também penso por motivos acadêmicos, mas aí é outra história.
Mas o que aprendemos deste episódio 2 de "Game of Thrones"? Isso aqui:
BEWARE! THE CORNETA IS DARK AND FULL OF SPOILERS!
1- É escandalosa a distribuição de cargos e emendas parlamentares que Cersei tem feito para se manter no poder. Parece até o... deixa para lá.
2- Não que Daenerys tenha que ficar muito atrás. Ela firmou tantas alianças que quando sentar no trono de ferro a conta vai ser padrão PMDB de cobrança. Vão pedir oito ministérios, três estatais, 30% dos cargos de segundo escalão... Vai vendo.
3- Jon Snow é o cara que faz sempre as alianças mais improváveis. É o homem que leva o velho lema do merchan da Adidas, "impossible is nothing", para a vida. Só falta mandar um corvo para os sete reinos com a "Carta ao povo de Westeros" prometendo manter as conquistas da economia e cuidar das pessoas.
4- Já Sansa, coitada, é só bola fora. Essa moça não sabe fazer política. E ainda não entende a hora certa de se manifestar. Eu tenho um pé atrás com ela.
5- Samwell Tarly é a personificação do velho conflito entre o mercado de trabalho e a academia. Todo mundo na Cidadela pensa no ritmo da pesquisa, da análise aprofundada sem tempo para acabar, mas o coitado do gordinho quer agir logo e resolver os problemas. É um meistre de mercado e que não quer perder tempo com divagações (e limpando penico cheio de bosta).
6- Nymeria, é você? Oi, sumida.
7- Melisandre! Oi, sumida. Coincidência, você por aqui.
8- Chorem haters. "Game of Thrones" é a série mais inclusiva de todas. Tem até cenas de sexo com eunucos.
9- "Eu quero ver como você é". Missandei curiosa toda a vida.
10- Por falar em eunucos, tudo o que Verme Cinzento fez para dar moral e melhorar a auto-estima da classe, Theon Greyjoy destruiu em dois segundos ao mostrar que sempre será um banana.
11- Vamos combinar que a cena final do episódio 2 foi melhor que os três últimos "Piratas no Caribe" inteiros.
12- Pobres serpentes de areia. Nunca tiveram muito espaço no enredo da série de TV e mal chegaram e duas delas já foram para a vala.
13- Imaginem se o destino do mundo estivesse nas mãos de Olenna Tyrell e Lyanna Mormont. Só as baratas estariam aqui para testemunhar a história do que sobrou do planeta.
14- Placar da partida até aqui: Team Cersei 1 x 0 Team Daenerys. Mas semana que vem tem mais.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Tragam o verdadeiro Homem-Aranha de volta

É dura a vida da aranha
Até a semana passada eu nunca havia visto qualquer trabalho do diretor Jon Watts. Ainda não dá para dizer se ele é bom ou ruim. Só acho lamentável que ele me faça ser obrigado a baixar o Harold Bloom no corpo para defender o cânone aracnídeo. Olha que papel a Corneta é obrigada a se prestar. 

Bateu a a bad da decepção quando me vi diante de "Homem-Aranha: de volta ao lar". Porque os quadrinhos são sagrados. São sagrados para mim como "Madame Bovary", "Os irmãos Karamazov" ou "Hamlet". Logo, não podem ser assim mutilados com um desfile de erros CRASSOS que estamos vendo neste momento nos cinemas do planeta. 

O maior problema do retorno do amigão da vizinhança para a Marvel no cinema (mas com a Sony faturando do lado) é de abordagem. E não dá para aceitar o excesso de liberdades tomadas diante de um filme que sequer é incrível. Se tivesse ficado excelente, a Corneta até as aceitaria (torcendo a cara, mas aceitaria). Mas não é o caso. Vamos ao jogo dos oito erros de "De volta ao lar": 

1- Não dá para aceitar o Homem de Ferro como uma figura paterna do Peter Parker. Não convence ninguém em nenhum momento. Primeiro porque nunca aconteceu na obra de arte materna, os quadrinhos. Segundo, porque um playboy ex-alcoólatra, mulherengo e bilionário não tem moral e nem tempo para adotar um adolescente. 

2- O Homem-Aranha sempre foi um self-made man. Ele é super inteligente e cria a sua própria teia (check), ele cria e costura o próprio traje... ops! Temos um grave problema aí. Não dá para aceitar um traje supermoderno com um drone aranha, um Jarvis feminino falando com você e variantes de teia porque as aranhas não têm granadas de teias e nem teias elétricas! E tudo o que o Peter Parker cria é inspirado nas... aranhas! Vejam só que coincidência. 

3- E aqui precisamos discutir a ONIPRESENÇA das indústrias Stark nos filmes da Marvel. Tudo bem, nos quadrinhos ela é poderosa, mas nos filmes ela virou simplesmente o McDonald's da tecnologia. Está em cada buraco e delimitando TODOS os padrões de uniformes e engenhocas. 

4- É impossível aceitar a obsessão do Homem-Aranha em tornar-se um Vingador. Sua participação nos Vingadores sempre foi discreta e ele sempre foi o herói da vizinhança, o garoto do Queens que combate o crime em Nova York, dá duro no trabalho e na escola e cuida da Tia May. 

5- Donde chegamos a este ponto: Marisa Tomei como Tia May não dá. Onde está a senhorinha que cuida do Peter? A mulher que perdeu o Tio Ben, o homem que ensinou que grandes poderes trazem grandes responsabilidades? 

6- E na escola? Se o problema do Flash Tompson fosse só ele ter virado um clone adolescente do M. Night Shyamalan eu nem ligaria muito. Mas o cara no cinema, além de ser baixinho e raquítico, de repente ganha um cérebro que nunca teve a ponto de participar de um concurso de perguntas e respostas sobre CONHECIMENTOS gerais. Conhecimento, taí uma palavra que nunca fez parte do dicionário do Flash. E os problemas dele com Peter nunca se resumiram a dar tapas na bundinha dele. Não é uma rivalidadezinha. Flash fazia bullying sério com Peter. 

7- E já que é para falar verdades, vamos implicar com tudo. Estamos na escola. Betty Brant loura e insossa não dá. Cadê a Gwen Stacy? Cadê o Harry Osbourne, que era best do Peter? E se a Mary Jane for mesmo a garota estranha que aparece no filme e que não tem nada a ver com a Mary Jane me avisem logo que eu nem vejo mais as sequências. 

8- Michael Keaton nem me incomodou muito como o vilão. Pelo contrário, está até bem. Mas ele precisava mesmo ser o Abutre-Homem de Ferro com aquela armadura padrão Indústrias Stark? E, convenhamos, meter o Abutre no meio das tretas dos Vingadores é muito forçado. 

São muitos problemas neste novo "Homem-Aranha". Mas eu vou ficar nestes oito. Diante disso, continuo preferindo os dois primeiros filmes do herói, de 2002 e 2004. Suas histórias são melhores e mais fiéis à biografia do herói. Por outro lado, há alguns pontos positivos em "De volta ao lar": 

1- De fato, Tom Holland é o melhor dos três atores que encarnou o Aranha. Eu gostava do Tobey Maguire, embora ele sempre fizesse uma cara de "estou sofrendo, minha vida é um 7 a 1 ininterrupto". E eu apenas engoli e fui benevolente com o Andrew Garfield. O Tom Holland consegue retratar bem o Peter Parker na fase adolescente e caiu bem no personagem. 

2- Problemas à parte, "Homem-Aranha: de volta ao lar" não deixa de ter seus momentos divertidos, embora esteja longe de figurar no top-5 dos melhores filmes da Marvel. "Homem-Formiga" (2015), por exemplo, é melhor. Só para ficarmos em filmes de heróis baseados em bichos pequenos. 

Fato é que desde que a Marvel encontrou a fórmula do sucesso (humor + aventuras leves e família x cenas de ação com bons efeitos especiais + bons atores contando boas historias) vai repetir essa equação até cansar. Por enquanto é receita de brownie. Sucesso garantido. 

Todavia, será que esta fórmula não está cansando? "Homem-Aranha: de volta ao lar" é tão xerox de outros filmes da Marvel que não tem absolutamente nada de interessante a mostrar que não tenhamos visto em outros filmes de heróis da Marvel. Não tem uma única cena que seja memorável e que será lembrada no futuro. E as cenas de ação são FRACAS. A melhorzinha é a de Washington, quando ele salva os amigos de uma roubada. 

O filme de Jon Watts só serviu mesmo para despertar em mim uma curiosidade. Primeiro foi em "Deadpool" (2016), agora foi o "Homem-Aranha" que fez uma homenagem a "Curtindo a vida adoidado" (1986). Quem é o cara da Marvel que curte esse filme maravilhoso?

Enquanto não obtemos a resposta, "Homem-Aranha: de volta ao lar" ganhará uma nota 5,5.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Vamos a la playa

Todo mundo correndo em câmera lenta
Pouca gente lembra, mas Zack Snyder é um grande plagiador. Se alguém achava um big deal aquelas cenas em câmera lenta em todos os filmes de heróis da DC, fiquem sabendo que os precursores disso tudo eram os diretores de "Baywatch"

E agora que a série virou um filme novinho em folha, que saudade daqueles tempo em que eu chegava da escola almoçava, fazia os deveres de casa embalado pela dupla "Cinema em casa", do SBT, e "Sessão da Tarde", da Globo, e, quando dava aquele horário de 16h45m, era a vez de ver "Baywatch". Ou melhor, "S.O.S. Malibu", como era chamado em português, na "Sessão Aventura". Uma vez por semana era assim. 

Sim, crianças, parece um tempo distante, mas não existia "Malhação" lá atrás. A gente via enlatado americano naquele horário. Cada dia uma série diferente. Tinha "Profissão Perigo", tinha "Thunder - Missão no mar", tinha "La Femme Nikita", "Esquadrão Classe A", "Operação Acapulco", "The Flash" e muitos outros. E durante um bom tempo tinha "Baywatch" com suas maravilhosas salva-vidas Pamela Anderson, Carmen Electra, Erika Eleniak, Nicole Eggert, Gena Lee Nolin e Kelly Packard. Todas correndo em câmera lenta com maiôs vermelhos entrando na bunda. Naqueles tempos eu queria muito ser um dos salva-vidas comandados pelo David Hasselhoff. Viver na praia, salvando pessoas, andando em câmera lenta carregando uma bóia vermelha.... parecia uma boa coisa a se fazer no futuro para quem não pensava muito em salários e contas a pagar. 

Então, movido por esse sentimento nostálgico, desloquei-me até o cinema mais próximo para ver a versão cinematográfica de "Baywatch". Agora com novos atores. Dwayne Johnson é o novo Mitch Buchanan, Zac Efron é o novo Matt Brody, Alexandra Daddario é a nova Summer, e, mais importante, Kelly Rohrbach é a nova C.J.Parker. E ela enverga com maestria o maiô vermelho enquanto corre em câmera lenta. 

O filme? Bem, com coisa de 30 minutos eu já estava pensando: "Não sei como Deus me colocou aqui". Afinal, quase tudo ali é uma porcaria. O que não é nenhuma surpresa. Desde quando o que a gente consome sob o domínio dos hormônios da adolescência pode ser bom?

Alguns elementos de "Baywatch" original foram mantidos. História com a profundidade de um pires, atuações sofríveis, diálogos pavorosos e corpos sarados salvando vidas no mar da Califórnia. A isso, foram acrescentadas piadas envolvendo paus, peitos, bundas e fluidos corporais em geral. A série não tinha isso. Era família! 

"Baywatch" começa com Mitch achando um pacotinho de droga chamada "flakka" na praia dele. Ele pensa: "Isso cheira a Breaking Bad. Vou investigar". O problema é que o tenente está selecionando novos trainees para virarem salva-vidas na praia. Prioridades. 

É quando surge Brody. Brody é um ex-nadador dono de duas medalhas olímpicas de ouro, mas que é egocêntrico, maluco, porra-louca e fez muitas loucuras nos Jogos do Rio de Janeiro. Entre elas, vomitar na piscina. Será que é por isso que durante os Jogos uma das piscinas no Rio ficou verde? De qualquer maneira, qualquer semelhança com Ryan Lochte não pode ser mera coincidência. 

Mitch tem que engolir Brody porque ele é uma celebridade que pode ajudar a fazer a praia voltar ser popular e, assim, fazer os políticos investirem novamente na segurança dos banhistas. A Câmara mais uma vez cortou a verba do time Baywatch, o que força Mitch a dizer uma frase que é um recado para o Brasil. 

- A Câmara não sabe o que é melhor para o povo. 

Gente, até Baywatch dá lição de moral no Brasil. 

(Pausa para vermos a C.J. correndo em câmera lenta)

O novo Mitch é um cara legal. Mas tem uns hábitos estranhos. Ele usa tênis para andar na praia e vai a festinhas na night de chinelo. Mas é um cara competente. Ou não seria escolhido pelo velho Mitch para o posto 1, o principal da praia. Sim, o David Hasselhoff faz uma participação para lá de especial. 

Basicamente, a história de "Baywatch" gira em torno de uma traficante que quer privatizar a praia comprando todos os empreendimentos imobiliários da orla. Os nossos salva-vidas favoritos tentam impedir isso ao mesmo tempo em que Mitch tenta incutir em Brody a importância do trabalho em equipe. Enquanto isso, Brody é xingado de todos os tipos de boy bands possíveis. De New Kids on The Block a Jonas Brothers e Justin Bieber. O roteiro do filme faz um inventário de tudo de ruim que já surgiu na música pop. 

Ah, o tem o típico personagem nerd, o Ronnie (Jon Bass). Ele é gordinho e um péssimo salva-vidas, mas todo ano faz o prova do estágio só para tentar se aproximar de C.J. Eu não o culpo. Eu mergulharia com tubarões pela C.J. A sua aprovação no teste, porém, revela que o processo seletivo é tão sério quando indicações de políticos para estatais. 

(Pausa para vermos a C.J. correndo em câmera lenta)

O grande mérito do diretor Seth Gordon no novo "Baywatch" é não levar essa história a sério. Por isso que ele pegou vários elementos da série original e começou a fazer troça deles. Em especial a corrida em câmera lenta, a grande marca do seriado. Esse é o ponto positivo. 

Mas o filme é tão padrão teletubbies de inteligência que ficou difícil defender em quase todos os aspectos. Contudo, a julgar pelo clima nos bastidores da gravação mostrado nos créditos, os atores se divertiram muito. Certamente mais do que os espectadores. Diante de tudo isso, a Corneta sai dessa praia com aquela sensação de quem se queimou sem passar filtro solar. "Baywatch" ganhará uma nota 3.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Uma outra múmia


Tom Cruise está num triângulo amoroso milenar
Eu tenho inveja de Tom Cruise. Não é qualquer um que, aos 54 anos, pode ser jogado de um lado para o outro dentro de um avião em queda livre e correr, correr, correr (como ele corre nos seus filmes) e nunca perder o fôlego. Não é qualquer um que rola dentro de um ônibus desgovernado, apanha de entidades maléficas de trinta mil séculos atrás e consegue ficar tipo quatro minutos sem respirar e nadando freneticamente para fugir de zumbis nadadores. Eu tenho inveja de Tom Cruise. 

Mas a prova de que Tom Cruise é humano é que ele comete erros. Tipo fazer um filme como "A Múmia". 

Estava pensando se "A Múmia" é o pior filme que Tom Cruise já fez na vida. E olha, eu sou um especialista nele, pois sempre vejo os seus filmes. Aí fui no LinkedIn do ator. Vamos lá, ele fez "Oblivion" (2013), que é bem ruim. "Guerra dos mundos" (2005), decepcionante. "No limite do amanhã" (2014) também é bem fraco. Mas realmente, nada é tão constrangedor quanto "A Múmia". 

Mas antes disso poderíamos questionar: Por que outra múmia? Não bastava a trilogia estrelada por Brendan Fraser entre o fim do século passado e o início deste? Por que arrumar outra múmia para inventar uma história de deuses irritados despertando uma profecia e blá-blá-blá. Só pode ser lobby da indústria de lápis de olho e da tatuagem de henna. 

Vejam, eu amo o Egito antigo. Mas é preciso um bom motivo para abrir esse sarcófago. Os apresentados pelo diretor Alex Kurtzman fizeram-me ficar envergonhado. 

"A Múmia" começa com um clichê de filmes de lendas. Aquele momento que rola um ritual na Idade Média sobre uma parada enterrada junto com um padre esquisito num evento com gente estranha. Mas logo voltamos para os dias atuais, quando nos deparamos com o Iraque (Mesopotâmia nos tempos românticos) em guerra. É lá que encontramos Nick Morton (Tom Cruise) e seu parça Chris Vail (Jake Johnson). 

Então eles correm. E trocam tiros. E tem explosões. Isso é normal. Isso acontece em 22 dos 34 filmes que eu vi do Tom Cruise (sim, eu contei). A propósito, ele tem 42 filmes. 

Para encurtar a história, eles descobrem uma tumba egípcia. A arqueóloga que está com ele, com quem ele teve um trê-lê-lê na noite anterior, aliás, diz: "Gente, isso não é normal. Estamos na Mesopotâmia. Muito longe do Egito. Tem caroço nesse angu". 

Jenny (Annabelle Wallis) é o nome dela. E ela estava certa. O que é uma pena. Se estivesse errada o filme acabaria com 15 minutos e poderíamos ir para casa. 

Bom, aí acontece o óbvio. Eles despertam a múmia Ahmanet (Sofia Boutella), que acorda sedenta para beijar muuuuuuito. Lembremos, são milênios trancafiada sem pegar ninguém. Seu poder de atração é tão fatal (literalmente) que até o galã Tom Cruise dá uma balançada. 

Acompanhem. Temos uma milenar múmia egípcia vivida por uma atriz argelina, um militar americano picareta, uma arqueóloga inglesa... e eis que surge... o Russell Crowe! 

Aqui o meu cérebro deu curto circuito porque o Russell Crowe vive um médico que coordena uma espécie de centro de combate à maldade (tem trabalho para vocês em Brasília!). Eu não entendi muito bem qual é a deles, mas no laboratório tinha até crânio de vampiro. 

O que me chamou mais atenção, porém, era o seu nome: doutor Henry Jekyll. Não pode ser. Era uma homenagem a Robert Louis Stevenson, claro. Até que Jekyll se transforma num cara fortão e descontrolado chamado...Hyde. 

Eu estou chocado. O que vai aparecer agora nesse filme? O Van Helsing? O Drácula? A Mulher-Maravilha? O Didi Mocó? O Toni Platão?

Enquanto eu coloco a mão no rosto não acreditando no que eu estava vendo, a múmia passava o rodo em Londres, jogando areia para todo lado e matando quem atravessasse o seu caminho. Tudo para cumprir a profecia de libertar Seth, o deus da morte egípcio. E sempre contando com a ajuda dos zumbis de "Walking Dead", em participação especial. Tudo é possível nesse filme. 

Mas o Tom Cruise correu, pulou, lutou, atirou e... ganhou superpoderes! Sim, gente, o Tom Cruise agora é um X-Men. Que homem! 

Tudo isso é culpa de um tal Dark Universe, uma espécie de versão emo dos heróis dos quadrinhos. A ideia é recuperar esse filão que era um sucesso no tempo em que se amarrava cachorro com linguiça e bater de frente com a Marvel e a DC. Então, segura que ainda vem por aí "A noiva de Frankenstein", "O homem invisível", "O Lobisomem", "Drácula" (aposto que esse vai me irritar), "O fantasma da ópera", "o corcunda de Notre Dame" e "O monstro da lagoa negra". E tudo promete ser interligado. 

Portanto, o pior não é saber que "A Múmia" é pavorosamente ruim. É saber que colocaram uma deixa no final do filme para uma eventual sequência e para uma expansão do universo. Esperamos que pelo menos os próximos sejam mais interessantes. "A Múmia" ganhará da Corneta uma nota 2,5.

O mesmo filme. Nove vezes!

É muita parceria. Na alegria e na tristeza
Sob o argumento indelével da amizade, fui levado para uma sala escura com a desculpa de ver um filme. O que lá encontrei foi um pesadelo. Uma lavagem cerebral de fazer o protagonista de "Laranja Mecânica" fritar o cérebro. Amigos, eu tive que ver num mesmo local e em quase dias horas, o mesmo filme NOVE VEZES. Nine fucking times!

Basicamente esse é o argumento de "Antes que eu vá", uma praga que está espalhada nos cinemas feito malware no computador. 

"Antes que eu vá" é uma espécie de "A cabana" teen e um cruzamento de "13 reasons why" com livros de Lair Ribeiro. Ela conta a história de um dia na vida de quatro migas do high school americano no famoso "Dia do cupido". 

Pelo que o filme explica, o "Dia do cupido" é o dia em que meninas ganham rosas de meninos com declarações de amor e ficam competindo entre si sobre quem tem mais rosas. Muito legal, né? Como se a escola já não fosse escrota o suficiente, ainda rola uma competição que joga os losers ainda mais para baixo. 

Nesse dia especial, as migas estão ansiosas. Tudo porque uma delas vai perder a virgindade com o namorado mané e alcoólatra que dá vexame em festinha, mas que elas acham LIIIIINDOOO, incrível e popular.

Só que ao fim do dia rola um acidente de carro e as quatro migas seguram na mão de Deus e se despedem desse plano rumo ao desconhecido. 

Só que ao invés de dar bom dia para São Pedro, Sam acorda no dia seguinte exatamente do mesmo jeito que acordara no dia anterior. Sendo que o dia seguinte já é o dia anterior. Tá confuso? A física explica. Quando escova o dente, Sam já sente aquele gostinho de deja vu e pensa: já passei por isso antes. 

E agora? Agora começa o nosso tormento porque vamos rever todo o filme de novo com pequenas diferenças. E, pior, o filme nunca melhora! 

Sam está com uma missão divina. Tem que corrigir as cagadas que ela e as migas fizeram na vida escolar para receber o salvo conduto do paraíso. Do contrário, a vida dela e daqueles que o cercam ficarão para sempre presas naquele "Feitiço do tempo" mequetrefe". 

São muitas missões para Sam. Tem que amadurecer, distribuir amor, ser tolerante, amiga, companheira, espalhar a solidariedade e ajudar as pessoas. É praticamente um manual da santidade que ela tem que decorar e aplicar. 

Enquanto isso, nós sofremos vendo tudo isso. Por que? Por que precisamos passar por isso? Talvez seja um alerta do destino para sermos mais tolerantes com a sociedade e o nosso meio ambiente. Prometo tornar-me uma pessoa melhor. Mas “Antes que eu vá” levará uma nota 2,5.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

E agora, Claire?

Frank e Claire, eternos parças, mas sempre desconfiados um do outro

Fim de jogo em "House of Cards". O que dizer?

(ATENÇÃO, O TEXTÃO ABAIXO CONTÉM SPOILERS FEROZES!!!!!!)

(EU AVISEI)

(DEPOIS NÃO RECLAMA)

(CORNETA É VIDA)

1- Definitivamente essa série nunca mais será tão boa quanto nas duas primeiras temporadas. A premissa está se esgotando, agonizando, quase perdendo o sentido. Está tipo "Homeland". 
2- O mundo anda tão estranho, que os roteiristas estão dando pirueta, fazendo duplo twist carpado e canguru perneta para ver se conseguem surpreender na ficção. Contudo, é difícil competir com a vida real. 
3- Mas ainda assim precisamos de uma sexta temporada. Por que, né, agora é a vez DELA brincar. 
4- E a gente também precisa pelo menos ver o que vai acontecer. Precisamos de um final! Ah, mas "Sense8" acabou sem final. Por favor, ninguém via "Sense8". Até "Marco Polo" tinha mais público. 
5- Embora tenha sido uma temporada hiperbólica e fora do tom, "House of Cards" ainda é uma boa série, pois eu gosto das tramoias, das conversas de bastidor, dos tapetes puxados, da trepada em troca de favores e da eterna conspiração entre os políticos e as corporações em Washington. Para mim, tudo aquilo é real porque a política é suja desde a injusta condenação de Sócrates no tribunal de Atenas em 399 A.C.
6- Inclusive, eu não duvidaria se existisse realmente um encontrinho anual na floresta entre poderosos fantasiados de corvo. 
7- No Brasil deve ser a mesma coisa. Só não deve ter a mesma classe. As negociatas devem acontecer num iate cheio de farofa, pagode, prostitutas e cerveja barata no mar de Jurerê Internacional. 
8- Podem falar que é brega, podem falar que é forçado, mas eu gosto quando o Frank Underwood conversa comigo (tecnicamente falando, quando ele rompe a quarta parede). Todavia, nessa temporada foram exageradas e, muitas vezes, longas as intervenções. Gostava mais quando tinha quase um aspecto natural como se você fizesse parte da cena. Nesse ano, ele parecia um apresentador fazendo passagem em documentário do "History Channel". 
9- Mas a Claire finalmente falou comigo. E eu fiquei emocionado. 
10- Por falar em Claire, e essa palhaçada dela se apaixonar? E ainda mais pelo bebê chorão do Tom Yates. A Claire não podia se apaixonar, gente. Onde já se viu isso? Vai virar Meg Ryan logo agora, no auge da carreira e das vilanias? Claire deve ser má, cruel e com aquele olhar glacial. E quando questionada sobre o amor deve dizer: "Um interessante conceito filosófico sobre o qual não partilho do mesmo entusiasmo do resto da humanidade". 
11- Ainda bem que o problema foi resolvido e não ficou para a próxima temporada. 
12- A Zoe Barnes trepava com o Frank para conseguir matéria. Agora tem outra jornalista que transa com um cara da Casa Branca para ficar de espiã a serviço do "Spotlight" do Hammerschmidt. Donde se conclui que, para "House of Cards", jornalista só consegue desencavar histórias na cama. Mas a imagem dos políticos é sempre pior. 
13- Estou bolado demais com o sistema do serviço secreto. Até coloquei uma fita crepe na câmera do meu laptop. 
14- "House of Cards" precisa de uma sacudida, de um cavalo de pau na história. Esse negócio do Frank cair para cima... tudo bem, já vimos isso muitas vezes na vida real, mas fica parecendo que ele sempre vence. Uma arrogância que lhe custou caro, aliás. 
15- Mark Usher, Jane Davis, Sean Jeffries... tudo leva e traz, tudo PMDB com grife. 
16- E o deputado despacito hipster hein? Não deu nem para o cheiro. Bastou o Frank sussurrar no ouvidinho dele feito um velho babão a palavra "Rochelle" que ele arregou. 
17- O resumo de tudo entre democratas e republicanos é: ao pisar em Washington não confie em ninguém. Até sua sombra pode estar conspirando contra você. 
18- Cotação da Corneta: nota 7.

sábado, 3 de junho de 2017

Que maravilha

Belo crepúsculo, Diana
Quem acompanha a Corneta (alguém ainda acompanha isso? Ainda tenho 17 leitores?) sabe que frequentemente eu comparo a rivalidade Marvel x DC como um grande Alemanha x Brasil e aquele épico, fantástico e inesquecível 7 a 1. A DC merece a comparação porque andou nos entregando bombas terríveis de digerir como os recentes "Batman vs Superman" e "Esquadrão Suicida". Pérolas da ruindade dignas do Framboesa de Ouro e dos prêmios de piores do ano do Corneta Awards. Mas em "Batman vs Superman" havia uma mulher que quase roubou o filme, que deu um fiapo de dignidade para aquela coisa que tiveram a coragem de chamar de cinema. Tratava-se da Mulher Maravilha (toca a música-tema: tãrãrãrãaaannn tum tum tu du tum tum tãrãrãrãnnnn...)
Como a DC não pode ficar atrás da Marvel na expansão do seu universo de heróis clássicos, eles trataram de dar à personagem um filme para chamar de seu. Uma decisão acertada. Afinal, é uma personagem sensacional (na minha preferência só perde para o Batman no mundinho da DC) e era uma chance de a DC fazer algo na frente da Marvel: um filme solo minimamente decente com uma super-heroína. Deu mole, Stan Lee. E há anos pedimos um solo da Viúva Negra. Fica o meu protesto.
"Mulher Maravilha" é aquele típico filme de origem. Aquele em que conhecemos como aquele personagem querido tornou-se quem é. Você está de saco cheio disso? Principalmente quando eles são excessivamente longos e cheio de gordura para cortar? Parece que o resto do mundo ainda não.
O filme começa com um enorme desperdício de verba de Bruce Wayne. Ao invés de enviar por Fedex de Gotham até Paris a foto de Diana (Gal Gadot) com seus amigos na Primeira Guerra Mundial, ele a manda em uma pasta fechada dentro de um carro-forte com seguranças. Típico exibicionismo de gente rica. Se eu não soubesse que Bruce só tem olhos para a Mulher-Gato, eu diria que ele estava querendo pegar a Diana. O que eu questiono é: por que o senhor Wayne não digitalizou e mandou a imagem para o e-mail dela por pdf? Por que não mandar um zap? Só quis aparecer, né.
Enfim, aquela foto maravilhosa acaba despertando os instintos mais primitivos na moça. Uma reminiscência de cem anos atrás, quando ela lutou na guerra com o primeiro homem que viu na vida, o Steve Capitão Kirk (Chris Pine), o chefe apache (Eugene Brave Rock), o galanteador poliglota Sameer (Said Tagmahaoui) e o escocês bêbado Charlie Trainspotting Spud (Ewen Bremner). Não era a Liga da Justiça ideal, mas era Liga da Justiça possível naqueles tempos. Lembrem que em 1918, Bruce Wayne e Barry The Flash Allen ainda não tinham nascido, o Aquaman provavelmente estava curtindo a vida e bebendo todas em Atlântida, o Superman estava na sua Krypton distante e o Lanterna Verde devia estar em outra galáxia.
E onde Diana estava? Na sua ilha grega paradisíaca habitada apenas por amazonas guerreiras prontas para enfrentar Ares, o deus da guerra, assim que ele desse pinta de novo. Lá ela não era nenhuma maravilha. Afinal, num lugar em que todas são especiais, você é só mais uma. Pelo menos é o que mamãe Hipólita (Connie Nielsen) tenta fazê-la acreditar. Mas se você vive no mesmo espaço com Carrie Underwood, quer dizer, Antiope (Robin Wright), sabe que mesmo sendo rainha não vai apitar nada. Titia tinha outros planos para Diana. Ela sabia que a moça era especial. Afinal, ela nasceu de um momento "Ghost, do outro lado da vida", entre Hipólita e Zeus. Ali, naquele barro esculpido, tocando "Unchained Melody" ao fundo, Diana viria ao mundo como alguém diferenciada entre as diferenciadas.
Mas que não sabe nada da vida. Afinal, ela vivia numa bolha grega. Numa timeline de Facebook cuidadosamente higienizada por mamãe para que ela veja só a beleza do mundo. O que não é difícil quando se está na Grécia.
Mas um dia essa bolha precisa romper para ela cair na vida. E ela rompe com a queda do avião de Steve. Diana fica curiosa quando vê o primeiro homem da sua vida. E não fica muito espantada diante dos, digamos, países baixos do rapaz. Steve é um espião. Caiu ali por acaso através de uma falha no escudo protetor da ilha de Lost de Themyscira. Mas tem uma missão. Salvar o mundo e tentar acabar com a guerra. Diana sente que essa é sua missão também. Ela precisa sair pelo mundo e defender os fracos e oprimidos. Precisa destruir Ares, esse deus inconveniente. Então ela pega o escudo, a espada, o laço dourado e os braceletes maneiros e vai para a luta. Parênteses para dizer que as cenas com o laço são realmente MUITO legais.
Durante todo o filme haverá esse choque da moça tentando entender aquele mundo louco em que homens se matam e escravizam sem qualquer razão ao mesmo tempo em que ela precisa protegê-los e correr atrás de Ares, a quem julga ser o grande responsável por essa tragédia. Quem a ouve pensa que ela é maluca. Afinal, os alemães são os reais inimigos. Mas como ela vale por um exército a deixam delirar. Tolinhos.
E aqui entramos na importância de Gal Gadot para o filme. Porque essa atriz israelense é magnética e tem todo o carisma necessário para ser a Mulher Maravilha. Ela já ofuscava o Ben Affleck (o que não é difícil até para uma porta) e o Henry Cavill em "Batman vs Superman". E se você assistir ao trailer da "Liga da Justiça", cuja estreia está prevista para novembro, ela rouba a cena toda vez que aparece. Algo me diz que Gal estará futuramente para a Mulher Maravilha como Christian Bale, Hugh Jackman e Robert Downey Jr. estão para o Batman, Wolverine e Homem de Ferro, respectivamente.
O que Gal Gadot não precisava era do ventilador da Beyoncé na cara dela toda vez que parte para uma cena "grandiosa" e que supostamente deve ser um divisor de águas na sua biografia e no seu amadurecimento. É assim nas trincheiras da guerra, é assim e com muito abuso no seu duelo final. Por que gente? É necessário mesmo tantos cabelos esvoaçantes? Cabelo esvoaçante com mulher lutando é a pochete do cinema.
Ela também não precisava do discurso brega/auto-ajuda do roteiro de que o amor vence tudo e purifica as almas impuras. Pior do que isso, só se ela cantasse Maiara e Maraísa.
Realmente, o roteiro dá umas escorregadas que aliada à tendência natural da DC ao kitsch em suas cenas de ação fazem a gente dar umas reviradas no estômago e bufar de tédio. Por exemplo, a cena final é longa demais, exagerada demais, é uma explosão de cores demais, é tudo muito too much. Por isso, que as minhas batalhas preferidas acabaram sendo as do vilarejo e a das trincheiras.
Em geral, os principais heróis da DC são poderosos demais. Muito mais do que os da Marvel, que são mais humanos. Pois eles são semideuses que fazem coisas incríveis ou humanos que ganharam poderes grandiosos. As exceções são o Batman e o Arqueiro Verde. Mas ambos são bilionários. O que não deixa de ser um superpoder e tanto. E na hora de ir para o cinema está sendo difícil lidar com isso.
Mas a DC parece estar aprendendo. E assim ‪"Mulher Maravilha" está aprovado, mas com ressalvas. Ganhará da Corneta uma nota 7.

terça-feira, 23 de maio de 2017

O Arthur das ruas

Espada maneira. Vou levar para mim
Para Guy Ritchie a história da humanidade se resume a brigas de gangues nas ruas. Deve ser alguma frustração por ter sido Martin Scorsese e não ele a ter feito "Gangues de Nova York" (2002). Se convidassem Ritchie a fazer uma nova versão da Branca de Neve, os anões seriam sujos, frequentariam puteiros, cuspiriam no chão e falariam palavrões e gírias como "mano" e "brou" enquanto a personagem principal seria toda tatuada e lutaria um kung fu que aprenderia com o seu mestre chinês. 

Não importa o tempo histórico. Não importa se eu estou no século XX, XIX ou na Idade Média. Tudo para Ritchie não passa de brigas de garotos machos, descolados e malandrões pelo poder. 

Assim ele desconstrói/destrói a lenda do nosso querido Rei Arthur nesse "Rei Arthur: a lenda da espada". No filme para lá de constrangedor, Art (sim, o personagem de Charlie Hunnam tem um apelido de infância maneiro que ganhou nas ruas, choque) foi mandado embora num barco pelo pai, o rei Uther (Eric Bana), após uma trairagem do tio Vortigern (Jude Law, mais afetado que um pavão frondoso). Titio sabia que "the night is dark and full of terrors" e resolveu se aliar ao lado negro da força para ser um cara fortão com uma foice maneira e brincar com fogo. Além de tomar o trono para si. 

O que o Jude Law não sabia é que ao perder o sobrinho no mundo (que não sabemos como sobreviveu na longa jornada de barco, sem comida e bebida, de Camelot até Londres, ops, "Londínia"), ele estava vendo nascer um monstro. 

Criado por prostitutas, convivendo com vikings e sendo treinado pelo Cem Olhos, que ganhou um emprego nessa produção depois do cancelamento de "Marco Polo", Art virou um homem pronto para a vida. Honesto, justo, forte e macho. Pronto para enfrentar quaisquer forças dessa Inglaterra bagunçada e cheia de druidas e magos que ecoam magias possuidoras de bichos que deixariam o Brandon Stark embasbacado. 

Mas ninguém saberia da sua existência se o povo não começasse uma campanha contra o rei usurpador. Nas ruas, símbolos da oposição eram pichados anunciando a volta do verdadeiro rei e a galera parava em todas as tabernas dizendo: "Primeiramente, fora Vortigern". 

Isso começou a incomodar o rei, que precisava se impor pela força. Ele, inclusive, desconfiava que já estava sendo grampeado dentro do seu próprio palácio. 

Mas a coisa começou a feder mesmo quando a maré baixou e revelou AQUELA espada. Aí Vortigern tremeu na base, amigos. Começou a buscar cada jovem pela cidade atrás de quem possa tirar a espada da pedra de uma forma mais obsessiva do que o príncipe com o sapatinho de cristal atrás da Cinderela. 

É quando vem um dos momentos mais constrangedores desse filme que definitivamente não precisava ter sido feito (#Cornetarevolts). Art não sabe muito bem como pegar na espada e recebe instruções de... David Beckham! Sim, David Beckham. Se fossem instruções sobre como bater falta, tudo bem. Mas tirar uma espada da pedra, não dá. 

A partir daí acontece aquilo que já conhecemos no cinema. Começa a jornada do herói rumo ao conhecimento, ao poder e à vingança. Afinal, o nosso amigo Art é o rei legítimo, o herdeiro do trono em Camelot. Trono este que foi usurpado pelo titio. No meio disso tudo é um tal de você precisa dominar a espada, a espada te domina, você não pode desviar o olhar da espada, a espada levanta mais poeira que fãs em show da Ivete Sangalo, a espada isso, a espada aquilo. A espada tem poder, já sabemos. E enquanto isso, Art faz doce. Diz que não serve para o cargo, que não quer o podere etc e tal. Quando sabemos que o aedes aegypti azul com o vírus da política o picou há muito tempo. 

Só que a situação se desenrola de uma maneira tão absurda e o Guy Ritchie se coloca numa situação tão irreversível, que ele precisa lançar mão de um deus ex-machina para equilibrar as forças. Que desagradável. 

Enfim, durante todo o filme, vemos muita correria, muita pancadaria, pegadinhas e aquela linguagem das ruas cheia de gírias e malemolências. O que não vemos é Guinevere. Nem Lancelot. Merlim? É apenas uma imagem distante de três segundos. 

Parece que essa galera ficou para um segundo filme. Preferimos que ele não aconteça, Guy. Vá ler Bernard Cornwell que é o melhor que você pode fazer. 


A Corneta está decepcionada. "Rei Arthur: a lenda da espada" vai ganhar uma nota 3