terça-feira, 10 de outubro de 2017

O novo Blade Runner

Tá meio vazio aqui, né
Retomar histórias de sucesso do passado ou que tornaram-se cult são sempre um desafio. Mas se a arte contemporânea caracteriza-se muito pela reciclagem, o pastiche, o meme e as citações, o cinema não iria atuar na contramão dessa história. Por isso, as salas vêm sendo enxurradas de franquias de dinheiro fácil ou histórias que apelem para uma memória afetiva do espectador. O recente filme do “Pica-Pau” é uma clara estratégia de reciclar o personagem querido dos desenhos animados num filme que combina animação com atores de carne e osso. “Blade Runner 2049” é a aposta do momento.

Dirigido por Ridley Scott, o filme de 1982, contava a história do policial Rick Deckard (Harrison Ford), um caçador de replicantes que haviam escapado da fábrica Tyrell e precisavam ser eliminados. Neste futuro distópico imaginado pelo conto do escritor Phillip K. Dick, eram discutidos temas como a humanidade e o direito das máquinas de viverem como se humanos fossem, já que elas haviam evoluído de tal forma a terem sentimentos, ou a emularem sentimentos. Enquanto os replicantes viviam à margem da sociedade, Deckard encontrava-se num dilema ao ver-se apaixonado por Rachel (Sean Young), uma evolução criada pela Tyrell. Uma máquina quase humana.

“Blade Runner” passava-se no início do século XXI e a sociedade que vivemos é bastante diferente da versão futurista retratada por Scott. A nova versão dá um salto de 40 anos na história e imagina uma sociedade ainda mais isolada, vazia e pessimista. As novas versões dos Nexos são ainda mais realistas e os próprios Blade Runners são versões criadas e não seres humanos nascidos para caçarem as máquinas.

No mundo imaginado pelo diretor canadense Denis Villeneuve, os lugares são monocromáticos, a sensação de vazio é enorme e um isolamento depressivo grita na tela ao mesmo tempo em que os cenários são magníficos. É nele que vive K (Ryan Gosling), um Blade Runner que recebe uma missão de matar uma série de replicantes antes que a existência deles seja exposta para a sociedade.

Mas se a tenente Joshi (Robin Wright) quer encobrir o segredo da existência de uma replicante grávida, Niander Wallace (Jared Leto, que vai se notabilizando por personagens esquisitos tal qual um neo-Johnny Depp), o dono das empresas que assumiram o espólio da Tyrell, quer obter toda a informação possível desta evolução natural para trabalhar em cima dela numa geração ainda mais evoluída.

K, porém, tem seus próprios planos. Ele mesmo quer saber o quanto tem de humanidade e o quanto de sua memória não passa de implante. Concentra-se em K toda a questão do filme que reflete sobre o que poderíamos definir como o direito dos replicantes à vida e à humanidade.

“Blade Runner 2049” tem um profundo respeito pela obra original e dialoga maravilhosamente bem com o primeiro filme realizado há 35 anos. A forma como são inseridas as referências ao trabalho de 82 saem perfeitamente e a participação de Harrison Ford retomando o papel de Deckard é a cereja no bolo de um filme que funciona muito bem do início ao fim e tem uma beleza que vai da cinematografia à trilha sonora.


Cotação da corneta: Nota 9.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Lisboa facts - semana 2

Uma bela ruas de Lisboa/Marcelo Alves
Duas semanas em Portugal e o semanário da Corneta lusitana tem mais uma série de informações irrelevantes para compartilhar com seus 17 leitores. 

1- Finalmente eu passei pela experiência de ir ao cinema em Lisboa. E descobri que é mais difícil ler legenda de filme em português de Portugal do que ler texto acadêmico na mesma língua. Alguma expressões são ininteligíveis para mim. Por sorte, era um filme americano e aquele passado distante na Cultura Inglesa me salvou. Mas imagina quando eu quiser ver um filme iraniano? 

2- Contudo, nada no cinema português é mais bizarro do que ter intervalo no filme. Intervalo! E é tão curto que mal dá para ir ao banheiro. Também é desnecessário acender as luzes cinco segundos antes do filme acabar. 

3- By the way, "Bade Runner 2049" é maravilhoso. Denis Villeneuve é um puta cineasta. Que belíssimo filme. 

4- No início, eu vi uma pessoa. Depois foram duas. Em seguida, três. Quando eu cheguei a umas 25 pessoas diferentes acho que já posso configurar como tendência na irresponsabilidade que é escrever no Facebook posts com nenhum compromisso com a veracidade dos fatos. Então, como o português curte esse lance de jeans com o joelho rasgado no que chamarei de "raladinho style". Se eu faço isso, o meu joelho congela no inverno. 

5- Por falar em estilo, esbarrei na semana de moda de Lisboa. Entrei meio sem querer no meio daqueles fashionistas e senti a pressão quando um cara me pediu para eu fazer uma foto num grupo que tinha uma suposta modelo. Pelo menos ela fazia carão para a foto. Imagina o meu medo dessa foto dar errado.

6- A língua até aqui não tem sido um grande problema (menos no cinema). Mas aquele à onde brasileiro fala Á e aquele Ó onde brasileiro fala Ô ainda gera interrogações. Aprende, Marcelo, é COMBÓIO e não comboio. É ADUREI ao invés de adorei. E outro dia que quando eu precisei tirar uma xerox e um senhor me disse para ir na Casa das Bandeiras e eu entendi Casa das Madeiras? 😂😂

7- Um jornal aqui disse que o atacante Gabigol podia voltar ao Brasil poucos meses depois de chegar ao Benfica. O motivo? Ele não estaria adaptado a Lisboa. Amigo, eu como arroz de pato no bandejão da faculdade a 2,65 merkels. Imagina você que tem dinheiro e pode gastar inacreditáveis 13 merkels por um prato de bacalhau todo dia. Se não se adaptar a Lisboa, vai se adaptar a onde?

8- Eu aprendi nesta semana que o lisboeta é conhecido como ALFACINHA. Mas não é porque ele é verde, sem graça e coadjuvante em qualquer salada. Tem um componente histórico aí. Vamos a ele. 

9- A etimologia remonta ao século XIX por conta de uma citação do escritor Almeida Garret em "Viagens na minha Terra", mas reza a lenda que a história é mais antiga e vem do hábito de os lisboetas comerem muita alface (o que é uma verdade. A única coisa que eu comi sem alface aqui foi sorvete). As más línguas, porém, dizem que se deve ao hábito que os lisboetas tinham no passado distante de não se movimentarem muito, não saírem de casa, não irem para a night. Parece que eles eram meio paradões e só saíam para ir para a missa. Mas há quem também tenha o argumento militar. Durante a ocupação dos mouros entre 711 e 714, a alface teria sido o único alimento disponível aos habitantes da capital. Difícil acreditar nisso, mas imagina você passar três anos só comendo alface? Aposto que foi a fase mais fit de Lisboa. 

10- E como eu fui buscar toda essa história vegana? Acredite se quiser: tudo graças a Madonna. É porque estava no lide de um jornal local que a minha vizinha um pouco mais famosa não demoraria a virar alfacinha, pois estava perto de conseguir o atestado de residência e o visto de permanência no país. Madonna, inclusive, teve uma audiência com a Ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Souza, para agilizar a sua autorização. Quem pode, pode né. Eu preciso muito virar amigo da Madonna para também ter acesso a essas facilidades. 

11- Por falar em comida (alface não tem muita graça, mas é comida), Lisboa tem o nome de supermercado mais fofo do universo. Chama-se Pingo Doce. É tão maravilhoso esse nome, que só pode ser um marketing de guerrilha para fazer você consumir mais. "Vou no Pingo Doce. Ahhhhh, esse nome! Compra uma barra de chocolate!". 

12- Pequenas decepções. O kit kat aqui não é tão maravilhoso quanto em outros lugares. É uma versão com mais leite e mais cacau e não tem o mesmo sabor. Falta algo. Mas diante disso, a gente aceita o que tem. Tem também um salame de chocolate que tinha a maior pinta de versão local da palha italiana. É gostosinho, mas não tem a mesma qualidade da palha italiana. Pelo visto, terei que ir até a Itália, onde o doce deve se chamar apenas palha. 

13- Em compensação, o Milka de Óreo.... Jesus and Mary Chain! Vicia mais que droga pesada. 

14- Portugal, vocês sabem, é um país católico. Diante disso, seus doces têm uma pegada e, muitas vezes, sabor divinos. Tem queijinho de Deus, tem toucinho do céu, tem pão de Deus. Tudo tentação para te transformar num gordo dos diabos. 

15- É giro. Essa gíria é mara. Até a minha professora de "Estética dos Media", que é toda classuda e parece uma lady, e dá aulas que são verdadeiras odes a Immanuel Kant, não resistiu e falou que um texto de Baudelaire era giro. Só faltou dizer que Baudelaire era maneiro.

16- Por falar nas aulas, é incrível como os professores aqui falam num tom quase joãogilbertiano. Ninguém fala alto. O aluno que fique em silêncio e preste atenção. Nenhum professor em Portugal deve ter problemas nas cordas vocais. 

17- Estou preocupado com a brasileirização de Lisboa. Eu já vi tapioca e pipoca sendo vendidas no metrô, já vi brigadeiro... Só falta coxinha e cajuzinho. Aí será o caos. 

18- Nas livrarias, a literatura estrangeira é chamada de literatura traduzida. Acho uma expressão mais simpática e acolhedora. 

19- Continua calor. Graças aos deuses. Que fique assim para sempre. #Medodoinverno,#Thewinteriscoming.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Lisboa facts - Semana 1

O por do sol no Rio Tejo
Uma semana de aventura em Lisboa. O suficiente para acumular uma série de informações malemolentes e de pouca ou nenhuma relevância.
1- Para começo de conversa é uma cidade estranha. Tem um monte de pastelaria, mas nenhuma vende pastel e caldo de cana. Só bolinho de bacalhau e empadinha doce.
2- Mas quem liga para estes detalhes quando você sabe a hora que o trem e o metrô vão passar e eles realmente passam? Isso gera uma economia de tempo de chorar de emoção.
3- Por falar nisso, já são sete dias sem engarrafamento.
4- Lisboa, vocês sabem, é a Série B da Europa. Ou seja, é uma cidade cheia de pombos. Infelizmente ainda não consegui evoluir para o momento chique e phyno de morar numa cidade cheia de CORVOS. Um dia, quem sabe.
5- Dom Pedro I tem uma estátua imponente de 27,5 metros de altura, mas não tem muita moral. Aqui, ele sofreu tantos rebaixamentos quanto o Vasco e é Dom Pedro IV.
6- Eu descobri, inclusive, que o Dom Pedro I original, the one and only, viveu no século XIV e era cruel, mau feito pica-pau mesmo. Tinha uma amante galega chamada Inês que foi assassinada a mando do pai, Dom Afonso IV, "O Bravo". E o que ele fez em retaliação? Entrou em guerra contra o próprio pai, saqueando e queimando a região de Entre-Douro-e-Minho, e só parou quando Afonso entregou o poder para Pedro. E ainda organizou um mega banquete para si mesmo em que, enquanto comia, assistia aos assassinos da amante contratados pelo pai tendo os seus corações arrancados pelo peito de forma brutal. Isso é digno dos piores castigos vikings. Pedro também puniu com pena de morte a prática de advocacia, afinal, ele era a lei, e, last, but not least, exumou o corpo da amante para coroá-la rainha obrigando todos os nobres de Portugal a beijarem as mãos do cadáver no processo de coroação pós-vida. Era isso ou o nobre ia para a vala. Ou seja, Pedro I era uma espécie de Ramsay Bolton português.
7- Não é à toa, portanto, que Pedro I tinha as seguintes alcunhas: "O Cruel", "O Justiceiro", "O Vingativo", "O Tartamudo", "O até o fim do mundo apaixonado".
8- Mas apesar de seus pequenos acessos de fúria, Pedro I, era muito bem quisto pelo povo, pois ajudou os mais pobres e trouxe desenvolvimento econômico e paz. Também né? Quem iria desafiá-lo? O rei também gostava de se misturar ao povão nos festejos, onde cantava e dançava. Ou seja, quando não era o cão chupando manga, era um fanfarrão. Como prêmio, Pedro I ganhou uma estátua em Cascais de frente para o mar.
9- A água do Oceano Atlântico é de congelar os ossos mesmo. Negócio de praia é inviável aqui. Só o Night King consegue frequentar de boa.
10- Você sabe que o Brasil é filho de Portugal quando começa a lidar com as burocracias locais. É um tal de precisar de um documento para tirar outro documento, mas só conseguir tirar um documento depois de tirar o primeiro documento.... maior cachorro correndo atrás do rabo o tempo todo.
11- Você também sabe que o Brasil é filho de Portugal ao ver que as pessoas, tal qual no Rio, não te esperam sair de um vagão do metrô para poderem entrar. Elas gostam de tudo ao mesmo tempo. Pelo menos ainda não vi aquela correria feito estouro da boiada que eu via quando pegava o metrô em BotaSoho.
12- Jonas parece que é ídolo mesmo do Benfica. Sempre aparece nos merchans do metrô.
13- O desafio em Lisboa é evitar o vicio no pastel de nata. Por enquanto, estou perdendo essa batalha.
14- Você sai do Brasil, mas fica difícil o Brasil sair de você quando você anda pela cidade e vê Rua Augusta, Avenida da Liberdade, Marquês de Pombal e uma região chamada Caxias. E que tem praia.
15- Ainda não comi bacalhau. Falha grave que precisa ser corrigida.
16- E o mestrado? Puro desespero. Só de leitura obrigatória são 2,5 mil páginas em três meses. Bom, ninguém disse que ia ser fácil.
17- Graças aos deuses ainda está calor. Mas... the winter is coming. #Medo
18- Trilha sonora da semana: "Advice for the young at heart" (Tears for Fears) 

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Ranking Corneta do Rock in Rio

Encerrada a maratona no Rock in Hell, vamos à classificação final do campeonato da Corneta:
1- The Who
2- Tears for Fears
3- Alice Cooper e Arthur Brown 
4- Baiana System e Titica

Os quatro shows acima estão classificados para a Libertadores
5- Ceelo Green e Iza
6- Aerosmith
7- Grande encontro (Elba Ramalho, Alceu Valença e Geraldo Azevedo)
8- Def Leppard
9- Guns N'Roses
10- Incubus

Os seis shows acima garantiram vaga na Sul-Americana
11- Titãs
12- Bon Jovi
13-Tyler Bryant e The Shakedown
14- Scalene
15- Cidade Negra canta Gilberto Gil
16- Alter Bridge
17- The Kills

Os shows abaixo foram rebaixadas para a segunda divisão
18- Bomba Stereo e Karol Conka
19- Fall out Boy
20- Ney Matogrosso e Nação Zumbi
21- Jota Quest

Até 2019. E lembrem: Corneta é vida.

Crítica do show do Guns N'Roses

Guns N'Roses/Divulgação
Crítica originalmente publicada no site Rock on Board - http://www.rockonboard.com.br/2017/09/rock-in-rio-2017-no-melhor-jeito-de.html

Depois do dia 2 de outubro de 2011, Axl Rose parecia fadado a nunca mais pisar num palco do Rock In Rio. Mais do que um show abaixo da crítica, as horas de atraso do cantor para se apresentar na chuvosa noite de encerramento do festival irritaram tanto Roberto Medina que o empresário idealizador do Rock in Rio chegou a declarar que Axl era uma figura riscada do seu restrito caderninho de headliners. E a troca pública de farpas, com a banda respondendo às críticas, só colocaram mais lenha na fogueira. 

Mas se Axl se reconciliou com seus ex-companheiros Slash e Duff McKeagan, por que não faria o mesmo com Medina? Ajudou muito também a campanha dos fãs, que ainda em êxtase pelas seis apresentações do grupo no Brasil com sua formação quase toda clássica,  iniciaram uma campanha para ver a banda no festival. Medina vislumbrou a oportunidade, disse que as diferenças estavam superadas e lá estava Axl Rose no palco com seus velhos "parças" para fechar mais uma noite do Rock in Rio. A quarta da história da banda. 


Talvez como se estivesse em dívida com o público do Rock in Rio, Axl se viu na obrigação de começar na hora (o que aconteceu) e fazer um show épico. Bom, no que diz respeito a sua duração não há dúvida quanto a isso. Foram 32 músicas em quase 3h30min de espetáculo que avançou até depois das 4h da madrugada de domingo. 

Muitos não conseguiram chegar até o fim. Pelo contrário, pode-se dizer que o público foi se dispersando aos poucos. A primeira leva grande foi embora depois de "Sweet Child O'Mine". Outra foi após "November Rain" e um terceiro grupo saiu ao fim de "Nightrain". Natural. Axl impôs um tour de force que para muitos é muito cansativo após um dia inteiro de shows. Mas quem não arredou o pé encontrou fôlego para cantar "Paradise City" no encerramento do show. 



Quanto a qualidade do espetáculo, porém, o Guns voltou a se ver refém do seu calcanhar de Aquiles do momento: a qualidade vocal reticente de seu líder. É inegável que a voz de Axl nunca mais foi a mesma dos discos 'Appetite for Destruction' (1987), 'Use your Illusion I e II' (ambos de 1991). Naquela época, o Guns era dono do mundo e Axl uma estrela incontestável. Dos últimos tempos para cá, quando a banda veio várias vezes ao Brasil, sempre se alternou momentos em que Axl cantava bem ou até de uma forma aceitável com outras que ele ia mal. E essa foi a diferença para o show de novembro do ano passado, que também fazia parte da atual turnê "Not in this lifetime". No Engenhão, Axl parecia em melhor forma. Na Cidade do Rock, ele viveu o seu dia "hoje não" com a voz. 

E esse problema ficou ainda mais evidenciado porque minutos antes havia se apresentado no Palco Mundo um impecável Roger Daltrey no alto dos seus 73 anos. A comparação com o vocalista do The Who seria inevitável nestas circunstâncias. Ainda que ambos cantem estilos diferentes no rock. De certa forma, parece que o Guns vive uma sina de ser ofuscado quase sempre quando toca no Rock in Rio. Em 1991, o Faith no More roubou a cena. Em 2011, o System of a Down superou e muito o Guns e agora o The Who fez um dos melhores shows do festival enquanto o Guns apenas não foi tão incrível quanto se esperava. 


Mas é claro que a apresentação do Guns teve vários pontos altos. Muitos deles graças a Slash. Coube ao guitarrista segurar as pontas com seus solos, seu carisma nato e sua competência. Slash é, muitas vezes, a alma dessa banda.

O repertório que o público viu no Rock in Rio não foi muito diferente do que foi visto no Engenhão há menos de um ano. O Guns tocou todos os sucessos possíveis da carreira e insistiu nas dispensáveis canções do controverso 'Chinese Democracy', o álbum que demorou 14 anos para ser lançado e ainda resultou num produto ruim. 

As diferenças ficaram por conta da inclusão de dois covers: "Black Hole Sun", do Soundgarden, homenagem ao recentemente falecido Chris Cornell, que vinha sendo incluída nos shows da turnê, e "Wichita Line Man", de Jimmy Webb. Além de "Patience". "Out ta get me" foi retirada do set. 

O saldo final para o fã do Guns, no entanto, foi muito positivo. Ele ouviu tudo o que queria. Principalmente os que resistiram heroicamente até o fim do show madrugada adentro.

domingo, 24 de setembro de 2017

Rock in Hell - terceiro dia

The Who, melhor show do festival/Marcelo Alves
Último dia de Rock in Hell para a Corneta. Os últimos comentários. Depois disso, só em 2019.
Cidade Negra canta Gilberto Gil e convida Digital Dubs e Maestro Spock - Nada contra o Cidade Negra, mas qual o fundamento de colocar a banda fazendo um show de covers do Gilberto Gil que incluiu um cover do Gilberto Gil de uma música do Bob Marley? Ou seja, teve até cover do cover! Aí depois entrou o maestro Spock "Vida longa e próspera" para fazer cover do Gil. Depois veio o Digitaldubs e logo o palco estava superlotado de gente fazendo cover do Gil. Só faltou mesmo o próprio Gil fazendo cover de si mesmo. Pior é que tudo parecia ter aquela batida cadenciada e sonolenta do reggae. Convenhamos, reggae é chato demais. Para suportar até o fim tive que comprar um sorvete de doce de leite. Mas apesar da minha má vontade, foi um show que não comprometeu. Funcionou melhor que Ney Matogrosso e Nação Zumbi, por exemplo. Bom, mas isso não chega a ser uma grande vantagem.
Bomba Stereo convida Karol Conka - Não sou suficientemente evoluído para estar no Brasil e curtir cumbia psicodélica. Por mais que seja uma cumbia psicodélica engajada, como a Liliana Saumet gosta de pontuar em algumas músicas. Se bem que acho que nem se estivesse em Bogotá eu ia gostar de cumbia. E a coisa não melhorou com a Karol Conka, pois aí juntou a cumbia psicodélica com o que ela cantava e realmente eu não consegui atingir o nirvana necessário para admirar esse show.
Titãs - Adriana Calcanhotto podia fazer uma extensão na letra de "Fico assim sem você" e escrever "Buchecha sem Claudinho/Titãs sem Paulo Miklos/sou eu, assim sem você. Não tinha Arnaldo Antunes/nem o Mala Reis/e agora/não tem nem você. Como é possível viver assim?/Uma banda sem testosterona/E olho pro palco/Vejo Sérgio Britto/Cadê/O Charles Gavin?
Miklos faz muita falta. E com o ficaralho dos Titãs, agora o Sérgio Britto e o Branco Mello têm que cantar toda hora, acumulando funções. Coitados. Eu entendo vocês. Eles ainda tocaram três músicas novas que prometeram estar numa futura ópera-rock. Aliás, a canção "Me estuprem" será bastante problematizada no Facebook se vier a ganhar alguma relevância. Ao vivo, porém, as músicas novas foram recebidas com a frieza do inverno islandês. Vamos aguardar o resultado do disco. De uma forma geral, foi um show bem irregular. Já vi melhores Titãs.
Ceelo Green convida Iza - Foi definitivamente o Dancing Day no Palco Sunset. Depois da cumbia psicodélica, o Ceelo surgiu como um James Brown de Atlanta botando a galera para dançar como se estivessem nos tempos românticos do Studio 54, em Nova York. Foi muito maneiro, um dos grandes shows do Rock in Hell, teve até a bela "Earth Song", do Michael Jackson, mas como eu nunca gostei de boate, sentei na grama para me poupar para o Incubus.
Incubus - Coitado do Incubus. Fez até a sua parte no Palco Mundo para uma banda que abriria para duas lendas, mas passou praticamente despercebido, pois a galera estava mais interessada no que viria dali para frente.
The Who - Que banda, amigos! Que banda! Foram 50 anos esperando para ver ao vivo Roger Daltrey rodopiar o fio do microfone e Pete Townshend fazer aquele giro com o braço na guitarra. Cinquenta anos esperando uma banda que foi perfeita. Se eu fosse sommelier de vocalista, diria que a voz de Daltrey está num timbre abrasado e levemente amadeirado, com raspas de limões colhidos no pé de vulcões da Sicília e um toque de uvas retiradas por antílopes de parreiras de montanhas tibetanas. Só isso explica ele estar cantando monstruosamente aos 73 anos. O The Who foi impecável. Chorarei de emoção até a semana que vem.
Guns N'Roses - Depois do papelão de 2011, Axl Rose estava devendo ao público do Rock in Rio um show épico. Só que ele entendeu errado o significado da palavra e resolveu fazer uma apresentação interminável, de 3h30min, e que parece que só parou porque ele foi avisado que ia começar o Globo Rural na TV. Sabemos que ao contrário de Daltrey, Axl nunca mais será o mesmo, mas é uma pena que ele não tenha cantado como no show de novembro do ano passado. Sua piora pesou no desempenho da banda, só compensado pelo prazer inenarrável que é ver o Slash tocando guitarra. Slash >>>>>>>>>>>>> Rodrigo Hilbert.
Mas definitivamente eu não viro mais a noite por um show do Guns. Já foram três. Chega.
Ok, eu reconheço que essa é uma promessa vazia e eu estarei na plateia no próximo espetáculo.
E assim a Corneta se despede de mais um Rock in Hell. Como diria o Axl: thank you, Brazil! Good fucking night!

Crítica do show do Bon Jovi

Bon Jovi no Rock in Rio/Reprodução/Facebook
Crítica originalmente publicada no site Rock on Board - http://www.rockonboard.com.br/2017/09/rock-in-rio-2017-repleto-de-sucessos.html

Você pode dizer que Jon Bon Jovi tem um monte de defeitos, mas nunca poderá acusá-lo de ser preguiçoso. Muitos músicos que tivessem o mesmo número de hits dele na carreira ficariam tentados a fazer um show para a galera, como normalmente pedem os grandes festivais. É seguro e de fácil aceitação. O Bon Jovi, porém, fez a acertada aposta na mescla do novo com um punhado de sucessos da carreira num equilíbrio quase que equânime entre os clássicos do passado, quando a banda construiu a sua fama, e músicas retiradas dos álbuns lançados nos últimos 15 anos, a maioria deles de menor impacto do que discos como 'Slippery When Wet' (1986), 'New Jersey' (1988), 'Keep The Faith' (1992) e 'These Days' (1995). 

Foram 21 músicas em um espetáculo que pode-se dizer que agradou ao fã de carteirinha e ao fã dos hits radiofônicos. Talvez só os que não se incluem nos dois grupos tenham ficado com tédio no show que encerrou a noite do dia 22 do Rock in Rio. 

Com um álbum novo na praça - 'This House is Not For Sale' foi lançado no ano passado - o Bon Jovi deu uma sacudida no set list como quem mostra que está bem depois da saída do guitarrista Richie Sambora por "razões pessoais". Com isso, ficaram de fora baladas amadas pelos brasileiros como "Always" e "I'll Be There For You", que até estava prevista no set list inicial de 23 canções, mas foi cortada junto com "In These Arms". 


Fizeram falta? Para o fã, talvez. Para a dinâmica do show, nem um pouco. Até porque, o Jon Bon Jovi burocrático do Rock in Rio de 2013 deu lugar a um cantor com muita vontade de fazer um grande show para a plateia em 2017. Embora a voz já não seja a mesma de outrora, notava-se claramente como o cantor parecia bem e satisfeito no palco. 

Se Sambora, que deixou a banda em abril de 2013, faz falta é só pela presença de uma figura importante na carreira do Bon Jovi, como dono e parte da história dela. Pois, na prática, o novato guitarrista grego-canadense Phil X dá conta do recado reproduzindo muito bem as notas dos principais sucessos do grupo, como na balada "Bed of Roses", talvez o momento em que ele mais teve a chance de brilhar. 

Reproduzir os solos e as notas de Sambora é o que Phil X mais terá que fazer até poder exibir algo mais autoral nos shows. O mais recente álbum foi apenas o primeiro do qual ele participou como membro efetivo do Bon Jovi. Mas a julgar pela faixa título, ele já pegou o jeito. "This House is Not for Sale" é um típico pop rock do Bon Jovi. Tem um refrão que fica na cabeça, uma batida característica e uma letra boa de cantar. Todo disco da banda tem pelo menos uma canção assim desde "Runaway" lá no primeiro álbum lançado em 1984. 



Aliás, daria para fazer uma apresentação só com elas. Só no show desta sexta-feira teve ainda "Have a nice Day", que é uma boa canção, e "It's My Life", que provocou erupções vulcânicas na Cidade do Rock. Foi uma das músicas mais cantadas pela plateia, não ficando a dever para clássicos como "You Give Love a Bad Name" e "Livin' On a Prayer", que costumeiramente fecha os shows do Bon Jovi.

O público pareceu gostar e nem se incomodou muito com os problemas do som, que chegou a ficar muito baixo em três oportunidades. Nada que atrapalhasse a performance da banda que pode até não ter ganhado um novo fã por conta deste show, mas obteve muito sucesso pregando para os já doutrinados.

sábado, 23 de setembro de 2017

Rock in Hell - segundo dia

Tears for Fears, um dos grandes shows/Marcelo Alves
Mais um dia de Rock in Hell. Um dia com um bom saldo de shows. Melhor que o da véspera. Vamos ao que só a Corneta viu. 

Baiana System e Titica - Na ausência do dia do metal (vacilo histórico, seu Medina!), coube ao Baiana System contagiar a galera a ponto de fazer a melhor roda de pogo possível. Foi um showzão. Tudo bem que tinha momentos que pareciam aula de aeróbica com saltos e mãozinha para cima, mãozinha para a direita, mãozinha para a esquerda... Mas toda a musicalidade da "guitarra baiana" foi muito contagiante! Um dos grandes shows do Palco Sunset. Merecia até o Palco Mundo.

Grande encontro - Ontem foi praticamente o Nordeste Day no Palco Sunset. Depois do Baiana System, a paraibana Elba Ramalho e os pernambucanos Alceu Valença e Geraldo Azevedo quebraram tudo com o show do grande encontro fazendo os fãs do Bon Jovi rebolarem no frevo, no xote e no xaxado com gosto e malemolência. Aliás, a Elba, com seus 66 anos, cantou mais que o Steven Tyler, hein.

Jota Quest - Na Moral, eu juro que tentei. Mas não dá. Jota Quest, Los Hermanos, Coldplay, Maroon 5 e Nickelback são bandas que simplesmente não dá. 

Ney Matogrosso e Nação Zumbi - Eu podia posar de intelectual do Facebook e dizer que a união do maracatu da Nação Zumbi com a languidez e o olhar possuído de Ney Matogrosso gerou um show clássico dotado de uma poesia concretista e um refino técnico próprio de uma ourivesaria musical. Mas a Corneta não está aqui para fazer concessões. Simplesmente essa porra não funcionou tão bem como se esperava, não rolou muita química, não deu liga e foi até um pouco constrangedor quando cada um visitava a casinha musical do outro. 

Alter Bridge - Junção do cantor Miles Kennedy (aquele que andou cantando com o Slash antes dele voltar para o Guns) com uma parte do Creed (sim, o CREED), o Alter Bridge tem até um bom vocalista. Falta é ter grandes canções. São basicamente roquezinhos fast food. Te empanturra na hora, mas logo depois você está com fome de novo. 

Tears for Fears - O Tias Fofinhas fez o melhor show do Rock in Rio até aqui. Tudo graças a sua competência e seus hits da JB FM. E só não foi ainda melhor porque faltou "Woman in Chains". A banda ainda veio com uma versão de "Creep", do Radiohead, que pareceu uma canção de ninar na voz de Roland Orzabal. Foi lindo e emocionante. Merecia mais uns 40 minutos de show. 

Bon Jovi - Vocês lembram de Jon Bon Jovi? A voz mudou (para pior), mas os cabelos.... também mudaram, pois ele assumiu os fios brancos. O Bon Jovi tem muitos hits, fãs apaixonados, fãs que até hoje nutrem um tesão enorme por ele, mas não consegue me empolgar em show nenhum. Eu até dei uma segunda chance ao Bon Jovi, algo que vivo negando ao Red Hot Chilli Peppers desde o fatídico show de 2001, mas acho que eu enjoei da banda da mesma forma que enjoei de empadinha.

Crítica do show do Aerosmith

Aerosmith/Divulgação
Crítica originalmente publicada no site Rock On Board - http://www.rockonboard.com.br/2017/09/rock-in-rio-2017-mesmo-sem-ser.html

Tem que ser muito cri-cri para reclamar do Aerosmith. Mas de uma banda que construiu seus 47 anos de estrada com shows quase sempre de um nível impecável não se espera menos do que a excelência. E o espetáculo que encerrou a noite do dia 21 do Rock in Rio esteve justamente abaixo desta excelência. Abaixo do que o Rio de Janeiro viu em outubro de 2013, quando o Aerosmith fez um show arrebatador na Praça da Apoteose. 

Não que isso atrapalhasse os milhares de fãs que foram até a Cidade do Rock. A maioria esmagadora deles do Aerosmith. Eles foram para ver Steven Tyler fazer suas costumeiras e adoráveis presepadas. Os rebolados no palco, o característico microfone cheio de lenços sendo balançado de um lado para o outro, o jeito lânguido do vocalista se mexer e os olhares fixos na câmera que enchia o seu rosto no telão. Tudo ali estava presente. Só a conhecida voz de Tyler pareceu não bater ponto na Cidade do Rock. O vocalista pareceu falhar algumas vezes e sofreu nas canções que exigiam mais dele, aquelas com as notas mais altas quando ele costuma se soltar mais. Basta rever "Love in an Elevator", "Cryin" e "Falling in Love", só para ficar em três exemplos do set list, para ver que havia algo de diferente. Será que quatro anos fizeram tanta diferença? O peso dos 69 anos, muitos deles vivendo no limite, como diz um dos seus sucessos, "Livin' on the Edge", chegou? 

O hard rock do Aerosmith é calcado nas levadas de guitarra características de Joe Perry e na voz de Tyler. Quando os outrora gêmeos tóxicos, como a dupla era chamada nos anos 70, quando abusavam de todas as substâncias possíveis, funciona, o Aerosmith é monstruoso. Quando alguma coisa falha, a banda de Boston não apresenta a tal excelência. De qualquer forma, Tyler compensou as eventuais falhas na voz com o costumeiro protagonismo no palco, interagindo com o público e se entregando de corpo e alma ao espetáculo. 


Mas veja bem, o show do Aerosmith esteve longe de ser ruim. Só não foi perfeito. Embora arrisque-me a dizer que para muitos presentes foi inesquecível. Pelo menos para aqueles que cantaram "I Don't Wanna Miss a Thing", a trilha sonora chiclete do filme "Armageddon" (1998), como se não houvesse amanhã. E Tyler não se fez de rogado em deixar o público ter o seu karaokê vip no maior momento Feira de São Cristóvão vivido pela Cidade do Rock nesta quinta-feira. 

Além desta canção, "Cryin" e "Crazy", a dupla de músicas do álbum 'Get a Grip', de 1993, que gerou os famosos videoclipes com Alicia Silverstone, foram os outros pontos altos da noite, a julgar pela reação do público. 

No total, o set list teve 16 canções. Perpassou todos os pontos altos da longeva carreira da banda que quase sempre permaneceu junta como na formação que surgiu em 71 com o baixista Tom Hamilton, o baterista Joey Kramer e o guitarrista Brad Whitford. Foi do primeiro grande sucesso, a excelente "Dream on", uma grande canção da história do rock, passou por "Walk This Way", outro clássico que também representou um resgate da banda do ostracismo quando eles a regravaram com o Run-DMC em 1986, e foi até o "Falling in love", do álbum 'Nine Lives' (1997), o último grande disco do Aerosmith. 

Foi um set list e um show que justificou a escalação do Aerosmith como headliner do Rock in Rio. Mas se a "Aerovederci Tour" for mesmo a última da banda, como chegou a ser divulgado pelos seus integrantes, que agora desconversam sobre o tema, prefiro deixar como última impressão o épico espetáculo de 2013. Aquele foi o Aerosmith numa excelente forma, mesmo que na época estivessem desfalcados do baixista Tom Hamilton.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Rock in Hell - primeiro dia

O show do Aerosmith/Marcelo Alves
Vocês acharem que a Corneta não vinha, mas lá estava ela em sua primeira incursão no Rock in Hell 2017. E o que é que podemos dizer do que vimos?
Tyler Bryant & The Shakedown - Esse amálgama de Steven Tyler com Kobe Bryant é a típica banda de rock com quatro caras cabeludos. Poderiam até fazer merchan do shampoo MONANGE. Eles são de Nashville, Tennessee. Então, por isso, de vez em quando, eles se sentem na obrigação de fazer um blues rock que os conecta com a cidade natal. São reis da onomatopeia. Em uma hora, pelo menos três músicas tinham um ô ô ô ô ô ôoooo. No fim, foi um aquecimento aceitável para o que viria nas horas vindouras. Mas não empolgou muito o povo.
The Kills - Me matou de tédio. Esse canto quase sussurrado, essa batida de trilha sonora de filme que se passa nas estepes do Canadá, esse jeitão indie de quem não tira todo o potencial das guitarras.... quase dormi. Quase pedi um "Volta Tyler Bryant".
Scalene - Eu não conhecia uma canção do Scalene até à noite desta quinta-feira (eu não vejo reality shows). Mas, movido pelos fogos de réveillon, fui de coração aberto assistir ao grupo que abriu os trabalhos no palco mundo. Bom, foi melhor que o The Kills, mas vou dar ao grupo o prêmio Kiara Rocks de escalação precipitada no Palco Mundo.
Alice Cooper convida Arthur Brown - Melhor show do dia! Estava tudo meio brochante, até o Alice Cooper chegar e injetar Viagra no Rock in Rio. Teve clássicos, teve participação de Joe Perry, teve guilhotina, teve boneco Frankenstein, teve presepada, teve o Arthur Brown com a cabeça em chamas e teve um solo da guitarrista dele que foi melhor que todo o show do The Kills. Só não precisava ter solo de bateria. Estamos em 2017 e ainda usam solo de bateria para o vocalista velhinho ir pegar um balão de oxigênio.
Fall out Boy - Um sub-Matchbox 20 com dois tons acima na guitarra, um Maroon 5 emo, ou como bem definiu um amigo meu, tipo Detonautas.
Def Leppard - Um show surpreendentemente divertido. Sabe aquela farofa sem compromisso que você respeita? A banda entrou no palco com o guitarrista sem camisa para mostrar que está em forma. E foi alternando o set list entre canções com cara de trilha sonora de novela da Globo dos anos 80 e 90 e músicas com cara de filmes de jovens garotos dos anos 80 e 90. Ainda mandou alguns hard rocks românticos. Se o Def Leppard fosse brasileiro claramente seria uma versão mais pesada do Roupa Nova.
Aerosmith - Steven Tyler, meu amigo, o que houve com a sua voz? Estava falhando mais que carro a álcool em dia frio. Esqueceu de fazer aquele gargarejo com limão? Ainda bem que não falta carisma para Tyler e a banda. E clássicos e hits. Muitos para compensar um show que até foi legal. Só não foi perfeito como esperávamos. Agora, precisava ter "I don't wanna miss a thing"? Nunca entenderei o hype dessa canção, espécie de "Anna Júlia" do Aerosmith. Chata demais.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

E o filme d Lava-Jato, hein?

Que nome a gente dá para essa operação?
Fui ver o filme da "Lava Jato". Que experiência diletante, amigos. E o que eu posso dizer de "Polícia Federal - a lei é para todos" (mas a sombra da barraca é minha)?
1- Para começo de conversa, uma dica. Fiquem até o fim. Eu sei que isso pode ser desafiador, torturante até. Mas fiquem até o fim, pois "Polícia Federal" é tipo um filme da Marvel. Tem cena extra e a promessa de que os policiais voltarão no futuro igual ao Capitão América.
2- Inclusive, as cenas do Antônio Calloni recrutando pelo país a sua equipe de agentes incorruptíveis para defender o Brasil se assemelha muito ao Batman arregimento seus amiguinhos para formar a Liga da Justiça.
3- O filme é um pouco frustrante, pois desmistifica como é a gestação dos nomes maneiros das operações da PF. Eu sempre achei que tinha uma equipe especializada em piadas e trocadilhos por trás daquilo tudo. Mas é quase tudo na informalidade. Só faltou o chopinho.
4- A gente sabe que a Lava Jato já tem mais rodadas que o Campeonato Brasileiro. O filme não podia contar tudo. Mas como eu já disse, tem a promessa de continuação. Sendo assim, o filme acaba no episódio da condução coercitiva do Lula (esse dia foi louco!).
5- Por falar em Lula, pobre Ary Fontoura. Ainda bem que o Framboesa de Ouro não premia estrangeiros. Sua versão do ex-presidente é sofrível. Era melhor ter chamado o Rui Ricardo Diaz para reviver o Lula nestes momentos complicados da vida, entre pedalinhos e triplex.
6- "Eles pensam que a gente é otário" é meio que o bordão da polícia no filme. Ficou meio com cara de um recado no roteiro do Brasil para os políticos.
7- De fato, o discurso ideológico é um problema sério em "Polícia Federal". Independentemente de você ser coxinha ou mortadela, soa muito fake aquelas pausas, aquele olhar para a câmera, e os discursos no gênero "precisamos mudar o Brasil", "estamos mudando um pouquinho do Brasil", "estamos agindo para melhorar o Brasil", "vem com a gente", "invente, tente, faça um Brasil diferente". Se o roteiro tivesse permanecido apenas nos fatos, seria mais enxuto e mais interessante. E daria menos margem para interpretações políticas. Para não falar na construção bastante maniqueísta da história.
8- Eu não lembrava que o Alberto Yousseff era tão fanfarrão.
9- O filme diz que a Lava Jato começou com a interceptação de um caminhão cheio de palmito e cocaína (duas drogas pesadas, principalmente o palmito) em Araraquara. Só porque o caminhoneiro não tinha a expertise dia filmes americanos. Pois rola um bloqueio na estrada que se fosse em Hollywood o caminhão passaria por cima e continuaria seguindo caminho, deixando os policiais para trás com seus carros destruídos.
10- O filme não é muito favorável ao Lula. Mas o Sérgio Moro também tem do que reclamar. Ele está mais apagado e desnecessário que vela usada. Nem acho que seja culpa do Marcelo Serrado, mas o filme claramente coloca o protagonismo na polícia. Será que isso gerou ciúmes na República de Coritiba?
11- E o japonês da federal, hein? Resumiu-se a uma ponta discreta e cômica.
12- Tem uma jornalista no filme que é muito vergonha alheia. Fica lá berrando que a polícia está perseguindo o PT, que é uma injustiça com o presidente Lula, blá-blá-blá, ao invés de fazer perguntas consistentes. Mais uma obra cinematográfica em que jornalistas são detratados como zé ruelas ou garotos de recados. Não que muitos não sejam, mas só pode ser vingança contra os críticos.
13- "Polícia Federal" é ainda um manifesto contra a caneta. Da Mont Blanc a Bic, a culpa de todos os males do Brasil é a caneta. Será que melhora se a gente voltar aos tempos do sinal de fumaça?
14- Vocês não vão acreditar nisso, mas os cinco primeiros minutos do filme são bem bons. Tem ação, suspense, tensão, carros andando em alta velocidade pelas ruas de São Luiz. Se tivesse mais orçamento era quase um filme do Jason Statham.
15- O problema é que depois vem um monólogo sobre como a corrupção chegou no Brasil com os portugueses e atravessou séculos e séculos de impunidade zzzzzzzzzzzzz. Aí o narrador Calloni vai enumerando os diferentes casos de corrupção e CPIs do Brasil (foi muita pizza, galera). O que é uma estratégia que me pareceu um apelo escrito em luz de neon de motel: "Este filme é apartidário. Estamos apenas relatando a maior operação anti-corrupção do Brasil".
16- Além do roteiro ruim, "Polícia Federal - a lei é para todos" tem o problema de não se decidir sobre o que quer da vida. Se era para ser um filme de ação como talvez tentasse enfatizar com aquela trilha sonora feito um batidão que parece uma bateria do Sepultura, falta ação. Até porque as fases da Lava Jato foram muito desprovidas de emoção. É só a PF batendo na sua porta às 6h da manhã e te levando para a cadeia depois de ouvir o famoso "Teje preso". Não tem perseguição, tiro, morte, cenas de kung fu... Se era para ser um filme do gênero investigação-siga o dinheiro, poderia ter trabalhado melhor isso e criado uma tensão maior na investigação da roubalheira, mas tudo se resumiu a três esquetes do tio-professor explicando no quadro negro para os alunos como funcionava todo o esquema de corrupção.
17- De um modo geral, no entanto, faltou ao filme aquele distanciamento histórico que ajuda a avaliar melhor os acontecimentos de um fato e a escolher melhor seus protagonistas e antagonistas. Um distanciamento que ajudaria também a fazer com que o filme não tivesse somente a leitura política. Ou que ajudasse a evitar que a leitura política suplantasse em importância a leitura estética. Resumindo, podiam ter esperado uns 20 anos para fazer esse filme.
18- E num ano com tantos filmes brasileiros bons, como "Polícia Federal" entrou no grupo que vai concorrer à vaga do Brasil no Oscar? Está faltando critério nestas pré-seleções, hein.
19- O filme pode não ser grande coisa, mas pelo menos gerou a ação de marketing em shoppings como a que você vê numa das fotos deste post para que cada um de nós possamos ter o nosso momento Geddel. Vai dizer que você nunca sonhou em tirar fotos com várias malas de dinheiro?
20- Cotação da Corneta: nota 3,5.
PS: Já estou ansioso para ver "Polícia Federal 2 - O inimigo agora é outro".