quarta-feira, 30 de março de 2016

Batman vs Superman: um 7 a 1 do cinema

Onde é a festinha à fantasia?
Poucas pessoas ficam até os créditos finais de um filme. Até aquele momento em que aparece que Pascoal Gumercindo foi o assistente de maquiagem do senhor Cavill e Josefina Andrews foi a cabeleireira para cenas de ação da senhorita Gadot. A corneta fica em ocasiões especiais. E foi lá que ela viu uma situação que soou como uma anedota. Nos agradecimentos especiais de "Batman vs Superman: a origem da Justiça" estava o nome de Frank Miller.

Miller é um gênio responsável por histórias clássicas do Demolidor e do Wolverine e por um cânone dos quadrinhos chamado "Batman: o cavaleiro das trevas" (1986), justamente a HQ que tem a tão comentada batalha entre o Batman envelhecido e o Superman em um futuro distópico. Eu não posso falar por Miller, mas se fosse ele ficaria envergonhado diante do trabalho equivocado (eu quis ser educado) de Zack Snyder no cinema.

Confesso que a última vez que fiquei tão constrangido em uma sala de cinema foi quando vi "Cinquenta tons de cinza". A diferença é que não fiquei anos esperando para ver esse Sabrina gourmetizado.

E ATENÇÃO: A PARTIR DE AGORA É METRALHADORA DE SPOILERS EM TEXTÃO.

"Batman vs Superman" não é um filme baseado em "O cavaleiro das trevas". E Snyder já havia deixado isso claro. A questão é que o que ele nos apresenta como solução para este filme que seria o embrião da Liga da Justiça é um nada. Uma junção de erros, atuações sofríveis, roteiro sem pé nem cabeça e mal escrito e um filme que é sem ritmo e até mal editado.

Passamos mais de uma hora e meia indo de uma cena a outra sem que uma coisa tenha qualquer contato com a cena seguinte e a anterior. O que Zack queria? Nunca saberemos. Só o que sabemos é que ele pegou duas ótimas histórias (além do "Cavaleiro das Trevas" há ecos de "A morte do Superman" ali) e transformou num papelão digno de filme do "Quarteto Fantástico".

Os problemas de "Batman vs Superman" são tantos que vou fazer em lista para facilitar o trabalho:

1- Ben Affleck não pode fazer filme de super-herói. Ele destruiu o Demolidor, que ficou mais de uma década no limbo até ganhar uma segunda chance. Obrigado, Netflix, te amo. Seu Bruce Wayne é aquela coisa inexpressiva, olhar de estou zangadinho com o mundo, com um grisalhinho próximo às orelhas dignos de quem esqueceu de passar Grecin. ‪#‎voltaChristianBale

2- Henry Cavill, amigos, não funciona quando não está brigando. Eu disse isso em "O homem de aço" (2013) e mantenho a crítica.

Eu sou mais bonito que você
3- O Batman não tem superpoderes, mas tem dinheiro, que é praticamente um superpoder. Como é que ele resolve achar que o Superman é responsável pelas mazelas do mundo sem apurar direito com todas as suas fontes? Cara, a desculpa de que é supostamente a primeira aparição do Superman não cola. Até porque ele fica dois anos remoendo uma raivinha de quem perdeu a Mulher-gato para o melhor amigo sem ter apurado direito os benefícios que o Homem de aço fazia ao planeta.

4- A obsessão patológica dele pelo Superman, com direito a recortes de jornal na parede também não cola. Afinal, cuidar de Gotham City dá trabalho. Tem Coringa, Pinguim, Espantalho, Duas-Caras, Bane, Hera Venenosa... Entre outros. Não dá para fazer clipping do noticiário da cidade do outro lado da ponte.

5- Jesse Eisenberg, pede para sair. Esse Lex Luthor misto de "sou descolado, como balinha de ursinho, uso tênis e trabalho no Google" com "tenho um parafuso a menos e devia estar no asilo Arkham" não combina com o Lex Luthor. Está caricato, está boboca e nada tem a ver com Lex Luthor. Deu saudade do Gene Hackman. E acho que até do Kevin Spacey.

6- Esse negócio de Lois Lane (Amy Adams) ser uma jornalista tão fodona a ponto de saber sem NENHUMA apuração onde encontrar o Superman para salvá-lo da morte ou saber tudo o que acontece apenas com dois pedaços de informação é uma piada.

7- O filme tenta levantar duas discussões atreladas aos dois heróis principais. Os limites do poder do Superman e os métodos pouco ortodoxos do Batman em lidar com o crime. Falha em ambos porque o roteiro é banal e tão profundo quanto piscina de bebê. No caso do Superman parecia um episódio de "Supergirl".

8 - Excesso de flashbacks sem sentido (todo mundo sabe como os pais do Bruce Wayne morreram), alucinações desnecessárias...

9- Zack Snyder tentou repetir uns truques de "Watchmen" e a coisa ficou tosca. Toda aquela câmera lenta, todos aqueles olhares perdidos ao infinito. Meu Deus, que triste.

10- E chegamos ao momento ÚNICO E FREUDIANO. O mais constrangedor de todos! Quando Batman e Superman estão brigando no recreio da escola como dois coleguinhas que se desentenderam, tudo fica bem quando o Batman descobre que, além de órfãos, ambos têm uma mãe de mesmo nome: Martha. Sim, é assim que acontece, com direito a uma sequência de diálogos dignos de novela mexicana.

Mas nem tudo é um horror no filme. Destaquemos quatro pontos positivos.

1- A trilha sonora épica. Eu gosto de trilhas sonoras épicas como se fosse a última guerra do planeta antes do Apocalipse.

2- Jeremy Irons manteve a dignidade do Alfred.

3- A participação da Mulher Maravilha (Gal Gadot) com seus cabelos esvoaçantes padrão Beyoncé, escudo, espada e chicotinho dourado. Ela bem que tentou salvar o filme, mas naquela altura do campeonato já tinha saído até o gol do Khedira e a tragédia estava consumada.

4- A luta entre Batman e Superman, quando o Morcego dá uma bela surra no Homem de Aço, o fazendo até perder o penteado perfeito cheio de gel. É uma pena que a motivação dela tenha sido pífia, e o desfecho patético. Aliás, nenhum personagem parece saber o que está fazendo no filme.

É lamentável que "Batman vs Superman" seja uma tragédia. No mundo atual, não cabe mais filme ruim de super-herói. São outros tempos. Mas Zack Snyder resolveu entrar em campo para levar um 7 a 1 cinematográfico. É com pesar que a corneta dará ao seu filme uma nota 2,5.

domingo, 20 de março de 2016

Muito fácil divergir

Será que do outro lado do muro é legal?
A série de filmes "Divergente" é tipo uma série B dos filmes de jovens garotas que vão à luta em busca de melhores salários, condições de vida e um namoradinho forte com olhar apaixonado de cachorro leal para chamar de seu. Enquanto "Jogos Vorazes" tinha algumas coisas interessantes, apesar daquele fim pífio padrão Manoel Carlos, os filmes de rima pobre "Divergente", "Insurgente" e "Convergente" (e ainda vem aí o "Ascendente", em escorpião) são um strike de ruindade e falta de malemolência. 

"Convergente", o filme, é o primeiro capitulo do final desta série de histórias baseadas nos livros de Verônica Roth. Seguindo uma tendência já apontada por "O Hobbit" e o próprio "Jogos Vorazes", a trilogia literária vira um quarteto de cordas cinematográfico quase sempre desafinados. 

Se os dois primeiros tomos da história da jovem Tris (Shailenne Woodley) já não eram grande coisa, parecia improvável que a parte I do final iria se redimir. 

Estamos num mundo pós-Kate Winslet, o que é sempre um mundo pior. Jeanine foi para a vala no filme passado e agora a Chicago distópica pós-apocalíptica  é comandada por Evelyn (Naomi Watts), a mamãe superprotetora de Quatro (Theo James) e sogrinha de Tris. 

Como vocês sabem, esposas e sogras nunca se dão bem na relação envolvendo o mesmo homem, então logo vai rolar um conflito e Quatro será macho o suficiente para romper o cordão umbilical. Afinal, ele é jovem, ela é jovem, e os dois querem sair da barra da saia da mãe de Quatro e descobrir o que tem do outro lado do muro. 

Mas o paraíso está longe de estar do outro lado do muro. Como Dorothy nos ensinou em "O mágico de Oz" (1939), "não há lugar como o nosso lar". 

Garoto malandro das docas destruídas de Chicago, Quatro logo percebe que tem caroço no angu higienizado de David (Jeff Daniels), o chefão de um mundinho-paraíso protegido por um campo holográfico. O difícil é convencer Tris disso, pois a menina está completamente EMBEVECIDA pelo seu novo status de roupas brancas da Chanel e bolsa Louis Vitton. A menina perdeu o foco, o EYE OF THE TIGER. O namoro balança. Mas sabemos que nestes filmes previsíveis o amor sempre vence (argh!). 

Nesse grande Big Brother distópico, só Quatro pode nos salvar. Enquanto a inocente Tris trará a pureza da sua liderança na esperança de dias melhores. 

"Convergente" ainda vai acabar no "Ascendente" (em touro) em 2017. Mas podemos dizer que este filme escorrega na qualidade estética. Shailene não tem o carisma de Jennifer Lawrence e nem chega perto dela como atriz. James, coitado, está ali só para mostrar a bundinha sombreada no banho de chuveiro desintoxicante para a diversão das meninas. E Naomi certamente não vai querer se lembrar deste filme como um dos trabalhos que mais se orgulhou na carreira. 

As discussões que o filme tenta propor (sociedade hiper vigiada, fragmentação, guetos, diferenças, imigração) não vão além da página 2. E a capa de entretenimento não satisfaz. 

Tudo acontece em banho-maria. Dos tiros às emoções. A única cena realmente legal é a de quando eles escalam o muro para descobrirem uma nova Chicago. É pouco e acontece logo no início. Esperemos que "Ascendente" (em aquário) traga alguma dignidade à série (agora que eu cheguei aqui, vou até o fim né). Para "Convergente" a corneta só poderá dar uma nota 3. Mas eu aceito subir para 4 se ganhar de presente uma coleção daqueles drones inteligentes. 

sexta-feira, 18 de março de 2016

Iron Maiden: parte VI

Iron e seu novo cenário/Marcelo Alves
Não existe noite de show do Iron Maiden completo sem que ele termine com os devidos comentários malemolentes.

1- A expectativa era grande pelo primeiro show no Hell de Janeiro desde que Bruce Dickinson se recuperou de um câncer na garganta. Quando aconteceram umas falhas no som logo no início com "If Eternity should fail" e "Speed of light" rolou na minha alma um sentimento de Lula em telefone grampeado: "puta que pariu, fodeu, ele não está conseguindo cantar". Mas aparentemente era só o microfone mais baixo em meio à explosão de guitarras.

2- Isso porque quando veio a terceira música do show, uma canção daquelas que para atingir todas as notas é preciso usar cueca apertada... aí amigo a história foi diferente. Quando Bruce soltou aquele "Children of the daaaaaaaaaaaaaammmmmned", o HSBC Arena sofreu abalos sísmicos. Estávamos em mais um show épico do Iron.

3- Não tem jeito, Bruce Dickinson é o maior Bruce que existe. Um pouco à frente do Springsteen e do Wayne, muito à frente do Banner, que é muito esquentadinho.

4- O Iron é uma religião. E qualquer detalhe significa fãs possuídos. É o caso do cara perto de mim que teve um orgasmo simplesmente quando tiraram os panos pretos do palco durante "Doctor Doctor", pouco antes da banda entrar no palco. Ele gritou: "Olha o CENÁRIO!!!!". Sim, amigos, o Iron tem sommelier de direção de arte.

The trooper, um clássico/Marcelo Alves
5- Todo show do Iron é diferente. Mas com algumas canções em comum. Clássicos eternos que estiveram presentes nas minhas seis vezes diante da banda: "Fear of the dark" (com direito a risadinha maléfica), "The Trooper" (com direito a bandeiras britânicas sacudidas), "Iron Maiden" (momento Eddie gigante) e "The number of the beast" (com direito a um maravilhoso capeta surgindo no fundo do palco).

6- Faltou "Two minutes to midnight". Talvez não rolou porque não tinha clima. O show acabou 23h10min depois de duas horas de espetáculo.

7- Foram seis músicas do novo álbum, o muito bom "Book of Souls". Além das duas já citadas lá em cima teve ainda "Tears of a clown", composta em homenagem a Robin Williams, "The red and The black", "Death of Glory" e "Book of souls". E ao vivo elas são ainda melhores.

8- Bruce gritou 11 vezes "Scream for me Brazil" ou "Scream for me Rio". Só em "Powerslave" foram cinco vezes. E ele sempre foi atendido.

9- O vocalista também disse que não para de ver bandeiras do Brasil na CNN. Com a sabedoria de quem é o guia de uma nação, Bruce pediu que os bad guys fossem para a cadeia e todos se amassem.

10- Como as novas músicas têm muitos solos, arpejos e fru-frus em geral, não falta trabalho para os guitarristas Dave Murray (cada vez mais tiazona) Janick Gears (que continua sendo aquele simpático presepeiro) e Adrian Smith. Nós curtimos.

11- Steve Harris está sempre fazendo aquela cara de mal. Afinal, alguém tem que ser sério e tomar as rédeas desse negócio!

Capetinha extra/Marcelo Alves
12- Já o Nicko McBrain continua sendo tratado pelos fãs como o mascote do grupo. Ele é mais mascote que o Eddie, que poderíamos dizer que é um guia espiritual.

13- "Blood Brothers", do "Brave new World" (2000), foi uma boa decisão de incluir no set list. Bela canção. Mas é claro que sempre faltam muitas músicas. Afinal, o show tem apenas 2h e o Iron ainda gosta de exibir uma coletânea de faixas acima de oito minutos.

14- Foi tudo lindo. Podem falar para o Medina contratar o Iron para fechar um dos dias do metal no Rock in Rio de 2017. Até lá o show estará ainda mais azeitado.

Cotação da corneta: 9

segunda-feira, 14 de março de 2016

Dois refrescos e a conta com: a Coxinha

A coxinha: melhor salgado
"Coxinha é vida, é povo, é massa"

Salgado secular crítica o desvirtuamento de sua imagem por disputas políticas
A Coxinha está passada. Um dia depois das manifestações que tomaram o Brasil de assalto (sem duplo sentido), o salgado favorito de muitos brasileiros reclama que desde 2014 vem sendo alvo do que considera ser "uma injustiça" e uma "campanha difamatória" contra uma história construída há gerações por sua família. Nesta entrevista exclusiva para a Corneta, a Coxinha pede que o seu nome não seja mais atrelado a um conflito ideológico e político no qual ela não pediu para entrar.

- Meu único desejo é alimentar esse Brasil - diz.

Conte-nos algo que não sabemos?

- Eu nasci há 200 anos atrás. E não tem ninguém nesse mundo que não tenha me comido demais.

Hahaha, Coxinha você é uma gozadora. Gosta de Raul Seixas?

- Ele é que gostava de mim. Adorava me comer.

Mas conte-nos mais sobre suas origens.

- Eu nasci oficialmente durante a industrialização de São Paulo no século XIX. Passei a ser vendida na porta das fábricas como uma alternativa mais barata às coxas de galinha, portanto vim muito antes de PT, PSDB e essas crianças militantes que agora estão desvirtuando o meu nome e a minha função social. Desde a eleição de 2014 eu venho sendo alvo de uma grande injustiça e uma verdadeira campanha difamatória contra o meu nome e o da minha família.

Incomoda você ter o seu nome associado aos almofadinhas de hoje em dia em manifestações como a de domingo?

- Sim! É um completo desvirtuamento do discurso político. Ao lado do Kibe, eu sempre liderei a preferência nacional da Frente Libertadora Salgado + Refresco a R$ 1,50. Sou do povo. Aliás, coxinha é vida, é povo, é massa!

E nunca foi bem vista na Casa Grande...

- Eu sou muito senzala. Eu alimento o trabalhador brasileiro pobre há gerações. E sou mais nutritiva que um Big Mac. Aliás, eu queria dizer que minhas primeiras versões nasceram na cozinha da princesa Isabel e o filho dela com o conde D'Eu me amava... Aliás, os ricos sempre gostaram de mim, mas sempre me comeram escondida. No escuro dos seus quartos. Nas festas deles, quem sempre brilha é aquele meu primo sem graça, o caviar.

Então quando alguém supostamente de classes mais abastadas ou que apoia determinados partidos políticos é chamado de coxinha você se irrita?

- Não posso aceitar ver o nome da minha família jogado na lama assim. Por que não voltam a usar almofadinha, que é um nome muito mais apropriado? Ou playboy? Eu brilho em festas de pobre em todo o Brasil. Quando eu chego com a minha turma, o Kibe, o Risole e aquela fofa da Bolinha de Queijo, fazemos a alegria da criançada. Só perdemos mesmo em preferência para o Brigadeiro, mas esse rapaz é imbatível. O Brigadeiro são os Beatles das festinhas.

O que você pensa de manifestações políticas como a que vimos neste domingo?

- Desde que você não defenda posturas autoritárias, golpes e outras medidas de regimes de exceção, eu prefiro ler como um retrato da democracia vibrante. E não importa a sua vertente política, sempre pode passar na lanchonete para me comer quando estiver com fome.

Coxinha pode ter catupiry?

- Eu não gosto. Respeito essa vertente gourmetizada, mas coxinha de verdade é só com frango. De preferência com algo entre 70% e 75% de sua totalidade composta por frango.

Mas e as coxinhas vegan da Bela Gil?

- Aff, essa menina tem problema. Não foi ela que colocou a pobre da melancia numa grelha?

Foi.

- Isso não se faz, gente. A Melly ficou toda assada. Veja bem, coxinha roots de verdade só tem frango. No máximo, catupiry.

Coxinha combina com o que?

- Refresco, suco natural. Até refrigerante está valendo. E pode também ser usada harmonizando num prato de comida. Mas com moderação.

A sua irmã que eu acabei de comer durante essa entrevista estava muito gostosa.

- Obrigada, querido. Servir bem para servir sempre. Esse é o lema histórico da nossa família.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Os deuses estão loucos

DR entre mortal e deus
Jaime Lannister (Nikolaj Coster-Waldau) está sempre perdendo alguma coisa em suas batalhas. É uma mão em "Game of Thrones", os olhos em "Deuses do Egito"... Pelo visto ele está jogando no nível "very hard" no videogame da vida. 

Mas perder partes do corpo é o menor dos seus problemas no filme de Alex Proyas. Um trabalho, aliás, que eu gostaria de ter feito a Glória Pires e dizer: "Não assisti", "Não sou capaz de opinar". Pior que eu nem posso dizer "gostei médio". 

Como eu dizia, o que mais me deixou intrigado nisso tudo é como Nikolaj, Gerard Butler e, principalmente, Geoffrey Rush aceitaram participar dessa produção que corre sério risco de ser uma das coisas mais kitsch e circenses de 2016. Até o momento rivaliza com "A quinta onda" pelo prêmio corneta "O que eu estou fazendo no cinema?". 

Vamos refletir. Embora seja um astro de "Game of Thrones", Nikolaj ainda não é ninguém no mundo da sétima arte. Logo, precisa pegar uns personagens, fazer uns freelas, se fazer conhecido. E como negar um protagonista de uma ~~~~superprodução~~~~? Butler, por sua vez, sempre teve uma queda por filmes épicos que se passam antes de Cristo. Não esqueçamos que ele foi o rei Leônidas em "300" (2006). Mas e Geoffrey Rush, esse lorde shakespeariano? Não tem explicação ele ficar de TRANCINHA vivendo o deus Rá e batendo no peito enquanto entra em combustão espontânea. 

"Deuses do Egito" não é um filme. É um enredo de escola de samba. Poderia ser o tema da Grande Rio em 2017: "Das pirâmides do Nilo, os deuses estão loucos e caem no samba sob o abraço da folia". De repente pega até um desfile das campeãs.

O filme começa quando Osiris (Bryan Brown), a Elizabeth II do Egito antigo, está cansado de se eternizar no poder e resolve colocar sangue novo no reino passando o trono ao filho Horus, o nosso Jaime Lannister de "Game of Thrones" (príncipe Charles ficou com invejinha). Até os deuses se cansam né? 

Só que o irmão de Osiris, Set (Butler) não curtiu e, cansado de literalmente pregar no deserto, resolve dar um golpe de estado celestial. Pronto, está armada a confusão. Sabemos o que acontece quando alguém busca o poder a todo custo e de forma desmedida. 

Horus e Set têm uma batalha épica com direito aos dois se transformando em bichinhos que renderiam bons bonecos no mercado infantil se o filme fosse minimamente razoável. É claro que Horus perde. A batalha e os olhos. É na derrota que começa a jornada do herói. 

Antes de buscar a sua vingança, Horus precisa passar por provações. Descobrir o valor do amor, da lealdade, da humildade e do companheirismo. Um guerreiro não está completo sem ser nobre de espírito. Thor nos ensinou isso. 

Para ter sucesso com a missão, ele contará com a ajuda de um mortal. Bek (Brenton Thwaites) é um ladrão habilidoso e ousado que faz de tudo para tirar a amada Zaya (Courtney Eaton) do "Nosso Lar" egípcio. 

Os dois vão passar por diversas missões que mais parecem os trabalhos de Hércules. Tudo para restabelecerem a paz e a ordem no Egito branco e louro de Hollywood. Um reino então mergulhado no caos e numa ditadura cercada de escravos e com uns poucos privilegiados. 

Para chegar lá serão muitos diálogos terríveis, muitos olhares 43, muito sangue dourado derramado (isso mesmo!) e alguns efeitos especiais legaizinhos. Sem contar a aposta na esperança e no amor, aquele sentimento que vence tudo. Argh! 

Não dá, amigos. "Deuses do Egito" abusa do direito de ser ruim. Salvo alguns poucos bons momentos, o filme deixou a corneta PASMA. Por isso, vai ganhar uma nota 3.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Os pré-comentários do Oscar 2016

Pré-comentários da festinha de hoje do careca dourado para animar esse domingo. Afinal, corneta é vida. 

1- "O Regresso", "O quarto de Jack", "A grande aposta" ou "Mad Max". Se qualquer um desses vencer o prêmio de melhor filme está muito bem dado. O resto seria aberração tipo "Titanic" ganhar melhor filme de "Los Angeles - Cidade Proibida" e "Gênio Indomável" em 1998. Ou "Crash: No Limite" ganhar de "Boa Noite, e boa sorte" em 2006. 

2- Ainda acho que na hora de aparecerem os candidatos a melhor filme "Brooklyn" não estará lá e vão justificar que sua inclusão foi um erro do estagiário. 

3- Aconteça o que acontecer com "Spotlight" hoje (e dizem que é favorito ao prêmio de roteiro) não quero a minha timeline invadida por frases ufano-corporativas como "O jornalismo venceu um Oscar" ou "O Oscar é a prova de que o jornalismo não morreu". Comportem-se. É só um (bom) filme. Uma obra de ficção. 

4- "O filho de Saul" é favoritaço como filme estrangeiro. Além de ser um bom filme fala do Holocausto/Segunda Guerra, um tema sempre premiado no Oscar (Spielberg que o diga). Mas se eu votasse nessa bagaça daria o meu humilde voto para "O abraço da serpente". Além de ser ótimo, seria divertido/engraçado ver a Colômbia ter um Oscar e o Brasil não. 

5- Vou deixar protocolada já uma reclamação prévia de que a cerimônia é longa demais e passou da hora de cortarem os números musicais. 

6- Leonardo DiCaprio merece ganhar pelo conjunto da obra, merecia já ter uns dois ou três carecas dourados na sua sala de troféus, mas na LETRA FRIA DA LEI eu daria o meu voto NESTE ano para o Michael Fassbender ou para o Bryan Cranston. 

7- Brie Larson é tão favorita, mas tão favorita como atriz que é como se o Barcelona estivesse num duelo contra o Bonsucesso ou o XV de Piracicaba hoje. Claro que se ela perder, meus 15 leitores vão me cobrar. Mas a corneta fala de mérito, não de política e lobby.

8- Com exceção de Tom McCarthy ("Spotlight"), qualquer outro diretor que vencer nesta categoria está um prêmio muito bem dado: George Miller ("Mad Max"), Adam McKay ("A Grande aposta"), Alejandro Gonzalez Iñarritu ("O Regresso") ou Lenny Abrahamson ("O quarto de Jack"). 

9- Temos cinco trabalhos excelentes como ator coadjuvante. É quase um pecado quatro cidadãos ficarem de mãos abanando. Mas vou ficar na torcida pelo Stallone ("Creed"). Seria um dos momentos mais emocionantes de uma festa que certamente será soporífera. 

10- "Ex Machina" merecia demais o prêmio de roteiro (e merecia estar na lista dos melhores filmes). É uma pena que vá perder, ao que tudo indica, para "Spotlight". 

11- Eddie Redmayne ganhou ontem o Framboesa de Ouro de pior ator coadjuvante por "O destino de Júpiter". Já imaginaram que fim de semana de contrastes seria para ele se vencesse o Oscar hoje?

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

O ranking do Oscar 2016

'Ex-Machina", o filme mais bem avaliado do Oscar-2016
Ninguém me perguntou, não interessa a uma única pessoa do planeta, mas já que eu me dei ao trabalho de ver TODOS os filmes de 75% das categorias do Oscar (não trabalhamos com animações, documentários e curtas e para avaliar canção original tem que ouvir a música, e não ver o filme), eu resolvi fazer o ranking corneta do Oscar. 

Do melhor ao pior a partir das notas de cada filme, aqueles que foram aprovados com louvor e os que merecem ir para o limbo da história. 

Nota 9,5 - Ex Machina. 

Nota 9 - Mad Max, O quarto de Jack, O Regresso e Sicário. 

(Os filmes acima estão classificados para a Libertadores)

Nota 8,5 - A grande aposta, Steve Jobs, O abraço da serpente. 

Nota 8 - Perdido em Marte, O lobo do deserto, Star Wars: o despertar da Força, Os oito odiados, O filho de Saul, A garota dinamarquesa e 45 anos. 

(Os filmes acima estão classificados para a Copa Sul-Americana)

Nota 7,5 - Creed, Spotlight, Cinco Graças e Trumbo. 

Nota 6,5 - Ponte dos espiões, Divertida Mente, Carol e Straight Outta Compton: a história do N.W.A.

(Os filmes abaixo foram rebaixados para a Série B, o Festival de Tribeca)

Nota 6 - A War e Joy. 

Nota 5,5 - Cinderela. 

Nota 5 - Brooklyn.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Rolling Stones no Maracanã

Mick Jagger e Keith Richards/Marcelo Alves
Seres humanos que cornetam não criam limo. Embora poucas coisas sejam mais MALEMOLENTES que Mick Jagger, não poderíamos deixar de tecer alguns comentários sobre o show dos Rolling Stones no Maracanã. 

1- Eu não sei quantas vezes os Stones tocaram "Satisfaction" na vida. Mas a banda já fez mais de 2 mil shows desde a sua criação. Logo, não é exagero dizer que eles podem ter tocado a música que tem o riff mais famoso do rock pelo menos 1,5 mil vezes. E a galera sempre vai pedir mais. Sempre estará mega empolgada, pois é um clássico. Nada mal para quem dizia que preferia estar morto a cantar "Satisfaction" com 45 anos, hein Mick? (E ele já tem 72). 

2- Não, gente, não é verdade que se juntássemos as idades do quarteto (72 de Mick e Keith, 74 de Charlie e 68 de Ronnie) e voltássemos no tempo em um número equivalente de anos encontraríamos Jesus Cristo. Mas como voltaríamos para 1.730 daria tempo de sobra para se preparar para ver a Revolução Francesa de camarote (ela rolou em 1.789). Também daria para brincar com o jovem Immanuel Kant (seis anos), discutir com o adolescente rebelde Jean Jacques Rousseau (18 anos) e bater um papo com Benjamin Franklin (25 anos) e Voltaire (36 anos). Além de ver o nascimento do fofo bebê George Washington, que aconteceria dois anos depois, e acompanhar, em 1762, a incrível e midiática turnê europeia do menino Mozart, de seis anos, o Justin Bieber do século XVIII. 

3- O palco dos Stones é todo colorido em tons carnavalescos como se fosse uma alegoria de uma escola de samba. Ainda bem que o som que veio de lá é infinitamente melhor. 

4- Doctor Pheabs tocou para público de Campeonato Carioca. Ou seja, praticamente ninguém. Eles se esforçaram com um som pesado, mas chamaram mais atenção pelo vocalista ter dito que uma música chamada "Godzilla" tinha relações com ter mulheres com TPM em casa. Ninguém riu. Como ninguém riu das anedotas subsequentes sempre envolvendo a vida sexual da banda. 

5- Ultraje a rigor apostou nos sucessos em um show BANHADO por um temporal. O Ultraje, aliás, foi a única banda que tocou debaixo de chuva. Claramente é culpa do PT, Roger. No início, o vocalista foi chamado de coxinha, mas respondeu que não dava para ouvir direito do palco dos Rolling Stones. Depois emendou: "Coxinha é sua mãe". Teve "Ciúme", "Pelado", "Nós vamos invadir sua praia", enfim, o repertório que o Ultraje tem e não dá para mudar. 

História no Maracanã/Marcelo Alves
6- Entre as frustrações da minha vida está a de não saber fazer dancinhas como a do Mick Jagger, de longe o melhor dançarino desde a morte de Michael Jackson (cujo moonwalk era outra frustração particular). 

7- O prêmio Flashdance de melhor dancinha, aliás, é a de "Out of Control". 

8- Eu quero chegar aos 72 anos tocando guitarra de forma blasé igual ao Keith Richards. Mas continuo achando que não dá para ele cantar. 

9- Keith e Ronnie Wood, por sinal, dominam a arte de tocar guitarra e segurar o cigarro ao mesmo tempo. Não tentem isso em casa, crianças. 

10- Belo Horizonte estava em peso no Maracanã. O estádio não via algo assim desde a invasão corintiana na década de 70. Rolou até hino do Galo no caminho do metrô. 

11- "Gimme Shelter" = puro amor. Uma vida inteira esperando para ver essa música ao vivo. 

Mick com Sasha no palco/Marcelo Alves
12- Sasha = puro amor️. Não é a Lisa Fischer, mas deu conta do recado. 

13- Patricia Pillar respirou por dois segundos no mesmo metro quadrado que eu. E agora, Veríssimo?

14- Eu acho que Charlie Watts e Keith Richards estão começando a ficar velhos. Rolam claros sinais de calvície em ambos. 

15- Desde que teve um filho brasileiro Mick Jagger deu um improvement no português. Está falando melhor que o Eddie Vedder. 

16- Dezenove canções em 2h20min de show. Quatro músicas do "Let it bleed" (1969). Outras duas vieram do "Some Girls" (1978). Foram os álbuns mais tocados de um total de 13 contemplados. 

Keith e Mick/Marcelo Alves
17- Do "Exile on main street" só veio uma. Merecia mais hein. Merecia o disco na íntegra. Mas em uma banda com meio século de carreira sempre vai faltar música. 

18- "Doom and Gloom" foi a mais nova música do show. Lançada em 2012, ela é ótima ao vivo.

19- "Start me up", "Tumbling Dice", "Paint it Black", "Midnight Rambler", "Brown Sugar", "Sympathy for the devil" e "Jumpin' Jack Flash". Puro amor. 

20- Queria ver mais uns três shows, queria ir para São Paulo, queria ir para onde eles fossem tocar, mas como os próprios Stones cantam: "you can't always get what you want"...

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

O que faz Brooklyn no Oscar?

É muito mi-mi-mi
Se eu tivesse que definir "Brooklyn" em um tweet o chamaria de "O Downton Abbey mal feito da imigração". E poderia parar por aí, dar a nota e voltar pra casa: Mas o que é a corneta sem textão? 

Primeiro é preciso dizer que "Brooklyn" não é tão legal quando "Downton Abbey". E quando eu vi Ellis (carregue no X para falar com irlandeses) desembarcando em Nova York naquela fila de imigração respirando para não tossir para não parecer que ela está levando tuberculose para a América temi que estivesse diante de um novo (e pavoroso) "Era uma vez em Nova York" (2013).

Ainda bem que Saoirse Ronan teve mais sorte que Marion Cotillard. A vida das duas imigrantes seguiu rumos opostos neste desembarque em massa de irlandeses na terra prometida. 

E aqui temos um problema. Com exceção da natural "home sick" nada de conflituoso e problemático acontece na vida de Eillisxxxx. Ela vai muito bem na loja em que trabalha, está estudando para melhorar de vida, é correta e amada pela dona da pensão, e arruma um encanador italiano para namorar que espera MESES em paciência zen-budista para dar um beijinho. Um ÚNICO beijinho que não sai nem quando ele já está de quatro e diz que a ama. 

E aí você se pergunta: por que você vai pagar para ver uma história de alguém perfeitinha? Gente perfeita não dá história. Por favor, Nick Hornby. Você já fez coisas melhores. "Livre" (2014) obviamente não está entre elas. 

É quando acontece a necessária virada no roteiro, aquela que a gente espera quando está de olho no relógio e já passou quase uma hora de filme. A virada que obriga Eillisxxxx a voltar para a Irlanda e viver dilemas. 

Mas.... Os dilemas são rapidamente resolvidos com um papinho com a dona de uma padaria local, espécie de bruxa do 71 da pequena comunidade irlandesa cheia de verde e paz, mas que também tem suas víboras. 

"Brooklyn" é uma história de amor de imigração em que Eillisxxxx tem que se decidir entre dois mundos, duas realidades diferentes. De um lado, a paisagem bucólica irlandesa com mamãe sedenta para ter a filhinha embaixo da asa e um garotão jogador de rugby. Do outro, uma Nova York pulsante e já cosmopolita onde o seu Suoer Mario Bros a está esperando para morar numa casinha em Long Island. E no meio disso, olhares perdidos, cineminha. restaurantes, conversinhas com o padre patrocinador aquela música sonolentaaaazzzzzz. 

Roteirista do filme, Nick Hornby é um fanático torcedor do Arsenal. Ele tem até um livro sobre essa paixão, o "Febre de Bola". Parece que ao adaptar o livro de Colm Tóibin ele resolveu se inspirar no boring Arsenal, o time do 1 a 0 dos anos 70 e 80. Bom, mas nem tudo é culpa dele. Afinal, quem escreveu o livro não foi Hornby. 

"Brooklyn" é bonitinho, tem seus bons momentos, mas lhe falta ser um pouco ordinário. É de longe o mais fraco dos candidatos ao careca dourado. Não chega a ser um desastre completo, mas receberá da corneta uma nota 5

Indicações ao careca dourado: melhor filme, atriz (Saoirse Ronan) e roteiro adaptado.


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Brilho de um ator mirim

Trambley é um dos destaques do filme
É lamentável essa postura do Oscar deste ano de selecionar filmes tão bons para concorrer ao prêmio de melhor do ano. Isso obriga a corneta a distribuir notas boas, a desmoralizando quase por completo. Eu ando tão bonzinho que daqui a pouco vou ser convidado para ser jurado de carnaval da Liesa. Só apareço aqui exaltando qualidades. Mas vamos lá. O lema desta critica malemolente é: "Só falo verdades". 

São oito os candidatos ao prêmio principal deste ano. Já vi sete. Nenhum deles é ruim. Nenhum deles é abaixo de 8. Se "Brooklyn" for bom, teremos 100% de aproveitamento. O que não acontece há muito tempo.

O trabalho totalmente excelente desta semana chama-se "O quarto de Jack". Uma amiga me disse que uma conhecida dela ficou transtornada vendo o filme. Isso é ótimo. Uma das qualidades de um grande cinema é provocar, transtornar, causar reflexão, mexer com os instintos mais primitivos.

"O quarto de Jack" não é fácil. É angustiante. Ele conta uma história muito dura e cruel de uma mulher que ficou sete anos num cativeiro depois de ser sequestrada quando ainda era adolescente. Ali ela sofreu todo tipo de violência, mas nada disso é mostrado. Você apenas sabe. 

Toda essa história é contada  sob a perspectiva de uma criança. Jack (Jacob Tremblay, numa atuação tocante é que merecia uma indicação) nasceu naquele buraco que Joy (Brie Larsson) tenta transformar no mundo inteiro do menino para que ele tenha um mínimo de conforto e se sinta pleno em meio ao horror. 

Jack não conhece o mundo lá fora. Vive há cinco anos no mesmo cubículo achando que aquilo é o mundo todo. Quando a mãe dele resolve revelar que o mundo é muito maior e outras pessoas existem, ele entra em parafuso, se rebela, é informação demais para uma criança que achava que o pouco que ganhava vinha de mágica. 

Não são poucas as passagens do filme que causam desconforto. O trauma psicológico pelo qual mãe e filho passam deixa feridas difíceis de curar. E as cicatrizes ficarão para sempre na alma daquele garoto que descobriu que o mundo era muito maior ao mesmo tempo em que não teve tempo de se acostumar a ele. 

É latente o desconforto de Jack. E compreensivo o seu desejo de voltar para o quarto que para sua mãe representa o horror. O mundo para além daquele cubículo parece assustador para aquele menino que só conhecia a mãe, só achava que existiam apenas a mãe, ele é o grande Nick, o algoz daquelas almas. 

"O quarto de Jack" é quase impecável em sua proposta. E vai ganhar da corneta uma nota 9.

Indicações ao careca dourado: melhor filme, diretor (Lenny Abrahamson), atriz (Brie Larson) e roteiro adaptado. 

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

O super-herói engraçadinho

Deadpool gosta de uma graça
Tudo o que eu mais desejo neste momento é que o DVD de "Deadpool" seja lançado com vídeos extras mostrando como os roteiristas Rhett Reese e Paul Wernick, os "verdadeiros heróis" nas palavras deles, escreveram o roteiro do filme. Pois eles não estavam nem um pouco puros para fazer o que fizeram. 

"Deadpool" é o filme baseado em quadrinhos mais escrachado da história. Nem "Guardiões da Galáxia" ou o primeiro filme dos "Vingadores" apostou tanto no humor quanto neste trabalho sobre este anti-herói que não tem papas na língua e se precisar matar, esquartejar ou arrancar cabeças fará isso de boa e sem remorso. 

Sim, o filme é engraçado é tem várias referências e citações que podem ser a outros filmes ou a personalidades reais. Isso inclui até o Ryan Reynolds, astro de uma fracassada versão do Lanterna Verde que é lembrada em dois momentos do filme. Fique também até o fim para ver Deadpool (Ryan Reynolds) numa impagável cena que lembra "Curtindo a vida adoidado" (1986). Por falar em Reynolds, aliás, ele incorporou muito bem o espírito do Deadpool. 

Por outro lado, são tantas piadas que sua maior qualidade também é seu defeito. Por vezes, "Deadpool" parece um conjunto de piadas com um fiapo de história no meio. Quando poderia haver mais equilíbrio entre o humor e a história. São piadas em escala industrial de fazer inveja aos Trapalhões. 

Mas é impossível não se divertir com o filme que desde já é candidato a ser o mais pop de 2016. Principalmente se você viu os outros filmes de quadrinhos (principalmente os dos X-Men e do Wolverine). Pois o personagem principal faz uma série de referências, sacaneia geral e pega o Colossus para Cristo. 

O gigante russo, aliás, está maravilhosamente mala como sempre foi com seu discurso de heroísmo, honra que Deadpool trata como blá-blá-blá e punhetação. 

"Deadpool" é um filme de origem. Conta como Wade Wilson, um ex-militar que agora é uma espécie de mercenário se transformou naquilo após um experimento com genes mutantes. Vaidoso que só ele, o herói resolve se vingar de Francis, o vilãozão que não sente dor por tê-lo deixado com uma aparência, digamos, que não lembra muito o Hugh Jackman. 

É claro que para isso, ele vai ter que matar muitos bad guys e ouvir os discursos do Colossus. Pobre Deadpool.

Além disso, ele precisará reconquistar a Morena Baccarin. Ou melhor, a prostituta Vanessa, que ele abandonou quando recebeu o diagnóstico de câncer terminal e saiu de casa para um tratamento experimental sinistro com uma gente estranha e esquisita. Pelo menos ele ficou imortal e ainda se regenera como uma lagartixa. 


"Deadpool" é uma diversão despretensiosa. Compre a pipoca, o refrigerante e sente diante da teia do cinema para dar risadas. É claro que o personagem merece um segundo filme. Principalmente porque ele disse que o Cable vai aparecer. Enquanto a parte 2 não vem, a corneta vai dar um sorridente 6,5 para "Deadpool".