segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

O canto do cisne de Redford

Redford e sua classe para roubar bancos
Há alguns meses, Robert Redford anunciou que estaria se aposentando. Seu último filme como ator seria “O cavaleiro com arma” ("The old man & the gun, no original), trabalho em que o ator de 82 anos interpreta a história real do assaltante de bancos Forrest Tucker. 

O papel de Tucker, que viveu toda uma vida de crimes e escapou de 17 prisões até a sua morte em 2004, é o canto do cisne de um ator que sempre foi conhecido por sua classe e altivez aliado aos conhecidos olhos azuis que estamparam as telas dos cinemas por mais de cinco décadas. 

“O cavaleiro com arma” é um filme delicioso de acompanhar e feito sob medida para Redford brilhar. O diretor David Lowery aproveita todas as sutilezas, o minimalismo e o meio sorriso de Redford para contar uma história incrível com um estilo clássico de filmar, que emula os grandes filmes dos anos 70. 

Redford está impecável e merecia uma indicação ao Oscar, prêmio, aliás, que ele só venceu uma vez como diretor por “Gente como a gente” (1980). Ele ainda foi indicado como ator por “Golpe de mestre” (1974), e como diretor e pelo filme “Quiz Show - a verdade dos bastidores” (1994). 

A história de Tucker é tão improvável que é até difícil acreditar que tenha sido real. Ele roubou mais de uma centena de bancos em sua carreira de crimes. Tudo sem dar um único tiro - há quem diga que ele sequer tenha disparado a sua arma - e sempre usando a mesma abordagem. Sendo gentil, cavalheiro e sorrindo e acalmando as vítimas impassíveis diante de suas feições idosas e seu termo impecavelmente cortado. 

Redford encarna brilhantemente este tipo sedutor que usa tão bem as poucas palavras que profere da mesma forma que tem uma irresistível arte para roubar bancos. A vida do crime era a maior prazer para Tucker, que aparentemente só se sentia livre na eterna briga de gato e rato com a polícia. Tanto que não conseguiu sossegar na vida pacata com a sua terceira esposa, Jewel (Sissy Spacek). 

Lowery também aproveita o filme para fazer uma homenagem a Redford. Ao ilustrar as cenas de diferentes fugas de Tucker, o diretor usa cenas de filmes antigos do ator, numa jogada brilhante, bem como um belo trabalho de pesquisa. 

O sucesso do filme, que lhe rendeu até uma indicação ao Globo de Ouro de ator, pode ter feito Redford repensar a sua aposentadoria. Pelo menos é o que diz o diretor do filme. Mas se este foi mesmo o seu último trabalho como ator, que belo capítulo final teve a sua cinebiografia. 

Cotação da Corneta: nota 7,5.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Quando a arte esbarra no diletantismo

A professora e o pequeno gênio
Muitas definições já foram escritas sobre a arte. Em geral, o fazer artístico divide-se entre os que advogam por um talento natural as margens de um dom divino e os que afirmam a necessidade do suor para lapidar o talento. “A professora do jardim de infância” ("The kindergarten teacher", no original) é uma história de frustração e de uma luta constante contra o sentimento de vazio e de inoperância por não ser nada daquilo que se almejava. E o que todo aspirante a arte mais almeja é o reconhecimento de seu talento e obra. 

Lisa Spinelli (Maggie Gyllenhall) não tem ambos. Seus poemas são medíocres como a vida que ela acha levar. Ela é uma professora de jardim de infância com uma família tipicamente burguesa que leva uma vida que, para ela, é sufocantemente simples. Lisa é muito boa como professora e mãe, mas a frustração do seu olhar a cada rabisco torto no caderno prova que ela não está satisfeita com a vida que leva. 

As aulas de um curso noturno de poesia servem para remexer a artista dentro dela e, quem sabe, despertar de vez a sua veia natural. Quão frustrante é para ela compreender a constatação de seu professor, Simon (Gael Garcia Bernal), de que há um abismo entre o artista e o diletante, o apreciador da arte. 

Lisa é a diletante. Artista é o seu jovem aluno, de seis ou sete anos. Jimmy Roy (Parker Sevak) parece um “Paterson” (2016) antes de se tornar adulto. Tem um talento natural para fazer poesias com a profundidade que uma criança raramente alcançaria. E quão incrível é a atuação do jovem Parker, que declama os textos profundos com inocência e olhar infantil. 

Jimmy é um talento raro que Lisa quer lapidar, mostrar ao mundo. O problema é que ela coloca suas frustrações a serviço de Jimmy, ao invés de fazê-lo desenvolver-se naturalmente. Assim, canibaliza-o enquanto se perde em mentiras até o melancólico desfecho dessa professora que não pôde apenas incentivar de forma correta o seu aluno, pois queria projetar-se sobre ele e ver alguém da sua órbita ser grande e não medíocre como ela acha que ela e a sua família são. 

Boa parte da força de “A professora do Jardim de infância” está no trabalho de Maggie. É uma de suas melhores atuações. Ela transpõe por cada poro do seu corpo a frustração e o inconformismo de ser Lisa, a mera professora de crianças. O olhar vazio a cada poema rejeitado e visto como medíocre contrasta com o brilho dos seus olhos ao contemplar cada poema de Jimmy. A criança é o seu mundo. O problema é que nada do mundo dela lhe pertence. O que provoca uma espiral de dor e contrariedade quase insuportáveis para ela. 

“A professora do jardim de infância” é baseado num filme original israelense de 2014. Não tenho base para comparação, mas é possível dizer que o trabalho da diretora Sara Colangelo é uma agradável e incômoda experiência sobre a frustração de ser um diletante e nada além disso. Dói. Deve doer mais ainda aos que não convivem bem com isso.

Cotação da Corneta: nota 7,5.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Lars von Trier e sua eterna misoginia

Jack, o assassino, e Verge, o espectador
Lars von Trier acha que não há história que não mereça ser contada. Partindo dessa premissa, o diretor dinamarquês, um dos expoentes do movimento Dogma, caminha pelos lugares mais obscuros da alma em busca do que há de mais podre na humanidade. “A casa que Jack construiu” ("The house that Jack built”, no original), pode ser visto como um resumo de tudo o que é o que tem sido o seu cinema nas últimas décadas. Também são 2h35min de um filme que só reafirmaria a visão de seus críticos sobre o seu comportamento doentiamente misógino e seus flertes com o extremismo. E lembremos que Von Trier já declarou “compreender Hitler”, o que o fez ser expulso de Cannes quando do lançamento de "Melancolia" (2011). 

A casa que Jack construiu”, pode, portanto, ser visto por, no mínimo, dois prismas. Comecemos pelo primeiro. 

O novo filme de Von Trier pode ser encarado como um exercício sobre a maldade sem consequências. Na história, Matt Dillon é Jack, um engenheiro com ambições de ser arquiteto que sonha em construir uma casa tão perfeita que parece sempre impossível de construí-la. Mas Jack também é um serial killer, que em 12 anos matou mais de 60 pessoas sem nunca sequer ter sido pego pela polícia. 

Ao longo do filme, Jack vai desenvolvendo uma teoria numa conversa com uma entidade chamada Verge (Bruno Ganz) sobre o quão artística é a sua vida de crimes. Defende que a arte vem da dor e da maldade enquanto Verge entende a arte como fruto do amor. Esse diálogo de oposições vai mapeando todo o filme a cada ato cada vez mais hediondo de Jack, sempre acompanhado pelo olhar atento, porém, plácido, de Verge, personagem que só no fim entendemos qual é o papel. E é curioso que este personagem tenha sido feito pelo mesmo ator que interpretou Hitler em “A queda” (2004). Difícil crer que foi uma escolha casual. 

A cada assassinato de Jack, Von Trier vai ilustrando como a maldade é banal e como o desespero de cada um é tão solitário e não encontra eco e nenhuma solidariedade. Ele é o Senhor Sofisticação e desenvolve crimes perfeitos contanto com a inoperância da população ao redor e a lentidão das autoridades. 

Ao mesmo tempo, Von Trier desenvolve a tese de que o serial killer é um indivíduo que nasce com a maldade nele e sempre deixa pistas a cada crime. Pois ele quer ser encontrado, descoberto. Existe uma vaidade nessa briga de gato e rato, pois o assassino em algum momento quer ser descoberto para ter a sua “obra de arte” finalmente divulgada e ganhando público e notoriedade.

Ao mesmo tempo, o diretor expõe que nós, enquanto espectadores, adoramos estas histórias e adulamos assassinos. É quando o diretor expõe as imagens de ditadores e assassinos em massa como Hitler, Mussolini e Stalin. 

O filme, porém, acaba escorrendo no fim por uma longa vertente bíblica que pareceu destoar um pouco da proposta inicial. Tivesse se mantido na sutileza das conversas entre Jack e Verge com um desfecho menos longo, ele teria algo melhor a oferecer. 

Mas é impossível enxergar “A casa que Jack construiu” sobre outro prisma. A da misoginia de Von Trier. No filme, Jack conta que assassinou todos os tipos de pessoas, mas é a história de seis mulheres que ele resolve contar para Verge, aquelas que lhe dão um certo prazer. Uma delas, ele considera a sua grande obra de arte, quando trata uma mãe e seus dois filhos pequenos como caça e os solta num descampado apenas para brincar de tiro ao alvo com eles. Mas é a mulher que ele resolve torturar psicologicamente antes de oferecer a ela um fim trágico. 

Von Trier é um conhecido torturador de mulheres e parece não ter nenhum problema em expor isso. Numa passagem do filme, quando Jack está prestes a matar Simple (Riley Keough), nome que por si só é uma enorme agressão e reducionismo à mulher que ele dizia até gostar, o diretor chega a expor um subtexto no roteiro falando da injustiça que é sempre culpar os homens de tudo, enquanto as mulheres são sempre vítimas. Em tempos de #MeToo, denúncias de assédio e um necessário chamado ao protagonismo feminino, Von Trier vem nos dizer que está pouco se lixando para isso. Para que isso se não expor uma necessidade de ser polêmico apenas pela polêmica em algo que nada acrescenta ao filme?

Simple é agredida verbalmente, humilhada e tem a mais terrível e sádica das mortes. E que reverbera durante o filme, pois Jack transforma um dos seus seios numa carteira. 

Mas como eu dizia, Von Trier é um conhecido torturador de mulheres no cinema. Nicole Kidman é humilhada para além do limite em “Dogville” (2003), provocando um enorme incômodo. Chalotte Gainsbourg é igualmente levada para além de todos os limites em “Anticristo” (2009) e nos dois volumes de “Ninfomaniaca” (2013). Björk é igualmente humilhada em “Dançando no Escuro” (2000). A cantora islandesa, inclusive, teve problemas de relacionamento com o diretor. E em “A casa que Jack construiu”, Von Trier expõe suas mulheres ao máximo de dor e horror. Não apenas com Simple ou uma das mulheres sem nome, mas também com a primeira vitima (Uma Thurman), assassinada com um golpe de macaco enquanto o diretor faz questão de expor o enorme buraco na cabeça da personagem causado pela peça do carro. 

Alguns poderiam dizer, e não deixa de ser um argumento válido, que tudo não passa da arte de Von Trier. Que as atrizes continuam topando trabalhar com ele e, no caso de Charlotte, fazem até mais de um filme. Mas quando se trata de deixar de ser algo pontual para virar uma marca, e uma incômoda marca, pois não é um traço de estilo, mas um discurso de ódio imputado em seus trabalhos, torna-se um problema. 

Assim, “A casa que Jack construiu” não acrescenta nada de muito novo à cinebiografia de Von Trier, que segue soltando suas faíscas do estilo-Dogma de filmar, e fazendo suas histórias seguirem o mesmo looping narrativo de trabalhos anteriores. De interessante mesmo só o trabalho de Dilon no papel principal. Se há uma centelha de valor no filme, está no olhar sádico-enfadonho que ele estabeleceu para o seu Jack e no proveito que ele teve das ironias do texto para usar no seu personagem. Mas ainda assim, “A casa que Jack construiu” está longe dos melhores trabalhos de Von Trier. 

Cotação da Corneta: nota 6,5

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

"Creed II" merecia ser mais do que uma cópia de "Rock IV"

O Drago é grande mesmo
“Creed”, o filme de Ryan Coogler lançado em 2015, de certa forma renovou a franquia de Rocky Balboa ao apresentar um novo protagonista e dar prosseguimento à vida do lutador interpretado por Sylvester Stallone, agora no papel de treinador e mentor de Adonis Creed (Michael B. Jordan), filho do ex-campeão e amigo de Rocky, Apollo. 

Tão elogiado, o filme chegou a ter uma surpreendente, mas merecida indicação ao Oscar para Stallone pelo seu papel de um Rocky ainda tentando reencontrar seu papel no mundo e sentindo-se cada vez mais só anos após a morte de sua eterna amada Adrian, interpretado pela atriz Talia Shire em todos os filmes da franquia até a morte da personagem. 

O sucesso de público e crítica do primeiro filme provocou um natural desejo por uma continuação. Não mais com Coogler como diretor, que depois passaria a se dedicar ao elogiado “Pantera Negra” e sua continuação, ainda sem data de lançamento prevista, mas com Steven Caple Jr. “Creed II” é apenas o seu segundo longa-metragem como diretor e é uma cópia quase fiel de “Rock IV”. 

Talvez não seja por acaso que o roteiro de Stallone e Juel Taylor fosse revisitar a história mais “nacionalista” de Rocky para contar a história da continuação da vida de Adonis Creed, agora um campeão mundial em busca de novos desafios e enfrentando mudanças na vida pessoal - a possibilidade de trocar a Filadélfia por Los Angeles, o casamento com a cantora Bianca (Tessa Thompson). O objetivo parece ser atrelar ainda mais a trajetória de Adonis a de Rocky, mostrar ele enfrentando os mesmos desafios e apelar à memória afetiva dos fãs da franquia. Eles viram o confronto de Apollo e Rocky com Ivan Drago (Dolph Lundgren), agora querem ver os filhos se enfrentando. E, convenhamos, na história do esporte, este tipo de narrativa é bastante comum.

Por outro lado, justamente por esse apelo a um mundo que não mais existe nas configurações de 1985, ano do lançamento do quarto filme do pugilista vivido por Stallone, “Creed II” já nasceu um pouco datado. Quando “Rock IV” foi produzido, o mundo vivia os anos finais da Guerra Fria, ainda havia muro de Berlim e a natural polarização entre Estados Unidos e União Soviética. Incontáveis foram os filmes em que os russos eram os vilões e os americanos salvavam o mundo nas mais de quatro décadas de cinema durante aquele período. “Rocky IV” foi só mais um. Naquele filme, Rocky Balboa via o seu amigo Apollo ser assassinado no ringue por Drago e busca uma revanche contra Drago na Rússia, casa do inimigo, para vingar a pátria americana. Tudo com direito a trilha sonora heroica, treinamento heterodoxo e uma clara visão de hostilidade por parte dos soviéticos. Só o Stallone, aliás, encarnou dois heróis de sucesso desta época da Guerra Fria. Além de Rocky, o próprio Rambo, cujo quinto filme tem previsão de lançamento para este ano. 

Naquela época de “Rocky IV” havia um contexto geopolítico, que por mais que fosse maniqueísta, ajudava a criar uma polarização, embora tacanha, de Ocidente x Oriente, EUA x URSS. O contexto hoje é um pouco diferente. Heróis e vilões, se fosse possível ver a política desta forma, estão mais amalgamados do que outrora. Até porque o volume de informação circulada, bem como de fontes, é bem maior, o que impede uma narrativa dominante. Se, por vezes, ficou mais fácil manipular a história – e a indústria de fake News está ai para provar isso – é também mais difícil ser o dono da história e da sua narrativa. E se a Rússia de Putin ainda merece toda a desconfiança, os Estados Unidos de Trump não ficam muito atrás. 

Portanto, levar esse contexto para a história de Creed é empobrecer esta leitura contemporânea, mais diversificada e que se propõe mais moderna para a franquia Rocky Balboa. Lembremos que quando o primeiro Rocky surgiu em 1976, os grandes nomes do boxe eram todos negros. Joe Frazier, Muhammadi Ali, George Foreman, Leon Spinks, Ken Norton e Larry Holmes, todos campeões mundiais dos pesos pesados entre as décadas de 70 e 80 eram negros. Nesse cenário, Rocky era um lutador de sucesso branco - seu apelido era “o garanhão italiano” - num mundo em que os negros davam as cartas tanto dentro quanto fora do ringue. Afinal, Don King era o grande nome organizador de lutas do esporte. 

Na franquia de Rocky, o lugar do negro era, no máximo, o de coadjuvante. Creed surge para corrigir essa trajetória e reafirmar o protagonismo negro nesse esporte ao mesmo tempo em que o cinema e, especialmente, o Oscar eram alvos de críticas pela falta de negros concorrendo aos prêmios. É curioso que uma das últimas falas de Stallone no filme seja virar para Creed e dizer: “Este é o seu momento”. É claro que era o personagem em sua humildade, e Rocky sempre foi pintado como um personagem humilde e iletrado das periferias da Filadélfia, dizendo que Adonis tinha que brilhar como o protagonista máximo daquela história, mas, numa interpretação livre, podemos também dizer que era o momento dessa virada, enquanto Rocky agora é um coadjuvante. Pois esse é também o papel do treinador. 

Da mesma forma, o papel da mulher na franquia de Rocky, que também era de coadjuvante, é absolutamente diferente em Creed. Adrian era uma mulher simples que vivia para o marido e sem grandes ambições a não ser ter uma vida como esposa de Rocky. A Bianca de Creed é uma mulher independente e com uma carreira ascendente como cantora. Ela está longe do papel de mulher que sofre na frente da TV vendo o marido apanhar. Ela entra junto com ele, conduz o marido até o ringue com atitude e desafiando os rivais. 

Além disso, Bianca tem uma deficiência auditiva agora herdada pela filha do casal, que traz a inclusão das pessoas com deficiência dentro da nova proposta da franquia e promete render novas histórias em torno desse tema. 

Por tudo isso que revisitar “Rocky IV”, e olhar mais para o passado que para o presente e futuro, que “Creed II” deixa a desejar como proposta de cinema para além do mero entretenimento. E como entretenimento ele não deixa de ser muito bom, pois emula tudo o que o filme de 1985 tinha. A derrota dramática para Drago no início, o treinamento nada ortodoxo de Creed no deserto lembrando o treinamento na neve de Rocky, a ida à Rússia para a luta final, a hostilidade do público russo, a trilha sonora característica...Tudo é igual ao filme de 85. É ainda há o elemento de “reescrever a história”, visto que o pai de Adonis morreu no ringue para Ivan Drago. 

A questão é que “Creed” apontava para outros caminhos. E o filme de 2015 é daqueles que poderiam figurar em listas dos melhores sobre boxe. E neste ponto, esta ainda jovem franquia se desviou um pouco do que parecia estar se desenhando. 

Talvez o objetivo fosse apenas soltar as faíscas da memória afetiva dos filmes de Rocky. E o quarto é um dos mais emblemáticos. Porém, “Creed II” merecia mais do que ser uma mera cópia de um filme de mais de 30 anos atrás. É um filme que diverte e entretém, mas nada além disso. 

Cotação da Corneta: nota 7.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Os melhores e os piores filmes de 2018

"Infiltrado na Klan", "Um lugar silencioso" e "Roma"
O ano não acaba antes deste AGUARDADO momento. A divulgação do prêmio Corneta Ballon D’Or Awards 2018. Depois de falar mal de muitos filmes e bem de alguns outros, é hora de ser bonzinho a divulgar a lista dos 30 melhores filmes do ano. Aqueles que de alguma forma foram aprovados pelo crivo SEVERO é IMPLACÁVEL da Corneta. 

Sem mais delongas, vamos ao ranking final do ano: 

1- Infiltrado na Klan (BlacKKKansman, EUA). Diretor: Spike Lee.
2- Um lugar silencioso (A quiet place, EUA). Diretor: John Krasinski. 
3- Roma (Roma, MEX, EUA). Diretor: Alfonso Cuarón.
4- O primeiro homem (First Man, EUA). Diretor: Damien Chazelle.
5- Pantera Negra (Black Panther, EUA). Diretor: Ryan Coogler.
6- A balada de Buster Scruggs (The ballad of Buster Scruggs, EUA). Diretores: Joel e Ethan Coen.
7- Querido Menino (Beautiful Boy, EUA). Diretor: Felix van Groeningen. 
8- Vingadores: Guerra Infinita (Avengers: Infinity War, EUA). Diretores: Anthony e Joe Russo. 
9- o sacrifício do cervo sagrado (The Killing of a sacred deer, ING, IRL, EUA). Diretor: Yorgos Lanthimos. 
10- Três anúncios para um crime (Three Bilboards outside Ebbing, Missouri, ING, EUA). Diretor: Martin McDonagh. 
11- Trama Fantasma (Phanton Thread, EUA). Diretor: Paul Thomas Anderson. 
12- Eu, Tonya (I, Tonya, EUA). Diretor: Craig Gillespie. 
13- Mudbound - lágrimas do Mississipi (Mudbound, EUA). Diretora: Dee Rees. 
14- Hostis (Hostiles, EUA). Diretor: Scott Cooper. 
15- Missão Impossível - efeito Fallout (Mission: Impossible - Fallout, EUA). Diretor: Christopher McQuarrie. 
16- Sicário - dia de soldado (Sicario: day of The soldado, EUA). Diretor: Stefano Sollima. 
17- Barbara (Barbara, FRA). Diretor: Mathieu Amalric. 
18- A revolução silenciosa (Die Schweigende Klassenzimmer, ALE e RUS). Diretor: Lars Kraume. 
19- Uma guerra pessoal (A private war, ING). Diretor: Matthew Heineman.
20-O amante duplo (L’amant double, FRA e BEL). Diretor: Francois Ozon. 
21- A forma da água (The shape of water, EUA). Diretor: Guillermo del Toro. 
22- Me chame pelo seu nome (Call me by your name, ITA, FRA, BRA e EUA). Diretor: Luca Guadagnino. 
23-A grande jogada (Molly’s Game, EUA e CHI). Diretor: Aaron Sorkin. 
24- Sem amor (Nelyubov, RUS, FRA, ALE e BEL). Diretor: Andrey Zvyagintsev. 
25- O livro da imagem (Le livre d’image, SUI e FRA). Diretor: Jean-Luc Godard. 
26- Guerra Fria (Zimna Wojna, POL, FRA, ING). Diretor: Pawel Pawlikowski. 
27- As Viúvas (Widows, ING e EUA). Diretor: Steve McQueen. 
28- O amante de um dia (L’amant d’un jour, FRA). Diretor: Philippe Garrel. 
29- Hereditário (Hereditary, EUA). Diretor: Ari Aster. 
30- Lady Bird: é hora de voar (Lady Bird, EUA). Diretora: Greta Gerwig. 

Mas eu não vou embora de 2018 sem destilar um veneno final. Vamos agora a lista dos dez piores filmes do ano. Aqueles que me fizeram revirar os olhos e pensar: “O que eu estou fazendo aqui?”.

1- Cinquenta tons de liberdade (Fifty Shades Freed, EUA). Diretor: James Foley. 
2- Robin Hood - a origem (Robin Hood, EUA). Diretor: Otto Bathurst. 
3- 15:17 - Trem para Paris (The 15:17 to Paris, EUA). Diretor: Clint Eastwood. 
4- Bohemian Rhapsody (Bohemian Rhapsody, ING e EUA). Diretores: Bryan Singer e Dexter Fletcher. 
5- Projeto Flórida (The Flórida Project, EUA). Diretor: Sean Baker. 
6- Mentes sombrias (The Darkest Minds, EUA). Diretora: Jennifer Yuh Nelson. 
7- Oito mulheres e um segredo (Ocean’s 8, EUA). Diretor: Gary Ross. 
8- Operação Red Sparrow (Red Sparrow, EUA). Diretor: Francis Lawrence. 
9- Aquaman (Aquaman, AUS e EUA). Diretor: James Wan. 
10- Todo o dinheiro do mundo (All The money in The World, EUA). Diretor: Ridley Scott. 

É isso. Feliz ano novo aos amigos. E semana que vem começa a temporada do Oscar. :)

sábado, 22 de dezembro de 2018

Aquaman, mais uma flopada da DC

Momoa é um bom Aquaman, mas merecia outro filme
Marvel x DC é praticamente a versão dos quadrinhos do Emilinha x Marlene dos rádios no século passado. Claramente, porém, a Marvel sempre levou muita vantagem neste confronto. Simplesmente porque suas adaptações são melhores, mais bem feitas e, principalmente, têm roteiros infinitamente melhores. 

É incrível que num momento em que a tecnologia é tão avançada a ponto de criar cenários incríveis e ótimas cenas embaixo d’água, talvez o que “Aquaman” tenha de melhor, a DC não consiga alguém decente para escrever uma história minimamente simples que não evoque problemas freudianos com pai ou mãe, e situações constrangedoras. Os roteiros são o maior calcanhar de Aquiles das produções da DC. Se “Batman vs Superman” (2016) tinha aquela cena constrangedora dos dois heróis resolvendo uma briga só porque descobriram que tinham o mesmo nome da mãe, em “Aquaman” fomos apresentados ao monstro sozinho e com depressão. Sozinho e isolado do mundo nas profundezas do mar sem fim, Karathen aqueceu o coração só porque Arthur (Jason Momoa) conversou com ele. 

- Ohh, você conversou comigo. Que lindo. Em mil anos, nunca ninguém fez isso. Pode levar o tridente para você. 

Este é apenas um exemplo de como “Aquaman” é flopado, embora tivesse grande potencial. 

De um modo geral, a estética brega-kitsch estabelecida por Zack Snyder também cansou. E, sejamos francos, nunca deu muito certo na série de filmes da DC. Os melhor trabalhos nesse sentido foram justamente o “300” (2006) e o “Watchmen” (2009), talvez um dos melhores filmes baseados em quadrinhos. 

Juntando isso aos momentos dignos de um cinema que não se pratica mais - o que foi aquele beijo do Aquaman na princesa Mera (Amber Heard) no meio da guerra? - sobra muito pouco a elogiar sobre o filme. 

Mas tentemos alguns momentos. Por exemplo, as cenas embaixo d’água são realmente muito boas e bem feitas. Os efeitos especiais idem. Todo o combate na Sicília também é um ponto alto. Toda a estética e o design de Atlântida, uma civilização extremamente avançada em relação à humana, também ficaram muito bem feitas, embora, por vezes, Atlântida pareça um refugo de “Avatar” (2009) com pitadas de "Carbono Alterado" (2018). 

Por outro lado, é cansativa demais a busca do Aquaman pelo tal tridente mágico. Era necessário mesmo mostrar em detalhes e com tempo generoso todos os povos dos sete mares? Se fossem mais comedidos daria para economizar pelo menos meia hora de filme. E ainda havia a trama paralela do Arraia Negra (Yahia Abdul-Mateen II), um vilão da superfície que desse um gancho para um segundo filme. 

Por falar em vilões, o rei Orm (Patrick Wilson) é de um constrangimento que só a DC nos proporciona. Ele tem birra porque tem um meio-irmão mestiço, quer iniciar uma guerra com a superfície com base num suposto ataque muito mequetrefe. Além de se tornar o Senhor dos Oceanos, que ambições têm Orm ao querer iniciar uma guerra com a superfície? Quer ser o senhor do planeta? Afinal, não dá para acreditar nesse papo de que os homens estão poluindo planeta e é preciso agir antes que seja tarde. E tudo parte de uma raiva do meio irmão, a quem ele culpa pela morte da mãe, enfim, tudo muito mal contado. 

Por falar na relação de Atlanna (Nicole Kidman) com seus filhos, surge outro problema da DC. A falta de cuidado com o que chamamos de transmídia storytelling. Este é outro momento em que a Marvel anda dando um banho na rival. Durante o filme, a princesa Mera cita que o Aquaman precisa reclamar o trono ou o irmão iniciará uma guerra. E lembra da sua importância ao derrotar o Stepenwolf, dando a entender, portanto, que o filme se passa após os acontecimentos da “Liga da Justiça”. Até aí tudo bem. O problema é que em “Aquaman”, Arthur diz que não pisa nunca mais em Atlântida por causa do que o povo fez com a sua mãe. Só que de pisou lá em “Liga da Justiça” para falar e lutar contra o Steppenwolf. 

Além disso, em “Aquaman”, fica claro o amor e a devoção de Arthur pela mãe desde sempre. O problema é que em “Liga da Justiça”, ele fala de Atlanna com rancor, como se tivesse sido abandonado (“Sua rainha me deixou na porta da casa do meu pai”). Mas em “Aquaman”, é mostrado que ambos tiveram uma convivência na infância de Arthur e o claro amor entre eles, além da devoção que perdurou para sempre. Ou seja, o multiverso da DC tem buracos e contradições. E não é bem amarrado. E isso se evidencia ainda mais pela falta de planejamento para os próximos passos. 

James Wan não entregou o Aquaman em todo o seu potencial, mas Jason Momoa pareceu-me muito bem no papel principal. Deu a impressão de ter sido a escolha acertada, apesar do visual macho alfa bombado ser bem diferente do Aquaman original. 

Mas a DC segue devendo uma sequência de grandes filmes nesta sua nova fase. O único mesmo que merece todos os elogios continua sendo “Mulher Maravilha” (2009). 


Cotação da Corneta: nota 5


sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

A força de duas mulheres

"Roma" transborda em beleza
À primeira vista, “Roma” parece um interminável filme de 2h15min onde nada acontece. Mas é na dramaticidade da vida que reside a força do novo filme de Alfonso Cuarón. 

Na história de um ano da vida de uma família de classe média do México, Cuarón soube captar e entender que a essência de tudo está nos detalhes. Está na dor expansiva de Sofia (Marina de Tavira), cujo marido a trocou pela amante deixando-a sozinha para cuidar dos quatro filhos. Ou está na dor silenciosa de Cleo (Yalitza Aparicio), jovem empregada da casa que se vê envolvida num problema ao engravidar de um homem que apenas a usou. 

A jornada de amor, carinho, dor e respeito une Sofia e Cleo, patroa e empregada, mundos tão diferentes, fragmentos de suas famílias que se unem para manter a sanidade enquanto segue-se o curso dessa caminhada muitas vezes dolorosa que conhecemos como vida.

Desde o início Cuarón vai quebrando os signos dessa história para mostrar a união de duas mulheres tão diferentes que tentam, de certa forma, encontrar forças uma na outra enquanto lidam com a ausência e inoperância dos seus homens lixo que a deixaram para trás. 

“Você está sempre sozinha”, alerta Sofia, num momento de sarjeta ao chegar bêbada em casa e batendo com o carro enorme em todas as paredes da estreita garagem da casa da família. Um claro contraste com o cuidado que o marido tinha com o carro ao mesmo tempo em que não exibia o mesmo zelo com a sua própria família. 

Em tempos de grande sucesso da obra de Elena Ferrante, a tetralogia que começa a ganhar vida com a série da HBO e que conta uma história de empatia e rivalidade entre duas amigas, “Roma” também é uma história de duas mulheres tão distintas que precisam se apoiar para manter a sanidade. Ainda que nesta obra não haja momentos de rivalidade, mas a dor de cada uma que atravessa pela outra e que encontra empatia de ambos os lados.

Quando se espera que o filme se encaminhe para mostrar as dificuldades da empregada diante da falta de compaixão dos patrões, Cuarón mostra que o seu filme caminhará por outra vertente. É na acolhida da patroa diante da empregada temerosa de perder o emprego ao descobrir que está grávida que fortalece-se ainda mais a relação destas duas mulheres. 

A jornada de Cleo, no entanto, não deixa de ser a mais interessante. Por mais que se sinta inserida naquela família, aquela nunca é a sua família. Quando anda pela casa, seus passos são marcados, seus olhares são auto-vigiados, seu desconforto é evidente, pois o seu lar não é o seu lar. Ela só se sente à vontade com a irmã. 

Talvez por isso ela tenha tentado buscar um amor como a irmã. E a associação com Fermin (Jorge Antônio Guerreiro), foi a pior possível, pois ele se revela alguém que não é confiável em todos os aspectos. 

Cleo também se vê num profundo incômodo com a gravidez. Ela não lhe agrada, a culpa só a consome. E somente o mar limpa a sua alma a ponto de fazê-la finalmente desabafar, em meio aos prantos, o quão indesejado era aquele filho. 

“Roma” tem uma força enorme, mas não é um filme fácil. São muitas as cenas lentas em que nada além da vida acontecem. Mas há muita beleza no trabalho de Cuarón. E nessa jornada da vida, com diferentes turning points, marcas profundas e a necessidade de ressignificações é que “Roma” é tão grande. 

Cotação da Corneta: nota 8,5

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

O minimalismo e as reflexões de Godard

A mão, o ponto de partida de tudo
Há anos Jean-Luc Godard vem reduzindo seu cinema para camadas cada vez mais simbólicas e minimalistas. Se nas décadas de 70 e 80, seus trabalhos já chamavam a atenção por uma “ausência de roteiro”, o que na verdade era um texto com linhas gerais que jogavam para o improviso em cena, nas décadas seguintes até o trabalho dos atores passou a ser reduzido ao mínimo. 

Seus filmes hoje são como colagens da história e reflexões sobre os assuntos aos quais ele têm mais interesse: a história e o cinema. E o paralelismo que uma tem com o outro. 

Mais novo trabalho do prolífico diretor, “O livro da imagem” é o ápice do seu cinema de simbolismos e colagens. Não há atores. No máximo a voz cavernosa de Godard, hoje com 88, narrando o filme é fazendo reflexões sobre o século XX, o novo século, a humanidade, a sociedade, e, claro, o cinema. 

Para Godard, o cinema é o livro de imagens do século XX. Da mesma forma que a Bíblia, o Corão e outros textos religiosos são as bases para a vida em sociedade e contam a história dentro de suas respectivas religiões, o cinema é a documentação da história da modernidade e da contemporaneidade. 

Através do “Livro da imagem”, Godard nos convida a refletir sobre a história. E constrói uma jornada pelo século XX numa colagem incessante de imagens e sons que perpassam a história da arte nas suas mais diferentes formas. Tudo dividido em cinco atos, como cinco são os dedos das mãos, como cinco são os sentidos. Cinco é um número que perpassa todo o filme, assim como a metáfora em torno das mãos e seus significados simbólicos em cada atitude.

É através desta metáfora das mãos que Godard chama a atenção para uma história construída pelos signos da linguagem corporal. São as mãos usadas para o amor, mas que também trazem decepção no primeiro ato, as mãos usadas para a violência do segundo ato ou as mãos que legitimam o uso da força pelo espírito das leis do quarto ato. 

A primeira parte do filme é um conjunto de reflexões do que Godard já havia de certa forma falado em outros trabalhos como “Film Socialism” (2010) ou “Para sempre Mozart” (1996). 

A última parte é que traz um Godard com um olhar sobre o Oriente Médio raras vezes, ou talvez até nunca, mostrado com tanta profundidade. A partir de um jogo de palavras em que afirma que “Sheherazade teria contado uma história diferente em 1001 dias”, e não noites como a tradicional história, Godard exibe a falência do olhar do ocidente sobre o oriente. 

Para ele, vemos o oriente como uma massa cultural única, e não como se cada país tivesse a sua própria cultura e visão de mundo. Da mesma forma que olhamos para o oriente como o espelho do que não somos. E isso vai se refletindo na forma como o cinema retrata o oriente. É quando surgem as mãos em movimentos delicados, pintadas com símbolos que não compreendemos ou segurando com força o Corão em sua reza. 

Num momento mais polêmico, Godard apoia a bomba. Apela ao lado positivo da bomba. A bomba, ele vê, é a revolução como a que já ocorreu em outros tempos na Europa. É a reação do oprimido. É complicado apoiar isso em tempos em que a Europa sofre tanto com ataques terroristas. Mas é possível entender o lado de Godard ao tentar mostrar isso como reação e não como ação. Daí o paralelo com movimentos revolucionários. 

Godard é um gênio. Muitas vezes incompreendido, muitas vezes visto como chato e de difícil entendimento. Mas seu cinema permanece vivo, instigante e prazeroso para os que aceitam o desafio de tentar decifrá-lo a cada trabalho. 

Cotação da Corneta: nota 7,5

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Um Robin Hood para esquecer

Que Robin Hoodd é esse?
De tempos em tempos Hollywood gosta de revisitar as lendas da Inglaterra medieval. O problema é que as novas leituras, na tentativa de dar uma visão original a estas lendas, acabam arriscando-se a criar algumas aberrações. Um movimento que volta e meia surge é o de criar o “filme de origem”. A motivação é: a história principal você já conhece. Agora você descobrirá como o personagem se tornou o que ele é. 

Foi assim com o Rei Artur, que gerou um filme constrangedor de Guy Ritchie, agora é com Robin Hood. “Robin Hood - a origem”, tem como objetivo expor “a verdade por trás do mito”, o que é algo um tanto quanto surreal, ou mesmo anacrônico, visto que nunca se soube se realmente Robin de Loxley existiu, bem como a lenda de que ele roubava dos ricos para dar aos pobres. Na verdade, Robin não passa de um mero personagem do folclore inglês.

A saída dada para criar essa origem é tão constrangedora que a vontade que se tem é de largar o filme com pouco mais de meia hora de projeção. Agora estrelado por Taron Egerton, o Eggsy da série de filmes “Kingsman”, Robin é um lorde bon vivant de Nottingham até que se apaixona perdidamente por Marian (Eve Hawson), não mais uma lady, mas uma ladra que ele descobre quando tentava roubar um de seus cavalos. 

Mas a vida pode dar voltas e um dia Robin é recrutado para tornar-se um cruzado e lutar na Arábia, o serviço militar da época. Após quatro anos em que mostra toda a sua “valentia” e “nobreza de espirito” culminando com a tentativa de salvar a vida do filho do mouro John (Jamie Foxx), Robin volta para casa, onde descobre que perdeu a riqueza, confiscada pelo xerife de Nottingham, e a mulher, agora casada com um plebeu de ambições políticas chamado Will (Jamie Dorner). 

O que se segue é um misto do que conhecemos, ou seja, Loxley tornando-se o ladrão Hood, com pitadas de uma história de corrupção política, conspirações com a Igreja, interesses de riqueza com uma guerra infundada, e o povo cada vez mais pobre e morrendo mas minas enquanto os ricos estão cada vez mais ricos. Enfim parece que era preciso “atualizar” a história de Robin Hood traçando paralelos com a vida contemporânea. 

A pergunta que fica é: por que? Por que fazer isso? Talvez por uma tentativa de angariar um novo público. Mas o que levaria o público a se interessar por uma versão de uma história que não convence, com atuações constrangedoras - o xerife de Nottingham de Ben Mendelsohn e a Marian de Eve são tristes e apagadíssimos - um roteiro apavorantemente ruim e até com cenas de ação, que deviam ser o ponto alto deste tipo de filme quando nada mais dá certo, de qualidade questionável. Apenas uma ou duas podem ser consideradas perto de boas. 

A origem de Robin Hood é um fracasso enquanto filme, mas o desfecho da jornada é no ponto em que conhecemos bem. Robin e seu grupo escondido na floresta de Sherwood, um novo xerife de Nottingham que o conhece bem e o roubou a mulher (não vamos comentar a cena bizarra de Dormer com Eve e todo o desenrolar do ciúme patético) e a perspectiva de um segundo filme. Até de uma nova franquia. 

Robin Hood, porém, precisará melhorar demais seu discurso e suas peripécias para ter uma vida um pouco mais longe. O trabalho do diretor Otto Bathurst ficou muito abaixo da crítica. 

Cotação da Corneta: nota 2.

A nada mole vida do escritor

Dovlatov perdido entre palavras censuradas
O cenário russo é pesado. Talvez seja o clima, a língua, as roupas fechadas para as pessoas aguentarem o frio inclemente. Talvez seja o excesso de bebida e cigarros, mas a olhos ocidentais que nunca pisaram na Rússia, o cinema daquelas bandas sempre parece pesado, com personagens de almas desgastantes e taciturnas. Vemos isso em filmes como “Leviatã” (2014) e “Sem Amor” (2017). De fato, nunca vi uma comédia russa. Nem sei se este tipo de filme existe. 

“Dovlatov”, por exemplo, passa longe disso. Pelo contrário. É uma história real sobre persistência, sobre resiliência em meio ao duro regime soviético então sob o comando de Leonid Brezhnev (1964-1982). 

Naqueles tempos dois artistas viviam na marginalidade. O poeta Josef Brodsky (Artur Beschastny) e o escritor e jornalista Sergei Dovlatov (Milan Maric). Ambos nunca tinham os seus trabalhos publicados em jornais e revistas simplesmente porque não exibiam um cotidiano idílico e heroico da pátria soviética ao mesmo tempo em que tinham relações com o Ocidente. Dovlatov, por exemplo, foi expulso do Sindicato dos Jornalistas da União Soviética porque havia publicado textos no Ocidente. Seu primeiro livro foi destruído por ordens da KGB. Brodsky teve a sua poesia considerada pornográfica e anti-soviética. Chegou a ter trabalhos confiscados, foi interrogado e, pelo menos duas vezes, foi internado num hospício. O poeta ainda foi condenado a cinco anos de trabalhos forçados em uma fazenda em Norenskaya.  

A ambos não apetecia versar sobre a gigante União Soviética. Afinal, o filme mostra que boa parte da população vivia em condições de pouca dignidade, falta de dinheiro, sem satisfazer as necessidades básicas e comprando artigos básicos apenas através de contrabando internacional. 

Nesse clima, Dovlatov, o protagonista desta história, andava de jornal em jornal, de revista em revista, tentando publicar suas histórias. Era sempre rejeitado pelo viés crítico que dava às filmagens dos filmes de propaganda soviéticos. Era aconselhado a ser mais “otimista”. Todos deviam ser otimistas e falar sobre os heróis soviéticos. O filme de Aleksey German deixa transparecer que havia um pouco de uma grande alienação coletiva. 

Dovlatov, porém, não conseguia esbanjar tamanho otimismo. Retratava o que via sem heróis e a grandiosidade de épicos gregos que frequentemente o filme traz à tona para comparar com o hiperbolismo soviética. 

É curioso notar estas diferenças e ver como Dovlatov demorou a ser reconhecido. O que mostra como todo regime que detém um demasiado controle do poder e domina a sua população com rédeas curtas é maléfico para o povo. 

Tanto Brodsky quanto Dovlatov só vieram a ser reconhecidos depois de imigrar da URSS. O primeiro para Veneza. O segundo para os Estados Unidos. 

O primeiro livro de Dovlatov só foi publicado em 1989, ano da queda do muro de Berlim e em plena vigência da glasnost, quando houve o rompimento do bloco soviético. O escritor, porém, não viveu muito para ter o reconhecimento do seu trabalho. Morreu em Nova York, em 1990, de parada cardíaca, aos 48 anos. 

Mas de qualquer maneira Dovlatov conseguiu atingir o sonho de infância de tornar-se um escritor. Ao fim do século XX estava entre os favoritos dos russos. E por isso, para conhecer a sua história, seu filme é tão necessário. Por mais que soe um pouco pesado e de difícil digestão. 

Cotação da Corneta: nota 6,5.