segunda-feira, 6 de junho de 2016

Os orcs vão te pegar...

A briga lá embaixo tá boa
Nunca joguei "Warcraft". Nem sei do que se trata o universo em questão. Mas eu também sou um fã de algo. Logo, super entendo a quantidade de aplausos que o filme recebeu ao fim da sessão tomada de nerds que a corneta assistiu. É sempre divertido uma sessão tomada de nerds. De fato, se eu tivesse dedicado minha vida a jogar "Warcraft", talvez tivesse rolado uma conexão. Talvez até uma atração por uma ORQUISA (uma palavra tão estranha quanto presidenta). Mas eu tenho esse desvio de caráter. Nunca joguei "Warcraft". 

O que é difícil de encontrar são qualidades na adaptação de Duncan Jones para os cinemas longe do seu nicho de nerds apaixonados por essa guerra eterna entre orcs e humanos. "Warcraft" parece um videogame que você nem tem a chance de jogar. Sim, amigos, sob pena de ter a vida sugada por um feitiço de Vilania, a corneta é taxativa: "Warcraft" é ruim de doer a alma. E só não é de doer a vista porque se tem uma coisa que o filme tem de bom são as imagens e os efeitos especiais. 

Mas a história do ponto de vista de um roteiro cinematográfico é dura de engolir. Em resumo: um orc Mestre dos Magos/Vingador se alimenta de uma magia negra sinistra e depois de destruir o planeta orc resolve invadir a terra para colonizar o planeta e escravizar os humanos. Só que os homo sapiens não vão deixar isso barato e lutarão até o fim como se estivessem brigando contra o rebaixamento no Brasileirão. Há traições dos dois lados e reflexões de uma tribo orc sobre se o orc mago não estaria doidinho e seduzido pelo seu poder verde. Além de uma série de reflexões existencialistas de fazer Sartre se questionar: foi para isso que eu fiz esses livros?

No meio disso, temos Ragnar Lothbrok, ops, Lothar (Travis Fimmel) liderando a rebelião humana. E querendo dar uns pegas numa orquisa guerreira e mestiça. Sim, meus caros, "Warcraft" tem romance entre espécies. Não configura zoofilia porque orcs tecnicamente não são animais. Eles também têm telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor. E dentes protuberantes. 

Aí você tem humanos bonzinhos, humanos mauzinhos, orcs bonzinhos, orcs mauzinhos, uma disputa de poder celestial entre os magos da luz verde e da luz azul e uma deixa para uma continuação com um bebê orc que será criado entre humanos. Óbvio, né? Esse mito da mãe que deixa o filho embrulhado ir embora num rio é mais velho que andar para frente. 

Aliás, os magos merecem um parêntese. Eles são muito sem graça, pois acabam com toda a ação. Toda vez que um grupo de humanos está na pior. No caso, quase sempre, pois os orcs são maiores e mais fortes, um mago surge, fala uma coisa em aramaico e sânscrito e ganha a luta. Tudo bem, os efeitos são maneiros, mas é igual a um videogame, quando você tem aquela jogada especial que usa contra o mestre no final. Quem nunca usou um Ha-Do Ken antes?

É uma pena que "Warcraft" não tenha ido além de um game com atores reais e efeitos especiais. E manteve uma tradição: nunca um filme baseado em videogame é bom. Não ia ser "Warcraft" que ia contrariar isso. E no fim fica a pergunta: como pode uma sociedade supostamente medieval, que só usa espadas e machados para brigar, de repente ter armas de fogo? Depois disso, o filme vai ganhar uma nota 4.

domingo, 5 de junho de 2016

Palavras

Uma amiga me mostrou esta semana uma mensagem verdadeira sobre como é fascinante a palavra "ué". O ué é fenomenal, pois pode ser aplicado em várias situações dependendo do contexto e entonação. Isso me fez colocar no papel (ou melhor, no bloco de notas virtual) umas ideias que eu já desenvolvia há algum tempo sobre algumas palavras que deveriam ser universais e estar em todos os idiomas. Sem que suas respectivas traduções sejam excluídas, é claro, pois o Marcelismo é a pura democracia. Obviamente, o ué estaria nesse grupo.
Meu esperanto particular também teria o "disgusting". A força dessa palavra tem muito mais valor do que o português "nojento", como você pode ler nos exemplos abaixo:
1. O governo é nojento
2. O governo é disgusting
Perceberam? O impacto é muito maior.
Também estariam neste meu grupo particular o grego "kalimera" e o francês "bon jour". Quem escuta um kalimera de bom dia, começa o dia feliz, em êxtase, porque é uma palavra dita com sorriso de orelha a orelha. É provável que ouvir um kalimera te faça sair para trabalhar cantando e dançando como numa cena de "Mamma Mia". Já se você escuta Bon Jour, você começa o dia já apaixonado. Agora, escutar Bom dia é broxante e dá azia. É como acordar cedo na segunda-feira.
Por falar em amor, a expressão "Jet'aime" tem muita imprensa. Não chega perto de um "Eu te amo" ou um "I love you". Agora, se a questão é trepar mesmo, nada supera o espanhol "te quiero". Eu sei que não necessariamente isso tem a ver com sexo, mas vai dizer que você não pensa naquilo quando ouve um "te quiero"?
Mas se o assunto é odiar, "I hate you" tem muita força, porém nada comparável ao alemão "Ich hasse dich".
Da língua de Nietzsche eu também tiraria para o meu esperanto particular o termo "Entschuldigung", porque "com licença" e sua variante "licencinha" não têm condição. Enquanto "excuse me" soa como aquela patricinha metida e sebosa falando. E se alguém espirra, nada melhor do que dizer "Gesundheit". E nada exemplifica melhor o significado de trabalho do que o alemão "arbeit" (entendam como quiserem).
Aliás, o inglês têm uma série de expressões que podem soar mal. Tipo "sorry". O italiano "scusa" é mais bonito. "Pardon" também é uma boa e elegante opção.
Agora, se temos que dizer adeus, não busque a música do Roupa Nova. Bye bye é ruim, mas eu até gosto de farewell, porque é classuda e aparece nas peças de Shakespeare. Contudo, ninguém diz adeus como os russos. Ouvir "Do svidaniya" é o melhor até logo que você pode receber. Quando você escuta Do Svidaniya, parece que acabou de deixar o bar bêbado e feliz. Perto dos russos só o "arrivederci" italiano.
Por falar em bar, aquele momento do tim-tim seria lindo se disséssemos o sueco (e nórdico) skål (fala-se iskool). Ninguém brinda como os nórdicos.
Outra palavra inglesa que não engulo é "Thank you". Soa debochado na boca de alguns. Talvez esteja desgastada, afinal, o inglês é o esperanto que deu certo. "Obrigado" também me incomoda. Se você tira primeira sílaba remete a briga, se tira a última remete a obrigação. E o agradecimento deveria ser um ato de generosidade. No esperanto marcelista falaríamos "Efscharistó" (se fala Efaristô). Quando você usa a expressão grega, está sempre sorrindo. O "merci" francês te traz um meio sorriso enigmático e também está valendo. E o arigatô japonês devia ser usado sempre em ocasiões formais.
Se tem uma expressão que é universal é "Ok". O mundo ocidental inteiro diz ok. Ok, eu peguei implicância. No meu dicionário diríamos mais o espanhol "vale".
- Vamos no cinema amanhã?
- Vale
E para que eu fiz esse textão linguístico afinal de contas? Sei lá. É apenas uma reflexão de domingo enquanto eu espero "Game of Thrones".

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Precisamos falar sobre Julia

Clooney e Julia: dupla de estrelas
Filmes sobre crise econômica, fraude bancária e negociatas em geral estão ficando tão comuns quatro os filmes de super-heróis. Quem se aventurou nesta empreitada agora foi a diretora e Jodie Foster.  Atriz consagrada, vencedora de dois Oscar por "Acusados" (1989) e  "O silêncio dos inocentes" (1992), Jodie ainda está engatinhando e buscando um estilo próprio. "Jogo do dinheiro" é o seu quarto filme e mostra alguém em busca de uma mensagem que seja entendida pelas massas. 

Pelo menos essa é a interpretação que eu faço quando ela usa atores consagrados no elenco (George Clooney e Julia Roberts), ambos vencedores de Oscar e chamarizes de bilheterias e telespectadores.

Mas Jodie parece ainda precisar lapidar um talento por trás das câmeras. Em "Jogo do dinheiro" ela peça pelo excesso de mensagens que quer passar. Aponta o dedo em várias feridas e não aprofunda nenhuma delas. O filme tem: 

1. Críticas à imprensa e à espetacularização da tragédia
2. Uma postura combativa contra os tubarões de Wall Street
3. Tenta fazer uma análise sobre como pessoas comuns são afetadas por manipulações bancárias escusas e coisas como a quebra de bancos e fundos de investimento (sim, já vimos esse filme)
4. As denúncias de fraude no mercado financeiro.

Talvez se pegasse dois itens e o explorasse bem, Jodie tivesse mais sucesso. Em meio ao show que um sequestro do apresentador de TV Lee Gates (George Clooney sendo George Clooney como sempre) protagoniza, sobressai-se a forte crítica aos programas de TV que exploram a boa vontade do espectador comum garantindo o paraíso dele e de sua família. Afinal, como diz a produtora Patty Fenn (Julia Roberts), "nem jornalismo nós fazemos". Uma frase dura escrita pelos roteiristas que bate fundo no coração dos jornalistas que por ventura possam se sentir afetados. Eu não vou vestir a carapuça.

E aqui precisamos de uma pausa para falar de Julia Roberts. Quando ganhou um Oscar por "Erin Brockovich" em 2001, Julia era uma atriz de comédias românticas que tinha feito um trabalho certeiro para faturar o seu careca dourado depois de anos como uma das queridinhas de Hollywood. 

Os anos se passaram e a atriz continuou fazendo aqui ou ali um filme do gênero água com açúcar e de pouca sustança - "Comer, Rezar, Amar" (2010) e "Larry Crowne - o amor está de volta" (2011), para ficar em dois exemplos -, mas agora ela os alterna com produções dramáticas em que exibe um talento que faz com que "Erin Brockovich" não seja apenas um tiro certeiro e aleatório, mas o pontapé inicial de alguns trabalhos interessantes. 

Falo de "Álbum de Família", filme pelo qual ela recebeu uma indicação ao Oscar como atriz coadjuvante, em 2014, e até "Olhos da Justiça" (2015), um trabalho prejudicado pela ruindade generalizada desta versão pífia de "O segredo dos seus olhos" (2006). 

Não é que ela tenha virado uma diva, uma dama do teatro como Fernanda Montenegro. Mas hoje, aos 48 anos, Julia é uma atriz melhor e que me faria pagar um ingresso para vê-la (desde que não seja em filmes como "O maior amor do mundo"). 

Em "Jogo de poder", Julia é quem brilha como a diretora do programa que tem que manter o show no ar enquanto um maluco está tentando atacar o apresentador e o sistema financeiro americano por tabela. 

Em meio a todas as denúncias de Jodie Foster, é a atriz quem encarna com equilíbrio o exemplo discutível de jornalismo praticado pela emissora e até o bom jornalismo que investiga que houve algo de errado e fraudulento com o fundo de investimento citado na película. É pouco para "Jogo de poder" ser um grande filme. Mas como diversão despretensiosa de um sábado à tarde, ele pode satisfazer. "Jogo de poder", portanto, ganhará uma nota 6.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Alice está sem Tempo

Alice tenta ganhar Tempo na lábia
Doce é um perigo. Os médicos já disseram que vicia, que pode causar doenças, diabetes... Mas "Alice através do espelho" mostra que eles podem marcar definitivamente uma pessoa e mudar o curso da história. Quem diria que uma mentira aliada a um biscoitinho mal comido seria a causa daquele cabeção da Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter gritando histericamente como é próprio da rainha má)? 

A mensagem que "Alice através do espelho" nós passa é: crianças, digam a verdade sempre e não desobedeçam a suas mães, pois isso pode trazer consequências inimagináveis para o futuro de vocês. Como um cabeção... rsrs Sorry, rainha má. 

O filme de James Bobin tinha tudo para ser muito legal. O problema é que a Disney insiste em ser o Paulo Freire do planeta com as suas mensagens edificantes e positivas para a família mundial. Ok, vale a pena para educar seu filho, leve as crianças para elas aprenderem o valor da amizade, do companheirismo, da honestidade, do amor, etc e tal. Mas quando isso aparece em doses cavalares em duas horas de filme, cansa um pouco. Afinal, os grampos de Brasília nos mostram que o mundo não é tão belo assim. 

Mas o filme tem bons momentos. E todos se resumem a participação de Sacha Baron Coen no papel do Tempo, o senhor do universo, aquele que tudo controla. Sacha está divertidíssimo e o cenário envolvendo o seu mundo é dos mais divertidos. Uma bola dentro do trabalho de Bobin. 

"Alice através do espelho" começa com Alice (Mia Wasikowska) uma mulher feita, empoderada e capitã de um navio. Depois de viajar pelo mundo e comprar especiarias na China, ela volta para Londres já querendo viajar de novo. Super te entendo, Alice. Temos essa sede de sair para sempre pelo mundo. 

O problema é que as coisas mudaram um pouco e um tal de Hamish (Leo Bill) continua com sua dor de cotovelo porque Alice dispensou o casamento com ele pelo motivo óbvio de ele ser um mané. E o que ele faz para colocá-la no cabresto? Resolve quebrar as pernas de Alice comprando os 10% dela na empresa e ficando com o seu barco. 

Alice fica possessa com a postura de sua mãe na era romântica de que precisa de um marido e blá-blá-blá. Mas Alice não se faz de rogada e promete lutar. Lutar até o fim.

Só que nesse tempo ela volta para o País das Maravilhas para resolver um problema sério. O Chapeleiro Louco (Johnny Depp, cada vez mais se repetindo num wormhole) está deprimido e querendo reencontrar a família que desconfia que não morreu. Alice diz que é impossível, mas a Disney nos ensino que nada é impossível até que tenhamos tentado.

É quando Alice vai até o Tempo (e nesse momento o filme dispara todas as piadas possíveis sobre ele) para tentar consertar o passado. Mas a Disney nos dá outra lição: não se pode mudar o passado, mas aprender com ele. 

E assim será até o fim. Com Alice correndo contra o tempo (sorry) e fugindo ao lado dos seus companheiros até o desfecho da missão aos 50 minutos do segundo tempo. Não é spoiler dizer que tudo acaba bem né? 

"Alice através do espelho" tem umas boas sacadas, nos trás uma Alice interessante como mulher já adulta e dona de si, ao mesmo tempo em que nos exibe um pouco do passado de alguns personagens secundários dessa história criada por Lewis Carroll. Mas o filme não é lá dos mais ousados. Talvez nem fosse a ideia do diretor, mas era preciso tantas mensagens edificantes? Crianças podem se divertir, adultos também, mas para a corneta "Alice através do espelho" ficará no meio do caminho. Ganhará uma nota 6.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

O Apocalipse é aqui

Apocalipse: 'Vou dominar o mundo!'
Eu não vou comparar "X-Men: Apocalipse" com "Batman vs Superman" porque a goleada que a Marvel está dando na DC em 2016 já é histórica. De fazer o 7 a 1 parecer café pequeno. 

A Marvel agora (e por enquanto) só pode ser comparada com a própria Marvel. E "X-Men: Apocalipse" é um bom produto. Inferior a "Guerra Civil", sim, mas se insere no contexto dos bons filmes dos jovens mutantes que lutam para proteger a humanidade que os teme e odeia. Melhor que "X-Men 3", por exemplo, filme que me parece que recebeu uma leve zoada quando Jean Grey (Sophia “Sansa Stark” Turner) diz, ao sair de uma sessão de Star Wars no cinema, que o terceiro filme é sempre pior. 

Não é à toa que este filme tem o que apresentar. Com Bryan Singer na direção, os X-Men entram nos debates que são importantes participar. Já foi o preconceito e a aceitação da diversidade. Hoje é o poder tirânico de um Apocalipse que serve como metáfora para superpotências do mundo. E a questão filosófica: eram os deuses mutantes?

Vivido de forma teatral, quase como se saísse de uma peça inspirada na obra de Boccaccio por Oscar Isaac, Apocalipse resvala no clichê. Principalmente quanto toca a sinfonia número 7 de Beethoven. Mas como se conter em uma versão vilanesca de "Pink e o Cérebro" diante de tamanho poder acumulado por milênios? 

Apocalipse vivia no Egito antigo junto com seus quatro cavaleiros quando era conhecido como En Sabah Nur. Até que uma ação heroica de uns pobres mortais egípcios o fizeram ser mumificado involuntariamente até os anos 80 do século XX. 

Quando Apocalipse acorda não entende nada. Fala um dialeto arcaico, vê coisas estranhas como trânsito, feira e bife com palmito, tá confuso e tá doidão. Mas milênios de experiência têm que servir para alguma coisa. Logo Apocalipse se situa e se informa super bem por uma televisão. Isso soou como uma piada para mim, mas deixa pra lá.

Após passar por um intensivão do que ocorreu nos séculos em que esteve hibernando, Apocalipse decide que está tudo errado no mundo. Um áudio vazado de uma conversa dele com Magneto (Michael Fassbender) revela sua insatisfação:

- O Xavier (James McAvoy) não ganha porra nenhuma! Esquece. Nenhum pacifista dsse tradicional tem voz – disse Apocalipse.
- O Xavier, rapaz. O Xavier não tem condição, a gente sabe disso. Quem que não sabe? Quem não conhece o esquema do Xavier? Eu que participei daquela escola em Massachusetts... – respondeu Magneto.
- O Xavier será o primeiro a ser comido – garantiu Apocalipse.

Para garantir o sucesso do seu plano, nosso vilão em marcha lenta logo, logo reúne a sua nova versão boy band dos cavaleiros do Apocalipse. Junta Tempestade (Alexandra Shipp), Anjo (Bem Hardy), Psylocke (Olivia Munn, que mulher! Sempre tive um fraco pela Psylocke) e Magneto, eternamente tentando se encontrar e tateando sempre entre o lado Jedi e o lado negro da Força. Se decide, rapaz! 

E qual é o objetivo de Apocalipse? O mesmo do ratinho Cérebro: dominar o mundo. Então ele olha para o céu, faz um discurso bonito de devastação, EUA, União Soviética e China tremem nas bases e ao fundo as torcidas cantam: "Apocalipse vai te pegar! Apocalipse vai te pegar!".

Só que ele não contava que um grupo de jovens da new generation da escola para jovens superdotados do professor Xavier fosse aparecer para acabar com a festa. 

E lá estão Jean, Ciclope (Tye Sheridan), Noturno (Kid-Smith McPhee) e Mercúrio (Evan Peter) - a Jubileu (Lana Condor) foi deixada para trás -, reforçados pelos veteranos Fera (Nicholas Hoult) e Mística (Jennifer Lawrence), para provar que quando um grupo está unido e tem um plano de jogo bem definido pode derrotar um time mais forte.

As cenas de ação não são um forte deste novo X-Men #fail. Mas não podemos deixar de destacar duas: a divertida passagem do Mercúrio salvando os alunos da explosão na escola e a cena do Wolverine (Hugh Jackman) liberando toda a sua selvageria lá pelo terço final do filme. O Wolverine é sempre o que há de melhor em qualquer filme dos X-Men.

É preciso admitir que a franquia dos X-Men por vezes é confusa. Parece até a de Star Wars. Umas histórias filmadas no passado vieram depois de histórias filmadas no presente e no futuro. Enfim, uma loucura. Mas para quem viu todos os filmes recentemente ou lembra deles, dá para perceber que tudo é relativamente bem amarrado por Singer e com uma história compreensível.

Com tantas tramas ainda a serem contadas, a questão que fica é: O que vem pela frente? Mas nas mãos de Singer, os X-Men não perdem o seu rumo. Aguardemos o próximo passo. Enquanto isso, "Apocalipse" ganhará uma nota 7.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Tristemente melancólico

Viver não é fácil, Natalie
Como atriz, Natalie Portman alterna produções em blockbusters como os filmes da saga Star Wars e do super-herói Thor com produções que de alguma forma investigam a alma de seus personagens, lidam com traumas, amores, mergulham em sentimentos difusos e profundos. 

"Um beijo roubado" (2007) era uma reflexão sobre o amor, enquanto "Entre irmãos" (2009) falava do trauma pós-guerra e de como seguir em frente quando se está separado e sem qualquer perspectiva de que o marido soldado vá voltar. E se voltar, como ele voltará. Retornando um pouco no tempo, "Closer" (2004) era sobre a decadência de dois relacionamentos e questionamentos sobre eles. 

Mas o seu trabalho mais brilhante até aqui é claramente "Cisne Negro" (2010), um mergulho profundo na alma de uma bailarina obsessiva por um lugar de destaque numa companhia de dança e que para chegar lá acaba atingindo um estado de esquizofrenia com consequências irrecuperáveis. 

Não surpreende, portanto, que a atriz de 34 anos tenha escolhido este caminho mais reflexivo para dar o pontapé inicial em sua carreira de diretora. Com roteiro também escrito por ela, "De amor e trevas" é um filme tocante, melancólico, duro e profundamente sentimental que necessita mais do que a breve avaliação inicial ainda nos créditos. Sua digestão não é rápida. Não é direta. É um filme que ecoa na cabeça estimulado por sua trilha sonora e requer um controle dos instintos para melhor compreendê-lo. 

Baseado num livro do escritor Amos Oz, "De amor e trevas" conta a história da infância do próprio escritor nos anos 40 em Jerusalém. Naquela época, Israel ainda lutava por sua independência da coroa britânica e já vivia as tensões entre judeus e árabes que marcaram a infância do jovem Amos (Amir Tessler). 

As relações tensas entre os dois lados podem tornam um pequeno incidente em uma brincadeira de crianças um grande problema diplomático que as duas famílias precisam resolver. 

É nesta tensão e numa cidade solar, mas espremida entre construções de pedra de pouco luxo que o jovem Amos cresce ao lado dos pais Arieh Oz (Gilad Kahana) e Fania Oz (Natalie Portman).

Amos é um jovem sensível, observador e inteligente que acompanha com atenção os acontecimentos políticos ao mesmo tempo em que vivência a decadência de sua mãe de um estado de amor a um sentimento de profunda depressão. 

Fania é o personagem central da escrita de Amos. Ele investiga as razões para a mãe ter mergulhado naquele oceano sem volta. Especula se a rotina, o casamento e a vida comum daquela jovem criativa e cheia de sonhos do passado a devastaram por dentro de uma forma que não tem mais volta. 

"De amor e trevas" tem, portanto, três componentes que acompanham o espectador numa narrativa literária que, por vezes, pode cansá-lo, ainda que o texto seja dito com uma elegância e este seja filmado com um certo tom de solenidade por Natalie. Há o componente histórico envolvendo a política local, há a análise sobre a vida da mãe de Amos e, por fim, os efeitos que essa convivência com os pais causaram na vida daquele jovem que tornar-se-ia escritor anos depois.

Embora o pai fosse também escritor, ainda que não de sucesso, parece que a mãe exercia um aspecto lúdico maior sobre a criança com suas histórias que só no fim percebemos que nada mais eram que narrativas em parábolas de aventuras pelas quais ela daria a vida para ter vivido. Não há amor que sobreviva a monotonia. O caminho da letargia é a depressão profunda. 

Natalie tem entrada em Hollywood. Não sei se ela tentou fazer este filme com algum estúdio americano. Mas se sua escolha inicial sempre foi filmar no cinema israelense, não poderia ser uma escolha mais acertada. Os americanos são ótimos em criar entretenimento de qualidade, mas quando se trata de investigar mais profundamente a alma humana, são poucas as vezes em que eles acertaram. 

Nos EUA, Natalie poderia ficar refém dos códigos locais que talvez fizessem o seu filme escorregar na pieguice e no clichê. Em Israel, ela teve a liberdade de dar um ritmo próprio ao seu filme e não procurar sempre respostas para cada problemática. Deixar o espectador pensar sobre o destino daquela mulher e o que a levou ao seu desfecho foi a melhor decisão. E fazer o filme em hebraico tornou-o mais verossímil, pois trata-se da vida de uma jovem família israelense que vivem em Jerusalém.  

Por outro lado, Natalie talvez tenha tido um respeito excessivo pelo texto de Amos, trazendo sequências em demasia de narrativas declamadas. Mas sua mão esteve longe de ser pesada. Talvez só tenha sido solene com seus movimentos em câmera lenta e seus variados olhares perdidos. Tudo bastante contemplativo. Tudo com muita classe. Pode ser belo para alguns, irritantemente chato para outros. 

Mas o saldo final desta sua estreia em longas metragens é positivo. Que Natalie se arrisque mais nos caminhos que desejar. "De amor e trevas" vai ganhar uma nota 7.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Kung fu contemplativo

Não é fácil a vida de assassina
Quando eu estive na China fui imbuído de bons pré-conceitos esperando ver pessoas lutando kung fu nas ruas a todo momento. Minha decepção foi enorme. Só vi um porteiro de hotel lutando na rua. Deve ter sido a mesma decepção que um estrangeiro tem ao chegar no Brasil e ver que nem todo mundo samba (ou gosta de samba). Ainda bem que existem os filmes de kung fu para devolver nossos sonhos. E os chineses são especialistas em filmes de kung fu contemplativo. 

É o caso do "A assassina", novo trabalho de Hsiao-Hsien Hou (não tente falar isso em casa). O filme se passa no século VII, um tempo que o Brasil nem sonhava em existir, mas a China já era bem desenvolvida e tinha impérios baseados no comércio de ouro e seda. O que os faziam ter aquelas roupas finas de fazer qualquer Saint-Laurent invejar. Para não falar nos sapatinhos com a ponta dobrada. Muito chique e moderno para a época.

Naqueles tempos em que se amarrava cachorro com linguiça, os chineses eram especialistas em artes marciais. Entre eles havia Yinniang (Qi Shu).

Yinniang é uma jovem largada num mosteiro treinada para matar com a habilidade e o silêncio de um pássaro singrando o céu. Eu adoro as parábolas chinesas. Elas sempre envolvem a astúcia da natureza. 

Nossa assassina está entre as mais habilidosas com a espada ou a sua adaga. Briga com você com aquela displicência de quem bate um pênalti em final de campeonato com uma cavadinha. Tudo enquanto você se mata para atingir um mero soquinho nela. É uma craque. 

A moça recebe de sua monja mestra a missão de matar um político poderoso (não deem ideia...) em meio a uma crise entre o governo central e a província de Weibo. O problema é que a vítima da vez é o seu primo, por quem ela nutre um velado crush. Por isso, ela hesita, investiga, pensa que talvez não seja uma boa ideia e esse crime ia bagunçar ainda mais a política chinesa da idade da pedra... Enfim, ela busca qualquer desculpa para não enfiar a adaga no priminho.

São muitas questões para Yinniang refletir antes de pegar na faca. E muitos combates coreografados no alto de telhados (um clássico dos filmes de kung fu), mas sem a leveza de um Ang Lee em "O tigre e o dragão" (2000). Assim como também não há toda aquela estética circense. São pancadas duras alternadas por sons de passarinhos da vasta floresta chinesa. 


"A assassina" é aquele filme chinês contemplativo que não agrada a todas as massas. Entre uma luta e outra, imagens idílicas, a natureza, nuvens no céu, longos silêncios.... é praticamente um disco da Enya filmado. Não é para todos, pois seu ritmo é mais lento e diz mais com imagens do que com texto. Mas seu resultado é belo. Por isso, a corneta (ou em chinês seria colneta?) dará uma nota 8.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

O melhor filme de super-heróis

Esse povo não se entende
Dia 1º de março é um dia especial. Eu sei que ainda estamos longe, mas não podemos esquecer desta data. Isso porque neste dia será o aniversário de Zack Snyder. Quando a data chegar, em 2017, todos nós devíamos enviar um DVD de presente para Zack. O DVD de "Capitão América: Guerra Civil" para que ele reaprenda a fazer filmes de super-heróis bem feitos, com bons atores, bons roteiros e, vejam só, até bem editados! Pois "Guerra Civil" não é nada parecido com aquela aberração chamada "Batman vs Superman". Zack, a Corneta não esquecerá de você.

O que dizer sobre Guerra Civil? Para resumir é um filme simplesmente MA-RA-VI-LHO-SO. Tem ação, tem drama, tem bom humor (a participação do Homem-Aranha é impagável), tem um novo personagem maneiro (desde já estou ansioso pelo filme do Pantera Negra), tem um excelente vilão (O que Daniel Brühl fez pelo Barão Zemo deve ter feito o Jesse Eisenberg sentar no meio fio e chorar lágrimas de esguicho pelo seu patético Lex Luthor) e tem uma história, amigos, pois sem uma história não há efeito especial e piadinhas que deem jeito.

Embora tenha o nome do Oh Captain, My Captain América no título, "Guerra Civil" nada mais é do que um novo filme dos Vingadores. Nele, os novos Vingadores - Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen), Falcão (Anthony Mackie), Viúva Negra (Scarlett Maravilhosa Casa Comigo Johansson) e o Capitão América (Chris Evans) - estão numa ação perto do reino de Wakanda, na África, para impedir um camarada qualquer de fazer besteira e explodir o mundo. Só que a missão dá muito errada e o planeta começa a questionar a independência dos Vingadores de agir por aí sem um chefe, um comando de alguma organização como a ONU, por exemplo.

Afinal, lembremos que ao salvar o mundo os Vingadores destruíram Nova York, Washington e Segóvia. Ou seja, a moral deles com muitos líderes do planeta não está alta.

Eis que surge o Tratado de Segóvia, um documento assinado por 117 países afirmando que os Vingadores só podem agir sob ordem das Nações Unidas. Como o mundo tem 200 nações, eu fiquei curioso para saber quem não assinou e qual a posição do Brasil nessa disputa. Mas continuemos.

O tratado deve ser assinado por todos os heróis. É aí que surge o problema. O Homem de Ferro (Robert Downey Jr) acha que esse IMPEACHMENT do poder dos Vingadores é a melhor opção para todos. Assina o contrato, trabalha com o futuro governo, negocia cargos, indica futuros ministros, adianta que o Henrique Meirelles vai cuidar da Fazenda...

Por trás disso tudo, ele sente uma culpa pela morte de inocentes. Principalmente um garoto brilhante que a gente nem viu morrer em "Vingadores 2".

Só que o Capitão América não concorda com isso não. Ele vira para as nações do mundo e diz: "Isso é GOLPE! Eu não vou assinar nada!". E argumenta que os Vingadores não podem ficar à mercê dos políticos, pois eles poderiam fazê-los trabalhar em missões nada republicanas se colocarem os heróis nas rédeas curtas, mas bem maleáveis da lei.

Capitão América é aquariano, gente, ele precisa de liberdade. Afinal, ele é o Sentinela da Liberdade. Por isso, o Capitão se recusa a assinar e vai lutar até o fim pela verdade e pelo que é certo. Sim, às vezes é irritante como o Capitão América é perfeito e um exemplo para o mundo. Mas eu queria ser como ele.

Por trás disso tudo, porém, tem um debate ético sobre os limites do poder e quem deve controlá-los, que leis devem regê-los e qual a melhor forma de usar estes "poderes" para o bem da coletividade. Afinal, grandes poderes trazem grandes responsabilidades. Quem está pronto para assumi-las?

Chega de chatice filosófico-sociológica. Voltemos ao foco. No meio disso tudo, o rei de Wakanda morre num atentado em Viena e todos acham que é culpa do Soldado Invernal (Sebastian Stan). Afinal, ele sempre fica desequilibrado quando ouve aquela combinação de palavras do tipo "Saudade", "Tapioca", "Meu benzinho", "contra filé com palmito".

Está tudo confuso, está tudo uma zona. O Pantera Negra (Chadwick Boseman) e sua armadura de vibranium (que máximo!), quer vingança, o Capitão quer a verdade (sempre um escoteiro), o Homem de Ferro quer que a lei seja seguida e estatizar os Vingadores, e o Visão (Paul Bettany), bem o Visão não está conseguindo raciocinar direito porque começa a sentir uma coisa que androides supostamente não conseguem: amor. Eu percebi, meu caro. Esse negócio de fazer a comida favorita da garota é mais velho que andar pra frente. Mas acho que a Feiticeira não se tocou ainda.

E quando a voz da razão está pifando, a única coisa que se pode fazer é lutar. Tal qual um Axl Rose, o Capitão América ainda chega para o Homem de Ferro e diz: "I don't need your civil war". Mas não tem jeito.

É quando os heróis se dividem em dois grupos. No canto direito, pesando 150kg e vestindo uma armadura maneira está o Homem de Ferro e seus amigos Viúva Negra, Máquina de Combate (Don Cheadle), Homem-Aranha (Tom Holland), Pantera Negra e Visão. No canto esquerdo, pesando 100kg e o escudo que todos nós queríamos ter está o Capitão América, o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), Homem-Formiga (Paul Rudd), Falcão, Soldado Invernal e Feiticeira Escarlate.

O ringue é um aeroporto em Berlim e nele temos várias sequências de ação excelentes. Aliás, "Guerra Civil" tem várias cenas de briga muito bem feitas e divertidas. Obrigado, Anthony e Joe Russo. Vocês já tinham feito um excelente trabalho em "Capitão América 2: o soldado invernal" (2014) e fico feliz em saber que vocês tomaram as rédeas dos próximos filmes dos Vingadores, "Guerra Infinita". Vocês são os irmãos Coen dos quadrinhos.

O comitê da corneta não tem o que criticar em "Guerra Civil". Não sem ser um chato, pedante e cri-cri. Por isso, cometerá um crime pela segunda vez em sua história. "Capitão América: Guerra Civil" vai ganhar uma nota 10. Chora, Zack Snyder.


terça-feira, 19 de abril de 2016

O analista econômico

Não estava fácil a vida naquele fim de tarde no Hell de Janeiro. Algo dera um enorme nó no trânsito e os ânimos ficaram exaltados com a imobilidade na velha cidade supostamente maravilhosa.

Rumores diziam que um acidente no bairro do Coisa-Ruim era o responsável pelo caos na South Zone. Ninguém confirmava. Nem negava.

Em meio ao caos estático, o intrépido Troncal 10, NOTA 10, singrava as ruas do bairro de PutFire. Ali, em um ponto qualquer, entrou um passageiro bufando como uma panela de pressão velha.

- Hoje está tudo PA-RA-DO - afirmava o cidadão fazendo pausas dramáticas e enfáticas, tal qual um Gil Gomes contemporâneo, aquele antigo repórter do "Aqui Agora".

Trajando uma camisa polo cinza, óculos escuros, o suor escorrendo pelo rosto e a pança saliente revelando o gosto pela sagrada cervejinha de cada dia, o homem bufava e seguia a sua sociologia particular versada em frases que caberiam num tweet.

- DE-MEN-TE. É a causa do engarrafamento. O DE-MEN-TE da fila DU-PLAAAAA - repetia o nosso Gil Gomes.

O homem era monossilábico e autossuficiente. Não precisava de ninguém para debater. Falava alto para o Brasil ouvir. Mas nunca em nome de Deus ou da família.

- Bairro-chave do EN-GAR-RA-FA-MEN-TOOOO. Bairro-chave do EN-GAR-RA-FA-MEN-TOOOO. O DE-MEN-TE da fila DU-PLAAA.

Os brados começaram a chamar a atenção dos passageiros do ônibus. A jovem de olhos verdes logo o fitou e trocou olhares com o rapaz ao lado. "Que louco", ela deve ter pensado.

Mas o homem não ligava para nada. Nem as impressões olfativas escapavam do seu julgamento.

- Que fedor. Lixo e PA-LÁ-CI-OOOOO. Qual o valor... da MAIS VALIAAAA?

O intrépido Troncal 10, NOTA 10, era um dos ônibus mais xexelentos do Hell de Janeiro. Dentro dele, humanos e baratas conviviam em harmonia involuntária. Sujo, desconfortável e caindo aos pedaços, o Troncal 10, NOTA 10, poderia desmontar a qualquer momento. Enquanto isso não acontecia, ele recebia todo tipo de passageiro.

Era o caso do homem com pinta de policial aposentado que não parava de fazer julgamentos aleatórios.

- TE-LE-FÉ-RI-COOOO. Mais vale do que mil casas - dizia, patinando no S. - TE-LE-FÉ-RI-COOOO. Qual o valor... do voto? Qual o valor... da MAIS VALIAAAA?

O show, porém, estava acabando. Pfff, pffff, bufava o homem quando levantou sob olhares curiosos. Deu o sinal e saltou quase em frente a Lady Martha Community.

- Hospedagem na FA-VE-LAAAAA.

Foi o seu último pronunciamento antes de seguir o seu destino.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Existe filme ruim com Darín?

Cámara e Darín, um show à parte
Está previsto na Convenção de Genebra. Todo filme com Ricardo Darín nos créditos deve ser visto. Afinal, você conhece algum filme com o ator argentino que seja ruim? Ok, tem "Amorosa Soledad" (2008), mas nesse filme a participação dele dura 15 segundos. Se você é daqueles que tiram cochilo em algum ponto da película pode até perder sua única cena. 

Como eu dizia neste exercício de lógica cinematográfica, todo filme com Ricardo Darín é bom. Logo, "Truman" é bom. 

Dirigido por Cesc Gay, a película conta a história de um ator argentino famoso na Espanha que desiste de continuar o tratamento contra um câncer no pulmão porque a sua morte é inevitável. Logo, ela pretende terminar a vida com alguma dignidade. 

Antes disso, porém, Julián precisa cuidar de alguns trâmites legais. Preparar o enterro e como ele será (enterro tradicional ou cremação?), se despedir do filho que estuda na Holanda e, a sua grande preocupação, arrumar um novo dono para Truman, o seu cachorro. 

Enquanto tudo isso se desenrola, ele recebe a visita de Tomás (Javier Cámara, excelente também), um amigo do peito, irmão camarada a quem ele explora financeiramente durante todo o filme. Pobre Tomás, bancou quatro dias de "Curtindo a vida adoidado" para Julián e pagando em euro. Ele deve ganhar bem no Canadá. 

Pensando bem, que indivíduo não faria isso para o seu melhor amigo? Não olhem para mim, eu sou jornalista e nem ganho em euro ou dólar. 

"Truman" poderia ser bem melancólico, afinal trata-se de um filme que fala sobre a morte e de um homem que decide abertamente por uma espécie de eutanásia quando está totalmente consciente e até bastante saudável na medida do possível. Mas o que o roteiro de Tomas Aragay e Cesc Gay nos exibe é uma série de sequências de bom humor, algumas cenas de humor negro, e um equilíbrio entre o difícil momento de lidar com a morte, as inevitáveis reminiscências do passado e um trabalho de aceitar o que virá pela frente. 

Se Julián está resignado com seu destino e tenta lidar bem com isso, seus amigos Tomás e Paula (Dolores Fonzi), precisam aceitar o desejo dele. Não é fácil, nunca é, mas Gay consegue construir a trama com delicadeza e refinamento para uma história difícil de entreter. 

As risadas no cinema mesmo diante de situações duras, as excelentes tiradas de um Darín com aquela cara de cachorro morto no fim da linha e cercadas de ironia e o próprio olhar cúmplice do amigo que sofre por dentro, mas aceita o destino traçado por Julián, são o ponto alto de um filme que mesmo quando se coloca em situações difíceis na história, consegue se sair bem. 

Gay apresenta em "Truman" um humor refinado e sarcástico digno de um bom Woody Allen. E não deixa espaço para o dragão Piegas agir. Seu trabalho diverte, entretém e, por isso, ganhará uma nota 7,5.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Não é 'A grande beleza'

Que visão!
O grande perigo de você fazer um filme incrivelmente belo nos mais diferentes pontos de vista estéticos, é desejar repetir essa fórmula de sucesso que, por vezes, ou eu diria muito provavelmente, soará pálida em comparação com a obra que tangencia a perfeição.

"A grande beleza", o lindo filme de Paolo Sorrentino, mostrava Roma em seus melhores ângulos - e você pode imaginar o quanto isso pode ser deslumbrante - enquanto fazia uma reflexão ensaística sobre o que é belo e o quão fútil ou não uma vida pode ser. 

O resultado foi um estrondoso acerto de roteiro, direção e trabalho dos atores premiado com o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2014. 

"A Juventude", o novo trabalho do diretor italiano, tenta ir no mesmo caminho de "A grande beleza", mas escorrega na tentativa de mimetizar um filme que alia competência a uma confluência cósmica de acertos que só encontra paralelos em explicações divinas. Para um diretor napolitano, oriundo de um país que é a sede da Igreja Católica, não soa como heresia esta evocação divina. 

É uma pena que nem sempre estes acertos se repetem. "A Juventude" pende para a caricatura na comparação com "A grande beleza" e não satisfaz plenamente mesmo quando descolamos o trabalho de qualquer passado de Sorrentino. 

Sim, o filme é belo. O cenário agora é um hotel-spa na Suíça que é a definição do conforto. Conforto inclusive para os olhos de quem vê a película com as paisagens típicas de um verão naquele país europeu. Campos verdes e cheios de flores, vaquinhas leiteiras, os Alpes ao fundo com neve eterna nos picos, a sensação eterna de tranquilidade e paz. O lugar ideal para o descanso de dois artistas ou para o desenvolvimento de um trabalho que exige a reflexão. 

É lá que se encontram o maestro Fred Ballinger (Michael Cane, tocante), e o diretor de cinema Mick Boyle (Harvey Keytel). Dois veteranos amigos que vivem momentos distintos de suas vidas. Um praticamente desistiu dela desde a morte da esposa e enfrenta problemas de relacionamento com a filha, Lena (Rachel Weisz). O outro está numa efervescência criativa e empolgado em trabalhar com jovens roteiristas para finalizar aquele que seria o seu filme-testamento. 

Música e cinema se aliam numa reflexão sobre a passagem do tempo, as fraturas acusadas por ele e o tempo que foi aproveitado ou desperdiçado numa existência que é única mesmo para os que acreditam em uma eventual volta. 

Enquanto Bellinger e Boyle vivem a amizade em que se eximem de contar frustrações um para o outro, o hotel paradoxalmente exibe uma coleção de hóspedes que passam, de certa forma, recados sobre a passagem do tempo. Isso vai do casal que não se fala, mas se entende, passa pelo personagem caricatural de Maradona, um ex-jogador genial que hoje se encontra obeso e decadente, e chega até ao monge budista que controla o tempo e espaço dentro de sua meditação. É senhor do seu tempo. 

Nas duas horas de filme, Ballinger e Boyle vão revelando desejos e frustrações. E nisso ganham a companhia de um ator que fez muito sucesso em um filme de ação e agora luta para ser reconhecido como artista pleno num filme de arte em que ele viverá Hitler. Trata-se de Jimmy Tree (Paul Dano). 

Não faltam reflexões também sobre o próprio cinema e a sua importância atual em comparação com a produção televisiva. Discussão bastante atual, pois há mais de uma década as séries de TV têm ocupado o lugar da arte e da vanguarda que já foi do cinema, hoje mais afeito a blockbusters e franquias que garantam um bom faturamento. Por mais que o circuito de arte sempre vá ter o seu espaço. 

"A Juventude", porém, não atinge plenamente o seu objetivo. Michael Caine e Keytel estão bem, mas o filme careceu de um roteiro que desenvolvesse melhor as questões abordadas. Paralelo a isso, há um excesso de cenas desnecessárias, que desviam do foco proposto. E pareceu um equívoco a tentativa de dar leveza ao filme (com o perdão do paradoxo) ao colocar um Maradona fake apenas pela piada (ou um capricho do diretor que, como eu disse acima, é de Nápoles, onde Maradona é rei). 


Entre o idílico das paisagens suíças e dos belos corpos de mulheres igualmente filmadas como presentes divinos, Sorrentino fica no meio do caminho no objetivo de buscar um novo "A grande beleza". Faltou a "A Juventude" estofo, camadas e melhor desenvolvimento de ideias. Sobrou beleza e um final impactante. Por isso, o filme receberá um 6,5 da corneta.