quarta-feira, 20 de julho de 2016

Sonho de valsa

Martinha, Gigi e Carol eram amigas inseparáveis. Tão amigas que as duas últimas já estavam acostumadas com as esquisitices de Martinha e nem ficavam mais chocadas.
Gigi costumava dizer que Martinha era aquariana. Logo, gostava de causar, de ser diferentona e sempre ficar fora da casinha do senso comum. Fora isso, Martinha era uma pessoa afável e parceira para todas as horas. Por isso, elas eram muito unidas há 15 anos, desde que se conheceram no primeiro período da faculdade de economia.
Mas naquela tarde, Martinha passou um pouco do limite. Tudo começou num piquenique que as amigas organizaram no Parque Lage. Uma mera desculpa para jogarem conversa fora, falarem trivialidades e saírem um pouco da rotina dos swaps reversos e CDBs do dia a dia pesado nas instituições em que trabalhavam.
- Fiz um brownie que, modéstia à parte, está excelente. Aproveitando que essa é uma ocasião especial, usei chocolate Lindt e ficou um espetáculo - propagandeou Carol, a mais talentosa das três quando o assunto era cozinhar. 
- E quem garante que ele ficou excelente mesmo? Há uma opinião isenta para comprovar? - provocou Martinha, apenas sendo Martinha. 
- O Júlio provou - devolveu Carol. 
- Namorado não conta. Homem apaixonado é mais burro que um protozoário - devolveu Gigi.

Mas Gigi e Martinha tiveram que dar o braço a torcer. O brownie realmente era de outro mundo.
Além da economia, o chocolate era um ponto de interseção daquele trio inseparável. Tanto que o grupo de WhatsApp delas era chamado de "Rainhas do Cacau".
- Não tem nada no mundo melhor que chocolate. Maior invenção do homem - disse Gigi. 
- Ao lado do avião, que te proporciona ir para outros lugares do mundo...
- ... Para comer chocolate! - disse Carol, completando a frase de Martinha, já dando gargalhadas.

Carol, então, resolveu manter o assunto na crista da onda perguntando às amigas qual era o chocolate favorito delas. Disse que ela gostava da barra Lindt de caramelo. "Derrete na boca e é quase um orgasmo", comparou.
Mais exótica do trio, Gigi citou um chocolate com açafrão que ela disse ter experimentado numa viagem ao Irã pelo Banco Mundial. Ela garantiu ser o paraíso na terra. "Era maravilhoso. Nunca senti nada tão diferente na boca", dizia.
- Eu gosto de Sonho de Valsa - afirmou Martinha, seca e cortante como uma navalha.
O silêncio tomou conta das duas amigas.
- Que foi, gente? Eu adoro Sonho de Valsa. É delicioso!
- Você não pode estar falando sério, Marta Regina! - retrucou Gigi. 
- Ela só quer ser polêmica no piquenique - disse Carol. 
- Estou falando sério. Eu amo Sonho de Valsa. Tem coisa mais gostosa do que sentir aquele chocolate, ouvir o estalo daquele wafer e mergulhar profundamente naquele creme de castanha de caju? Sonho de Valsa é tudo. Sonho de Valsa é mara.

As amigas não conseguiam acreditar. Não é possível que alguém pudesse gostar daquela classe de bombons redondos a R$ 1 da Loja Americana formada pelos famigerados Sonho de Valsa, Serenata de Amor e Ouro Branco.
- Na minha caixa de bombom, o Sonho de Valsa é sempre o último a ser comido. E fica sempre com o azarado que chegou atrasado - disse Carol. 
- Certa vez, num Natal da família, Tio Rubens comprou uma caixa de bombom "porque Jesus Cristo também gostava de adoçar a vida". Éramos 15 reunidos na casa dele. Cada um pegou um bombom da caixa. Quando Marcos, o namorado de Tio Rubens, percebeu que sobrou o Sonho de Valsa para ele, fez uma cara de decepção, virou e disse: "Estou de dieta" - contou Gigi. 
- Seria a minha primeira opção - garantiu Martinha.

Era inconcebível para Gigi e Carol que o Sonho de Valsa fosse o chocolate preferido de alguém. Tinham mentes brilhantes. Explicavam a teoria da relatividade como quem faz um pão na chapa. Mas elas não entendiam a equação Sonho de Valsa + Martinha = amor.
- Vocês não sabem o prazer que é comer um Sonho de Valsa aos poucos. Dando mordidinhas no chocolates até surgir divinamente aquela massa bege de creme de castanha de caju pronta para receber você. A melhor forma de comer Sonho de Valsa é dissecando-o - garantiu Martinha. 
- Para, Marta! Sai desse corpo que não te pertence! Nos últimos anos houve uma abertura dos portos do cacau, nos trazendo o melhor do mundo. Não precisamos mais destes trágicos espécimes nativos. Agora temos até Kit Kat sendo vendido no sinal de trânsito! - irritou-se, Carol. 
- Nem ligo. Mas se fosse Sonho de Valsa eu levava a caixa. 
- Hahahaha, gente. Eu sabia que a Marta gostava de uma polêmica. Mas essa história supera todas. Até aquele sonho que ela teve com um travesti - disse Gigi. 
- Quando eu casar, quero que a minha noite de núpcias seja numa cama de Sonhos de Valsa. 
- Iiiirc!! - indignou-se Carol. 
- Aliás, quem precisa de marido quando se tem Sonho de Valsa? Eu casaria com um.

No fim das contas, Martinha era sempre garantia de que o papo renderia. A tarde acabou sendo divertida pela polêmica do Sonho de Valsa, que entraria para a história das amigas como "a última da Martinha". Ela ainda ganhou o apelido interno de Creminho de Caju.
Quando foi embora, Martinha ainda tentou comprar um Sonho de Valsa na padaria. "Bateu desejo depois desse papo", disse ela. Mas sua procura foi frustrada. Só tinha Diamante Negro e Chokito.
Quando chegou em casa, Carol encontrou Júlio estatelado no sofá vendo "House of Cards" no Netflix e comendo uma caixa de bombom. Júlio perguntou se ela queria começar com ele a quarta temporada, mas Carol declinou. "Vou tomar um banho. Estou cansada".
- Ainda tem bombom aí? - ela perguntou. 
- Sim, sobrou um. Pode pegar. Quero mais não.

Carol pegou a caixa, abriu e deparou-se com um... Sonho de Valsa. Olhou para ele demoradamente, foi até o quarto e fechou a porta. Mais uma vez fitou aquele bombonzinho redondo em uma embalagem rosa e preta. Abriu e comeu. Comeu discretamente, quase sem fazer barulho, em um esforço louvável para não ser notada pelo universo.
Amava Sonho de Valsa. Mas não admitia isso nem para as amigas.

domingo, 10 de julho de 2016

Um Almodóvar mediano

Julieta revê o passado
O que Woody Allen e Pedro Almodóvar têm em comum? Toda vez que um filme novo de ambos estreia, alguém vem e fala: um filme mediano dos dois é melhor do que muita coisa que anda sendo produzida por aí. Esta é uma avaliação PREGUIÇOSA e reveladora de uma lógica de "dois pesos e duas medidas" absolutamente paternalista. A Corneta jamais age assim. A lógica da Corneta é: cada obra, uma sentença. 

Afinal, tanto Almodóvar quanto Allen são humanos. Fizeram filmes excelentes e bombas. Bombas terríveis. O diretor americano, por exemplo, não nos apresenta um filme daqueles para aplaudir desde "Meia-noite em Paris" (2011). Ok, eu gosto de "Para Roma com amor" (2012), mas reconheço que é uma película controversa. Esperamos que "Café Society" seja melhor que "Blue Jasmine" (2013), o esquecível "Magia ao luar" (2014) e "O homem irracional" (2015), que nem é de todo ruim. 

Almodóvar, por sua vez, tem uma trajetória recente semelhante. "A pele que habito" é brilhante na mesma proporção que "Os amantes passageiros" (2013) é decepcionante. "Julieta", seu novo trabalho, se encontra no meio do caminho entre estes filmes do diretor de 66 anos. Para ficar na comparação, "Julieta" é "O homem irracional" de Almodóvar. 

O filme mantém as características conhecidas de Almodóvar. O uso de cores vibrantes, principalmente o vermelho, uma trama folhetinesca, aquela trilha sonora pontuando como se fosse novela das 21h e o bom trabalho de atrizes. Almodóvar é um excelente diretor de atrizes. Parece sempre tirar o melhor delas. Não é diferente com Adriana Ugarte e Emma Suárez, que vivem a personagem principal na juventude e na maturidade, respectivamente. 

Mas o resultado de "Julieta" ficou aquém dos melhores roteiros do diretor espanhol. Isso porque o filme me passou a impressão de que não era levado para lugar nenhum. De que faltou algo, um pedaço. Tem certeza que acaba aí? A sensação que eu tenho é que Almodóvar parou a edição do filme para desanuviar um pouco a cabeça jogando "Pokémon Go" e esqueceu de completar o filme. Quando percebeu, já tinha salvo o arquivo e enviado por e-mail para todo mundo. 

Tudo começou há um tempo atrás na ilha.... Não pera. Tudo começa quando Julieta está se preparando para viajar com o namorado Lorenzo (Dário Grandinetti) para uma temporada em Portugal onde eles iriam desfrutar da combinação bacalhau, vinho, sexo e literatura. Não necessariamente nesta ordem. Mas um encontro com Beatriz (Michelle Jenner), personagem que com o passar da trama vamos entender quem é, a deixa abalada emocionalmente. Beatriz havia encontrado sua filha, Antía, no lago Como na aprazível Itália.

Aquele encontro trouxe um fiapo de esperança para Julieta, que não vê a filha desde que ela desapareceu quando fez 18 anos e se emancipou. Doze anos se passaram numa agonia ininterrupta e é essa busca angustiante por respostas que passamos a acompanhar quando Julieta desiste da viagem e resolve permanecer em Madri. 

Ao longo do filme, Almodóvar vai nos dando pistas sobre o paradeiro de Antía enquanto conta a história do passado de Julieta e da própria filha. As origens, os erros que elas cometeram, as escolhas. Enfim, Julieta é humana, demasiado humana como qualquer um que você conhece. 

Por vezes, o diretor tira o foco. Apresenta uma mulher misteriosa, Marian (Rossy de Palma), que parece não se dar bem com Julieta e nos leva a questionar o que teria acontecido com Antía e se ela teria alguma participação. Será que houve uma briga séria? Ela enlouqueceu? Entrou para uma seita religiosa? Está tramando uma vingança contra a mãe por culpa-lá pela morte do amado pai, Xoan (Daniel Grao)? Fugiu para participar de um Big Brother?

O diretor te prende na cadeira, te faz acompanhar tudo roendo as unhas em busca de uma resposta que aparentemente será tão impactante quanto "A pele que habito", pois ele vai te ESTIMULANDO a imaginar uma série de possibilidades. 

Mas quando a busca chega ao fim, o sentimento que fica é de vazio e frustração. O famoso fuén. O desfecho tem o sabor de uma comida de bandejão e o que fica é a pergunta: Mas era só isso? Sofremos por nada. Ou por quase nada. 

Há méritos em "Julieta". O filme é muito bonito. Almodóvar faz filmes bonitos da escolha das locações, passando pelos cenários e chegando aos atores. Ele tem muita estima pela beleza. A valoriza como um filósofo grego da Atenas de tempos imemoriais. O roteiro até certo ponto vai sendo bem construído e os atores estão bem. Mas é frustrante Almodóvar criar tanto clima de suspense e nos dar um banho de água fria. Como eu disse, pareceu um filme inacabado. Pareceu que faltou um pedaço. Só pode ser culpa do Pokémon. 


Talvez o seu objetivo fosse apenas esse. Fazer um ensaio sobre culpa, escolhas, uma relação complicada entre mãe e filha. As idas e vindas, os deja vu da existência. Para a Corneta, porém, o resultado não foi plenamente satisfatório. Almodóvar, você pode fazer mais do que esse filme mediano. Por isso, "Julieta" ganhará uma nota 6,5

sábado, 9 de julho de 2016

O 'Boyhood' chinês

Tao e Liangzi, o amor que não aconteceu
"As montanhas se separam" é um título que aparentemente não diz nada, mas ao final do filme dirigido por Jia Zhangke é possível perceber o tamanho da poesia que se encontra nele. "As montanhas se separam" é uma metáfora para a vida e as escolhas que fazemos. Cada um de nós somo como montanhas fincadas em nossa história e na existência que conduzimos, ao mesmo tempo em que nos aproximamos e nos afastamos das pessoas a partir das decisões que tomamos e com o peso e as consequências geradas por elas. 

O filme começa com um triângulo amoroso formado por Tao Zhao (Shen Tao), Zhang Jinsheng (Yi Zhang) e Liangzi (Jing Dong Liang). Jinsheng é um rico dono de postos de gasolina, Liangzi é um pobre trabalhador das sofridas e em crise minas de carvão chinesa. Ambos são apaixonados por Tao, uma jovem sonhadora que trabalha numa loja de aparelhos de som. 

Estamos na virada para o ano 2000 em Fenyang. Os jovens ainda estão tentando se encontrar na vida e em suas carreiras em meio às festividades e a alegria de uma festinha com Pet Shop Boys. 

A princípio, parece que Jia Zhangke está fazendo uma história de amor tradicionalíssima. Ledo engano. O filme acaba transcorrendo como uma espécie de "Boyhood" (2014) chinês, sendo que é ainda melhor que o filme do diretor Richard Linklater. 

O estopim para tudo, para que as montanhas comecem a se separar está na briga de Liangzi e Jinsheng pelo coração de Tao. A escolha de Tao pelo amor de Jinsheng dá prosseguimento ao rompimento e as jornadas separadas que os três passarão a ter a partir daí. 

O filme se desenrola com uma beleza reflexiva ímpar em meio a paisagens áridas, difíceis e até feias de uma China poluída e industrial. Uma China que cresce, mas ao mesmo tempo tem partes muito decadentes e/ou rurais. Esse contraste é ainda maior quando, no terço final, o filme se desloca para a bela e solar Austrália. 

Zhangke nos oferece um ensaio sobre s vida durante a passagem de duas décadas e meia na vida destes três personagens e do filho do casal Tao-Jinsheng. A dilatação das montanhas, o afastamento entre elas é feito não sem frustrações, sem corações partidos e mágoas acumuladas. É difícil deixar o passado para trás, é difícil se reencontrar com ele. São muitas frustrações, muitas feridas não cicatrizadas e um clima de nostalgia que só a música desperta na vida das pessoas. A música "Go West", do Pet Shop Boys, e uma canção cantonesa dos anos 90 são sempre o estopim das lembranças, de um "como poderia ser", mas o destino não deixou, as escolhas não deixaram.

Fica sempre a questão na cabeça de cada personagem: o quanto a vida teria sido diferente se a minha escolha fosse diferente? É como se as decisões gerassem um karma que afastasse os afetos, trouxesse um desequilíbrio e gerasse um sentimento de inépcia. Mas há um crescimento, um amadurecimento de Dollar (Zijian Dong) em meio a tantas incertezas.

Mas apesar de tudo é possível encontrar a beleza nas trocas que a vida proporciona até encontrar um equilíbrio que reaproxime estas montanhas. Se é que elas vão se aproximar novamente. O futuro está em aberto diante do mar e do pôr do sol.

"As montanhas se separam" é um filme lírico, belo, intenso e com muito a dizer sobre as relações humanas. Uma bonita obra de Zhangke que receberá uma nota 8,5.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Paraty Facts

Contemplando Paraty/Marcelo Alves
A Corneta Travel pegou cinco horas de busão para trazer a vocês o que só ela viu. Preparamos para ti um post especial sobre Paraty (e eu prometo que este será o único trocadilho infame deste texto).
Ahh Paraty, a cidade histórica, a terra da Flip... Bem, mas deixemos para que nosso SAGAZ e observador viajante fale sobre esta cidade em tópicos absolutamente irrelevantes.
1- Para começo de conversa a rodoviária sabota essa cidade imprimindo bilhetes com destino a Parati, causando uma crise de consciência e ortografia no ser humano de primeira viagem. Estarei eu indo para a bela cidade da Costa Verde vizinha menos famosa de Angra dos Reis ou para um carro da Volkswagen? Mas basta avistar a placa Welcome to Paraty para sabermos que estamos no lugar certo. 
2- Se você andou pelo cidade durante alguns dias e não torceu o pé, não caiu e nem mesmo deu uma leve escorregadinha, considere-se vitorioso. Porque é inevitável andar SAMBANDO pelas ruas tomadas de pedras, pedrinhas e pedronas do centro histórico. 
3- É claro que essa observação só vale para haoles. Os locais LÊEM as calçadas como o Neo, de "Matrix", em seu estágio mais evoluído. E se deslocam por elas como ninjas em telhados chineses. 
4- Paraty tem muita farmácia. E tem muita sorveteria. Se juntarmos o consumo de gordura hidrogenada e chocolates com a quantidade de farmácias, pelo exercício de lógica, diria que a venda de Imosec é um hit. 
5- Por falar em farmácias, não sei por que os principais anúncios no lado de fora das drogarias faziam referências à venda de um genérico do Viagra em promoção. Será que tem a ver com velhinhos escritores visitando a feira? 
6- O centro histórico tem zilhões de casinhas coloniais branquinhas com detalhes em azul, amarelo, verde e marrom que tentamos admirar enquanto estamos nos equilibrando nas pedras. 
7- Paraty, vocês sabem, é a terra da cachaça. É entrar numa daquelas lojas e já sentir a vista meio turva com a quantidade de mé envolvido na cena. Obviamente não experimentei nenhuma, pois se assim fizesse meu jornalismo malemolente transformar-se-ia em jornalismo gonzo. 
8- Mas de comer eu não me furto. Logo, ali pertinho da Tenda dos Autores tinha um pastel de 30cm que é um escândalo de bom. O de carne com queijo com a carne moída grudada no queijo como moscas desesperadas em teias de aranha era tão delicioso que eu lamentei profundamente nunca ter encontrado na vida outro que tivesse tido a mesma ideia.
Melhor sorvete da cidade/Marcelo Alves
9- "Finlandês". Esse é O SORVETE de Paraty. Experimentei seis sabores, entre eles o inédito (na minha boca, é claro), chocolate branco com brownie. Mas tem muitos outros bons. Ganhou 2,5 estrelinhas do Guia Marcelin Ice Cream. 
10- Restaurantes: ou você é atendido como a rainha Elizabeth no Palácio de Buckingham ou como Michel Temer numa reunião de petistas. Não tem meio termo. 
11- O orçamento não permitia muitas estripulias (não esqueçam, a Corneta Travel ainda não tem patrocínio), mas me fizeram ir num tal de tailandês que eu torci a cara inicialmente como torço a cara para qualquer culinária do antigo muro de Berlim para lá. Mas o espírito de viajante que gosta de experimentar tudo o que tem de destaque na área (para cornetar, é claro), foi mais forte. E não é que eu gostei muito da comida? Inspirado pelos vídeos de heavy metal, pedi um pad thai. Bonito não era, mas era gostoso.
12- E fechando o bloco comida direi apenas mais cinco palavras: doce de leite com brigadeiro. 
13- Faz frio, bota o casaco. Faz calor, tira o casaco. Faz frio, veste a calça. Faz calor, coloca a bermuda. O tempo em Paraty nessa época é mais instável que geminiano com ascendência em Áries. 
14- Tem muito cachorro em Paraty (chineses iam amar). Tem muito cavalo em Paraty (quase fui atropelado por um). Logo, desviar-se da bosta enquanto você tenta se equilibrar nas pedras é uma arte. Convém estar com o olfato em dia.
15- As mesas. Não fui o loko das mesas, mas aqui está um resumo do que vi:
A) Abertura muito bonita com o filme do Walter Carvalho
B) Adriana Calcanhoto lendo um belo texto de Ana Cristina César
C) Silviano Santiago não apareceu
D) Juliana Frank quis aparecer tanto que tirou parte da roupa, se mexeu, fez gracinhas. Parecia uma adolescente em busca de atenção. Foi irritante e fui embora quando ela chamou parte da anatomia feminina utilizando um termo chulo só para dizer que é hetero até essa mesma parte sangrar. 
E) Essa mesa, aliás, não funcionou. Foi desconexa, rolou falha de comunicação. E muita gente foi embora por causa dos momentos deselegantes de Juliana, que não se portou como uma devida Juliana (toda Juliana que eu conheço varia entre ser gente boa e maravilhosa). 
F) Gregório Duvivier, Tati Bernardi e Ricardo Araújo Pereira, por outro lado, fizeram um debate muito engraçado. O português roubou a cena com tiradas inteligentes e espirituosas. 
G) Benjamin Moser e Heloísa Buarque de Holanda fizerem um debate de muita classe traçando paralelos entre Clarice Lispector e Ana Cristina César, a homenageada da Flip. Foi educativo para um leigo na obra de ambas como eu. 
H) Peguei a meia hora final de Arthur Japin falando de Santos Dumont e lamentei muito não ter visto a mesa na íntegra. 
I) Que mulher incrível é Svetlana Alexievitch. A prêmio Nobel de literatura me fez chorar com seus relatos e sua sensibilidade sobre a guerra. E me fez comprar dois dos seus livros. Ou seja, vendeu bem o peixe dela. Seria capaz de ouvi-la por mais dois dias em russo que não cansaria. Foi o momento mais emocionante dos que vi. 
Paraty, uma bela cidade/Marcelo Alves
16- A Flip, aliás, é realmente um evento incrível. Ver tanta gente falando sobre o processo criativo, contando histórias... Um aprendizado. Quero voltar todo ano. 
17- O prêmio de melhor trocadilho da cidade vai para a vendedora de Açaí, cujo estabelecimento se chama "Açaideira". Tum dum tsss. E ela ainda tem programa de fidelidade: a cada seis açaís, ganhe um de graça. É muito empreendedorismo deste Brasil. 
18- Sorte da viagem: entrar numa igreja no exato instante em que uma mulher afinava um piano. Daqueles momentos musicais que você guarda. 
19- Saldo final: 
Voltaria para Paraty? Com certeza. Agora que finalmente abri a porteira do conhecimento espero voltar muitas vezes em muitas Flips. 
Moraria na cidade? Aí acho que não, porque se equilibrar naquelas pedras do centro histórico cansa demais depois de um tempo. Mas se eu me acostumasse....

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Um herói brasileiro

Aldo estava um pouco nervoso
Nunca fui um fã de MMA. Pelo contrário, nem acho que seja esporte. Mas eu sou fã de cinebiografias e histórias minimamente interessantes. Por isso, não pensei duas vezes em ir para o cinema para ver "Mais forte que o mundo: a história de José Aldo"

O filme sobre o lutador de MMA que ficou dez anos invicto e é uma das maiores estrelas do esporte tem uma série de defeitos, mas ao mesmo tempo também pode ser encarado como uma boa diversão. Vejo, portanto, como uma metáfora do Brasil na visão de muitos. Cheio de problemas, mas com sua beleza. 

A primeira parte de "Mais forte que o mundo" se passa na fase da vida de Aldo, vivido de forma muito competente por José Loreto, em Manaus. Vida sofrida, problemas de relacionamento com o pai (Jackson Antunes), um alcoólatra que agredia a sua mãe (Claudia Ohana), alguém que não se encontrou com o mundo, não sabe o que quer, mas tem uma agressividade latente. 

Essa fase inicial, resvala um pouco no brega, mas nos coloca um Aldo já num momento em que curti muito. Uma relação com seus demônios interiores personificado na figura de Fernandinho (Rômulo Neto). Sim, tem o maior jeitão de "Clube da Luta". Sim, não tem a mesma sutileza do filme estrelado por Brad Pitt, mas funciona satisfatoriamente. E talvez nem fosse o desejo do diretor Afonso Poyart imitar ou ser sutil como o "Clube da Luta". 

Mas a melhor fase do filme fica para o Rio de Janeiro. Sai aquele tom sombrio, entra a luz, como se a vida de Aldo começasse a se transformar. É no Rio que ele começa a batalhar para se transformar em um lutador, conhece Viviane (Cléo Pires), a mulher com quem se casaria, e passa a treinar com o midas Dede Pederneiras (o excelente Milhem Cortaz). 

Mas o eixo de "Mais forte que o mundo" está na relação de Aldo com o pai. O lutador o descreve como seu maior incentivador, mas ele também personifica um desejo de vingança. Uma relação de amor e ódio, que Aldo só parece resolver na fase final da vida do pai, perdoando-o por seus inúmeros defeitos. 

"Mais forte que o mundo" poderia ser um filme muito legal, mas se me for permitido fazer uma crítica, acho que Poyart exagerou um pouco na tentativa de construir um épico. Exagerou no cruzamento de "Ben-Hur" com "Rocky IV" e "Clube da Luta". Para não falar no excessivo uso de uma câmera lenta à moda "300".

Mas a cinebiografia de Aldo pode ser apreciado como uma boa diversão de uma "Sessão da Tarde". E uma boa forma de conhecer um pouco da história do lutador, que é um dos ídolos do MMA. Por isso, vai ganhar uma nota 6,5.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

O horror! O horror!

Londres destruída por um filme ruim
Se eu tivesse que fazer um ranking de filmes que me deixaram mais constrangidos no cinema recentemente ele teria "Warcraft", "Cinquenta tons de cinza" e, óbvio, "Batman vs Superman". Mas nenhuma destas obras, digamos assim, únicas, seria capaz de superar a ruindade de "Independence Day: o ressurgimento"

O novo filme de Roland Emmerich é uma coletânea de erros e situações patéticas, mas a medalha de ouro vai para o quinteto de roteiristas (Emmerich entre eles). Porque é preciso muito esforço para que cinco cabeças juntas pensem em tantas situações clichês, bizarras ou piegas para fazer um filme que nem os efeitos especiais ajudam. 

É um tal de filho vendo os pais em situação difícil e nada podendo fazer, crianças aparecendo para trazer a mensagem de esperança, vibração de uma humanidade reunida em busca de um ideal (muita vibração. Parecia o Galvão comemorando gol do Brasil), rivais do passado que viram amigos e rapidamente resolvem picuinhas. Tudo com atuações SOFRÍVEIS. 

O novo filme se passa vinte anos depois dos eventos do primeiro "Independence Day". Como faltou verba para contratar um ator famoso, Will Smith, um dos heróis do primeiro filme, não passa de um retrato na parede da Casa Branca. Melhor assim. Nem deu para sentir vergonha alheia.

Os Estados Unidos e o mundo vivem em paz e harmonia. Nunca houve Brexit no mundo paralelo de Emmerich. Todos trabalham juntos num grande crowdfunding internacional e até interplanetário, visto que a Lua virou uma segunda casa. Sua estação espacial é chefiado por um chinês, tem americanos, europeus trabalhando em harmonia e no planeta não há racismo, machismo nem homofobia. Queria muito viver nesse mundo encantado de "Independence Day"!

O único problema é que neste mundo encantado, os efeitos especiais deixam a desejar. De uma coisa boba como um discurso da presidente americana diante de uma multidão que parece uma gravação de um comício nos anos 70 aos discutíveis efeitos da invasão alienígena sinto que faltou bom gosto neste departamento. 

Mas se esse fosse o único problema tudo bem. A questão é que o conjunto da obra deixa a desejar. Os protagonistas Dylan Hiller (Jessie T. Usher) e Jake Morrinson (Liam Hemsworth) parecem jovens estreando em "Malhação". Enquanto Jeff Goldblum, que volta a viver o pesquisador David Levinson parece um professor da escola de "Malhação". 

Diante disso tudo, eu me questiono: por que amigos? Por que Charlotte Gainsbourg foi se meter nessa roubada?

Bom, mas nessa história sem pé nem cabeça, os alienígenas voltam para se vingar da surra que levaram no primeiro filme. Aparentemente eles têm uma conexão com o ex-presidente americano vivido por Bill Pullman e outros personagens. Um deles, inclusive, baixa um santo e sai escrevendo equações matemáticas no quarto do hospital como se fosse o Russell Crowe em "Uma mente brilhante". 

Ok, ok, "The winter is coming", mas como o filme faz questão de repetir insistentemente a cada 20 minutos: É 4 de julho, vamos chutar uns traseiros gordos porque nós somos americanos e somos bons demais. 

A partir daí, "Independence Day" vira "Space Invaders". Com a triste diferença de que você não pode jogar. 

Contudo sempre pode piorar! Mais para frente, descobrimos que na verdade os aliens não estavam querendo se vingar da surra que tomaram há vinte anos. Estavam só de passagem pela Terra para reabastecer a nave. Tipo, a Terra era só o Posto Ypiranga  deles. Eles estavam mesmo metidos numa guerra intergaláctica de proporções inimagináveis que agora os humanos, outrora bois de piranha, são convocados para liderarem o exército aliado contra os aliens maus. Sim, parece que existem os aliens bonzinhos. Sim, os humanos foram promovidos de raça primitiva a raça top do Universo só porque demonstraram garra, perseverança, união, amor e compaixão. 

 Mas isso só acontecerá no terceiro filme. Peraí, depois dessa tragédia haverá terceiro filme? Esperamos que não. Não há alternativa. Nada, absolutamente nada se salva. "Independence Day: o ressurgimento" ganhará uma nota 0.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

O inverno chegou

Danny vai botar para quebrar em 2017
Obrigado, "Game of Thrones", simplesmente por existir. Agora que acabou a temporada, vamos aos comentários MALEMOLENTES sobre os estertores dela, o passado e o futuro em forma de textão. Chega logo, 2017.
ATENÇÃO, FULL OF SPOILERS!
LEIA BEM O AVISO ACIMA: FULL OF SPOILERS!
FUI BEM CLARO? FULL OF SPOILERS!
1. Que episódio classudo, que trilha sonora maravilhosa. Depois daquele heavy metal da batalha dos bastardos, a série me termina com um cruzamento de Beethoven com Vivaldi. 
2. Jon Snow foi ingrato com quem o ressuscitou. A conta vai vir no futuro. Nunca se deve questionar o Lord of Light. 
3. Os Starks são foda. Eu sempre acreditei neles mesmo quando estavam na zona de rebaixamento. Teria ganhado uma grana no mercado de apostas. 
4. Certa vez, Tyrion Lannister disse que "vocês Starks são muito difíceis de matar". Taí comprovado. Os Starks são os X-Men de "Game of Thrones". Tem Jon, o ressuscitado e agora KING IN THE NORTH, Uncle Benjen, o morto-vivo, Arya mil faces, Sansa tough girl e Brann corvo de três olhos Professor Xavier. E vem mais gente por aí!
5. Aliás, o Game 4-D do Brann me trouxe aquela revelação IMPRESSIONANTE. Jon, você é filho de Lyanna Stark com quem? Do Espírito Santo que não é. Será que você gosta de um fogo com gelo?
6. Quero saber como essas árvores genealógicas de Starks e Targaryen vão dar no Tony Stark. 
7. Parabéns, Jon. Parabéns, Tyrion. Depois de tantos anos se dedicando foram promovidos. Será que rolou aumento? Muito sucesso em suas novas funções. 
8. Cersei maravilhosa mandando a bancada religiosa para o espaço enquanto tomava um vinhozinho de boa e assistia tudo de camarote. 
9. Aliás, essa sequência inicial que começou com o julgamento do Cavaleiro das Flores e terminou com o Rei Tommen dando cabo da própria vida de forma seca foi PRIMOROSA. 
10. Mindinho confirmando seu status de PMDB com a declaração para Sansa: "Me vejo no trono de ferro com você ao meu lado". Está louco para dar um golpe, mas precisa da base aliada, do baixo clero do Norte. 
11. Duelos de mata-mata da próxima temporada que queremos ver: Daenerys X Cersei, com Danny jogando fora de casa. Povos do Norte X White Walkers em campo neutro. Finalistas disputam o trono de ferro na oitava temporada. 
12. The Winter finalmente chegou. Não apenas para eles, mas para a gente também. Não para de fazer frio no Hell de Janeiro. Espero que o nosso não seja tão longo quanto os que Ned Stark falava. 
13. Danny está sentindo o gostinho do grande jogo. Foi fria com o amante porque só quer saber do poder. Tenho um medo de uma personagem tão querida como ela virar uma ditadorazinha. 
14. Aliás, Danny navegando poderosa, ALTIVA, com sua armada e seus dragões para conquistar o Oeste foi de arrepiar. Aquele momento que você pensa: vai dar merda ano que vem. 
15. Queria para mim aquela biblioteca do Sam. Tudo bem que jamais conseguiria ler todos aqueles livros, mas eu queria. 
16. Parece que Dorne vai entrar no jogo na próxima temporada. Com aquelas mulheres sinistras tudo. Temos Dorne, Tyrell, Targaryen e Greyjoy contra os Lannisters já. Como os Starks também os odeiam, os lourinhos estão ficando mais isolados que a Dilma antes do impeachment. Haja Montanha para lidar com isso.
17. Mas parece que os Lannisters estão perto do seu Westerexit. 
18. Nunca queira contrariar Lady Mormont em nada. De decisões políticas a hora do café. 
19. O passaralho de ontem foi sinistro. Número incalculável de mortes. De qualquer forma, RIP, Margaery. Tinha uma quedinha por você. 
20. E no meio disso tudo, o Messi anuncia que está abandonando a seleção da Argentina. Que tristeza. Levanta a cabeça, meu caro. Veja como Jon Snow ressuscitou para a glória. You are The KING OF THE FOOTBALL!
E concluindo tudo: Melhor temporada né?

quarta-feira, 22 de junho de 2016

O terrorismo no taxímetro

Já era madrugada quando o operário das palavras chegava de mais uma longa jornada de trabalho. A ausência de ônibus o forçava a novamente se aventurar no sempre imprevisível mundo dos táxis. E o motorista já se mostrava promissor.
- Boa noite, amigo. Quer ir pra onde? Nova York ou Londres? - disse ele, já cheio de graça e malemolência.
O operário das palavras riu. E foi sincero.
- Olha, se eu pudesse escolher seria Londres, mas eu vou para o Condado de Saint Rose mesmo. 
- Mas por que Londres? O que Londres tem de melhor do que aqui? - questionou o motorista com aquela fala de malandro da Lapa e protótipo de Evandro Mesquita. 
- Por que? Porque é uma cidade que funciona melhor, o metrô é melhor, tem menos violência. Não tem tiroteio com frequência. E mais do que isso, é uma cultura com a qual eu me identifico mais. 
- Ah, agora sim você me explicou. Porque eu outro dia peguei uma passageira e ela me disse que preferia ficar aqui. Eu não entendi. Eu pego um monte de passageiros e 99,9% deles dizem que preferem ir para Londres. 
- Nada contra quem prefira o Brasil - rebateu o operário das palavras. - Muitos se sentem em casa por aqui. É isso que importa. Onde você se sente bem.
Ao saber da experiência olímpica do operário das palavras na capital inglesa, o papo inegavelmente caiu sobre os Jogos do Rio. "O trânsito será um inferno", reclamou o taxista. "Outro dia levei um cliente até a Barra e levei três horas e meia para voltar. Um inferno".
Mas nada superou a preocupação que o taxista ainda revelaria naquela surpreendente corrida.
- Olha, vou te dizer. O que eu mais tenho medo é de terrorismo. 
- Ah, mas acho que não vai acontecer nada disso não. Assalto vai ser direto, mas ataque não acredito. 
- Vou te contar uma coisa - disse ele, com aquele olhar de quem está fazendo uma denúncia. - Eu já peguei gente do mundo inteiro aqui no táxi. Mas ultimamente eu tenho andado com uns clientes de lugares diferentes. Outro dia eu peguei uns caras do Paquistão. Eles eram muito esquisitos. Levei eles lá para aquele hotel de Icarai, onde eles estavam hospedados.
E ele continuou falando sobre aquele momento único.
- Eles eram muito esquisitos. E vou te dizer. Quando os outros hóspedes souberam deles, foi todo mundo embora! Com medo, é claro!
Com dificuldade para acreditar numa debandada de um hotel, mas curioso com os tais "paquistaneses", o operário tentou arrancar mais informações, já se sentindo o Fox Mulder tupiniquim.
- Mas como você sabia que eles eram do Paquistão? Eles se identificarem como paquistaneses? 
- Sim, sim! Se identificaram. Eles tinham cara de paquistaneses. Você sabe, eu vejo muito filme de guerra. Então identifico na hora - disse o aprendiz de Rubens Ewald Filho. 
- E eles nem falavam inglês. Aí eu perguntei: "Pakistan? Pakistan?". E eles disseram: "si, si, Pakistan". Esses paquistaneses estão tudo espalhados nesses hotéis de Niterói - completou o taxista, praticamente revelando uma célula terrorista papa-goiaba.
O destino é cruel. Quando o lead chegou, aquele encontro também se aproximava do fim. Após pagar a corrida, o operário das palavras nada pode fazer a não ser torcer para que as Olimpíadas comecem e terminem bem.
- Bom, só espero que não aconteça nada porque eu estarei lá. 
- Eu também. Afinal, com toda essa crise não posso me dar ao luxo de perder clientes - respondeu o taxista, mostrando toda a sua solidariedade.
E assim o nosso personagem se despediu na madrugada gelada de Niterói's Kingdom.

sábado, 18 de junho de 2016

Um cânone particular

William Shakespeare
Certa vez, uma amiga me fez um desses desafios que volta e meia surgem no Facebook para apontar bandas favoritas, comidas favoritas, livros favoritos, etc... Dessa vez era para apontar os autores que eu mais apreciava. Gostei de fazer, pois apontou uma tendência variando entre os clássicos e textos de espionagem/suspense. Além da eterna paixão, os quadrinhos.

Dentro dessa reflexão sobre quem faria parte do meu cânone particular hoje, coube algumas surpresas e outras figuras que sempre estiveram rondando minhas leituras. Talvez daqui a um tempo outros nomes entrem no lugar desse top-20. Alguns saiam. Mas acho que hoje esta seria a coletânea de autores que eu levaria para uma ilha deserta para não me sentir tão isolado.

1. William Shakespeare - porque é Deus, porque suas tragédias são incríveis e o solilóquio de "Hamlet" está entre as coisas mais maravilhosas que já li na vida. 
2. Friedrich Nietzsche - Porque ele é pura pulsão de vida, experimentação, entrega e intensidade. 
3. Jean-Paul Sartre - porque só Sartre arranca a alma do seu corpo e te deixa vagando moribundo pelas ruas. 
4. Fiódor Dostoiévski - porque ninguém sofre e carrega uma cruz como esse russo.
5. Franz Kafka - porque a vida é um absurdo. 
6. Platão/Sócrates - O Chico Xavier que psicografou a vida e a obra deste que é um dos maiores homens da história humana: Sócrates. 
7. Francis Scott Fitzgerald - "O Grande Gatsby" foi o primeiro livro que "roubei" da biblioteca do meu pai. Depois veio "Suave é a noite" e não parei mais de mergulhar na escrita fascinante desse americano. 
8. Umberto Eco - porque "Apocalípticos e Integrados" e "A obra aberta" me deixaram pirado. E porque ele me explicou o motivo pelo qual o Superman não casa com Louis Lane. E não é porque a sogra é megera! 
9. Ian Fleming - porque James Bond é sagrado. E profano. 
10. George R.R.Martin - porque "Game of Thrones" foi um divisor de águas na minha vida e agora estou encantado pelo livro. 
11. John Le Carré - nunca te li, sempre te amei... nos filmes e nas séries. Mas eu vou corrigir essa falha. 
12. Frank Miller - O Papa, o Midas dos quadrinhos.
13. Truman Capote - Porque o new journalism é uma paixão infelizmente pouco exercida por mim. 
14. Arthur Conan Doyle - porque Sherlock Holmes é um personagem extremamente querido desde a infância. 
15. Leon Tolstói - porque eu tenho uma tara por mulheres adúlteras (só na ficção)
16. Gustav Flaubert - porque eu realmente tenho uma tara por mulheres adúlteras (vale ressaltar, só na ficção).
17. Pablo Neruda - meu representante da poesia e do amor. 
18. Oscar Wilde - porque é preciso respeitar quem tem um túmulo todo beijado e com marcas de batom. 
19. Haruki Murakami - Sua escrita me pegou de jeito e anseio pela leitura dos outros dois volumes de "1Q84".
20. Virgínia Woolf - por todo o seu lirismo. E ai de você se vier com papo de que é escritora de mulherzinha.